segunda-feira, 30 de junho de 2014

O Dinheiro e a Usura.

O dinheiro
Por Régine Pernoud

Este artigo traça um breve histórico do desenvolvimento do comércio e do mercado financeiro e a reação da Igreja frente as injustiças sociais ocasionadas por ele. É um capítulo do livro “A burguesia”, escrito pela eminente historiadora francesa.
O maneio do dinheiro caracterizou sempre a burguesia; inseparável do comércio, factor inegável de progresso, uma vez que é a base da economia de mercado, esse maneio que atinge no nosso tempo desenvolvimentos insuspeitos aquando das origens da burguesia, foi contrariado e limitado durante os tempos medievais e mais tarde ainda, pela legislação eclesiástica, sempre em vigor em Direito, ainda que caída em desuso, a partir do século XIX.

Esta legislação, precisada no Código de Direito Canônico de 1917, que mantém na posse dos clérigos a interdição da prática de usura, entende essa palavra no sentido de “empréstimo com lucro”, por outras palavras: proveito extraído de um empréstimo de dinheiro. O termo: usurário, na época feudal, designa aquilo a que chamamos banqueiros, manipuladores de dinheiro.

Temos, aliás, a tendência para simplificar abusivamente as fases por onde passou a condenação da usura; para relembrar resumidamente as principais etapas, o combate havia sido iniciado nesse ponto pelos Padres da Igreja, Clemente de Alexandria, no início do século III, mas sobretudo São Gregório Nazianzeno e os dois irmãos São Basílio e São Gregório de Niza, que denunciam incansavelmente os danos da usura no mundo romano e a sujeição que ela implica, levando quase automaticamente os mais pequenos ao poder dos que detêm o dinheiro. Fundamentam-se nas prescrições da Bíblia, Antigo e Novo Testamentos, e denunciam a incompatibilidade entre o Evangelho e a usura, quer dizer, mais valia produzida pelo pagamento de um lucro pelo dinheiro emprestado. Pouco a pouco, é elaborada toda uma doutrina no seio da Igreja, que impregnará as massas. O dinheiro em si é improdutivo: o que ele produz é o facto do trabalho de quem beneficiou com o empréstimo. Aristóteles tinha-o constatado e filosoficamente estabelecido, mas no mundo antigo essa constatação mantinha-se no plano do pensamento, sem conseqüência prática sobre a vida humana – um pouco como as aquisições científicas se tomavam em ciência pura e não se realizavam ao nível da técnica. Todavia, a sua influência será profunda no momento em que, a meio do século XIII se vai operar a síntese entre pensamento aristoteliano e pensamento cristão. Mas, muito tempo antes, a usura, livre no mundo antigo, encontrava-se condenada no mundo cristão. Não somente, como já se disse e repetiu, devido ao famoso versículo do Evangelho: “Empresta sem nada esperar em troca”, mas porque o empréstimo com lucro é, nessa qualidade, uma hipoteca sobre o trabalho do próximo, logo, uma forma de exploração contrária à caridade. Todo o objecto mobiliário ou imobiliário, logo que é emprestado, presta um serviço efectivo e sofre uma certa degradação, o que justifica o pagamento de um aluguer: quer se trate de um campo, de uma casa, etc. Sempre que se trata de um empréstimo de dinheiro, pelo contrário, num tempo em que as moedas consistem num metal precioso que não se altera, a soma emprestada deve ser devolvida sem lucro, uma vez que o serviço que prestou só será válido quando um trabalho o faça frutificar, e o dinheiro devolvido conserva o valor que tinha no momento do empréstimo, sem degradação. Os Padres da Igreja teceram condenações extremamente violentas no que respeita à usura. Para São Basílio, aquele que empresta com usura comete um crime, porque aquele a quem empresta torna-se seu escravo. O concílio de Elvira (cerca do ano 300) ordenava excomungar o clérigo que tivesse recebido usuras, quer dizer, lucros com dinheiro (cânone 20, aplicável em toda a Espanha).

O Concilio de Nicéia de 325, através do seu cânone 17, alargava esta interdição à Igreja universal. No tocante aos laicos, as interdições seriam mais tardias; elas só terão um alcance prático com a legislação de Carlos Magno (Admonitio generalis de Aix-la-Chapelle, 789). O Decreto de Graciano (cerca de 1140) exprime bem os pontos essenciais dessa mentalidade: primeiramente no que diz respeito ao comércio: “É difícil, senão impossível, ao negociante agradar a Deus”, especificando bem: “Aquele que compra uma coisa, não para a vender integralmente e sem lucro, mas a fim de se servir dela para fabricar qualquer outra coisa, não é um negociante. Mas o homem que compra uma coisa para obter um lucro, vendendo-a tal qual a comprou, este homem é um dos compradores e desses negociantes que foram expulsos do Templo de Deus”. Ora, retoma ele, “de todos os negociantes, o mais maldito é o usurário, porque vende uma coisa dada por Deus, mas adquirida pelos homens (ao contrário do negociante) e depois da usura ele retoma a coisa com o bem de outrem, aquilo que o negociante, não faz”. Objectar-se-á: “Aquele que aluga um campo para receber uma renda ou uma casa para obter um aluguer, não será semelhante a quem empresta o seu dinheiro a juros?” Certamente que não. Primeiro, porque a única função do dinheiro é o pagamento de um preço de compra; depois, o rendeiro faz frutificar a terra; o locatário frui da casa: nestes dois casos, o proprietário parece dar uso do seu bem para receber dinheiro e, de um certo modo, trocar o ganho por ganho, enquanto que com o dinheiro avançado ele não pode fazer qualquer uso; finalmente, o uso esgota a pouco e a pouco o campo, degrada a casa, enquanto que o dinheiro emprestado não sofre nem diminuição, nem envelhecimento”.

Mas, concorrentemente a esta mentalidade geral, o gosto do lucro cresce na época e encontra-se estimulado pelo intenso desenvolvimento do tráfico internacional, principalmente do tráfico Oriente-Ocidente. Notemos que o lucro do comerciante que transporta do Oriente especiarias é então considerado como legítimo, porque ele compensa as despesas e as fadigas nos preços de quem as procura e de quem as leva até às grandes feiras da Champagne, da Île-de-France ou qualquer outro sítio. O comércio, assim compreendido, é uma verdadeira função indispensável à vida da cidade. A distinção será fortemente estabelecida a partir do século XIII; apenas o lucro puro é considerado como condenável, e um tal Jean Gerson, no século XV, formulará em termos perfeitamente claros esta condenação: “Vender uma coisa mais cara do que o preço de compra, se o ganho em excesso é assinalável, tendo em consideração todas as dificuldades, os perigos, os melhoramentos, de que deve ser indemnizado, deve ser considerado como uma falta, e uma falta mais grave se, sendo feita, se aproveitar da necessidade do próximo”. Por outras palavras, a “lei” da oferta e da procura é condenada; o comércio, ele próprio, é coisa, não somente lícita, mas útil: aquilo que se condena é o lucro puro, obtido a expensas do próximo. Um Santo Tomás encarava, aliás, de bom grado a organização do comércio, indispensável à vida dos homens, num plano colectivo: os bens necessários à vida, ao conforto, ao prazer de todos os cidadãos, podem do mesmo modo ser transportados por iniciativa da própria cidade. Não podemos deixar de chamar a atenção para o facto de, na época, não ser considerado acção colectiva tudo o que diz respeito à produção, a qual necessita de uma iniciativa individual e pede para ser estimulada pelo ganho individual, mas que, em compensação, tudo o que diz respeito ao transporte e distribuição, aquilo a que chamaríamos o colectivismo é considerado e parece perfeitamente defensável.

No que diz respeito à usura, longe de se contentar com interdições lançadas de uma vez por todas, a procura está então muito activa. Sem pretendermos tornar-nos pesados com os pormenores, indiquemos que, a partir do século XIII, foram formulados os célebres “casos” que os teólogos da Sorbonne só definirão expressamente no século XVII.

Esses “títulos extrínsecos” que autorizam, aos olhos dos teólogos, a percepção de uma certa soma pelo mutuante, logo que entra na posse do seu capital, são bem conhecidos; todos os canonistas enumeraram assim, Damnum emergens, sempre que o mutuante sofre um prejuízo; Lucrum cessans, na ausência de lucro; Periculum sortis, em compensação do risco de perda do seu capital; foram admitidos a partir do século XIII. Tendo-se verificado no século XV uma nova expansão da actividade económica, especialmente em Itália e nos países da Europa Central, uma nova procura se impunha e é então que teólogos canonistas como Santo Antonino de Florença ou São Bernardino de Sena, debruçando-se sobre o estudo dos problemas económicos, criam a noção de capital produtivo: o dinheiro emprestado, não apenas para solucionar uma necessidade momentânea, mas para iniciar uma actividade produtora de bens. Neste caso, é legítimo que o mutuante receba uma parte dos bens produzidos, na condição, todavia, que o seu dinheiro tenha corrido os riscos do empreendimento; por outras palavras, cria-se então a noção de investimento e condena-se, em nome do Evangelho, a do capital garantido. Ainda uma outra excepção vai ser considerada: stipendium laboris, a retribuição dos serviços daquele que emprestou, como seria, nos nossos dias, o salário dos seus empregados.

Por outras palavras, ao longo dos séculos, a disciplina eclesiástica não deixou de evoluir, considerando todas as condições novas que poderiam surgir. Ela também não deixou de considerar como fundamentalmente anticristã a própria noção de empréstimo com lucros; e do mesmo modo, como contrário ao espírito da caridade – essencial à vida evangélica –, toda a tentativa de monopólio ou de açambarcamento dos bens de consumo. Também, no século XVIII, se vai desencadear um verdadeiro tumulto entre, por um lado, teólogos e canonistas e, por outro lado, os defensores das doutrinas liberais, os quais têm essencialmente como objectivo “liberalizar” as relações entre compradores e vendedores, quer dizer, dar ao mais poderoso toda a independência face ao mais fraco. Nessa época, todos os princípios da economia “boa e leal” praticada nos tempos medievais: o preço justo, tudo o que fosse uma concorrência baseada na qualidade do produto, a interdição imperativa das compras massivas permitindo aos capitalistas-comerciantes controlar o mercado de trabalho, são tratados como reaccionários e ridicularizados. É então que o papa Bento XIV dirige em 1745, em honra dos bispos de Itália, a famosa carta Vix pervenit, que renova expressamente a condenação do empréstimo com lucros, alargada seguidamente a toda a Igreja.

A CONSCIÊNCIA TRANQUILA

Acontece que, entretanto, se verificou um movimento que modificou, em profundidade, a mentalidade geral: a Reforma. Embora esta tenha sido freqüentemente discutida ou contestada, a sua influência não parece negável no que concerne ao maneio do dinheiro. Várias vezes foi citada a célebre frase de Calvino: “Por que razão não se permite aos possuidores de um determinado montante de dinheiro retirar uma soma qualquer, quando se permite ao proprietário de um campo estéril arrendá-lo mediante uma renda?” Formulada, na época, por numerosos juristas e teóricos, esta proposta, que punha em causa a esterilidade do dinheiro nessa qualidade, terá uma influência dominante em todo o lado onde se estabelecer a Reforma. Aí remonta a alteração do sentido do termo usura, que designava até então todo o lucro proveniente de dinheiro, e passará somente a designar o lucro excessivo recebido através de empréstimo de dinheiro. Além disso, e sob a mesma influência, a riqueza torna-se símbolo de prosperidade, símbolo da bênção de Deus – um sentimento herdado do Antigo Testamento, ou, pelo menos, de certos livros do Antigo Testamento, antes da passagem dos profetas.

Por outras palavras, o rico podia, futuramente, ter a consciência tranqüila; era superar um passo capital. Até então, e especialmente durante o período feudal, o rico não podia ter a consciência tranqüila. Constituía, aliás, uma excepção, e uma excepção visível, numa sociedade onde as irregularidades de fortuna eram muito pouco sensíveis. Os que conseguiram obter grandes fortunas eram os comerciantes, e sobretudo os que faziam o comércio do dinheiro: aqueles a que se chama Lombardos, até porque é justo reconhecer que, naquela época, em matéria de manipulação de dinheiro, foram os italianos que inventaram tudo. Ora, estes Lombardos, quando a sua fortuna ultrapassa o que parece razoável, vêem-na confiscada, tal como acontece aos usurários judeus.

A batalha decisiva sobre esta questão do maneio do dinheiro verifica-se em França, durante o século XVIII, onde a burguesia, tal como a nobreza, conhecem a “doce vida”; ela resume-se à batalha a favor ou contra o empréstimo a juros, iniciada pelo pequeno clero contra a grande burguesia.

A obra capital de Bernard Groethuysen, A Igreja e a Burguesia, indica o número incrível de sermões, panfletos e escritos diversos, pelos quais se exprimiram as duas posições, por um lado a da Igreja, por outro a dos financeiros; mas estes encontram-se apoiados pela filosofia do tempo, a qual se apresenta aqui sob o seu duplo aspecto, ao mesmo tempo legalista e optimista. Uma confiança absoluta nas “leis naturais” leva a ver, no livre jogo dessas “leis”, a condição de uma prosperidade geral. É conhecido o famoso apóstrofe de Turgot: “Sem juros, não há empréstimos; sem empréstimos, não há dinheiro; sem dinheiro, não há comércio, não existem negócios, tudo morre, tudo está perdido”. Conhecem-se bastante pior os escritos desses membros, quase sempre provenientes do pequeno e do médio clero, que à análise se revelam fortemente perspicazes: “Os que pedem emprestado indemnizam com os juros que pagam; os negociantes de venda por grosso encontram essa indemnização nos negociantes de venda a retalho, e estes no povo que suporta, assim, os juros dos empréstimos do comércio, dos depósitos a prazo e à ordem, das letras de câmbio, etc., bem como o excedente dos preços das mercadorias vendidas a crédito, ou compradas a prazo... Todo o prejuízo, todos os danos recaem sobre o público e, por conseguinte, sobre os pobres que formam a maioria” (Traité, de Hyacinthe de Gasquet, 1766). Essas mesmas vozes impotentes, sufocadas por tudo aquilo que contar para a época, no pensamento como nos negócios, manifestavam, todavia, uma estranha lucidez e têm hoje valor profético: “Os que empilham bens uns sobre os outros sem fim, sem medida; os que juntam todos os dias novos campos e novas casas às suas antigas heranças; os que acumulam quantidades extraordinárias de trigo, para o vender quando a ocasião lhes for mais favorável; os que emprestam com usura, aos pobres ou aos ricos – pensam nada fazer contra a razão, contra a igualdade, enfim, contra a lei divina, porque eles não prejudicam ninguém, segundo eles, e ajudam aqueles que sem isso passariam por grandes necessidades... e, por conseguinte, é uma grande injustiça, e uma injustiça que encerra muitas outras, que uma só pessoa possua tantas terras, e casas, e todos os dias pense em adquirir mais e mais, o que não pode acontecer sem que se desaposse um grande número de antigos proprietários; que uma só pessoa possa recolher os frutos de todas as terras, de um país bastante grande e prive uma enorme multidão de homens, reduzidos por este meio à mendicidade; que uma só pessoa atraia para a sua casa toda a fertilidade dos campos e force tanta gente a viver das suas esmolas; que um só homem queira ser o dono da vida e da morte de um povo inteiro... É a maior das injustiças... porque é declarar a guerra à espécie humana e afastar mais gente dos seus bens, coisa que a guerra não faria”. Estas linhas foram escritas em 1697, por um tal Padre Thomassin, num Tratado do negócio e da usura, de que ninguém fez grande caso. Se elas não puderam conhecer as alterações que, no século XIX, substituíram a sociedade anónima pelo proprietário possuidor e que, no século XX, deram a essas sociedades, até mesmo a um Estado todo-poderoso e único detentor das actividades de uma nação, um poder aproximadamente sem limites, pelo menos encontram-se nelas, por antecipação, o esquema das estruturas económicas levadas a cabo em todo o Ocidente pela burguesia.

Do mesmo modo, ela não se enganou naquela época. É um bloco anticlerícal, pelo menos da burguesia dos negócios e – o que volta sensivelmente ao mesmo – a dos filósofos. Um só ficará à margem: Jean-Jacques Rousseau, que morre pobre.

Após o primeiro obstáculo, transposto no início do século XVI, é um segundo obstáculo no século XVIII: elabora-se uma verdadeira doutrina do lucro pelo maneio do dinheiro, que encontra nela própria a sua própria justificação e que, notemos, manter-se-á imutável e, aliás, muito raramente posta em causa até ao nosso tempo.

Certamente que o gosto e o desejo do lucro estão na própria natureza do homem e são, aliás, inseparáveis da vida, e factores evidentes de progresso. O que era novo era erigir em “lei natural” uma função económica, proclamar como um imperativo do progresso aquilo que havia sido, em certos casos, anteriormente tolerado, mas a título de expediente e como um mal menor. A doutrina do lucro apresentar-se-á, de ora avante, como um absoluto justificado, aliás, por deslumbrantes êxitos. Pode-se-lhe atribuir certamente a parte mais notável dos progressos concluídos no equipamento na Europa e em geral no Ocidente; e será interessante salientar que esse desenvolvimento de que, hoje, toda a gente beneficia, teria sido impossível sem o maneio do crédito e o espírito do lucro a que presidiu. Mas temos igualmente o direito de nos questionarmos se o excessivo passivo que comportou esse desenvolvimento terá sido inevitável.

O ACTIVO E O PASSIVO DO PROGRESSO

Hoje, basta resumir semelhante questão, uma vez que o conteúdo é geralmente conhecido. No século XVIII esse passivo é representado pelo empobrecimento dos campos, num tempo onde, segundo o exemplo da Inglaterra, começa o movimento de exploração capitalista da terra: a terra deve produzir, e o camponês era, de facto, infinitamente menos defendido que sob o regime da servidão feudal, que lhe garantia a tranqüila posse do campo que cultivava. Além disso, o século XVIII, tanto quanto o século XVII, é o da escravatura, e os filósofos são unânimes em exigir, aquando do tratado de paz com a Inglaterra, que sejam conservadas as Antilhas, onde o trabalho dos escravos garantia enormes lucros tanto aos plantadores como aos armadores. Recordemos que Montesquieu era um dos accionistas da Companhia da índias, gozando do monopólio do comércio negreiro, enquanto que cada um conhece a posição de Voltaire, comparando esses campos de café e de açúcar tão produtivos a “alguns arpents de neve” do Canadá.

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() Arpent é uma antiga medida agrária francesa que valia 50 a 51 ares, conforme as regiões. (N. do T.)

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No século XIX, o passivo do desenvolvimento industrial seria representado pela exploração elevada hoje a um grau dificilmente crível pelo trabalhador industrial, homem, mulher ou criança. A Revolução tinha desembaraçado nesse domínio, libertando o trabalho de todos os regulamentos de controlo e juranda. A liberdade do trabalho tornada total, traduziu-se, de facto, no esmagamento dos trabalhadores. Foi necessário quase um século para que, nesse particular domínio, o termo fosse desmistificado, ou antes, o seu emprego: uma liberdade de direito traduzia-se numa exploração de facto, deixando face a face o possuidor e aquele que, para viver, apenas podia contar com a força dos seus braços.

O passivo do desenvolvimento industrial fez-se sentir, numa perfeita continuidade, entre o Antigo e o Novo Regime, sobre todos os territórios de além-mar, não tendo sido nunca as guerras coloniais tão extensas e tão sistemáticas como na Terceira República; quanto à escravatura, tinha sido suprimida em 1848, mas esquece-se muito que o sistema do trabalho obrigatório e do trabalho forçado se tinha mantido, tendo sido abolido em 1947.

A opinião só tomou consciência muito tardiamente da injustiça imobiliária de todo o sistema colonialista. É, hoje, um tema de acusação tornado habitual, mas deve-se salientar que se prefere, em geral, exercer a sua indignação sobre o passado do que sobre determinada fracção da sociedade que se expõe ao desprezo público, sob o nome de “burguesia capitalista”. Acontece que a verdade obrigaria hoje a reconhecer todas as camadas sociais – talvez, com excepção do subproletariado do qual afirmam que, em França, representa ainda dois milhões de seres humanos – que beneficiam das vantagens do desenvolvimento industrial; a diversos níveis, mas todos beneficiam. E isto às expensas de um mundo dito em “vias de desenvolvimento”, que se encontra em relação à Europa e à América do Norte, na situação dos operários que sob o reinado de Luís-Filipe povoavam os arrabaldes de Paris.

As doutrinas de Marx sobre as mais-valias, o lucro proveniente do dinheiro, encontravam aproximadamente uma das posições tradicionais da Igreja. Então, surge um novo facto: se essas posições são ainda mantidas actualmente, deixar-se-á de falar nelas após a chegada ao poder da burguesia. O último decreto canónico realizado a propósito da usura de dinheiro tem um nome significativo: Non inquietandos (16 de Setembro de 1830): era nele indicado que não se deviam censurar os empréstimos que mantivessem um juro modesto, que era lícito, em virtude da lei civil. Esse decreto devia ser renovado em 1873 pela Congregação da Propagação da fé.

Às flutuações verificadas no valor do dinheiro iriam, efectivamente, modificar totalmente os dados do problema, mas o que parece extraordinário é o reduzido número de cristãos que se preocupam, futuramente, com questões deste género: se exceptuarmos os esforços de La Tour du Pin e de cristãos sociais do século passado, constata-se que, precisamente na época do capitalismo, crédito, especulação e maneio de dinheiro, conhecem desenvolvimento e uma importância jamais atingida pelo passado, mas nenhuma voz se levanta, na Igreja, para indicar sobre este ponto o dever dos cristãos. Mesmo os sindicatos “cristãos” adoptando, sem mais, as teses marxistas sobre quantidades de questões, não terão colocado nunca o problema de fundo sobre as relações do cristão e do maneio do dinheiro.

Os papas, a partir da encíclica Rerum Novarum, denunciaram a “usura devoradora” como a calamidade capital do tempo. Essas denúncias tomaram-se por diversas vezes nos escritos pontificais sem provocar, ao que parece, um eco válido. Concluindo o artigo consagrado ao termo “Usura” no Dictionnaire de la théologie catholique, o padre Henri du Passage limita-se a constatar: “Face a esta invasão do monstro capitalista, face a estas evoluções no terreno dos ateliers e, muito mais ainda, na Bolsa, um número de observadores imparciais tornaram-se mais reservados nas suas críticas com respeito à disciplina antiga sobre a usura... Ficará por esclarecer, acrescenta, nos dados complexos dos actuais problemas, uma doutrina de crédito que, satisfazendo de modo plenamente coerente as leis da moral, manterá e conduzirá o capital para o círculo dos seus deveres e dos seus direitos” (Dictionnaire de la théologie catholique, t. 15, col. 2389). Isto foi escrito em 1946, mas o desejo formulado continuou sem efeito; por conseguinte, cada um conhece o papel desempenhado pela praga da usura, na miséria provocada no conjunto dos camponeses chineses e, actualmente, esses flagelos da usura amplamente espalhados nas relações entre países ocidentais e países em vias de desenvolvimento. Contentemo-nos em citar um número: em 1969, a Índia havia recebido 600 milhões de dólares, a título de ajuda financeira, acordada pelas nações ricas; ora, sobre esses 600 milhões de dólares, 550 milhões serviram para amortização das dívidas. E sabe-se que hoje (1984) alguns países da América Latina colocam em perigo o sistema bancário internacional, na impossibilidade que têm de saldar dívidas que ultrapassam de longe a receita nacional.


Fonte: “A burguesia”, cap. VIII, Europa-América, Lisboa, 1995
Tradução: Vítor Romaneiro

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O diabo deixa pistas...


TRÊS PISTAS PARA DESCOBRIR A AÇÃO DO DIABO

Baseado nos sermões do servo de Deus, Dom Fulton Sheen

Fonte: http://catolicostradicionais.blogspot.com

1. Amor pela nudez – Isto é claramente manifestado em vários níveis. Primeiro existe a tendência generalizada de vestir-se imodestamente. Já discutimos a modéstia aqui antes e devemos notar que modéstia vem da palavra “modo”, referindo-se ao meio ou a moderação. Por isso, se por um lado procuramos evitar noções opressivamente puritanas sobre o vestuário que impõem fardos pesados (especialmente sobre as mulheres) e que veem o corpo como algo mau, por outro também devemos criticar muitas das formas modernas de se vestir no outro extremo.

Estes “estilos” revelam mais do que razoável e geralmente deveriam, com a pretensão de chamar atenção a aspectos do corpo que são privados e reservados para a união sexual no casamento. Muitos em nossa cultura não veem problema em desfilar vários níveis de nudez, vestindo peças que possuem a intenção de descobrir e chamar atenção em vez de esconder as áreas privadas do corpo. Este amor pela exibição e provocação é seguramente um aspecto do próprio amor do Mal pela nudez. E ele tem espalhado esta obsessão a muitas pessoas no moderno ocidente.

Pornografia – como não há nada de novo neste mundo caído, seguramente alcançou proporções epidêmicas por meio da internet. Qualquer psicoterapeuta, conselheiro ou sacerdote te dirá que o vício da pornografia é um enorme problema entre as pessoas de hoje. Sites pornográficos superam outras categorias dez vezes mais. Milhões de americanos estão consumindo enormes quantidades de pornografia e a “indústria” está crescendo exponencialmente.

(Nota: muitos psicólogos, psicoterapeutas, psicanalistas incentivam a depravação sexual com a desculpa de que as pessoas não devem ser reprimidas - fruto da psicanálise cabalista freudiana e do liberalismo maçônico.)

O que uma vez foi escondido nas livrarias, hoje está à distância de um clique na internet. E a ideia de que os hábitos de navegação podem ser facilmente descobertos pouco importa aos viciados na última das formas de escravidão. Muitos estão sobre uma encosta íngreme a ponto de caírem em formas mais degradantes de pornografia. Muitos acabam em sites ilegais e antes mesmo de saberem o que aconteceu se deparam com o FBI batendo em suas portas. O amor de satanás pela nudez possuiu muitos!

A cultura global de sexualização também amarra ao amor satânico pela nudez. Nós sexualizamos a mulher para vender produtos. Nós sexualizamos até mesmo as crianças. Nossas novelas tagarelam excessivamente sobre sexo de um modo muito adolescente e imaturo. Nós somos, coletivamente, tolos e imaturos a respeito do sexo e a nossa cultura vibra como adolescentes fogosos obcecados por algo que eles não compreendem. Sim, o amor satânico pela nudez e tudo o que vem com ela.

2 - Violência - nós já discutimos antes como nós, coletivamente, transformamos a violência numa forma de entretenimento. Nossos filmes de aventura e vídeo games transformam retaliação violenta numa prazerosa forma de entretenimento e a morte numa “solução”. Os últimos Papas têm nos alertado sobre a cultura da morte, na qual a morte é cada vez mais proposta como solução para os problemas. Na nossa cultura a violência começa no ventre, onde os inocentes são atacados. Chamam isto de “direito” e “escolha”.

A violência e a adoção da morte continuam movimentando-se pela cultura por meio da contracepção, atividades violentas de gangues, recursos fáceis para a guerra e pena capital. O século passado talvez tenha sido o mais sangrento já conhecido no planeta e incontáveis pessoas, na casa dos milhões, morreram durante as duas guerras. Além disso, vale lembrar, das centenas de conflitos e guerras regionais, terríveis campanhas em favor da fome na Ucrânia, China e outros lugares, genocídios na Europa Central, na África e no sudeste da Ásia.

Paul Johnson, em seu livro Modern Times, estima que cerca de 100.000.000 morreram em guerras e de maneiras violentas nos últimos 50 anos do século XX. E a cada morte, satanás faz sua “dança intrometida”. Satanás ama a violência. Ele ama acender o fogo e ver-nos culpando uns aos outros enquanto queimamos.

3 - Divisão – Satanás ama dividir. Dom Fulton Sheen diz que a palavra “diabólico” vem de duas palavras gregas “dia+Bolós”, significando separar, dividir. Tendo como base meus próprios estudos de grego, por mais parcos que sejam, diria que os resultados da tradução não seriam os mesmos do bispo. “Dia” significa “através” ou “entre” e bolós “atirar ou arremessar”. Ainda assim, o bom bispo era um homem estudioso e eu peço a vocês, estudantes de grego, que me compreendam e defendam Dom Sheen.

Ainda assim, é claro que o diabo quer nos dividir. Dentro da nossa própria psique e entre e os outros. Certamente ele se regozija a cada divisão que provoca. Ele “atira coisas entre nós” (dia+bolós)! Eis o propósito diabólico. E, portanto, vemos nossas famílias divididas, a Igreja dividida, nossa cultura e país divididos. Agora nós estamos divididos ao nível máximo: racial, religioso, político e econômico. Nós dividimos nossa idade, raça, região, Estados azuis e vermelhos, liturgia, música, linguagem e demais pormenores sem fim.

Nossas famílias são rachadas, nossos casamentos são rachados. Os divórcios são exaltados e compromissos de quaisquer tipos são rejeitados e considerados impossíveis. A Igreja está rachada e dividida em facções, assim como o Estado, todos os níveis que compõem os conselhos escolares. Ainda assim, mesmo que concordemos com o essencial, verifica-se que até mesmo quando uma verdade é compartilhada somos chamados de intolerantes.

E dentro também, nós lutamos com muitos ímpetos divisivos e formas de esquizofrenia figurativa e literal. Somos puxados para o que é bom, verdadeiro e belo e ainda o que inferior, falso e mau também nos atrai. Sabemos o que é belo, o que é bom, mas desejamos o que é mau. Procuramos amor, mas cedemos ao ódio e à vingança. Admiramos o inocente, mas frequentemente nos alegramos em destruí-lo ou pelo menos em substituir isto pelo cinismo.

E assim satanás dança sua “dança intrometida”.

Três características do diabólico: amor pela nudez, violência e divisão. O que você acha? O príncipe deste mundo está cumprindo com seus compromissos? Mais importante ainda: estamos sendo coniventes? O primeiro passo para vencer os compromissos do inimigo é conhecer seus movimentos, nomeá-los e repreendê-los em Nome de Jesus.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

São João Batista.

SÃO JOÃO BATISTA
Dom Fernando Arêas Rifan*

Hoje (dia 24)celebramos a solenidade de São João Batista, um dos santos “juninos”, ao lado de Santo Antônio (dia 13) e São Pedro (dia 29). Vale recordar, para nossa edificação, o exemplo daquele de quem Jesus disse: “Entre todos os nascidos de mulher não surgiu quem fosse maior que João Batista” (Mt 11,11).

João Batista, assim cognominado pelo batismo que administrava, foi o precursor de Jesus, aquele que o apresentou ao povo de Israel. Filho de Zacarias e Santa Isabel, foi santificado ainda no seio materno quando da visita de Nossa Senhora, já grávida do Menino Jesus. Por isso a Igreja festeja, no dia 24, o seu nascimento, ao contrário de todos os outros santos, dos quais ela só comemora a morte, ou seja, seu nascimento para o Céu.

Desde criança, retirou-se para o deserto para fazer penitência e se preparar para sua futura missão. Alguns acham que ele teria vivido entre os Essênios, comunidade monacal do deserto vizinho ao Mar Morto. Ministrava ao povo o batismo de penitência, ao qual Jesus também acorreu, por humildade. Sua pregação era: “Convertei-vos, pois o reino dos Céus está próximo... Produzi fruto que mostre vossa conversão... Eu vos batizo com água, para a conversão. Mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. Eu não sou digno nem de levar suas sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3, 2, 8, 11).

Jesus, no começo do seu ministério público, quis também, por humildade, misturando-se aos pecadores, ser batizado por João. João quis recusar, dizendo: “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?... Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água e o céu se abriu. E ele viu o Espírito de Deus descer, como uma pomba e vir sobre ele. E do céu veio uma voz que dizia: ‘Este é o meu filho amado; nele está o meu agrado’” (Mt 3, 14, 16-17).

São João Batista era o homem da verdade, sem acepção de pessoas. Por isso admoestava o Rei Herodes contra o seu pecado de infidelidade conjugal e incesto, o que atraiu a ira da amante do rei, Herodíades, que instigou o rei a metê-lo no cárcere. No dia do aniversário de Herodes, a filha de Herodíades, Salomé, dançou na frente dos convivas, o que levou o rei, meio embriagado, a prometer-lhe como prêmio qualquer coisa que pedisse. A filha perguntou à mãe, que não perdeu a oportunidade de vingar-se daquele que invectivava seu pecado. Fez a filha pedir ao rei a cabeça de João Batista. João foi decapitado na prisão, merecendo o elogio de Jesus, por ser um homem firme e não uma cana agitada pelo vento.

Assim, a virtude que mais sobressai em João Batista, além da sua humildade e penitência, é a firmeza de caráter, tão rara hoje em dia, quando muitos pensam ser virtude o saber “dançar conforme a música”, ser uma cana que pende de acordo com o vento das opiniões, o pautar a vida pelo que dizem ou acham e não pela consciência reta, voz de Deus em nosso coração. João Batista foi fiel imitador de Jesus Cristo, caminho, verdade e vida, que, como disse o poeta João de Deus, “morreu para mostrar que a gente pela verdade se deve deixar matar”.
*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

Anglicanismo: cisma e heresia.


Anglicanismo
Por Quadrante

Em 1534, o Parlamento inglês votava o “Ato de Supremacia”, que proclamava o rei Henrique VIII da Inglaterra, zeloso pela fé católica no início do seu governo, o “único e Supremo Chefe da Igreja na Inglaterra”
O rei Henrique VIII (1509-1547) da Inglaterra mostrou-se, nos inícios do seu governo, zeloso pela fé cristã tradicional, a católica. Em 1521, escreveu uma Afirmação dos Sete Sacramentos contra a doutrina de Lutero, que lhe valeu do Papa Leão X o título de “Defensor da Fé”. Em 1509, desposou Catarina de Aragão, viúva de seu irmão Artur; deste casamento teve vários filhos que morreram muito jovens, dos quais só Maria Tudor ficou viva.

Apaixonado por uma dama da corte, Ana Bolena, e obsessivamente preocupado pela falta de um herdeiro masculino, o rei procurou dissolver o seu casamento com Catarina, alegando que fora nulo porque os nubentes eram cunhados em primeiro grau. O pretexto era falso, porque o Papa Júlio II lhe havia concedido, a pedido do próprio rei, a dispensa exigida pelo Direito canônico para o casamento com Catarina; além disso, Henrique só trouxe à tona esse “impedimento” depois de dezoito anos de vida conjugal.

Em janeiro de 1531, o Papa proibiu a Henrique novas núpcias enquanto a causa estivesse sob exame por parte de uma comissão de cardeais encarregada de julgar o assunto. O rei, vendo que lhe restava pouca esperança de obter a anulação, resolveu solicitar a dissolução do seu casamento à hierarquia da Inglaterra. Por outro lado, Thomas Cromwell, obscuro advogado que adquirira grande influência sobre o rei, aconselhava-o a separar-se de Roma a exemplo dos príncipes alemães luteranos. Em fevereiro desse mesmo ano, uma assembléia do clero proclamou Henrique “Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra”, embora com a cláusula “na medida em que a Lei de Cristo o permite”.

Em 1532, o rei elevou à sé arquiepiscopal de Canterbury, a sede primaz da Inglaterra, o sacerdote Thomas Cranmer, que tinha entrado em contato com o luteranismo numa viagem à Alemanha. Cranmer aceitou declarar nulo o casamento de Henrique VIII, de modo que este se casou em 1533 com Ana Bolena. O Papa respondeu excomungando o monarca e declarando válido o casamento com Catarina.

O cisma estava às portas: em novembro de 1534, o Parlamento inglês votou o “Ato de Supremacia”, que proclamava ser o rei o “único e Supremo Chefe da Igreja na Inglaterra”; os súditos que não reconhecessem esse ato seriam punidos com a morte. A grande maioria do clero submeteu-se, talvez porque estivessem acostumados à idéia de uma Igreja nacional e bastante mundanizados. Mas diversos leigos, religiosos e clérigos resistiram, chegando até ao martírio, entre os quais o ex-chanceler e humanista Thomas More e o bispo John Fisher. Iniciou-se então uma perseguição aos católicos; muitos mosteiros foram fechados, relíquias e imagens foram profanadas e destruídas. Apesar do cisma e das pressões luteranas, o rei tinha ainda a pretensão de “conservar íntegra” a fé católica na Inglaterra; combatia tanto a adesão ao Papa quanto as inovações religiosas do continente.

Henrique teve por sucessor um menino de dez anos, que lhe nascera do terceiro matrimônio. Este menino, Eduardo VI, teve como tutores o duque de Somerset e o de Northumberland que, juntamente com o arcebispo Cranmer, muito trabalharam pela introdução da teologia calvinista na Inglaterra. Houve revoltas em diversos condados e as desordens se avolumaram a tal ponto que, quando Eduardo VI morreu em 1553, aos dezesseis anos de idade, a nação em peso se pronunciou pela princesa Maria Tudor, filha de Henrique VIII e Catarina, contrariando a designação que Eduardo fizera em favor de Joana, cortesã de sangue real, protestante.

Maria Tudor era católica convicta e procurou restaurar o catolicismo, apoiada pelo seu primo, o cardeal Reginald Pole, legado papal. O Parlamento votou a reunião da Inglaterra com a Santa Sé em 1554. Mas a rainha, infelizmente, aplicou contra os protestantes os mesmos métodos que o seu pai, o que lhe granjeou o apelido de Bloody Mary (Maria a Sangrenta). Os prelados depostos por Eduardo VI foram restituídos às suas sedes, enquanto os calvinistas, vindos do estrangeiro, foram expulsos. O zelo excessivo da rainha, embora em parte favorecido pelo povo, encontrou desaprovação por parte dos próprios católicos, que se tornaram avessos à rainha. Esta tornou-se ainda mais impopular pelo seu casamento com Filipe II, na ocasião herdeiro do trono da Espanha. Depois que morreu sem deixar herdeiros, em 1558, extinguiu-se a restauração católica na Inglaterra.

Sucedeu-lhe no trono uma filha de Ana Bolena com Henrique VIII: a rainha Elisabeth I (1558-1603). A nova soberana elevou a Inglaterra a um extraordinário poder político e econômico. A sua religiosidade era misteriosa: convertera-se ao catolicismo sob Maria e, elevada ao trono, continuava a freqüentar a missa, confessar-se e comungar. Essas atitudes, porém, não eram profundas e cediam aos seus interesses políticos. No dia de sua coroação, jurou conservar a religião católica no país; no entanto, como os católicos a consideravam ilegítima e propunham Maria Stuart da Escócia como herdeira legítima do trono, Elisabeth se inclinou de maneira crescente para o protestantismo, libertando os pregadores calvinistas presos na Inglaterra e chamando de volta os exilados.

Ao mesmo tempo que fomentava o protestantismo calvinista entre o povo, procurou também restaurar a hierarquia episcopal, que deveria ser oficialmente católica, mas nacional, tendo por chefe a Rainha e não o Papa. Quase todas as sés estavam vacantes desde os tempos de Henrique VIII e Eduardo VI. Elisabeth nomeou arcebispo de Canterbury o seu antigo capelão Matthew Parker, que recebeu a sagração episcopal em 17.12.1559, na capela de Lambeth, segundo um ritual composto no tempo do rei Eduardo VI. O sagrante foi um bispo deposto, William Barlon, ex-titular da diocese de Beth, validamente ordenado em tempos de Henrique VIII. Parker, uma vez ordenado bispo, ordenou outros bispos, reconstituindo assim a hierarquia na Inglaterra.

Após longos estudos feitos por peritos que investigaram de perto os fatos, o Papa Leão XIII declarou inválidas as ordenações anglicanas em 1896, com base em dois motivos: a) insuficiência do rito (o “Ordinal” de Eduardo VI excluía qualquer alusão à missa como sacrifício de Cristo perpetuado sobre os altares pelo ministério dos sacerdotes); b) falta da intenção devida (William Barlon queria constituir uma hierarquia diversa daquela que Cristo fundou, desvinculada da Sé de Pedro). É por isso que a Igreja Católica até hoje não reconhece as ordenações anglicanas, embora o assunto ainda possa voltar a ser estudado com base em novos aspectos que os estudiosos têm trazido à tona recentemente. Este ponto é decisivo para a restauração da comunhão entre a Santa Sé e Canterbury. O reatamento, no entanto, vem sendo dificultado pela ordenação de mulheres para o presbiterado e até para o episcopado; dentro da Comunhão Anglicana, este fato tem aberto distância crescente entre os anglicanos, por um lado, e os católicos e ortodoxos, pelo outro.

A atitude ambígua da rainha Elisabeth deu origem ao pluralismo doutrinal no seio da Igreja anglicana. Costuma-se distinguir nela a high church (“alta Igreja”), que mantém praticamente toda a doutrina católica, a liturgia anterior ao Concílio de Trento e a maior parte dos Sacramentos; a low church, muito próxima dos calvinistas na doutrina e no culto; e algumas vezes também a broad church (“Igreja ampla”), que tenta conciliar as duas tendências. Dentro da high church, distinguem-se ainda as tendência anglo-católica (que é praticamente cem por cento católica na doutrina, mas não reconhece o primado do Papa) e anglo-papal ou anglo-papalista, que defende a volta à comunhão com a sé de Pedro. A high church defende a teoria da via media, isto é, que a autêntica doutrina cristã e católica se encontraria “no meio”, entre os “excessos romanos”, por um lado (de culto aos santos, etc.), e os “excessos protestantes”, pelo outro (supressão do sacerdócio e dos sacramentos, justificação somente pela fé). É definida às vezes como a “porta de acesso ao catolicismo” para os protestantes de diversas denominações. G.K.Chesterton, anglicano, comentou ao converter-se à Igreja católica que, afinal de contas, “uma porta é apenas um lugar de passagem”.

Houve diversas tentativas para se chegar à unidade doutrinal e litúrgica no seio do anglicanismo. Na prática, o denominador comum passou a ser o Common Prayer Book (“Livro de oração comum”), que regula a liturgia desde tempos do rei Jaime I, e os 39 Artigos formulados em 1571 por um sínodo de bispos, que pretendem comentar uma série de questões doutrinais controversas, mas foram formulados de modo muito impreciso e admitem todas as interpretações. No entanto, até hoje exige-se dos clérigos uma declaração de conformidade com os 39 Artigos antes da ordenação.

No século passado (século XIX), registrou-se na Inglaterra o chamado Movimento de Oxford, chefiado por teólogos anglicanos, entre os quais John Henry Newman, professor do Oriel College, era a melhor cabeça. Propunha-se renovar o anglicanismo por meio da pesquisa da literatura teológica dos primeiros séculos do cristianismo, os Padres da Igreja; no entanto, mediante esse retorno às fontes, verificaram que era a Igreja Católica que havia guardado na íntegra a mensagem de Cristo e das primeiras gerações cristãs. Esse movimento deu forte impulso à high church, no seio da qual voltaram a surgir comunidades religiosas, inicialmente só femininas, mas depois também masculinas; e, de maneira semelhante ao que acontece no catolicismo, surgiram também associações sacerdotais. Mas o movimento sofreu um certo anticlímax quando o seu expoente, Newman, se converteu à Igreja católica romana, juntamente com muitos outros anglicanos de destaque.

A Igreja anglicana estabeleceu comunidades análogas nas diversas colônias inglesas: são a Igreja episcopaliana nos Estados Unidos, a anglicana canadense, as dos diversos países africanos de tradição britânica etc. São todas autônomas entre si e governadas pelos sínodos dos respectivos bispos, embora reconheçam formalmente como chefe comum o rei da Inglaterra e se considerem parte da “comunhão anglicana”. Via de regra, as mesmas tendências que há na Igreja anglicana estão também representadas nelas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Estêvão Bettencourt, Religiões, Igrejas e seitas, Lumen Christi, Rio de Janeiro, 1997.

Manuel Guerra Gómez, Los nuevos movimientos religiosos, EUNSA, Pamplona, 1993.

terça-feira, 24 de junho de 2014

A Volta de Cristo e os Últimos Tempos.

No Catecismo Romano do século XVI e no atual (o "amarelinho" do João Paulo II), há a previsão, baseada nas profecias bíblicas, de que Cristo voltará quando as pessoas tiverem perdido a fé e o mundo estiver mergulhado nas trevas espirituais. No Catecismo Romano, Art. 7 do Credo, item 7, dos sinais que precedem ao juízo:

"(...) a pregação do Evangelho pelo mundo inteiro, a apostasia (=perda da fé), o anticristo". (Confira: Mt. 24, 14 ; 1 Ts 2,2 ; 2 Ts 2,3.)

No hinduísmo, há uma profecia semelhante referente à Kali Yuga (a lua vermelha - o tempo de chumbo, após a queda do Paraíso = lua de ouro, após a lua de prata do vigor espiritual, e após a lua de aço -degeneração dos costumes).

Os Papas ruins, simpatizantes da heresia modernista, condenada no início do século XX pelo Papa S. Pio X - garanto que nenhum padre fala sobre isso hoje (Papas modernistas de João XXIII - de 1958 para cá) - se tornaram instrumentos disso. O Papa Francisco está acelerando o processo. Deus não quer o mal, mas permite que isso aconteça para castigar os maus e mostrar-lhes seus erros, e para instigar os bons e os arrependidos à conversão e à prática de boas obras. É a hora de soltar o criminoso Barrabás e atar as mãos de Cristo - e com apoio popular. A Paixão de Cristo se repete em escala global. S. Agostinho já escreveu sobre isso na sua obra "Da Instrução aos Catecúmenos" - isso há cerca de 1600 anos atrás!

Se os inimigos da Igreja (protestantes, judeus, globalistas, financistas, ativistas ideológicos, meios de comunicação, maçons, etc) aplaudem esse Papa, mau sinal. Vamos fazer a nossa parte convertendo-nos, melhorando nossas personalidades e seguindo o caminho de Deus enquanto há tempo.

Leia o trecho do Catecismo sobre isso (abaixo com as referências bíblicas) em http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2cap2_422-682_po.html :
A ÚLTIMA PROVA DA IGREJA

675. Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final, que abalará a fé de numerosos crentes (639). A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra (640), porá a descoberto o «mistério da iniquidade», sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade. A suprema impostura religiosa é a do Anticristo, isto é, dum pseudo-messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo, substituindo-se a Deus e ao Messias Encarnado (641).

676. Esta impostura anticrística já se esboça no mundo, sempre que se pretende realizar na história a esperança messiânica, que não pode consumar-se senão para além dela, através do juízo escatológico. A Igreja rejeitou esta falsificação do Reino futuro, mesmo na sua forma mitigada, sob o nome de milenarismo (642), e principalmente sob a forma política dum messianismo secularizado, «intrinsecamente perverso» (643).

677. A Igreja não entrará na glória do Reino senão através dessa última Páscoa, em que seguirá o Senhor na sua morte e ressurreição (644). O Reino não se consumará, pois, por um triunfo histórico da Igreja (645) segundo um progresso ascendente, mas por uma vitória de Deus sobre o último desencadear do mal (646), que fará descer do céu a sua Esposa (647). O triunfo de Deus sobre a revolta do mal tomará a forma de Juízo final (648), após o último abalo cósmico deste mundo passageiro (649).

640. Cf. Lc 21, 12; Jo 15, 19-20.

641. Cf. 2 Ts 2, 4-12; 1 Ts 5. 2-3; 2 Jo 7; 1 Jo 2, 18.22.

642. Cf. Santo Ofício, Decretum de millenarismo (19 de Julho de 1944): DS 3839.

643. Cf. Pio XI, Enc. Divini Redemtptoris (19 de Março de 1937): AAS 29 (1937) 65-106, condenando o «falso misticismo» desta «simulação da redenção dos humildes» (p. 69); II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 20-21: AAS 58 (1966) 1040-1042.

644. Cf. Ap 19, 1-9.

645. Cf. Ap 13, 8.

646. Cf. Ap 20, 7-10.

647. Cf. Ap 21, 2-4.

648. Cf. Ap 20, 12.

649. Cf. 2 Pe 3. 12-13.

Igreja "pós-conciliar" e Maçonaria.

1962 – Revolução na Igreja – A Aproximação da “Igreja Conciliar” à Franco-Maçonaria*

Agora deve aparecer mais claramente a cada um por qual razão, à morte de Paulo VI, o Grão-Mestre do Grande Oriente italiano (e ‘bispo’ da esotérica ‘igreja gnóstica’ na Itália) Giordano Gamberini pode escrever, a guisa de elogio fúnebre ao Papa Montini: “Para nós é a morte daquele que fez cair a condenação de Clemente XII e de seus sucessores. É, pois a primeira vez – na história da Franco-Maçonaria moderna– que morre o chefe da maior religião ocidental sem estar em estado de hostilidade com os franco-maçons. [...] Pela primeira vez na história, os franco-maçons podem render homenagem à tumba de um papa, sem ambiguidades nem contradição.”1

De resto, a abertura feita pelo Concílio Vaticano II aos “valores” do iluminismo e de “dois séculos de cultura liberal”com a política da mão estendida para a Franco-Maçonaria, que é sua guardiã e a representante mais importante, tinha sido programada com alguma antecedência. É o que nos ensina o celebre religioso P. Rosário Espósito (abertamente pro-maçon), que em uma carta enviada ao Grão-Mestre Gamberini e publicada na Rivista Massonica, escrevia: “Caro Gamberini, eu gostei, mesmo em sua frieza cartesiana, do teu edital sobre a morte do papa (Paulo VI – Ndr). Eu creio que ele teria apreciado; ele jamais teve medo de algo. [...] O dominicano P. Felix Morlion, conhecidíssimo enquanto fundador da Universidade Internacional “Pro-Deo” [...] me confiava um dia ter falado com aquele que era então Mons. G.B Montini entre as relações desastrosas existentes entre a Igreja e a Franco-Maçonaria. Montini lhe disse: “Não passará uma geração e entre as duas sociedades uma paz será feita”. O episodio já me foi contado, sem citar o nome do pontífice em um artigo publicado na “Vida Pastoral” do mês de dezembro de 1974. Agora que o pontífice faleceu, não há maiores razões para continuar com o segredo. E a previsão – eu iria dizer a decisão – se verificou plenamente2...”.

A “paz”, nós vimos, foi efetivamente feita, mas com a rendição sem condição da Igreja Católica, em nome da qual, depois da obra de demolição começada por João XXIII, Paulo VI e os homens do Vaticano II, abusando de sua autoridade, aceitaram e impuseram aos fiéis este liberalismo e este laicismo do Estado (Dignitatis Humanae), este falso ecumenismo (Lumem Gentium I, 8; Unitatis Redintegratio; Nostra Aetate) e esta mentalidade democrática antropocêntrica (Lumem Gentium III, 22) que sempre tinha sido o estandarte da ideologia laico-maçônica.

O estandarte dos filhos da viúva, como gostam de se definir os francos-maçons, tinha sido içado triunfalmente sobre a cúpula de São Pedro.

O vírus da AIDS iluminista e neomodernista tinha sido inoculado nas veias do mundo católico e todas as suas defesas imunitárias tinha desaparecido umas após outras.

Notas:

1 -. La Rivista Massonica, julho de 1978, n° 5, p. 290.
2 -. La Rivista Massonica, agosto de 1978, n° 6, p. 371-372.
* - 1962 - Révolution Dans L'Église - Brève Chronique de L'Occupation Néo-Moderniste de LÉglise Catholique - Dom Andrea Mancinella.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Adventismo: crenças judaizantes.

O adventismo
Por Quadrante

O adventismo surgiu no século XIX, fundado pelo norte-americano William Miller que, baseado em interpretações errôneas de algumas passagens bíblicas, julgava-se capaz de determinar a data da segunda vinda de Cristo. Os principais pontos doutrinais, entretanto, foram definidos por Ellen Gould White, logo após da morte de Miller. Uma das suas principais características é a ênfase dada a algumas proposições do Antigo Testamento (como a observância do sábado) que já foram ultrapassadas pela vinda de Cristo.
O fundador da denominação adventista é William Miller (1782-1849), camponês nascido de piedosos pais batistas. Em 1816, comparando os textos sagrados entre si, chegou à conclusão de que a segunda vinda de Cristo se daria em 1843. Com efeito, os 2300 “dias” mencionados em Dan 8, 5-11 deveriam ser tidos como anos, que ele começava a contar a partir do retorno de Esdras a Jerusalém, ou seja, a partir de 457 a.C. Donde: 2300 - 457 1843. O fim do mundo, portanto, haveria de dar-se precisamente entre 21.03.1843 e 21.03.1844; nesse período de tempo, Cristo reapareceria sobre a terra e reinaria com os santos pelo espaço de mil anos, durante os quais se daria a exaltação dos bons e a condenação dos maus, como parecia sugerir o Apocalipse (20, 6-7). Em 1842-1843, Miller realizou cento e vinte assembléias ao ar livre, com a participação global de mil e quinhentos ouvintes. A comunidade batista o excomungou. Em 22.10.1843, Miller tinha chegado a reunir cerca de cinco mil discípulos.

O prazo previsto, porém, passou sem novidades. S.S. Snow, discípulo de Miller, refez os cálculos, alegando que o ano hebreu não correspondia ao ano cristão; por conseguinte, o termo exato da segunda vinda do Senhor seria o dia 22.10.1844. Foi por esta ocasião que os seguidores de Miller tomaram o nome de adventistas. Mas também esta nova data decorreu sem maiores percalços, e o entusiasmo de muitos arrefeceu.

Surgiu então a figura ardorosa da sra. Ellen Gould White, que era metodista quando aderiu à pregação de Miller. Dizia ter revelações, e explicava-as assim: em 1844 realmente se teria dado algo de novo, não na terra, mas no céu. O santuário de que falava Dan 8, 14 seria o santuário celeste; Cristo, naquele ano, teria entrado no “Santo dos santos” do céu. A sra. White dizia tê-lo visto com seus próprios olhos: podia atestar que, a partir de 22.10.1844, Jesus Cristo passara a examinar os defuntos, aprovando ou reprovando cada um deles. Quando essa obra gigantesca acabasse, os vivos passariam por um julgamento semelhante e o fim do mundo estaria próximo.

A tese da “vidente” convenceu muita gente. Depois que Miller morreu (1848), Ellen White tornou-se a grande mestra do adventismo. Entre 1840 e 1844, alguns grupos batistas passaram a observar o sábado em lugar do domingo, e os seguidores da sra. White também adotaram essa praxe. Os adventistas do sétimo dia exigem a fé, não somente nas Escrituras, mas também no espírito de profecia de Ellen Gould White. A todo candidato faz-se a pergunta: “Aceita o espírito de profecia tal como se manifestou no seio da Igreja escatológica pelo ministério e os escritos de E. G. White?” Também se impõe aos novos adeptos a abstinência de fumo e álcool, sob pena de excomunhão da Vida Eterna. Este rigorismo contribuiu para que os adventistas do sétimo dia se tornassem uma comunidade de elite, exigente e fanática, à semelhança das seitas.

À medida que os adventistas foram-se organizando, as cisões se multiplicaram: adventistas evangélicos, cristãos adventistas, a Igreja de Deus, a União da Vida e do Advento, os adventistas da era vindoura...

Em matéria doutrinal, os adventistas crêem em Deus uno e trino. Aceitam Cristo como Deus e homem. O homem seria mortal, mas a morte física não passaria de um “sono” das almas (heresia defendida por um certo Vigilâncio já no século IV; Santo Agostinho comentou que, quem defendia semelhante tese, não deveria chamar-se Vigilâncio, mas “Dormitâncio”...). Os mortos, inconscientes, ignorariam por completo o que ocorre na terra. Todos os defuntos, bons e maus, permaneceriam nos seus túmulos até a ressurreição dos mortos. Os santos receberiam o dom da imortalidade quando Cristo voltasse, ao passo que os ímpios seriam aniquilados. O batismo é conferido, por imersão, somente aos adultos; é, como nos batistas, mero símbolo da conversão realizada anteriormente.

Os adventistas do sétimo dia promovem campanhas em favor da higiene e da saúde do corpo. Chegam a distribuir livros de dietética e revistas de arte culinária ou de higiene. Tais impressos, às vezes, precedem os livros religiosos que oferecem. A carne de porco, o álcool, o café, o chá, os produtos excitantes, os narcóticos estão banidos e o regime vegetariano é fortemente recomendado. Quem não se conforma com essas normas é excluído da comunidade, uma vez que não poderia obter a Vida Eterna.

O adventismo pretende apoiar as suas doutrinas na Sagrada Escritura, dando certa ênfase a proposições do Antigo Testamento que o cristianismo elucidou e reformulou. Assim, a tese de que as almas adormecem pela morte e se tornam inconscientes na outra vida, equivale à crença judia no sheol, região subterrânea onde se encontrariam inconscientes os bons e os maus. O Novo Testamento, ao contrário, ensina que o homem entra no seu destino definitivo logo após a morte; os bons verão a Deus face a face (cf. Fil 1,21-23; 2 Cor 5, 6-10).

O cálculo adventista da data do fim do mundo (1844), por sua vez, apóia-se em interpretações fantasiosas do livro de Daniel... Cristo não precisa de 160 anos para fazer o discernimento dos bons e dos maus (estamos em 2004). O mundo ainda pode durar muitos séculos; o Senhor recusou-se expressamente a revelar aos Apóstolos a data do Juízo Final, mas quis incutir nos homens a vigilância, a fim de que possam, a qualquer momento, receber o Juiz de toda a humanidade (cf. Mt 25, 2; 24, 42.44; Mc 13, 32). Por conseguinte, não é de se crer que a data do Juízo Final possa ser deduzida das Escrituras.

Quanto à observância do sábado, é preciso observar que os cristãos deslocaram já desde os primeiros séculos o repouso do sábado para o domingo, porque foi no dia posterior ao sábado que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos. Os próprios Apóstolos o atestam (cfr. 1 Cor 16, 2; At 20, 7 e Apoc 1, 10).

Por fim, a proibição de certos alimentos também é vestígio do Antigo Testamento, ultrapassado pelo Novo, que recomenda sobriedade e mortificação, mas já não proíbe os alimentos que a Lei de Moisés interdizia por motivos de higiene e de pureza ritual. Assim, por exemplo, o Senhor diz: Não percebeis que tudo quanto vem de fora não pode contaminar o homem, porque não penetra no coração? (Mc 7, 18-19). E São Paulo escreve: Alguns impostores proíbem o uso de alimentos que o Senhor criou para que, com ação de graças, participem deles os fiéis e aqueles que conhecem a verdade. Porque tudo o que Deus criou é bom e não é para desprezar, contanto que se tome com ação de graças, pois é santificado pela Palavra de Deus e pela oração (1 Tim 4, 2-5).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Estêvão Bettencourt, Religiões, Igrejas e seitas, Lumen Christi, Rio de Janeiro, 1997.

Manuel Guerra Gómez, Los nuevos movimientos religiosos, EUNSA, Pamplona, 1993.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Crianças criadas por homossexuais sofrem mais problemas..

Um estudo revela que pessoas criadas por homossexuais sofrem mais problemas

Fonte:
http://ohomossexualismo.blogspot.com.br/

WASHINGTON DC, 14 Jun. 12 / 03:49 pm (ACI/EWTN Noticias).- O estudo de um perito da Universidade do Texas (Estados Unidos) demonstrou que as crianças criadas por duplas homossexuais enfrentam maiores dificuldades quando se tornam adultos, que aqueles criados por uma família estável constituída por um homem e uma mulher.

O autor do trabalho científico, Mark Regnerus, disse ao grupo ACI, no dia 12 de Junho, que a sua pesquisa revela "diferenças estatísticas significativas entre adultos que foram criados na sua infância com uma mãe que teve uma relação homossexual e aqueles que disseram que sua mãe e seu pai biológico estavam, e ainda estão, casados".

O estudo do Regnerus, que mediu as diferenças em 40 indicadores sociais e pessoais entre 3.000 americanos de idades entre 18 e 39 anos, criados em oito tipos diferentes de lares, foi publicado na edição de Julho da revista Social Science Research.

De acordo com o documento, as crianças criadas em "lares" homossexuais têm em média níveis mais baixos de ingressos económicos quando são adultos, e padecem mais problemas de saúde física e mental, assim como maior instabilidade em suas relações de casal.

O estudo revelou que os menores criados neste tipo de ambiente mostraram maiores níveis de desemprego, tabaquismo, necessidade de assistência pública e participação em crimes.

Para Regnerus, a instabilidade no lar é "uma marca" entre os lares cujos pais estiveram envolvidos em relações sentimentais homossexuais, já seja que esses lares estivessem "dirigidos por uma mãe ou um pai".

As descobertas do cientista americano desafiam, entre outros, à informação difundida em 2005 pela Associação Americana de Psicologia, que assegurou que "nenhum estudo descobriu que crianças de pais gays ou lésbicas sejam desfavorecidos em nenhum aspecto significativo com respeito a crianças de pais heterossexuais".

Segundo Regnerus, alguns destes influentes estudos foram feitos em poucas ou não representativas mostras de população, enfocando-se em casais homossexuais brancos, com alto nível de educação, para obter conclusões gerais sobre paternidade homossexual.

"A maioria das conclusões sobre paternidade homossexual foram obtidas de pequenas e convenientes mostras e ao azar", disse Regnerus num comunicado publicado pela Universidade do Texas, no dia 11 de Junho.

Regnerus disse que "os resultados desse enfoque levaram frequentemente aos estudiosos da família a concluir que não há diferenças entre crianças criadas em lares homossexuais e aquelas criadas em outros tipos de famílias. Mas esses estudos anteriores esconderam inadvertidamente a real diversidade entre as experiências de pais gays e lésbicas nos Estados Unidos".

O pesquisador disse ao grupo ACI que ele enfocou o projeto "sem ter ideia sobre as coisas que revelariam os dados". Sobre a análise, Regnerus disse que "revelou uma instabilidade muito maior nos lares com pais que tiveram relações homossexuais".

Ao anunciar seu estudo, no último dia 10 de Junho, Regnerus disse que a sua descoberta mais significativa "é, sem dúvida, que as crianças se mostram mais aptas para ter êxito como adultos quando passam sua infância completa com o pai e a mãe casados, e especialmente quando seus pais permanecem casados até a actualidade".

O sociólogo reconheceu que seu estudo já agitou uma "intensa e frequente" crítica, que ele considera como "desproporcionada em relação às limitações do estudo". O documento foi atacado pelo Family Equality Council, Human Rights Campaign, Freedom to Marry, e a Aliança Gay e Lésbica contra a Difamação.

Regnerus descreveu o ataque como "desafortunado" que seu próprio estudo "é de alta qualidade e está sendo difamado".

O perito assinalou finalmente que seus resultados devem simplesmente sujeitar-se às normas da "ciência normal", que "exibe desacordos entre os pesquisadores a respeito de como medir isto ou aquilo".

Autoridades admitem que ambiente homossexual não é bom para o desenvolvimento das crianças

Quem diria? Apesar do apoio entusiástico da elite esquerdista, ter uma dupla de practicantes do homossexualismo a fazer o papel de "pai" e "mãe" pode não ser benéfico para as crianças envolvidas. As mentiras em torno deste crime contra a natureza começam a desabar, tal como admite a revista cientifica Social Science Research:

A análise levada a cabo pelo Dr. Loren Marks da "Louisiana State University" verificou que a maior parte da ciência que forma a base do altamente estimado estudo oficial de 2005 - em torno da paternidade de pessoas do mesmo sexo levado a cabo pela American Psychological Association (APA) (http://www.apa.org/pi/lgbt/resources/parenting-full.pdf) - não resiste ao escrutínio.

Isto é uma forme elegante de dizer que o estudo levado a cabo pela APA é uma fraude científica. [Sempre bom chamar os bois pelos nomes.]

O mais recente estudo levado a cabo pelo sociólogo e professor da "University of Texas", Mark Regnerus, fornece evidências convincentes de que existem inúmeras diferenças no bem estar emocional e social entre os jovens adultos criados por mulheres que se encontram num relacionamento lésbico e aqueles que cresceram numa família nuclear.

O Dr. Marks reviu os estudos publicados entre 1980 e 2005 citados pelo sumário oficial de 2005 da APA que assegurou que "Nenhum estudo verificou que as crianças de pais [sic] lésbicas ou gays possuem algum tipo de desvantagem de forma significativa quando comparadas com os pais heterossexuais."

Para chegar a esta conclusão absurda mas politicamente correcta, a elite esquerdista teve que recorrer a estudos defeituosos e/ou imperfeitos.

Dos 59 estudos referenciados no sumário da APA, mais de 3/4 basearam-se em amostras pequenas, não-aleatórias e não-representativas, que não incluíam indivíduos ou famílias pertencentes a minorias étnicas; mais de metade não tinha um grupo heterossexual com quem se comparar ; e poucos examinaram os resultados que se estendiam para além da idade infantil, tais como pobreza intergeracional, realizações educacionais, e criminalidade, que são os focos-chave dos estudos em torno de crianças de pais divorciados, pais que voltaram a casar e coabitantes.

Por outras palavras, "A ausência de dados de elevada qualidade deixa as questões mais importantes por responder," concluiu Marks.

O Professor Regnerus levou a cabo um estudo mais profissional e, como seria de esperar, os resultados foram bastante diferentes - e totalmente anti-politicamente correctos:

Segundo o que ele apurou, as crianças de mulheres em relacionamento homossexual eram significativamente diferentes - quando jovens adultos - em 25 das 40 medidas de resultado (63%) quando comparadas com as crianças que cresceram com os seus pais biológicos.

Por exemplo, eles reportaram níveis de rendimento significativamente inferiores, maior dependência da assistência estatal, menores níveis de empregabilidade, pior saúde mental e física, pior qualidade no relacionamento com o parceiro actual, e níveis mais elevados de consumo de tabaco e criminalidade.

Se as autoridades querem mesmo saber o que pode acontecer às crianças que são usadas como adereços nos "casamentos" homossexuais, o melhor que têm a fazer é perguntar aos rapazinhos que Frank Lombard e o seu parceiro homossexual adoptaram, abusaram sexualmente e que cujo corpo eles venderam a outros sodomitas.

Estudo científico revela que as crianças adquirem a homossexualidade por aculturação e educação
Fonte

Uma das bandeiras da propaganda gayzista protagonizada pelo activismo gay da ILGA, da Ex-aequo e outras organizações patrocinadas pelo governo de José Sócrates, é o slogan segundo o qual “a homossexualidade não se pega” e que, portanto, as crianças podem perfeitamente ser educadas por duplas de gays, e o homófobo é “lélé da cuca”.

O argumento segundo o qual “a homossexualidade não se pega” foi recentemente utilizado pelos gayzistas patrocinados pelos governo de Sócrates e pelo Bloco de Esquerda para defender não só o “casamento” gay como a adopção de crianças por duplas de avantesmas.

Acontece que um estudo recente (PDF) realizado por cientistas ligados ao activismo gay nos Estados Unidos ― e portanto, fora de qualquer suspeita ― demonstrou que as crianças educadas em ambiente familiar homossexual têm de 4 a 10 vezes mais probabilidade de virem a tornar-se homossexuais do que uma criança educada num ambiente familiar normal [heterossexual].

“Research by social scientists, although not definitive, suggests that children reared by openly homosexual parents are far more likely to engage in homosexual behavior than children raised by others. Studies thus far find between 8% and 21% of homosexually parented children ultimately identify as non-heterosexual. For comparison purposes, approximately 2% of the general population are nonheterosexual. Therefore, if these percentages continue to hold true, children of homosexuals have a 4 to 10 times greater likelihood of developing a non-heterosexual preference than other children.”

→ Pro-Homosexual Researchers Conceal Findings: Children Raised by Openly Homosexual Parents More Likely to Engage in Homosexuality

Gostaria que o Dr. Daniel Sampaio, e o outro “psiquiatra de serviço” na Antena 1 ― tão amantes que são da ciência e da “educação sexual” nas escolas que introduza o conceito político de “orientação sexual” ―, comentassem este estudo científico; mas eles nunca o fariam para não terem que se confrontar com as suas próprias incongruências e agendas políticas.

Batistas, a zorra.

Os Batistas
Por Quadrante

Embora as suas inúmeras denominações apresentem discrepâncias doutrinais entre si, todos batistas costumam pregar que só os adultos é que podem receber o Batismo. Será que semelhante idéia está presente na Sagrada Escritura?
Os batistas, em geral, não têm idéias claras acerca da origem da sua denominação. Embora alguns o afirmem, nada tem a ver com São João Batista nem com os discípulos deste santo. Antes prende-se com os anabatistas, um grupo de seguidores de Lutero – Thomas Münzer, Balthasar Hubmaier, Geoge Baulrock e Ludwig Hoetzer – que pensavam que o reformador não ia longe o suficiente na doutrina e na reforma da Igreja. Estes passaram a pregar na Alemanha e na Suíça uma Igreja espiritual em grau máximo, sem hierarquia visível, constituída unicamente pela adesão interior consciente dos homens à Palavra de Deus. O sinal característico dessa nova Igreja seria o batismo, a ser ministrado aos adultos, não às crianças, de sorte que os membros do grupo batizavam de novo os fiéis que lhes aderiam; daí o nome de “anabatistas” ou “rebatizadores”.

O movimento anabatista sofreu forte repressão por parte de Lutero, Zwingli e dos príncipes alemães. Desencadeou revoltas fanáticas, das quais a mais famosa é a dos camponeses, cujo chefe, Thomas Münzer, foi decapitado em 1525. Não poucos anabatistas, fugindo à perseguição, começaram a propagar suas idéias na Itália, na Holanda, na Inglaterra e na Escandinávia, onde subsistem até hoje em pequenos grupos.

Mais importantes são as ramificações que procederam do tronco anabatista, como são os menonitas (de Menno Simons), os irmãos hutterianos (de Jakob Hutter), a Igreja dos Irmãos nos Estados Unidos da América do Norte, a Igreja dos Irmãos Evangélicos Unidos e a Igreja Batista, a mais numerosa de todas.

Os batistas têm por fundador o inglês John Smyth (†1617), ex-ministro anglicano, que desejava uma reforma mais radical do que a anglicana (v. anglicanismo). Não se conformava com a organização hierárquica episcopal nem com a liturgia anglicana, que ele julgava supérfluas. Por isso formou em Gainsborough uma pequena comunidade dissidente no ano de 1604; mas foi perseguido pela Igreja oficial e obrigado a exilar-se com os seus companheiros, indo ter a Amsterdam, na Holanda. Ali morou em casa de um padeiro menonita, que o persuadiu da tese anabatista, de que o batismo conferido às crianças era inválido. Smyth administrou-se a si mesmo um segundo batismo, de cujo valor, porém, começou a duvidar. Em conseqüência, seus companheiros, por ele convencidos da tese anabatista, o expulsaram da comunidade; Smyth não conseguiu ser admitido nem mesmo entre os menonitas, aos quais pedira acolhimento.

Em 1612, um grupo dos seus discípulos voltou à Inglaterra, e lá fundou a primeira Igreja Batista (não mais Anabatista), também chamada dos Batistas Gerais, porque, contrariamente à doutrina calvinista, ensinava que Cristo tinha salvo pela cruz todos os fiéis, e não apenas os “predestinados”.

Pouco depois, formaram-se outros grupos, ditos dos Batistas Regulares ou Particulares. Em 1641, outra pequena comunidade de dissidentes do anglicanismo, em Londres, convenceu-se da tese anabatista, e enviou um dos seus membros, Richard Blount, a Rijnsburg, na Holanda, a fim de pedir o batismo dos adultos aos menonitas e assim trazer à Inglaterra o “verdadeiro batismo”. Blount se desincumbiu de sua missão e rebatizou por imersão (única forma de batismo reconhecida por esses grupos) cinqüenta e cinco membros da sua comunidade londrina; aceitou do calvinismo holandês a doutrina de que Cristo salva somente os predestinados – donde origina o nome de “Batistas Particulares” que lhes coube.

Hoje em dia, contam-se mais de vinte ramos batistas, que em 1905 se uniram de maneira um tanto vaga na Liga Batista Mundial; são, entre outros, os batistas calvinistas, os batistas congregacionalistas, os batistas primitivos, os batistas do livre pensamento, os batistas dos seis princípios (porque aceitam como único fundamento dá fé e da vida cristã os seis pontos mencionados em Hebr 6, 1-2: arrependimento, fé, batismo, imposição das mãos, ressurreição dos mortos, juízo eterno), os batistas tunkers, os batistas campbellitas, os batizantes a si mesmos, os batistas abertos, os batistas fechados, os batistas do sétimo dia (que observam o sábado e não o domingo), etc.

Cada comunidade batista é independente de qualquer autoridade visível, seja eclesiástica, seja civil; é regida diretamente “por Jesus Cristo e pelo Espírito Santo”, que agem na assembléia – não há, portanto, hierarquia nem jurisdição eclesiástica. O pastor é, de certo modo, o governante absoluto da comunidade; esta, porém, pode rejeitá-lo e substituí-lo por outro. Todo o poder é delegado pela assembléia dos crentes, que elege os que por ela respondem, tanto pastores como diáconos.

Em matéria doutrinal, os batistas seguem a grandes traços as teses calvinistas. Afirmam a predestinação não só para a glória, mas também para a condenação eterna e a justificação pela fé sem as obras. Os ritos do batismo e da Santa Ceia não são meios de comunicação da graça (que vem somente pela fé), mas servem apenas para fortalecer aqueles que os praticam com fé. Como no protestantismo em geral, a Bíblia é tida como única fonte de doutrina.

Na realidade, negar o batismo das crianças significa um afastamento da tradição bíblica e cristã. Lemos no Novo Testamento que vários personagens pagãos professaram a fé cristã e se fizeram batizar com toda a sua casa: o centurião romano Cornélio (At 10, 1-48), a negociante Lídia de Filipos (At 16,14-15), o carcereiro de Filipos (At 16, 31-33), a família de Estéfanas (1 Cor 1, 16), etc. A expressão “casa” (oikos, em grego) designava o chefe de família com todos os seus domésticos, incluídas as crianças.

Quanto à imersão, não é obrigatória, pois não é o volume de água que importa, mas sim a efusão da água como símbolo e canal de pureza interior. No dia de Pentecostes, em Jerusalém, as três mil pessoas que se converteram (cf. At 2, 41) certamente não foram batizadas por imersão, pois lá não havia rio e os reservatórios de água não comportavam tal quantidade de batismos.

Fontes principais:

BETTENCOURT, Estêvão, Religiões, Igrejas e seitas, Lumen Christi, Rio de Janeiro, 1997
GOMEZ, Manuel Guerra, Los nuevos movimientos religiosos, EUNSA, Pamplona, 1993.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Espiritismo, algo desagradável a Deus.

Espiritismo e Fé
Por D. Boaventura Kloppenburg

Muitos pensam que espiritismo e catolicismo são compatíveis e até complementares. A verdade, entretanto, é bem outra. Neste trecho tirado do livro Espirismo e Fé, D. Boaventura Kloppenburg mostra claramente as discrepâncias entre a doutrina espírita e a doutrina de Cristo.

COMO SURGIU O ESPIRITISMO

A prática da evocação dos falecidos para deles receber conhecimentos, chamada também “necromancia” (do grego nekrósfalecido e manteiaadivinhação), é antiga. Mas o seu aproveitamento sistemático, denominado “espiritismo”, vem do século passado.

Surgiu primeiro nos Estados Unidos, em torno dos estranhos acontecimentos de Hydesville com as irmãs Fox, a partir de 1848 (1). Mas já um ano antes, em 1847, aparecia nos Estados Unidos uma obra mediúnica de Andrew Jackson Davis e outra na França, de Louis Alphonse Cahagnet, do grupo dos “magnetizadores” de Paris, que se serviam de “sonâmbulos” (assim eram então denominados os médiuns) para receber revelações do além-túmulo. Em 1856, o mesmo Cahagnet publicava em Paris Révélations d´outre-tombe, com mensagens ditadas, segundo pretendia, pelos falecidos Galileu, Hipócrates, Franklin e outros.
(1) Certa noite, o pastor protestante John Fox, sua esposa e as duas filhas, Margaret e Katie, estavam a conversar sobre estranhos fenômenos de assombração. Catarina, então, produziu estalos com os dedos; notaram todos que alguém os repetia. Por sua vez, Margarida produziu estalos e encontrou eco. Apavorada, a sra. Fox perguntou: “É homem ou mulher que está batendo?”, mas não obteve resposta. Insistiu então: “É espírito? Se é espírito, bata duas vezes”. Produziram-se duas breves pancadas. Concluiu, assim, que um espírito “desencarnado” estava em comunicação com a família, e as “sessões” de comunicação por esse método continuaram. Mais tarde, os adeptos das irmãs Fox encontraram em Andrew Jackson (1826-1910) um organizador, que estruturou as clássicas sessões com médiuns, a evocação em torno de uma mesa etc. ... No entanto, em 1888 Margaret e Katie retrataram-se de maneira repetida, pública e solene, confessando que tinham recorrido a truques e fraudes para produzir as pancadas (veja-se New York Herald de 27.05.1888 e 10.09.1888, e The World de 22.10.1888). As notas deste artigo não aparecem no livro impresso (N. do E.).


Foi neste ambiente interessado no “magnetismo animal” imaginado pelo médico austríaco Franz Anton Mesmer (1733-1815), instalado em Paris desde 1778, que nasceu o “espiritismo”. Esta palavra foi proposta por Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), mais conhecido pelo seu pseudônimo de Allan Kardec, o codificador sistemático de um tipo especial de espiritismo conhecido também como “kardecismo”.

Este é o espiritismo dominante no Brasil.

Allan Kardec (isto é, Denizard Rivail) era de família católica. Com a idade de 10 anos foi enviado a Yverdun, Suíça, ao Instituto de Educação dirigido pelo conhecido pedagogo Pestalozzi, protestante calvinista e liberal, que identificava religião com moralidade. Lá esteve o jovem Rivail até 1822, quando foi a Paris, onde se dedicou então ao ensino e publicou vários livros pedagógicos e didáticos. De boa formação geral e cultural, era metódico, lógico e claro na exposição das suas idéias. Conhecia também o alemão e o inglês e trabalhava como tradutor. Bom matemático, atuou ainda como contabilista. Casou-se em 1826 com Amélie Gabrielle Boudet, nove anos mais velha e de boa situação financeira. Não teve filhos.

Mas Alan Kardec não era particularmente versado em religião e muito menos em teologia. Em maio de 1855, começou a interessar-se pelo fenômeno das “mesas girantes e falantes”, nascido nos Estados Unidos, e aceitou a teoria da presença e atuação de “espíritos” ou almas dos falecidos nos movimentos de mesas, cestas e outros objetos usados pelos “sonâmbulos” dos “magnetizadores”. E já dois anos depois, no dia 18 de abril de 1857, publicou O Livro dos Espíritos. Este dia 18 de abril de 1857 é considerado pelos espíritas como o dia da fundação do espiritismo.

O Livro dos Espíritos é a obra fundamental da codificação da doutrina espírita, com o seguinte subtítulo: “Princípios da doutrina espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da Humanidade – segundo os ensinos dados por espíritos superiores com o concurso de diversos médiuns – recebidos e coordenados por Allan Kardec”.

Outra obra básica de Allan Kardec para a prática do espiritismo foi publicada em 1861: O Livro dos Médiuns, com o subtítulo “Guia dos médiuns e dos evocadores”. Note-se aqui a palavra “evocadores”, indicando assim a função determinante da “evocação” para o espiritismo.

Além destes dois livros básicos, Allan Kardec ainda escreveu e publicou O Evangelho segundo o Espiritismo (em 1864), que é a sua obra mais difundida no Brasil, já com cerca de dois milhões de exemplares. Publicou também O Céu e o Inferno (em 1865) e A Gênese (em 1868). Depois da sua morte, em 1869, mais alguns textos inéditos foram publicados como Obras Póstumas. Em 1858, Allan Kardec começou a publicar a sua Revue Spirite (“revista espírita”), que deixou de aparecer com este título em 1976.

O espiritismo codificado por Allan Kardec foi introduzido no Brasil ainda em vida do codificador, a partir de 1865. Em 1884, foi fundada a Federação Espírita Brasileira (FEB), tendo desde então como órgão oficial a revista Reformador, palavra que revela um programa.


CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS

Há muitas coisas em comum entre catolicismo e espiritismo. Católicos e espíritas concordam em professar que o mundo não é só matéria; que Deus existe e é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom; que Deus criou o universo, que abrange todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais; que os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo e os seres imateriais o mundo invisível dos espíritos; que os valores do espírito são superiores aos da matéria; que o ser humano não é só matéria; que temos uma alma de natureza espiritual; que esta alma não morre quando se separa do corpo no momento do desenlace; que depois da morte a nossa alma continua viva e consciente; que a vida depois da morte depende do modo como aproveitamos a vida agora no corpo (2).

(2) O homem se comporia, de acordo com a doutrina espírita, de alma ou espírito, perispírito e corpo. O espírito seria a sede da inteligência, da vontade e da consciência moral. A alma se acharia encarnada num corpo, que viria a ser “o alambique no qual o espírito tem que entrar para se purificar”. E o perispírito seria um “envoltório” fluido, leve e imponderável para a alma, que serviria de intermediário entre o espírito e o corpo. É preciso comentar, a este respeito, que o corpo e a alma formam uma unidade, e que o conceito do corpo como uma espécie de roupagem temporária, embora difundido, é profundamente contrário ao bom senso. A doutrina do perispírito, essencial para a interpretação espírita dos fenômenos mediúnicos (como os “ectoplasmas”, isto é, as representações espaciais de pessoas ou objetos ausentes; a “telecinese”, movimentação de objetos materiais à distância; a “escotografia”, fotografia de imagens de supostos mortos etc.), carece de confirmação seja por parte das grandes tradições filosófica, seja da ciência moderna, e mais vale considerá-la com certa reserva. Mesmo a parapsicologia ainda parece estar em seus primeiros passos, e não parece resolver satisfatoriamente essas questões (N. do E.).


Católicos e espíritas estão de acordo também em afirmar que os falecidos não rompem seus laços com os que ainda vivem nesta terra; que no mundo do além nem todos são iguais; que há espíritos perfeitos que vivem com Deus; que estes espíritos nos podem socorrer e ajudar; que há espíritos imperfeitos e até maus que assim se fizeram por próprio arbítrio; que estes nos podem perturbar e prejudicar.

Católicos e espíritas proclamam e reconhecem a extraordinária figura de Jesus Cristo (3); que Jesus nos ensinou o caminho do bem e da salvação; que as leis morais do Evangelho são excelentes; que Jesus insistiu principalmente na caridade; que fora da caridade não há salvação; que devemos fazer o bem e fugir do mal; que há pecados e vícios que devem ser evitados; que os pecados devem ser expiados; que a virtude será premiada depois da morte.

(3) Para Kardec, porém, Jesus Cristo não passaria de um espírito muito evoluído através das suas sucessivas reencarnações (ver abaixo). Deus teria enviado o espírito de Jesus à terra não já para purificar-se, mas para ensinar aos homens deste planeta pouco evoluído o caminho do bem e do amor. Jesus teria sido “o maior dos enviados de Deus”, e somente nesse sentido poderia ser chamado Deus. Ter-se-ia tornado pela sua missão o “governador espiritual deste planeta”. Os espíritas não podem ser chamados de cristãos, uma vez que não reconhecem a divindade de Cristo (N. do E.).


Católicos e espíritas aceitam outrossim que os espíritos do além podem manifestar-se ou comunicar-se perceptivelmente conosco. Ambos admitem dois tipos de manifestação dos espíritos: as espontâneas e as provocadas. Por manifestações espontâneas entendem as que têm a sua origem ou iniciativa no além, como foi, por exemplo, o caso que nos é narrado pelo Evangelho de São Lucas (1, 26-38): o anjo Gabriel foi enviado por Deus a Maria de Nazaré para comunicar-lhe que ela seria a mãe de Jesus. Por manifestações provocadas entendem as que têm a sua iniciativa no aquém, como foi, por exemplo, o caso que nos é relatado pelo primeiro livro de Samuel (28, 3-25): a pedido do rei Saul, a necromante de Endor evoca a alma do falecido Samuel, que então comunica ao rei os castigos divinos.

Mas é neste ponto que começa uma primeira divergência fundamental entre católicos e espíritas: os católicos admitem de bom grado as manifestações espontâneas que nos são oferecidas por iniciativa da bondade de Deus, mas consideram divinamente proibidas as manifestações provocadas pelo homem mediante o processo da evocação; e os espíritas transformam precisamente esta evocação dos falecidos em meio principal para as suas novas revelações do além.

O espiritismo se especifica, caracteriza e define por sua prática das manifestações provocadas das almas ou espíritos dos falecidos, para deles receber mensagens ou algum tipo de ajuda. A evocação dos falecidos constitui a essência do espiritismo. Sem a evocação não há espiritismo. E a evocação é a fonte principal de seus conhecimentos específicos ou da sua doutrina.

Há ainda uma segunda discordância fundamental entre católicos e espíritas: a questão da reencarnação. Os católicos crêem na unicidade da vida terrestre; e os espíritas anunciam a pluralidade das reencarnações. Este desacordo tem em si tantas conseqüências lógicas, sobretudo no modo de conceber a salvação eterna, que conduz de fato a dois corpos doutrinários frontalmente discrepantes e opostos entre si de modo irreconciliável.

Em resumo: apesar das numerosas convergências entre católicos e espíritas, há duas palavras que marcam a separação e caracterizam o espiritismo: evocação e reencarnação.


A PROIBIÇÃO DIVINA DA EVOCAÇÃO

Vimos que a evocação ou a manifestação provocada das almas dos falecidos, que são os “espíritos” do espiritismo, especifica, caracteriza e define o movimento suscitado por Allan Kardec. Sem evocação não há espiritismo. A evocação é a base da doutrina codificada por Allan Kardec.

Entretanto, a evocação não foi inventada por Allan Kardec. A sua prática já era conhecida nos tempos do Antigo Testamento. As gentes no meio das quais vivia o povo judeu a conheciam e praticavam abundamentemente. Mas o próprio Deus proibiu então severamente a evocação. Os textos são abundantes. Basta ler Êxodo 22, 17; Levítico 19, 31; Levítico 20, 6; Levítico 20, 27; Deuteronômio 18, 10-14; 2 Reis 17, 17; 2 Reis 21, 6; Isaías 8, 19-20 e, de maneira particular, 1 Samuel 28, 3-25.

Vejamos Deuteronômio 18, 10-14: Que em teu meio não se encontre alguém que faça presságios, oráculos, adivinhações ou magia, ou que pratique encantamentos, interrogue espíritos ou adivinhos, ou evoque os mortos; pois quem pratica essas coisas é abominável a Iahweh, e é por causa dessas abominações que Iahweh teu Deus os desalojará em teu favor. Tu serás íntegro para com lahweh teu Deus. Eis que as nações que vais conquistar ouvem os oráculos e adivinhos. Quanto a ti, isso não te é permitido por Iahweh teu Deus.

A proibição divina é clara, repetida, enérgica e severíssima.

Este mandamento divino não foi revogado na Nova Aliança. Basta ler Atos dos Apóstolos 13, 612; 16, 16-18; 19, 11-20. Neste último texto, descreve-se a atividade e a pregação de Paulo em Éfeso, com um resultado surpreendente: Muitos daqueles que haviam crido vinham-se confessar e revelar as suas práticas. Grande número dos que se haviam dado à magia amontoavam os seus livros e os queimavam na presença de todos. E estimaram o valor deles em cinqüenta mil peças de prata. Deviam ser muitos os livros de magia! O fato de eles terem queimado esses livros só se explica se admitirmos que o Apóstolo falou fortemente contra tais práticas.

Na carta aos Gálatas (5, 20-21), declara o mesmo Apóstolo que os que se entregam à magia não herdarão o Reino de Deus. E São João, no Apocalipse, revela que a parte dos magos se encontra no lago de fogo e enxofre (21, 8); e que, na hora do julgamento, eles ficarão de fora da Cidade Eterna (22, 15).

Posteriormente, a Igreja sempre se manteve fiel a esta rigorosa interdição divina de evocar os falecidos. No último Concílio, o Vaticano II, na Constituição Lumen Gentium (1964), temendo que a doutrina sobre a nossa comunicação espiritual com os falecidos pudesse dar azo a interpretações do tipo espiritista, acrescentou ao texto a nota no. 2 “contra qualquer forma de evocação dos espíritos”, coisa que, segundo esclareceu a Comissão teológica responsável pela redação do texto, nada tem a ver com a “sobrenatural comunhão dos santos”.

A Comissão definia então mais claramente o que se proíbe: “A evocação pela qual se pretende provocar, por meios humanos, uma comunicação perceptível com os espíritos ou almas separadas, com o fim de obter mensagens ou outros tipos de auxílio”.

É exatamente isso o que o espiritismo pretende fazer.

O Concílio Vaticano II remete-nos então a vários documentos anteriores da Santa Sé, principalmente à declaração de 4 de setembro de 1856 e à resposta de 24 de abril de 1917. Na declaração de 4 de agosto de 1856, precisamente quando o católico Allan Kardec se iniciava na arte da evocação, era repetida a interdição de “evocar as almas dos mortos e pretender receber as suas respostas”.

No documento de 24 de abril de 1917 também se declarava ilícito “assistir a sessões ou manifestações espiritistas, sejam elas realizadas ou não com o auxílio de um médium, com ou sem hipnotismo, sejam quais forem estas sessões ou manifestações, mesmo que aparentemente simulem honestidade ou piedade; quer interrogando almas ou espíritos, ou ouvindo-lhes as respostas, quer assistindo a elas com o protesto tácito ou expresso de não querer ter qualquer relação com espíritos malignos”.

Esta é a orientação da Igreja.

Mas a Igreja, por seu magistério oficial, nunca se pronunciou nem sobre a verdade histórica ou autenticidade, nem sobre a natureza, nem sobre a causa dos fenômenos mediúnicos ou próprios do espiritismo. Por isso:

a) nenhuma das várias interpretações propostas sobre a natureza ou a causa dos fenômenos mediúnicos – nem mesmo a interpretação espírita – foi censurada, rejeitada ou condenada oficialmente pela Igreja;

b) não corresponde à verdade dizer que a Igreja endossa oficialmente a interpretação que vê nos fenômenos mediúnicos uma intervenção preternatural do diabo;

c) jamais a Igreja proibiu o estudo ou a investigação científica dos fenômenos mediúnicos. O católico não está absolutamente proibido de estudar a metapsíquica ou a parapsicologia.

O que a Igreja faz, fez e continuará a fazer, por ser esta a sua missão específica, é recordar o mandamento divino que proíbe evocar os falecidos ou outros espíritos quaisquer. Esta proibição vem de Deus, não da Igreja, que não tem nem autoridade nem competência para modificar ou revogar uma lei, determinação ou proibição divina.

Para resolver a questão moral da prática do Espiritismo, pouco importa saber se os espíritas de fato conseguem ou não evocar espíritos em suas sessões; pois se o conseguem, não há dúvida a respeito da evocação e, por conseguinte, da desobediência; se não o conseguem, é certo que eles têm ao menos a intenção, o propósito ou a vontade deliberada de evocar e, portanto, de transgredir um mandamento divino. E isto basta para um pecado formal.

É necesário observar também a diferença fundamental entre invocação e evocação: esta última sempre pretende uma comunicação perceptível provocada por iniciativa do homem; aquela é apenas uma forma de prece ou súplica. E é evidente que a invocação é um ato bom e cristão, expressão da comunhão dos santos.


A HERESIA DA REENCARNAÇAO

A suposição da reencarnação ou da pluralidade das existências, chamada também palingenesia, é certamente o ponto central de toda a doutrina espírita. Allan Kardec chega a dizer que é um “dogma” (O Livro dos Espíritos, 171 e 222).

Todo o seu pensamento gira em torno das vidas sucessivas . O progresso contínuo através da reencarnação, da “metensomatose”, como diria Platão, é o seu postulado básico. Se riscarmos de suas obras a reencarnação, sobrarão apenas cacos sem valor. Depois da sua morte, em 1870, seus amigos fizeram gravar no monumental dólmen do cemitério Père-Lachaise, em Paris, o apotema que resume a sua doutrina: “Nascer, morrer, renascer de novo e progredir sem cessar: esta é a lei”.

A palavra “reencarnação”, composta do prefixo re (designativo de repetição) e do verbo encarnar (tomar corpo), significa etimologicamente: tornar a tomar corpo. Designa a ação do ser espiritual (espírito ou alma) que, tendo já animado um corpo no passado, foi posteriormente dele separado pela morte e agora torna a informar ou vivificar um corpo novo.

Escreve Allan Kardec que “o princípio da reencarnação ressalta de muitas passagens das Escrituras, achando-se especialmente formulado, de modo explícito, no Evangelho” (O Livro dos Espíritos, n. 222). Opina mesmo que “sem o princípio da pré-existência da alma e da pluralidade das existências, são ininteligíveis, em sua maioria, as máximas do Evangelho” (O Evangelho segundo o Espiritismo, 39ª ed., p. 72). Contudo, o vocábulo “reencarnação” não ocorre nos Evangelhos.

A doutrina de Kardec acerca da reencarnação, que pode ser compendiada nestas quatro proposições:

1ª) Pluralidade das existências: a nossa vida atual não é a primeira nem será a última existência corporal; já vivemos e ainda teremos que viver inúmeras vezes em corpos materiais sempre novos.

2ª) Progresso contínuo para a perfeição: a lei do progresso impele a alma para sempre novas vidas e não permite não só nenhum regresso, mas nem mesmo um estacionamento definitivo a meio caminho, e muito menos comporta um estado definitivo de condenação sem fim (inferno): mais século, menos século, todos chegarão à perfeição final de espírito puro.

3ª) Conquista da meta final por méritos próprios: em cada nova existência, a alma avança e progride na proporção dos seus esforços; todo o mal cometido será reparado com expiações pessoais, sofridas pelo próprio espírito em novas e difíceis encarnações (lei do carma).

4ª) Definitiva independência do corpo: na proporção em que avança na incessante conquista para a perfeição final, a alma, em suas novas encarnações, assumirá um corpo sempre menos material, até chegar ao estado definitivo, em que viverá; para sempre, livre do corpo e independente da matéria (4).

(4) A salvação decorreria, portanto, não da graça de Deus nem dos méritos obtidos por Cristo, mas do esforço pessoal de cada indivíduo que procure purificar-se do “pecado original”, ou seja, dos pecados cometidos em encarnações anteriores. Uma vez livre das reencarnações, o espírito do indivíduo passará a gozar de felicidade no Reino dos Céus. Os espíritas rejeitam peremptoriamente o conceito bíblico de inferno. (N. do E.).


Sem estes quatro princípios, não há reencarnação. Quem proclama a reencarnação também afirma a pluralidade das existências terrestres, sustenta o progresso contínuo para a perfeição, garante a conquista da meta final por méritos próprios e defende uma vida definitiva independente da matéria.

Mas quem nega estes pontos, quem contesta as vidas sucessivas do homem sobre a terra, a marcha irreprimível e certa para o fim supremo, a necessidade de adquirir a perfeição final só por esforços pessoais e a definitiva independência da matéria, recusará também a idéia da reencarnação (5).

(5) A teoria da reencarnação contraria o senso comum, uma vez que não experimentamos o corpo como algo que “temos”, mas algo que “somos”; não conservamos o menor vestígio de lembrança quer da preexistência no mundo dos espíritos, quer das vidas passadas. Ninguém pode dizer que pecados cometeu numa encarnação anterior, e muito menos que deve expiá-los na vida presente; portanto, estaríamos pagando por faltas que ignoramos, o que não é pedagógico. Histórica e logicamente, a teoria da transmigração das almas nasce de uma visão excessivamente materialista e imaginativa do que seja o espírito; e sobretudo é um recurso que permite eludir, ao menos aparentemente, a dura verdade de um castigo eterno para quem se empenha em contrariar a sua consciência. O inferno parece, assim, confortavelmente suprimido por decreto. Mas, sobretudo, o reencarnacionismo contraria a Revelação: todo o Evangelho presume que só há uma vida, e que receberemos o prêmio ou o castigo eternos, na alma e no corpo, pelo que tivermos feito nesta vida. E a Epístola aos Hebreus o afirma expressamente: Está estabelecido que os homens morrem uma só vez, e depois disso vem o juízo (9, 27).


Fonte: Espiritismo e Fé, Editora Quadrante, 1990

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Budismo, a ilusão.

Budismo

Fonte: Quadrante

De uns tempos para cá, o Budismo tem ganhado cada vez mais adeptos nos países ocidentais. Por isso, é necessário conhecê-lo melhor e saber os seus pontos de convergência e divergência com o Cristianismo.
A palavra Buddha significa, em língua páli, “o Iluminado”. É o cognome atribuído a Sidhartha Gautama, também conhecido por Sakyamuni (o sábio dos Sakya). Deve ter vivido entre os anos 566 a 486 a.C. no nordeste da Índia. Segundo a tradição, seu pai havia recebido uma profecia de que Sidharta seria um grande guerreiro, de acordo com a casta a que pertencia (xátria), se desconhecesse o sofrimento e a contingência; caso contrário, transformar-se-ia num sadhu, num asceta. Assim, foi educado por seu pai no luxo burguês; casou-se aos dezenove anos e levou uma vida conjugal feliz e abastada durante dez anos. Mas essa existência faustosa não o satisfazia. Um belo dia, estimulado pelo encontro com um velho, um doente e um cortejo fúnebre, viu-se forçado a considerar a realidade da vida e a seriedade da passagem do homem sobre a terra. Depois, o exemplo de um sadhu levou o príncipe a abandonar tudo para pesquisar as causas do sofrimento, da velhice, da morte e do renascer. Abandonou então a família, fez-se eremita numa floresta e pôs-se a estudar os grandes mestres da época, impingindo-se, como os sadhu, severas mortificações que quase o levaram à morte. Buda descobre então que deve evitar os caminhos extremos da terra: o prazer desenfreado e o da ascese rigorosa. Depois de passar sete semanas em meditação ao pé de uma árvore em posição de lótus, atingiu a iluminação, em sânscrito, bodhi, donde Buda.

Sobre o pano de fundo do hinduísmo, Buda operou uma grande simplificação, eliminando em princípio todas as divindades intermediárias e a multiplicidade de praxes ascéticas, à busca do “caminho do meio”, de uma vida ascética compatível com o comum dos mortais. Postula como ponto de partida as quatro “nobres verdades”:

1. O homem é afetado por inúmeros sofrimentos. Dukkha, “o sofrimento, é o mesmo que nascer, declinar e morrer”: esse itinerário é todo ele feito de dor e tribulação. A contínua mudança de tudo, ou sua desintegração, é especial motivo de sofrimento.

2. A causa de todo o sofrimento é o desejo, o anseio; o homem quer ser, quer ter ou quer evitar... Apega-se às coisas sensíveis porque estas lhe proporcionam uma satisfação momentânea, satisfação que por sua vez gera ainda novos desejos e apegos. A causa dessa avidez é a ignorância do significado das coisas sensíveis; o homem tende a não considerar o quanto elas são vazias. Se alguém morre com desejos não realizados, ou com culpas na consciência, esse “lastro” forma o seu karma, o seu destino nas futuras encarnações; tem de renascer a fim de purificar-se do karma, e o ciclo de dores continuará.

3. O sofrimento cessa quando se extinguem todas as aspirações da mente e dos sentidos do indivíduo. Quem se liberta de todos os anseios experimenta a cura e goza de paz e felicidade indizíveis, num estado dito nirvana.

4. Qual seria então a via que leva a essa felicidade? É o “caminho do meio” entre a extrema mortificação e a desenfreada satisfação dos anseios sensuais. É esta a quarta “nobre verdade”, que por sua vez compreende oito deveres distribuídos em três grupos:

Sila, que abrange: a) o falar reto; b) o agir reto; c) o ter os meios de subsistência justos;

Samadhi, que consiste em: d) o esforço justo; e) a atenção justa; f) a meditação justa (concentração); e

Panna, que abrange g) as idéias justas e h) as aspirações (o pensamento) justas.

O Nirvana, palavra sânscrita, significa o “desaparecimento” ou “extinção”, à semelhança da extinção do fogo. Buda afirmava que o mundo todo estaria em chamas, incendiado pelo fogo do desejo, e cada reencarnação reacenderia uma chama. O Nirvana apagaria definitivamente essa chama, pondo termo definitivamente ao ciclo das reencarnações pessoais. Esse termo não poderia ser descrito com palavras; mas é claro que, segundo os ensinamentos de Buda, todos os atributos pessoais desapareceriam: já não haveria mais nem “eu” nem “tu” nem “ele”.

Na verdade, o budismo ensina que no homem não existiria um “eu” ou uma “alma” permanente; professa a an-atta (“não-alma”). Essa doutrina é considerada geralmente o nervo do budismo, aquilo que o distingue de todos os outros sistemas filosófico-religiosos. O eu seria apenas uma “harmonia”, uma combinação sempre em mudança de forças e energias mentais e físicas, que se poderiam reduzir a cinco categorias:

a) matéria (solidez, fluidez, calor, movimento);

b) sensação (visão, audição, paladar, olfato, tato, memória);

c) percepção (as seis percepções correspondentes às seis sensações);

d) formação mental (vontade ou atividade mental);

e) consciência: a reação ou a resposta aos fenômenos. No Nirvana ou no estado de paz absoluta, o “eu” estaria desintegrado, e portanto já não se pode falar de “felicidade” ou “salvação” pessoal.

Depois da libertação, portanto, haveria um nada, não em sentido negativo, mas em sentido positivo, porque seria a negação das realidades negativas. O hinduísmo propõe a salvação mediante a fusão do “eu” com o Absoluto, como uma gota que cai no Oceano; o budismo, pelo contrário, diz que não devem existir nem o eu nem o Absoluto, mas a superação de ambos no Nirvana. Por isso, há quem diga que o budismo, na sua concepção originária, não é uma religião, pois volta a sua atenção para o homem mais do que para Deus, procurando levar seus adeptos ao auto-desenvolvimento e à insensibilidade frente às paixões.

Buda era contrário aos ritos religiosos e às orações e cerimônias litúrgicas. Por isso, não fundou casa sacerdotal e nem quis organizar ou estruturar a sociedade dos seus discípulos. No entanto, a vida monástica renasceu com todo o vigor no seio dessa corrente; os monges são como que os adeptos modelares do budismo, os conselheiros e orientadores por excelência do povo budista. De resto, por toda a parte, como no lamaísmo do Tibé, no budismo do Sudoeste asiático, na China e no Japão o budismo readmitiu o culto – agora já há um Buda deificado – e fundiu-se com tradições locais, apresentando uma enorme variedade de subdivisões, ritos e praxes.

O budismo tem em comum com o cristianismo o anseio por uma vida pura e perfeita, isenta de paixões desregradas. No entanto, as diferenças são enormes:

1. Enquanto o cristianismo é monoteísta e fala de um Deus que é o primeiro Amor, o budismo é panteísta, isto é, identifica a divindade com o homem e o mundo. No entanto, “refina” tanto essa divindade que chega a identificá-la com o nada.

2. O budismo prega a auto-salvação, ao passo que o cristianismo prega a salvação por Deus. É Deus quem toma para si a salvação do homem, que este, sem dúvida, pode rejeitar.

3. O cristianismo se interessa pela salvação do homem, mas sem deixar de ser teocêntrico ou de estar voltado para Deus; a salvação do homem dá glória a Deus.

4. O mundo não é Maia, a “ilusão”, que é preciso superar inteiramente; em última análise, o mundo e o homem existem porque Deus, que é o Sumo Bem, os criou para difundir a sua bondade e espelhar no homem sua imagem e semelhança.

5. O cristianismo propõe ao homem o encontro com o “Grande Tu” ou o grande referencial de sua vida; não é um sistema de técnicas e métodos de manipulação espiritual, mas a mensagem do Amor que “primeiro nos amou” (cfr. Jo 4, 19) e que espera a condigna resposta do homem.

6. Também não é a libertação de todo o sofrimento que confere ao homem a paz. É a Cruz de Cristo, Deus e homem verdadeiro, que faz a ponte entre o céu e a terra, e assim confere ao sofrimento o sentido de um testemunho de fidelidade e amor. A dor foi transfigurada pela ressurreição da Páscoa.


O ZEN-BUDISMO

A palavra vem do japonês zenna, de zazen, “meditar sentado”. É uma seita budista de origem japonesa que põe o acento na plena realização do eu mediante a “iluminação”. Conforme se conta, teria a sua origem no seguinte episódio lendário: um discípulo entregou a Buda uma flor e pediu-lhe que lhe explicasse o mistério da sua doutrina. O mestre tomou a flor, contemplou-a em silêncio um longo tempo, e indicou com um gesto ao discípulo que se retirasse, sem lhe responder uma única palavra. Mas o discípulo logo compreendeu: o mistério e a felicidade não se alcançam com o ativismo, com o “fazer”, nem com a reflexão especulativa, o “conhecer”, mas apenas mediante a concentração, que abre para a “luz interior”.

A psicotécnica que usa consiste em:

a) sentar-se na postura zazen (a de Buda nas representações tradicionais);

b) exercícios respiratórios;

c) meditar os koan, breves narrativas enigmáticas e sem resposta;

d) exercícios para deter toda a atividade interior, tanto de pensamentos como de sentimentos, até se conseguir

e) o esvaziamento interior que permite a

f) iluminação, a penetração do espírito na zona de hiperconsciência ou zona celeste, que dotaria o praticante de uma consciência universal e de poderes sobrehumanos.


FONTES PRINCIPAIS:

Estêvão Bettencourt, Religiões, Igrejas e seitas, Lumen Christi, Rio de Janeiro, 1997
Manuel Guerra Gomez, Los nuevos movimientos religiosos, EUNSA, Pamplona, 1993.
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