quarta-feira, 16 de abril de 2014

A Caridade Fraterna - parte 1.

A CARIDADE FRATERNA – I parte
Pe. Garrigou-Lagrange, O.P.,
La Providence et la Confiance en Dieu


Sempre é de sumo interesse o tema da caridade, e convém insistir continuamente nele, sobretudo em nossa época, quando a caridade fraterna é negada por todo gênero de individualismos, e completamente falseada pelo humanitarismo dos comunistas e internacionalistas.

O individualismo põe o olhar somente no bem útil e deleitável do indivíduo, ou, no máximo, do grupo relativamente reduzido a que pertence o indivíduo. Daí procede a violência da luta, as vezes entre membros da mesma família, porém sobretudo entre as classes e os povos. Daí a rivalidade, a inveja, a discórdia, o ódio, as dissenções mais profundas. O individualismo desconhece o bem comum em seus diversos graus e insiste quase exclusivamente nos direitos individuais ou particulares.

Pelo contrário, o humanitarismo dos comunistas e internacionalistas afirma de tal maneira os direitos da humanidade em geral, mais ou menos identificada com Deus, de forma panteísta, que desaparecem os direitos do individuo, da família e dos povos; e, com o pretexto de unidade, de harmonia e de paz, se prepara uma confusão espantosa e uma desordem sem precedentes, como vemos na Rússia desde a revolução. Pretender que todas as partes de um organismo sejam tão perfeitas como a cabeça, ou suprimir esta porque é mais perfeita que os membros, é destruir o organismo inteiro.

É evidente que a verdade se encontra entre estes dois erros extremos e acima deles. Colocada a igual distancia do individualismo e do comunismo, afirma a verdade os direitos do indivíduo, da família e dos povos, como também as exigências do bem comum, superior a todo bem particular. O conceito justo das coisas salvaguarda o bem individual mediante a justiça comutativa, que regula as transações entre os particulares, e mediante a justiça distributiva, que reparte equitativamente os bens e os cargos; salvaguarda também o bem comum por meio da justiça legal, que dita e faz cumprir as leis justas, e por meio da equidade, que se rege pelo espírito das leis em circunstancias excepcionais em que a letra fica inaplicável.

Estas quatro espécies de justiça, admiravelmente assinaladas por Aristóteles e explicadas por Santo Tomás em seu tratado de Justitia (IIa – IIae, q. 58, 61, 120), bastam em certo sentido para guardar o justo meio entre os erros contrários ao individualismo e do comunismo humanitário. Não é, por certo, bastante conhecida a doutrina de Santo Tomás sobre a justiça; poderia ser objeto de muito interessantes e úteis trabalhos.

Porém, estas quatro classes de justiça: comutativa, distributiva, legal ou social e equitativa, por muito perfeitas que sejam, mesmo esclarecidas pela fé, nunca poderão chegar à perfeição da caridade ou amor de Deus e do próximo, cujo objeto formal é incomparavelmente superior.

Examinemos primeiro qual seja o objeto primário da caridade e qual o secundário. Vejamos em seguida como há de exercer e como por meio dela se cumpre o plano da Providência.

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Qual é o objeto primário e o motivo formal da caridade.

O objeto primário da caridade está muito acima do bem do indivíduo, da família, da pátria e mesmo da humanidade. Devemos amar a Deus sobre todas as coisas, mais que a nós mesmos, por ser infinitamente melhor que nós. É o primeiro mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com toda a tua mente” (Lc., 10, 27).

Este preceito supremo, ao que estão subordinados todos os demais preceitos e conselhos, é de ordem sobrenatural; porém está conforme também com a inclinação natural, mais ainda, com a inclinação primordial de nossa natureza e, em certo modo, de toda a natureza criada.

Verdade é que existe e nós o instinto de conservação individual, como também o de conservação da espécie, e uma inclinação que nos leva a defender nossa família e nossa pátria, e a amar também nossos semelhantes; porém, é todavia mais profunda, como demonstra Santo Tomás (Ia, q. 60, a. 5), a inclinação de nossa natureza a amar a Deus, que nos criou, mas que a nós mesmos. – Por quê? Porque o que de sua mesma natureza pertence a outro, como a parte ao todo, a mão ao corpo, está naturalmente inclinado a amar esse outro mais que a si mesmo. Por isto se sacrifica a mão de um modo espontâneo para salvar o corpo. Agora bem, toda criatura, em tudo quanto é, depende necessariamente de Deus, criador e conservador de nosso ser; e por conseguinte, toda criatura está naturalmente inclinada a amar o Criador mais que a si mesma.

E assim, a lei de coesão do universo e buscando o bem do mesmo, que é a manifestação da bondade de Deus; e a galinha, como disse Nosso Senhor, recolhe seus pintinhos debaixo das asas, para defendê-los do gavião, e sacrifica, si é preciso, a própria vida pelo bem da espécie, que faz parte do bem universal.

Esta inclinação primordial da natureza está no homem e no anjo iluminada pela luz da inteligência e nos move de uma maneira mais ou menos consciente a amar a Deus, autor de nossa natureza, mais que a nós mesmos.

É indubitável que o pecado original debilitou essa inclinação natural, porém, apesar disso, subsiste em nós a vontade, faculdade intelectual imperecedoura.

Esta mesma inclinação natural foi elevada pela virtude sobrenatural ou infusa da caridade, que é de ordem infinitamente superior à natureza humana e mesmo a angélica. À luz da fé infusa, a caridade nos faz amar a Deus mais que a nós mesmos e sobre todas as coisas, não só como autor de nossa natureza, senão também como autor da graça; nos faz amar a Deus “que primeiro amou a nós” dando-nos a existência, a vida, a inteligência, e o que é maior, a graça santificante, princípio de vida eterna, gérmen cuja plena floração será a visão imediata da essência divina e do amor sobrenatural e santíssimo que não poderá destruir nem diminuir.

Tal é o objeto primário da caridade: Deus, que nos amou primeiro e nos fez partícipes de sua vida íntima. Donde a caridade é a amizade entre Deus e o homem.

O motivo formal de nossa caridade é ser Deus infinitamente bom em si mesmo, infinitamente melhor que nós mesmos e seus dons.

Se não meditamos continuamente este objeto primeiro e no motivo formal da caridade, não poderemos entender como sé tenha que amar o objeto secundário.

Realmente não há duas virtudes de caridade, uma que se refere a Deus e outra que se refere ao próximo. É uma mesma e única virtude teologal, princípio destes dois amores essencialmente subordinados.

Nada pode querer a caridade senão em relação a Deus mesmo, por amor de Deus; como nada pode ver a vista senão por meio da cor e com relação a ele, nem o ouvido perceber o som e o que é sonoro. Mas por amor a Deus devemos amar tudo o que com Ele se relaciona.

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(Continua...)
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