segunda-feira, 1 de abril de 2013

Concílio Vaticano II: um balanço geral.

A Igreja e a pobreza

Nestes últimos dias voltou à baila um tema que esteve muito em voga nos anos sessenta e setenta: a Igreja e a pobreza. Era um assunto candente naquele clima de reformismo após o Vaticano II.

Era adolescente, então, e presenciei a vulgarização da liturgia e o despojamento das antigas e belas igrejas a pretexto de prática da pobreza evangélica. Lembro-me de freiras e padres dizendo que não queriam mais trabalhar para a burguesia e por isso tinham tomado a decisão de fechar seus tradicionais colégios. Dilapidaram o patrimônio da Igreja, os antigos prédios onde funcionavam os colégios e conventos, e foram os religiosos aggiornati viver em comunidades de base. Vi essa tragédia em Jau, SP, cidade herdeira de gloriosas tradições católicas da fidelíssima Itu. Diga-se de passagem que aqueles bens eclesiásticos, que tinham, durante anos, estado a serviço de toda a sociedade e favorecido inclusive as classes mais pobres, foram adquiridos em grande medida graças à generosidade e piedade das classes mais abastadas e tradicionais da sociedade. A Igreja de antigamente acolhia os ricos que viviam o espírito de pobreza e caridade evangélicas e, em consequência, a sociedade vivia em harmonia.
Mas nos anos sessenta e setenta as coisas mudaram para muito pior na Igreja. Não ocorreu a primavera esperada do Vaticano II. Ao contrário, as reformas de então produziram frutos amargos. Houve uma demagogia revolucionária, e o resultado, todos o conhecemos: as congregações religiosas que fizeram essa “opção preferencial” (que pleonasmo repugnante!) simplesmente morreram. Não têm mais vocações e nenhuma expressão social e o serviço que pretendiam prestar à transformação das estruturas sociais redundou apenas na maior paganização da sociedade atual. Conheço o caso de uma religiosa, membro de uma congregação que se autodestruiu, a qual só não foi parar na sarjeta porque seu pai, providencialmente, lhe legara os bens vinculados, de modo que ela não pôde dispor de seu patrimônio quando emitiu os votos religiosos!

Observei também, nos idos dos anos setenta, que muitos dos católicos que apoiavam essa revolução na Igreja já não tinham a verdadeira fé, viviam uma confusão de ideias, e hoje, ainda que se digam católicos, de fato não o são. Conheço uma senhora do grupo das católicas ”avançadas” dos anos setenta que hoje defende abertamente o direito de decidir sobre o aborto, defende o direito de opção sexual etc. Observei, igualmente, que muitos dos partidários do discurso da pobreza da Igreja eram bons burgueses modernistas da esquerda festiva e viviam em flagrante contradição: por um lado, defendiam a Igreja despojada, mas por outro lado viviam ferranhamente apegados às comodidades e ao conforto da tecnologia moderna de que só os ricos podem gozar: carros de luxo, as melhores televisões, aparelhos eletrônicos sofisticados, a moda de grife, casas projetadas por arquitetos comunistas de vanguarda que tomavam dinheiro dos trouxas. Observei também que muitos católicos da esquerda festiva tinham desprezo pelas obras de caridade tradicionais da Igreja, faziam pouco, por exemplo, das conferências de São Vicente de Paulo. Enfim, a lógica deles era: para as coisas de Deus austeridade, para a vida própria toda comodidade e luxo. É claro que disso só podia resultar a dissolução dos costumes e a perda total da fé em um Deus transcendente digno de toda honra e glória.
A preservação da minha fé, a minha perseverança, em meio a tanta ruína, foi um milagre moral que nunca agradecerei a Deus devidamente. Foi então que caiu em minhas mãos O gênio do cristianismo, de Chateaubriand, que me mostrou a importância da beleza e do esplendor do culto católico para ajudar o homem a descortinar seu horizonte terreno e descobrir outra perspectiva da sua vida, para elevar o homem, para educá-lo e permitir-lhe saborear o mistério do sagrado sem o qual a sua própria vida se destrói pela banalização de tudo.

Outro livro que me fez bem então foi Dois amores e duas cidades, de Gustavo Corção, que explica assim problema que hoje volta a afligir-nos:

Muitos padres, vigários, abades, bispos, quiseram “levar a Igreja ao povo” ou “aos jovens”. Mas como? Tornando vulgar, primária e imatura a figura da Igreja. Nessa nova pedagogia, muitos padres jovens passaram a usar, além do vernáculo da liturgia tornado obrigatório, uma linguagem rasteira que, na opinião deles, seria mais comunicativa para os homens humildes. Ora, qualquer pessoa dotada de alguma experiência no trato de pessoas humildes sabe que elas procuram na Igreja o que não encontram no botequim. Entre outras coisas procuram a linguagem mais elevada que os eleve e nobilite, como também procuram no templo as imagens belas, o incenso, a mirra e o ouro, a riqueza que em outro lugar não possuem. Os que tornam a Igreja vulgar para torná-la popular cometem um erro e uma injustiça contra a Igreja e o povo. É também um erro e uma injustiça que se comete contra os moços a ideia de trazer para o templo, sob o pretexto de para liturgia, os mesmos ritmos e instrumentos que “alguns moços” usam em seus grupos. (o. c. v. II, p. 394)

Outro autor que me auxiliou a ter uma visão melhor do problema da pobreza na Igreja foi o filósofo Dietrich Von Hildebrand em sua obra Cavalo de Tróia na cidade de Deus. No capítulo XXVI da referida obra, sob o título A função da beleza na religião, diz Von Hildebrand:

Infelizmente, alguns católicos dizem, hoje, que o desejo de dotar de beleza o culto se opõe à pobreza evangélica. É um erro grave e que parece frequentemente inspirado em sentimentos de culpa por terem sido eles sido indiferentes às injustiças sociais e negligenciando os legítimos reclamos da pobreza. É então em nome da pobreza evangélica que nos dizem que as igrejas devem ser graves, simples, despojadas de todos adornos desnecessários.

Os católicos que fazem essa sugestão confundem a pobreza evangélica com o caráter prosaico e monótono do mundo moderno. Deixaram de ver que a substituição da beleza pelo conforto, e do luxo que muitas vezes o acompanha, é muito mais antiético à pobreza evangélica do que a beleza – mesmo esta em sua forma mais exuberante. (…) Graças a Deus, esta não foi a atitude da Igreja e dos fiéis através dos séculos. São Francisco, que em sua própria vida praticou a pobreza evangélica ao extremo, jamais afirmou que as igrejas devessem ser vazias, despojadas, sem beleza. Pelo contrário, igreja e altar nunca seriam suficientemente belos para ele. Diga-se o mesmo do cura d”Ars, São João Batista Vianney. (o. c. p. 204-205)

Para a espiritualidade católica tradicional, fundada em sãos princípios teológicos e metafísicos e sempre guiada pela virtude superior da prudência, a pobreza, bem como a mortificação, é um simples meio para chegar a um fim, que é Deus. Deve-se usar dos bens terrenos tanto quanto auxiliam na consecução do fim último. Deve-se renunciar a eles tanto quanto representam um obstáculo para chegar à posse de Deus, sumo bem. Deve-se ter um coração desapegado dos bens terrenos e transitórios, colocá-los a serviço dos pobres sempre com a consciência de que a terra é um lugar de exílio e jamais alimentar uma utopia de um mundo igualitário livre de todo sofrimento moral ou físico. Não se devem cultivar, é claro, as desigualdades pelo prazer de humilhar os mais pobres. Mas tampouco se deve ostentar uma pobreza fingida com sabor de demagogia para cativar as massas em detrimento da dignidade de um alto cargo que exige por sua própria natureza certa majestade e magnificência.

O Evangelho diz: onde está seu tesouro está o seu coração. Ora, se para as coisas de Deus basta o vulgar e para as coisas particulares todo cuidado e zelo é pouco, é porque a fé é pouca.


Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa
19 de março de 2013.
Solenidade de São José, Protetor da Santa Igreja.
Carpinteiro, mas pertencente à real estirpe de David

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