sexta-feira, 1 de março de 2013

Legenda Perusina 31-40.

[31]

Aconteceu em Celano, no tempo do inverno, que São Francisco tinha um pano dobrado na forma de um manto, que um amigo dos frades lhe havia emprestado. E como estava no palácio do bispo de Marsi, foi-lhe ao encontro uma velhinha pedindo esmola. Tirou na mesma hora o pano do pescoço e, embora fosse de outro, deu-o à velhinha pobre, dizendo: “Vai fazer uma túnica para você, porque está precisando bastante”. A velhinha riu espantada, não sei se de medo ou alegria, e pegou o pano de suas mãos. Correu rapidamente e passou-lhe a tesoura, com medo de que a demora trouxesse o perigo de ter que devolver. Mas quando descobriu que o pano cortado não ;ao ia bastar para a túnica, aproveitando a primeira parte da bondade, voltou ao santo mostrando a falta de pano. O santo voltou os olhos para o companheiro, que levava outro tanto de pano nas costas, e disse: “Estás ouvindo, irmão, o que essa pobrezinha está dizendo? Vamos suportar o frio por amor do Senhor. Dá o pano para a pobrezinha completar a túnica”. Ele tinha dado, o companheiro também deu, ficaram os dois despidos para que a velhinha se vestisse.



[32]

Em outra ocasião, quando voltava de Sena, encontrou um pobre e disse ao companheiro: “Temos que devolver a capa ao pobrezinho a quem pertence. Nós a recebemos emprestada até acontecer de encontrar alguém mais pobre”. O companheiro, considerando a necessidade do piedoso pai, resistia teimosamente para que não cuidasse do outro esquecendo de si mesmo. Respondeu o santo: “Não quero sere ladrão. Se não déssemos ao que tem mais necessidade, isso nos seria imputado como furto”. O outro desistiu, e ele deu a capa.



[33]

Coisa semelhante aconteceu perto da Cella de Cortona. O bem-aventurado Francisco levava uma capa nova, que os frades tinha conseguido para ele com muito esforço. Chegou ao lugar um pobre, chorando a mulher que tinha morrido e a família pobrezinha que tinha sobrado. O santo disse-lhe: “Eu te dou esta capa por amor do Filho de deus, contanto que não a d6es a ninguém se não te comprar pagando bem”. Os frades acorreram depressa para pegarem a capa e impedirem que fosse doada. Mas o pobre, criando coragem pela cara do santo pai, defendia-a como sua com unhas e dentes. Por fim, os frades recompraram a capa e o pobre foi embora recebendo o preço.



[34]

Certa vez, em Colle, no condado de Perusa, São Francisco encontrou um pobrezinho que já tinha conhecido no século. Disse-lhe: “Irmão, como vais?”. Mas ele se animou e começou a amontoar maldições sobre o seu patrão, que tirara tudo que era dele: “Graças ao meu patrão, que Deus Onipotente o amaldiçoe, só estou passando mal. Com mais pena de sua alma que de seu corpo, pois persistia num ódio mortal, disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Irmão, perdoa o teu patrão por amor de Deus, para libertares tua alma. Pode ser que ele te devolva o que tirou. Se não, além de perder tuas coisas, vais perder também a alma”. E ele disse; “Não posso absolutamente perdoar, se primeiro ele não me devolver o que tirou”. Como tinha uma capa nas costas, o bem-aventurado Francisco lhe disse: “Olha, eu te dou esta capa, e peço que perdoes teu patrão por amor do Senhor Deus”. Amansado e provocado pelo benefício, ele pegou o presente e perdoou as injúrias.



[35]

Quando ele estava em Sena, aconteceu que lá chegou um homem muito espiritual da ordem dos Pregadores, doutor em sagrada teologia. Tendo visitado o bem-aventurado Francisco, ele e o santo gozaram longamente de uma agradabilíssima conversa sobre as palavras do Senhor.



[36]

Mas o referido mestre interrogou sobre aquela palavra de Ezequiel: Se não avisares o ímpio de sua impiedade, vou pedir de tua mão a alma dele. Pois disse: “Bom pai, eu mesmo conheço muitos que sei que estão em pecado mortal, mas nem sempre lhes falo sobre sua impiedade. Será que vão ser exigidas de minha mão as almas dessas pessoas? Dizendo-lhe o bem-aventurado Francisco que era um idiota e por isso precisava mais ser ensinado por ele que responder sobre a sentença da escritura, o mestre acrescentou humilde: “Irmão, embora eu tenha ouvido de alguns sábios a exposição dessa passagem, vou acolher de boa vontade o que pensas sobre isso”. Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Se a passagem deve ser entendida de maneira universal, eu acho que o servo de Deus deve arder tanto pela vida e santidade que repreenda a todos os ímpios pela luz do exemplo e pela língua do comportamento. Eu diria que, assim, o esplendor de sua vida e o odor da fma vai anunciar a todos as suas iniqüidades”. E assim, saindo muito edificado, aquele homem disse aos companheiros do bem-aventurado Francisco: “Meus irmãos, a teologia desse homem, alicerçada na pureza e na contemplação, é uma águia que voa; mas a nossa ciência arrasta o ventre na terra.



[37]

Costumava atacar com este enigma os que não tinham óculos castos: “Um rei piedoso e poderoso mandou sucessivamente dois mensageiros à rainha. O primeiro voltou e se limitou a referir palavra por palavra. Dessa maneira, os olhos do sábio tinha ficado na cabeça, sem cair para lugar nenhum. O outro voltou, e depois de ter contado as poucas palavras, narrou uma longa história sobre a beleza da senhora: Na verdade, senhor, vi uma mulher belíssima. Feliz que quem pode aproveitar. Ele disse: Tu, servo mau, lançaste os olhos impudicos sobre minha esposa? É claro que estavas querendo comprar sutilmente o que admirastes. Mandou chamar de novo o primeiro e disse: “O que achaste da rainha?”. Ele: Ótima, porque ouviu de boa vontade e respondeu sagazmente. E não há nela nenhuma formosura? Senhor meu, isso cabe a ti olhar; eu tinha que referir as palavras. O rei deu a sentença: Tu, casto de olhos, ficareis na camera com o corpo ainda mais casto. Mas esse outro saia da casa, para não poluir meu leito”. Pois dizia: “Quem não deveria temer olhar a esposa de Cristo?”.



[38]

De vez em quando fazia estas coisas. Fervendo interiormente pela dulcíssima melodia do espírito, soltava exteriormente a voz em francês, e a veia do divino sussurro, que recebia furtivamente nos ouvidos, transbordava em júbilo francês. Algumas vezes, como vi com meus olhos, pegava um pau do chão, colocando-o em cima do braço esquerdo e segurando um arquinho na direita, passando-o pela madeira como se fosse uma viola e, fazendo os gestos adequados, cantava a Deus em francês. Todos esses tripúdios acabavam freqüentemente em lágrimas, e o júbilo se dissolvia na compaixão pela paixão de Cristo. Por isso esse santo vivia suspirando, e com repetidos gemidos, esquecido do que trazia de inferior em suas mãos, elevava-se ao céu.



[39]

Para guardar a virtude da santa humildade, depois de poucos anos, após a sua conversão, em um capítulo, diante de todos os frades da Religião, resignou ao ofício da prelatura dizendo: “Agora estou morto para vós. Mas eis Frei Pedro Cattani, a quem eu e vós todos obedeceremos”. E inclinando-se profundamente diante dele, prometeu-lhe obediência e reverência. Por isso, os frades choravam, e a dor arrancava altos gemidos, quando viam que iam ficar de certa forma órfãos de tão grande pai. Levantando-se, o bem-aventurado Francisco juntou as mãos, voltou os olhos para o céu e disse: “Senhor, eu te recomendo a família que até agora entregaste a mim. E agora, por causa das enfermidades que conheces, dulcíssimo Senhor, não podendo cuidar dela, recomendo-a aos ministros. Que eles tenham que prestar contas diante de ti no dia do juízo, Senhor, se algum dos frades por sua negligência ou mau exemplo , ou também por áspera correção, vier a perecer”. A partir daí permaneceu súdito até a morte, agindo mais humildemente que qualquer um dos outros.

[40]

Em outra ocasião entregou ao seu vigário todos os seus companheiros, dizendo: “Não quero parecer singular por essa prerrogativa, mas que os frades se juntem a mim em cada lugar, como o Senhor lhes inspirar”. E acrescentou: “Já vi um cego que tinha um cachorrinho para guiá-lo pelo caminho”. Essa era, portanto, a sua glória, de forma que, afastada toda espécie de singularidade e jactância, habitasse nele a virtude de Cristo.

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