sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Ascetismo e quietude.

"SOBRE O ASCETISMO E A QUIETUDE NA VIDA EREMÍTICA"
(EVAGRIUS PONTICUS)



Evágrio Pôntico (345-399) é um dos primeiros escritores espirituais sobre o ascetismo na tradição eremita cristã. Como teólogo ele seguiu de perto o Gnosticismo de Orígenes (185-254) sobre a pre-existência das almas e da reunificação final de todas as coisas em Deus, visões estas condenadas pelas autoridades da Igreja primitiva, ainda que um século e meio depois da morte de Evágrio. Ele observou de perto os Padres do Deserto e viveu seus últimos anos como um deles. Sua influência foi significativa em João Cassiano, pois foi através desse último que o Ocidente conheceu a espiritualidade do deserto.

O "Esboço dos Ensinamentos sobre Ascetismo e Quietude na Vida Solitária (Eremítica)" é um catálogo de práticas ascéticas para o eremita, que nesse contexto é o monge, mas a aplicação é, sem dúvida, universal para todos os solitários. O objetivo prático é o que a tradição Cristã do Oriente chama "quietude" ao estado de serenidade e o "vazio", que é o fruto da solidão. "Pois a prática da quietude é cheia de alegria e beleza." Por conseguinte a quietude é igualmente o fruto e a prática, o fim e os meios. E os meios são as práticas ascéticas que ele recomenda neste ensaio.


“Então você deseja abraçar esta vida de solidão
e buscar as bênçãos da quietude?
Então, abandone os cuidados do mundo,
os principados e poderes que lhes dizem
respeito; livre-se dos apegos às coisas ma-
teriais, da dominação das paixões e desejos
de modo que como um estranho a tudo isso
você possa atingir a verdadeira serenidade.
Pois somente se elevando sobre estas
coisas pode o homem atingir a vida
de quietude.”



Aqui estão as recomendações de Evágrio com um resumo das suas explicações:

1. “Mantenha uma dieta simples e frugal”
Evite comidas exóticas, de difícil preparo e que provoquem a gula. Ser hospitaleiro não é desculpa para se preparar tais comidas. “Se você tiver apenas pão, sal e água, você ainda pode cumprir as regras da boa hospitalidade. Mesmo que você não tenha nem isto, mas se fizer o hóspede se sentir bem-vindo e dizer-lhe coisas que o ajudem, você não estará faltando com a hospitalidade.

2. “Com respeito às roupas, fique contente com o que for suficiente para as necessidades do corpo.”
Quando necessitar, aceite a oferta de outros, já que a vergonha pode ser um tipo de orgulho. Se alguém tem em excesso, deve doar àqueles que necessitem.

3. “Não mantenha um(a) empregado(a).”
Empregar uma pessoa significa sustentá-la e se expor a uma personalidade rancorosa e hostil. A paz espiritual é muito mais importante do que ter um corpo descansado. “Mesmo que você possa pensar que ter um empregado pode ser benéfico para ele, não aceite isto.” Pode funcionar bem em uma comunidade mas não para um solitário.

4. “Não desenvolva o hábito de se associar com pessoas que só pensam em coisas materiais e mundanas.”
Viva só ou se associe apenas com aqueles que se lhe assemelham. Pessoas do mundo, (isto é, qualquer pessoa com valores mundanos ou apenas aprisionadas nos negócios do mundo), irão submeter outras à pressões sociais, conversações vãs, desejos materiais, raiva, depressão, escândalos. Isso se aplica a pais e parentes que estarão com eles nos negócios do mundo.

5. “Se você perceber que está ficando fortemente apegado à sua cela, deixe-a, não se agarre a ela, seja impiedoso.”
Tudo deve ajudar a promover a “quietude e liberdade” e a eliminar a distração na sua vida. Se isto não mais for possível na vizinhança onde se vive, a afeição por sua moradia (e o investimento físico ou emocional gasto nisso) não deve impedir alguém de se mudar, mesmo para o exílio se for necessário. Por exílio Evágrio quer dizer arrancar os laços familiares e indo para outro lugar, um tipo de exílio onde não se conhece nada nem ninguém; pode ser literalmente outro país, como os antigos eremitas que iam cada vez mais para dentro do deserto ou para as montanhas, quando percebiam que o lugar onde estavam já ficava muito povoado.

6. “Não deixe que o desejo inconstante vença sua resolução.”
Esta seção reitera a necessidade de se evitar as pressões dos amigos que insistem para que você afrouxe sua disciplina. Essas tentações não são sequer conselhos amigáveis, mas provocações, que levam a dúvidas, enfraquecimento da vontade, a opções alternativas de entretenimento e eventualmente a concordar em desistir da vida solitária. Como medida prática, “Se alguém que vive de acordo com (seus valores) vem até você e lhe convida para almoçar, vá se desejar, mas retorne prontamente à sua cela. Se possível, nunca durma fora de sua cela.”

7. “Não anseie por comidas finas e prazeres ilusórios.”
Aqui retoma ele a primeira seção sobre a simplicidade do alimento e na necessidade de se perceber o contexto social da refeição. Comer com outros envolve o perigo do oferecimento de comidas requintadas que provocam o desejo - que é um prazer enganador, aqui já referido. Tais convites devem ser recusados. Deve-se perceber como essa socialização enfraquece a quietude. “Não tenha relacionamentos com muitas pessoas, a menos que seu intelecto fique atormentado e assim perturbe a quietude.” Tais confraternizações geralmente começam ou terminam com refeições. Esta é uma percepção psicológica arguta de Evágrio, dentro da antropologia do comer e da dificuldade que muitos têm em resistir à comida, e por conseguinte, à companhia dos outros.

8. “Tenha sempre as mãos ocupadas, tanto quanto possa, durante o dia e à noite, de modo que você não seja um peso para ninguém....”
Essa seção evoca aquilo que hoje em dia poderia ser chamado trabalho e renda. Os eremitas do deserto geralmente se auto ocupavam em tecer cestos de junco porque nenhum outro trabalho se encaixaria nos critérios que Evágrio estabelece. Os eremitas poderiam encarregar outro discípulo ou representante para vender os cestos para algum mercador e comprar provisões com o lucro da venda. Entrar em um mercado para um eremita seria expor-se a todas as distrações aqui descritas em relação à quietude. Para aqueles eremitas que tinham eles mesmos que fazer isso, Evágrio os advertia para não pechincharem. “Quando se compra ou se vende, raramente se pode evitar o pecado. Em ambos os casos, assegurem-se de perder um pouco na transação.”

Outras práticas ascéticas que promovem a quietude são mencionadas por Evágrio com elaboração: técnicas meditativas incluindo visualização, jejum e oração. Nenhum dos conselhos parece novo ou original, porém, no contexto da época e de sua aplicação à vida solitária eles são significativos.

Evágrio conheceu os dois famosos Macários: o santo de Alexandria e o abade de Scete. Ele retirou de ambos o espírito da espiritualidade do deserto. Evágrio viveu como eremita no deserto do Egito os seus últimos quatorze anos.

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Referências Bibliográficas:

1. The Life of St. Paul, the First Hermit, por St. Jerome (Vita S. Pauli in Vitae Patrum I and Migne, P. L. 23, 18) em “The Desert Fathers”, traduzidos do Latim com Introdução por Helen Waddel, p. 26-39. London: Constable, 193; Ann Arbor: University of Michigan Press, 1957.

Traduzido por Jandira Soares Pimentel

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