sexta-feira, 29 de março de 2013

Legenda Perusina 60-65.

[60]

Durante um tempo, quando o bem-aventurado Francisco vivia junto da igreja de Santa Maria da Porciúncula e os frades ainda eram poucos, o bem-aventurado Francisco ia, às vezes, por aquelas vilas e igrejas ao redor da cidade de Assis, anunciando e pregando aos homens que fizessem penitência. E carregava uma vassoura para varrer as igrejas. Porque o bem-aventurado Francisco ficava muito sentido quando entrava numa igreja e via que não estava limpa, e por isso, sempre, depois que pregava ao povo, acabado o sermão, fazia reunir todos os sacerdotes que havia no lugar, num lugar afastado, para não ser ouvido pelos seculares, e pregava a eles sobre a salvação das almas, mas principalmente para que tivessem um cuidado solícito por conservar limpas as igrejas, os altares e tudo que serve para celebrar os divinos mistérios.



[61]

Pois, num dia em que o bem-aventurado Francisco fora a uma igreja de uma vila da cidade de Assis, começou a varre-la, e logo se espalhou o boato naquela vila, principalmente porque ele visto e ouvido de boa vontade por aquelas pessoas. Mas quando isso foi ouvido por um sujeito chamado João, da maior simplicidade, que estava arando num campo seu perto daquela igreja, ele foi logo para lá e o encontrou varrendo a igreja. Disse-lhe: “Irmão, dá-me a vassoura, porque quero te ajudar”. E, tomando a vassoura, dele, varreu o resto.

E, sentado, disse ao bem-aventurado Francisco: “Irmão, já faz tempo que tenho vontade de servir a Deus, e mais ainda depois que ouvi falar de ti e de teus frades, mas não sabia como chegar a ti. Mas depois que aprouve a Deus que eu te visse, quero fazer tudo que te agradar”. O bem-aventurado Francisco, considerando o seu fervor, exultou no Senhor, principalmente porque tinha, então, poucos frades e porque lhe parecia que poderia ser um bom religiosos, por sua pura simplicidade. Então lhe disse: “Irmão, se queres ser de nossa vida e sociedade, é preciso que te desapropries de todas as tuas coisas que podes ter sem escândalo, e que dês tudo aos pobres, segundo o conselho do santo Evangelho, pois foi isso que fizeram os meus frades, que puderam”.

Ouvindo isso, ele foi imediatamente para o campo, onde deixara os bois, soltou-os e trouxe um para o bem-aventurado Francisco, dizendo: “Irmão, servi durante tantos anos a meu pai e a todos de minha casa; ainda que seja pequena esta parte da minha herança, quero tomar este boi como a minha parte e dá-lo aos pobres, como melhor te parecer segundo Deus”. Mas quando seus parentes e irmãos, que ainda eram pequenos, viram que queria abandoná-los, começaram a chorar tão fortemente e tão alto, eles e todos da casa, que por isso moveu-se a piedade do bem-aventurado Francisco, principalmente porque a família era grande e fraca.

Então o bem-aventurado Francisco lhes disse: “Preparai e fazei uma refeição para nós todos comermos juntos, e não choreis, porque vou deixar-vos alegres”. Eles logo prepararam, e todos comeram com muita alegria. Depois da refeição, o bem-aventurado Francisco lhes disse: “Este vosso filho quer servir a Deus, por isso vós tendes que ficar alegres, não tristes. E não só segundo Deus, mas também de acordo com este século, isso será atribuído a vós para honra e proveito das almas e dos corpos, porque Deus fica honrado pela vossa carne, e todos os nossos frades serão vossos filhos e irmãos. E porque é uma criatura de Deus e quer servir ao seu Criador, aquele para quem servir é reinar, não posso nem devo devolvê-lo a vós; mas, para que recebais e tenhais uma consolação por causa dele, quero que ele se exproprie desse boi em vosso favor, como a pobres, ainda que ele devesse dá-lo a outros pobres, segundo o conselho do santo Evangelho”.

E todos ficaram consolados com as palavras do bem-aventurado Francisco, e se alegraram principalmente porque o boi lhes foi devolvido, porque eram pobres. E porque o bem-aventurado Francisco amava demais e sempre lhe agradava a santa simplicidade, em si e nos outros, logo que o vestiu com os panos da Religião, levava-o como seu companheiro. Pois ele era de tamanha simplicidade que se achava obrigado a fazer tudo que o bem-aventurado Francisco fizesse. Por isso, quando o bem-aventurado Francisco estava em alguma igreja ou em algum outro lugar afastado, para a oração, ele queria vê-lo e espiá-lo, para se conformar com todos os seus gestos.

Então, se o bem-aventurado Francisco dobrasse os joelhos, ou juntasse as mãos para o céu, ou cuspisse, ou tossisse, ele fazia tudo igual. E o bem-aventurado Francisco começou a questioná-lo, com muita alegria, sobre esse tipo de simplicidade. Ele respondeu: “Irmão, eu prometi fazer tudo que tu fazes, por isso quero fazer tudo que tu fazes”. O bem-aventurado Francisco ficava admirado e alegre com isso, vendo-o em tão grande pureza e simplicidade. Pois começou a ser tão perfeito em todas as virtudes e bons costumes, que o bem-aventurado Francisco e os outros frades ficavam muito admirados de sua perfeição. E não muito tempo depois, ele morreu naquela santa perfeição. Por isso o bem-aventurado Francisco, com muita alegria interior e exterior, falava entre os seus irmãos do seu comportamento, e não o chamava de Frei João mas de São João.



[62]

Em certa ocasião, o bem-aventurado Francisco andava pregando pela província das Marcas. Aconteceu que um dia, quando estava pregando ao povo de uma vila, um homem se aproximou dele, dizendo: “Irmão, quero deixar o século e entrar na tua Religião”. O bem-aventurado Francisco disse-lhe: “Irmão, se queres entrar na Religião dos frades, primeiro é preciso que, de acordo com a perfeição do santo Evangelho, dês todas as tuas coisas aos pobres, e depois te livres de tua vontade em todas as coisas”. Ouvindo isso, ele foi rapidamente e, levado pelo amor carnal e não espiritual, deu todas as suas coisas aos seus parentes. E voltou ao bem-aventurado Francisco, dizendo-lhe: “Irmão, eu me desapropriei de tudo que era meu”. Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Como fizeste? Ele respondeu: “Irmão, dei tudo que era meu a alguns parentes meus, que tinham necessidade”. O bem-aventurado Francisco, percebendo logo, pelo Espírito Santo, que o homem era carnal, disse-lhe: “Vai pelo teu caminho, Irmão Mosca, porque deste o que era teu aos parentes e queres viver de esmola entre os frades”. Ele pegou imediatamente o seu caminho, sem querer dar as suas coisas aos outros pobres.



[63]

Nesse mesmo tempo, como o bem-avenrturado Francisco morasse no lugar de Santa Maria, aconteceu que, para o proveito de sua alma, foi introduzida nele uma gravíssima tentação do espírito, de modo que seu espírito e seu corpo ficaram muito atribulados, por dentro e por fora. Chegou a ponto de se afastar da familiaridade com os irmãos, principalmente porque, por causa dessa tentação, não podia se mostrar alegre entre eles, como era seu costume. Afligia-se não só pela abstinência de comida mas também pela de palavras; ia muitas vezes para a oração no bosque que havia perto da igreja, para mostrar melhor sua dor e para poder derramar suas lágrimas mais abundantemente diante do Senhor, para que, no meio de tanta tribulação, o Senhor, que tudo pode, se dignasse mandar-lhe remédio do céu.

Como já tivesse sido tão atribulado por essa tentação durante mais de dois anos, de dia e de noite, aconteceu que um dia, quando estava em oração na igreja de Santa Maria, foi-lhe dita em espírito aquela palavra do santo Evangelho: “Se tivesses fé como um grão de mostarda e dissesses àquele monte para sair de seu lugar e se transferir para outro, isso aconteceria”. São Francisco respondeu: “Que monte é esse?”E lhe foi respondido: “Esse monte é a tua tentação”. Disse o bem-aventurado Francisco: “Portanto, Senhor, faça-se em mim como disseste”. E ficou livre imediatamente, a ponto de lhe parecer que nunca tinha tido aquela tentação.



[64]

Certa vez, num dia em que o bem-aventurado Francisco tinha voltado para a igreja de Santa Maria da Porciúncula, encontrou aí o simples Frei Tiago com um leproso cheio de feridas, que tinha ido para lá no mesmo dia. O santo pai tinha recomendado muito a ele aquele leproso e principalmente todos os outros leprosos que estivessem muito chagados. pois naqueles dias os frades moravam nos hospitais dos leprosos. Mas esse Frei Tiago era como um médico dos que estavam muito chagados, e de boa vontade tocava suas feridas, trocava-os e cuidava deles.

O bem-aventurado Francisco disse a Frei Tiago, como se o estivesse repreendendo: ”Tu não devias levar assim os irmãos cristãos, porque não é honesto nem para ti nem para eles”. O bem-aventurado Francisco chamava os leprosos de “irmãos cristãos”. Mas o santo pai disse isso porque, embora gostasse de que os ajudasse e servisse, não queria que levasse para fora do hospital os muito chagados, principalmente porque esse Frei Tiago era muito simples e muitas vezes ia à igreja de Santa Maria com algum leproso, e principalmente porque as pessoas costumavam ter asco dos leprosos que fossem muito chagados. Tendo dito isso, o bem-aventurado Francisco logo se repreendeu e disse sua culpa a Frei Pedro Cattani, que então era o ministro geral, principalmente porque o bem-aventurado Francisco achou que o leproso ficou envergonhado por causa da repreensão de Frei Tiago. E por isso disse sua culpa, para satisfazer a Deus e ao leproso.

E disse o bem-aventurado Francisco a Frei Pedro: “Eu te digo que confirmes a penitência que quero fazer por isso e não me contradigas”. Disse-lhe Frei Pedro: “Irmão, faça-se como te agradar”. Pois Frei Pedro tinha tanta veneração e respeito pelo bem-aventurado Francisco, e lhe era tão obediente, que nem presumia mudar sua obediência, embora nessa e em muitas outras ocasiões ficasse por isso aflito interior e exteriormente.

O bem-aventurado Francisco disse: “Que seja esta a minha penitência: que eu coma no mesmo prato com o irmão cristão”. E assim se fez: quando o bem-aventurado Francisco sentou-se à mesa com o leproso e os outros frades, foi posta uma escudela entre os dois. Pois o leproso estava todo machucado e ferido, principalmente tinha os dedos com que comia contraídos e sangrentos de modo que sempre, quando os punha no prato, derramava sangue nele. Vendo isso, Frei Pedro e os outros frades ficaram muito tristes, mas não tinham coragem de dizer nada, por respeito ao santo pai. Quem escreveu isto, viu e prestou testemunho.



[65]

Certa vez, o bem-aventurado Francisco ia pelo vale de Espoleto e com ele ia Frei Pacífico, que foi da Marca de Ancona e no século era chamado “rei dos versos”, nobre e cortês mestre dos cânticos. E se hospedaram num hospital de leprosos de Trevi. E o bem-aventurado Francisco disse a Frei Pacífico: “Vamos à igreja de São Pedro de Bovário, porque quero ficar lá esta noite”.

A igreja não estava muito longe do hospital e ninguém ficava lá, principalmente porque naquele tempo tinha sido destruído o castelo de Trevi, de modo que ninguém permanecia no castelo ou na vila de Trevi. E acontece que quando o bem-aventurado Francisco ia indo para lá, disse a Frei Pacífico: “Volta para o hospital, porque quero ficar sozinho aqui nesta noite, e volta a mim amanhã bem cedo”.

Mas quando o bem-aventurado Francisco lá ficou sozinho e disse o completório e outras orações, quis descansar e dormir mas não pôde, e seu espírito começou a temer e a sentir sugestões diabólicas. Levantou-se imediatamente e saiu fora da casa persignando-se e dizendo: “Da parte de Deus onipotente eu vos digo, demônios, que façais tudo que vos foi permitido por nosso Senhor Jesus Cristo para prejudicar meu corpo, porque estou preparado para agüentar tudo, pois o maior inimigo que eu tenho é o meu corpo: por isso vingar-me-ei de meu adversário e inimigo”. Pararam na mesma hora aquelas sugestões. Ele voltou para o lugar onde se deitava, aquietou-se e dormiu em paz.

Quando amanheceu, Frei Pacífico voltou para junto dele. O bem-aventurado Francisco estava em oração diante do altar dentro do coro; Frei Pacífico ficou em pé, esperando-o fora do coro, diante do crucifixo e rezando ao mesmo tempo ao Senhor. E quando Frei Pacífico começou a rezar, foi elevado em êxtase, se no corpo ou fora do corpo Deus soube, e viu muitas cadeiras no céu, entre as quais uma mais eminente que as outras, gloriosa e fulgente, e ornada com todas as pedras preciosas. Admirando sua beleza, começou a pensar consigo mesmo o que era essa cadeira e a quem pertencia. E logo ouviu uma voz que lhe dizia: “Esta cadeira foi de Lúcifer, e no seu lugar vai sentar-se nela o bem-aventurado Francisco”. E voltando a si, logo o bem-aventurado Francisco saiu ao seu encontro. Ele se jogou imediatamente aos pés do bem-aventurado Francisco, em forma de cruz, considerando-o como se já estivesse no céu, por causa da visão que tivera sobre ele, e lhe disse: “Pai, perdoa-me os meus pecados e roga ao Senhor que me perdoe e tenha misericórdia de mim”. E, estendendo a mão, o bem-aventurado Francisco o fez levantar-se e soube que tinha visto alguma coisa na oração. Parecia todo mudado, e falava ao bem-aventurado Francisco não como a alguém que vivia na carne mas como a alguém que já reinava no céu. Depois, como de longe, porque não queria contar a visão ao bem-aventurado Francisco, Frei Pacífico interrogou o bem-aventurado Francisco dizendo-lhe: “O que achas de ti mesmo, irmão?”.

O bem-aventurado Francisco respondeu e lhe disse: “Eu acho que sou um homem mais pecador que qualquer outro que haja no mundo”. E na mesma hora foi dito a Frei Pacífico no coração: “Nisso tu podes saber que foi verdadeira a visão que tiveste”; porque como Lúcifer foi jogado daquela cadeira por sua soberba, assim o bem-aventurado Francisco, por sua humildade, vai merecer ser exaltado e sentar-se nela”.


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