sexta-feira, 14 de junho de 2013

Estigmas de São Francisco: primeira consideração.

Dos santos sagrados Estigmas de
São Francisco e de suas Considerações

Nesta parte, veremos, com devota consideração, os gloriosos, sagrados e santos estigmas do bem-aventurado pai nosso monsior São Francisco, que ele recebeu de Cristo sobre o santo monte do Alverne. E como os ditos estigmas foram cinco, segundo as cinco chagas de nosso Senhor Jesus Cristo, este tratado vai ter cinco considerações.

A primeira consideração será sobre o modo como São Francisco chegou ao monte santo do Alverne.

A segunda consideração será sobre a vida e conversão que ele teve e manteve com os seus companheiros no dito monte.

A terceira consideração será sobre a aparição seráfica e a impressão dos sagrados estigmas.

A quarta consideração será como São Francisco desceu do monte Alverrne depois que recebeu os agrados estigmas, e voltou a Santa Maria dos Anjos.

A quinta consideração será sobre certas aparições e revelações divinas feitas depois da morte de São Francisco a santos frades e outras pessoas devotas sobre os sagrados e gloriosos estigmas.



Primeira consideração sobre os sagrados santos estigmas.


Quanto à primeira consideração, devemos saber que São Francisco, com a idade de quarenta e três anos, em 1224, inspirado por Deus, moveu-se do vale de Espoleto para ir à Romanha com Frei Leão, seu companheiro. E na viagem passou ao pé do castelo de Montefeltro, onde havia então um grande banquete com cortejo pela cavalaria nova de um dos condes de Montefeltro. Quando São Francisco soube dessa solenidade que ali se realizava, e que lá estavam reunidos muitos gentis-homens de diversos países, disse a Frei Leão: “Vamos lá em cima para essa festa porque, com o auxílio de Deus, faremos algum fruto espiritual”.

Entre os outros gentis-homens que tinham ido daquela região para aquele cortejo, havia um grande e também rico homem da Toscana, que se chamava Orlando de Chiusi de Casentino, o qual, pelas coisas maravilhosas que tinha ouvido da santidade e dos milagres de São Francisco, tinha grande devoção para com ele e tinha muita vontade de vê-lo e de ouvi-lo pregar.

São Francisco chegou ao castelo, entrou e foi à praça, onde estava reunida toda a multidão dos gentis-homens, e com fervor de espírito subiu sobre um murinho e começou a pregar, propondo como tema da pregação esta palavra em vulgar: Tanto é o bem que eu espero, que toda pena é um prazer para mim. E sobre este tema, por ditado do Espírito Santo, pregou tão devota e tão profundamente, provando-o pelas diversas penas e martírios dos santos Apóstolos e dos santos Mártires, e pelas duras penitências dos santos Confessores, pelas múltiplas tribulações e tentações das santas Virgens e dos outros Santos, que toda as pessoas estavam com os olhos e a mente suspensos olhando para ele, e escutavam como se estivesse falando um Anjo de Deus. Entre eles, o dito monsior Orlando, tocado por Deus no coração pela maravilhosa pregação de São Francisco, resolveu no coração que ia tratar e discorrer com ele, depois da pregação, sobre as coisas de sua alma.

Por isso, terminada a pregação, levou São Francisco à parte e lhe disse: “Ó pai, eu gostaria de tratar contigo da salvação de minha alma”. São Francisco respondeu: “Muito me agrada; mas, nesta manhã, ide honrar os vossos amigos que vos convidaram para a festa e comei com eles, e, depois da refeição, falaremos os dois quanto vos agradar”.

Então monsior Orlando foi jantar e, depois de jantar voltou a São Francisco e tratou e dispôs com ele plenamente os fatos de sua alma. No fim, esse monsior Orlando disse a São Francisco: “Eu tenho na Toscana um monte muito devoto, que se chama Monte Alverne, que é muito solitário e selvagem, muito adequado para quem quiser fazer penitência ou para quem deseja vida solitária, num lugar afastado das pessoas. Se ele te agradar, eu vou dá-lo de boa vontade a ti e a teus companheiros, pela salvação de minha alma”.

Ouvindo São Francisco essa oferta tão liberal daquilo que ele tanto desejava, ficou muito alegre, louvando e agradecendo primeiro a Deus e depois ao predito monsior Orlando, e lhe disse assim: “Monsior, quando tiverdes voltado para vossa casa, eu vos mandarei companheiros meus e vós lhes mostrareis o monte. Se lhes parecer adequado para a oração e para fazer penitência, eu aceito desde agora a vossa caridosa oferta”.

Dito isso, São Francisco foi embora. Quando acabou sua viagem, voltou a Santa Maria dos Anjos. E monsior Orlando, de maneira semelhante, acabada a solenidade daquele cortejo, voltou ao seu castelo, que se chamava Chiusi, e estava perto do Alverne, a uma milha.

Então, quando São Francisco voltou a Santa Maria dos Anjos, mandou dois de seus companheiros ao referido monsior Orlando. Quando chegaram a ele, foram recebidos com grande alegria e caridade. E como queria mostrar-lhes o monte Alverne, mandou com eles bem cinqüenta homens armados, para que se defendessem dos animais selvagens. Assim acompanhados, os frades subiram ao monte e o revisaram diligentemente. No fim, chegaram a uma parte do monte muito devota e muito adequada para contemplar, na qual havia um pouco de terreno plano. Escolheram esse lugar para morarem, eles e São Francisco.

Juntos, com a ajuda daqueles homens armados, que estavam na sua companhia, fizeram uma pequena cela de ramos de árvores. E assim aceitaram e tomaram, no nome de Deus, o monte Alverne e o lugar dos frades nesse monte. Partiram e voltaram a São Francisco. Quando chegaram a ele, contaram como e de que modo tinham tomado o lugar no monte Alverne, muito adequado para a oração e a contemplação. Quando ouviu essa notícia, São Francisco se alegrou muito e, louvando e agradecendo a Deus, disse a esses frades com o rosto alegre: “Meus filhos, estamos nos aproximando de nossa quaresma de São Miguel Arcanjo: creio firmemente que é vontade de Deus que façamos esta quaresma no monte Alverne, que por disposição divina foi-nos aprontado para que, para honra e glória de Deus e de sua gloriosa Virgem Maria e dos santos Anjos nós mereçamos de Deus, pela penitência, a consolação de consagrar aquele monte abençoado”.

Dito isso, São Francisco tomou consigo Frei Masseo de Marignano de Assis, que era homem de muito bom senso e de grande eloqüência, e Frei Ângelo Tancredi de Rieti, que era muito gentil-homem e no século tinha sido cavaleiro, e Frei Leão, que era homem de grande simplicidade e pureza (por isso São Francisco o amava muito, e lhe revelava quase todos os seus segredos).

Com esses três frades, São Francisco se pôs em oração e depois, acabada a oração, recomendou às orações dos frades que ficavam ele mesmo e os preditos companheiros e se moveu com aqueles três no nome de Jesus Cristo crucificado para ir ao monte Alverne. Movendo-se, São Francisco chamou um dos três, que foi Frei Masseo, e lhe disse assim: “Tu, Frei Masseo, serás nosso guardião e nosso prelado nesta viagem, isto é, enquanto nós formos e ficarmos juntos, e assim observaremos nosso costume de dizermos o ofício, ou falar de Deus, ou manter silêncio, não pensaremos antes nem em comer nem em beber ou dormir: quando for hora de nos abrigarmos, pediremos um pouco de pão e vamos ficar e repousar no lugar que Deus nos aprontar”.

Então esses três companheiros inclinaram a cabeça e, fazendo o sinal da cruz, foram em frente.Na primeira tarde chegaram a um lugar dos frades e aí se albergaram. Na segunda tarde, pelo mau tempo e porque estavam cansados, não puderam chegar a um lugar dos frades nem a vila alguma. Sobrevindo a noite com mau tempo, recolheram-se para se albergar em uma igreja abandonada e desabitada, e aí se puseram a repousar.
Os companheiros dormiram e São Francisco se pôs em oração. E eis que, na primeira vigília da noite, veio uma grande multidão de demônios ferocíssimos, com rumor e um grandíssimo estropício. Começaram a dar-lhe fortemente combate e aborrecimento: um o pegava de um lado e outro do outro; um puxava-o para baixo e outro para cima; um ameaçava-o de uma coisa e outro o criticava por outra. E assim, em diversos momentos, engenhavam-se por perturba-lo na oração. Mas não podiam, porque Deus estava com ele. Por isso, quando São Francisco tinha suportado bastante dessas batalhas dos demônios, começou a gritar em altas vozes: “Ó espíritos danados, vós não podeis nada a não ser o que vos permite a mão de Deus. Pois da parte de Deus onipotente eu vos digo que façais no meu corpo o que Deus permitir, pois vou suportar de boa vontade, porque não tenho inimigo maior do que o meu corpo. Então, se me vingais do meu inimigo, é um grande favor que me fazeis”.

Então os demônios, com grande ímpeto e fúria, agarram-no e começaram a arrastá-lo pela igreja, fazendo-lhe muito mais moléstia e aborrecimento do que antes. Então São Francisco começou a gritar e a dizer: “Senhor meu Jesus Cristo, eu te agradeço por tanto amor e caridade que demonstras para comigo, pois isso é sinal de grande amor, quando o Senhor pune o servo por todos os seus defeitos neste mundo para que não seja punido no outro. E eu estou pronto para suportar alegremente toda pena e toda adversidade que tu, meu Deus, me quiseres mandar por meus pecados”.
Então os demônios, confusos e vencidos pela sua constância e paciência, foram embora. E São Francisco, com fervor de espírito, saiu da igreja e entrou em um bosque que havia ali perto. Lá lançou-se em oração e, com súplicas e lágrimas, batendo no peito, procurou encontrar Jesus Cristo esposo e dileto de sua alma. Finalmente, quando o encontrou no segredo de sua alma, ora lhe falava reverente como ao Senhor, ora respondia como ao seu juiz, ora lhe suplicava como ao pai, ou conversava com ele como um amigo.

Naquela noite e naquele bosque, os seus companheiros, porque tinham acordado e estavam escutando e considerando o que fazia, viram-no e o ouviram rogar a divina misericórdia pelos pecadores, com prantos e vozes. Foi então ouvido e visto chorando em alta voz a paixão de Cristo, como se a visse corporalmente. Nessa mesma noite viram-no orar, com os braços postos em cruz, suspenso e levantado da terra, por muito tempo, e cercado por uma nuvem resplandecente. E assim, nesses santos exercícios, passou toda aquela noite sem dormir.

De manhã, conhecendo os companheiros que, pela fadiga da noite que passou sem dormir, São Francisco estava com o corpo muito enfraquecido e mal teria podido andar a pé, foram a um pobre trabalhador da região e lhe pediram por amor de Deus o seu burrinho emprestado para Frei Francisco, seu pai, que não podia andar a pé. Ouvindo que lembravam Frei Francisco, perguntou-lhes: “Vós sois dos frades daquele Frei Francisco de Assis, de quem falam tanto bem?”. Os frades responderam que sim e na verdade era para ele que estavam pedindo a montaria. Então o bom homem, com grande devoção e solicitude aprontou o burrinho e o levou a São Francisco e, com grande reverência, fez com que montasse. E foram adiante; e o homem com eles, atrás do burrinho.

Quando já tinha caminhado um pouco, disse o aldeão a São Francisco: “Diz-me, tu és Frei Francisco de Assis?”. São Francisco respondeu que sim. “Então te esforça, disse o aldeão, por ser tão bom como és tido por toda gente, porque muitos têm grande fé em ti. Então eu te admoesto que em ti não haja outra coisa senão o que o povo espera”. Ouvindo essas palavras, São Francisco não se incomodou de ser admoestado por um aldeão, e não disse consigo: “Que animal é este que me admoesta? como diriam hoje muitos soberbos que usam o hábito. Mas saltou na mesma hora do burro para o chão, ajoelhou-se diante do homem e lhe beijou os pés, agradecendo-lhe humildemente porque ele se dignara admoesta-lo tão caridosamente. Então o vilão, com os companheiros São Francisco levantaram-no do chão com grande devoção e o repuseram no burro. E foram adiante.

Quando chegaram talvez à metade do monte, como calor era muito grande e a subida cansativa, o aldeão ficou com uma enorme sede, tanto que começou a gritar atrás de São Francisco dizendo: “Ai de mim! Estou morrendo de sede. Se eu não tiver alguma coisa para beber já vou me sufocar”. Por isso, São Francisco desceu do burro e se pôs em oração. Ficou ajoelhado, com as mãos erguidas para o céu até que soube, por revelação, que Deus o escutara.

Então disse ao aldeão: “Corre, vai depressa àquela pedra, e lá encontrarás a água viva que Cristo, agora, em sua misericórdia, fez sair daquele pedra”. O homem correu para o lugar que São Francisco tinha mostrado e encontrou uma fonte belíssima, produzida pela virtude da oração de São Francisco de uma rocha duríssima, bebeu copiosamente e ficou confortado.

E ficou bem claro que aquela fonte foi produzida por Deus milagrosamente a pedido de São Francisco, porque nem antes nem depois viu-se jamais uma fonte de água naquele lugar; nem numa grande distância dali. Feito isso, São Francisco com o aldeão e com os companheiros agradeceram a Deus pelo milagre mostrado; e foram adiante.
Quando chegaram perto do pé da própria rocha do Alverne, São Francisco quis repousar um pouco sob um carvalho que havia no caminho, e ainda há. Estando embaixo dele, São Francisco começou a considerar a disposição do lugar e da região. Estando nessa consideração, eis que veio um grupo grande de diversos pássaros que, cantando e batendo as asas, mostravam todos muita festa e alegria. Cercaram São Francisco de tal modo que alguns ficaram em cima de sua cabeça, outros nos ombros, alguns nos braços e outros no regaço, e mais alguns aos pés, ao redor. Como os seus companheiros e o aldeão viram isso e se admiraram, São Francisco todo alegre em espírito disse assim: “Eu creio, queridos irmãos, que nosso Senhor Jesus Cristo gosta que moremos neste monte solitário, porque os nossos irmãos e irmãs pássaros estão mostrando tanta alegria pela nossa vinda”. Ditas essas palavras, levantaram-se e foram adiante, chegando finalmente ao lugar que seus companheiros já tinham tomado antes.

E isto é quanto à primeira consideração, isto é, como São Francisco chegou ao monte santo do Alverne.
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.


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