sexta-feira, 5 de abril de 2013

Legenda Perusina 66-69.

[66]

Certa vez, quando o bem-aventurado Francisco estava em Rieti e hospedado por alguns dias num quarto de Tebaldo Sarraceno por causa da doença dos olhos, disse, um dia, a um de seus companheiros, que, no século, sabia tocar cítara: “Irmão, os filhos deste século não entendem das coisas divinas; pois instrumentos como as cítaras, os saltérios de dez cordas e outros instrumentos, que eram usados nos tempos antigos pelos santos homens para louvar a Deus e consolar as almas, agora são usados por eles para a vaidade, o pecado e contra a vontade de Deus. Por isso eu gostaria que conseguisses em segredo com alguma pessoa honesta uma cítara com que me fizesses um verso honesto e com ela diremos coisas das palavras e louvores do Senhor, principalmente porque o corpo está aflito por grande doença e dor. Por isso eu gostaria, nesta oportunidade, de reduzir a própria dor do corpo para alegria e consolação da alma”.

Pois o bem-aventurado Francisco, em sua enfermidade, fizera alguns louvores do Senhor, que de vez em quando fazia que fossem ditos por seus companheiros para o louvor de Deus e para consolação de sua alma, mas também para edificação do próximo. O frade respondeu-lhe: “Pai, fico com vergonha de ir buscar, principalmente porque as pessoas desta cidade sabem que no século eu sabia tocar cítara; temo que pensem que estou sendo tentado a ser citarista de novo”. O bem-aventurado Francisco lhe disse: “Então, irmão, vamos deixar disso”. Mas na noite seguinte, quase à meia-noite, o bem-aventurado Francisco estava acordado e eis que, ao redor da casa onde estava deitado, ouviu uma cítara tocando uma música mais bonita e mais agradável do que jamais tinha ouvido em sua vida. E ia tocando tão longe quanto se podia ouvir e e depois voltava tocando. E fez isso por uma boa hora.

Por isso, considerando o bem-aventurado Francisco que era obra de Deus e não de um homem, encheu-se do maior gozo e com o coração exultante louvou o Senhor com todo afeto por ter-se dignado consolá-lo com tal e tão grande consolação. E, quando se levantou de manhã, disse ao seu companheiro: “Irmão, eu te pedi e não me satisfizeste; mas o Senhor, que consola seus amigos na tribulação, dignou-se consolar-me nesta noite”. E assim contou-lhe tudo que tinha acontecido. E os frades ficaram admirados, achando que isso era um grande milagre. E souberam de verdade que tinha sido uma obra de Deus para consolação do bem-aventurado Francisco e principalmente porque, de acordo com uma lei do podestá, não só à meia-noite mas mesmo depois do terceiro toque de sino, ninguém ousava andar pela cidade. E porque, como contou o bem-aventurado Francisco, ia e voltava por uma boa hora em silêncio, sem voz e sem barulho da boca, como era obra de Deus, para consolar o seu espírito.



[67]

Na mesma ocasião, por causa da enfermidade dos olhos, o bem-aventurado Francisco permaneceu junto da igreja de São Fabiano, que fica perto da cidade, e onde havia um pobre sacerdote secular. Pois naquele tempo o senhor papa Honório estava com os outros cardeais na mesma cidade. Por isso muitos dos cardeais e dos outros grandes clérigos, pela reverência e devoção que tinham pelo santo pai, visitavam-no quase todos os dias.

Ora, aquela igreja tinha uma pequena vinha que ficava junto da casa em que permanecia o bem-aventurado Francisco, e nessa casa só havia uma porta, por onde entravam na vinha quase todos os que o visitavam, principalmente porque naquele tempo as uvas estavam maduras e o lugar era ameno para se descansar. E aconteceu que, por essa situação, perdeu-se quase toda a vinha. Porque alguns colhiam uvas e as comiam ali mesmo, outros colhiam e levavam, e outros ainda a esmagavam com seus pés. Por isso o sacerdote começou a ficar escandalizado e perturbado, dizendo: “neste ano eu perdi a minha vinha. Porque, ainda que seja pequena, colhia dela tanto vinho que dava para a minha necessidade”. Ouvindo isso, o bem-aventurado Francisco mandou chamá-lo à sua presença e lhe disse: “Não se perturbe mais nem se escandalize, porque não podemos fazer outra coisa. Mas confia no Senhor, porque Ele, por mim, seu pequeno servo, pode restituir o teu dano. Mas me diga: quantas cargas tiveste quando tua vinha rendeu mais?”.

O sacerdote respondeu-lhe: “Pai, treze cargas”. Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Não fiques triste agora nem digas alguma palavra injuriosa para ninguém, nem te queixes com alguém, mas tem fé no Senhor e nas minhas palavras; e se tiveres menos do que vinte cargas de vinho, eu vou fazer completar para ti”. Por isso o sacerdote se acalmou e ficou quieto. E aconteceu, por disposição divina, que teve vinte cargas, e não menos, como lhe dissera o bem-aventurado Francisco. O sacerdote ficou muito admirado com isso, e também todos os outros que ouviram, considerando que era um grande milagre, pelos méritos do bem-aventurado Francisco, principalmente porque não só tinha sido devastada mas, porque se estivesse carregada de uvas e ninguém tirasse nada, parecia ao sacerdote e aos outros que era impossível tirar dali vinte cargas de vinho. Por isso nós que estivemos com ele damos testemunho de que sempre que dizia: “É assim, ou vai ser”, assim acontecia. E nós vimos muitas coisas que se cumpriram quando vivia e também depois de sua morte.



[68]

No mesmo tempo o bem-aventurado Francisco permaneceu, para cuidar da enfermidade dos olhos, no eremitério dos frades em Fonte Colombo, perto de Rieti. Como certo dia visitasse-o o médico oculista dessa cidade e ficasse com ele por algumas horas, como costumava, quando quis ir embora, disse o bem-aventurado Francisco a um de seus companheiros: “Ide e fazei que o médico coma otimamente”. O companheiro respondeu: “Pai, nós o dizemos com vergonha, porque somos tão pobres que ficamos envergonhados de convidá-lo e dar-lhe agora de comer”.

O bem-aventurado Francisco disse a seus companheiros: “Homens de pouca fé, não me façais dizer mais nada”. Disse o médico ao bem-aventurado Francisco e a seus companheiros: “Irmão, justamente porque os frades são tão pobres, de mais boa vontade quero comer com eles”. Esse médico era muito rico e muitas vezes que o bem-aventurado Francisco e seus companheiros o tinham convidado, não quis comer lá. Então os frades foram e preparam a mesa, e com vergonha puseram um pouco de pão e vinho que tinham e um pouco de verduras que tinham feito para eles mesmos.

Mas quando se sentaram à mesa, quando ainda tinham comido só um pouco, bateram à porta do eremitério. Um dos frades levantou-se, foi e abriu a porta. Lá estava uma mulher trazendo uma grande cesta cheio de um belo pão e de peixes, pastéis de camarão, mel e uvas quase recentes, que tinham sido enviados ao bem-aventurado Francisco por uma senhora de um castro que ficava a quase sete milhas do eremitério. Quando viram isso, os frades e o médico ficaram muito admirados, considerando a santidade do bem-aventurado Francisco. Por isso, o médico disse aos frades: “Meus irmãos, nem vós nem nós conhecemos como devemos a santidade deste santo”.



[69]

Certa vez, quando o bem-aventurado Francisco ia para Celle de Cortona, aconteceu que, quando passava pelo caminho ao pé de um castro chamado Limisiano, perto do lugar dos frades de Prégio, uma senhora nobre do mesmo castro veio com muita pressa para falar com o bem-aventurado Francisco. Quando um dos companheiros do bem-aventurado Francisco viu aquela senhora tão cansada do caminho vindo tão apressada, correu disse ao bem-aventurado Francisco: “Pai, pelo amor de Deus esperemos essa senhora, porque vem atrás de nós, e está muito cansada pelo desejo de falar conosco”. O bem-aventurado Francisco, homem cheio de caridade e de piedade, esperou-a. Mas quando a viu fatigada e vindo com grande fervor de espírito e devoção, disse-lhe: “Que desejas, senhora?”. Ela lhe respondeu: “Pai, rogo que me bendigas”.

O bem-aventurado Francisco lhe disse: “És casada ou solteira?”. E ela: “Pai, faz tempo que o Senhor me deu a boa vontade de servi-lo. Tive e tenho um grande desejo de salvar minha alma, mas tenho um marido tão cruel e contrário a mim e a ele mesmo no serviço de Cristo; por isso minha alma se aflige com muita dor e angústia até a morte”. O bem-aventurado Francisco, considerando o fervoroso espírito que ela tinha, e principalmente que era jovem e delicada segundo a carne, moveu-se de piedade por ela, abençoou-a e lhe disse:. “Vá e, quando encontrar teu marido em casa, dize-lhe de minha parte que rogo a ele e a ti por amor daquele Senhor que para nos salvar suportou a paixão da cruz, que salveis vossas almas em vossa casa”.

Quando ela voltou e entrou em casa, encontrou o marido em casa, como lhe dissera o bem-aventurado Francisco. E o marido lhe disse: “De onde vens?”. E ela: “Venho do bem-aventurado Francisco, que me abençoou, e em suas palavras minha alma ficou consolada e alegre no Senhor”. Além disso me disse que, de sua parte, eu te dissesse e rogasse que em nossa casa salvemos nossas almas”. Quando disse isso, na mesma hora a graça de Deus desceu sobre ele, pelos méritos do bem-aventurado Francisco. Ele lhe respondeu com muita bondade de mansidão, tão rapidamente mudado e renovado pelo Senhor: “Senhora, agora vamos fazer como te aprouver o serviço de Cristo e vamos salvar nossas almas, como disse o bem-aventurado Francisco. E sua esposa lhe disse: “Senhor, eu acho bom que vivamos em castidade, porque é muito grata ao senhor e é uma virtude de grande remuneração”.

Respondeu-lhe o marido: “Senhora, se te agrada, a mim agrada”. Pois nisso e em outras boas obras quero unir minha vontade à tua vontade”. E a partir daí viveram muitos anos em castidade, fazendo muitas esmolas aos frades e aos outros pobres, de modo que não só os seculares mas também os religiosos se admiravam de sua santidade, principalmente porque aquele homem era muito mundano e se tornara rapidamente espiritual. E tendo perseverado em tudo isso e em todas as outras obras boas, morreram os dois com diferença de poucos dias. Por causa deles houve uma grande lamentação, pelo odor da boa vida, que deram durante todo o tempo de suas vidas, louvando e bendizendo ao Senhor, que lhes deu graças, candor e concórdia a vida a seu serviço; e não foram separados na morte, porque morreu um depois do outro. Pois até o dia de hoje conta-se a sua memória como de santos, pelos que os conheceram.

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