segunda-feira, 7 de julho de 2014

Educação.

A arte da verdadeira educação
Por Robert K. Carlson

Ao descrever as excelências de um aprazível e bem-sucedido College americano, este autor relembra os preceitos clássicos para toda a boa educação, e sobretudo este: um bom ambiente é fundamental para o que há de mais essencial na educação – o aprendizado das virtudes
Recentemente, fui convidado pelo Magdalen College, uma Faculdade católica de Artes Liberais da cidade de Warner, New Hampshire, para falar sobre o tema: Qual é a verdadeira crise moral? Ao voar de volta e pensar sobre a minha estadia ali, reparei que tinha recebido dos estudantes pelo menos tanto quanto procurara dar-lhes – e talvez mais. Magdalen fez-me lembrar de uma verdade perene central que, tal como o pássaro de São Beda, costuma fugir da mente se não se reflete sobre ela: a de que os estudantes não conseguem crescer em solo infértil.

Ao chegar em casa, um amigo perguntou-me se tudo tinha corrido bem. Respondi-lhe que sim: Em Magdalen, o solo era fértil, a semente tinha vida, os agricultores eram fortes, entusiastas e competentes, os estudantes eram dóceis e a colheita foi copiosa. Inspirado nesse solo rico, escrevi uma carta ao Presidente do College, Jeffrey J. Karls, em que resumia a minha experiência:


Os seus alunos, criados em boas famílias católicas, foram-lhe confiados pelos pais para se tornarem membros da ampla família de Magdalen – in loco parentis. Como filhas e filhos adotivos, tomaram contacto com a beleza do campus, com a capela de Nossa Senhora Rainha dos Apóstolos, com a liturgia e música sacras, com os trajes civilizados, com as boas maneiras e com o ensino excelente – todo o fértil solo de Magdalen. E isso produziu bons frutos. Demonstram-no a caridade e o zelo de sua faculdade em dar o que tem – a sabedoria –, e a docilidade e alegria que os seus estudantes põem na busca dessa sabedoria, como pude observar nas duas aulas que vi serem ministradas, bem como nas conversas que tive com os alunos fora da sala de aula. E tudo acompanhado de muita educação, sinal de verdadeira caridade posta em prática.


Creio que foi G.K. Chesterton quem disse certa vez, naquele seu estilo inimitável, que na educação o ambiente – o solo – é quase tudo. Nisso posso perdoar a Chesterton a sua costumeira tendência ao exagero retórico, pois frisava um ponto importante: de fato, o solo, se não é quase tudo, é pelo menos a coisa mais importante. E o Magdalen College sabe disso: coisa que muitos educadores de hoje esquecem ou, pelo menos, negligenciam.

Contrariamente à opinião de Chesterton, muitos educadores modernos parecem pensar que o ambiente em que se dá a educação aos nossos estudantes conta muito pouco ou nada. A tradição educativa do Ocidente está certamente do lado de Chesterton, ou melhor, ele é que está do lado dela. Começando por Platão, o primeiro grande comentarista da educação, a tradição nos ensina que os estudantes não conseguem desenvolver-se em solo estéril; que o ambiente do campus onde são educados é de primordial importância para que a educação liberal produza o seu fruto.

E qual é o fruto próprio da educação liberal? A nossa tradição clássica e cristã nos diz que a educação liberal é a arte de tornar o homem melhor enquanto homem, para que assim possa viver uma vida melhor. É também a arte que possibilita ao homem adquirir as virtudes ou hábitos morais e intelectuais. Essas virtudes são os princípios absolutos e universais que regem a educação enquanto arte: são o significado da sua pretensão de tornar o homem melhor. Pois a educação liberal – do latim líber, livre – prepara a pessoa em função do seu próprio bem, e não apenas para algum trabalho. É a educação de um homem livre, e não de um escravo. Por isso, ao contrário de um escravo, o homem que recebeu essa educação vive por si próprio, no sentido exposto por Marcus Berquist: “compreende interiormente a finalidade da sua vida e a assume na sua própria pessoa”.

A educação liberal forma o intelecto e as virtudes intelectuais. Robert Maynard Hutchins, explicando o enfoque tradicional da educação liberal, aponta: “Ao falar de virtudes intelectuais, refiro-me aos bons hábitos intelectuais. Das cinco virtudes intelectuais que os antigos distinguiam, três eram virtudes especulativas: o conhecimento intuitivo, que é o hábito da indução; o conhecimento científico, que é o hábito da demonstração; e a sabedoria filosófica, que é o conhecimento – ao mesmo tempo científico e intuitivo – das coisas de natureza mais alta: os primeiros princípios e as causas. As outras duas virtudes correspondem ao intelecto prático: a arte, que é a capacidade de agir conforme o verdadeiro curso do raciocínio, e a prudência, que é a reta razão quanto ao que se deve fazer”.

No entanto, a educação liberal não menospreza a força da vontade – fonte primária da moralidade –, nem, muito especialmente, o cultivo prático das três virtudes morais cardeais – a temperança, a justiça e a fortaleza – que resumem todos os outros valores morais.

Embora ao longo da história da educação liberal tenha havido muita discussão quanto ao ensino dessas virtudes morais – como devem ser ensinadas e se, a rigor, podem mesmo ser ensinadas –, há um consenso geral de que o intelecto tem de estar envolvido no cultivo da vontade. Como diz o antigo ditado, o intelecto propõe e a vontade dispõe. Mark Van Doren comenta a propósito da vontade e do intelecto: “Sem capacidade de abstração, ficaríamos ofuscados ao ver as coisas, tal como o homem de Platão quando sai da caverna. O que não vemos é a natureza daquilo que vemos. «Virtude é conhecimento», disse Sócrates, ao explicar que o ignorante não pode ser corajoso, pois a coragem consiste em saber o que se deve e o que não se deve temer. A educação moral nada mais é do que reflexão. O método mais seguro de educação moral consiste em ensinar a pensar. Como dizia Pascal, «trabalhemos, pois, para bem pensar: eis o princípio da moral».

Consta da declaração de princípios educacionais do Magdalen College que o seu Programa de Estudos se baseia na visão clássica e cristã da educação liberal, em coerência com o dito socrático: uma vida irrefletida não é uma vida digna. Por isso, anuncia que a sua missão é capacitar os estudantes a viverem bem a vida, o que é justamente a finalidade última da educação liberal.

O Programa foi montado para realizar essa tarefa ajudando os estudantes na aquisição das virtudes intelectuais: como questionar e como participar no discurso racional; como pensar e como aprender; como defender opiniões e como chegar à verdade; como analisar e como sintetizar. Isso, por sua vez, irá prepará-los para as virtudes morais, pois, como acabamos de ver, pensar bem é o princípio da moral.

A tradição classificou a Educação como uma arte cooperativa, juntamente com a Medicina e a Agricultura. Essas artes são cooperativas no sentido de que o professor, o médico e o agricultor cooperam com a Natureza para a consecução de seus fins respectivos: o aprendizado, a saúde e a obtenção dos frutos da terra. A Natureza por si própria é capaz de chegar a essas metas, mas alcança-as melhor através desses artistas, que atuam como instrumentos secundários ao exercerem as suas capacidades.

Por causa da semelhança entre ensinar e plantar, o próprio Cristo fez uma analogia entre essas atividades na Parábola do Semeador, a fim de instruir os Seus discípulos na arte que em breve passariam a praticar pregando o Evangelho. A Parábola do Semeador ensina a importante verdade de que, assim como o solo deve ser rico para que a semente lançada pelo semeador crie raízes e produza fruto abundante, da mesma forma o estudante deve ser dócil ao ouvir as palavras de quem ensina para que elas criem raízes e produzam o seu fruto nele: o fruto do entendimento. Cristo diz: e a semente que cai em terra boa são aqueles que ouvem a palavra e a põem em prática, e dão fruto: uns trinta, uns sessenta e outros cem por um.

A tradição ensina que a docilidade é uma virtude moral, um cume entre dois vícios opostos: a subserviência e a indocilidade. O estudante dócil é aquele que tem o nível adequado de respeito pela autoridade do professor, que é quem semeia a palavra. Se o estudante exagerar na sua dependência dessa autoridade corre o risco de simplesmente ouvir a verdade tal e como o mestre a enuncia, e depois confiá-la à memória sem fazer nenhum esforço por compreendê-la por si mesmo. Isto não é ensino: é doutrinação. Por outro lado, se o estudante não respeita a autoridade do professor, não irá sequer escutá-lo e, em conseqüência, permanecerá na ignorância ou no erro. Estes dois vícios conduzem a efeitos negativos bem conhecidos, ao passo que a docilidade – o nível adequado de respeito pela autoridade do professor – conduz à verdadeira educação.

O Magdalen compreende a docilidade e a valoriza nos seus estudantes. Parte da sua pedagogia consiste em que os alunos leiam os Grandes Livros em pequenas sessões com os professores, nas quais estes procuram fazê-los descobrir a verdade em conversas de estilo socrático. A respeito disso, o programa comenta: Uma vez que viver melhor pressupõe uma busca pessoal dos princípios que integram a nossa existência, os estudantes devem aprender a descobrir e avaliar esses princípios. E o conseguirão na medida em que se fizerem dóceis como as crianças.

Mas como tornar o aluno dócil às palavras do professor? Deve-se deixar isso inteiramente ao acaso, ou os educadores – tal como os agricultores – devem cultivar cuidadosamente o solo educacional em que se encontram imersos os estudantes, com a intenção de os expor à verdade, ao bem e à beleza, para que assim possam mais facilmente tornar-se receptivos à palavra do professor?

Platão, na República, responde: Não permitamos que os nossos guardados cresçam no meio de imagens de deformação moral, como ocorre em certos pastos ruins, e ali mordisquem e comam, dia após dia e pouco a pouco, ervas e flores prejudiciais e venenosas, até acumularem silenciosamente uma massa de podridão que fermenta nas suas almas.

Platão afirma além disso que os educadores, tal como os artistas, devem produzir por meio da razão o rico solo em que os seus educandos podem absorver a graça e a beleza verdadeiras e o bem em todas as coisas. Então a beleza moldará a sua alma desde os primeiros anos, em conformidade e harmonia com a beleza da razão.

E o que pressagia esse rico solo para o estudante cuja alma foi moldada em conformidade e harmonia com a beleza da razão, e que por isso mesmo está apto para uma verdadeira educação? Quem for educado num ambiente onde se cultive corretamente a verdade, o bem e a beleza, argumenta Platão, adquirirá bom gosto nas artes, tornar-se-á nobre e bom, e saudará a sua amiga , com quem convive desde há muito tempo graças à educação.

Em poucas palavras: pela influência desse rico solo, o estudante tornar-se-á dócil, ou seja, capaz de ser ensinado. Conseqüentemente, não somente respeitará a sua “amiga razão”, mas também o representante dela – o professor –, que deposita a semente na sua alma para que aí lance raízes e produza frutos de sabedoria. Vê-se portanto que Platão e a tradição confirmam aquilo que Chesterton diz e que o Magdalen sabe: que na educação o solo é realmente o mais importante. Descrevendo o seu ambiente educativo, o College articula essa verdade perene: “Na sala de aula, espera-se que haja respeito para com todas as pessoas e uma vigorosa busca da verdade. Nas atividades em comum, todos são convidados a participar e os estudantes podem crescer nas virtudes enquanto se divertem e convivem com os colegas. No refeitório praticam-se as boas maneiras e o serviço ao próximo. As residências conservam-se limpas e em ordem, e dá-se incentivo aos bons hábitos de estudo. Por toda parte, vão-se formando verdadeiras e duradouras amizades e consegue-se obter um sólido rendimento acadêmico”.

Nos tempos que correm, e em que esses conceitos são freqüentemente esquecidos, é animador saber que há um pequeno College de Artes Liberais que responde ao apelo do Coração da Igreja (Ex Corde Ecclesiae) e o põe em prática. Magdalen é um diamante aos pés do monte Kearsarge, em Warner, cidade de New Hampshire.


Fonte: The New Oxford Review
Tradução: Quadrante
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