quarta-feira, 25 de junho de 2014

Anglicanismo: cisma e heresia.


Anglicanismo
Por Quadrante

Em 1534, o Parlamento inglês votava o “Ato de Supremacia”, que proclamava o rei Henrique VIII da Inglaterra, zeloso pela fé católica no início do seu governo, o “único e Supremo Chefe da Igreja na Inglaterra”
O rei Henrique VIII (1509-1547) da Inglaterra mostrou-se, nos inícios do seu governo, zeloso pela fé cristã tradicional, a católica. Em 1521, escreveu uma Afirmação dos Sete Sacramentos contra a doutrina de Lutero, que lhe valeu do Papa Leão X o título de “Defensor da Fé”. Em 1509, desposou Catarina de Aragão, viúva de seu irmão Artur; deste casamento teve vários filhos que morreram muito jovens, dos quais só Maria Tudor ficou viva.

Apaixonado por uma dama da corte, Ana Bolena, e obsessivamente preocupado pela falta de um herdeiro masculino, o rei procurou dissolver o seu casamento com Catarina, alegando que fora nulo porque os nubentes eram cunhados em primeiro grau. O pretexto era falso, porque o Papa Júlio II lhe havia concedido, a pedido do próprio rei, a dispensa exigida pelo Direito canônico para o casamento com Catarina; além disso, Henrique só trouxe à tona esse “impedimento” depois de dezoito anos de vida conjugal.

Em janeiro de 1531, o Papa proibiu a Henrique novas núpcias enquanto a causa estivesse sob exame por parte de uma comissão de cardeais encarregada de julgar o assunto. O rei, vendo que lhe restava pouca esperança de obter a anulação, resolveu solicitar a dissolução do seu casamento à hierarquia da Inglaterra. Por outro lado, Thomas Cromwell, obscuro advogado que adquirira grande influência sobre o rei, aconselhava-o a separar-se de Roma a exemplo dos príncipes alemães luteranos. Em fevereiro desse mesmo ano, uma assembléia do clero proclamou Henrique “Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra”, embora com a cláusula “na medida em que a Lei de Cristo o permite”.

Em 1532, o rei elevou à sé arquiepiscopal de Canterbury, a sede primaz da Inglaterra, o sacerdote Thomas Cranmer, que tinha entrado em contato com o luteranismo numa viagem à Alemanha. Cranmer aceitou declarar nulo o casamento de Henrique VIII, de modo que este se casou em 1533 com Ana Bolena. O Papa respondeu excomungando o monarca e declarando válido o casamento com Catarina.

O cisma estava às portas: em novembro de 1534, o Parlamento inglês votou o “Ato de Supremacia”, que proclamava ser o rei o “único e Supremo Chefe da Igreja na Inglaterra”; os súditos que não reconhecessem esse ato seriam punidos com a morte. A grande maioria do clero submeteu-se, talvez porque estivessem acostumados à idéia de uma Igreja nacional e bastante mundanizados. Mas diversos leigos, religiosos e clérigos resistiram, chegando até ao martírio, entre os quais o ex-chanceler e humanista Thomas More e o bispo John Fisher. Iniciou-se então uma perseguição aos católicos; muitos mosteiros foram fechados, relíquias e imagens foram profanadas e destruídas. Apesar do cisma e das pressões luteranas, o rei tinha ainda a pretensão de “conservar íntegra” a fé católica na Inglaterra; combatia tanto a adesão ao Papa quanto as inovações religiosas do continente.

Henrique teve por sucessor um menino de dez anos, que lhe nascera do terceiro matrimônio. Este menino, Eduardo VI, teve como tutores o duque de Somerset e o de Northumberland que, juntamente com o arcebispo Cranmer, muito trabalharam pela introdução da teologia calvinista na Inglaterra. Houve revoltas em diversos condados e as desordens se avolumaram a tal ponto que, quando Eduardo VI morreu em 1553, aos dezesseis anos de idade, a nação em peso se pronunciou pela princesa Maria Tudor, filha de Henrique VIII e Catarina, contrariando a designação que Eduardo fizera em favor de Joana, cortesã de sangue real, protestante.

Maria Tudor era católica convicta e procurou restaurar o catolicismo, apoiada pelo seu primo, o cardeal Reginald Pole, legado papal. O Parlamento votou a reunião da Inglaterra com a Santa Sé em 1554. Mas a rainha, infelizmente, aplicou contra os protestantes os mesmos métodos que o seu pai, o que lhe granjeou o apelido de Bloody Mary (Maria a Sangrenta). Os prelados depostos por Eduardo VI foram restituídos às suas sedes, enquanto os calvinistas, vindos do estrangeiro, foram expulsos. O zelo excessivo da rainha, embora em parte favorecido pelo povo, encontrou desaprovação por parte dos próprios católicos, que se tornaram avessos à rainha. Esta tornou-se ainda mais impopular pelo seu casamento com Filipe II, na ocasião herdeiro do trono da Espanha. Depois que morreu sem deixar herdeiros, em 1558, extinguiu-se a restauração católica na Inglaterra.

Sucedeu-lhe no trono uma filha de Ana Bolena com Henrique VIII: a rainha Elisabeth I (1558-1603). A nova soberana elevou a Inglaterra a um extraordinário poder político e econômico. A sua religiosidade era misteriosa: convertera-se ao catolicismo sob Maria e, elevada ao trono, continuava a freqüentar a missa, confessar-se e comungar. Essas atitudes, porém, não eram profundas e cediam aos seus interesses políticos. No dia de sua coroação, jurou conservar a religião católica no país; no entanto, como os católicos a consideravam ilegítima e propunham Maria Stuart da Escócia como herdeira legítima do trono, Elisabeth se inclinou de maneira crescente para o protestantismo, libertando os pregadores calvinistas presos na Inglaterra e chamando de volta os exilados.

Ao mesmo tempo que fomentava o protestantismo calvinista entre o povo, procurou também restaurar a hierarquia episcopal, que deveria ser oficialmente católica, mas nacional, tendo por chefe a Rainha e não o Papa. Quase todas as sés estavam vacantes desde os tempos de Henrique VIII e Eduardo VI. Elisabeth nomeou arcebispo de Canterbury o seu antigo capelão Matthew Parker, que recebeu a sagração episcopal em 17.12.1559, na capela de Lambeth, segundo um ritual composto no tempo do rei Eduardo VI. O sagrante foi um bispo deposto, William Barlon, ex-titular da diocese de Beth, validamente ordenado em tempos de Henrique VIII. Parker, uma vez ordenado bispo, ordenou outros bispos, reconstituindo assim a hierarquia na Inglaterra.

Após longos estudos feitos por peritos que investigaram de perto os fatos, o Papa Leão XIII declarou inválidas as ordenações anglicanas em 1896, com base em dois motivos: a) insuficiência do rito (o “Ordinal” de Eduardo VI excluía qualquer alusão à missa como sacrifício de Cristo perpetuado sobre os altares pelo ministério dos sacerdotes); b) falta da intenção devida (William Barlon queria constituir uma hierarquia diversa daquela que Cristo fundou, desvinculada da Sé de Pedro). É por isso que a Igreja Católica até hoje não reconhece as ordenações anglicanas, embora o assunto ainda possa voltar a ser estudado com base em novos aspectos que os estudiosos têm trazido à tona recentemente. Este ponto é decisivo para a restauração da comunhão entre a Santa Sé e Canterbury. O reatamento, no entanto, vem sendo dificultado pela ordenação de mulheres para o presbiterado e até para o episcopado; dentro da Comunhão Anglicana, este fato tem aberto distância crescente entre os anglicanos, por um lado, e os católicos e ortodoxos, pelo outro.

A atitude ambígua da rainha Elisabeth deu origem ao pluralismo doutrinal no seio da Igreja anglicana. Costuma-se distinguir nela a high church (“alta Igreja”), que mantém praticamente toda a doutrina católica, a liturgia anterior ao Concílio de Trento e a maior parte dos Sacramentos; a low church, muito próxima dos calvinistas na doutrina e no culto; e algumas vezes também a broad church (“Igreja ampla”), que tenta conciliar as duas tendências. Dentro da high church, distinguem-se ainda as tendência anglo-católica (que é praticamente cem por cento católica na doutrina, mas não reconhece o primado do Papa) e anglo-papal ou anglo-papalista, que defende a volta à comunhão com a sé de Pedro. A high church defende a teoria da via media, isto é, que a autêntica doutrina cristã e católica se encontraria “no meio”, entre os “excessos romanos”, por um lado (de culto aos santos, etc.), e os “excessos protestantes”, pelo outro (supressão do sacerdócio e dos sacramentos, justificação somente pela fé). É definida às vezes como a “porta de acesso ao catolicismo” para os protestantes de diversas denominações. G.K.Chesterton, anglicano, comentou ao converter-se à Igreja católica que, afinal de contas, “uma porta é apenas um lugar de passagem”.

Houve diversas tentativas para se chegar à unidade doutrinal e litúrgica no seio do anglicanismo. Na prática, o denominador comum passou a ser o Common Prayer Book (“Livro de oração comum”), que regula a liturgia desde tempos do rei Jaime I, e os 39 Artigos formulados em 1571 por um sínodo de bispos, que pretendem comentar uma série de questões doutrinais controversas, mas foram formulados de modo muito impreciso e admitem todas as interpretações. No entanto, até hoje exige-se dos clérigos uma declaração de conformidade com os 39 Artigos antes da ordenação.

No século passado (século XIX), registrou-se na Inglaterra o chamado Movimento de Oxford, chefiado por teólogos anglicanos, entre os quais John Henry Newman, professor do Oriel College, era a melhor cabeça. Propunha-se renovar o anglicanismo por meio da pesquisa da literatura teológica dos primeiros séculos do cristianismo, os Padres da Igreja; no entanto, mediante esse retorno às fontes, verificaram que era a Igreja Católica que havia guardado na íntegra a mensagem de Cristo e das primeiras gerações cristãs. Esse movimento deu forte impulso à high church, no seio da qual voltaram a surgir comunidades religiosas, inicialmente só femininas, mas depois também masculinas; e, de maneira semelhante ao que acontece no catolicismo, surgiram também associações sacerdotais. Mas o movimento sofreu um certo anticlímax quando o seu expoente, Newman, se converteu à Igreja católica romana, juntamente com muitos outros anglicanos de destaque.

A Igreja anglicana estabeleceu comunidades análogas nas diversas colônias inglesas: são a Igreja episcopaliana nos Estados Unidos, a anglicana canadense, as dos diversos países africanos de tradição britânica etc. São todas autônomas entre si e governadas pelos sínodos dos respectivos bispos, embora reconheçam formalmente como chefe comum o rei da Inglaterra e se considerem parte da “comunhão anglicana”. Via de regra, as mesmas tendências que há na Igreja anglicana estão também representadas nelas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Estêvão Bettencourt, Religiões, Igrejas e seitas, Lumen Christi, Rio de Janeiro, 1997.

Manuel Guerra Gómez, Los nuevos movimientos religiosos, EUNSA, Pamplona, 1993.
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