sábado, 5 de abril de 2014

Esmolas, segundo São Tomás de Aquino.

Parece que não existe um preceito de dar esmolas:

1. Com efeito, os conselhos são diferentes dos preceitos. Ora, dar esmolas é um preceito, segundo o livro de Daniel (4, 24): “Ó rei, aceita meu conselho: redime teus pecados com esmolas”. Logo, dar esmolas não é um preceito.

2. Além disso, a cada qual é lícito usar ou conservar os seus bens. Ora, conservando-os, não se pratica a esmola. Logo, é lícito não dar esmola e, portanto, ela não é um preceito.

3. Ademais, tudo o que cai sob um preceito, por um certo tempo obriga sob pena de pecado mortal, porque os preceitos afirmativos obrigam por um tempo determinado. Portanto, se dar esmola fosse um preceito, poder-se-ia determinar um tempo durante o qual pecaria mortalmente quem não a desse. Ora, não parece que seja o caso, pois sempre se pode pensar que provavelmente um indigente poderá ser socorrido de outra maneira, e que o dinheiro da esmola poderia ser-nos necessário, no presente ou no futuro. Logo, parece que dar esmola não é um preceito.

4. Ademais, todos os preceitos se reduzem aos do Decálogo; entre eles nada concerne à esmola. Logo, dar esmola não é um dos preceitos.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, ninguém é condenado ao castigo eterno por omissão de uma obra que não é preceito. Ora, alguns deverão sofrer esta pena, porque não praticaram a esmola, como se vê no Evangelho de Mateus (25, 41). Portanto, dar esmola é um preceito.

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Como o amor ao próximo é um preceito, é necessário que tudo o que é indispensável para guarda-lo caia também sob o preceito. Ora, em virtude desse amor, não somente devemos querer o bem ao nosso próximo, mas inclusive realiza-lo: “Não amemos com palavras nem com a língua, mas com ações e em verdade”, diz a primeira Carta de João (3, 18). Para querer e operar o bem em relação ao próximo é preciso socorrê-lo nas necessidades, a saber, dando-lhe esmolas. Logo, dar esmola é um preceito.

Mas, como os preceitos tratam de atos de virtude, dar esmola será obrigatório na medida em que este ato for necessário para a virtude, isto é, enquanto a reta razão o exige. Ora, isso implica duas ordens de considerações, relativamente ao que dá e ao que recebe a esmola. Do lado do doador, deve-se levar em conta que as esmolas hão de ser feitas do seu supérfluo, como está no Evangelho de Lucas: “Dai esmola do que vos é supérfluo” (11, 41). Chamo supérfluo não só o que sobra das necessidades do doador, mas também das demais pessoas dele dependentes. Com efeito, cada um deverá primeiramente prover às suas necessidades próprias e às dos seus dependentes (neste caso fala-se do que é necessário à pessoa, sendo que este vocábulo implica a dignidade). Depois, com o que sobrar, as necessidades dos outros devem ser socorridas. É assim que faz a natureza: primeiro cuida, por meio da virtude nutritiva, do que é necessário para sustentar o próprio corpo; depois, pela virtude da geração, dispende o supérfluo para gerar um outro ser.

Do lado do beneficiário, requer-se que ele esteja na necessidade, sem o que a esmola não teria razão de ser. Mas como é impossível a cada um socorrer a todos os que padecem necessidade, o preceito não impõe que se faça esmola em todos os casos de necessidade, mas somente a necessidade que não pode ser socorrida de outro modo. Aplica-se aqui a palavra de Ambrósio: “Dá de comer ao que morre de fome; se não o fizeres, matá-lo-ás”.

Concluindo, eis o que é de preceito: dar esmola do supérfluo ao que passa por extrema necessidade. Fora dessas condições, dar esmola é um conselho, igual aos conselhos que se dão para buscarmos um bem melhor.

Quanto às objeções iniciais, deve-se dizer que:

1. Daniel dirigia-se a um rei que não estava sujeito à lei de Deus. Por isso, o que estava prescrito por essa lei, que ele não reconhecia, não lhe devia ser proposto senão sob forma de conselho. Ou, como se diz, trata-se de um caso em que a esmola não é de preceito.

2. Deve-se dizer que o homem tem a propriedade dos bens temporais que de Deus recebeu. Quanto ao uso, porém, eles não lhe pertencem unicamente, mas igualmente aos outros, que podem ser socorridos pelo seu supérfluo. É o que ensina Basílio: “Se confessas ter recebido de Deus estes bens (isto é, os bens temporais), deveria Deus ser acusado de injustiça por os ter repartido desigualmente? Por que tu vives na abundância, e o outro condenado a mendigar, senão para que tu ganhes os méritos de uma boa administração, e ele, a recompensa da paciência? É do faminto o pão que reténs; do nu a roupa que conservas no armário; do descalço o calçado que se estraga em teu depósito; do indigente a prata que possuis em custódia. Por isso, tuas injustiças são tão numerosas quanto os dons que poderias conceder”. O mesmo ensinou Ambrósio.

3. Se pode determinar um certo tempo dentro do qual peca mortalmente quem não praticar a esmola. Do lado do beneficiário, a esmola deve-lhe ser feita quando for de uma evidente e urgente necessidade, sem aparecer quem de pronto o socorra. Do lado do doador, quando possui um supérfluo que, segundo todas as previsões, presentemente não lhe será necessário. Não é forçoso fixar-se em considerações sobre tudo o que poderia ocorrer no futuro: seria “preocupar-se com o dia de amanhã” (Mt 6, 84), que o Senhor proíbe. Assim, o supérfluo e o necessário devem ser apreciados segundo as circunstâncias prováveis e mais comuns.

4. Todo socorro prestado ao próximo se reduz ao mandamento de honrar pai e mãe. Assim o interpreta o Apóstolo: “A piedade é proveitosa a tudo, pois contém a promessa da vida presente e futura” (I Ti 4, 8). Ele fala assim porque, ao preceito de honrar pai e mãe, acrescenta-se esta promessa: “para teres uma longa vida sobre a terra”. Ora, na piedade estão incluídas todas as espécies de esmolas.

Suma Teológica II-II, q.32, a.5

FONTE: http://sumateologica.wordpress.com/2014/01/23/tomas-responde-existe-um-preceito-de-dar-esmolas/#more-4837
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