quinta-feira, 31 de julho de 2014

Maquiavel, o falso profeta.

Maquiavel: a nova “moral” do poder
Por Peter Kreeft

Diplomata de origem humilde, Maquiavel viveu em Florença, numa época de insegurança social e violentas lutas políticas. Suas receitas para conservar o poder e a ordem incluíam o sacrifício, por “razões de Estado”, dos pontos mais fundamentais da Ética e da Moral. Infelizmente, essas receitas têm sido seguidas à risca até hoje por uma multidão de políticos e empresários.
Niccolò Machiavelli (1496-1527) foi o fundador da moderna filosofia política e social; raramente houve na História das idéias uma revolução tão completa como a promovida por ele. E o pensador não ignorava quão radical era: comparou o seu trabalho ao de Colombo, pois também teria descoberto um novo mundo, e ao de Moisés, pois também lideraria um “novo povo escolhido”, ansioso por libertar-se da escravidão às idéias morais, rumo à “terra prometida” do poder e do êxito prático.

Para todos os pensadores sociais anteriores, a meta da vida política era a virtude: uma sociedade boa era aquela em que as pessoas fossem boas. Não havia “dois pesos e duas medidas” para a bondade, um no âmbito da vida individual, outro no da vida social. Isso, até Maquiavel: a partir dele, a Política deixou de ser a arte do bem viver em sociedade para tornar-se “a arte do possível”. E, neste ponto, a sua influência foi enorme: todos os principais filósofos políticos e sociais que vieram depois (Hobbes, Locke, Rousseau, Stuart Mill, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Dewey) começaram por saudar a nova bandeira hasteada pelo florentino, passando a rejeitar o ideal da virtude e a rebaixar o padrão da moralidade.

Maquiavel argumentava que as morais tradicionais seriam como as estrelas: belas, mas distantes demais para poderem iluminar o nosso caminho sobre a terra. Precisaríamos de lanternas feitas pelo homem, ou seja, de metas que estivessem ao nosso alcance. Deveríamos guiar-nos pelas coisas da terra, não pelas do céu; por aquilo que os homens efetivamente fazem, não pelo que deveriam fazer.

A essência da sua revolução foi julgar os ideais de acordo com a prática, ao invés de julgar a prática de acordo com os ideais. Um ideal somente seria bom se for prático para mim. Por isso, Maquiavel merece ser considerado o pai do pragmatismo. Segundo o seu modo de pensar, não somente “os fins justificam os meios” (quaisquer meios que funcionem), mas “os meios justificam os fins”, no sentido de que só valeria a pena buscar um fim se dispuséssemos dos meios práticos para atingi-lo. Em outras palavras, o novo summum bonum, o novo bem supremo, seria o sucesso. (Às vezes, o pensador italiano parece falar não apenas como o pai do pragmatismo, mas como o primeiro pragmatista americano...).

Com essas afirmações, Maquiavel na verdade não rebaixou o nível dos padrões morais; simplesmente suprimiu-os. Mais ainda do que um pragmatista, pode-se dizer que era um antimoralista. Segundo ele, a moral só teria a ver com o sucesso por dificultá-lo. Em conseqüência, dizia que um príncipe tinha de “aprender a não ser bom” (O Príncipe, cap. 15), a quebrar as promessas feitas, a mentir, a trapacear e a roubar (cfr. cap. 18) para ser bem-sucedido.

Por causa dessas opiniões, aliás expressas sem subterfúgios, alguns dos contemporâneos consideraram O Príncipe um livro literalmente inspirado pelo demônio (1). Muitos professores modernos, porém, vêem-no como obra científica. Defendem o seu autor afirmando que não queria abolir a moralidade, mas simplesmente escrever um livro sobre outro assunto: sobre como as coisas são, não sobre como deveriam ser. Costumam até elogiá-lo pela sua falta de hipocrisia, o que implicitamente equivale a dizer que moral é hipocrisia.
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(1) Costuma-se dizer que o apelido que o demônio recebe na Inglaterra, Old Nick, derivaria do primeiro nome de Maquiavel, Nicolau (N. do T.).
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Essa é uma confusão moderna freqüente: tomar por hipocrisia o fato de não se praticar o que se prega. Nesse sentido, porém, todos, absolutamente todos os homens serão hipócritas enquanto não pararem de dar qualquer tipo de conselho. Matthew Arnold definiu a hipocrisia como “o tributo pago pelo vício à virtude”; ora, Maquiavel foi o primeiro que se recusou a pagar até esse tributo mínimo. Superou a hipocrisia, não elevando a prática ao nível das recomendações, mas reduzindo as recomendações ao nível da prática: modificando os ideais conforme realidade, e não a realidade conforme os ideais.

Tal como a letra de certa música da cantora Madonna, o “sermão” de Maquiavel consistia em dizer: “Papai, não me venha com sermões!” (“Poppa, don´t preach!”). Você consegue imaginar Moisés dizendo isso a Deus no Monte Sinai? Ou Nossa Senhora dizendo-o ao Anjo Gabriel? Ou Cristo dizendo isso ao Pai no Horto das Oliveiras, ao invés de: Pai, não se faça a minha vontade, e sim a tua (cfr. Lc 22, 40)? Se o conseguir, estará imaginando o inferno, pois toda a nossa esperança de alcançar o Céu está baseada em que eles disseram a Deus: “Papai, venha-me com sermões!”

Hoje definimos mal a hipocrisia. Hipocrisia não é não conseguir agir de acordo com o que se prega: é deixar de acreditar no que se prega, sem deixar de pregar e fingindo que se vive de acordo com isso. Pode-se dizer, assim, que a hipocrisia no fundo é uma “propaganda enganosa”. Em conseqüência, Maquiavel praticamente foi o inventor da hipocrisia, porque praticamente foi o inventor desse tipo de propaganda. Ao menos, foi o primeiro filósofo que pretendeu convencer o mundo inteiro só à base de propaganda.

O florentino encarava a sua vida como uma batalha espiritual contra a Igreja e a “propaganda” da Igreja. Estava convencido de que todas as religiões não passariam de uma “campanha de propaganda” cuja influência terminaria ao cabo de um período entre 1.666 e 3.000 anos. Pensava que o Cristianismo terminaria muito antes do fim do mundo, provavelmente por volta do ano 1.666, destruído ou pelas invasões dos bárbaros do Leste (os turcos e a atual Rússia), ou pela fraqueza e apatia no próprio seio do Ocidente cristão, ou por ambas as coisas.

Maquiavel tinha – e tem – como aliados todos os cristãos indiferentes que prezavam mais a pátria terrena do que a celestial, que preferiam César a Cristo e o sucesso social à virtude. Era a eles que dirigia a sua mensagem, a sua propaganda. O pensador não podia expor ingenuamente os seus verdadeiros objetivos, porque seriam desprezados, e confessar o seu ateísmo lhe seria fatal; por isso, foi muito cuidadoso em evitar toda a heresia explícita. Mas a sua “heresia prática” (2) consistia na destruição da “fraude católica” mediante uma agressiva propaganda secularista. (Alguma pessoa mais exaltada talvez chegasse mesmo a afirmar que nele está fundado todo o atual poderio da mídia...).
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(2) Em sentido estrito, não há heresias práticas, mas pecados. Há heresia, porém, no pressuposto tácito de Maquiavel que é impossível viver a santidade recomendada por Deus – porque a graça eleva a natureza humana –, ou no de que Deus não intervém no mundo por Ele criado (N. do T.).
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O florentino percebeu que são dois os instrumentos necessários para controlar a conduta dos homens e os rumos da História: a pena e a espada, a propaganda e as armas. Assim tanto os corpos como as mentes podem ser dominados, e dominar era o que ele queria. Considerava que toda a vida humana e toda a História eram determinadas por dois componentes: a virtú (a força) e a fortuna (a sorte). A fórmula do sucesso seria simplesmente maximizar a virtú e minimizar os efeitos da má fortuna. Maquiavel conclui o seu O Príncipe com essa chocante imagem: “A Fortuna é uma mulher e, se a quisermos submissa, será preciso bater nela e sujeitá-la à força” (cap. 25). Em outras palavras, o segredo do sucesso seria uma espécie de estupro (3).
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(3) Quem busca o sucesso ao invés da perfeição, isto é, da plena realização da natureza humana por meio do conhecimento da verdade e do amor a Deus e aos outros (o que é o mesmo que dizer da bondade moral), efetivamente comete violência contra a sua natureza e os seus anseios mais profundos (N. do T.).
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Para conseguir o controle, as armas são tão necessárias quanto a propaganda: Maquiavel é uma águia no campo da “sabedoria” prática, e tem consciência disso. Dizia: “Não poderás ter boas leis sem boas armas, e onde houver boas armas, as boas leis seguir-se-ão necessariamente” (cap. 12). Em outras palavras, e parafraseando Mao Tsé-Tung: a justiça “surge do cano de uma arma”. O nosso pensador afirmava que “todos os profetas armados venceram, e todos os profetas desarmados fracassaram” (cap. 6). Moisés portanto, deve ter usado armas, mas a Bíblia teria omitido os relatos sobre isso. Jesus, o supremo Profeta desarmado, deve ter falhado: afinal, foi crucificado e, segundo alguns, não ressuscitou. Mas a sua mensagem conquistou o mundo por meio da propaganda, por meio das armas intelectuais. Foi exatamente esse tipo de guerra que o florentino decidiu empreender.

Também é fruto dessa filosofia o relativismo social, pois o renascentista não reconhecia nenhuma lei acima das promulgadas pelas diversas sociedades; e como tais leis têm a sua origem na força e não na moralidade, a conseqüência é que a moralidade baseia-se... na imoralidade. O argumento, hoje em dia, expõe-se mais ou menos assim: a moralidade só pode vir da sociedade, uma vez que Deus não existe e, em conseqüência, também não pode haver uma moral natural universal por Ele outorgada. Mas toda a sociedade origina-se de alguma revolução ou violência: a sociedade romana, origem da Lei Romana, originou-se com o assassinato de Remo pelo seu irmão Rômulo. A História humana inteira começa com o assassinato de Abel por Caim. Portanto, o fundamento da lei é a ilegalidade, e o fundamento da moralidade é a imoralidade.

A força do argumento reside na sua primeira premissa, que no caso do pensador florentino equivale a um autêntico ateísmo implícito (igual, aliás, ao de todos os relativismos sociológicos, incluído aquele que hoje domina as mentes dos leitores e dos escritores de quase todos os livros-texto de Sociologia).

Maquiavel usou um argumento parecido para criticar os ideais de caridade, clássicos e cristãos: como é que você obteve os bens que agora está dando ao próximo? Pela competição egoísta. Todos os bens são dados ao próximo à custa de terceiros. Se a minha fatia de bolo é assim tão grande, a do outro tem de ser bem menor. O altruísmo, portanto, depende do egoísmo.

Esse raciocínio pressupõe um materialismo de fundo, pois os bens espirituais não diminuem quando são compartilhados ou dados a outrem, nem a sua aquisição implica que alguém tenha sido lesado. Quanto mais dinheiro eu tiver, menos você terá, e quanto mais dinheiro eu doar, menos restará para mim (4). Mas o amor, a verdade, a amizade e a sabedoria, ao serem compartilhados, crescem em vez de diminuir: coisa que o materialismo simplesmente não enxerga e com a qual, aliás, nem se preocupa.
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(4) Este raciocínio não é verdadeiro nem mesmo no plano econômico, material, pois pressupõe uma economia totalmente estagnada; numa economia que cresce – ou seja, em que há mais trabalho humano investido e com maior produtividade –, a abundância de bens e de dinheiro disponíveis para todos é também crescente. O que não significa, evidentemente, que na prática não haja sempre distorções e injustiças (N. do T.).
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Maquiavel acreditava que todos somos intrinsecamente egoístas. Para ele, não existe nada semelhante a uma consciência ou um instinto moral. Daí que a única maneira de fazer com que os homens se comportem “moralmente” seja mediante o uso da força: uma força verdadeiramente totalitária, capaz de fazer com que as pessoas atuem de maneira contrária à sua natureza. A origem dos totalitarismos modernos também remonta, pois, a ele.

Se o homem é intrinsecamente egoísta, somente o medo – e não o amor – será capaz de movê-lo. Daí que o nosso pensador escreva: “É muito melhor ser temido que amado..., pois os homens têm menos escrúpulo em ofender alguém que se faça amar do que alguém que se faça temer, uma vez que a amizade representa uma obrigação, um vínculo que, por serem os homens maus, é quebrado sempre que lhes convém; já o temor é alimentado pelo receio do castigo, que nunca é esquecido” (cap. 17).

O mais estranho dessa filosofia tão brutal é o fato de ela ter se apoderado das mentes modernas, de uma forma diluída ou, pelo menos, encoberta nos seus aspectos mais sombrios. Os sucessores de Maquiavel que citamos acima suavizaram os seus ataques à moralidade e à religião, mas não retornaram à idéia de um Deus pessoal ou de uma moral objetiva e absoluta como fundamento da sociedade.

O reducionismo de Maquiavel tem sido considerado por muitos como uma libertação. Mas o que ele fez foi simplesmente implodir todo o edifício da vida humana: nada de Deus, mas somente o homem; nada de alma, somente o corpo; nada de espírito, somente a matéria; nada de dever, mas apenas o ser. Mesmo assim (e graças à propaganda), esse edifício em ruínas é mostrado como se fosse uma nova Torre de Babel. É um cárcere mostrado como se fosse a libertação da “opressora” moralidade tradicional: algo como uma permissão para afrouxar o cinto.

Satanás não é um conto de fadas: é um brilhante estrategista, e perfeitamente real. A linha de argumentação de Maquiavel é uma das mais bem-sucedidas mentiras do diabo até os dias de hoje. Sempre que nos tenta, usa essa mentira para fazer com que o mal pareça um bem desejável, que a sua escravidão pareça liberdade, e que a “gloriosa liberdade dos filhos de Deus” pareça uma escravidão. Aquele que é “o pai da mentira” adora contar-nos, mais do que pequenas mentiras, a Grande Mentira que vira a verdade ao avesso. E continuará a fazer isso impunemente enquanto não desmascararmos os seus ajudantes.


Fonte: Site do autor
Tradução: Quadrante

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Santa Filomena.


O Cordão de Santa Filomena

São João Batista Maria Vianney, o Cura d”Ars, foi o maior difusor do uso do Cordão de Santa Filomena. O Papa Leão XIII aprovou o uso do Cordão em 1893 e concedeu indulgências a todos os que o usarem e rezarem esta oração:

Ó Santa Filomena, Virgem e Mártir, rogai por nós para que, por meio de vossa poderosa intercessão, possamos obter a pureza de alma e de coração, que conduz ao perfeito amor de Deus. Para lucrar as indulgências plenárias com o Cordão é preciso confessar-se, comungar, e visitar alguma igreja ou um doente, rezando pelas intenções do Papa.

Qualquer pessoa pode fazer o Cordão de Santa Filomena, que deve ser feito (crochê) com fios de linho ou lã ou de algodão (linha Clea, Anne). Em suas extremidades, de um lado, o Cordão tem dois nós, e na outra 3 nós, simbolizando a Santíssima Trindade e as Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os fios devem ter quantidades mais ou menos iguais em cores branco e vermelho. O branco simboliza a virgindade de Santa Filomena, e o vermelho seu martírio.

A faculdade para benzer os cordões de Santa Filomena foi dada aos Padres de São Vicente de Paulo, mas atualmente qualquer padre pode benzê-lo validamente. A oração oficial da bênção do Cordão é:

S- “Senhor Jesus, concedei que todos os que usem este cordão mereçam ser preservados de qualquer perigo e recebam a saúde da alma e do corpo.”

O cordão deve ser usado na cintura, sob a roupa, e se possível não ser retirado. Se não for possível usá-lo na cintura, pode-se usá-lo no braço ou na perna.

OBS de Aarão> A pessoa que faz uso do cordão deve amarrá-lo na cintura, por baixo da roupa, e não tirar mais, pedindo a graça que deseja alcançar. A cada graça alcançada, misteriosamente, no meio do cordão aparecem os nós feitos pela Santinha, de um modo inexplicável, pois as pontas estão unidas, e a pessoa não sente absolutamente nada. Percebam que o uso do cordão é aprovado pela Igreja, é indulgenciado, e, portanto não se trata de algo fora da Igreja.

Coroinha de Santa Filomena

A Coroinha de Santa Filomena é um pequeno rosário formado por contas brancas e vermelhas. Reza-se assim:

1 Credo… (na medalha)
3 Pai-Nossos (nas contas brancas) em honra da Santíssima Trindade, por cuja glória Santa Filomena deu a vida.
13 Ave-Marias (nas contas vermelhas) em louvor dos 13 anos em que viveu na terra a Virgem Mártir.
A cada Ave-Maria acrescenta-se a jaculatória:

Santa Filomena, pelo sangue que derramastes por amor a Jesus Cristo, alcançai-me a graça que vos peço.

ou:

Santa Filomena, pelo Vosso amor por Jesus e Maria, rogai por nós.

Termina-se a coroinha na medalha triangular, com uma oração a Santa Filomena:

Ó gloriosa Princesa da Corte Celestial, Santa Filomena, prostrado diante de vós, rememorando as vossas virtudes e prodígios, minha alma engrandece ao Senhor que operou em vós tamanha maravilha de santidade.
Querida Protetora, vinde em meu auxílio para conduzir-me pelos caminhos da virtude, para ser minha fortaleza em face do inimigo infernal, para me trazer do Coração de Jesus a riqueza dos auxílios divinos que são pra este devoto a saúde, a paz do coração, a solução de minhas dificuldades, o bem-estar de minha família e o consolo em toda tribulação.
Milagrosa Santa Filomena, em Vós confio! Amém.

(também se reza a Ladainha e uma Salve Rainha)

Aprovada
+ Delfim, Bispo Diocesano
Leopoldina, 8-3-1960

Novena a Santa Filomena
(do Rosário Vivo)

Ó grande Santa Filomena, gloriosa Virgem e Mártir, maravilhosa operária de nosso tempo, obtende para mim pureza de corpo e alma, pureza de coração e desejo, pureza de pensamento e afeição.
Pela vossa paciência sob multiplicados sofrimentos, obtende para mim uma aceitação submissa de todas as aflições que Deus permita me enviar e como escapastes miraculosamente ilesa das águas do Tibre, dentro do qual fostes lançada por ordem de vosso perseguidor, assim possa eu passar pelas águas da tribulação sem a perda da minha alma. Em adição a estes favores, obtende para mim, ó fiel esposa de Jesus, a intenção particular que eu fervorosamente recomendo a vós neste momento…
Ó Virgem pura e Santa Mártir, dignai-vos lançar um olhar de piedade do céu sobre o vosso devoto servo, confortai-me na aflição, assisti-me no perigo, acima de tudo vinde em meu socorro na hora da morte.
Protegei os interesses da Igreja de Deus, rogai pela sua exaltação e prosperidade, pela extensão da fé, pelo Sumo Pontífice, pelo clero, pela perseverança dos justos, pela conversão dos pecadores, pelo refrigério das almas do purgatório, especialmente aquelas mais necessitadas da nossa atenção.
Ó grande santa, cujo triunfo nós celebramos sobre a terra, intercedei por mim, para que eu possa um dia contemplar a coroa de glória concedida a vós no céu, e eternamente abençoar Aquele que tão liberalmente recompensa por toda a eternidade os sofrimentos sofridos por Seu amor durante esta curta vida.
Amém.

Oração a Santa Filomena

Ó gloriosa Virgem e Mártir Santa Filomena, que do Céu onde reinais vos comprazeis em fazer cair sobre a Terra benefícios sem conta, eis-me aqui prostrado a vossos pés para implorar-vos socorro para minhas necessidades que tanto me afligem, vós que sois tão poderosa junto a Jesus, como provam os inumeráveis prodígios que se operam por toda parte onde sois invocada e honrada.

Alegro-me ao ver-vos tão grande, tão pura, tão santa, tão gloriosamente recompensada no céu e na terra.

Atraído por vossos exemplos à prática de sólidas virtudes e cheio de esperança à vista das recompensas concedidas aos vossos merecimentos, eu me proponho de vos imitar pela fuga do pecado e pelo perfeito cumprimento dos mandamentos do Senhor.

Ajudai-me, pois, ó grande e poderosa Santinha, nesta hora tão angustiante em que me encontro, alcançando-me a graça … e sobretudo uma pureza inviolável, uma fortaleza capaz de resistir a todas as tentações, uma generosidade de que não recuse a Deus nenhum sacrifício e um amor forte como a morte pela fé em Jesus Cristo, uma grande devoção e amor a Maria Santíssima e ao Santo Padre, e ainda a graça de viver santamente a fé para um dia estar contigo no céu por toda a eternidade.

Pai-Nosso… Ave-Maria… Glória…

Saudação a Santa Filomena
(Oração muito poderosa e querida a Santa Filomena, composta pela Serva de Deus Irmã Maria Luisa de Jesus)

Saúdo-vos, Filomena, Virgem e Mártir de Jesus Cristo, e peço-vos oreis a Deus pelos justos, para que se conservem em sua justiça e cresçam diariamente de virtude em virtude.
Creio em Deus Pai…

Saúdo-vos, Filomena, Virgem e Mártir de Jesus Cristo, e peço-vos oreis a Deus pelos pecadores, para que se convertam e vivam a vida da graça.
Creio em Deus Pai…

Saúdo-vos, Filomena, Virgem e Mártir de Jesus Cristo, e peço-vos oreis a Deus pelos heréticos e infiéis, para que venham à verdadeira Igreja e sirvam ao Senhor em espírito e verdade.
Creio em Deus Pai…

Glória ao Pai… (3 vezes, à Santíssima Trindade, em ação de graças pelos favores concedidos a tão ilustre Virgem Mártir heroína do Evangelho)

Uma Salve Rainha (à Virgem das Dores, para agradecer-lhe a suprema fortaleza que lhe alcançou nos seus múltiplos e cruéis martírios).

Ladainha de Santa Filomena
(composta pelo Cura d”Ars, São João Batista Maria Vianney)

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Pai Celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho de Deus, Redentor do Mundo, tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Santa Maria, Rainha das Virgens, rogai por nós.

Santa Filomena, cheia de abundantes graças desde o berço, rogai por nós.
Santa Filomena, fiel imitadora de Maria, rogai por nós.
Santa Filomena, modelo das Virgens, rogai por nós.
Santa Filomena, templo da perfeita humildade, rogai por nós.
Santa Filomena, abrasada no zelo da glória de Deus, rogai por nós.
Santa Filomena, vítima do amor de Jesus, rogai por nós.
Santa Filomena, exemplo de força e de perseverança, rogai por nós.
Santa Filomena, espelho das mais heróicas virtudes, rogai por nós.
Santa Filomena, firme e intrépida em face dos tormentos, rogai por nós.
Santa Filomena, flagelada como o vosso Divino Esposo, rogai por nós.
Santa Filomena, que preferistes as humilhações da morte aos esplendores do trono, rogai por nós.
Santa Filomena, que convertestes as testemunhas do vosso martírio, rogai por nós.
Santa Filomena, que cansastes o furor dos algozes, rogai por nós.
Santa Filomena, protetora dos inocentes, rogai por nós.
Santa Filomena, padroeira da juventude, rogai por nós.
Santa Filomena, asilo dos desgraçados, rogai por nós.
Santa Filomena, saúde dos doentes e enfermos, rogai por nós.
Santa Filomena, nova luz da Igreja peregrinante, rogai por nós.
Santa Filomena, que confundia a impiedade do século, rogai por nós.
Santa Filomena, cujo nome é glorioso no Céu e formidável para o inferno, rogai por nós.
Santa Filomena, ilustre pelos mais esplêndidos milagres, rogai por nós.
Santa Filomena, poderosa junto de Deus, rogai por nós.
Santa Filomena, que reinais na glória, rogai por nós.

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.

Rogai por nós, Santa Filomena,
para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Oração
Nós Vos suplicamos, Senhor, que nos concedais o perdão dos nossos pecados pela interecessão de Santa Filomena, Virgem Mártir, que foi sempre agradável aos vossos olhos pela sua eminente castidade e exercício de todas as virtudes.

Santa Filomena, rogai por nós. (3 vezes)

Novena a Santa Filomena, Virgem e Mártir
(composta pelo Cura d”Ars, São João Batista Maria Vianney)

Esta novena é composta por:
1- Oração a Santa Filomena,
2- Meditação diária (abaixo),
3- Saudação a Santa Filomena, e
4- Ladainha de Santa Filomena.

Meditação para o 1º. dia

1- Considerai que Santa Filomena foi Virgem… Virgem em meio ao mundo… Virgem não obstante a perseguição… Virgem até a morte… Que modelo! Posso contemplá-la sem confusão?… Qual será o remédio?…

2- Humilhai-vos muitas vezes pelo que vos confundiu, considerando a sua pureza virginal.

3- Assisti à Santa Missa em sua honra e visitai uma imagem sua, se vos for fácil.

(Oração Final)

Meditação para o 2º. dia

1- Considerai que Santa Filomena foi e não deixou de ser Virgem… Porque soube mortificar os corruptos desejos da carne… conservar, no uso dos sentidos, a modéstia de Jesus Cristo… conservar-se afastada de um mundo enganador e das ocasiões perigosas… Será que a imitastes em tudo isso? Quais as fontes das vossas tentações… das vossas fraquezas… das vossas inquietações… das vossas quedas… Procurai analisá-las.

2- Fugi do que vos causou dano, praticai o que tivestes a desgraça de negligenciar relativamente à castidade.

(Oração Final)

Meditação para o 3º. dia

1- Considerai que Santa Filomena conservou e aumentou o amor pela Virgindade com a oração, fonte abundadnte da vida sobrenatural… com os Sacramentos, pelos quais a alma se leva no Sangue de Jesus Cristo e se alimenta com o Sagrado Corpo, germe divino da virgindade cristã… com a lembrança de que seus membros eram os membros do Corpo de Jesus Cristo e de que seu corpo era templo do Espírito Santo… Não tendes porventura os mesmos meios?… Que uso deles fazeis?…

2- Redobrai de fervor em todas as vossas orações… Dizei de quando em quando a vós mesmos: meus membros são os de Jesus Cristo… o templo do Espírito Santo.

(Oração Final)

Meditação para o 4º. dia

1- Considerai que Santa Filomena foi Mártir… que teve de sofrer… sofrer muito… sofrer até a morte, e que mostrou nesses tormentos uma insuperável paciência… Estão em vós indissoluvelmente ligados o sofrimento e a paciência… Muitas vezes tendes que sofrer… que sofrer pouco… jamais que morrer em conseqüência. Donde provém tanta debilidade?… Não quereis talvez dar-lhe remédio?… Que meios escolheis portanto?

2- Sofrer com paciência as poucas dores, contrariedades e penas que aprouver ao Senhor enviar-nos neste dia.

(Oração Final)

Meditação para o 5º. dia

1- Considerai que Santa Filomena sofreu o martírio por Jesus Cristo… Queriam arrebatar-lhe a fé… queriam fazer com que violasse os votos de seu Batismo… induzi-la a seguir os exemplos dos idólatras ou dos apóstatas. E que desejam de vós, em tantas ocasiões, o demônio, o mundo, a carne e o vosso próprio coração, senão semelhantes infidelidades?… estas se reduzem à ofensa a Deus… Não são talvez os vãos temores que vos fazem faltar agora aos vossos deveres e trair a vossa fé?… Ó Deus, que vergonhosa tibieza! Recuperai finalmente a coragem.

2- Vencei algum respeito humano… Dizei de quando em quando a vós mesmos: É melhor agradar a Deus que aos homens.

(Oração Final)

Meditação para o 6º. dia

1- Considerai que Santa Filomena, morrendo por Jesus Cristo, teve de pôr em prática esta máxima do Salvador: “Aquele que ama mais o pai, a mãe, o filho ou a filha e a própria vida que a Mim, não é digno de Mim” (Mt 10,38-39)… Ela não hesitou… Tudo sacrificou, conquanto o sangue e a natureza erguessem a sua voz; em ocasiões menos difíceis, mostrar-nos-íamos dignos de Cristo? Se nos aparecer alguma vez uma escolha entre Deus e as criaturas, entre a graça e a natureza, entre o amor de Deus e as afeições às criaturas, a quem daremos a preferência?… Oh!, não mais desçamos no futuro, da nossa dignidadde de filhos de Deus e de discípulos de Jesus Cristo.

2- Esforcemo-nos neste dia por não agradar senão a Deus ou às criaturas somente por Deus.

(Oração Final)

Meditação para o 7º. dia

1- Considerai que Santa Filomena, morrendo por Jesus Cristo, teve de tolerar as zombarias, os sarcasmos, os ultrajes de seus perseguidores, de seus algozes e da maior parte dos espectadores de seu suplício… Ela não foi menos generosa, menos constante, menos alegre na confissão pública de sua fé… Se o mundo vos der a beber em semelhante cálice, tereis bastante coragem para tragar-lhe a amargura com iguais sentimentos? Oh!, que importam as suas burlas, os seus desprezos, as suas mais injustas e mais sanguinolentas perseguições?… Pode jamais ser desonrado aquele que por Deus é honrado? Não temais… Segui o vosso caminho… Ele terminará na posse da glória eterna.

2- Não deixeis que se perturbe o vosso coração se vos disserem alguma palavra desabrida, grosseira, mordaz, ofensiva, etc.

(Oração Final)

Meditação para o 8º. dia

1- Considerai que Santa Filomena, morrendo por amor de Jesus Cristo a todas as coisas deste mundo abjeto, entrou no gozo da vida eterna. Sim, estou certa, dizia em seu coração, de que o Supremo Juiz me concederá, em troca dos bens passageiros que sacrifico por Seu amor, a coroa de justiça que me prometeu. Ela morre… e ei-la no tabernáculo de Deus, com os Santos a seguir o Cordeiro… São estes os pensamentos que procuro ter quando me acho diante de algum sacrifício?… Que impressão causam a minha alma os sacrifícios? Para que lado fazem cair a balança?… Ah! Os Santos para tudo possuir, tudo diziam, perdiam tudo… e que direi eu?

2-Façamos neste dia algum sacrifício voluntário… Façamos prontamente e de boa vontade os que estão unidos aos nossos deveres, etc.

(Oração Final)

Meditação para o 9º. dia

1- Considerai que Santa Filomena, depois de tudo haver sacrificado neste miserável mundo por amor a Jesus Cristo, d”Ele recebeu, mesmo neste mundo, mais do cêntuplo de quanto havia dado. Quanta reputação! Quanto poder! Quanta glória! Quanta grandeza humilhada a seus pés! Que numerosa afluência de peregrinos a seus diversos santuários! Quantas festas em sua honra! Que testemunhos de veneração lhe são tributados! Assim exatamente cumpre Deus as suas promessas. Oh!, se com igual fidelidade guardássemos as nossas para com Ele!… Mas privando-O de Sua glória, não viremos talvez a privar-nos também de tantos méritos e favores, seja neste mundo seja no outro?… Coragem, portanto. Sede fiéis, para que Deus o seja convosco.

2- Fazei hoje alguma obra de misericórdia em honra de Santa Filomena. Disponde-vos por uma boa confissão a receber dignamente Nosso Senhor Jesus Cristo.

(Oração Final)


Oração Final

Ó Deus, que entre os outros milagres do Vosso poder, também ao sexo frágil destes a vitória do martírio, concedei propício que nós, celebrando o natalício de Santa Filomena, Vossa Virgem e Mártir, pelos seus exemplos, cheguemos por ela a Vós. Por Nosso Senhor Jesus Cristo Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

O Óleo de Santa Filomena

Esse óleo milagroso é retirado de qualquer lamparina que esteja iluminando uma imagem ou estampa de Santa Filomena, para passar no local da enfermidade.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sartre, o falso profeta.

Sartre: o apóstolo do absurdo
Por Peter Kreeft

Jean-Paul Sartre (1905-1980) talvez seja o mais famoso ateu do século XX. Apesar disso, levou mais indecisos rumo à Fé do que muitos apologetas cristãos, porque fez do ateísmo uma experiência tão exigente – quase insuportável – que poucos puderam agüentá-la.
Nas próprias palavras de Sartre, “o existencialismo nada mais é do que o esforço por extrair todas as conseqüências da postura atéia”. Ateus acomodados que lêem Sartre tornam-se ateus incomodados, e um ateísmo incômodo é um gigantesco passo rumo a Deus. Isso é algo que devemos agradecer-lhe.

Sartre chamou a sua filosofia de “existencialismo” porque defendia que “a existência precede a essência”. Isso significa concretamente que “o homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo”. Como não existiria um Deus para projetá-lo, o homem não teria nenhum plano, nenhuma essência. A sua essência ou natureza não viria de um Deus Criador: seria fruto exclusivo das suas próprias escolhas livres.

Há algo de muito profundo nessa tese, mesmo que logo depois esse “algo” seja subvertido. Trata-se do fato de que, mediante as suas escolhas livres, o homem determina aquilo que virá a ser. Deus realmente cria tudo o que o homem é, mas o modo de ser é algo que só pode pertencer a cada um individualmente. Deus faz o nosso “quê”, mas cada um faz o seu “quem”. O Senhor concede-nos a honra de colaborar na nossa própria criação, ou “co-criação”. Compartilha conosco a tarefa de criar o nosso “eu”. Dá a matéria prima – o ambiente, a hereditariedade –, mas sou eu quem dá a forma final a mim mesmo, por meio das escolhas que livremente vou fazendo.

Infelizmente, Sartre sustenta que isso é prova da não-existência de Deus, pois se Deus existisse, o homem ficaria reduzido à condição de “mero artefato divino”, e portanto não seria livre. Sartre insiste com freqüência em que a liberdade e a dignidade humanas requereriam o ateísmo. Sua atitude perante Deus faz lembrar a famosa frase que precede os duelos de caubóis nos filmes de faroeste: “Esta cidade é pequena demais para nós dois: um de nós tem de sair”.

A legítima observação de que a liberdade humana permite às pessoas moldarem-se, e assim as torna radicalmente diferentes das meras coisas, leva Sartre ao ateísmo: 1) porque o filósofo confunde liberdade com independência; 2) porque o único Deus que ele é capaz de conceber é um deus que, em vez de criar e sustentar a liberdade humana, a eliminaria, como uma espécie de fascista cósmico; e além disso 3) porque comete o erro – típico dos adolescentes – de equiparar liberdade e rebeldia. Sartre diz que a liberdade é somente “liberdade de dizer não”.

Mas essa não é a única forma de liberdade: existe também a “liberdade de dizer sim”. Sartre pensa que a nossa liberdade fica comprometida quando dizemos sim, quando optamos por aceitar os valores que nos foram ensinados pelos nossos pais, pela nossa sociedade, ou pela Igreja. Desse modo, o que Sartre entende por liberdade é algo muito parecido com aquilo que os beatniks (1) dos anos 50 ou os hippies dos anos 60 queriam dizer com o seu lema “faça do seu jeito”, ou com aquilo que os membros da “geração do Eu” (Me generation) dos anos 70 queriam dizer com a frase “Procurando o chefe?”
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(1) Nome dado aos partidários da beat generation, movimento que surgiu nos EUA nos anos 50, formado por jovens artistas e intelectuais que se declaravam contra o modo de vida burguês e os valores da sociedade de consumo (N. do T.).
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Outro conceito que Sartre leva a sério mas distorce é a idéia de responsabilidade. Pensa que crer em Deus necessariamente diminuiria a responsabilidade humana, pois nos permitiria culpar a Deus pelo que somos em vez de nos culparmos a nós mesmos. Mas isso é evidentemente falso. O meu Pai celeste, assim como o meu pai aqui na terra, não é responsável pelas decisões que tomo nem pelo caráter que adquiro ao tomar essas decisões: a responsabilidade é minha. E essa responsabilidade não demonstra que o meu Pai celeste não exista, como tampouco demonstra que o meu pai aqui na terra não exista.

Sartre tem uma aguçada capacidade de perceber o Mal e a perversidade humana. Diz ele: “Aprendemos a levar o Mal a sério... O Mal não é só aparente... Conhecer suas causas não o elimina. O Mal não pode ser redimido”.

No entanto, Sartre também diz que, se Deus não existe e nós criamos nossas leis e valores, o Mal não existe de verdade: “Escolher ser isto ou aquilo é ao mesmo tempo afirmar o valor daquilo que se escolhe, pois nunca podemos escolher o Mal”. Sartre, portanto, atribui ao Mal uma realidade ao mesmo tempo excessiva (“O Mal não pode ser redimido”) e insuficiente (“Nunca podemos escolher o Mal”).

O ateísmo de Sartre não afirma simplesmente que Deus não existe: afirma que Deus é impossível. Ao menos presta alguma atenção à noção bíblica de Deus como “Eu Sou”, chamando-a de a idéia mais auto-contraditória que jamais foi pensada: uma “síntese impossível” entre o ser-por-si (a personalidade subjetiva, o “Eu”) e o ser-em-si (a perfeição eterna objetiva, o “Sou”).

Deus significa pessoa perfeita, o que para Sartre seria uma contradição. Segundo ele, são possíveis coisas ou idéias perfeitas, como justiça ou verdade; são também possíveis pessoas imperfeitas, como Zeus ou Apolo; mas uma pessoa perfeita é impossível. Zeus é possível mas não é real. Deus, o Único entre os deuses, não somente seria irreal como também impossível.

Se Deus é impossível, e é amor, então o amor é impossível. O que mais choca em Sartre é a sua negação de que possa haver um amor genuíno e altruísta. Muitos ateus substituem Deus pelo amor humano para acreditar neste amor. Mas Sartre alega que isso é impossível. Por quê?

Porque se não existe Deus, então cada indivíduo é Deus. Mas só pode haver um Deus, só pode haver um absoluto. Portanto, as relações interpessoais são fundamentalmente relações de rivalidade. Nisto Sartre faz eco a Maquiavel. Cada um de nós desempenha o papel de Deus diante dos outros: sendo eu o autor do enredo da minha própria vida, necessariamente reduzo os outros a meros coadjuvantes.

Há uma palavrinha que as pessoas comuns pensam que se refere a algo real, e que os namorados acham que é algo mágico, mas que Sartre considera algo impossível e ilusório: trata-se da palavra “nós”. Não pode haver o “nós”, não existiria nenhuma comunidade, nenhum amor abnegado, se o que estamos sempre tentando é ser Deus: o único sujeito individual é o “eu”.

A mais famosa peça de teatro escrita por Sartre, intitulada Huis clos (“Recinto fechado”), mostra três mortos numa sala infernizando uns aos outros, simplesmente por bancarem Deus perante os restantes. Mas não no sentido de tentarem exercer o seu poder umas sobre as outras: cada uma simplesmente ignora as outras, tratando-as como meros objetos. A chocante lição da peça é que “o inferno são os outros”.

De fato é preciso ter uma mente muito aguda para conseguir dizer uma coisa tão falsa como essa. Porque a verdade é justamente o contrário: o Inferno é a completa ausência de outras pessoas, sejam humanas ou divinas. O Inferno é a solidão absoluta. O Céu são as outras pessoas, porque o Céu é onde Deus está, e Deus é uma Trindade. Deus é Amor, Deus é “outras pessoas”, é “nós”.

A firmeza de Sartre em ir até às últimas conseqüências empresta-lhe um ar de honestidade até certo ponto atraente, apesar das suas repugnantes conclusões sobre a ausência de um sentido para a vida, sobre a arbitrariedade dos valores e sobre a impossibilidade do amor. Mas essa peculiar coerência ou honestidade, esteja ou não profundamente arraigada no seu caráter, perde qualquer significado e torna-se trivial em virtude da sua negação de Deus e, portanto, da Verdade objetiva. Se não há uma Mente divina, então não existe nenhuma verdade além daquela que cada qual fabrica para si mesmo. Por isso, que sentido tem ser coerente ou honesto, se eu não tenho nada a respeitar além de mim?

Assim, devemos fazer um juízo misto a respeito de Sartre, e de qualquer forma agradecer-lhe por ser tão repulsivo como fruto dessa sua coerência. Sartre mostra-nos a verdadeira face do ateísmo: o absurdo (o absurdo de um mundo abstrato) e a náusea (é a imagem que ele próprio utiliza, e o título de seu primeiro grande romance).

O livro La nausée (“A náusea”) conta a história de um homem que, após uma árdua busca, depara-se com a terrível verdade de que a vida não tem sentido: é um dejeto da náusea, como um vômito ou um excremento. (Sartre usa deliberadamente imagens asquerosas porque acha que a vida é mesmo asquerosa).

Não podemos senão concordar com William Barrett, quando diz que, “se alguém está pronto para usar isso (a náusea) como desculpa para jogar fora toda a filosofia de Sartre, devemos fazer-lhe ver que é melhor encontrar a própria existência com desgosto do que não encontrá-la nunca”.

Em outras palavras, a importância de Sartre é similar à do Eclesiastes: formula as mais altas perguntas, com uma coragem inabalável, e temos de admirá-lo por isso. Infelizmente ele nos oferece a pior das respostas, tal como faz o Eclesiastes: “Vaidade das vaidades: tudo é vaidade”.

Só nos resta ter pena dele e de todos os outros ateus que tenham lucidez suficiente para perceberem – como Sartre percebeu – que “sem Deus, tudo é permitido”... mas nada tem sentido.


Fonte: Site do autor
Tradução: Fernando Salles

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Os demônios provam os santos.

Santos e demônios I: Santa Gema Galgani

(Padre Germano de Santo Estanislau, CP - tradução do Padre Matos Soares)

"Para purificar os Seus escolhidos e fazer deles vítimas de expiação, Deus serve-Se muitas vezes de satanás que, com o seu ódio ao homem, é em Suas mãos o instrumento mais ativo. A Santa Escritura e sobretudo os registros da hagiografia oferecem-nos exemplos numerosos desta conduta da Providência Divina.

Quando o Senhor quis elevar São Paulo da Cruz a um grau mais eminente de santidade, disse-Lhe no íntimo da sua alma: 'Fazer-te-ei calcar aos pés pelos demônios'. Gema ouviu também um dia palavras semelhantes: 'Prepara-te, minha filha; por minha ordem o demônio vai declarar-te guerra e dar, por esta forma, o último retoque à obra que realizei em ti'.
Podemos dizer que esta guerra foi geral, isto é, dirigida contra cada uma das virtudes e práticas por meio das quais a jovem virgem se esforçava em caminhar para Deus. Todas desagradavam ao anjo do mal, que as atacou com ódio feroz. Dir-se-ia que, no exercício do seu tenebroso império, não tinha outra preocupação senão perseguir esta pobre menina e procurar meios de a assaltar com tentações.

 A oração é o alimento vital da santidade, o supremo caminho que conduz ao Soberano Bem. Desde há muito que Gema a amava e praticava com todo o ardor da sua alma e devia-lhe bens inapreciáveis. O que não fez satanás por afastar a donzela da oração! Nada podendo conseguir com as suas inspirações perversas, provocava-lhe violentas dores de cabeça que teriam levado uma alma menos enérgica antes à indolência e ao repouso que à oração; experimentava mil outros meios para a desviar deste exercício divino. 'Oh!' dizia-me ela, 'que tormento para mim o não poder orar! Que fadiga eu sofro! E que esforços faz esse velhaco (assim chamava ao demônio) para me tornar a oração impossível! Ontem à noite queria matar-me, e te-lo-ia feito se não fosse a rápida intervenção de Jesus. Eu estava desfalecida, tinha bem gravado na minha alma o Nome de Jesus, mas não me era possível proferi-lo com a língua”

Algumas vezes o infernal inimigo tentava triunfar de um só ímpeto por meio de sugestões ímpias. ‘Que fazes tu, lhe dizia, és louca de orar a um malfeitor? Vê como ele te atormenta e te conserva consigo sobre a cruz. Porventura podes amar quem não conheces e quem trata tão duramente os seus melhores amigos?’ Estas blasfêmias não eram mais que poeira lançada ao vento, mas afligiam profundamente a alma terna e amante, obrigada a ouvir ultrajar assim o seu adorável Jesus.

No meio de tantos sofrimentos, a pobre menina procurava algum conforto no seu pai espiritual, apresentava-lhe as suas dificuldades, implorava conselho e direção. Este humilde e filial recurso não agradava ao espírito das trevas, que via assim diminuir as suas já tão pequenas probabilidades de êxito. Usou de mil artifícios para isolar na luta a Serva de Deus, afastando-a do diretor espiritual. Pintou-lho com as mais desprezíveis cores: como ignorante, um fanático, um iludido. ‘Nos últimos dias, escrevia-me ela, o maldito fez-me ‘boas’ [peças]. Este monstro queria privar-me do meu guia e conselheiro para me perder; não tenho, porém, receio de que o consiga.’

Parece que esta confiança em Deus deveria desarmar satanás, mas não desarmou. Perante a inutilidade de suas pérfidas insinuações, recorreu à violência física. Logo que Gema tomava a pena para me escrever, tirava-lha das mãos e rasgava o papel; algumas vezes, agarrando-a pelos cabelos, arrancava-a de junto da mesa com tal raiva que lhe ficavam nas mãos brutais madeixas inteiras; e ao mesmo tempo uivava com voz furiosa: ‘Guerra, guerra a teu pai espiritual, guerra enquanto ele estiver no mundo!’ Seja-me lícito dizer, aqui só entre nós, que nunca passou das palavras. ‘Acreditai-me, Padre, dizia Gema, ao ouvi-lo, vê-se que este velhaco odeia muito mais a vós do que a mim.’

O demônio levou a audácia até ao ponto de tomar as aparências do seu confessor ordinário. Um dia acabava a menina de entrar na igreja e preparava-se, esperando pelo sacerdote, para a recepção do sacramento da Penitência. Mas qual não foi o seu espanto ao vê-lo imediatamente no seu posto, sem que pudesse saber por onde é que tinha entrado! Sentiu uma grande perturbação interior, que era nela indício infalível da presença do espírito maligno. Entretanto aproximou-se e começou a confissão. A voz que ouvia era realmente a do confessor ordinário, mas as palavras eram escandalosamente indecentes e acompanhadas de atos desonestos. ‘Meu Deus, exclamou Gema, que é isto e onde estou eu?’ A pura menina, tremendo dos pés à cabeça, permaneceu por um instante estonteada, depois sossegou, levantou-se, saiu do confessionário e verificou então que o pretendido confessor tinha desaparecido, sem que nenhuma das pessoas presentes o visse ir.

Não havia dúvida: o demônio procurava com este artifício grosseiro surpreender a santa menina ou pelo menos tirar-lhe toda a confiança no ministro de Deus.

Tendo falhado este golpe, tentou outro. Apareceu sob a forma de um belo anjo resplandecente de luz e cheio de solicitude pela sua felicidade. Como com Eva no paraíso terrestre, empregou a mais sutil astúcia para conseguir enganá-la. ‘Olha para mim, dizia ele, posso tornar-te feliz; jura somente que me obedecerás.’ Gema, que desta vez não tinha sentido a perturbação reveladora da presença do demônio, ouvia tranquilamente. Mas, logo às primeiras propostas criminosas do espírito perverso, os olhos se lhe abriram e ela se pôs na defensiva. ‘Meu Deus, Maria Imaculada, exclamou a princípio, vinde em meu auxílio!’ Depois, avançando resolutamente para o anjo disfarçado, escarrou-lhe na cara. Desapareceu imediatamente sob a forma duma grande chama vermelha, deixando no assoalho do quarto um montão de cinza.

Algum tempo depois, novo assalto. ‘Ouvi, Padre: escrevia-me Gema, ontem entrava eu em casa, depois de ter me confessado. Aproveitando o momento de solidão, pus-me de joelhos para recitar a Coroa das Cinco Chagas. Ia a chegar à quarta Chaga quando vi diante de mim uma pessoa muito parecida com Jesus. Estava flagelado de há pouco e do seu coração aberto corria sangue em abundância. Disse-me: ‘É assim, minha filha, que me correspondes? Considera o estado em que me encontro. Vês como sofro por ti? E não podes continuar a consolar-me com essas penitências? E no entanto era bem pouca coisa; podias muito bem retomá-las. – Não, não respondi, quero obedecer e desobedeceria se vos atendesse. – Mas enfim, o confessor que tas proibiu foi esse... Ora, tu de nenhum modo estás obrigada a obedecer-lhe. – E acrescentou muitas mais coisas. Nestes perniciosos conselhos reconheci satanás, e estava para tomar a disciplina, como das outras vezes em iguais circunstâncias, quando me senti diferentemente inspirada. Levantei-me, lancei-lhe água benta e desapareceu. Recuperei então a paz, não sem ter recebido alguns golpes com que a besta vil me gratifica de tempos a tempos.’

Não obtendo outra coisa, o espírito do mal procurava assim levar Gema, contra a proibição do diretor espiritual, a penitências prejudiciais à saúde.

Para protegê-la contra as visões maléficas, ordenei-lhe que a cada aparição sobrenatural exclamasse: Viva Jesus! Nosso Senhor, sem eu o saber, tinha-lhe dado um conselho quase igual. Gema devia dizer: Benditos sejam Jesus e Maria. A dócil menina, para obedecer a ambos, juntava as duas exclamações. Os bons espíritos repetiam-nas sempre, mas os maus ou não respondiam ou se limitavam às primeiras palavras: Viva, benditos. Por este sinal eram reconhecidos, e Gema escarnecia deles.

Com a esperança de lhe inspirar o orgulho, o demônio mostrava-lhe algumas vezes em sonhos, ou mesmo estando acordada, uma procissão de pessoas vestidas de branco que se aproximavam piedosamente do seu leito para a venerar. Descobria-lhe também que as cartas para seu pai espiritual eram religiosamente conservadas com o fim de servirem um dia à sua glória, etc., etc. Vãs tentações, a Serva de Deus era suficientemente humilde para não se deixar levar como Eva pela sedução da vaidade.

Supondo abalar talvez a sua grande confiança em Deus, o maldito aproveitava as ocasiões tão frequentes de abandono e de cruel aridez espiritual para aumentar em sua alma o horroroso temor da condenação. ‘Não vês, lhe dizia, que Jesus não te escuta, que já te não quer conhecer? Para que afadigar-te em correr após ele? Só te resta resignar-te com a tua desgraçada sorte.’ Para os santos foi sempre esta tentação a mais angustiosa. Gema experimentava-lhe toda a violência; mas habituada a recorrer a seu Deus, apesar de tudo e em todas as circunstâncias, com a mais viva fé, como uma criança recorre a seu pai, depressa recuperava a serenidade. Por isso podia dizer-me: ‘Este celerado cansa-se; quereria ... Mas Jesus com suas palavras inspirou-me tal tranquilidade que todos os esforços diabólicos não poderiam tirar-me a confiança por um só momento.’

O anjo da soberba, furioso de ver que toda a sua astúcia se malograva aos pés duma humilde donzela, em ultimo recurso tirou definitivamente a máscara, passando a atos de violência. Aparecia-lhe sob as formas horríveis dum monstro ameaçador, dum homem feroz, dum cão raivoso. Depois de ter assim procurado aterrorizá-la, precipitava-se sobre ela, batia-lhe, rasgava-lhe a pele, atirava-a dum lado para outro no quarto como se fora uma rodilha; arrastava-a pelos cabelos e martirizava de todas as maneiras possíveis os seus inocentes membros. E não julguemos que tudo isso se limitava a impressões puramente imaginárias, porque os efeitos sobre o corpo da vítima persistiam por muito tempo: cabelos arrancados, carnes lívidas, ossos quase esmagados, dores atrozes. Algumas vezes ouvia-se o barulho das pancadas, via-se o leito mudar de lugar e elevar-se da terra para cair bruscamente. Estes vexames duravam sem interrupção horas inteiras e algumas vezes toda noite.

Deixemos gema falar a este respeito. A simplicidade do seu estilo e a ingênua sinceridade da sua alma dispensam-nos de fazer comentários. ‘Hoje, que me julgava livre desta besta vil, fui muito molestada por ela. Ia para me deitar, esperando poder dormir; não sucedeu, porém, assim. A princípio recebi uma pancada das mais terríveis, de que pensei morrer. O malvado tinha a forma dum grande cão negro, e punha-me as patas sobre os ombros. Tratou-me de tal modo que em um dado momento supus ter os ossos todos quebrados. Pouco depois, como eu tomasse água benta, torceu-me o braço com extrema violência e caí em dor. Os ossos estavam completamente deslocados, Jesus, porém, veio repô-los no seu lugar, tocando-os, e tudo ficou remediado.’ Em outra carta: “Também ontem o demônio me afligiu. Minha tia mandou-me que fosse encher os jarros do quarto. Ao passar com os jarros na mão, diante da imagem do Coração de Jesus, dirigi-lhe com amor uma prece fervorosa; imediatamente senti darem-me sobre os ombros uma bastonada tão forte que cai por terra, sem nada quebrar. Ainda hoje me sinto muito mal e menor trabalho me causa dor.”

A santa menina escrevia-me ainda: “Acabo de passar, como de costume, uma noite má. O demônio apresentou-se diante de mim sob a figura de um imenso gigante e bateu-me durante toda a noite, dizendo: para ti já não há esperança de salvação, estás em meu poder. Respondi que nada temia porque Deus é misericordioso. Então, espumando de raiva, deu-me uma grande pancada na cabeça e desapareceu gritando: maldita sejas. Fui para o quarto repousar um pouco, mas tornei a encontrá-lo lá. Começou de novo a bater-me com uma corda toda aos nós. Batia-me por eu me opor a fazer o mal que sugeria. Não, lhe dizia eu; e ele redobrava as pancadas, batendo-me violentamente com a cabeça no chão. De repente tive a lembrança de implorar o auxílio do divino Pai de Jesus e exclamei: Pai Eterno, livrai-me pelo sangue preciosíssimo de Jesus. Imediatamente o velhaco deu-me uma pancada formidável, atirou-me abaixo da cama e fez-me bater a cabeça no chão com tanta violência que perdi os sentidos com a dor. Só muito tempo depois os recuperei. Demos graças a Jesus.”

Estas cenas repetiam-se muito frequentemente, e, em certas épocas todos os dias. A pobre padecente estava quase habituada a elas. Exceptuando as torturas corporais, podemos dizer que a vista do monstro infernal já não a atemorizava. Olhava-o com a mesma serenidade com que a pomba olha para um animal imundo. Gema algumas vezes entretinha-se a responder-lhe e a humilhá-lo, quando não estava proibida de o fazer; e, quando à invocação do Santíssimo Nome de Jesus, a hedionda besta se rolava por terra para fugir em seguida a toda pressa, a ingênua menina acompanhava-a com zombarias e francas gargalhadas. “Se vísseis, Padre, como ele fugia e tropeçava em sua fuga raivosa, ter-vos-ieis rido comigo.” Assistia eu uma ocasião à piedosa menina, gravemente doente e em perigo de vida. Sentado a um canto do quarto rezava tranquilamente o Breviário, quando um enorme gato muito preto e de aspecto terrificante me saltou impetuosamente para os pés. Deu uma volta pelo quarto, saltou para o leito da doente e colocou-se muito perto do seu rosto, fixando nela um olhar feroz. O sangue gelou-me nas veias; Gema, porém, permanecia muito serena. Então! Que há de novo? Lhe disse eu, ocultando o melhor possível a minha atrapalhação. – Não tenhais medo, Padre, é esse velhaco do demônio que quer molestar-me, mas não temais, a vós não fará mal nenhum. A tremer aproximei-me do leito, tomei água benta e aspergi-o. A visão desapareceu imediatamente, sem ter conseguido alterar por um só momento a paz profunda da doente.
A única coisa que aterrava verdadeiramente Gema era o receio de ceder às sugestões do inimigo e ofender a Deus. Embora nunca tivesse caído durante o passado, o perigo parecia-lhe iminente e conservava-a aterrorizada. Não esquecia nenhum meio de defesa: Cruz, relíquias dos Santos, escapulários, exorcismos, e, acima de tudo, recurso filial a Deus, a Maria Santíssima, ao Anjo da Guarda e ao diretor de sua alma. Escrevia-me: “Vinde depressa, Padre, ou ao menos daí fazei exorcismos, porque o demônio persegue-me por todos os modos; ajudai-me a salvar a alma, tenho medo de já estar nas mãos de satanás. Ah! Se soubésseis como sofro! Como ele estava contente esta noite! Agarrou-me pelos cabelos e puxava por eles dizendo: desobediência! desobediência! Quero concluir desta vez, vem, vem comigo! Queria levar-me para o inferno. Atormentou-me durante mais de quatro horas. Foi assim que se passou a noite. Tenho receio de o atender um dia ou outro e vir a desagradar a Jesus.”

Em algumas raríssimas ocasiões o Senhor permitiu ao demônio apoderar-se de todo o seu ser, ligar as potências da sua alma e perturbar-lhe a imaginação a tal ponto que se poderia julgar possessa. Causava dó vê-la neste estado miserável. Ela mesma tinha-lhe um tal horror que, só com lembrar-se dele, empalidecia e começava a tremer. “Ó Deus, dizia ela, estive no inferno sem Jesus, sem a divina Mãe, sem o Anjo! Se saí de lá sem pecado só a Vós o devo, ó Jesus. Apesar de tudo, estou contente, porque sofrendo assim e sofrendo sempre, faço a Vossa santíssima Vontade.” Se estes assaltos do demônio se tivessem repetido mais vastas vezes ou tivessem sido de mais longa duração, a pobre padecente, apesar de muito resignada, teria com certeza perdido a vida. A estas atribulações juntavam-se as dores de cruéis doenças, provocadas, como temos fortes razões para o crer, pelo próprio espírito infernal. E se refletirmos que Gema estava ao mesmo tempo miraculosamente associada a todos os tormentos sofridos pelo divino Redentor na Sua Paixão, teremos uma idéia da grandeza do martírio desta virgem heróica, que se tinha oferecido em holocausto ao Senhor.

Todavia, declarava-se feliz no meio deste mar de sofrimentos físicos e morais, feliz por se parecer assim com o Homem das Dores, por se elevar sempre mais nas puras regiões do amor divino e expiar pela sua parte os pecados do mundo.

Um dos dogmas mais consoladores da nossa crença é o dos Anjos Custódios. Depois do pecado original, o homem enfraquecido e miserável, tinha necessidade de auxílio e conselho para andar pelo caminho do bem e atingir o fim para que foi criado. Em Sua misericórdia infinita e paternal ternura, o Senhor veio em auxílio dos pobres filhos de Eva que queria salvar, colocando-os sob a proteção dos Anjos, ministros da Sua Côrte Celeste. Cada um de nós é assistido por um destes puros espíritos, que chamamos com razão o nosso bom Anjo. Toma-nos pela mão, logo que entramos na vida, para não mais nos deixar durante a nossa peregrinação pelo mundo. “Eis, diz o Senhor, que Eu envio o meu Anjo para ir adiante de ti, para te proteger no caminho e introduzir no lugar que te preparei.”

Se Deus provê com solicitude às necessidades de todas as Suas criaturas, tem um particular cuidado com as eleitas que, como Ele mesmo diz, Lhe são tão queridas como as meninas dos Seus olhos, e entre os escolhidos tem ainda preferências. Daí resultam os diferentes graus de importância da missão misericordiosa dos Anjos Custódios. Estando Gema predestinada para um grau muito elevado de glória e felicidade celeste, era natural e conforme à Sabedoria divina que o anjo proposto para a guardar tivesse com ela um cuidado muito especial. A graça que já se manifestava nesta alma ditosa por fenômenos tão prodigiosos, ia aumentar dum modo não menos prodigioso com a assistência do seu bom Anjo.

Quem não conhecesse pelos Sagrados Livros a tocante história de Tobias e pela hagiografia cristã a sua frequente repetição na vida dos Santos canonizados, seria tentado talvez a supor exagerados os detalhes maravilhosos que vou referir. Mas o Senhor prodigaliza todos os dias a Seus filhos bens muito preciosos sem que ninguém se lembre de Lhe dizer: por que Vos mostrais tão bom? Gema estava admiravelmente preparada para os favores do seu Anjo pelas mais belas virtudes: inocência, pureza, candura, simplicidade de criança, e, acima de tudo, fé muito viva que lhe deixava ver quase a descoberto os mistérios da eternidade. Com certeza o espírito celeste devia encontrar na sua feliz protegida alguma semelhança com a natureza angélica que lhe permitia, sem se rebaixar muito, conservar com ela relações familiares.

O mais maravilhoso neste suave comércio era a presença sensível e quase contínua do Anjo da Guarda.
Gema via-o com os olhos do corpo, tocava-o com as mãos, como se fosse uma pessoa viva, conversava com ele como com um amigo. Escrevia-me o seguinte: “Há seis dias que não vejo Jesus. Ele porém não me deixou completamente só; o Anjo da Guarda conserva-se sempre visível junto de mim.”

Com que fervor dava graças a Deus por este benefício, e testemunhava ao espírito protetor o seu reconhecimento! “Se alguma vez for má, querido Anjo, lhe dizia ela, não te zangues. Quero mostrar-te a minha gratidão. – Sim, respondia o celeste guarda, serei teu guia e teu companheiro inseparável. Não sabes Quem te confiou à minha guarda? Foi o misericordioso Jesus.” A estas palavras a santa menina, não podendo conter os sentimentos da sua alma, perdia os sentidos e entrava em êxtase na companhia do seu Anjo. O que se passava então ela mesma o conta por estas simples palavras: “Permanecíamos ambos com Jesus. Oh! Se estivésseis conosco Padre.” Permanecer com Jesus era mergulhar-se, com o espírito e o coração, no oceano imenso da Divindade para aí aprender e contemplar inefáveis mistérios. De ordinário, Gema e o Anjo da Guarda passavam os seus colóquios a orar juntamente ou a louvar o Altíssimo. Os Anjos, segundo um santo Doutor, deleitam-se em assistir às almas em oração. O arcanjo Rafael disse ao velho Tobias que durante as suas orações ele mesmo as oferecia secretamente ao Senhor.

Que objeto de complacência devia ser para o seu Anjo da Guarda esta admirável menina cujo coração, como a lâmpada do Santuário, velava sempre diante do seu Deus com extraordinária vivacidade de fé? Gostava de lhe aparecer, uma vezes ajoelhado ao seu lado, outras elevado da terra, com as asas abertas e as mãos estendidas sobre ela, ou juntas na atitude de orar. Recitavam alternadamente as orações vocais e os salmos, e, se diziam jaculatórias, “era [ele], segundo as próprias palavras de Gema, quem com mais força exclamava: Viva Jesus! Bendito seja Jesus! E outras afetuosas aspirações.”

Nas horas de meditação o Anjo infundia-lhe no espírito luzes altíssimas, dava ao seu coração suaves e fortes impulsos para que o santo exercício fosse perfeito, e, como a Paixão do Salvador era quase sempre o assunto da meditação, descobria-lhe os Seus profundos mistérios. “Considera, dizia ele, quanto Jesus sofreu pelo homem, considera uma por uma estas Chagas. Foi o amor que as abriu todas. Vê quão horrível é o pecado cuja expiação custou tanta dor e tanto amor.” Estes belíssimos pensamentos iam ferir o coração da donzela como outros tantos raios de luz e de fogo. Tendo assistido pessoalmente muitas vezes às orações e às meditações de Gema e do seu Anjo da Guarda, pude convencer-me, só pelas minhas observações exteriores, da realidade de todos os detalhes que ela me dava depois do exercício nas suas comunicações de consciência.

Notei igualmente que todas as vezes que ela levantava os olhos para o Anjo a fim de o ouvir ou lhe falar, mesmo fora da oração, perdia o uso dos sentidos. Nesses momentos podia-se picar, queimar sem que a sua sensibilidade fosse despertada. Mas vinha a si logo que afastava os olhos do Anjo ou cessava o colóquio. Este fenômeno renovava-se infalivelmente em cada uma das suas comunicações celestes, por mais próximas que fossem. Sempre e por toda a parte, no meio das ocupações, no caminho, mesmo à mesa, o Anjo esta à disposição de Gema e Gema à disposição do Anjo. Nenhum sinal exterior manifestava os seus santos colóquios, exceto a absoluta imobilidade da vidente e o brilho sobre-humano do seu olhar. Bastava tocá-la para nos convencermos, em atenção à sua insensibilidade, que estava fora dos sentidos e em relações com o sobrenatural. Estes colóquios respiravam muitas vezes a maior simplicidade, e a familiaridade do Anjo só tinha igual na do Arcanjo Rafael com o jovem Tobias.

“Dizei-me, meu Anjo, interrogava a donzela, o que tinha esta manhã o meu confessor para ser tão severo e recusar ouvir-me? E o Padre, responderá de Roma à carta urgente em que lhe peço uma regra de conduta sobre tal ponto? Dize-me, meu querido Anjo, quando é que Jesus me converterá este pecador por quem me interesso? Que devo responder a tal pessoa que me pede conselho? E o que vos parece de mim? Jesus está contente? Como poderei agradar-Lhe? O Anjo, acomodando-se com um encantadora condescendência a esta ingenuidade algum tanto importuna, respondia a tudo. E os acontecimentos não tardavam a mostrar a origem sobrenatural das respostas. Seria preciso um volume para referir estas diversas comunicações, mas talvez me fosse preciso um outro para defender a sua realidade, tão extraordinárias parecem muitas vezes e tão difíceis de aceitar pelo racionalismo contemporâneo.

Pode dizer-se, dum modo geral, que o Anjo da Guarda era para Gema um segundo Jesus. Ela expunha-lhe as suas necessidades e as dos outros, queria-o incessantemente junto de si durante os seus temores e sobretudo durante as lutas contra o infernal inimigo; confiava-lhe diversas mensagens para Deus, para a Virgem Santíssima, para os Santos seus advogados, dava-lhe até cartas fechadas e lacradas com destino a um ou outro destes advogados, pedindo-lhe que a seu tempo trouxesse a resposta, e a maravilha é que estas cartas eram levadas realmente por um ser invisível. Depois de ter tomado todas as precauções para me certificar da intervenção duma causa sobrenatural no seu desaparecimento, vi que me devia convencer de que neste ponto, como em outros não menos prodigiosos, o Céu, para assim dizer, queria brincar com uma menina, cuja simplicidade lhe era tão querida.

Muitas vezes encarregava o Anjo da Guarda dum negócio particular perante alguma pessoa deste mundo, e qual não era a sua admiração quando não via chegar a resposta! “E não obstante, escrevia ela, há já tantos dias que vô-lo mandei dizer pelo Anjo; como não fizeste caso? Ao menos podíeis mandar-me dizer por ele que não era vossa intenção ocupar-vos deste negócio. Em todo o caso não vos zangueis, insisto de novo por meio deste carta.”

Deste modo o mensageiro celeste encontrava-se constantemente preparado para o serviço desta jovem virgem de inefável candura. Além disso, prestava-se de bom grado a todos os seus desejos, acudia, mesmo sem ser invocado, ao menor perigo, à menor necessidade; refreava a audácia do demônio, sempre pronto a maltratar a sua protegida, e algumas vezes lutava para lha tirar das mãos brutais. Eis alguns fatos relativos a esta assistência: uma vez, estando à mesa ainda em casa de seus pais, uma das pessoas presentes, deixando-se levar pelos maus costumes do nosso tempo, proferiu uma blasfêmia contra o adorável Nome de Deus. Logo que Gema a ouviu perdeu os sentidos com a dor e ia a cair da cadeira; antes, porém, que batesse com a cabeça no chão, o Anjo a acudiu e com uma só palavra dita ao coração fez-lhe retomar imediatamente os sentidos. Por outra vez, perdida na contemplação, encontrava-se ainda na igreja, sendo já tarde; o Anjo advertiu-a e na volta acompanhou-a, sob uma forma visível, até à porta de casa.

Um dia o demônio tinha-lhe batido tão cruelmente no momento da oração da noite que a pobre menina ficou impossibilitada de se mover. O Anjo da Guarda ofereceu-lhe o seu auxílio, ajudou-a a subir para o leito e pôs-se de guarda à cabeceira. O Anjo avisava-a em muitas circunstâncias em que a sua vida podia correr perigo e indicava-lhe as precauções a tomar. Sem a sua intervenção, por mais duma vez teria sido vítima de algum acidente, tão pouco era o cuidado que tinha de si. Um dia disse-lhe [o Anjo] em tom de amável censura: “Pobre pequena, como és imperfeita; tenho de velar continuamente por ti.”

A missão dos Anjos Custódios tem como objeto principal os interesses espirituais das almas. Eles devem ser, segundo os desígnios da Providência, instrumentos de santificação para nos conduzir pelos caminhos difíceis da virtude. O Anjo de Gema não perdia uma ocasião de a repreender, de a aconselhar e mesmo de a instruir por ensinamentos cheios de celeste sabedoria, que a menina conservou em parte nas relações que enviava ao diretor espiritual. Uma vez, para que não se perdesse uma sílaba, o Anjo fez-lhe escrever alguns destes ensinamentos que ia ditando. Por sua ordem, Gema sentou-se à mesa, tomou a pena e o papel, enquanto que ele, de pé a seu lado, como um professor junto do aluno, começava: “Lembra-te que aquele que ama verdadeiramente a Jesus fala pouco e sofre tudo. Ordeno-te da parte de Jesus, que nunca digas a tua opinião, se não te for pedida, que nunca sustentes o teu sentimento, mas que cedas depressa. Quando cometeres qualquer falta, acusa-te imediatamente sem ser preciso que outros te avisem. Obediência pontual e sem réplica ao teu confessor, sinceridade com ele e com os outros; não te esqueças de guardar a vista, lembrando-te que os olhos mortificados contemplarão as belezas do Céu.”

O santo Anjo sabia usar de rigor com a sua discípula; não lhe deixava passar nenhuma imperfeição e corrigia-a sem piedade, a ponto de ela me dizer: “O meu Anjo é um pouco severo, mas sinto-me bem com isso. Nos últimos dias chegou a repreender-me três a quatro vezes por dia.” Parece até que o vigilante guarda saiu dos justos limites numa ocasião: “Ontem, escrevia-me Gema, durante a refeição levantei os olhos e vi o Anjo lançar-me olhares severos, não falava. Mais tarde ,quando fui repousar, olhei outra vez para ele, mas baixei a vista depressa; meu Deus como estava irritado! – Disse: ‘Não tens vergonha de cometer faltas em minha presença?’ Lançava-me alguns olhares tão severos... eu não fazia senão chorar. Supliquei a Deus e a minha celeste Mãe que o tirasse de diante de mim, pois não podia resistir mais. De quando em quando repetia: ‘Envergonho-me de ti.’ – Pedi para que ninguém o veja neste estado, pois os que o vissem com certeza não quereriam mais aproximar-se de mim. Sofri um dia inteiro, não pude recolher-me um só momento; o seu aspecto permanecia tão severo que eu não tinha coragem para lhe falar. Ontem de noite não consegui adormecer até que, finalmente, pelas duas horas da manhã, o vi aproximar-se; pôs-me a mão sobre a fronte dizendo: ‘Dorme, má.’ E não o vi mais.”

Não se pode dizer quanto fruto tirava deste magistério angélico a santa menina, sempre sedenta de virtude e de santidade. Atenta Às menores palavras do Anjo, cumpria de todo o coração as penitências que ele muitas vezes impunha, para ver se lhe agradava. “Repugnava-me muito, dizia-me ela, andar a dizer ao meu confessor certas coisas, como o Anjo me ordenava por penitência; todavia obedeci e, logo de manhã, violentando-me, corri a dizer-lhas. Depois desta vitória sobre mim mesma, o Anjo, muito contente, tornou-se bom para mim.” Gema amava este guarda tão dedicado pelo bem da sua alma. Tinha constantemente o seu nome nos lábios como no coração. “Querido Anjo, dizia ela, quanto vos amo! – E por quê?, perguntava ele. – Porque me ensinais a ser boa e a conservar-me na humildade.”

Não admira que este vivo afeto, numa alma simples e ingênua, desse origem a uma familiaridade que pode parecer excessiva. Ao ouvir as conversas de Gema com o seu querido Anjo, ao ouvi-la discutir vivamente para o levar a ter a sua opinião, dir-se-ia que tratava com um igual. Eu mesmo a princípio fiquei admirado, adverti-a de que era mau o seu proceder e disse-lhe que era orgulhosa, pois levava a familiaridade até ao ponto de tratar por ‘tu’ a um espírito puro em vez de tremer diante dele. Para a experimentar, proibi que ultrapassasse certos limites. A donzela baixou a cabeça e respondeu com toda a humildade: “Tendes muita razão, Padre; hei de corrigir-me. Daqui por diante direi sempre ‘vós’ ao Anjo; e quando me for dado vê-lo, testemunhar-lhe-ei grande reverência, conservando-me a cem passos atrás dele.”

Na primeira visita do celeste guarda, Gema advertiu-o da norma de conduta: “Tende paciência, querido Anjo, o Padre não está contente, preciso de mudar de procedimento.” E absteve-se de ultrapassar o limite marcado enquanto não levantei a proibição. Pela força do hábito, acontecia-lhe muitas vezes enganar-se e misturar o ‘tu’ com o ‘vós’, mas corrigia-se, mesmo em êxtase. Algumas vezes o Anjo não aparecia só, mas com outros espíritos celestes para fazerem alegre companhia à angélica irmãzinha. Logo que tive conhecimento disso, mostrei estar muito descontente e escrevi a Gema dizendo, sempre para pôr à prova a sua virtude, que era tempo de acabar. Gema respondeu: “Na verdade, Padre, não compreendo nada disso. Os outros, quando estão a rezar, veem o seu Anjo da Guarda. Se eu também o vejo, ralhais e afligi-vos. Mas ontem, dia em que eles se festejavam, despedi-os a todos. O meu não quis partir, nem o outro em que vos falei; ora que hei de eu fazer? Não vos zangueis outra vez, serei boa e obediente”.
A familiaridade de Gema com o Anjo da Guarda era simples, espontânea, cheia de humildade, como testemunham as duas seguintes aparições, tomadas entre mil e contadas pela própria menina: “Estava eu no leito, muito atormentada, quando me senti subitamente possuída dum profundo recolhimento. Juntei as mãos e com toda a força do meu fraco coração fiz o ato de contrição com uma viva dor dos meus inúmeros pecados. Estando o meu espírito absorvido pela lembrança das minhas ofensas, notei o Anjo junto do leito. Fiquei envergonhada de ver em sua presença. Ele, ao contrário, com uma amabilidade cheia de encano, disse-me: ‘Jesus tem uma grande afeição por ti, ama-O muito.’ – Depois acrescentou: Amas a Mãe de Jesus? Envia-Lhe muitas vezes as tuas saudações. Ela fica muito contente em as receber e nunca deixa de as retribuir. Se não o faz sempre sensivelmente, é para experimentar a tua fidelidade.’ – Abençoou-me e desapareceu.”

Outra visão: “Enquanto fazia as minhas orações da noite, o Anjo da Guarda aproximou-se de mim e, batendo-me no ombro, disse: ‘Gema, como é que tu levas tanto desgosto para a oração?’ – Não é desgosto, respondi, há dois dias que não me sinto bem. – Ele continuou: ‘Faze o teu dever com cuidado e Jesus te amará mais.’ – Roguei-lhe que fosse pedir a Jesus permissão para passar a noite junto de mim. Desapareceu imediatamente e, obtida a permissão, voltou para o meu lado. Oh! Como se mostrou bom! Quando estava para partir, pedi-lhe que não me deixasse ainda. – ‘Não posso, respondeu, é conveniente que eu vá’. – Está bem, ide, lhe disse eu, saudai a Jesus por mim. Lançando-me um último olhar, acrescentou: ‘Não quero que tenhas conversações com as criaturas. Quando quiseres falar, fala com Jesus e com o teu Anjo da Guarda.’

Tal é, pouco mais ou menos, o gênero das outras aparições. Daqui se pode concluir como devia ser amada de Deus esta virgem que recebia a honra de ser assim visitada, assistida e dirigida por espíritos angélicos nos caminhos da santidade. Não lhe tenhamos inveja, porque também nós recebemos do mesmo Pai celeste um Anjo para nos guardar, e se formos, como Gema, muito puros, muito humildes, simples de coração, cheios de fé e de santos desejos de perfeição, ele também nos cercará da mesma solicitude e do mesmo amor.(...)

Diz-nos o Espírito Santo que satanás, nos últimos momentos da nossa vida, sabendo que tem pouco tempo para [nos] fazer mal, nos assalta com pérfidas tentações, como um leão que vê a presa prestes a escapar-lhe. Que supremos e furiosos ataques não devia dirigir contra a angélica donzela, a quem tinha perseguido durante toda a vida com ódio mortal, e procurado vencer ou ao menos desanimar com uma guerra sem tréguas! De outros santos se lê que no fim dos seus dias tiveram que suportar assaltos do demônio mais ou menos longos e terríveis, mas passageiros. Gema, porém, suportou um ataque contínuo de sete meses, apenas interrompidos por curtos intervalos de trégua. O fato é aterrador, mas absolutamente certo, porque é unanimemente atestado por todas as pessoas que assistiram a jovem virgem durante a sua última doença.

O espírito das trevas perturbava-lhe a imaginação com mil fantasmas próprios para encher o seu coração de tristeza, de ansiedades, de temor. O seu fim era levá-la ao desespero. Representava-lhe, sob os mais tétricos aspectos, o quadro de sua vida tão cheia de angústias, as desgraças da sua família, as privações de toda ordem; fazia-lhe passar por diante dos olhos os agentes da força pública indo, depois da morte de seu pai, acompanhados pelos credores, sequestrar os bens da sua casa, depois exclamava: “Eis o resultado de todas as tuas fadigas no serviço de Deus”. Aproveitando o estado de extrema aridez espiritual em que, durante a maior parte do tempo, o Senhor a deixava para mais purificar a sua alma, o anjo das trevas empregava todos os artifícios para a persuadir de que estava irremediavelmente abandonada por Deus e que de modo algum escaparia à condenação. O tentador astucioso insinuava-lhe que as suas heroicas virtudes e mesmo os mais insignes favores divinos não eram mais que ilusão e hipocrisia. (...)

Procurou mais uma vez [o infernal inimigo] insultar o pudor virginal da santa menina. Sabia muito bem com que amor e cuidado este anjo tinha guardado, durante toda a vida, o casto tesouro, com que heroísmo tinha já sustentado, neste campo, lutas terríveis, coroadas sempre de triunfo, mas queria, senão alcançar uma vitória que julgava impossível, ao menos vingar-se das suas derrotas por meio daquelas tentações que sabia serem as mais próprias para encher de amargura os últimos dias da inocente pomba.

O quarto da enferma pareceu então estar convertido num vestíbulo do inferno. Não eram pensamentos, imaginação, impulsos lascivos, aos quais não podia ser sensível uma alma daquela têmpera; eram aparições reais sob formas sempre novas e dum cinismo brutal. “Padre, Padre, escrevia-me Gema do seu leito de dor, este sofrimento é muito intenso para mim. Pedi a Jesus que o troque por qualquer outro. Enviai, mesmo de longe, maldições e esconjuros para afastar o velhaco do demônio, ou ordenai ao vosso Anjo da Guarda que venha afastá-lo para longe daqui”.

Vencido em todos os campos, terminou por afligi-la com cruéis vexações exteriores. A enfermeira da Serva de Deus escrevia-me por várias vezes: “Esta besta hedionda acaba-nos com a querida Gema. Saio sempre de junto dela a chorar; este horrível demônio consome-a, e não vejo nenhum remédio a opor. São pancadas ensurdecedoras, figuras espantosas de animais ferozes; mata-a com certeza. Corremos em seu auxílio, lançando água-benta no quarto, o barulho cessa, mas para recomeçar pouco depois com mais raiva.”

Até onde o invisível inimigo do homem levou a crueldade para com a doce vítima! Gema sentiu melhoras quanto à dificuldade de ingerir os alimentos. Satanás, porém, estava de atalaia; logo que apresentavam a comida à doente, parecia-lhe coberta de insetos repugnantes, de tudo quanto possa imaginar-se de nojento. Perante a repugnância do estomago, era forçoso retirar tudo. Animais repelentes, reais ou imaginários, entravam-lhe no leito, iam-lhe para o corpo e torturavam-na de mil maneiras, sem que se pudesse ver livre deles. Dizia muitas vezes à irmã enfermeira com acentos de terror, que sentia uma serpente a envolvê-la da cabeça até aos pés e procurando sufocá-la.

Pediu muitas vezes que fizessem exorcismos, mas como julgassem que não deviam atender aos seus pedidos, ela mesma, voltando-se para o inimigo com o rosto inflamado, exclamou: “Espíritos perversos, ordeno-vos que entreis no lugar que vos está destinado, aliás, desgraçados de vós! Acuso-vos ao meu bom Deus.” Depois, voltada para a sua Mãe Celeste, começou a dizer: “Minha Mãe, encontro-me em poder do demônio que me fere, me flagela, trabalha por me arrancar das mãos de Jesus. Não, não, Jesus, não me abandoneis, ser-vos-ei fiel. Ó minha Mãe, pedi a Jesus por mim. De noite, estou só, cheia de terror, oprimida e como que ligada em todas as potências da alma e em todos os sentidos do corpo, sem me poder mexer. Viva Jesus!”

De tempos a tempos, o divino Mestre vinha reanimar-lhe a coragem e sossegá-la, fazendo-lhe sentir a Sua doce presença e dizendo-lhe algumas palavras: “Minha filha, por que é que, em vez de te entristeceres com as perseguições do inimigo, não aumentas a tua esperança em Mim? Humilha-te sob a minha poderosa mão, não te deixes abater pelas tentações. Resiste sempre, sem desânimo, e, se a tentação perseverar, persevera também na resistência; a luta levar-te-á à vitória”.
Outras vezes era o Anjo da Guarda que vinha confortá-la. Mas estes momentos felizes duravam pouco, em breve a sua alma recaía nas trevas e o tentador aparecia de novo, mais furioso que nunca. Deste modo se passavam, para a pobre donzela, os dias, as semanas, os meses. Que exemplo admirável de resignação e que motivo de salutar receio para nós, que não temos os méritos de Gema, na hora terrível da morte!

(Servo de Deus Padre Germano de Santo Estanislau, CP, in: Gema Galgani, Virgem de Luca. Tradução e edição do Padre Matos Soares, Porto: 1923, páginas 203-220 e 319-322).

domingo, 20 de julho de 2014

Argumentos contra modernistas: o Vaticano II não aboliu a Missa tradicional, nem a mortificação, nem a penitência, nem os exercícios de piedade devocional.


Se a Igreja abandonasse tudo que fosse “ante-conciliar”, deveria abandonar as Escrituras, os sacramentos, a tradição, os escritos dos santos padres, os exemplos dos santos, etc, e virar um mingau maçônico (não é isso que eles querem?). 

O modernista acha que a Missa tridentina é ultrapassada, peça de museu.
Imagino o modernista dizendo isso a São Vicente de Paulo ou Santo Afonso de Liguori, que rezavam a Missa tridentina. Que lição ele receberia dos mesmos!
O modernista nem mesmo conhece os documentos do Vaticano II, como o Sacrosanctum Concilium:
Sobre os ritos litúrgicos:
“4. O sagrado Concílio, guarda fiel da tradição, declara que a santa mãe Igreja considera iguais em direito e honra todos os ritos legitimamente reconhecidos, quer que se mantenham e sejam por todos os meios promovidos (…)”
Sobre o latim:
“36. § 1. Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.”
Sobre a oração, a mortificação e a penitência, além da piedade popular, algo que horroriza os modernistas, que acham que o Vaticano II aboliu tudo isso:
“12. A participação na sagrada Liturgia não esgota, todavia, a vida espiritual. O cristão, chamado a rezar em comum, deve entrar também no seu quarto para rezar a sós (29) ao Pai, segundo ensina o Apóstolo, deve rezar sem cessar (30). E o mesmo Apóstolo nos ensina a trazer sempre no nosso corpo os sofrimentos da morte de Jesus, para que a sua vida se revele na nossa carne mortal (31). É essa a razão por que no Sacrifício da Missa pedimos ao Senhor que, tendo aceite a oblação da vítima espiritual, faça de nós uma «oferta eterna» (32) a si consagrada.
13. São muito de recomendar os exercícios piedosos do povo cristão, desde que estejam em conformidade com as leis e as normas da Igreja, e especialmente quando se fazem por mandato da Sé Apostólica.”
“29 Cfr. Mt. 6,6.
30. Cfr. 1 Tess. 5,17.
31. Cfr. 2 Cor. 4, 10-11.
32. Missal Romano, 2ª feira da Oitava de Pentecostes, oração sobre as oblatas.”
Pobres seminaristas, pobres leigos iludidos pelo clero ignorante e enganados pelos maçons!
Os tradicionais poderiam usar isso como argumento contra os modernistas. É como a oração da Medalha de São Bento: “o veneno que tu me ofereces, bebe-o tu mesmo!”
Viva a Missa tridentina, viva a piedade, viva a oração, viva a penitência, viva a mortificação, viva a Igreja!

segunda-feira, 14 de julho de 2014

REVOLUÇÃO FRANCESA - PARTE 6.

A Revolução Francesa e a Igreja - PARTE 6.
Por Quadrante

É comum afirmar que a Igreja Católica, imbuída de uma mentalidade obscurantista e autoritária, opôs-se aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade pregados pela Revolução Francesa. Entretanto, um estudo mais aprofundado dos acontecimentos ocorridos na França durante esse conturbado período mostra que a realidade é bem mais complexa do que parece.
QUARTA ETAPA: A DIFÍCIL CONVIVÊNCIA

A nova Convenção eleita em 1795 espelhava claramente o descontentamento popular: 95% dos antigos deputados não conseguiram reeleger-se. No entanto, não chegava nem de longe a ser pró-católica, em parte por medo de se ver obrigada a devolver as propriedades eclesiásticas alienadas; sem muita margem de manobra quanto à religião, adotou a política de “vigiar o que não se pode reprimir”. Manteve as festas cívicas e a educação laica , e voltou a exigir um novo juramento de submissão e obediência às leis da República – “era uma mania!”, comenta Daniel-Rops –, desta vez de todos os cidadãos.



A guerra revolucionária na Bélgica
No entanto, se na França a perseguição estava refreada pela opinião pública vigilante, não acontecia o mesmo no exterior, por toda a parte aonde tinham chegado os exércitos franceses. Na Bélgica recém-anexada, renovaram-se entre 1796 e 1798 todas as medidas que já conhecemos: o cardeal Frankenberg foi deportado, a Universidade de Lovaina fechada, o culto católico proibido e as Ordens e Congregações religiosas suprimidas. Na Itália, o general Bonaparte infligia derrota sobre derrota aos Estados Pontifícios e à Áustria, sua coligada; pelo armistício de Bolonha, em 1796, e pelo posterior tratado de Tolentino, o papa Pio VI foi forçado a pagar cerca de cinqüenta milhões de ducados ao governo francês, além de se ver obrigado a ceder obras de arte, jóias e o antigo feudo de Avinhão. Por fim, pressionado pela Convenção, que queria descarregar no Papado a sua raiva contra o cristianismo, Napoleão tomou e saqueou Roma, mandou proclamar a república romana e levou Pio VI para o exílio em Florença e, mais tarde, na França. A Convenção, agora dividida em dois corpos, o Conselho “dos Quinhentos” (mais ou menos equivalente à Câmara dos Deputados) e o “dos Antigos” (mais ou menos equivalente ao Senado), tinha delegado o poder executivo a uma junta de cinco membros, o Diretório . Nas eleições de 1797, os monarquistas triunfaram, mas o Diretório deu um golpe de Estado a 4 de setembro e expulsou os deputados “brancos”. Impôs ainda um novo juramento, de “ódio à monarquia e à anarquia” – tratava-se decididamente de uma mania! –, que muitos sacerdotes não quiseram prestar porque exigia explicitamente o ódio. Em represália, renovaram-se todas as velhas leis anticatólicas: 1.500 sacerdotes franceses e 8.200 belgas foram deportados para a Guiana, de onde poucos voltariam; perseguiram-se os operários e camponeses que observavam o repouso dominical; e chegou-se ao requinte de proibir a venda de peixe nos dias de abstinência... Mas, desta vez, a “alegria” não foi longe, pois o Diretório carecia totalmente de respaldo popular. No ano seguinte, a Bélgica levantou-se em armas, e a 9 de novembro de 1799 um novo golpe desfez o Diretório, confiando o governo a uma “comissão consular executiva”: Sièyes, Roger Ducos e Napoleão Bonaparte. Era, enfim, o encerramento de um pesadelo que, para os católicos, durara quase dez anos. Quanto à Igreja, apesar dos horrores a que a tinha submetido, o vendaval da perseguição teve efeitos extremamente positivos. A Igreja Católica francesa ressurgiu purificada e renovada no seu fervor. As antigas tendências do galicanismo e do jansenismo praticamente desapareceram. A vinculação entre catolicismo e monarquia, tanto pela teoria do direito divino dos reis como pelo intervencionismo dos monarcas em assuntos da Igreja, desfez-se pouco a pouco nas consciências e na vida social. A freqüência dos sacramentos cresceu notavelmente entre o povo, de 1795 em diante, e as vicissitudes do século seguinte foram incapazes de neutralizar essa revitalização da fé. O Papa, cuja autoridade fora durante séculos contestada pela hierarquia eclesiástica francesa, se não explicitamente, ao menos na prática, surgiu como núcleo indubitável da fidelidade católica. Quando Pio VI foi conduzido através da França como prisioneiro, enormes multidões se agrupavam ao longo das estradas, rezando o terço e cantando, em desagravo pelo ultraje que lhe era feito. E o semi-cativeiro que teve de suportar até a sua morte, em 1802, foi suavizado e alegrado pelo carinho e pela devoção dos fiéis de todo o país.



À esquerda, no alto, Sièyes, e, logo abaixo, Roger Ducos, no centro Napoleão Bonaparte e à direita o Papa Pio VI

Fonte: A última ao Cadafalso, Gertrud von le Fort, Quadrante.
Tradução: Quadrante

REVOLUÇÃO FRANCESA - PARTE 5.

A Revolução Francesa e a Igreja - PARTE 5.
Por Quadrante

É comum afirmar que a Igreja Católica, imbuída de uma mentalidade obscurantista e autoritária, opôs-se aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade pregados pela Revolução Francesa. Entretanto, um estudo mais aprofundado dos acontecimentos ocorridos na França durante esse conturbado período mostra que a realidade é bem mais complexa do que parece.
A repercussão foi espantosa. A Espanha declarou guerra à França e o oeste francês, rural e conservador, levantou-se em armas “em nome do rei e da santa religião”: era a guerra civil da Vendéia, que se prolongaria numa guerrilha atroz e interminável até a época de Napoleão. Em Paris, que já não era “mais que uma grande cidade sitiada”, adiou-se a aplicação da recém-aprovada Constituição do Ano I, a primeira autenticamente democrática; a Assembléia, em mais uma das suas transformações, autoproclamou-se Convenção; e criaram-se as instituições de exceção: o Comitê de Salvação Pública, o Comitê Geral de Segurança e os Tribunais Revolucionários.



A revolta da Vendéia e os Tribunais de Salvação Pública


Em junho, os “montanheses” conseguem maioria no Comitê de Salvação Pública e, apoiados na Comuna Insurrecional de Paris, começam a eliminar os girondinos. Abre-se o período do Terror. Durante um ano inteiro, de julho de 1793 até julho de 1794, a guilhotina estará em funcionamento permanente em duas praças centrais de Paris, e cada capital de departamento disporá também da sua. Suceder-se-ão nela os diversos desafetos políticos do ditador reinante – primeiro, os girondinos, que sucumbem aos ataques de Marat; depois, os partidários de Marat e os de Hébert, destronados por Danton e Robespierre; os do mesmo Danton e de Desmoulins, derrotados por Robespierre; e por fim o próprio Robespierre, derrubado pelo conjunto dos deputados sobreviventes. As rebeliões da Vendéia, de Lyon e de Toulon serão impiedosamente esmagadas, com abundância de sangue; e a guerra nas fronteiras, conduzida por soldados esfarrapados e famintos, mas fanáticos, ganhará novo alento e salvará a República.



O assassinato de Marat
No plano religioso, passava-se da descatolicização para a descristianização aberta – a déprêtrisation, literalmente “despadrização”. Instituiu-se o divórcio e passou-se o registro civil para as mãos das autoridades municipais. Por iniciativa do procurador-síndico da Comuna de Paris, Pierre-Gaspard Chaumette, a Igreja constitucional foi por sua vez despojada dos seus bens e os palácios episcopais vendidos. Suprimiram-se os lugares de culto, transformados – a exemplo da igreja de la Madeleine, em Paris – em “panteões” onde se veneravam estátuas de Voltaire, Rousseau, Benjamin Franklin e outros ilustres iluminados, bem como dos “mártires da liberdade”, como Marat, assassinado por uma donzela girondina um tanto desequilibrada .

Todos os padres, juramentados ou não , foram intimados a entregar as suas “lettres de prêtrise”, os documentos que os acreditavam como sacerdotes; e, num lance entre cômico e trágico, o Comitê de Salvação Pública fez-se “casamenteiro”: decretou que a todo o sacerdote casado, mesmo refratário, se perdoariam a prisão e a deportação... Se os comitês de milicianos já organizavam, por conta própria, os chamados “casamentos republicanos”, em que um sacerdote era amarrado estreitamente a uma paroquiana e ambos lançados à água para se afogarem, agora será o governo em peso que assumirá a tarefa de conduzir sacerdotes e religiosos ao porto seguro do himeneu...



Acima, o novo calendário criado pelos revolucionários e, em baixo, o a festa do Ser supremo e da “deusa razão”



Desmantelada a Igreja como instituição, passou-se a combater os “vestígios da Superstição e do Fanatismo”. Criou-se um novo calendário destinado a substituir o cristão, dividido em décadis (conjuntos de dez dias, dos quais o décimo seria feriado) a fim de fazer esquecer os domingos. As festas religiosas foram substituídas por celebrações da Natureza e da Razão ou das grandes datas patrióticas. E, para celebrar a “grande data” em que diversos sacerdotes juramentados, com o arcebispo constitucional de Paris – Gobel – à cabeça, se tinham “despadrizado” em plena sessão da Assembléia, realizou-se, na catedral de Notre-Dame, a 10 de novembro, a “festa da Razão”, em que uma dançarina de branco representava a “deusa”. Essas celebrações republicanas, pautadas pelas cerimônias romanas pagãs, chegaram a estar de moda durante algum tempo, embora “não servissem senão para cobrir de ridículo os que nelas tomavam parte”...

Em começos de novembro de 1793, o presidente do clube jacobino, Robespierre, já em alta, tinha conseguido que a Assembléia reconhecesse por um decreto a existência do Ser Supremo e a imortalidade da alma, o que lhe serviria dentro em pouco para fazer condenar os seus rivais Danton e Desmoulins por “ateísmo”. Um pouco mais tarde, arrancou à Assembléia um decreto sobre a liberdade de culto, do qual ninguém quis tomar conhecimento. Mas não havia, por trás dessas medidas, nenhuma simpatia pelo cristianismo, e sim apenas a mística revolucionária na sua expressão mais pura. O maior triunfo pessoal do ditador foi presidir como sumo-sacerdote à procissão e festa “do Ser Supremo e da Natureza”, a 8 de julho de 1794. E, por mais vinte dias, poderia ainda alimentar a ilusão de que tinha substituído o cristianismo pela sua própria religião ...

A Igreja constitucional ruiu quase inteiramente sob os golpes. 24.000 de 29.000 sacerdotes juramentados abandonaram o hábito e a vida sacerdotal, e até a prática religiosa. Além do nosso conhecido Gobel – “o povo pediu a minha presença, o povo agora manda-me embora: é o destino de um servo às ordens do seu mestre” –, vinte e quatro bispos juramentados apostataram publicamente, enquanto vinte outros renunciaram ao sacerdócio ou se secularizaram. Apenas um terço permaneceu firme, entre eles o antigo pe. Grégoire, agora bispo de Loire-et-Cher, que vimos jurar com tanto entusiasmo a Constituição civil, e que foi o único eclesiástico a permanecer na Convenção durante esse período, ousando desfraldar as suas vestes roxas pelas ruas de Paris:
“Católico por convicção e por sentimentos, sacerdote por vocação, fui designado pelo povo para ser bispo, mas não foi dele nem de vós [os seus colegas deputados] que recebi esta missão”...

Também entre os juramentados houve heróis e até autênticos mártires: mais de quinhentos sacerdotes foram enviados à guilhotina em Paris, e oito bispos tiveram o mesmo destino. E, como em todo o ser humano resta sempre a possibilidade do retorno à nobreza interior, o nosso ignóbil amigo Gobel, que foi preso pouco depois da apostasia e condenado à decapitação por “incitar o povo ao ateísmo”, ainda teve tempo de escrever ao seu vigário que oferecia a vida em expiação
“pelos crimes e escândalos que havia cometido”, pedindo-lhe que o esperasse junto do cadafalso para lhe dar a absolvição.

Quanto à Igreja que permanecera fiel, como tinha tido tempo de organizar-se na clandestinidade, sofreu menos com essa tormenta. Muitos sacerdotes viviam ocultos havia mais de três anos, e não faltavam fiéis dispostos a escondê-los e a passá-los de casa em casa, mesmo sabendo que corriam risco de vida. No interior, as dioceses haviam-se organizado em “missões” subterrâneas: a catequese era dada por leigos, em pequenos grupos, e os sacerdotes só permaneciam numa aldeia durante uma noite, o tempo suficiente para celebrar a missa, confessar e batizar os recém-nascidos, mantendo-se escondidos durante o dia. Graças a essa renovada “Igreja das catacumbas”, quando Robespierre cair , em julho de 1794, terão sobrevivido no próprio coração da tempestade, em Paris, nada menos que cento e cinqüenta lugares onde se celebrava freqüentemente a missa.

Mesmo assim, não foram poucas as baixas sofridas pelos católicos. Os que eram presos e destinados ao exílio na Guiana foram concentrados em Rochefort; mas, como os ingleses impediam o trânsito de navios franceses pelo Atlântico, foram confinados em dois barcos-prisão por meses a fio, num suplício que recebeu o apelido de “guilhotina seca” ( sem sangue ); ao cabo de um ano, de 850, apenas sobreviviam 274. Milhares de sacerdotes – os números variam entre dois e cinco mil – foram guilhotinados, afogados, arrastados por cavalos ou simplesmente mortos a pauladas.

O número de leigos que deu a vida pela fé é incontável. Houve cenas com um inconfundível sabor a primitiva cristandade, pois em muitos casos bastava a confissão da fé diante do Tribunal Revolucionário para condenar o acusado à morte. – “Você é fanático?”, perguntou um dos juízes de Lyon a um certo Auroze, comerciante: – “Serei tudo o que vocês quiserem, mas sou católico”, foi a simples resposta. Resultado: guilhotina. E foram também numerosas as religiosas que subiram ao cadafalso, como as carmelitas de Compiègne, as sacramentinas de Bollène, as ursulinas de Valenciennes e as filhas da Caridade de Arras.

Nem todos os que morreram durante o Terror foram mártires, como é evidente; ou seja, nem todos morreram unicamente pela fé. Da parte dos perseguidores, o ódio à monarquia e aos “traidores da pátria”, como consideravam os refratários, misturou-se e muitas vezes predominou sobre o ódio à religião; da parte dos perseguidos, essa incapacidade de discernir entre o político e o religioso também esteve presente com freqüência. Mas os requintes de crueldade de que se revestiram precisamente os massacres de sacerdotes e religiosos, e o encarniçamento satânico contra todos os símbolos cristãos – destruíram-se os belíssimos vitrais de quase todas as igrejas góticas, arrasaram-se mosteiros de antiqüíssima tradição como Cluny, arrancaram-se até as simples cruzes de madeira fincadas à beira das estradas – mostram com clareza que se assistia ao desencadeamento de algo mais do que meras paixões políticas: como Cristo , também os cristãos tiveram de submeter-se à hora e ao poder das trevas (Lc 22, 53).

No dia 28 de julho, Robespierre subia por sua vez à guilhotina. A França, tomada pela “náusea do cadafalso”, respirou aliviada. Em questão de dias, o clima social virou, e uma onda de fervor religioso tomou conta da Nação. Sem que a Convenção tivesse abrandado as leis em vigor, sacerdotes e bispos exilados começaram a retornar, os clandestinos saíram dos seus refúgios, as igrejas foram reabertas.



As noyades (afogamentos) em Nantes de Carrier
A 21 de fevereiro de 1795, votava-se uma lei de separação entre Igreja e Estado, que permitia a liberdade de culto. Os sacerdotes ainda prisioneiros foram libertados. Voltou-se a celebrar a Páscoa segundo o calendário católico, embora oficialmente permanecesse em vigor o revolucionário.


Fonte: A última ao Cadafalso, Gertrud von le Fort, Quadrante.
Tradução: Quadrante
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