segunda-feira, 14 de julho de 2014

Revolução Francesa - Parte 2.

A Revolução Francesa e a Igreja - Parte 2.
Por Quadrante

É comum afirmar que a Igreja Católica, imbuída de uma mentalidade obscurantista e autoritária, opôs-se aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade pregados pela Revolução Francesa. Entretanto, um estudo mais aprofundado dos acontecimentos ocorridos na França durante esse conturbado período mostra que a realidade é bem mais complexa do que parece.
A revolução nos espíritos

Como vemos, se de fato existiam uma crise econômica e outra institucional, ambas não bastam para justificar os acontecimentos. O que observaremos na Revolução, para além das questões econômicas e políticas, são as convulsões de morte de todo um mundo. Dizia o historiador Albert Mathiez, numa frase justamente famosa, que “as revoluções se fazem nos espíritos antes de passarem para os fatos”. Examinemos brevemente o panorama a esta luz.

Crise dos valores. Todo o século XVIII – o “século das luzes” – fora trabalhado pelos autonomeados “filósofos da razão” ou “iluministas”. Estava-se na era em que a ciência experimental, preparada pelos grandes teólogos medievais e posta em andamento pelos pioneiros do século anterior – Newton, Kepler, Harvey, Galileu – produzia os seus primeiros resultados em grande escala. As recentes descobertas geográficas acabavam de preencher os vazios ainda existentes no mapa-mundi. A anatomia do corpo humano tinha sido finalmente descrita com precisão . Enquanto subiam os primeiros balões de ar quente, nasciam a cirurgia, a geologia, a química, a metalurgia; Bouffon e Linneu revolucionavam a biologia, e Kant descrevia o nascimento das estrelas.

Nesse ambiente, não admira que germinassem o mito do progresso perpétuo – a humanidade sempre evolui para melhor – e o da soberania ilimitada da razão. “A filosofia consiste – diz a Enciclopédia – em preferir a razão à autoridade. O filósofo não admite nada sem provas; não admite noções equivocadas. É ele quem precisa os limites do certo, do provável e do duvidoso”. Os criadores desses mitos não foram os cientistas, sempre obrigados à disciplina da humilde aceitação dos fatos reais; foram os vulgarizadores da ciência – Voltaire, Diderot, Condorcet e demais colaboradores da Enciclopédia –, deslumbrados com o poder aparentemente sem limites da razão humana.



Da esquerda para a direita: Voltaire, Diderot e Condorcet
“Ora”, pensavam, se a razão dera resultados tão excelentes no campo da técnica, não se deveria aplicá-la igualmente ao social e ao político? Inspirados inicialmente, com Montesquieu, no modelo parlamentar inglês, e tendo encontrado o seu teórico mais brilhante no genebrino Jean-Jacques Rousseau, os intelectuais do século puseram-se a construir febrilmente uma utopia que fazia tabula rasa de todas as instituições em que

se plasmara, ao longo de milênios, a tradição política.

O seu ideal? A sociedade em “estado puro”, tal como supunham tê-la encontrado nos “bons selvagens” da América, dos quais se tinham visto na França, ao todo, três representantes autênticos, em tempos de Luís XV. Por reação contra o seu calvinismo natal, que insistia um pouco obsessivamente na corrupção da natureza humana, Jean-Jacques resolvera abolir o pecado original, substituindo-o pelo dogma da inata bondade humana. E se o homem é bom por natureza, mas ao mesmo tempo pululam os ladrões e estelionatários, assassinos, corruptos, mentirosos e libertinos, só poderá ser por culpa da sociedade. É preciso, pois, aboli-la e reestruturá-la pela base. É preciso criar um “novo homem”, educado num ambiente “natural”, de acordo unicamente com os princípios da “sã razão” e da “moral natural”.

Essa moral “natural” não era a que a Igreja vinha ensinando desde sempre. Era antes a moral pagã, tal como permeia as obras dos grandes pensadores da Antigüidade, um Cícero, um Marco Aurélio, um Aristóteles, um Plutarco, centrada no patriotismo e nas “virtudes republicanas”. “Todas as civilizações estão de acordo quanto aos pontos essenciais da moral, tanto quanto diferem nos pontos essenciais da fé”, pensavam os iluministas; o que não puderam ou não quiseram enxergar foi que, ao desconsiderarem a realidade do pecado e a necessidade da autoridade divina como guia dessa pobre razão, sempre mais ou menos paralítica na vida real, estavam abrindo caminho para a relativização completa da moral. Os seus sucessores dos séculos XIX e XX multiplicariam até à náusea tanto os sistemas “éticos” como as aberrações de comportamento.

Por fim, ao entronizarem a Razão humana como centro e medida de todas as coisas, na prática não queriam senão dizer que era a sua razão, a de cada um deles, que deveria mandar em tudo e em todos. É o grande erro em que a humanidade não se cansa de incidir desde as origens: Sereis como deuses, conhecedores – isto é, determinadores – do bem e do mal (Gên 3, 5). O que mais incomoda o orgulho humano é a autoridade que lhe diz o que deve ou não fazer. Assim, não era senão lógico que esses pensadores se voltassem contra todas as formas de autoridade: a autoridade monárquica, classificada como despotismo; a tradição, religiosa ou social, considerada como “lastro inútil do passado”.

O alvo preferencial de todos os ataques era, evidentemente, a Igreja. Choveram calúnias, mentiras e insídias sobre sacerdotes e frades, tanto em panfletos de baixo calão como nos romances de alto luxo que faziam as delícias das damas da corte. Os jornais e a Enciclopédia não perdiam ocasião de atirar farpas ao cristianismo. Os votos religiosos eram apresentados como ofensa grosseira à Liberdade; os conventos, como prisões em que vítimas inocentes da Superstição enlanguesciam contra a vontade. A fé equivalia ao Fanatismo, e só conseguia sobreviver nas classes humildes e atrasadas graças à Ignorância em que os padres as mantinham. E, quando Benjamim Franklin se encontrar com Voltaire, em Paris, no ano de 1778, ambas as luminárias considerarão o terreno suficientemente preparado para lançarem contra a Igreja uma ofensiva descarada, sob o lema “Écrasons l'infâme”, “Esmaguemos a infame”.

Ao mesmo tempo em que a Razão desencadeia essa campanha contra a religião, ganha força também uma corrente intimista, influenciada pelo pietismo protestante. Em todas as épocas anteriores, incluída a Antigüidade pagã, ninguém punha em dúvida que a religião fosse um assunto público: cabia ao Estado assegurar que o povo recebesse uma boa instrução religiosa e pudesse participar coletivamente das cerimônias de culto. Agora, passava-se a considerá-la assunto de foro privado, sentimento individual, experiência pessoal. No foro público, devia limitar-se, quando muito, a um vago deísmo, que reconhecesse a imortalidade da alma, a existência de Deus e a Criação do mundo (concebida como a invenção de um brinquedinho mecânico ), mas não a intervenção ativa e pessoal de Deus na história dos homens através de uma instituição, a Igreja.

Esse caldeirão de idéias fervilhava sobretudo em dois meios. Em primeiro lugar, naquele a que se chamou a “república das letras”, isto é, um sem-número de academias literárias de província, clubes de discussão, lojas maçônicas, sociedades de intelectuais, interligadas entre si por uma intensa correspondência e, já nas vésperas da Revolução, coordenadas pela chamada “sociedade dos trinta”, que transformou essa amálgama heterogênea num autêntico partido. É neste meio, tomado por uma mística revolucionária cada vez mais alambicada, que se formará “esse tipo intelectual e moral que ninguém previa, que cada qual reprovaria se lhe fosse apresentado, e que no entanto todos preparavam: o jacobino socialista de 1793” (2).

(2). Pierre Gaxotte, La Révolution française, pág. 57. O clube chamado jacobino recebeu esse nome por reunir-se no convento de Saint-Jacques (Jacques é a forma francesa de Tiago; ambas derivam do nome hebraico Jacob), onde São Tomás de Aquino havia lecionado quinhentos anos antes.

Em segundo lugar, e paradoxalmente, os salões onde as grandes famílias da nobreza – por exemplo, a do duque de Orléans, irmão do rei; ou dos príncipes de Conti; ou da duquesa do Maine – promoviam soirées elegantes e banquetes requintados. Sentado à cabeceira da mesa, ao lado da bela anfitriã que tinha disputado arduamente com as suas rivais o direito de ostentar essa jóia preciosa, encontrava-se o intelectual de plantão: Voltaire, escondendo a careca sob a longa cabeleira empoada, Jean-Jacques, envolvido no seu grosseiro manto de pele de carneiro, ou , com sorte, esse divertido embaixador americano de meia-idade, tão deliciosamente rústico, e ainda por cima revestido da aura misteriosa de grão-mestre da maçonaria, Benjamim Franklin.

Durante as entrées, com o champanhe a borbulhar nas taças, todos se dedicavam a louvar a última obra de um desses grandes gênios, a maravilhosa “audácia” com que comparara, por exemplo, os frades com as lesmas: estas, quando lhes cortam a cabeça, conseguem regenerá-la; aqueles, curiosamente, não. Durante os pratos principais, e aquecida por vinhos mais encorpados, a conversa girava em torno dos ponderosos temas da Liberdade e da Igualdade, da divisão dos três poderes, da supressão dos privilégios. Quando chegava a hora dos queijos, já os ânimos espocavam em tiradas divertidas e epigramas equívocos contra a Tirania. Por fim, bebericando o café recém-introduzido da Guiana e que tomara Paris como uma coqueluche, os cavalheiros iam para o salão de fumar onde, entre baforadas de charutos da Virgínia, baixavam a voz para conversar em tom de conspiradores sobre as graves questões da existência do “Deus-relojoeiro” dos philosophes e da imortalidade da alma.

Foi uma nobreza ébria desse novo espírito que liquidou quase sem encontrar resistências o Antigo Regime, muito mais do que os bem-situados burgueses do partido girondino. E, quando os revolucionários linha-dura chegarem ao poder, será essa mesma nobreza que fornecerá o maior número de vítimas para o holocausto. “Avançávamos alegremente sobre um tapete de flores – escreveria mais tarde um dos seus representantes, o conde de Ségur –, sem perceber o abismo que cavávamos sob os nossos pés”.

Crise religiosa. A Igreja do Antigo Regime encontrava-se estreitamente imbricada em todos os aspectos da vida nacional. Acompanhava o homem do nascimento ao túmulo, registrando-lhe o batismo, o casamento e a morte. Regulava o ritmo do trabalho e do descanso por meio do calendário de domingos e feriados. Incumbia-se da instrução e educação do povo, desde a simples alfabetização até à Universidade. E sobre ela recaía quase tudo o que hoje conhecemos como saúde pública e assistência social: hospitais , ajudas pecuniárias a viúvas e inválidos, pensões e aposentadorias para quem não tivesse sido funcionário público, etc. etc. etc.

Para poder desempenhar essas funções, a Igreja dispunha de meios proporcionados. No período imediatamente anterior à Revolução, contava com cerca de 130.000 clérigos – mais de 0,5% da população –, distribuídos entre 135 bispos, 60-70.000 párocos e vigários do clero secular, 20.000 religiosos e 40.000 religiosas. Era proprietária de quase um sexto do território nacional, tanto em terras como em edifícios públicos. Gozava do privilégio de foro e de imunidades reais, isto é, na prática, de um sistema judiciário autônomo. E percebia o dízimo, que se tinha transformado numa espécie de imposto fixo obrigatório, cobrado burocraticamente, sem o seu caráter primitivo de doação voluntária.

Se a Igreja desempenhava boa parte das funções que hoje atribuímos, e com razão, ao Estado, o Estado, por sua vez, era confessional e sentia-se na obrigação de sustentar e promover a fé católica. De há muito se estava acostumado a ver bispos e cardeais, como Richelieu e Mazarino, desempenharem papéis de grande relevância política, e os reis tomarem a peito a reforma das Ordens religiosas. Embora sempre tivesse havido abusos de uma parte e de outra, no conjunto o sistema funcionara relativamente bem ao longo dos últimos mil anos, e não passava pela cabeça de ninguém que fosse possível separar o poder espiritual e o temporal sem destruir tanto um como outro .

Além do mais, até 1750, o catolicismo francês conhecera a sua “idade de ouro”. As decisões do Concílio de Trento – sábias e ponderadas, ao contrário da caricatura que se costuma traçar delas – tinham dado fruto abundante. Os abusos condenados pelo Concílio haviam sido extirpados quase por completo sob a influência dos grandes santos reformadores: Francisco de Sales, Vicente de Paulo, João Eudes. A figura do clérigo burocrata, sem vocação para o sacerdócio e interessado sobretudo nas vantagens materiais do cargo, praticamente tinha desaparecido. Os párocos eram, na sua quase totalidade, sacerdotes modelares, de uma piedade acima de qualquer censura, embora a doutrina nem sempre acompanhasse a estatura moral.

No entanto, por volta de meados do século também na Igreja começaram a aparecer linhas de falha. O fervor popular tornou-se mais e mais rotineiro e a freqüência dos sacramentos caiu bastante, sobretudo nas grandes cidades. A querela teológica em torno do jansenismo, doutrina que acabava de ser condenada por Roma – mas já tinha ganho extensa influência na Igreja


Charles Maurice
Talleyrand-Périgord
(1754-1838).
francesa –, dividiu os ânimos e fez enormes estragos, sobretudo entre os religiosos, que entraram em acentuado declínio. Diante dos ataques dos iluministas, a teologia e a apologética só se defendiam com lentidão e moleza; e se em começos do século a literatura religiosa ocupava o primeiro lugar em número de títulos publicados, às vésperas da Revolução tinha caído para o décimo. As ciências, as artes e as curiosidades haviam preenchido esse espaço.

Por outro lado, a distância que separava os bispos – o “alto clero” – dos párocos e sacerdotes seculares – o “baixo clero” – tinha aumentado muito, com o conseqüente afrouxamento da unidade e da disciplina. Os sacerdotes provinham quase todos das camadas populares e, com o declínio do fervor do seu rebanho, tinham-se proletarizado em grande medida, ao passo que os bispos provinham na sua quase totalidade da nobreza e conservavam os hábitos mundanos e faustosos da sua classe. Havia entre eles autênticos santos, como Monseigneur de la Rochefoucauld, bispo de Compiègne, que morreria martirizado no convento dos padres carmelitas de Paris, em 1794; mas havia também simples arrivistas desprovidos de fé, como o tristemente afamado Mgr. de Talleyrand, bispo de Autun.


Fonte: A última ao Cadafalso, Gertrud von le Fort, Quadrante.
Tradução: Quadrante
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