quarta-feira, 12 de março de 2014

O Cem por Um do Evangelho

Como interpretar o cem por um da Escritura, prometido aos que deixam tudo para seguir a Cristo? Significa bens materiais, casas inúmeras, assistência religiosa na hora da morte, maior número.de graças ou dons referentes à vida futura?



O Cem por Um do Evangelho



“Todo aquele que deixar casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de Mim e do Evangelho, receberá ao cêntuplo, desde já no mundo presente, casas, irmãos, irmãs, mães, filhos, campos — com perseguições — e, no mundo futuro, a vida eterna” (Mc 10,29s).



Estas palavras têm dado margem a interpretações variadas, que passamos a analisar brevemente:



a) houve quem as entendesse em sentido material e grosseiro, como o Imperador Juliano o Apóstata (+363), que escarnecia os cristãos perguntando-lhes se esperavam ter cem esposas.



b) Outros preferiram interpretá-las como o anúncio de um reino milenário, visível, de Cristo sobre a terra, anterior ao juízo universal; nesse período, caracterizado por bonança, os discípulos do Senhor receberiam materialmente o cêntuplo prometido.



c) Outros comentadores tomaram as palavras de Jesus em sentido alegórico. Dizia, por exemplo, São Jerônimo (+420), ao qual fazem eco vários escritores antigos: «Qui carnalia pro Salvatore dimiserit, spiritualia recipit. — Quem, por amor do Salvador, abandona o que é carnal, recebe o que é espiritual» (ed. Migne lat., t. 26,139). Por conseguinte, os justos, em troca da fraternidade com seus familiares, receberiam a fraternidade com Deus; em lugar de seus campos, receberiam o paraíso, etc.



Nos nossos tempos prevalece, a justo título, a interpretação espiritual. Os exegetas modernos, porém, abrandam o extremo alegorismo de São Jerônimo, embora não concordem plenamente entre si sobre o significado positivo dos dizeres de Cristo.



d) O famoso Pe. Lagrange julga que o cêntuplo se deve entender não no plano da quantidade, mas no dos valores (S. Marc 277), a saber: o cristão, seguindo a Cristo, entra numa família nova, vinculada pelos laços da caridade sobrenatural; os fiéis podem, com efeito, chamar-se irmãos uns aos outros, pois, pela graça santificante, participam todos da natureza divina (cf. 2 Pdr 1,4). São também filhos espirituais dos Apóstolos, que os geraram no Cristo Jesus (cf. Gál 4,19; 1 Cor 15,58; 2 Cor 6,11-13). Tenha-se em vista igualmente o caso de São Paulo, que saudava como mãe sua a mãe de Rufo (cf. Rom 16,13), sem dúvida por causa da notável caridade dessa matrona. É de notar outrossim que, ao receber o batismo, os cristãos de Jerusalém passavam a viver em comunhão de bens, não só espirituais, mas também materiais (cf. At 2,44; 4,32); de então por diante, usufruiriam da liberalidade de seus irmãos pertencentes a comunidades mais abastadas do estrangeiro (cf. At 11, 29s; 16,16; Gál 2, 10; 2 Cor 8,1-9,15).



O Pe. Huby nota que o quadro de vida da Igreja nascente (com a sua comunhão de bens materiais) não se reproduz como tal nos tempos modernos; julga, porém, que algo de equivalente se dá até os nossos dias:



“As circunstâncias mudaram, mas a palavra de Cristo continua a se verificar em sentido ainda mais grandioso. Aqueles que tudo abandonam para O seguir, estão seguros de receber, em troca dos bens naturais que se contam e se pesam, os valores incomensuráveis proporcionados pela caridade” (S. Marc 235). A sentença de Huby, na verdade, combina a interpretação literal e a alegórica; em última análise, ela identifica a promessa do cêntuplo com a promessa, também feita por Jesus, de que a Providência do Pai não abandonaria aqueles que se Lhe entregassem (cf. Lc 12,22-31); a solicitude da Providência, que abrange todos os homens, se exerceria de modo particular em favor dos que tudo deixam para seguir a Cristo.



e) Por muito sugestiva que seja esta interpretação, parece merecer preferência a seguinte, devida ao Pe. Lebreton: Jesus pôde dizer que o justo recebe o cêntuplo neste mundo, porque, na verdade, a renúncia aos bens terrestres nos torna senhores dos mesmos; liberta-nos de qualquer apego escravizador e dá-nos a intuição do seu verdadeiro significado, fazendo-nos ver nessas criaturas materiais o seu valor autêntico: são sinais da presença e da ação de Deus. São Paulo, pobre de bens visíveis, deu enfática expressão a tal verdade, afirmando que ele “nada tinha, mas paradoxalmente tudo possuía” (cf. 2 Cor 6,10). Com efeito, observa-se que os discípulos de Cristo, no decorrer dos séculos, quanto mais renunciaram, tanto mais ganharam ascendência e domínio sobre o mundo que os cercava; tal foi o caso de São Bento, de São Francisco de Assis, dos grandes ascetas do deserto, aos quais a natureza, os animais, as plantas, até mesmo as epidemias e calamidades, obedeciam; conseguiram, sem intenção preconcebida, poder tal sobre a natureza qual nunca obtiveram os que acumulam riquezas e prestigio terrestres.



É certamente e sempre neste sentido muito fino e profundo que se cumpre a promessa de Cristo consignada em Mc 10,29s (“ao cêntuplo, desde já, no mundo presente”). Em certos casos, porém, não se negará que a Providência recompensa também num sentido um pouco mais material (como o propõe Lagrange ou Huby) aqueles que tudo abandonam por amor de Cristo.



Por fim, o cristão não deixará de levar em conta a promessa de perseguições que Jesus justapõe às demais, na frase de Mc 10,30. Este traço dá a ver que o Senhor não entendia colocar diretamente ante os olhos de seus discípulos bem-estar e fartura; isto seria totalmente contrário ao espírito de Cristo, que ensina: “O servo não é maior do que o seu senhor; se perseguiram a mim, também a vós perseguirão” (Jo 15,20). Será, sem dúvida, com a cruz e por meio da cruz que o cristão receberá o cêntuplo.



Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

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