sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Legenda Perusina 21-30.

[21]

Certa vez, nosso Senhor Jesus Cristo disse a Frei Leão, companheiro do bem-aventurado Francisco: “Eu me lamento dos frades”. Frei Leão respondeu: “Por que, Senhor?”. O Senhor disse: “Por três coisas: porque não reconhecem meus benefícios que, como sabes, lhes dou abundantemente todos os dias, porque não semeiam nem colhem. E porque ficam o dia inteiro murmurando e sem fazer nada; e muitas vezes provocam uns aos outros para a ira, não se reconciliam e não perdoam a injúria que receberam”.



[22]

Uma noite, o bem-aventurado Francisco foi tão afligido pelas dores das doenças que quase não pôde descansar nem dormir naquela noite. De manhã, como a dor tivesse diminuído um pouquinho, mandou chamar todos os frades que havia no lugar e, quando se sentaram à sua frente, olhou para eles considerando-os representantes de todos os frades. E começando por um frade, abençoou a todos, pondo a mão direita na cabeça de cada um; abençoou a todos os que estavam na Religião e deveriam vir até o fim do mundo; e parece que se compadecia de si mesmo porque não tinha podido ver seus filhos e frades antes de sua morte.

Depois mandou que trouxessem pães para diante dele e os abençôou; e como não podia parti-los por causa da enfermidade, fez que um frade os partisse em muitos pedacinhos. Tomando-os, deu um pedacinho a cada um dos frades, mandando que o comesse inteiro. Pois, como o Senhor quis comer com os apóstolos na quinta feira, antes de sua morte, assim de algum modo pareceu àqueles frades que o bem-aventurado Francisco quis abençoa-los antes de sua morte e, neles, a todos os outros frades, e que comessem aquele pão abençoado como se de alguma forma estivessem comendo com os outros seus frades.

Creio que podemos ver isso claramente, porque, como não era uma quinta-feira, ele disse aos frades que achava que era uma quinta-feita. Um daqueles frades guardou um pedacinho daquele pão. E, depois da morte do bem-aventurado Francisco, alguns, que provaram dele em suas doenças, foram imediatamente libertados.



[23]

Ensinava seus frades a construir habitações pobrezinhas, de madeira e não de pedra, e lebantando essas casinhas num estilo vil. Não queria que os frades morassem em nenhum lugarzinho se não houvesse certeza do dono que retinha a propriedade. Pois sempre buscou em seus filhos a lei dos peregrinos (cfr. Ex 12,49).



[24]

Este homem não só detestava arrogância das casas como tinha horror a utensílios numerosos e muito rebuscados. Não gostava de nada que, nas mesas e nas panelas, recordasse o mundo, para que tudo cantasse a peregrinação, cantasse o exílio.



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Ensinava a buscar nos livros o testemunho do Senhor e não o preço, a edificação e não a beleza. Queria ter poucos, e adequados às necessidades dos frades indigentes.



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Finalmente, nos enxergões e camas sobrava uma abundante pobreza, e quem tinha alguns trapos meio conservados por cima das palhas, achava que tinha um leito de luxo.



[27]

Na verdade o amigo de Deus desprezava enormemente tudo que é do mundo, mas execrava acima de tudo o dinheiro. Por isso foi a coisa que mais desprezou desde o princípio de sua conversão, e sempre insinuou aos que o seguiam que deviam fugir dele como dia diabo. Esta era a advertência que dava aos seus: que deviam gostar de dinehiro e de esterco como se divessem o mesmo preço. Aconteceu, assim, certo dia, que um secular entrou na igreja de Santa Maria da Porciúncula para rezar e, para fazer uma oferta, colocou dinheiro junto da cruz.

Quando ele foi embora, um frade pegou simplesmente com sua mão e o jogou na janela. Chegou ao sanato o que o frade tinha feito; vendo-se descoberto, ele correu para pedir perdão, proostrou-se no chão e se submeteu ao castigo. O santo o questionou e increpou com muita dureza por ter tocado o dinheiro. Mandou que pegasse o dinheiro da janela com a própria boca e o levasse para fora da cerca do lugar para colocá-lo com a boca sobre esterco de asnos. Então o frade cumpriu a ordem com alegria e o termor encheu os corações ouvintes dos outros. Todos passaram a desprezar mais o que assim era comparado ao esterco, e cada dia eram animados por novos exemplos a desprezá-lo.



[28]

Este homem, revestido de virtude, aquecia-se mais interiormente pelo fogo divino do que por fora com uma coberta material.



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Execrava os que se vestiam com roupas triplicadas e quem, fora da necessidade, usava panos macios na Ordem. Mas afirmava que a necessidade que demonstra volupptuosidade e não razão é sinal de um espírito extinto. “Quando o espírito está morno e se esfriando aos poucos na graça, faz-se necessário que a carne e o sangue busquem o que é seu. Pois, dizia, se a alma não encontrar suas delícias, que resta senão que a carne se volte para as suas? Então o apetite animal inventa algo necessário, e o sentido da carne forma a consci6encia”. E acrescentava:



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“Se meu irmão tiver uma verdadeira necessidade, que sofra a falta de alguma coisa: se correr para satisfaze-la e lançá-la para longe de si, que recompensa receberá? Pois houve uma ocasião de mérito, mas ele provou cuidadosamente que não tinha gostado”. Com essas palavras e outras semelhantes, atacava os que queriam escapar das necessidades, pois não suporta-las com paciência não é outra coisa senão voltar ao Egito.

Finalmente, não queria em ocasião nenhuma que os frades tivessem mais do que duas túnicas, mas peermitia que as consertassem com remendos costurados. Mandavam que abominassem os panos rebuscados e mordia com força, diante de todos, os que faziam o contrário. E para confundi-los com seu exemplo, costurou sobre sua túnica um pedaço de saco. Mesmo na morte, pediu para ser coberto com uma túnico de saco vil. Mas permitia aos frades apertados pela doença ou outra necessidade que usassem um pano mole, por baixo, junto da carne, mas de forma que por fora fosse observada a aspereza e vileza do hábito. Pois dizia: “O rigor ainda vai ficar tão relaxado, com o domínio da tibieza, que os filhos do pobre pai também não vão se envergonhar de usar panos escarlates, mudando só a cor”.

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