quinta-feira, 25 de abril de 2013

Legenda Perusiana 81-85.

[81]

De maneira semelhante, certa vez, quando ficou em um eremitério para a quaresma de São Martinho e os frades, por causa de sua doença, prepararam com toucinho os pratos que lhe davam a comer, principalmente porque o óleo fazia muito mal a suas doenças, no fim da quaresma, quando pregava a uma grande congregação de povo, não muito longe daquele eremitério, disse-lhes logo no começo da pregação: “Vós viestes a mim com grande devoção e achais que eu sou um santo homem ms a Deus e a vós confesso que nesta quaresma, lá no eremitério, comi pratos temperados com toucinho”. Até mais, raras ou poucas vezes aconteceu que, se os frades ou os amigos dos frades, quando comia em suas casas, ou preparavam manifestamente alguma iguaria para seu corpo por causa das doenças, quando ele saia da casa não deixava de dizer, diante dos frades ou também diante dos seculares, que de nada sabiam, com toda clareza: “Como tais pratos”, não querendo ocultar às pessoas o que era manifesto diante de Deus.

Até, em toda parte ou diante de quem quer que fosse, religiosos ou seculares, se seu espírito fosse movido para a vanglória, para a soberba, ou para qualquer vício, confessava-se imediatamente diante deles, nuamente e sem encobrir nada. Por isso, uma vez, disse a seus companheiros: “Quero viver de tal maneira diante de Deus nos eremitérios e outros lugares onde fico, como as pessoas me conhecem e me vêem; porque se acham que eu sou um santo homem e eu não fizer o que convém que faça um homem santo, seria hipócrita”. Por isso em certa ocasião, no inverno, por causa da doença do baço e do frio no estômago, um dos companheiros, que era seu guardião, adquiriu uma pele de raposa, e rogou que permitisse costurar a pele no avesso da túnica, junto do baço e do estômago, porque, então, estava fazendo muito frio.

E ele, desde que começou a servir a Cristo, durante todo o tempo, até o dia de sua morte, nunca quis usar nem ter a não ser uma túnica remendada, quando queria remendá-la. Então o bem-aventurado Francisco respondeu: “Se queres que eu tenha esse pele por dentro, manda pôr algum pedacinho dessa pele por fora, costurada na túnica, como testemunho para as pessoas de que eu tenho uma pele por dentro”. E fez que fosse assim; mas não usou muito, ainda que lhe fosse necessária por causa de suas doenças.



[82]

Em outra ocasião, ia pela cidade de Assis e com ele iam muitas pessoas; e uma velhinha pobrezinha pediu-lhe uma esmola por amor de deus, e ele deu na mesma hora a capa que tinha nas costas. E na mesma hora confessou diante deles que tinha tido vanglória por causa disso. E há muitos outros exemplos parecidos com esses, que vimos e ouvimos nós que estivemos com ele, mas não podemos contar porque seria longo escrever e narrar.

O sumo e principal cuidado do bem-aventurado Francisco consistiu nisso: em não ser hipócrita diante de Deus. A inda que fossem necessários certos pratos para o seu corpo por causa da doença, não deixava de pensar que tinha que dar bom exemplo de si mesmo aos frades e aos outros, para não lhes dar ocasião de murmurar ou de mau exemplo. Por isso preferia suportar com paciência e boa vontade as necessidades do corpo, e agüentou-as até o dia de sua morte, em vez de satisfazer a si mesmo, embora pudesse faze-lo de acordo com deus e com o bom exemplo.



[83]

Quando o bispo de Óstia, que depois foi apostólico, viu que o bem-aventurado Francisco tinha sido e ainda era sempre tão austero com o seu corpo, e principalmente que começara a perder a luz de seus olhos mas não queria fazer-se curar disso, admoestou-o com muita piedade e compaixão dizendo-lhe: “Irmão, não ages bem quando não deixas que te ajudem na doença dos olhos, porque para ti e para os outros são muito úteis tua saúde e tua vida. Pois se tiveste compaixão de teus frades e sempre foste e és misericordioso com eles, não deverias ser cruel contigo mesmo numa necessidade e enfermidade tão grande e manifesta. Por isso eu te mando que te faças ajudar e tratar.

De maneira semelhante, dois anos antes de sua morte, quando já estava muito doente, especialmente da enfermidade dos olhos, e morasse numa pequena cela feita de esteiras junto de São Damião, considerando e vendo o ministro geral que estava tão afetado pela doença dos olhos, mandou-lhe que fizesse e deixasse ajudar e tratar. Chegou a dizer-lhe que queria estar presente quando o médico começasse a trata-lo, principalmente para que se fizesse cuidar mais seguramente. E para conforta-lo, porque estava muito afetado por isso. Nesse meio tempo, fazia muito frio e o tempo não era apropriado para as curas.

Como o bem-aventurado Francisco tivesse ficado deitado nesse lugar por uns cinqüenta dias ou mais, não podia ver a luz do dia nem a luz do fogo de noite, mas ficava sempre dentro da casa e permanecia no escuro naquela pequena cela. Além disso também tinha grandes dores nos olhos de dia e de noite, de modo que quase não podia dormir e descansar à noite: isso fazia muito mal e fazia agravar-se muito a doença dos olhos e as outras doenças. Além disso, se às vezes queria descansar e dormir, havia na casa e na celazinha em que estava deitado, que era feita de esteiras em uma parte da casa, tantos ratos passando e correndo por cima e ao redor dele, que não o deixavam dormir.

Mesmo no tempo da oração muito o impediam. E não só de noite mas também de dia atribulavam-no demais, de modo que, até quando comia, subiam na sua mesa de maneira que seus companheiros acharam que era uma tentação diabólica, e assim foi. Por isso, uma noite, pensando o bem-aventurado Francisco que estava tendo tantas tribulações, ficou com pena de si mesmo e disse lá dentro de si: “Senhor, olha para me socorrer, em minhas enfermidades, para que eu possa tolerar com paciência”. E, de repente, foi-lhe dito em espírito: “Dize-me, irmão: se alguém, por essas tuas enfermidades e tribulações te desse um tesouro tão grande e precioso que, se toda a terra fosse puro ouro, todas as pedras fossem pedras preciosas, e toda a água fosse bálsamo, todavia tu reputarias e terias por nada tudo isso, por serem matérias: terra, pedras e água, em comparação com o grande e precioso tesouro que te será dado. Não te alegrarias muito?

O bem-aventurado Francisco respondeu: “Senhor, esse tesouro seria grande e impossível de investigar até o fim, muito precioso e por demais amável e desejável”. E lhe disse: “Então, irmão, alegra-te e te rejubila bastante em tuas enfermidades e tribulações, porque de resto podes estar tão seguro como se já estivesses no meu reino”. Ao acordar de manhã, disse aos seus companheiros: “Se um imperador desse um reino inteiro a um seu servo, ele não deveria alegrar-se muito? E se desse todo o império, não se alegraria ainda mais? E lhes disse: “Por isso eu tenho que me alegrar agora com minhas doenças e tribulações e me confortar no Senhor, e sempre dar graças a deus pai e a seu único Filho nosso Senhor Jesus Cristo, e ao Espírito Santo, por tamanha graça e bênção que me deram, porque, vivendo ainda na carne, por sua misericórdia dignou-se dar-me a certeza do reino, a mim, seu servozinho indigno.

Por isso eu quero, para o seu louvor e para nossa consolação e edificação do próximo, fazer um novo Louvor do Senhor por suas criaturas, das quais nos servimos todos os dias e sem as quais não podemos viver. E nas quais o gênero humano ofende muito o Criador, e todos os dias somos ingratos por tão grande graça, porque não louvamos como devemos o nosso Criador e doador de todos os bens”.

E sentando-se começou a meditar e depois a dizer: “Altíssimo, onipotente, bom Senhor”. E compôs um cântico nessas palavras e ensinou seus companheiros a cantá-lo. Pois seu espírito estava, então, em tamanha doçura e consolação, que queria mandar buscar Frei Pacífico, que no século era chamado rei dos versos e foi um mestre muito cortês de cânticos, e dar-lhe alguns frades bons e espirituais, para que fossem pelo mundo pregando e louvando a Deus. Pois queria e dizia que, primeiro, algum deles, que soubesse pregar, pregasse ao povo, e depois da pregação cantassem os Louvores do Senhor como jograis de deus.

Terminados os Louvores, queria que o pregador dissesse ao povo: “Nós somos os jograis do Senhor e nisto queremos a vossa remuneração, isto é, que estejais na verdadeira penitência”. E dizia: “Que são os servos de Deus senão, de algum modo, uns jograis seus, que devem mover o coração dos homens e levanta-los para a alegria espiritual?”. E especialmente dos frades menores dizia que foram dados ao povo para sua salvação.

Pois os Louvores do Senhor que vez, a saber: Altíssimo, onipotente, bom Senhor, deu-lhes o nome de Cântico de Frei Sol, que a é a mais bonita de todas as criaturas e mais pode a Deus se assemelhar. Por isso, dizia: “De manhã, quando nasce o sol, toda pessoa deveria louvar a deus que o criou, porque por ele os olhos se iluminam de dia; de tarde, quando cai a noite, toda pessoa deveria louvar a Deus pela outra criatura, o irmão fogo, porque por ele nossos olhos se iluminam de noite”. E disse: “Nós todos somos como que cegos, e o Senhor ilumina nossos olhos por essas duas criaturas. Por isso sempre devemos louvar o glorioso Criador por essas e outras criaturas suas de que usamos todos os dias”.

Porque em sua saúde e enfermidade fez e fazia de boa vontade louvar o Senhor e também animava os outros a isso. Mesmo quando estava sofrendo pela doença, começava ele mesmo a dizer os Louvores do Senhor, e depois fazia que seus companheiros cantassem para que, em consideração do louvor do Senhor, pudesse ser esquecida a atrocidade das dores e doenças. E assim fez até o dia de sua morte.



[84]

Nesse mesmo tempo, quando jazia doente, tendo já pregado e composto os Louvores, o que então era bispo da cidade de Assis, excomungou o prefeito da cidade. Pois, indignado contra ele, o que era prefeito fez forte e curiosamente preconizar pela cidade de Assis que ninguém vendesse ou comprasse alguma coisa dele, ou fizesse algum contrato; e por isso eles se odiavam muito um ao outro.

O bem-aventurado Francisco, como estava tão doente. Ficou com pena deles, principalmente porque nenhum religioso ou secular se intrometia para cuidar de sua paz e concórdia. E disse a seus companheiros: “É uma grande vergonha para vós, servos de Deus, que o bispo e o prefeito se odeiem desse jeito e nenhuma pessoa entre no meio para cuidar de sua paz e concórdia”. E sim fez um verso nas seus Louvores para aquela ocasião, este: Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdiam pelo teu amor e suportam enfermidade e tribulação; bem-aventurados os que as suportarem em paz, porque por ti, Altíssimo, serão coroados”.

Depois chamou um de seus companheiros, dizendo-lhe: “Vá dizer de minha parte ao prefeito que ele com os magnatas da cidade e outros, que pode levar consigo, venha ao palácio do bispo”. E quando ele foi disse a outros dois companheiros seus: “Ide também diante do bispo, do prefeito e dos outros que estão com eles e cantai o Cântico de Frei Sol. E confio no Senhor que há de humilhar os corações deles, vão fazer as pazes entre eles e voltaram à antiga amizade e bem-querer”. E quando todos se reuniram na praça do claustro da casa do bispo, levantaram-se aqueles dois frades e um disse: “O bem-aventurado Francisco compôs em sua doença os Louvores do Senhor por suas criaturas, para louvor dele e edificação do próximo. Por isso ele vos roga que as ouçais com grande devoção”.

E então começaram a cantar e a dizer-lhes. E imediatamente o prefeito levantou-se, juntou os braços e as mãos com grande devoção, como se fosse o Evangelho do Senhor, e também com lágrimas, ouviu atentamente. Pois tinha muita confiança e devoção pelo bem-aventurado Francisco. Quando acabaram os Louvores do Senhor, o prefeito disse diante de todos: “Na verdade eu vos digo que perdôo não só ao senhor bispo, que preciso ter como meu senhor, mas perdoaria mesmo quem matasse meu irmão ou filho”. E assim se lançou aos pés do senhor bispo, dizendo-lhe: “Eis que estou pronto a satisfazer-vos em tudo, como vos aprouver por amor de nosso Senhor Jesus Cristo e de seu servo bem-aventurado Francisco”.

O bispo, tomando-o pelas mãos, levantou-o e lhe disse: “Por meu ofício convinha que eu fosse humilde, mas como sou notavelmente inclinado à ira, é preciso que me perdoes”. E assim com muita bondade e afeição se abraçaram e beijaram”. E os frades ficaram muito admirados, considerando a santidade do bem-aventurado Francisco porque aconteceu à letra o que o bem-aventurado Francisco tinha predito sobre a paz e a concórdia deles.

E todos os outros, que lá estavam presentes e que ouviram, tiveram o fato como um grande milagre, atribuindo-o aos méritos do bem-aventurado Francisco, porque o senhor visitou-os tão depressa que, sem lembrar nenhuma palavra, voltaram de tamanho escândalo para tanta concórdia. Por isso nós que estivemos com o bem-aventurado Francisco damos testemunho de que predizia: “Alguma coisa é assim, ou vai ser”, acontecia quase à letra. E nós vimos com nossos olhos, mas seria longo escrever e contar todas essas coisas.



[85]

Semelhantemente, naqueles dias e no mesmo lugar, depois que o bem-aventurado Francisco compôs os Louvores do Senhor pelas criaturas, também fez algumas palavras com canto para maior consolação das senhoras pobres do mosteiro de São Damião, principalmente porque sabia que elas estavam muito atribuladas por sua enfermidade.

E como não podia consola-las e visitá-las pessoalmente por sua doença, quis que aquelas palavras fossem anunciadas por seus companheiros. Nessas palavras, então e sempre, quis deixar para elas, com clareza e brevidade, a sua vontade: como deveriam ser unânimes na caridade e comportar-se umas com as outras, porque por seu exemplo e pregação foram convertidas a Cristo, quando os frades ainda eram poucos.

A conversão e o comportamento delas é exaltação e edificação não só para a Religião dos frades, da qual é uma plantinha, mas também para toda a Igreja de Deus. Então, como o bem-aventurado Francisco sabia que, desde o começo de sua conversão, elas tinham levado e levavam ainda vida dura e pobrezinha e, por vontade e necessidade, seu espírito sempre se movia de piedade para com elas.

Por isso, nessas mesmas palavras rogou-as que, como o Senhor tinha-as reunido de muitas partes para a santa caridade, a santa pobreza e a santa obediência, nelas deviam assim viver sempre e morrer. E especialmente que deviam prover seus corpos com as esmolas que Deus lhes desse, com alegria, ação de graças e discrição. E mais do que tudo que as sãs, no trabalho que mantinham por suas irmãs doentes, e as enfermas fossem pacientes em suas doenças e nas necessidades que padeciam.

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