sexta-feira, 14 de junho de 2013

Correção fraterna e os abusos de misericórdia.

A correção fraterna e o “buonismo” imperante.

Por Ricardo Dip, colunista convidado

1. Muitos de nós temos observado a frequência com que se dá a falta de reação aos males.

Isso não é nota apenas no mundo temporal de nossos tempos; há também um buonismo pós-conciliar que assola a Santa Igreja.

2. A propósito, faz algum tempo, lia um interessante escrito do dominicano Pe. GIOVANNI CAVALCOLI, em que ele se refere ao fundo luterano do buonismo, que aposta nas ideias de um Deus “misericordiosista” e nos efeitos de sua potência absoluta; ou seja, nas teses
Cristo corrige a Samaritana à beira do Poço de Jacó.

Cristo corrige a Samaritana.

(i) de que Deus não castiga (falsa fiducia nella divina misericordia) e

(ii) de que, extraindo Deus sempre o bem de não importa quais males, esses males são por isso mesmo um bem.

3. Contra a primeira tese, sua falsidade desponta ao correr dos olhos sobre textos dos Evangelhos (p.ex., S.Mateus 13, 41 et sqq. e 49 et sqq.; 25, 41 et sqq.; S.Marcos, 16, 15-6).

4. Contra a segunda, conspira a irrefutável asserção metafísica de que não há mal absoluto, nem falsidade absoluta. Logo, sempre há algo bom e verdadeiro no mal e no falso.

Abdicar de reagir contra o mal porque nele há algo inevitável de bom, remata, contudo, num absurdo, pois que já a coisa alguma caberia dirigir reprovação (uma vez que “tudo é bom”). Até o demônio, por ter uma natureza angélica, já não comportaria aversão.

5. O buonismo imperante hoje na Igreja é, de um lado, a breviatio manus de muitas autoridades que se recusam a punir os ilícitos ou os punem de maneira demasiado tardia ou com pasmosa brandura (cf., brevitatis causa, o excelente Iota unum de ROMANO AMERIO).

6. De outro lado, entre os leigos pós-conciliares domina uma surpreendente leniência. Tolera-se tudo, menos reagir diante de ilícitos, ainda que se trate de afrontas a direitos previstos expressamente nas leis divinas e eclesiais. Tudo em nome de uma paz na convivência humana.

Esse pacifismo a outrance é um obstáculo ao dever de correção fraterna.

Teme-se que já se tenham por extintas a valentia dos Cavaleiros e a fortaleza dos Cruzados.

Hoje é de recear que predomine a molície de católicos desfibrados, sem ânimo para defender a Fé.

Lembra-me, aqui, a elegante referência de GUSTAVO CORÇÃO a uma personagem do grande Chesterton, que quebrara a bengaladas as vidraças de um jornal ofensivo a Nossa Senhora, e a que Bernanos, na condição de camelot du Roi, também não poupara o uso da bengala em legítima defesa da honra.

Não corremos já agora de repetir essa epopeia: a bengala saiu de moda, junto com o latim e, parece, a vergonha.

7. Todavia, não percamos de vista, em contrapartida, que uma das possíveis vergonhas está que as correções não sejam fraternas.

Está bem que já não se reponham em uso as bengalas, mas seria muito bom, ao menos, que voltássemos ao tempo em que as exigíveis correções fraternas não eram ocasião para as injúrias ou outra sorte de denigração ad hominem.

Nossa língua −em que pese a ser pleine de péchés−, essa língua sobre a qual queremos depositar a Sagrada Forma, essa língua não há de ser a que difame, a que doesta, a que, em vez de uma correção fraterna, se lance a guerrear pelo só afã da guerra.

Quando se diz fortiter in re et suaviter in modo, o católico deve entender forte na verdade e caridoso na expressão.

Fonte: http://fratresinunum.com/2013/06/12/a-correcao-fraterna-e-o-buonismo-imperante/

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