quinta-feira, 20 de março de 2014

Educação sexual.

“Se pessoas autorizadas afirmam que indispensável é a educação sexual, porque é que outras ainda a proíbem e condenam?”



Educação Sexual



Há quem diga que a excitação febril e a depravação moral da juventude moderna provêm de insuficiência de ensinamento referente à questão sexual. Em consequência, propugnam um tipo de educação sexual que, sem observar limites, desvenda ao discípulo tudo que concerne ao assunto, não levando em conta idade, temperamento, reações do adolescente, etc.



Esta tese moderna, por muito capciosa que seja à primeira vista, na prática mostra-se extremamente nociva.



A Moral cristã não desaprova a educação sexual; chega a recomendá-la a fim de se contrabalançarem ou impedirem influências daninhas sobre o adolescente. Requer, porém, seja feita dentro de certas cláusulas:



1) Toca aos pais, tutores ou mestres honestos falar aos jovens sobre a vida sexual; façam-no antes que colegas, empregados ou estranhos o empreendam. Distingam, porém, entre educação e iniciação sexual: ao passo que a iniciação visa apenas a fisiologia, a educação se dirige ao homem todo (incutindo a disciplina das paixões e a formação da vontade).



2) A educação sexual não deve ser feita em público, à guisa de aula na escola, e de maneira igual para todos os ouvintes. Ao contrário, será levada a efeito em caráter particular, e graduada de acordo com as necessidades e a receptividade de cada jovem de per si, a fim de não se despertarem prematuramente a atenção o instinto sexuais — o que criaria problemas sérios tanto de ordem psíquica como de ordem fisiológica. Na escola, o mestre se limitará a afirmações gerais de biologia e à ética ou formação do caráter para a vida sexual.



3) Ao mesmo tempo que se vai desvendando ao jovem o que concerne à fisiologia, é indispensável procurar educar a sua vontade, dando-lhe sadia concepção geral da vida e mostrando-lhe a finalidade das tendências espontâneas do homem. Assim o educador fornece ao adolescente os meios de dominar (sustentado, sim, pela graça de Deus) os movimentos que a iniciação fisiológica nele pode desencadear.



É a negligência na formação do caráter que constitui uma das grandes lacunas dos métodos modernos de educação sexual. Apenas consideram o aspecto material, fisiológico, do problema; e se dirigem tão somente à inteligência, descuidando-se de preparar e enriquecer a vontade. Tal proceder não pode deixar de acarretar desequilíbrios no funcionamento psicofísico do adolescente. É preciso, pois, que o educador sexual forneça outrossim uma educação geral sadia: seja um pedagogo completo, capaz de se servir de todos os recursos da pedagogia a fim de garantir a preservação sexual; em caso contrário ele dá à sociedade uns gozadores mórbidos, viciados, não os construtores do mundo de amanhã. Diz-se com razão que as atitudes sexuais de um adolescente vêm a ser o produto e a pedra de toque de sua educação geral.



A razão de ser das restrições acima, ditadas pela Moral cristã, não é de modo nenhum a falsa crença de que os atos da sexualidade sejam por si pecaminosos ou de que o primeiro pecado (a culpa de Adão e Eva no paraíso) tenha sido pecado sexual. São exclusivamente inspiradas pela consciência de que a desmedida reflexão sobre a fisiologia humana e, em particular, sobre a fisiologia do sexo é, tanto do ponto de vista físico como do ponto de vista moral, nociva ao indivíduo; assim como a excessiva análise do funcionamento do coração ou do aparelho digestivo pode perturbar gravemente o funcionamento do organismo, assim também a consideração indiscreta da sexualidade e de seus movimentos profundos é capaz de produzir desajustamentos. A natureza quer ser respeitada; quer que suas funções decisivas fiquem até certo ponto recobertas pelo véu do inconsciente (é nesse inconsciente, aliás, que está importante fator de autodefesa da natureza).



O Santo Padre o Papa Pio XII, repetindo normas de seus antecessores, lembrou mais de uma vez ao mundo a necessidade de recato no tocante à educação sexual:



“Há um terreno no qual a educação da opinião pública, a sua retificação, se impõem com urgência trágica...

Queremos falar aqui de escritos, livros e artigos acerca da iniciação sexual, os quais muitas vezes obtêm hoje enormes êxitos de livraria e inundam o mundo inteiro, invadindo a infância, submergindo a geração que sobe para a vida, perturbando noivos e jovens casais.



...Essa literatura... parece não levar em conta a experiência geral de ontem, hoje e sempre, a qual, fundada na natureza, atesta que, na educação moral, nem a iniciação nem a instrução apresentam de si qualquer vantagem e que pelo contrário são gravemente malsãs e prejudiciais, se não vão fortemente unidas a uma constante disciplina, a vigoroso domínio de si mesmo e sobretudo ao uso das forças sobrenaturais da oração e dos sacramentos” (Discurso aos Pais de família franceses, proferido aos 16 de setembro de 1951; transcrito da «Revista Eclesiástica Brasileira» XI [1951] 965s).



«Referimo-nos à iniciação sexual completa, que nada quer ocultar nem deixar na escuridão. Não há nisso uma excessiva e perniciosa estima do saber? Existe também uma educação sexual eficaz, que com toda a segurança ensina na calma e objetividade o que o jovem deve saber para se guiar a si mesmo e tratar com o seu meio. De resto, há de se insistir, na educação sexual, como aliás em toda a educação, sobre o domínio de si mesmo e a formação religiosa» (Discurso aos Psicoterapeutas, proferido aos 13 de abril de 1953; transcrito da «Revista Eclesiástica Brasileira» XIII [1953] 484).





Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

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