sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Fioretti de São Francisco: capítulos 46, 47, 48, 49.


Capítulo 46
Como Frei Pacífico, estando em oração, viu a alma de Frei Humilde, seu irmão, subir ao céu

Na dita província da Marca, depois da morte de S. Francisco, entraram dois irmãos na Ordem; um teve por nome Frei Humilde e o outro Frei Pacífico, os quais foram homens de grandíssima santidade e perfeição.

E um, isto é, Frei Humilde, estava no convento de Soffiano e ali morreu; o outro estava de família em um convento assaz afastado dele. Como prouve a Deus, Frei Pacífico, estando um dia em oração num lugar solitário, foi arrebatado em êxtase e viu a alma do seu irmão Frei Humilde subir diretamente ao céu, sem demora nem impedimento, na mesma hora em que deixava o corpo - Sucedeu que, depois de muitos anos, este Frei Pacífico foi posto em família no dito convento de Soffiano, onde seu irmão tinha morrido.

Nesse tempo os frades, a pedido dos senhores de Brunforte, mudaram o convento para um outro lugar; pelo que, entre outras coisas trasladaram as relíquias dos santos frades que haviam morrido naquele convento. E chegando à sepultura de Frei Humilde, o seu irmão Frei Pacífico retirou-lhe os ossos e lavou-os com bom vinho e depois os envolveu numa toalha branca, e com grande reverência e devoção os beijava e chorava: por isso os outros frades se maravilharam e não recebiam bom exemplo: porque, sendo ele homem de grande santidade, parecia que, por amor sensual e secular, chorava seu irmão, e que maior devoção mostrava por estas relíquias, do que pelas dos outros frades que tinham sido de não menos santidade do que Frei Humilde, e eram dignas de reverência como as dele.

E conhecendo Frei Pacífico a sinistra imaginação dos frades, os satisfez humildemente e lhes disse: "Irmãos meus caríssimos, não vos admireis de que tivesse feito com os 0S.S.0S. do meu irmão o que não fiz com os dos outros; porque, bendito seja Deus, não se trata, como credes, de amor carnal, mas isso fiz porque, quando meu irmão passou desta vida, orando eu em um lugar deserto e afastado, vi sua alma pelo caminho certo subir ao céu; e portanto estou certo de que seus 0S.S.0S. são santos e ele deve estar no paraíso. E se Deus me tivesse concedido tanta certeza dos outros frades, a mesma reverência renderia aos 0S.S.0S. deles".

Pela qual coisa os frades, vendo-lhe a santa e devota intenção, ficaram bem edificados com ele e louvaram a Deus, o qual faz assim coisas maravilhosas aos santos frades seus.

Em louvor de Cristo. Amém.

Capítulo 47
Daquele santo frade ao qual a mãe de Cristo apareceu,
quando estava enfermo, e lhe trouxe três caixas de eletuário

No sobredito convento de Soffiano viveu antigamente um frade menor de tão grande santidade e graça, que parecia todo divino e freqüentes vezes ficava arrebatado em Deus.

Estando certa vez este frade todo absorto em Deus e enlevado; porque tinha notavelmente a graça da contemplação, vinham ter com ele passarinhos de diversas espécies e domesticamente pousavam-lhe nas espáduas e na cabeça, nos braços e nas mãos e cantavam maravilhosamente. Era ele solitário e raras vezes falava; mas quando lhe perguntavam alguma coisa, respondia tão graciosamente e tão sabiamente, que mais parecia anjo do que homem e era de grandíssima oração e contemplação, e os frades o tinham em grande reverência.

Acabando este frade o curso de sua vida virtuosa, segundo a disposição divina enfermou de morte, de modo que nenhuma coisa podia tomar, e com isto não queria receber nenhuma medicina carnal, mas toda a sua confiança era no médico celestial Jesus Cristo bendito e na sua bendita Mãe; da qual ele mereceu pela divina demência de ser misericordiosamente visitado e consolado. Pelo que, estando uma vez no leito e dispondo-se à morte com todo o coração e com toda a devoção, apareceu-lhe a gloriosa Virgem Maria, mãe de Cristo, com grandíssima multidão de anjos e de santas virgens com maravilhoso esplendor e se aproximou do seu leito: e ele, olhando-a, recebeu grandíssimo conforto e alegria quanto à alma e quanto ao corpo; e começou a pedir-lhe humildemente que ela pedisse ao seu dileto filho para que, pelos seus méritos, o tirasse da prisão da mísera carne.

E perseverando neste pedido com muitas lágrimas, a Virgem Maria respondeu-lhe, chamando-lhe pelo nome, e disse-lhe: "Não duvides, filho, porque tua oração foi atendida, e eu vim para confortar-te um pouco, antes de te partires desta vida". Estavam ao lado da Virgem Maria três santas virgens, as quais traziam nas mãos três caixas de eletuário de desmesurado odor e suavidade.

Então a Virgem gloriosa tomou e abriu uma daquelas caixas e toda a casa ficou cheia de odor: e tomando com uma colher daquele eletuário o deu ao enfermo: o qual, tão depressa o saboreou, sentiu tanto conforto e tanta doçura que sua alma parecia não poder mais ficar no corpo; pelo que começou a dizer: "Não mais, 6 Santíssima Mãe, Virgem bendita, (S. médica bendita e salvadora da humana geração, não mais; porque eu não posso suportar tanta suavidade". Mas a piedosa e benigna Mãe, apresentando outra vez daquele eletuário ao enfermo e fazendo-o tomar, esvaziou toda a caixa.

Depois, vazia a primeira caixa, a Virgem bendita toma a segunda e nela pôs a colher para dar-lhe, pelo que ele docemente se queixava, dizendo: "Ó Beatíssima Mãe de Deus, se minha alma quase toda está liqüefeita pelo ardor e a suavidade do primeiro eletuário, como poderei eu suportar o segundo? Peço-te, bendita sobre todos os santos e sobre todo S.0S. anjos, que não me queiras dar mais". Respondeu Nossa Senhora: "Saboreia, filho, ainda um pouco dessa segunda caixa".

E dandolhe um pouco, disse-lhe: "Hoje, filho, tomaste tanto, que já chega. Conforta-te, filho, que depressa virei por ti e levar-te-ei ao reino de meu filho, ao qual tu sempre buscaste e desejaste". E dito isto, separando-se dele, partiu, e ele ficou tão consolado e confortado pela doçura daquele confeito , que por muitos dias sobreviveu saciado e forte, sem nenhum alimento corporal.

E depois de alguns dias, alegremente falando com os frades, com grande letícia e júbilo, passou dessa vida mísera à vida bem-aventurada. Amém.

Capítulo 48
Como Frei Tiago de Massa viu todos os frades menores do mundo na visão de uma árvore,
e conheceu as virtudes e os méritos e os vícios de cada um

Frei Tiago de Massa, ao qual Deus abriu a porta dos seus segredos e deu perfeita ciência e inteligência da divina Escritura e das coisas futuras, foi de tanta santidade, que Frei Egídio de Assis e Frei Marcos de Montino e Frei Junípero e Frei Lúcido diziam dele que não conheciam ninguém no mundo maior para com Deus.

Tive grande desejo de vê-lo, porque, pedindo eu a Frei João, companheiro do dito Frei Egídio, que me expusesse certas coisas do espírito, ele me disse: "Se quiseres ser informado na vida espiritual, procura falar com Frei Tiago de Massa: pois Frei Egídio mesmo desejava ser iluminado por ele e às suas palavras nada se pode ajuntar nem tirar; porque sua mente penetrou nos segredos celestes e suas palavras são palavras do Espírito Santo, e não há homem sobre a terra a quem eu tanto deseje ver". Este Frei Tiago, no principio do ministério de Frei João de Parma, rezando uma vez, foi arrebatado em Deus e esteve três dias arroubado neste êxtase, alheio a todo sentimento corporal, e esteve tão insensível, que os frades não duvidaram de que estivesse morto.

E nesse arroubamento foi-lhe revelado por Deus o que devia haver e acontecer em torno da nossa religião: pela qual coisa, quando a ouvi, me cresceu o desejo de vê-lo e de falar com ele. E quando foi Deus servido que eu tivesse ocasião de falar-lhe, supliquei assim: "Se é verdade o que ouvi de ti, peço-te que não mo ocultes. Ouvi que quando estiveste três dias como morto, entre outras coisas que Deus te revelou, houve o que deve acontecer nesta nossa religião. E isto disse o dito Frei Mateus, ministro da Marca, ao qual tu por obediência o revelaste".

Então Frei Tiago com grande humildade confessou que o que Frei Mateus dizia era verdade. E o seu dizer, isto é, do dito Frei Mateus, ministro da Marca, era o seguinte: "Eu sei de um frade ao qual Deus revelou tudo que há de suceder em nossa religião; porque Frei Tiago de Massa mo manifestou e disse que, depois de muitas coisas que Deus lhe revelara do estado da Igreja militante, viu em visão uma árvore bela e muito grande, cujas raízes eram de ouro, seus frutos eram homens e todos frades menores.

Seus ramos principais eram distintos segundo o número das províncias da Ordem, e cada ramo tinha tantos frades quantos os da província marcada no ramo: e então ele soube do número de todos os frades da Ordem e de cada província, e ainda o nome, a idade e as condições e os ofícios e os graus e a dignidade e as graças e as culpas de todos.

E viu Frei João de Parma no mais alto ponto do ramo do meio desta árvore; e no extremo dos ramos que estavam em torno deste ramo do meio estavam os ministros de todas as províncias. E depois disto viu Cristo assentar-se num trono grandíssimo e cândido, o qual Cristo chamava S. Francisco e dava-lhe um cálice cheio de espírito de vida, e ordenava-lhe, dizendo: 'Vai e visita teus frades e dá-lhes de beber deste cálice do espírito de vida, porque o espírito de Satanás se levantará contra eles e os combaterá e muitos deles cairão e não se levantarão'.

E deu Cristo a S. Francisco dois anjos para acompanhá-lo. E então veio S. Francisco apresentar o cálice da vida aos seus frades, e começou a apresentá-lo a Frei João de Parma, o qual tomando-o bebeu-o todo depressa e devotamente, e subitamente tornou-se todo luminoso como o sol. E depois dele sucessivamente S. Francisco apresentou-o a todos os outros: e poucos eram os que o bebiam todo.

Aqueles que o tomavam devotamente e o bebiam todo, subitamente tornavam-se esplendentes como o sol; e aqueles que o derramavam todo, e o não tomavam com devoção, tornavam-se negros e escuros e deformados e horríveis de ver-se; e aqueles que em parte bebiam e em parte o entornavam, tornavam-se parcialmente luminosos e parcialmente tenebrosos, e mais ou menos conforme a quantidade que bebiam ou derramavam. Mais acima de todos os outros o dito Frei João resplandecia, o qual mais completamente havia bebido o cálice da vida, pelo qual ele tinha contemplado profundamente o abismo da infinita luz divina, e nela tinha conhecido a adversidade e a tempestade que se deviam levantar contra a dita árvore e agitar e comover os seus ramos.

Pela qual coisa o dito Frei João partiu de cima do ramo no qual estava; e descendo abaixo de todos os ramos se ocultou na base do tronco da árvore e ficou pensativo. E Frei Boaventura, o qual havia bebido parte do cálice e parte derramado, subiu para aquele ramo e para o lugar de onde tinha descido Frei João. E estando no dito lugar tornaram-se-lhe as unhas das mãos unhas de ferro agudas e cortantes como navalhas: pelo que deixou o lugar para onde havia subido, e com ímpeto de furor queria lançar-se contra o dito Frei João para o ferir. Mas Frei João, vendo isto, gritou com força e recomendou-se a Cristo, o qual se assentava no trono; e Cristo ao grito dele chamou S. Francisco e deu-lhe uma pederneira afiada e disse-lhe: 'Vai com esta pedra e corta as unhas de Frei Boaventura, com as quais ele quer arranhar Frei João, para que não o possa ofender'.

Então S. Francisco foi e fez como Cristo tinha mandado. E feito isto, veio uma tempestade de vento e sacudiu a árvore tão fortemente que os frades caíram no chão, e primeiramente caíram os que tinham derramado o cálice da vida, e eram carregados pelos demônios para lugares tenebrosos e penosos.

Mas Frei João juntamente com os outros que tinham bebido todo o cálice, foi transladado pelos anjos para um lugar de vida e de lume eterno e de esplendor beatifico. E o dito Frei Tiago, que via a visão, entendia e discernia particularmente e distintamente o que via, quanto aos nomes, condições e estados de cada um claramente. E tanto durou aquela tempestade contra o arvore, que ela caiu e o vento a levou.

E Imediatamente depois que cessou a tempestade, das raízes desta árvore, que eram de ouro, nasceu outra árvore que era toda de ouro, a qual produziu folhas e flores e frutos dourados. Da qual árvore e do seu desenvolvimento, profundidade, beleza e ardor e virtude, melhor é calar do que dizer no presente".

Em louvor de Cristo. Amém.

Capítulo 49
Como Cristo apareceu a Frei João do Alverne

Entre os outros sábios e santos frades e filhos de S. Francisco, os quais, segundo o dito de Salomão, são a glória do pai, existiu no nosso tempo na dita província dá Marca o venerável santo Frei João de Fermo, o qual pelo longo tempo em que viveu no santo convento do Alverne e dali passou desta vida, era por isso chamado Frei João do Alverne; porque foi homem de singular vida e de grande santidade. Este Frei João, sendo menino de escola, desejara com todo o coração a via da penitência a qual mantém a mundícia do corpo e da alma; pelo que, sendo menino bem pequeno, começou a trazer o cilício de malha e o circulo de ferro na carne nua e a fazer grande abstinência, e especialmente quando viveu com os cônegos de S. Pedro de Fermo, os quais passavam esplendidamente.

Ele fugia das delicias corporais e macerava o corpo com grande rigidez de abstinência. Mas, havendo entre os companheiros muitos que eram contra isto, os quais lhe tiravam o cilicio, e a sua abstinência por diversos modos impediam, ele, inspirado por Deus, pensou de deixar o mundo com os seus amadores, e de oferecer-se todo nos braços do Crucificado com o hábito do crucificado S. Francisco, e assim o fez. Sendo, pois, recebido na Ordem tão criança e entregue aos cuidados do mestre de noviços, tornou-se tão espiritual e devoto, que às vezes ouvindo o dito mestre falar de Deus, o coração dele se derretia como a cera perto do fogo; e com tão grande suavidade de graça se aquecia no amor divino que ele, não podendo estar firme e suportar tanta suavidade, se levantava e como ébrio de espírito punha-se a correr ora pelo horto, ora pela floresta, ora pela igreja, conforme a flama e o ímpeto do espírito o impeliam.

Com o correr do tempo a divina graça continuamente fez este homem angélico crescer de virtude em virtude e em dons celestiais e divinas elevações e arroubamentos; tanto que de algumas vezes sua mente era erguida a esplendores de querubins, de outras vezes a ardores de serafins, de outras vezes a gáudio dos bem-aventurados, de outras vezes a amorosos e excessivos abraços de Cristo, não somente por gostos espirituais internos, mas também por expressivos sinais exteriores e gostos corporais. E singularmente uma vez por modo excessivo inflamou o seu coração a chama do amor divino, e nele durou esta chama bem três anos; no qual tempo ele recebia maravilhosas consolações e visitas divinas e freqüentes vezes era arrebatado em Deus; e, brevemente, no dito tempo ele parecia todo inflamado e inclinado no amor de Cristo: e isto aconteceu no monte santo do Alverne.

Mas porque Deus tem singular cuidado com seus filhos, dando-lhes, conforme a diferença dos tempos, ora consolação, ora tribulação, ora prosperidade, ora adversidade, como vê que as precisam para se manterem na humildade, ou para lhes acender o desejo das coisas celestiais; aprouve à divina bondade depois de três anos retirar do dito Frei João este raio e esta flama do divino amor, e privou-o de toda consolação espiritual: pelo que Frei João ficou sem lume e sem amor de Deus, e todo desconsolado e aflito e dolorido. Pela qual coisa ele tão agoniado andava pela floresta vagando por aqui e por ali, chamando com vozes e lágrimas e suspiros o dileto esposo de sua alma, o qual se havia escondido e dele se partira, sem cuja presença sua alma não achava trégua nem repouso. Mas em nenhum lugar, nem de maneira nenhuma ele podia encontrar o doce Jesus, nem readquirir aqueles suavíssimos gostos espirituais do amor de Cristo a que estava acostumado.

E durou-lhe esta tribulação por muitos dias, durante os quais perseverou em contínuo chorar e suspirar, pedindo a Deus que lhe restituísse por sua piedade o dileto esposo de sua alma. Por fim, quando aprouve a Deus ter provado bastante a paciência dele e inflamado o seu desejo, um dia em que o dito Frei João andava pela dita floresta assim aflito e atribulado pelo cansaço, se assentou, encostando-se a uma faia, e estava com a face toda banhada de lágrimas a olhar para o céu; e eis que subitamente apareceu Jesus Cristo perto dele no atalho pelo qual Frei João tinha vindo, mas nada disse.

Vendo-o Frei João e reconhecendo bem que ele era Cristo, subitamente se lhe lançou aos pés e com desmesurado pranto rogava-lhe humilíssimamente e dizia: "Socorre-me, Senhor meu, que sem ti, Salvador meu dulcíssimo, fico em trevas e em lágrimas; sem ti, cordeiro mansíssimo, estou em agonia e em pena e com pavor; sem ti, filho de Deus altíssimo, estou confuso e envergonhado; sem ti estou despojado de todos os bens e cego, porque tu és Jesus Cristo, verdadeira luz da alma; sem ti estou perdido e danado, porque és a vida da alma e vida da vida; sem ti sou estéril e árido, porque és a fonte de todos os dons e de todas as graças; sem ti estou de todo desconsolado, porque és Jesus nossa redenção, amor e desejo, pão reconfortante e vinho que alegra os coros dos anjos e os corações de todos os santos.

Alumia-me, mestre graciosíssimo e pastor piedosíssimo, porque sou tua ovelhinha, bem que indigna seja". Mas porque o desejo dos santos homens, ao qual Deus tarda de atender, os abrasa em mais alto amor e mérito, Cristo bendito se parte sem ouvi-lo e sem falar-lhe nada e desapareceu pelo dito atalho. Então Frei João se levantou e corre atrás dele e novamente se lhe lança aos pés, e com santa importunidade o retém e com devotíssimas lágrimas roga, e diz: "Ó Jesus Cristo dulcíssimo, tem misericórdia de mim o atribulado, atende-me pela multidão de tua misericórdia e pela verdade da tua salvação, restitui-me a letícia da face tua e do teu piedoso olhar, porque de tua misericórdia é plena toda a terra".

E Cristo ainda se parte e faz como a mãe ao filho quando o deixa gritar pelo peito e faz que venha atrás dela chorando a fim de que ele mame com mais vontade. Pelo que Frei João com mais fervor ainda e desejo seguiu a Cristo; e chegando que foi a ele, Cristo bendito voltou-se e olhou-o com o semblante alegre e gracioso; e abrindo os seus santíssimos e misericordiosos braços, abraçou-o dulcissimamente: e naquele abrir de braços viu Frei João sair do sacratíssimo peito do Salvador raios de luz esplendentes, os quais Iluminavam toda a floresta como também a ele na alma e no corpo. Então Frei João se ajoelhou aos pés de Cristo; e Jesus bendito, como fez à Madalena, lhe deu o pé benignamente a beijar; e Frei João, tomando-o com suma reverência, banhou-o de tantas lágrimas que verdadeiramente parecia uma outra Madalena, e dizia devotamente: "Peço-te, Senhor meu, que não olhes os meus pecados; mas pela tua santíssima paixão e pela efusão do teu santíssimo sangue precioso, ressuscita minha alma à graça do teu amor; como é teu mandamento, que te amemos com todo o coração e com todo o afeto; o qual mandamento ninguém pode cumprir sem a tua ajuda.

Ajuda-me, pois, amantíssimo filho de Deus, para que te ame com todo o meu coração e todas as minhas forças". E estando assim Frei João neste falar aos pés de Cristo, foi por ele atendido e recuperou a primeira graça, isto é, a da flama do amor divino, e todo sentiu-se consolado e renovado: e conhecendo que o dom da divina graça tinha voltado, começou a agradecer ao Cristo bendito e a beijar-lhe devotamente os pés.

E depois erguendo-se para o ver de face, Jesus Cristo lhe estendeu e deu-lhe as santíssimas mãos a beijar; e beijadas que foram, Frei João se aproximou o encostou-se ao peito de Jesus e abraçou-o e beijou-o, e Cristo semelhantemente beijou-o e abraçou-o. E neste abraçar e neste beijar Frei João sentiu tanto olor divino que, se todas as especiarias e todas as coisas odoríferas do mundo estivessem reunidas, teriam parecido um aroma vil em comparação daquele olor.

E com isso Frei João foi arrebatado e consolado e iluminado, e duroulhe aquele odor na alma muitos meses. E dora em diante de sua boca, abeberada na fonte da divina sapiência no sagrado peito do Salvador, saíam palavras maravilhosas e celestiais as quais mudavam os corações de quem o ouvia e faziam grandes frutos nas almas. E no atalho da floresta, no qual estiveram os benditos pés de Cristo, e por grande distância em torno, Frei João sentia aquele olor e via aquele esplendor sempre quando ia ali muito tempo depois, Voltando a si Frei João após aquele rapto, e desaparecida a presença corporal de Cristo, ficou tão ilurninado na alma pelo abismo de sua divindade, que, ainda não sendo homem letrado por humano estudo, no entanto maravilhosamente resolvia e explicava as sutilíssimas questões da Trindade divina, e os profundos mistérios dá santa Escritura.

E muitas vezes depois, falando diante do papa e dos cardeais, de reis e barões e mestres e doutores, os punha a todos em grande estupor pelas altas palavras e profundas sentenças que dizia.

Em louvor de Cristo. Amém.

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