sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Ao papa Eugenio, Da Consideração (1149-1152) [1] São Bernardo de Claraval

Ao papa Eugenio, Da Consideração (1149-1152) [1]
São Bernardo de Claraval (1090-1153)
Trad.: Prof. Dr. Ricardo da Costa (Ufes)





Prefácio

Irrompe em meu interior, beatíssimo papa Eugênio [2], um desejo incontido de ditar algo que te edifique, te deleite, te console. Mas vacilo entre fazê-lo ou não, pois duvido que possa sair de mim uma exortação livre e ao mesmo tempo moderada, já que me encontro como que envolto em uma luta entre duas forças contrárias: impulsionado pelo meu amor e contido pela tua majestade. Esta me inibe, aquela me urge.

Mas intervêm tua dignidade e tu não me ordenas simplesmente, mas te rebaixas para pedir-me quando deverias ordenar-me. Como meus pudores poderão ainda resistir, se tua própria majestade é tão deferente comigo? Não me coage o fato de ter ascendido à cátedra pontifícia, pois ainda que avance com grandes asas ao vento, não te faltará meu afeto. Pois o amor desconhece o domínio [3] e reconhece o filho, mesmo sob a tiara; o amor é submisso por natureza, obedece espontaneamente, concorda desinteressadamente, respeita generosamente.

Mas nem todos são assim, nem todos. Muitos se deixam levar pela cobiça ou pelo temor. Esses são os móveis que aparentemente te louvam, mas em seus corações lateja a maldade. Adulam-te com tuas blandícias, mas te abandonam na necessidade. E a caridade, essa nunca desaparecerá.

Eu, para te dizer a verdade, estou liberado dos meus ofícios maternais contigo, mas eles não me privaram o afeto, pois há muito te carrego em minhas vísceras, já que não é tão fácil me arrancarem um afeto tão íntimo. Tu podes ascender aos céus ou descer aos abismos, que nunca se separarás de mim: seguir-te-ei onde quer que vás. Amei o que era pobre em seu espírito; amarei o que é pai dos pobres e dos ricos. Conheci-te bem, e sei que não deixou de ser pobre no espírito, embora te tenham feito pai dos pobres. Confio que em ti se tenha realizado essa mudança, não [394] à tua custa. Tua promoção não conseguiu mudar tua condição anterior, mas somente sobrepor-se a ela. Assim, te admoestarei não como um mestre, mas como uma mãe, como quem ama. Talvez pareça loucura, mas será somente para aquele que não ama, nem sente a força do amor.

Livro I – Minhas condolências por tuas imensas ocupações

I.1. Por onde principio? Decido-me fazê-lo por tuas ocupações, pois são elas que maximamente me movem a condoer-me contigo. Digo condoer-me no caso de a ti também te doerem. Se não é assim, te diria que me doem, pois não posso falar de condolência quando o outro não sente a mesma dor. Portanto, se te doem, me condôo, se não, sinto maior pena ainda, porque um membro insensibilizado dificilmente poderá se recuperar, já que não há enfermidade mais perigosa que aquela que não se sente enfermo. Mas não sei se me ocorre suspeitar isso de ti.

Bem sei com que gosto até bem pouco tempo tu saboreavas as delícias de tua doce quietude. Não podes prescindir tão rapidamente delas; é impossível que não lamentes tua tão recente perda. Uma ferida recente dói muitíssimo, e não é possível que tenha criado um calo tão rápido, nem te creio capaz de ter ficado insensível em tão pouco tempo. Pelo contrário, se não dissimulas, te sobram razões para sofrer justificadamente as fadigas que o cotidiano te reserva. Não me engano se te digo que te arrancaram violentamente dos braços de tua querida Raquel [4], e que necessariamente tens que renovar essa dor quantas vezes tiver que suportá-la.

E quando te acontece isso? Sempre que tentas algo inutilmente sem poder terminar. Quantos esforços sem sucesso! Quantas dores de parto sem parir! Quantos afãs frustrados! Quantas coisas tu tens de abandonar, mal iniciadas! Quantos planos caem por terra depois de concebidos! “Chegaram os filhos até o colo do útero”, disse o profeta [5], [395] “e não há força suficiente para fazê-los nascer”. Já não o experimentastes? Ninguém sabe melhor que tu. Tuas faculdades mentais deveriam ter-se debilitado, ou deverias ser como a novilha de Efraim, que trilhava com gosto [6], se é que te acomodastes à tua situação sem qualquer preocupação. Desejo-te sinceramente a paz, mas não uma paz que nasça de teu conformismo. Seria muito alarmante para mim que tu gozasses dessa paz. Estranhar-te-ias chegar a esse extremo? Asseguro-te que é possível; ordinariamente a força do costume leva à despreocupação.

Os perigos das ocupações excessivas

II.2. Não confie demasiadamente no desgosto que agora sentes. Não há nada tão arraigado no ânimo que não perca sua força com a negligência e o tempo. A calosidade termina encobrindo uma velha ferida já esquecida. Por isso, o insanável é o insensível, a dor mais aguda e contínua cede de intensidade e, mesmo que os remédios não a amorteçam, ela cede por si, desaparece com as medicinas, ou adormece por sua própria agudeza. Há algo que a assiduidade não mude? A rotina nos relaxa, pois nada resiste à contínua repetição. Quantos, devido à inércia do hábito, conseguiram encontrar doçura no que antes parecia amargo?

Assim confessava o justo, que lamentava: “O que minha alma se negava a tocar, veio a ser o alimento em minha enfermidade”. [7] No princípio, algumas coisas podem parecer insuportáveis, mas com o passar do tempo, se te acostumas a elas, não as julgarás tão pesadas; pouco depois, já te serão suportáveis; em seguida, não as notarás e, no fim, terminarão deleitáveis. Assim, paulatinamente, se chega à dureza do coração e, dela, à aversão. Dessa maneira, como te dizia, a dor mais grave e contínua extinguir-se-á, recobrando-se a saúde ou tornando-se insensível.

II.3. [396] Em outras palavras, isso é o que sempre temi de ti e o temo agora: que por ter diferido o remédio ao não poder suportar mais a dor, chegues a te abandonar irrevogável e desesperadamente ao perigo. Tenho medo, te confesso, que, em meio às tuas ocupações, que são tantas, por não poder esperar que nunca cheguem ao fim, tu acabes por endurecer a ti mesmo e, lentamente, percas a sensibilidade por uma dor tão justificada e saudável.

É muito prudente que pelo menos um tempo tu te subtraias das ocupações. Faça qualquer coisa, menos permitir que te arrastem e te levem para onde não queiras. Queres saber para onde? Para a dureza do coração – e não me perguntes o que é essa dureza de coração: se já não estremecestes, é porque já chegastes nela. Coração duro é aquele que não se espanta mais consigo mesmo, porque nem o adverte. Quem me interroga? Interroga o faraó. [8] Nunca um coração duro se salvou, a não ser que Deus, em Sua misericórdia, como disse o profeta, o converta em um coração de carne.

E quando é duro um coração? Quando não se rompe pela compunção, nem se abranda com a compaixão, nem se comove na oração; não cede ante as ameaças, nem se encrespa com os flagelos; é ingrato com os bens que recebe, desconfiado com os conselhos, cruel nos julgamentos, cínico diante do indecoroso, impávido ante os perigos, desumano com os homens, e temerário com o divino; dá as costas a tudo, o presente não lhe importa, não teme o futuro. É de coração duro o homem que, do passado, só recorda as injúrias que lhe fizeram; não se aproveita do presente e, do futuro, só imagina a maquinação da vingança. Em outras palavras: é de coração duro aquele que nem teme a Deus, nem respeita o homem.

Essas malditas ocupações podem te levar até esse extremo se, tal como iniciastes, continuarem absorvendo-te totalmente sem reservar-te nada para ti mesmo. Perdes o tempo e, se me permites ser para ti outro Jetro [9], te diria que te consomes em um trabalho estulto [397], com ocupações que são aflição para o espírito, enervamento da mente e perda da graça. O fruto de tantos afãs não se reduzirá a teias de aranha?

A infinitude e a indignidade de tuas ocupações

III.4. O que é estar desde a manhã até a véspera [10] presidindo litígios e escutando litigantes? Que cada dia lhe baste sua malícia! [11] Mas não te restam nem as noites livres. Apenas descansastes um pouco para que teu pobre corpo logo se recupere, e já tens que te levantar de novo para acudir a juízos. Um dia passa a outro seus pleitos e a noite traz à noite sua maldade. [12] Assim te falta tempo para respirar a bondade ou mesclar o trabalho com o descanso, e menos ainda um intervalo de ócio, mesmo que seja curto. Sei que tu também o deploras, mas inutilmente, se não fazes todo o possível para remediá-lo. Quisera que pelo menos o lamentasses, para que tão absorvente ocupação não te endureça. “Os feri e não sentiram dor”, diz Deus. [13] Que tu não sejas como eles! Identifique bem o que diz o justo e suas afeições: “Que forças me restam para resistir? Que destino eu espero para ter paciência? Sou tão resistente como a pedra? Por acaso minha carne é de bronze?” [14]

A paciência é uma magna virtude. Mas, neste caso, eu não gostaria que tu a tivesses. Há ocasiões em que é preferível saber impacientar-se. Não creio que aproves a paciência que Paulo se referia: “Com gosto suportai os insensatos, vós que sois sensatos”. [15] Se não me equivoco, há aqui uma claríssima ironia, não louvor, mas uma repreensão mordaz da mansuetude de alguns que, entregando-se aos pseudo-apóstolos e seduzidos por eles, toleram com falsa paciência que lhes arrastem a seus estranhos e depravados dogmas. Por isso acrescenta: “Suportais que vos escravizem”. [16]

A boa paciência não consiste [398] em consentir que te degradem até a escravidão, quando podes manter-te livre. Eu não gostaria que dissimulasses essa servidão que dia-a-dia te está oprimindo. Não sentir a própria e contínua vexação é um sintoma de um coração que se encontra embotado. “Os açoites te servirão de lição”, diz a Escritura [17], o que é verdade, mas somente se não são excessivos. Quando o são, nada ensinam, porque provocam repugnância. [18] Quando o ímpio chega ao fundo do mal, tudo despreza. [19] Desperta e fica alerta: que te horrorize o jugo que te cai por cima e te oprime com sua odiosa escravidão. [20]

Por acaso crês que, por servir a todos e não a um só, não és escravo? Não existe mais torpe nem mais grave servidão que a escravidão dos judeus, pois aonde vão eles a levam consigo, e em todas as partes ofendem seus senhores. Confessa também tu, por favor: onde te sentes livre? Onde te vês seguro? Onde és tu mesmo? Por todas as partes a confusão te segue, o tumulto te invade e o jugo de tua escravidão te oprime. [21]

IV.5. Não me respondas agora com as palavras do Apóstolo, que diz: “Sendo eu livre de todos, a todos me escravizei” [22], pois não podes aplicá-las a ti mesmo. Ele não servia aos homens como escravo para conseguir torpes aquisições. [23] Por acaso confluíam a ele de toda a orbe os ambiciosos, os avaros, os simoníacos, os sacrílegos, os concubinários, os incestuosos e outros monstros do gênero humano para conseguir ou conservar mediante sua autoridade apostólica honras eclesiásticas?

Fez-se servo de todos aquele homem cuja vida era Cristo, e para quem morrer era um lucro. [24] Assim, ele queria ganhar muitos para Cristo, mas não pretendia amontoar tesouros com sua avareza. Portanto, não podes tomar como modelo de tua servil conduta a Paulo pela sagacidade de seu zelo, nem por sua caridade tão livre quanto generosa. Seria muito mais digno para teu apostolado, mais saudável para a tua consciência, e mais frutuoso para a Igreja de Deus, se escutasses o mesmo Paulo quando diz: “Haveis sido resgatado por um preço muito elevado; não vos façais agora escravos dos homens”. [25]

Pode haver algo mais servil ou indigno de um sumo pontífice que [399] morrer por esses negócios e pessoas, e nem digo a cada dia, mas a toda hora? Assim, qual tempo nos resta para orar? Quantas horas reservamos para doutrinar os povos? [26] Como edificamos a Igreja? [27] O quanto meditamos a Lei? [28] É justo que trates diariamente no palácio as leis de Justiniano e não as do Senhor? Veja tu. A Lei do Senhor é imaculada e converte as almas. [29] Essas outras não são propriamente leis, mas pleitos e cavilações que subvertem o juízo. [30] E tu, pastor e bispo das almas, com qual mente podes tolerar que a lei seja sufocada pelo bulício dos litígios?

Estou certo que os escrúpulos te mordem por tanta perversidade. Até imagino que mais de uma vez serás obrigado a clamar ao Senhor, como o profeta: “Os iníquos me narraram suas fabulações, e não seguem a tua lei”. [31] E vens agora a atreve-te a dizer-me que gozas de liberdade sob deformante volume de tantos iniludíveis inconvenientes que não podes evitar. Porque se podes e não queres, estarias muito mais escravizado, por ser servo de uma vontade tão perversa como a tua. Ou será que não é escravo aquele dominado pela iniqüidade? É o maior de todos, mesmo que seja para ti uma indignidade maior ser dominado por outro homem que ser escravo de um vício. E o que é que mais importa: ser escravo por tua vontade ou forçosamente? A escravidão coagida é miserável, mas ainda mais miserável é a escravidão desejada. E tu me perguntas: “O que posso fazer?”. [32] Abster-te dessas ocupações. Tu responderás que é impossível, que mais fácil seria renunciar à posse da catedral. Isso seria o mais acertado se eu te exortasse a romper com elas, não a interrompê-las. [33]

Uma exortação bastante meticulosa

V.6. Escuta minha repreensão e meus conselhos. Se tu dedicas toda a tua vida e todo o teu saber às ações e não reservas nada à consideração, poderia eu felicitar-te? É por isso que não te felicito. [34] E ninguém que tenha escutado o que Salomão disse – “Aquele que modera sua atividade [400] se tornará sábio” [35] – pode fazê-lo, pois até as mesmas ocupações sairão ganhando se forem acompanhadas por um tempo dedicado à consideração.

E se tens a ilusão de ser tudo para todos, imitando aquele que se fez tudo para todos [36], louvo tua humanidade, se é plena. Mas como pode ser plena se te excluis dela? Tu és homem. [37] Assim, para que tua humanidade seja plena e integral, seu seio, que abarca a todos os homens, também deve acolher-te. Do contrário, de que serve – conforme a palavra do Senhor – ganhar a todos se te perdes a ti mesmo? [38] Então, já que todos te possuem, seja um dos que dispõem de ti.

Por que tens de ser o único que não se beneficia de teu próprio ofício? Até quando tu serás um alento fugaz que não retorna? [39] Quando darás audiência a ti mesmo entre tantos a quem acolhes? Tu deves a sábios e néscios [40] e só rechaças a ti? O estulto e o sábio [41], o escravo e o liberto [42], o rico e o pobre [43], o homem e a mulher [44], o velho e o jovem [45], o clérigo e o laico, o justo e o ímpio [46], todos dispõem de ti igualmente, todos bebem em teu coração como uma fonte pública, e só tu ficas com sede? Se é maldito aquele que dilapida sua herança, que será daquele que fica sem ele próprio? Rega as ruas com teu manancial [47], para que bebam nele homens, jumentos e animais [48], sem sequer excluir os camelos do criado de Abraão [49], mas que tu também bebas com eles do caudal de tua fonte. [50] E não a dividas com estranhos. [51] Ou será que tu és um estranho?

Para quem não és um estranho se o és para ti mesmo? Para quem é bom aquele que é cruel consigo mesmo? [52] Não te digo para que sejas sempre, nem te digo para que sejas pouco, mas pelo menos alguma vez que tu te voltes para ti mesmo. Mesmo que sejais como os demais, ou depois dos demais, sirva-te a ti mesmo. Qual indulgência é maior? Digo isso mais por exigência da indulgência [53] que da justiça, e acredito que sou mais indulgente contigo que o próprio Apóstolo. “É mais que conveniente” [54], tu dirás. Mas isso não me preocupa; o que mais dá se assim convém? Confio que tu não te conformarás com a minha meticulosa exortação, mas [401] a superarás. Melhor seria que tua generosidade superasse a minha audácia. Eu prefiro equivocar-me por timidez diante de tua majestade que por temeridade, e creio que é preferível admoestar o sábio, como o fiz, conforme o que está escrito: “ofereça ocasião ao sábio e serás ainda mais sábio”. [55]

O que parece perfeito

VI.7. Além disso, ouça o que o Apóstolo pensa a respeito: “Não há entre vós sábios alguém para poder julgar irmão e irmão?”. [56] E conclui: “Digo isso para ignonímia vossa. [57] Nos pleitos, tomai por juízes a essa gente que na Igreja é desprezada”. [58] Portanto, segundo o Apóstolo, usurpas indignamente para ti, Apostólico, um ofício vil, grau dos mais desprezíveis. E por isso, um bispo, instruindo a outro bispo, lhe dizia: “Ninguém que milita por Deus trata de negócios seculares”. [59] Mas eu sou mais condescendente contigo [60]; não te exijo tanto, unicamente o que na realidade está ao teu alcance.

Creio que, nesses tempos, os homens que litigam pelos bens materiais e que pedem justiça, não tolerariam que tu respondesses com uma reação parecida à do Senhor: “Oh, homem, quem me constituiu juiz entre vós?” [61] O que julgariam imediatamente de ti? Diriam: “Fala como se fosse um rústico e um imperito, ignorante que se esquece do que é o primado; desonra a suma e excelsa Sede, e detrata a dignidade apostólica.” Sim, o diriam, mas jamais poderiam demonstrar que algum apóstolo se havia constituído em juiz dos homens, especializado em pleitos sobre fronteiras ou divisão de heranças. [402]

O que li é que os apóstolos compareceram para serem julgados [62], mas nunca pude comprovar que se sentaram para atuar como juízes. [63] Isso eles farão um dia, que ainda não chegou. Ou por acaso o servo não se rebaixa em sua dignidade quando tenta ser maior que seu senhor? [64] Ou o discípulo, se deseja ser superior ao seu mestre? Ou mesmo o filho, se deseja transgredir os termos que lhe impuseram seus pais? [65] Quem me constituiu juiz? [66] Isso o disse Ele, Senhor e Mestre. [67] E pode agora sentir-se ofendido o servo ou o discípulo que não se erige em juiz universal?

Tampouco creio que possua um bom critério quem pensa que é indigno dos apóstolos e de seus sucessores carecer de competência para serem juízes em todo tipo de causas, quando somente receberam poder para as mais transcendentais. Por que não podem depreciar os juízos sobre míseras posses terrenas humanas aqueles que um dia julgarão os próprios anjos celestes? [68] Tu tens jurisdição sobre os crimes, não sobre as possessões; tu recebeste as chaves do reino dos céus [69] para excluir os prevaricadores, não aos possuidores de terras, para que saibais – afirma – que o Filho do Homem tem poder na terra para perdoar os pecados. [70]

Qual poder e dignidade te parece maior: perdoar os pecados [71] ou dividir as terras? Não há comparação. Já há juízes para esses assuntos ínfimos e terrenos, os reis e príncipes terrestres. Por que invades competências alheias? Como te atreves a colocar tua foice no trigo que não é teu? Não é porque tu sejas indigno, mas porque és indigno de ingerir-te em causas semelhantes, quando deves ocupar-te de realidades superiores. E se alguma vez assim o requerer um caso especial, convém que ouças não a mim, mas ao Apóstolo: “Se vós julgareis o mundo, sereis indigno das mínimas causas?”. [72]

VII.8. Mas uma coisa é cair acidentalmente nessas causas urgentes quando lhe premiam com razões, outra é entregar-se totalmente a elas, como se tratassem dos assuntos mais importantes e que requeressem toda a nossa dedicação. Eu deveria recordar-te muitas outras razões, se expusesse todos os argumentos mais convincentes com os conselhos mais retos [403] e sinceros. Mas para que? Correm os dias maus [73] e, nesse ínterim, eu já o admoestei para que não te dês todo à ação, mas reserves algo de ti para a consideração, de teu coração e de teu tempo. E te digo isso pensando mais na necessidade que na eqüidade, embora não seja contra a eqüidade ceder ao que é necessário.

Da necessidade da consideração

Se é lícito fazer para si o que cremos mais conveniente, sempre e maximamente se deve preferir a piedade como um valor máximo [74], porque ela é útil para tudo. Assim irrefragavelmente mostra nossa razão. Perguntais-me o que é a piedade? Entregar-se à consideração. Talvez repliques que aqui discordo de quem define a piedade como o culto que se tributa a Deus. [75] Não rechaço essa posição. Se considerares bem, meu sentido, em parte, coincide com essa expressão verbal. Porque o mais pertinente ao culto de Deus é aquilo que nos pede o Salmo: “Cessai de trabalhar e vejais que eu sou Deus.” [76] E por acaso não é nisso que precisamente consiste a consideração?

Além disso, será que há algo mais útil para tudo, que saber antecipar-se benigmamente à própria ação, ordenando de antemão o que se deve fazer mediante uma eficaz previsão? [77] Isso é necessário. Do contrário, coisas que poderiam ter sido previstas e premeditadas com vantajosa antecipação, são levadas a cabo com muito risco por serem feitas com precipitação. E eu não duvido que isso tenha ocorrido com freqüência contigo; recordais, caso negativo, os processos dos pleitos, os assuntos mais importantes e as decisões mais comprometidas.

O que primeiro purifica a consideração é sua própria fonte, isto é, a mente, da qual se origina. Além disso, ela rege os afetos, dirige os atos, corrige os excessos, modera a conduta, ordena e torna honesta a vida, além de dar ciência do conhecimento humano e dos mistérios divinos.

É a consideração quem põe ordem no que está confuso, concilia o incompatível, reúne o disperso, penetra no secreto, encontra a verdade, examina a similitude de verdade e explora o fingimento dissimulado. A consideração prevê o que deve ser feito, e reflete sobre o que foi feito. Assim, não fica na mente nenhum resíduo de incorreção, nem nada que deva ser corrigido. Pela consideração se pressente a adversidade na prosperidade, tal como dita a prudência, e, graças à fortaleza, quase não são sentidos os infortúnios.

VIII.9. Deveis também observar a suavíssima harmonia, a conexão que existe entre as virtudes e sua mútua interdependência. Agora mesmo acabas de contemplar a prudência como mãe da fortaleza. E o que não nasce da prudência será uma ousadia da temeridade, não um impulso da fortaleza. É também a prudência quem, fazendo-se de mediadora entre a voluptuosidade e a necessidade, as arbitra dentro de seus próprios limites, porque determina e proporciona o que basta para satisfazer à necessidade, e corta todo o excesso ao deleite. Assim, nasce uma terceira virtude, que chamamos temperança.

E é precisamente a consideração quem nos permite descobrir a destemperança, tanto se nos empenhamos em nos privarmos do necessário, quanto se nos indulgenciamos com a superfluidade. Pois a temperança não consiste unicamente em nos abstermos do supérfluo, mas também em admitirmos o necessário. O Apóstolo, além de secundar essa idéia, é seu próprio autor, quando sentencia a não andarmos solícitos para que a carne cumpra seus desejos. Ao pedir-nos para que “não andemos solícitos pela carne” [78], nos proíbe apetecer o supérfluo, e, ao acrescentar, “ao cumprir seus desejos”, não exclui o necessário. Por isso, penso que não será absurdo definir a temperança como a virtude que não fica aquém nem além da necessidade, conforme o filósofo: sem excessos. [79]

VIII.10. Passando para a virtude da justiça, uma das quatro cardeais, sabemos que antes de a mente formar-se nela, a consideração previamente a possuiu. Porque é necessário que primeiro se reúna em si para extrair de seu interior essa norma da justiça que consiste em não fazer ao outro o que não se deseja para si [80], e não negar aos demais o que um quer que lhe dêem. Sobre estes dois pólos gira toda a virtude da justiça. Mas ela nunca vai só.

A conveniência das quatro virtudes

Examina agora comigo a bela conexão e coerência da justiça com a temperança, e o que ambas têm com as outras duas virtudes superiores já mencionadas, a prudência e a fortaleza. Porque se a justiça é não fazer aos demais aquilo que não gostaríamos que nos fizessem, sua perfeição culmina no que nos diz o Senhor: “Tudo o que quereis que os outros fizessem por vós, fazei vós por eles”. [81] Mas não praticaremos nem um nem o outro se a própria vontade, onde se forja sua forma, não se dispor a rechaçar o supérfluo e a separá-lo do necessário com verdadeiro escrúpulo. Essa disposição é precisamente o que é específico da temperança. Inclusive a própria justiça, caso não queira deixar de ser justa, deverá ser regulada pela moderação dessa virtude. “Não exageres tua honradez”, diz o sábio [82], para indicar-nos que nunca devemos dar por bom o sentido do justo se ele não for moderado pelo freio da temperança. Nem a própria sabedoria desdenha este controle, pois não diz Paulo com o saber que Deus lhe deu “Não saber de si mais elevadamente do que convém saber, mas um saber com sobriedade”? [83]

Pelo contrário, a temperança igualmente necessita da justiça. O Senhor nos ensina isso no Evangelho [406], ao condenar a temperança dos que só jejuavam para ostentar diante das gentes seu jejum. [84] Observavam temperança no comer, mas não eram justos em sua alma, porque não tentavam ser prazerosos a Deus, mas aos homens [85].

E como possuir essa virtude ou a outra sem a fortaleza? Necessita-se de fortaleza, mas não de uma medíocre, para pretender coibir e rechaçar rigidamente a si mesmo, sem ficar aquém ou além, e assim coibir sua angústia interna, para que a vontade se mantenha no preciso termo médio, puro, só, constante, no próprio centro precisamente circunscrito. Não é nisso que consiste a fortaleza?

VIII.11. Diga-me, se podes, qual dessas três potentíssimas virtudes marcarias como esse termo médio. Não crês que é tão singular das três que parece ser exclusivo de cada uma? Não dirias que nesse termo médio, e nada mais, consiste toda a virtude? Mas então não haveria multiplicidade de virtudes, pois todas seriam uma. Mas não. O que ocorre é que não pode dar-se uma virtude que careça desse termo médio, que é o íntimo dinamismo e a medula de todas. Para ela todas revertem tão estreitamente que é como se parecessem uma singular virtude. Não porque a compartam repartindo-a, mas porque cada uma, prescindindo das demais, a possui inteiramente.

Darei um exemplo: não é a moderação o que é mais típico da justiça? Se algo escapa de seu controle, ela seria incapaz de atribuir a cada um tudo o que lhe corresponde, tal como o exige sua própria natureza. E, por sua vez, não se chama assim a temperança por não admitir o imoderado? O mesmo ocorre com a fortaleza. E é precisamente a propriedade dessa virtude salvar a temperança dos vícios que lhe assaltam por todas as partes para sufocá-la, defendendo-a com todas as suas forças até fortificá-la, como estável fundamento do bem e assento de todas as virtudes. Portanto, justiça, fortaleza e temperança têm esse meio justo.

Mas nem por isso elas carecem de diferenças: a justiça tem afeto, a fortaleza eficácia, a temperança modera a posse. Resta demonstrar como a prudência não se exclui dessa comunhão. [407] Ela é a primeira que descobre e reconhece esse justo meio, durante tanto tempo proposto por negligência da alma, recluso no mais recôndito pela inveja dos vícios, e encoberto pelas trevas do esquecimento. Por isso, te advirto que são pouquíssimos os que descobrem a prudência, pois poucos a possuem.

Portanto, a justiça busca o justo meio. A prudência o encontra, a fortaleza o defende, e a temperança o possui. Mas não era meu propósito tratar das virtudes. Se nisso me estendi, foi para exortar-te a te entregar à consideração, pois assim nos beneficiaremos com essas coisas, além de outras semelhantes. Pois não perderia a vida aquele que nunca se ocupasse desse santo ofício, tão religioso quanto benéfico?

A malícia de nossos dias

IX.12. Que sucederia se repentinamente te rendesses totalmente a essa filosofia? Teus predecessores não o fizeram. Para muitos lhe seria uma moléstia; seria como se, subitamente, te desviasses dos vestígios de teus pais e insultasses sua recordação. Aplicariam-te aquele vulgar provérbio: “Faz o que ninguém faz e todos te mirarão”, como se cobiçasses a admiração dos outros. Naturalmente não poderias subitamente corrigir todos os erros, nem moderar todos os excessos. Contudo, com o tempo [86] e a sabedoria que Deus te concedeu [87], conseguirás paulatinamente, se buscares as oportunidades. Sempre te será factível tirar partido de um mal alheio.

Se tomarmos o exemplo dos bons, não os mais recentes, encontraremos sumos exemplos de pontífices romanos que foram capazes de descobrir espaço para o ócio santo, embora estivessem imersos nos assuntos mais delicados. Era iminente o assédio da urbe, e a espada dos bárbaros caía sobre o pescoço de seus habitantes quando o beato papa Gregório não interrompeu seu ócio para redigir seus sábios comentários. [88] E foi justamente nessa obscura circunstância, como se deduz do Prefácio, [408] que ele diligente e elegantemente redigiu a última parte de seu tratado sobre Ezequiel.

X.13. De acordo. É certo que outras formas de vida fincaram raízes, e os tempos e os homens mudaram radicalmente. Não que novos perigos nos ameacem, pois já são uma realidade presente. A fraude, o engano e a violência se apoderaram da terra. Multiplicam-se os caluniadores, rareiam os defensores, e por todas as partes os poderosos oprimem os pobres. Não podemos desentender-nos com os oprimidos, nem negar-lhes o juízo da injúria pacientemente sofrida. [89] Mas como é possível fazer-lhes justiça se não se tramitam as causas e não se ouvem as partes litigantes?

Os advogados

Sim, as causas devem tramitar, mas como é devido, pois é execrável como os litígios são freqüentemente conduzidos, e nem digo dos fóruns eclesiais, e sim dos civis. Pasmo como teus religiosos ouvidos podem escutar as pugnas verbais e as disputas dos advogados, que mais servem para subverter a verdade que para descobri-la. [90]

Corrige a depravação, corta a língua vã e fecha os lábios dolosos [91], porque apuram sua eloqüência para servir ao engano [92], dissertar contra a justiça, e usar a erudição em favor da falsidade. São sábios em fazer o mal e eloqüentes em impugnar a verdade; instruem a quem deveria instruir-lhes, e não se baseiam na evidência, mas em suas invenções; caluniam o inocente, destroem a simplicidade da verdade, e obstruem o caminho da justiça.

Nada pode manifestar tão facilmente a verdade como uma narrativa breve e clara. Eu quero que tu te habitues a decidir com brevidade e diligência todas as causas que devem ser vistas por ti, que não precisam ser todas. E finda toda dilação fraudulenta e venal. Conduz tu pessoalmente as causas das viúvas [93] [409], do pobre e do insolvente. Muitas outras tu poderias passar para outros, e outras, não deves sequer considerá-las dignas de audiência. Pois para que perder tempo em escutar pessoas cujos pecados já se conhecem antes do juízo?

Os ambiciosos

Tamanho é o despudor de alguns, que conduzem aos tribunais suas ânsias de ambição, e manifestam seus pleitos com todas as luzes. Ousam apelar à consciência pública, quando bastava a sua própria para confundirem seus juízos. Não houve quem humilhasse suas frontes altivas [94] e, por isso, se multiplicaram, e se fizeram ainda mais soberbos. O que não sei é como estes homens de consciência corrompida não temem ser descobertos pelos que são tão depravados como eles. É que onde todos fedem, ninguém percebe seu fedor. Por exemplo: sente algum rubor o avaro diante do avaro, o imundo diante do imundo, o luxurioso diante do luxurioso? A Igreja está cheia de ambiciosos. Por isso, tu não podes nem mais horrorizar-te com as intrigas e os apetites dos ambiciosos, pois estás como em uma espelunca de ladrões [95], onde se contempla os espólios dos viajantes.

XI.14. Se és discípulo de Cristo, deveria consumir-te em zelo, e levantar-te com toda a tua autoridade contra semelhante impudência e peste geral. Contempla o mestre e escuta-o: “Se alguém quer servir-me, siga-me”. [96]

Ele não predispôs Seus ouvidos para escutá-los, mas fez um flagelo para golpeá-los; não deixou pronunciarem discursos, nem os admitiu; não se sentou no tribunal [97], mas os puniu. E não ocultou o motivo: converteram a casa de oração em uma de negociação. [98] Faz tu semelhante. [99] Que enrubesçam esses negociantes se for possível; caso contrário [410], que te temam, pois tu também tens o flagelo. Que temam os numerários, e que, ao invés de confiarem no dinheiro, que percam sua confiança; que escondam seu dinheiro de tua vista, cientes que preferes tirá-lo que recebê-lo.

Caso obres assim, com constância e dedicação, terás muitos lucros [100], conseguirás que vivam de ofícios mais honestos, e muitos não se atreverão a conceber negócios semelhantes.

Acrescento que tu ainda poderás dispor melhor desses tempos de férias que te aconselho. Encontrarás muitos momentos livres [101] para dedicá-los à consideração, se fores capaz de não conceder audiências para certos pleitos, remeter outros a outras pessoas, e resolver os que tu julgas dignos de tua intervenção com um informe breve, fiel, e apropriado à causa.

Sobre essa consideração penso extender-me mais, embora o faça em outro livro, para já concluir esse e não te resultar duplamente pesado por sua excessiva extensão e pela aspereza de meu estilo.

- Fim do Livro I -

Notas

[1] Tradução a partir da edição bilíngüe (latim-espanhol) Obras completas de San Bernardo II. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, MCMXCIV, p. 52-185. Em latim, consideratio é a ação de observar, refletir; considerare, o agir com reflexão; consideratus, ser prudente, atento, circunspecto, ter bom senso.

[2] Eugênio III, papa (1145-1153), discípulo de Bernardo de Claraval (1090-1153). Pier Bernardo Pignatelli nasceu em Montemagno, próximo a Pisa, de rica e nobre família cristã. Em 1135 ingressou na Ordem de Cister e, mais tarde, foi designado para abrir um mosteiro em Farfa (diocese de Viterbo). Como papa, enfrentou a difícil situação política italiana, em parte provocada por Arnaldo de Bréscia (c. 1105-1155), conhecido opositor papal. Após tomar conhecimento da queda de Edessa (1145), Eugênio III escreveu uma carta a Luís VII da França (1120-1180), convidando-o a tomar a cruz. Na Dieta de Speyer (1146), o imperador Conrado III (1093-1152), além de muitos nobres, também foram convencidos à peregrinação armada. Eugênio III governou a Igreja somente oito anos e cinco meses, e foi beatificado em 1872.

[3] Bernardo faz uma alusão aqui ao senhorio, centro territorial do poder feudal.

[4] Gn 29, 6ss.

[5] 4Reis (Vulgata), 19, 3.

[6] Os 10, 11.

[7] Jó 6, 7.

[8] Ex 7, 13.

[9] Ex 18, 18. Trata-se do sogro de Moisés.

[10] Isto é, seis da tarde.

[11] Mt 6, 34.

[12] Sl 19 (18), 3.

[13] Jr 5, 3.

[14] Jo 6, 11-12.

[15] 2Cor 11, 19.

[16] 2Cor 11, 20.

[17] Is 28, 19.

[18] Sl 118, 130.

[19] Pr 18, 3

[20] Gl 5, 1.

[21] Gl 5, 1.

[22] 1Cor 9, 19.

[23] Tt 1, 7.

[24] Fl 1, 21.

[25] 1Cor 7, 23 (“Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate; não vos torneis escravos dos homens”).

[26] Lc 20, 1.

[27] 1Cor 14, 4.

[28] Sl 1, 2

[29] Sl 18, 8.

[30] Jo 34, 5.

[31] Sl 118, 85.

[32] At 9, 6.

[33] “Eugênio é exortado a não suportar que o escravizem. O papa deve resistir à maldade destas estultas ocupações através do clamor sincero a Deus. Bernardo o impele a reagir, pois a força do costume leva à despreocupação, e conseqüentemente à dureza de coração, ao pecado. Deve-se querer rechaçar o mal, fazê-lo retroceder, opondo-lhe tenazmente força contrária. Em ambiente tão nefasto, destaca-se a exortação de Bernardo à resistência. Nesse cenário, compreendemos o significado para o abade de Claraval do livre-arbítrio: ser coagido pela iniqüidade é menos miserável do que deixar-se dominar por ela. O permitir pressupõe escolha. E, mais do que isso, escolha consciente. Isso porque a decisão da vontade deve ser precedida de uma reflexão sobre se algo deve ser feito ou não, na ponderação dos motivos; a decisão final procede de um ato livre da vontade. Assim, o livre-arbítrio não é meramente autodeterminação, mas também auto-julgamento.”, SEPULCRI, Nayhara, e COSTA, Ricardo da. “Querer o bem para nós é próprio de Deus. Querer o mal só depende de nosso querer. Não querer o bem é totalmente diabólico: São Bernardo de Claraval (1090-1153) e o mal na Idade Média”. In: Anais do II Simpósio Internacional de Teologia e Ciências da Religião (ISSN 1981-285x - cd-rom), Belo Horizonte, ISTA/PUC Minas, 2007.

[34] 1Cor 11, 22.

[35] Ecl 38, 25.

[36] 1Cor 9, 22.

[37] Jo 10, 33.

[38] Mt 16, 26.

[39] Sl 77, 39.

[40] Rm 1, 14.

[41] Ecl 6, 8.

[42] Ef 6, 8.

[43] Pr 22, 2.

[44] Gn 1, 27.

[45] Ier 31, 13.

[46] Gn 18, 25.

[47] Pr 5, 16.

[48] Ion 3, 7.

[49] Gn 24, 14.

[50] Pr 5, 15.

[51] Pr 5, 17.

[52] Ecl 14, 5.

[53] 1Cor 7, 6.

[54] Rm 12, 3.

[55] Pr 9, 9.

[56] 1Cor 6, 5.

[57] 1Cor 6, 5.

[58] 1Cor 6, 4.

[59] 2Tm 2, 4.

[60] 1Cor 7, 28.

[61] Lc 12, 14.

[62] At 5, 27.

[63] Mt 19, 28.

[64] Jo 13, 16.

[65] Prov 22, 28.

[66] Lc 12, 14.

[67] Jo 13, 14.

[68] 1Cor 6, 3.

[69] Mt 16, 19.

[70] Mt 9, 6.

[71] Mt 9, 6.

[72] 1Cor 6, 2.

[73] Ef 5, 16.

[74] 1Tm 4, 8.

[75] Jo 28, 28.

[76] Sl 45, 11 (“Traqüilizai-vos e reconhecei: Eu sou Deus, mais alto que os povos, mais alto que a terra!”).

[77] 1Tm 4, 8 (“A pouco serve o exercício corporal, ao passo que a piedade é proveitosa a tudo, pois contém a promessa da vida presente e futura”).

[78] Rm 13, 14.

[79] ARISTÓTELES, Retórica, II, 12, 1389b. Nessa passagem, Aristóteles trata do caráter do jovem, e diz: “Em tudo pecam por excesso, e violência, contrariamente à máxima de Quílon: tudo fazem em excesso; amam em excesso, odeiam em excesso e em tudo o resto são excessivos; acham que sabem tudo e são obstinados (isto é a causa do seu excesso em tudo)”. O Estagirita cita Quílon (ou Quilão), o Lacedemônio, lendário personagem da história grega, um dos Sete Sábios, talvez vivido no século VI a.C. A máxima “nada em demasia”, atribuída a Quílon, segundo a tradição, figurava no Santuário de Delfos. Naturalmente Bernardo a cita como um bom exemplo de Aristóteles (chamado por ele e por todos os medievais de “O Filósofo”) a respeito da virtude da temperança.

Outro aspecto interessante dessa citação de Bernardo é o fato de a Retórica de Aristóteles só ter sido traduzida no ocidente medieval no século XIII: por Bartolomeu de Messina (da corte de Manfredo da Sicília), Guilherme de Moerbeke (1215-1286), arcebispo de Corinto e membro da ordem dos pregadores, e Herman, o Alemão (1266-1272), tradutor da Escola de Toledo, o que significa que muito provavelmente Bernardo fez sua citação a partir da leitura de outro autor que, por sua vez, citou a passagem de Aristóteles (talvez Cícero).

[80] Mt 7, 12 (“A regra de ouro – Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas”). Na verdade, a passagem bíblica é positiva, pois Jesus inverte essa máxima de comportamento conhecida desde a Antigüidade, especialmente no Judaísmo (Tb, 4, 14-15 “Sê vigilante, meu filho, em todas as tuas ações e mostra-te educado em todo o teu comportamento. Não faças a ninguém o que não queres que te façam”), e a torna uma regra positiva, bem mais exigente que a máxima judaica. Por isso, Bernardo faz aqui, para sermos mais exatos, a citação da tradição vetero-testamentária, e só a seguir, e diz que a perfeição culmina com a sentença do Senhor.

Portanto, a tradição judaico-cristã está de acordo com a tradição platônica – Platão coloca a justiça como uma condição sine qua non para a boa convivência entre os homens (Protágoras, 322 b-c) – ao contrário de Aristóteles, que a circunscreve na adequação à Lei, e como aquela que propicia e mantêm a felicidade (Ética a Nicômano V, 1, 1129).

[81] Mt 7, 12.

[82] Ecl 7, 17.

[83] Rm 12, 3 (“Eu peço a cada um de vós que não tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que convém, mas uma justa estima, ditada pela sabedoria, de acordo com a medida da fé que Deus dispensou a cada um.”).

[84] Mt 6, 16.

[85] Gl 1, 10.

[86] “No momento que eu tiver decidido, eu próprio vou julgar com retidão.”, Sl 74, 3.

[87] 2Pet 3, 15.

[88] Ecl 38, 25.

[89] Sl 102, 6; 145, 7.

[90] 1Tm 6, 4.

[91] Sl 11, 4.

[92] Jr 9, 5; Is 59, 3.

[93] Is 1, 23; Jr 5, 28.

[94] Hebr 7, 23.

[95] “Então Jesus entrou no Templo e expulsou todos os vendedores e compradores que lá estavam. Virou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: ‘Está escrito: Minha casa será chamada casa de oração. Vós, porém, fazeis dela um covil de ladrões!’”, Mt 21, 12-13.

[96] Jo 12, 26.

[97] Is 16, 5.

[98] Mt 21, 13.

[99] Lc 10, 37.

[100] 1Cor 9, 19.

[101] Ef 5, 16; Col 4, 5.


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

São Bernardo de Claraval: sobre o conhecimento e a ignorância.

SERMÃO SOBRE O CONHECIMENTO
E A IGNORÂNCIA



(Sermão 36 sobre o Cântico dos Cânticos)

Bernardo de Claraval

(trad. Jean Lauand)

O CONHECIMENTO DAS LETRAS É BOM PARA A INSTRUÇÃO, MAS O CONHECIMENTO DA PRÓPRIA FRAQUEZA É MAIS ÚTIL PARA A SALVAÇÃO ( [31] ).

I

Aqui estou para cumprir o que vos prometi; aqui estou para satisfazer vosso desejo; aqui estou, também, obrigado pela dívida que tenho para com Deus, a Quem sirvo.

Como vedes, três são as razões que me impelem a pregar: o compromisso assumido, o amor fraterno e o temor a Deus.

Se me abstivesse de falar, pela minha boca condenar-me-ia. Mas o que acontece se eu falar? Também neste caso, corro o mesmo risco, o de ser condenado pela minha própria boca: por pregar e não praticar o que prego. Ajudai-me, pois, com vossas orações, para que eu possa sempre falar o que é necessário e, com minha conduta, praticar o que prego.

Tinha vos anunciado o tema do sermão de hoje: a ignorância, ou melhor, as ignorâncias, porque, como lembrais, há duas ignorâncias: a de nós próprios e a de Deus. E vos aconselhava a evitar uma e outra, pois ambas são perdição.

Hoje, procuraremos esclarecer melhor esse assunto. Antes, porém, discutiremos se toda ignorância é condenável. Parece-me que não, pois nem toda ignorância produz perdição: há muitas e mesmo inúmeras coisas que se podem ignorar sem problema algum para a salvação.

Se alguém, por exemplo, desconhece artes mecânicas, como a carpintaria, a arte de edificação e outras que são exercidas para a utilidade da vida neste mundo, acaso tal ignorância constitui obstáculo para a salvação?

Também são muitos são os que se salvaram e agradaram a Deus pela sua conduta e com seus atos sem as artes liberais (e, certamente, são úteis e moralmente bons esses estudos). Quantos não enumera a Epístola aos Hebreus (cap. XI), que se tornaram agradáveis a Deus não com erudição, "mas com consciência pura e fé sincera" (I Tim 1,5) ( [32] ). E agradaram a Deus com os méritos de sua vida e não com os de seu saber. Cristo não foi buscar Pedro, André, os filhos de Zebedeu e todos os outros discípulos, entre filósofos; nem em escola de retórica e, no entanto, valeu-se deles para realizar a salvação na terra.

Não é porque fossem mais sábios do que todos os homens - como diz de si mesmo o Eclesiastes (1, 16) -, mas, por causa de sua fé e de sua benignidade, o Senhor os salvou e fez deles santos e mestres. Pois os Apóstolos mostraram ao mundo o caminho da vida, não com sublimidade de discurso, nem com palavras eloqüentes de sabedoria humana, mas pelo modo como aprouve a Deus: pela estultícia de sua pregação, aprouve a Deus salvar os que crêem, porquanto o mundo com sua sabedoria não O conheceu (I Cor 2, 1; 1, 17-21).

II

Posso estar dando a impressão de querer lançar em descrédito o saber, de repreender os doutos, de proibir o estudo das letras. Longe de mim, tal atitude! Conheço muito bem o inestimável serviço que os homens doutos têm prestado à Igreja: seja refutando os adversários dela, seja na instrução dos simples.

Com efeito, o que li na Sagrada Escritura foi: "Como rejeitaste o saber, também Eu te rejeitarei, para que não exerças Meu sacerdócio" (Os 4, 6). E mais: "Os doutos resplandecerão com o brilho do firmamento, e os que tiverem ensinado a muitos a justiça, brilharão como estrelas em perpétuo resplendor" (Dn 12, 3).

Mas, por outro lado, li também: "O saber incha" (I Cor 8, 1) ( [33] ).

E, finalmente: "No acúmulo de saber, acumula-se a dor" (Ecl 1, 18).

Vede que há saberes e saberes: há um saber que produz o inchaço e há um saber que contrista. Quero que sejais capazes de distinguir qual deles é útil e necessário para a salvação: o que incha ou o que dói? E não duvido que prefiras o que aflige ao que incha, porque, se a saúde pela inchação é aparentada, pela aflição é procurada ( [34] ).

Ora, quem procura, acaba encontrando, pois "quem pede, recebe" (Lc 11,10). E é certo que Aquele que cura os que têm o coração contrito abomina o inchaço dos orgulhosos, pois a Sabedoria diz: "Deus resiste aos soberbos e dá Sua graça aos humildes" (Tg 4,6) ( [35] ). E o Apóstolo diz: "Exorto-vos, em virtude do ministério que pela graça me foi dado, a não pretender saber mais do que convém, mas saber com sobriedade" (Rom 12,3).

O Apóstolo não proíbe saber, mas sim saber mais do que convém. E o que é saber com sobriedade? É cuidar de aplicar-se prioritariamente ao que mais interessa saber, pois o tempo é breve ( [36] ). Ora, ainda que todo saber, desde que submetido à verdade, seja bom, tu, que buscas com temor e tremor ( [37] ) a salvação e a buscas apressadamente, dada a brevidade do tempo, deves aplicar-te a saber, antes e acima de tudo, o que conduz mais diretamente à salvação.

Acaso não dizem os médicos do corpo que parte da medicina é precisamente determinar a ordem dos alimentos: qual deve ser ingerido antes, qual depois e o modo de os ingerir? Ora, mesmo sendo bons os alimentos que Deus criou, tu os tornas nocivos se não observas o modo e a ordem ao ingeri-los. Aplica, pois, aos saberes, o que dissemos dos alimentos.

III

Mas o melhor é encaminhar-vos ao Mestre. Não é nossa esta sentença, mas dEle; ou antes, é nossa porque a aprendemos dAquele que é a Verdade. E diz: "Se alguém pensa que sabe alguma coisa, ainda não sabe como deveria saber" (ICor 8,2).

Vede como não é aprovado o saber muitas coisas se se ignora o modo de saber. Vede como o fruto e a utilidade do saber consiste no modo de saber.

Mas o que é este modo de saber? O que, senão saber segundo a ordem, o amor e o fim devidos?

Segundo a ordem, isto é, priorizando o que é mais necessário para a salvação; segundo o amor ( [38] ), isto é, voltando-nos mais ardentemente para o que mais nos impele a amar; segundo o fim: não por vaidade ou curiosidade ou objetivos semelhantes, mas somente pela tua própria edificação e pela de teu próximo.

Há quem busque o saber por si mesmo, conhecer por conhecer: é uma indigna curiosidade.

Há quem busque o saber só para poder exibir-se: é uma indigna vaidade. Estes não escapam à mordaz sátira que diz: "Teu saber nada é, se não há outro que saiba que sabes" (Persius, Satyra 1, 27).

Há quem busque o saber para vendê-lo por dinheiro ou por honras: é um indigno tráfico.

Mas há quem busque o saber para edificar, e isto é amor. E há quem busque o saber para se edificar, e isto é prudência.

IV

De todos estes que buscam o conhecimento, só os dois últimos não incorrem em abuso do saber, já que o buscam para praticar o bem. Deles é que fala o salmo: "O saber é bom para quem o põe em prática" (Sl 111, 10). Os demais devem ouvir a Escritura: "Quem conhece o bem e não o pratica, comete pecado" (Tg 4, 17).

É como se, numa comparação, disséssemos: tomar alimento e não digeri-lo faz mal. Um alimento indigesto, mal cozinhado, produz maus humores e, em vez de nutrir o corpo, corrompe-o. Assim também pode dar-se o caso de o estômago da alma, que é a memória, ingerir muitos conhecimentos que não foram cozinhados pelo fogo do amor e nem passaram para ser elaborados pelo aparelho digestivo da alma (no caso, os atos e costumes), a fim de que a alma se torne boa pelo bom conhecimento (o que pode ser atestado pela vida e pelos costumes). E acaso um tal saber indigesto não deve ser considerado pecado, tal como um alimento que se transforma em humores maus e nocivos? E os maus humores do corpo não equivalem aos maus costumes da alma? E não virá a sofrer de inchaços e cólicas de consciência quem conhece o bem e não o pratica?

Acaso não se lhe aplicará a sentença de morte e condenação, toda vez que lhe vier à mente a palavra de Deus: "O servo, que conhece a vontade de seu senhor e não a pratica, torna-se digno de muitos açoites" (Lc 12,47) ?

E não será em nome desta alma, o pranto do profeta (Jer 4,19): "Doem-me as entranhas, doem-me as entranhas"? Gemidos geminados ( [39] ) que - salvo outra interpretação - apontam para o que dizíamos: o profeta fala de si mesmo, pois estava pleno de saber, inflamado de amor e, desejando intensamente transmitir esse saber, não encontrou quem se interessasse por ouvir e teve de arcar sozinho com o peso de um saber que não pôde comunicar. Chorou, pois, o zeloso doutor da Igreja, tanto por aqueles que menosprezam a busca do saber que dirige o bem viver, como pelos que, embora sabendo, no entanto, vivem mal. E, por isso, o profeta repete seu lamento.

V

Compreendes agora quão verdadeira é a sentença do Apóstolo: "O saber incha"? Por isso, convém que a alma antes se conheça a si mesma, coisa que é requerida pela ordem e pela utilidade.

Pela ordem, porque, para nós, o primeiro conhecimento deve ser o do que somos; pela utilidade, porque tal conhecimento não incha, mas humilha e serve de fundação para a edificação. Pois o edifício espiritual que não tem seu fundamento na humildade, não se agüenta em pé.

E para aprender a humildade, a alma não encontra nada mais convincente do que descobrir-se a si mesma na verdade. Deve-se, portanto, evitar a dissimulação, o auto-engano doloso, deve o homem encarar-se de frente, evitando fugir de si mesmo.

Pois, defrontando-se a alma com a límpida luz da verdade, encontrar-se-á muito diferente do que julgava ser e, suspirando em sua miséria - uma miséria que já não pode esconder porque é verdadeira e manifesta -, clamará com o salmista ao Senhor: "Em Tua verdade me humilhaste" (Sl 119, 75). Como não se humilhará neste verdadeiro conhecimento de si, ao dar-se conta da carga de seus pecados, sob o peso deste corpo mortal, ao ver-se imersa em preocupações terrenas, infectada pelos desejos carnais, cega, curvada, fraca, envolta em mil pavores, angustiada ante mil dificuldades, sufocada ante mil dúvidas, indigente de mil necessidades, inclinada ao vício, impotente para as virtudes?

Onde está agora o olhar arrogante? Onde, a cabeça orgulhosamente erguida? Não será ela ainda mais arremessada em sua desolação, trespassada por espinhos? (Sl 32, 4). Que ela - diz o salmista - derrame lágrimas, que chore e gema, que se volte para o Senhor e clame em sua humildade: "Cura, Senhor, minha alma, pois pequei contra Ti" (Sl 41,5).

Se ela se voltar para o Senhor, encontrará consolo, pois Ele é o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação.

VI

Eu, quando olho para mim mesmo, fico imerso em amargura; logo, porém, que alço a vista para o auxílio da misericórdia divina, suaviza-se meu amargor com a alegria da visão de Deus e Lhe digo: "Minha alma está conturbada interiormente, por isso me lembro de Ti" (Sl 42,7).

Basta um pouco de conhecimento de Deus para experimentar que Ele é piedoso e solícito, pois, na verdade, Ele é um Deus de bondade e misericórdia, que perdoa a maldade (Joel 2,13); Sua natureza é a bondade e é próprio dEle perdoar e ter misericórdia sempre.

Deus se dá a conhecer nesta experiência e desta maneira salutar, a partir do momento em que o homem se reconheça indigente e clame ao Senhor; e Ele o ouvirá e dir-lhe-á: "Eu te libertarei e tu Me glorificarás" (Sl 50,15).

Assim, o conhecimento próprio é um passo para o conhecimento de Deus. Vê-lO-ás em Sua imagem, que em ti se forma, na medida em que tu, desarmado pela humildade, com confiança, irás refletindo a glória do Senhor e, levado pelo Espírito de Deus, de claridade em claridade, irás te transformando nessa imagem.

VII

Reparai, pois, como ambos conhecimentos são necessários para a salvação, de tal modo que não pode faltar nenhum dos dois. Pois, se desconheces a ti mesmo, não terás temor de Deus em ti, nem humildade. Por acaso pensas que podes alcançar a salvação sem temor de Deus e sem humildade?

(Neste momento, o auditório murmura: "Não, não!").

Fizestes bem de indicar-me o "não" absoluto de vosso juízo, ou antes, que não estais desprovidos de juízo... Nem vale a pena continuar falando sobre o óbvio.

Mas, prestai atenção a um outro ponto...

Ou será melhor parar, por causa dos que já estão pestanejando? Eu pretendia, em um só sermão, dar conta do que tinha prometido: falar da dupla ignorância, e fá-lo-ia se não me parecesse que este discurso já está demasiadamente longo para os que o acham cansativo. E vejo alguns bocejando e outros dormitando. E não é de admirar, pois a longuíssima vigília de oração que tivemos hoje os desculpa.

O que direi, porém, daqueles que dormem agora, mas dormiram também enquanto rezávamos os ofícios? Não quero, porém, levar isto adiante e envergonhá-los, baste ter mencionado o fato... Penso que de hoje em diante cuidarão de estar atentos, advertidos que foram pela nossa correção.

Com esta esperança e em atenção a eles, em vez de continuar, partamos, suspendendo por clemência o discurso, e dêmos-lhe fim, embora não tenha atingido seu fim. Eles, por sua vez, tendo sido objeto de nossa compreensão, associem-se a nós em glorificar o Esposo da Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo, que está acima de todas as coisas, Deus bendito pelos séculos. Amém.

( [1] ) Este conceito foi objeto de análise em nosso Oriente & Ocidente: Língua e Mentalidade, APEL/CEAr-FFLCH-USP, 1993.

( [2] ) Os hadiths, entre nós, Tradições, são compilações que se referem à conduta e à fala do Profeta.

( [3] ) Valemo-nos da seguintes edições: Ayyuha al-walad, da Al-lajnat Al-lubnanyah ly tarjamat ar-rawa`i', Beirute (ár./fr. 1969; árabe/cast.1951). Al-Munqid min al-dalal, da Al-lajnat Al-lubnanyah ly tarjamat ar-rawa`i', Beirute (ár./fr.. 1959). Para diversas partes do `Ihya 'Ulum ad-dyn, valemo-nos dos seguintes extratos: Ensenanzas Religiosas Sufis, B. Aires, Hastinapura, 1986. Para o Mishkat al-anwár, Le Tabernacle des Lumières, Paris, Seuil, 1981. Para Ad-durra al-fakhira, La perle precieuse, Paris, Les deux océans, 1986). Para o Kitab al-mahabba... que é, na verdade, parte do `Ihya 'Ulum ad-dyn, Livre de L'amour, Paris, Vrin, 1986. Para o Kitab al halal wa al-haram, também parte do `Ihya 'Ulum ad-dyn, Le livre du licite et de l'illicite, Paris, Vrin, 1991. Le livre des bons usages en matière de mariage, Paris, Maisonneuve, 1989, para parte de `Ihya 'Ulum ad-dyn, .

( [4] ) Abu al-Qasim, asceta iraquiano, falecido em 910..

( [5] ) Célebre asceta e teólogo; nasceu em Medina e morreu em Basra em 728.

( [6] ) Esta sentença não se encontra nos evangelhos.

( [7] ) Quarto califa ortodoxo (656-661), marido de Fátima e genro de Maomé.

( [8] ) Célebre téologo e asceta, transmissor de hadiths.

( [9] ) Adhkár, plural de dhikr, palavra árabe que confunde em si, diversos significados correlatos. Pertinentes à sentença de Sufyan são: lembrar (subentende-se, no caso, de Deus) e repetir (no caso, fórmulas de oração).

( [10] ) Filho do Califa 'Umar, um dos primeiros e mais prestigiosos Companheiros do Profeta.

( [11] ) Luqman, nome de um sábio árabe sobre o qual divergem as opiniões de estudiosos. Uns asseveram que ele era profeta; outros, que não era profeta, porém homem muito piedoso; outros, ainda, que era juiz dos filhos de Israel. Entretanto, seja como for, Luqman, segundo o Alcorão, foi um homem a quem Deus concedeu sabedoria. A sura XXXI se denomina Luqman, pela menção de seu nome nos vv. 12 e 13. Nessa sura, há uma súmula de nobres mandamentos nos conselhos de Luqman a seu filho atinentes à obediência das leis divinas e dos preceitos éticos.

Observa Clément Huart, em sua Littérature arabe: "Le vieux fonds des fables que nous connaissons sous le nom d'Ésope, ces conseils de morale pratique mis dans la bouche des animaux, est passé en arabe et a été attribué au sage Loqman" (Nota do Prof. Dr. Helmi Nasr).

( [12] ) Dhikr, como dissemos, significa lembrar (subentende-se, no caso, de Deus) e repetir (no caso, fórmulas de oração). Note-se que o próprio versículo citado é já, ele mesmo, um dhikr incoado.

( [13] ) Esta sentença não se encontra nos evangelhos.

( [14] ) Guerra santa do Islão.

( [15] ) Como se sabe, o bom muçulmano só toma alimentos lícitos e, sempre, invocando o nome de Deus: bismi'llah...

( [16] ) Trata-se das primeiras páginas do Cap. II da clássica obra The Unity of Philosophical Experience. Em trad. cast.: La unidad de la experiencia filosófica, Madrid, Rialp, 1973.

( [17] ) Cit. por T. J. de Boer, The History of Philosophy in Islam, trad. E. R. Jones, Londres, 1933, p. 43.

( [18] ) Ibidem.

( [19] ) Algazali, como todo autor muçulmano, não menciona o Profeta sem ajuntar a fórmula que diz que Deus o fez depositário de Sua palavra e o salvou: sala Allahu 'alaihi wa sallama. Suprimimos, na tradução, este e outros apostos do gênero.

( [20] ) Abu al-Qasim, asceta iraquiano, falecido em 910. Esta e as demais notas do texto, apóiam-se na edição bilíngüe: Ayyuha al-Walad/Lettre au disciple, Beyrouth, Commission Libanaise pour la traduction des Chefs-D'Oeuvre, 1969, 3ème. éd. Trad. de Toufic Sabbagh.

( [21] ) Elixir composto de água, mel e vinagre.

( [22] ) Versos em persa no texto.

( [23] ) Os hadiths, entre nós, Tradições, são compilações que se referem à conduta e à fala do Profeta.

( [24] ) Célebre asceta e teólogo do primeiro século da Hégira (642-728).

( [25] ) Genro do profeta, quarto califa ortodoxo.

( [26] ) Toufic Sabbagh traduz por teologia. Kalam, como ensina Gilson, é uma corrente teológica que chega a afirmar "que tudo quanto pode ser revelado deve poder ser conhecido pela luz da razão natural" (La filosofia en la Edad Media, Madrid, Gredos 2a. ed., 1972, p.322.

( [27] ) Ao longo de quase todo este tópico, seguimos, resumindo-a e traduzindo-a, a Introdução do clássico La Philosophie au Moyen Âge, de Gilson, Paris, Payot.

( [28] ) Mutatis mutandis, o mesmo ocorre com o pensamento islâmico e judaico.

( [29] ) No cap. V de seu excelente Scholastik, München, DTV, 2. Aufl., 1981, a que seguiremos, resumindo-o, neste tópico.

( [30] ) A luta contra Abelardo (é contra Abelardo e não contra a Filosofia que Bernardo investe); a pregação, que inflamou todo o Ocidente, para a Cruzada que acabou em uma tremenda catástrofe etc.

( [31] ) A palavra latina salus significa tanto saúde como salvação; acumulação semântica especialmente incômoda para o tradutor, pois Bernardo freqüentemente compara a saúde da vida presente à salvação eterna...

( [32] ) Migne erradamente anota Hbr 11.

( [33] ) Scientia inflat diz o Apóstolo. Ao longo de todo o texto, estamos traduzindo a palavra scientia por saber, pois nosso termo ciência, mais do que um conhecimento pessoal, indica o saber objetivo: o das diversas ciências. E Bernardo fala do saber (scientia) como algo subjetivo, o saber de cada um. Traduzimos inflat por incha, que também dá a idéia do vazio da vaidade e, além disso, ajusta-se à comparação que Bernardo estabelecerá entre o inchaço do saber e o inchaço do corpo.

( [34] ) Procuramos manter algo da rima e do ritmo destas últimas palavras: Bernardo, como Agostinho, destaca momentos importantes do sermão, marcando-os com jogos de palavras, no caso: ...sanitatem, quam tumor simulat, dolor postulat.

( [35] ) E também I Pe 5, 5 e Pr 3, 34.

( [36] ) Tempus enim breve est é ICor 7,29.

( [37] ) Esta expressão "temor e tremor" aparece em IICor 7,15 e Fil 2,12.

( [38] ) Studio, no original. Como se sabe, a palavra latina studium significa também diligência, amor que move a agir.

( [39] ) Bernardo interpreta alegoricamente (!) a repetição do lamento do profeta e marca esta passagem por mais um jogo de palavras: ingeminatio geminum.

sábado, 17 de novembro de 2012

A melhor cerveja e outras coisas boas...

A MELHOR CERVEJA
Dom Fernando Arêas Rifan*

Segundo noticiou a revista O Globo de 4 de novembro último, foi eleita a melhor cerveja do mundo, por milhares de fãs de mais de 60 países, a Westvleteren 12. A sua qualidade e raridade são tais que, para se comprar uma modesta cota de duas caixas de Westvleteren 12, na cidade do mesmo nome na Bélgica, é preciso telefonar antes para o fabricante, cadastrar o número de telefone e placa do carro, que serão usados para que o candidato não tente repetir a compra pelos dois meses seguintes, e ir buscar pessoalmente as preciosas garrafas. Os admiradores não têm dúvidas de que tamanho esforço e dedicação valem a pena. Os importadores de fora, quando a têm, vendem-na a R$ 180,00 a garrafa.

A Westvleteren 12 é produzida unicamente pelos monges trapistas do Mosteiro Saint Sixtus (www.westvleteren.com). Bem, assim como Jesus não foi culpado pelos que talvez tenham abusado do excelente vinho miraculoso das Bodas de Caná, os monges trapistas não são culpados se alguém bebe sem sobriedade a sua preciosa e especial cerveja.
O que é interessante, e mostra porque é tão rara essa cerveja, apesar de tão boa, é que os monges só fazem a quantidade necessária para sustentar o mosteiro, e nenhuma a mais. Ano passado, tiveram que produzir mais para consertar o muro da abadia, que estava ruindo.

Só produzem o necessário para viver. Não visam o lucro supérfluo. Isso passa pela cabeça de qualquer pessoa hoje, no mundo atual consumista, materialista e cobiçoso, que faz do lucro o motivo de tudo?! As pessoas de hoje, nós mesmos, contentamo-nos com o necessário e o conveniente, ou queremos sempre mais e mais, até as coisas mais supérfluas?!

São Paulo Apóstolo nos adverte: “Nos últimos tempos... os homens serão egoístas, gananciosos (no original grego: amigos de si mesmo, amigos do dinheiro)” (2 Tm 3,2); “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1 Tm 6. 9-10). Sim, do amor desordenado ao dinheiro vêm a avareza, os roubos, as desavenças, os ódios, as invejas, as traições, as impurezas, os adultérios, os crimes de toda espécie: “Nada é mais criminoso do que o avarento, pois chega a pôr à venda a própria alma” (Eclo 10, 9).

Jesus, no sermão da montanha, resumo do seu Evangelho, nos ensina: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6, 24). O cristão, discípulo de Cristo, pode usar do dinheiro, mas não servir ao dinheiro. Servir a alguém ou algo é considera-lo como seu senhor, como seu deus, a quem se dedica a vida, a quem se sacrifica tudo o mais. Por isso, quem serve ao dinheiro, a ele sacrifica a honra, a moral, o pudor, o corpo, a saúde e a vida.

Santo Agostinho dizia que o dinheiro é algo tão vil que Deus o dá até para os maus! Usemos bem do dinheiro, sem servirmos a ele e sem colocar nele a razão do nosso viver: “Não ajunteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam e roubam. Ao contrário, ajuntai para vós tesouros no céu... Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6, 19-21).

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O príncipe cristão x o príncipe de Maquiavel.

O PRÍNCIPE CRISTÃO CONTRA O PRÍNCIPE DE MAQUIÁVEL
Posted on 30/08/2012

DON CURZIO NITOGLIA

[tradução: Gederson Falcometa]

20 abril 2010

http://www.doncurzionitoglia.com/Principe_Cristiano_Vs_Principe_Machiavelli.htm



Introdução



Maquiável, depois de Dante e mais que Dante, nega a ordem política indicada por S. Tomás no De regimine principum. O Aquinate quis reunir a Sociedade a Deus, Maquiável queria uma política autônoma da moral e de Deus. O príncipe de Maquiável é o oposto perdiametrum do príncipe de S. Tomás, e produzirá a separação entre política e ética, entre Estado e Igreja. Se para S. Tomás a sociedade deve ser ordenada a Deus por aqueles que governam para Maquiável o que conta não é o fim último, mas o interesse egoísta do príncipe. Segundo Maquiável, seguido por Nietzche e os neo-pagãos, o cristianismo fez os romanos covardes e vis, fazendo o Império entrar em colapso; será tarefa de Ribadeneyra, Bellarmino e Vieira, refutá-los e demonstrar que os cristãos, naquilo que diz respeito a sua vida privada, precisam ser humildes e mansos; mas quando é preciso defender a fé e a pátria tornam-se corajosíssimos, e a história do I século d.C. até o século XX amplamente o demonstra. Maquiável – como já vimos – é cínico, ímpio, acristão, pagão; para ele a religião pode ser boa somente se serve os interesses do príncipe “volpe e leão”; os três jesuítas que citei mostram que a política, como ética social, é toda contrária daquela maquiavélica, que então é a moderna e a atual, com todos os maus exemplos que temos debaixo dos olhos, a nível político e também eclesial.



(1a parte)

A) RIBADENEYRA



Segundo Ribadeneyra os politícos maquiavélicos tem um único desejo: destruir o reino social de Cristo e fazer reinar o princípe egoísta, despótico e tirano. O tratado do jesuíta espanhol é dividido em duas partes: a primeira indica a relação que o príncipe deve ter com a religião; a segunda trata da arte política de conduzir a sociedade. “Em definitivo nos encontramos diante de um tratado de ciência política católica, organizado em torno da fé presente na Contra-reforma e feita apaixonante pela carga polêmica do jesuitismo hispânico ([1]). Os autores escolásticos afirmam que nenhum homem é bom político por direito natural, mas só porque tem determinada qualidade ou virtude. S. Tomás ensina: “Só a ciência e a virtude e outras prerrogativas do gênero tornam uma pessoa idônea a exercitar a autoridade” (S. T., II-II, q. 102, a. 1, ad 2um). O politíco, além da ciência deve possuir a virtude, contrariamente a quanto ensinava Maquiável, na verdade é impossível que um homem, sem prudência, justiça, fortaleza e temperança, possa promover o bem comum da Sociedade. É quanto nos explicará os três jesuitas, citados neste capítulo.

***



● Pedro De Ribadeneyra, O príncipe cristão

1º livro

‘o valor da religião e a veneração a Deus

que deve ter o príncipe cristão para governar bem’



Ribadeneyra, no primeiro capítulo do primeiro livro, se defende atacando: “a diferença que existe entre os politicos modernos e nós é que os primeiros querem que o príncipe tenha por boa, a religião dos próprios súditos, qualquer que essa seja, verdadeira ou falsa, enquanto nós queremos que esses saibam que a religião católica é a única verdadeira, e só ela se pode defender. Eles querem que os princípies se sirvam da religião como pretexto, para enganar e distrair o povo, (…) nós queremos, ao invés, que os princípes sirvam verdadeiramente a verdadeira religião” ([2]). No segundo capítulo afirma que os maus princípes se servem da religião para enganar melhor. No quinto ensina que se os romanos antigos deram muita importância a sua falsa religião pagã, com maior razão nós cristãos devemos ser mais zelantes pela nossa Religião para a conversão do Estado cristão. No sétimo nos explica aquilo que a religião cristã ensina sobre o dever dos princípes para conservar o seu Estado: temer Deus, observar os seus mandamentos, não ensoberbecerem pelo comando. No décimo afirma que a Providência é mais solícita para o rei bom. “Coisa não fará Deus ao rei que o serve, de forma que os seus súditos, O reverenciem, estirpem os vicíos e propaguem as virtudes, em seus reinos?” ([3]). No décimo primeiro capítulo nos indica qual é a verdadeira felicidade do rei. Essa consiste no prêmio final: o Céu e a salvação da alma. No décimo quarto demonstra que os princípes que seguem a razão de Estado arruínam os seus reinos.

De fato, Santo Tomás ensina que a sabedoria e a potência são irmãs da verdadeira religião; que o chefe o qual guarda mais a razão de Estado que a lei de Deus perderá seguramente o seu Estado. No décimo sétimo capítulo adverte o princípe cristão a proteger a religião professada pelos próprios súditos. “A primeira preocupação dos princípes cristãos deve ser aquela da religião. Enquanto a falsa razão de Estado dos políticos (…) é ímpia, diabolica (…) destruidora do próprio Estado (…). A razão de Estado ensina que os princípes não devem ocupar-se da religião de seus súditos, mas deixa que cada um siga a religião que quer (…) como faziam os pagão que toleravam as seitas filosóficas e aprovavam todas as religiões” ([4]). Enquanto, segundo Ribadeneyra, o príncipe cristão nos seus Estados, não deve tolerar os heréticos ou sectários, porque se em um mesmo Estado se encontram os católicos e os heréticos, nele nascerá um grande turbamento e talvez uma sedição. A tarefa do principal do rei é aquela de proteger a religião católica e não permitir a liberdade de religião. No décimo nono capítulo explica que os reis devem favorecer a religião e não serem juízes de coisas religiosas. “Esses são os custodes da lei de Deus, não os intérpretes. São ministros da Igreja e não juízes; são armados para castigar o herético (…) mas não são os legisladores e os intérpretes da vontade divina nas coisas eclesiásticas (…), Se encontra qualquer grave dificuldade deve recorrer ao sacerdote” ([5]). No vigésimo explica que os hereges devem ser punidos e que a liberdade de consciência é perigosa. “A verdade é que os infiéis (…) não devem ser constritos a abraçar a fé, porque ela é uma coisa livre e é um dom de Deus. (…) Mas os hereges e aqueles que são batizados (…) podem e devem ser obrigados a respeitá-la mediante penas, e castigados severamente, se não o fazem (…). Daqui os Santos deduzem que se devem matar como lobos, para que não morram as ovelhas…” ([16]). No vigésimo sétimo assinala que as heresias são a causa das revoluções e da ruína dos Estados. “Como a lei de Deus nos ensina a obedecer aos nossos reis, nas coisas que não são contrárias a essa, assim aqueles que obedecem a Deus, necessariamente obedecerão ao príncipe (…). Enquanto o homem quando se destaca por causa da heresia, perde o santo jugo e a submissão que deve a Deus e é similar a um cavalo sem freio, e negligência também a obediência ao seu rei (…). Aquele que trai o próprio Deus trai também o seu príncipe (…). Então da deslealdade e da desobediência, nascem as rebeliões contra os príncipes, as revoltas e as divisões dos reinos, o incêndio e a devastação dos Estados” ([7]). No trigésimo explica como os príncipes que incorrem em qualquer pecado grave sejam punidos pela Igreja. “A mesma religião ensina aos grandes príncipes que se por vezes, como homens, caem em qualquer grave delito, sejam prontos a reconhecê-lo, se humilhem e se sujeitem aos canônes eclesiásticos, a censura e a correção da Igreja” ([8]).

***



2º livro

“o aspecto politíco da condução do reino:

as verdadeiras virtudes que são próprias do rei”



No primeiro capítulo do segundo livro, Padre Ribadeneyra afirma que para falar das virtudes necessarias para bem governar, precisa primeiro explicar a diferença entre o conceito cristão e aquele pagão de virtude. Entre o cristão e o pagão existe uma diversa concepção da moral individual e social. Os pagãos podem chegar a conceber o fim último só graças a razão natural, então aquela que esses acreditam virtudes os conduzem só a um fim natural (bem estar temporal). Ao invés o cristianismo, iluminado pela fé e pela Revelação, conhece também o fim sobrenatural do homem, a Visão Beatífica, para a qual nos conduz a verdadeira e perfeita virtude. A filosofia tomista ou cristã procede só mediante a razão natural, mas não prescinde das respostas, que a essa vem da Revelação, que a guia só extrinsecamente e negativamente, mas realmente; portanto a política de Aristóteles é imperfeita a respeito daquela de Santo Tomás o qual, além da luz da razão humana, poderia recorrer, extrinsecamente, a luz da teologia e da Revelação divina ([9]). Por exemplo, como quando é necessário resolver um problema matemático e o manual nos dá só a solução; o estudante procederá baseando-se só sobre matemática na solução do problema, sem porém desprezar a ajuda extrinseca ou a solução do problema ofertada-lhe pelo livro, e se ao fim de sua busca a sua solução não corresponde àquela do livro, deverá pacientemente recomeçar e ver onde errou para corrigir-se e resolver justamente o problema. Então o cristão não pode considerar verdadeira e perfeita a virtude do pagão que é privada de todo referimento a ordem sobrenatural; portanto sem a religião cristã não é possível a perfeita virtude; isto não excluí que certos cristãos vivam pior que certos pagãos. As virtudes naturais pagãs não são más em si, contra o erro de Bajo, mas são imperfeitas, porque falta a elas referência a ordem sobrenatural; elas podem ser aperfeiçoadas só pelo cristianismo, que tem a verdadeira noção de Deus sub ratione Deitatis e do fim último que é sobrenatural na sua essência e dos meios ou virtudes que necessitam para alcança-lo, os quais devem ser eles também sobrenaturais, que é proporcionada ao fim último sobrenatural. Padre Royo Marin, escreve que:



a) As virtudes naturais adquiridas do pagão



podem subsistir sem a graça santificante. Se adquirida mediante a repetição de atos, sobre a direção da razão natural. O seu objeto ou fim é acessível a razão natural. As virtudes adquiridas para serem mais estáveis, devem ser conexas entre elas e bem endereçadas para o fim último natural.



b) As virtudes infusas sobrenaturais dos cristãos



não subsistem sem a graça santificante. São infusas por Deus. O seu objeto é sobrenatural e proporcionado ao fim sobrenatural, são subordinadas as virtudes teologais e ao fim último sobrenatural. A graça habitual é acompanhada do ‘cortejo de virtudes e de Dons do Espírito Santo’. Ora os meios devem ser proporcionais ao fim. E as virtudes teologais nos ordenam ao fim último sobrenatural ([10]). Ocorre também distinguir o paganismo-religião (idolátrico e politeístico), de uma certa sã (ainda que imperfeita) filosofia greco-romana, que com Platão-Aristóteles (na Grécia), Cícero-Sêneca (em Roma) cultivaram aquilo que são as linhas fundamentais da verdade sobre o ser, a consciência e a ética natural.



Verdadeira natureza do paganismo-religião



Padre de Ribadaneyra S.J., retoma, asserindo que “os pagãos não possuíam um verdadeiro sentido de virtude, porque a submetiam a idolatria, (…) que obscura o intelecto, extravia a vontade e perverte todas as capacidades do homem. As suas ações miravam a fins particulares e mundanos, como as honras, a glória, a fama terrena e é mirando isto que – como disse S. Agostinho – os romanos venceram as paixões desordenadas do homem (…) e também São Gregório Nazianzeno afirma que os pagãos “embora perseguindo coisas boas, não agiram com pureza de intenção, porque mais do que qualquer coisa movia-lhes o desejo da glória, ao invés do amor pelo próprio bem” ([11]). O homem pagão cego e obcecado – escreve Bossuet – não quis adorar Deus mas os ídolos que ele próprio havia criado. « A idolatria nascia do apego profundo e desordenato que temos por nós mesmos. Nós homens inventamos os deuses que eram similares a nós, sujeitos as nossas mesmas paixões, fraquezas e vicíos, de modo que adorando estes deuses, os pagãos adoravam a si mesmos » ([12]).

***



Tornemos agora ao livro de Ribadeneyra; no segundo capítulo, o jesuíta espanhol, demonstra que as virtudes do príncipe cristão devem ser verdadeiras e não afetadas ou simuladas, como aquelas dos fariseus e do príncipe neo-pagão de Maquiável; o qual ensina uma “doutrina falsa, ímpia e indigna não só de um cristão, mas de todo homem reto e prudente. Ele afirma (…) que para melhor enganar e conservar os seus estados, o príncipe deve fingir-se temente a Deus, embora não o sendo, (…) e assumir ver por outra a mascára da virtude que lhe parecer mais oportuna, para conseguir o próprio lucro, dissimular os seus vicíos e ser estimado, isto que em realidade não é religião (…) As palavras de Maquiavél saíram do inferno, para destruir a religião e rasgar do peito do príncipe cristão com um só golpe todas as virtudes. (…) Maquiável afirma que muitas vezes o príncipe será obrigado a agir contra a fé, a caridade, a humanidade e a religião para conservar o seu Estado, (…) mas o Estado sem virtude não pode ser mantido de modo nenhum (…). A simulação não pode durar muito tempo, e quando é desmascarada o príncipe é tanto mais odiado quanto mais se compreende que quer enganar. Porém a conservação dos Estados não depende (…) dos homens (…). Aquilo que sobretudo conta é a vontade do Senhor, o qual lhes dá os Estados e lhes conserva ou lhes transfere a seu gosto. E o príncipe pode ganhar o favor de Deus (…) apenas respeitando a santa lei (…). Não é fim da religião conservar o Estado, mas sim é o Estado que deve servir a essa” ([13]). No terceiro capítulo o jesuíta espanhol ensina que o príncipe hipócrita é odiado por Deus. De fato segunto Maquiável o seu príncipe deve dar a Deus as folhas e ao demônio os frutos. Como se o Senhor do Universo, fosse um ídolo de pedra que não sabe, nem vê e não recompensa o mal e o bem. No quinto trata da justiça do príncipe cristão, deixando de lado Maquiável e companhia. Justiça é dar a qualquer um, o seu e sobre ela se funda o reino, sem essa ele se perde. No sexto escreve sobre a distribuição das honras; na verdade o príncipe cristão deve fundar-se sobre a justiça para dar a qualquer um aquilo que é seu por direito. “As honras e as riquezas que possuem pertencem mais a sociedade que a sua pessoa, então não pode dispor-lhes a seu gosto, mas deve repartir-lo com base nos méritos e aos serviços feitos a sua pessoa ou a comunidade. (…) Para bem administrar os recursos da sociedade, o príncipe não deve ter em conta patrimônios e linhagens, mas as virtudes e as obras de qualquer um. Favorecer um rico só porque é tal, significa dar-lhe ocasião a mais para enriquecer-se e esbanjar sua riqueza (…). Por outro lado, honrar um homem só porque os seus antepassados foram valorosos fundadores da nobreza da sua família (…) significa desonrar a virtude e causar afronta aos próprios antepassados (…). Os pobres e aqueles que não são de sangue nobre, tem a esperança de progredir, se animam com o estimulo da honra e do prêmio, cumprindo ações maravilhosas ao serviço do bem comum. Por sua vez os nobres, vendo que nada vale terem sido tais só por nascimento, para não perder a hereditariedade dos antepassados, se esforçarão para conservar viva a esplêndida tradição de sua família (…) como o nobre merece ser honrado mais que o não nobre, quando confirma com as suas próprias ações o prestígios dos antepassados, assim eles não mereceriam nenhuma honra nem favor quando se abastardam e renegam os valores de seus antepassados” ([14]). Portanto o príncipe cristão deve antepor, o pobre virtuoso ao nobre dissoluto, o homem de baixa linhagem mas capaz, a falsa nobreza, pois na verdade, apenas a virtude é a verdadeira nobreza. No capítulo nono nos explica que a virtude da justiça faz a diferença entre o rei e o tirano. “No repartir encargos e honras, o príncipe deve ser guiado por um critério de justiça. Ele não é senhor absoluto dos bens de seus súditos. (…). Se consideramos (…) as falsas doutrinas dos politícos, descobriremos que (…) miram a instituir uma abominável tirania em lugar de um governo justo e legítimo (…). O verdadeiro rei é sujeito a lei divina e natural, enquanto o tirano segue exclusivamente a lei da sua vontade. O rei professa a salvaguarda da piedade (…), enquanto o tirano não tem em alguma conta, a fé e a justiça. Um é atento ao bem público e a defesa do povo, enquanto o outro mira exclusivamente o próprio lucro; um enriquece os súditos por quanto lhe é possível, o outro aumenta o seu patrimônio pessoal com a ruína deles. Um vinga a ofensa contra Deus e a sociedade, perdoa aquela contra a sua pessoa, o outro vinga cruelmente está última e perdoa as outras” ([15]). No capítulo décimo escreve que o bom príncipe é equo no impor as taixas. “O príncipe justo é chamado também pastor, porque deve reger e governar, como o bom pastor, a sua grei, defendendo-a dos lobos e dos doentes, buscando realizar o seu bem. Sobretudo em uma coisa o príncipe assemelha-se ao pastor: como o pastor tosa a grei sem esfolá-la, assim se comporta o bom príncipe na imposição dos tributos” ([16]). Então a primeira preocupação do príncipe em matéria fiscal, é de não escutar os aduladores que, por interesse, buscam todos os dias novos arbítrios para sangrar o reino. A segunda é que deve mostrar que as taxas são devidos a necessidade do Estado e não ao seu capricho, de modo que os cidadãos o ajudem e não desdenhem diante do espetáculo de um rei que não sendo rico desperdiça o dinheiro público em despesas inuteís. Além disso, é justo que um rei seja rico para poder fazer o bem a quem lhe tem necessidade, para resistir aos inimigos; porém estás riquezas não vão acumuladas em detrimento da riqueza do reino, mas com cautela porque se reúnem grandes riquezas mais com o gastar pouco, que com o receber muito. No décimo nono capítulo fala da escolha dos juízes e das suas tarefas. Não serve a nada um príncipe amigo da justiça se não escolhe com cuidado os ministros mais mais dignos e não velando sobre suas ações. No décimo oitavo escreve sobre a clemência que deve ter o príncipe cristão. “Toda coisa que diz respeito a justiça devem ser acompanhadas da misericórdia, porque se a misericórdia sem justiça é fraqueza, uma justiça sem misericórdia se converte em crueldade. (…) Ao contrário os princípios muito severos e rigorosos se tornam antipáticos e, puxando muito a corda, a rompem (cap. 19º)” ([17]). No capítulo vigésimo quarto trata da necessidade de ter bons conselheiros. “Todo príncipe tem necessidade de um bom conselho, a causa da fraqueza e da miséria do homem, que tem necessidade de muitos apoios e ajudas para não cair. Em contingências particularmente graves todo homem deve recorrer a um conselho e não fiar-se apenas ao seu parecer pela fraqueza do intelecto e a força das paixões que cegam e aniquilam também as mais fortes das vontades. A verdadeira prudência… ensina… também asaber se beneficiar do conselho dos outros… Quem não se atém a está regra acaba pecando por presunção (…) S. João Crisóstomo afirma: ‘é próprio apenas a Deus o não recorrer aos conselhos dos outros, como ao invés devem fazer todos os homens’ (…) Um príncipe muito sábio, mas inimigo da ajuda dos outros, é pior que um princípe pouco culto, mas disposto a fazer-se guiar pela prudência de quem compensa suas deficiências” ([18]). No vigésimo quinto analisa o papel dos conselheiros. “Para que um homem se fie de um outro e creia nas suas palavras, três são as coisas necessárias, segundo Aristóteles: a prudência, a amizade ou benevolência e a virtude. A prudência é necessária para entender bem e não enganar-se sobre aquilo que é dito; a amizade porque mais facilmente somos propensos a dar ouvidos àqueles que nos fazem bem, e a virtude (…), porque nenhum julga mentiroso aqueles que estima como virtuoso. Sobretudo a está última, o príncipe deve dar atenção no escolher os conselheiros… A virtude, na verdade merece estima por si mesma e nada tem valor sem ela. O príncipe creia que, onde tem verdadeira e sólida virtude, não pode existir espaço para o engano. (…) São Gregório Nazianzeno disse que um conselheiro deve ser dotado de grande experiência, muita caridade e liberdade de palavra. (…) O principal dote do conselheiro em uma república é o conhecimento aprofundado da própria república (…). É necessário, então, conhecer tudo isto que é relativo ao Estado, a paz, a guerra, a lei e a economia. Ser prudente em um campo não comporta necessariamente que se seja prudente em todas as ocasiões (…). Convém então que os princípe se sirvam dos homens em grau de enfrentar as mais díspares questões ou, em falta, de vários conselheiros, qualquer um especializado em um particular gênero de problemas… O segundo dote necessário é a amizade (…), com o qual se entende o desejo de ajudar por quanto é possível e de fazer o bem com a própria ajuda, sem mirar o lucro pessoal ([19]). O terceiro dote necessário, é tratado no capítulo 26º, essa consiste no saber exprimir livremente o próprio parecer (…) não serve a nada que o conselheiro seja prudente, escrupuluso e hábil na resolução dos problemas, se em seguida não tem coragem de expô-la (…). Uma coisa é ser prudente e virtuoso, outra é ser um bom conselheiro, porque sem está liberdade a prudência e a virtude não dão nenhum fruto. (…) As vezes para não ofender o príncipe, outras vezes para agradá-lo, sucede que o conselheiro silencia (…) ou (…) que diga o contrário daquilo que pensa. Os conselheiros são fracos (…) as vezes por um mal comportamento do príncipe, que as vezes pede conselho por pura formalidade, tendo já decidido as suas ações, e mostra-se mal em suportar a quem o contradiz. Tal comportamento é nocivo e impulsiona os conselheiros a dizer só aquilo que ao príncipe da prazer (…). O bom príncipe não deve se ofender se qualquer um não é de acordo com as suas ideias, mas ao contrario deve encorajar com paciência e benignidade” ([20]). No capítulo vigésimo nono o jesuíta espanhol ensina ao príncipe como defender-se dos aduladores. “A prudência é necessária também (…) para distinguir o verdadeiro do falso amigo, para reconhecer o adulador do conselheiro fiel (…). O homem, alimenta nas vísceras um amor próprio que o cega, o ilude, o faz crer merecer muito, de poder ser anteposto aos outros… e o incíta a ter estima de si e desprezo pelos outros. (…) Em gênero é um sentimento mais forte nos reis e nos princípes, porque a corrupção da natureza humana aumenta com o luxo e o comando (…). Ora se a chama que reina nos princípes (…) é alimentada pela adulação, que coisa nos pode esperar se não que consuma o próprio príncipe, transformando em cinza todo o seu Estado? Com palavras mais escorregadios que o óleo e conselhos como flechas agudas a perfurarem os corações dos princípes (…). O mais perigoso entre os animais ferozes é o tirano e entre os animais domésticos o adulador.(…) O adulador que corrompe a verdade, é pior que o falsário. (…)Infelizmente no fim os aduladores prevalecem sujeitando o ânimo de quem escuta, porque as suas palavras são conforme o amor próprio, isto é aquele adulador interior que nós todos possuímos e que falsamente nos prega nós mesmos” ([21]). No trigésimo terceiro demonstra como discernir o verdadeiro amigo do falso. “Nada é mais difícil e mais útil que conhecer a si mesmo, então os aduladores obscurecem a luz que Deus infundiu nas nossas almas, sem a qual não podemos nem ver nem conhecer. No que diz respeito aos verdadeiros e falsos amigos, é muito difícil distinguir-lhe, porque embora seguindo a finalidade oposta, se servem de meios muito similares. A verdadeira diferença substancial consiste no fato que o verdadeiro amigo ama com amor sincero, sem fins pessoais, enquanto o adulador ama primeiramente o próprio interesse em vista de vantagens pessoais. (…) O verdadeiro amigo, no julgar um afazer, primeiramente olha o bem ou o mal que podem derivar ao princípe ou a sociedade; o adulador subitamente considera que ganho ou dano a coisa pode causar-lhe. (…) O verdadeiro amigo busca contentar por quanto possível, sem voltar atrás quando é o momento de dizer a verdade, coisa que faz com a modéstia e liberdade, porque prefere causar um efetivo benefício a seu senhor, mais que agradá-lo quando não é o caso. O adulador… se preocupa em dizer aquilo que dá prazer, afastando tudo aquilo que poderia entristecer o príncipe, para melhor enganá-lo e convencê-lo. (…) Para saber se um amigo é verdadeiro ou falso, o príncipe deve preferir mostrar aquilo que pouco antes o desgostava e vice-versa: subitamente o adulador o dará razão dizendo que antes se maravilhava do seu parecer… Ao contrário o verdadeiro amigo, que conhece a diferença entre bem e mal, não se comportará de tal modo (…). Além disso, o príncipe deve seguir a própria consciência e se está o censura enquanto o adulador o louva, entenda que se trata de uma clara mentira, e não de verdadeira lealdade” ([22]). No trigésimo quarto nos fala da fortaleza do príncipe cristão e daquela do príncipe de Maquiável. A fortaleza representa o sigilo e a custódia de todas as outras virtudes, então vem cronológicamente por último, mas não por importância hierárquica. Segundo Maquiável os antigos pagãos eram mais fortes que os cristãos e isto por culpa da educação moral do cristianismo. Na verdade o cristianismo nos ensina a não estimar as honras do mundo; enquanto o paganismo lhes faz estimar tanto como se fosse o fim último do homem, e isto tornava as suas ações mais ferozes. (…) Para demonstrar melhor está idiota impiedade e a impía absurdidade deste miserável mestre dos politicos modernos ocorre ter presente que (…) segundo a sã filosofia, a virtude da fortaleza não é uma espécie de força corporal assustadora (…). Nem sequer consiste em um ânimo desdenhoso e temerário, que sem considerar se uma coisa é (…) perigosa ou fácil, arriscada e imprudente, se deixa arrastar por um impeto furioso e de louca temeridade (…). Em realidade nós estamos falando da fortaleza como virtude moral, arma do homem forte para resistir o temor vão, moderar os impetos, empreender coisas dificultosas que comportam perigos mortais, sofrer assaltos com vigor e penas com constância (…) tudo isto para a glória do Senhor (…). Está é a fortaleza que chamamos virtude; enquanto aquela de Maquiável (…), podemos definí-la apenas como orgulho bárbaro. (…) Assim se a fortaleza é uma virtude, quem será mais forte, o homem vicioso ou o virtuoso, o mal ou o bom? E se é um dom de Deus, a quem o Senhor o comunicará, aos amigos ou aos inimigos (…). A quem adorava as pedras ou o lenho ou aos cristãos que adoram o Criador do Universo (…). Então, por força das coisas, o cristão é mais forte que os gentios” ([23]). Além disso, Ribadaneyra demonstra que a suave educação do século XVI não é aquela cristã, mas aquela humanista do renascimento ou neo-pagã; de fato o Evangelho prega dureza, pobreza, temperança, trabalho e todas virtudes que geram a fortaleza, e impõe a educação dos filhos com severidade. No quadragésimo e último capítulo nos ensina que o príncipe cristão deve honrar a arte militar. De fato “os bons soldados são os defensores da sociedade e do reino, protegem os trabalhadores, os jovens, as mulheres e os príncipes. (…) Além disso é necessário que seja tida em grande conta a disciplina militar, de modo que os soldados sejam verdadeiramente ancorados a fortaleza cristã e não sejam bandidos de estrada, sejam ministros de Deus e não de Satanás, defensores e não destruidores da pátria (…). Sem está disciplina os soldados se tornam uma ruína ([24]).

***



(2a parte)

B) S. ROBERTO BELARMINO S. J.



Também o Doutor das Controvérsias sentiu a necessidade de repelir os erros de Maquiável, o fez no seu livro De officio principis christianide 1682. Neste ensina, no livro primeiro capítulo primeiro, que o príncipe é ministro de Deus, mas deve fazê-lo com sinceridade de coração, e deve sentir-se antes de tudo o lugar-tenente de Deus. “Portanto os reis da terra não são patrões absolutos de seu principado, mas governadores a tempo do reino concedido a ele pelo Rei supremo, com a obrigação de prestar-lhe conta no tremendo juízo” ([25]). O santo Doutor da Igreja continua: “Pelo Senhor lhes foi dado o domínio (…), o qual examinará as vossas obras e perscrutará os pensamentos. Porque, ministros do seu reino, não governaram retamente (…). Terrível e veloz Ele saltará sobre vós; porque rigorosíssimo juízo será daqueles que estão no topo (…). Existe muita diferença entre os pecados dos princípes e aqueles dos cidadãos privados, no que toca os primeiros os interesses de muitos e os segundos os interesses de poucos” ([26]). Naquilo que diz respeito ao agir do príncipe cristão, Belarmino escreve: “Não deve impor leis da sua cabeça, mas deve governar os povos com leis dadas pelo Senhor seu Rei, porque não governa povos verdadeiramente e absolutamente seus, mas povos de Deus (…) portanto deve estar atento a não impor coisas contrárias a lei divina (…) mas também com o exemplo e com as obras, deve fazer de tudo para não violar, ele próprio, as leis divinas (…). Deus de fato se ira, quando vê transgredidas as suas leis própriamente por aqueles que quis como ministros do seu reino, para ter junto ao povo com o sentido de dever e observância das leis divinas” [(27)]. No capítulo segundo escreve: “O príncipe sábio (…) deve tratar de modo diverso os súditos impíos e perversos, que são (…) filhos do diabo, e os súditos religiosos e santos que tem direito ao reino eterno” ([28]). No capítulo quarto fala do dever do príncipe para com o Papa: “O Sumo Pontífice na Igreja é pai, pastor, doutor, sentinela e Sumo Sacerdote. (…) Ora sempre o Pontifice foi anteposto ao príncipe (…) porque o Pontifice preside as coisas divinas e o príncipe as coisas humanas (…) no mundo são muitos princípes, mas um só Pontifice (…). S. Bernardo assim fala: ‘como toda alma foi submissa a potestade superior e quem resiste a potestade resiste a Deus (…) [ocorre] mostrar respeito a Suma e Apostólica Sede” ([29]). No quinto capítulo, o Belarmino trata do dever do príncipe para com o Bispo. “Beata aquela cidade a qual é tocada ter um Bispo e um príncipe santo, os quais do amor e do acordo outro não busquem que governar bem o povo (…). O Bispo é pai, pastor, doutor, seja do príncipe que do povo. E (…) é o príncipe o dever de ser sujeito ao Bispo (…) não é comparável a autoridade dos príncipes àquela episcopal (…) São João Crisóstomo (…) afirma que o sacerdócio é tanto mais sublime para o reino quanto pode ser a diferença entre o espírito e a carne” ([30]). No capítulo sexto analisa o dever do príncipe para com o seu confessor. “O sacerdote confessor do príncipe (…) é juiz e tem a potestade no foro interno de ligar e desligar. É sinal evidente que durante a confissão o sacerdote sente com a cabeça coberta, enquanto o penitente, qualquer um que esse seja, também se rei e imperador, ajoelhe-se, com a cabeça descoberta (…). Ora a salvação do príncipe depende em modo particular do confessor (…). Guiar as consciências dos princípes é uma tarefa enorme e requer um homem não apenas expert, mais também muito prudente e constante e (…) que não tenha algum desejo pessoal, não tenha ambição alguma, busque e queira apenas a salvação eterna de seu príncipe e de seus povos. (…) Se o confessor não tem a coragem de recusar a absolvição a um homem assim importante, escute aquilo que diz o Espírito Santo: “Não busque tornar-se juiz, se não tem a força para erradicar as injustiças, porque tu não tem que temer em face dos poderosos” (Sir. VII, 6) (…). Não é integra a confissão de um príncipe que confessa os pecados cometidos como cidadão privado (…) e não manifesta, ao invés, os pecados cometidos enquanto príncipe. Não faltam princípes que, naquilo que diz respeito a própria pessoa, são muito pios e justos, mas não conhecem os pecados dos seus colaboradores (…). E entretanto os pobres são oprimidos, os processos alterados e os pequenos escandalizados. A ignorância desculpa o príncipe apenas se é invencível. Portanto ele deve refletir seriamente sobre a qualidade dos ministros e indagar sobre seu comportamento e sobre seu modo de governar. O confessor, então, não deve contentar-se com a confissão que o príncipe faz como homem privado, especialmente se sabe da opinião pública, ou de outro modo, que os seus ministros não se comportam bem na administração do Estado” ([31]). Belarmino aconselha ao confessor “se nota que com qualquer príncipe perde o seu tempo, porque estes não querem seguir os seus justos amonimentos ele mesmo peça humildemente para ser exonerado e, se não lhe é concedido, tome sozinho a decisão. De fato, é menos grave suportar a ira do príncipe terreno que aquela de Deus” ([32)]. No livro primeiro capítulo décimo o santo Doutor ensina que a justiça vingativa, relativamente ao castigo daqueles que agem mal, é necessária ao Estado, de modo que pela pena de um só muitos desistam de causar injurias e assim da justiça surja a paz e a tranquilidade. Moisés era o mais manso dos homens e, todavia pelo zelo da honra de Deus, comandou que viessem a ser mortos milhares e milhares de pessoas que haviam adorado o bezerro de ouro. Assim, quando vem castigados os malvados, os bons que eram oprimidos de cativos, vem libertados de um grave perigo, pela misericórdia do príncipe. Portanto a severidade do príncipe, no aplicar a justiça, é de louvar-se, seja porque os outros, intimidados, fujam dos pecados, seja porque os bons vivam sem temor uma vida quieta e tranquila. No capítulo décimo primeiro do livro, São Roberto mostra que “a fortaleza é necessária ao príncipe para governar os povos, essa se manifesta sobretudo na guerra e, também se pertence a todos os soldados, todavia se adequa particularmente ao príncipe, que é chefe e guia (…) e que fortifica o ânimo dos soldados com a sua fortaleza (…) mas existem guerras mais graves e mais atrozes: aquelas do demônio contra as almas (…). Neste combate espiritual os príncipes cristãos devem ajudar a Igreja (…) como escreve Santo Agostinho na Carta a Vicente Donatista, onde demonstra que é justo que os pagãos e os hereges sejam punidos pelos princípes terrenos. Também São Gregório, na Carta ao Prefeito da África Pantaleão, escreve para esmagar os hereges donatistas e, na sua Carta ao Imperador Maurício e a Brunilde (…), para perseguir como idólatras, os hereges. E também em paz o príncipe deverá trabalhar muito e frequentemente permanecer acordado durante a noite, pensando e repensando os remédios que precisará preparar para os seus súditos ([33]). No décimo quinto capítulo demonstra que a clemência é necessária ao príncipe para governar os povos. “Se a alma (…) começa a tratar o seu corpo muito severamente, com jejuns e vigílias este, rebelando-se, recusa de fazer o próprio dever. Assim se o príncipe, sobre o exemplo, da alma ou do espírito, governa os povos como seus membros com clemência e doçura e impõe um jugo suportável, (…) experimentará por sua vez, que os povos o amem, são obedientes e fidelíssimos sem exitação. Se, ao contrário, experimentam o seu príncipe não como um pai clemente, mas como um patrão severo, estes não deverão maravilhar-se se será odiado e abandonado pelos súditos quando terá maior necessidade de ajuda” ([34]). No décimo sétimo capítulo coloca em guarda o príncipe a não deixar-se dominar pela mulher, de fato “temos exemplos nas Sagradas Escrituras dos quais podemos conhecer o quanto seja a incapacidade da mulher de conter-se e a quais horrendos precípicios as mulheres tem empurrado os seus maridos (…) Eva a mulher de Adão (…) Dalila a mulher de Sansão (…)” ([35]). No vigésimo capítulo nos fala dos deveres para com os cortesãos. “Esses com facilidade adulam o seu patrão. (…) Está adulação, a maneira de doce veneno, facilmente penetra no ânimo, se não encontra um coração verdadeiramente humilde e submisso completamente a Deus. Quando o veneno da adulação preenche o ânimo do príncipe é incredível a dizer-se quantos e quanto graves danos causa. Quem esculta os aduladores, incha para a soberba, pensa em coisas grandes e maravilhosas que deverão lhe acontecer e acrediam que a ele tudo seja fácil. Portanto não segue os conselhos sapientes” ([36]). Enfim no vigésimo segundo capítulo, São Roberto avisa o príncipe a pensar em Deus seu fim último que o criou para ser conhecido, amado e servido, e mediante isto salvar a alma, portanto os príncipes devem pensar seriamente a salvação eterna.

***



(3a parte)

C) ANTONIO VIEIRA S.J.



Antônio Vieira, nasce em Lisboa em 6 de fevereiro de 1609 e em 1623, com quatorze anos, entrou nos jesuítas; depois de ser enviado ao Brasil, desenvolve numerosas missões diplomáticas na França, Holanda, Inglaterra e em Roma; em 1652 retornou ao Brasil, passou ainda em Roma em 1669 e em 1681 re-atravessou o oceano e retornou ao Brasil, onde morre em 18 de julho de 1697. Apesar do seu zelo, teve – segundo a Encíclopedia Católica – problemas com a inquisição, por causa de uma excessiva credulidade em uma certa revelação privada, singular e extravagante. Em realidade segundoYosef Hayim Yerushalami (Da corte ao gueto. A vida e as obras, as peregrinações dos marranos Cardoso na Europa do século XVI, Garzanti, Milão, 1991, cap. VII, pag.. 273-276: Sabatianismo e sebastianismo?): Padre Vieira era um adepto do sebastianismo, uma forma de messianismo judaíco o qual sustentava que o rei de Portugal Sebastião (+1578), retornaria a Portugal para salvar os portugueses, então submetido a Espanha. Os partidários do mito eram os marranos portugueses, sustentatos pelo Padre Antônio Vieira S.J., o qual foi aprisionado pela Inquisição por três anos (1665-1667); ele havia sustentado em 1665 que o rei Sebastião voltaria como Messias ([37]). Reporto os “quatro sermões” que possuímos em italiano, e no presente capítulo me baseio apenas sobre esses e coloco em guarda o leitor para as outras obras, especialmente aquelas de caráter messiânico. A sua produção oratória foi vastíssima, em português existem quinze volumes de Obras oratórias póstumas, editadas por Lello & Irmão, Porto, 1951. Nas quatro pregações aos homens de governo, tidas a Lisboa, mostra qual deve ser a concepção cristã da política, diametralmente contrária àquela neo-pagã de Maquiável. Segundo ele a ação e a doutrina política não podem prescindir de Deus, que as move e finaliza. Deus criou o homem animal social, é Causa eficiente remota da Sociedade civil e é o fim último do homem individual e vivente em sociedade. Este é o problema politíco; se esse é bem definido e bem resolvido, se terá a paz e a ordem e a vida virtuosa que são a estrada do Paraíso. Mas se o problema é mal colocado ou mal resolvido, se terá o caos ou o terror, o vicío e a desordem que são a estrada para o inferno. A partir destes dois pontos capitais, o jesuíta português, traça o quadro da concepção católica da política: essa é muito franca, plena de bom senso, direta, acessível a todos. Também se a substância é assaz simile ao que vimos em Ribadeneyra e Belarmino, o modo de exposição, os exemplos, a estrada seguida é muito original e tocante, simples e sincera como o bom senso de um velho montanaro (atenção “nem tudo que reluz é ouro” diz o provérbio); e portanto que exporei brevemente.



1°) O bom conselho:



A primeira consideração que Vieira faz, na pregação tida a corte real de Portugal em 1662, é que a boa política depende do bom conselho, e para ter um que seja verdadeiramente tal ocorre escolher bem os conselheiros. A matéria sobre a qual deve se aconselhar, deve ser atinente a profissão do conselheiro: sobre a fé e a moral o conselheiro será o Padre, sobre a guerra aconselhará o soldado, sobre a navegação o marinheiro. Se o mundo vai mal significa que os princípes são mal aconselhados por pessoas que falam de coisas sobre as quais não são competentes e sobretudo por “castelhanos”intrigantes que podem adulador e conquistar a simpatia do príncipe, para ele fazer, então, aquilo que eles querem.



2°) Formular bem as propostas:



Não existe nada de mais letal que uma proposta mal formulada. Atenção aos conselheiros ou aos conselheiros ou aos princípes que dizem: veremos, faremos. Esses fazem parte da primeira classse de homens dos quais fala os Exercícios de Santo Inácio nº 153, são eles que adiam o problema sempre ao dia seguinte: “cras, cras”. São chamados corvos, são sempre morosos, especialistas na arte de adiar, para não enfrentar a realidade. Mas a política do avestruz, como se sabe, não paga. Esconder a pequena cabeça na areia, deixando exposto o resto do corpo, notávelmente mais volumoso. Isto é perigoso, e a avestruz, embora iludindo-se de estar segura, se torna uma fácil presa para o seu inimigo. Ao invés o bom príncipe e o bom conselheiro dizem: façamos, agora tudo o que deve ser feito. Não deixemos para amanhã, aquilo que pode ser feito hoje. Odeio aquilo que devo fazer, mas como devo fazê-lo é melhor que o faça agora. Como a Santíssima Trindade, que vendo os homens andando ao inferno disse: façamos a Redenção do gênero humano (Exercícios espirituais de S. Inácio, nº 101). E a fez no instante, sem reinviá-la dia após dia para as “calendas gregas”. “Os homens do faremos não são homens, e tanto menos homens que possam fazer o rei ou aconselhá-lo (…). Não existe coisa no mundo da qual um rei deva maiormente fugir, que do homem do faremos” ([38])



3°) Eficácia e prontidão da execução:



O conselho do sinédrio condenou e fez matar Jesus em doze horas, da meia-noite da Quinta-feira Santa às 12 horas da Sexta-feira Santa, quando Jesus foi crucificado e expirou depois às 15 horas. E a história continua, por ora, (…) na Palestina e no resto do mundo ocidental… “Até quando não se dá execução aos decretos (…) não se é dado início a nada (…) O conselho de execução é aquele que faz as coisas” ([39]).



4°) Nem carta nem tinta:



“Carta e tinta são dois elementos pouco úteis em um conselho” ([40]). Esses servem, na maior parte dos casos, ao retardo da atuação do conselho. O autor não condena absolutamente o uso da carta e da pena, mas o excessivo uso desses, que é aquele que hoje chamamos burocracia, que tanto tempo e dinheiro faz perder o Estado e o cidadão.



Politica e lei de Deus



“A verdadeira política deve basear-se sobre o temor de Deus, sobre o respeito de Deus!(…) A verdadeira arte de governar é a de seguir a sua lei!(…) Qualquer política que exclui a lei de Deus é ignorância, engano, erro, mal governo e ruína” ([42])



DON CURZIO NITOGLIA

20 de abril de 2010



Link a questa pagina:http://www.doncurzionitoglia.com/Principe_Cristiano_Vs_Principe_Machiavelli.htm





NOTE

[1]) P. DE Ribadeneyra S.J., Il principe cristiano, Cantagalli, Siena, 1978, I vol., introduzione a cura di P. Caucci, pag. 23.

[2]) Ibidem, pag. 45.

[3]) Ibidem, pag. 84.

[4]) Ibidem, pag. 123.

[5]) Ibidem, pag. 134.

[6]) Ibidem, pag. 174.

[7]) Ibidem, pag. 182.

[8]) Ibidem, pag. 196.

[9]) Cfr. nota n° 170.

Cfr. S. T., II-II, qq. 123-140 (su la Fortezza e la Magnanimità).

[10]) S.T., I-II, q.63, a.3./ I-II, qq. 64-67./ I-II, q.110, a.4, ad1. / I-II, q.68, a.2. Cfr.A. Royo Marìn O.P., Teologia da perfeição cristã, ed Paoline, 1965, 6ª ed., Roma, pagg. 119-123. Cfr. J. Dumont, A Igreja matou o Império Romano e a cultura antiga?, Effedieffe, Milano, 2001. A. J. Fustigière, Hermetismo e mistica pagã, O Melangolo, Genova, 1991. P. F. Beatrice (a cura di) , A intolerância cristã para com os pagãos, EDB, Bologna, 1993.

[11]) P. De Ribadeneyra S.J., op. cit., II vol., pag. 10.

[12]) J. Bossuet, Discours sur l’histoire universelle, Garnier- Flammarion, Paris, 1966, pag. 293.



Roma “religio-pagana”



O mundo inteiro, se divide em duas grandes religiões: aquela da Santíssima Trindade e aquela de Satanás (que dão lugar a várias seitas e cisões, reconduziveis todas ao seu mestre), destas religiões seguem duas políticas: a Cristocracia e a Satanocracia. A Satanocracia teve como capital: Jerusalém deicida, destruída em 70 d.C. pelos Romanos, e Roma religião pagã dos Césares, a qual substituiu Jerusalém deicida, até que não se converta a Cristo (IV século d.C.). A Cristocracia tem como capital a Roma dos Papas. Nesta página falamos da Roma religião pagã até 313 d. C., e neo-pagã a partir do Humanismo e da Renascença, até a violação da Porta Pia e a Itália do ressurgimento e post-ressurgimento. A Roma antiga e pagã era caracterizada pelo panteísmo e pela idolatria politeísta. Roma quanto a religião, sucede a Babilônia, torna a patroa do mundo, a metrópole da idolatria e a fortaleza de Satanás (Cfr. Santo Agostinho, De Civitate Dei, lib. XVIII, cap. II e ss.). No paganismo Satanás era verdadeiramente o ‘deus’ do mundo (Omnes dii gentium, demonia recita o salmo). O paganismo depois de ter sido a religião dos assíros-babiloneses, dos egípcios, dos gregos e dos romanos, encontrou em Roma o Vigário de Cristo que derrota, derramando o próprio sangue sobre os montes do Vaticano, Satanás e o paganismo Romano. Antes a Providência se serviu da grandeza material de Roma, praeter intentionem fundatoris, para difundir o Evangelho em todo mundo. Mas por trezentos anos Satanás e Roma perseguiram Cristo e os cristãos, com ódio infernal. E depois foi caçado por Roma, governada pelo Vigário de Cristo, Satanás sempre procurou de nela reentrar. Infelizmente com o Humanismo e o Renascimento o espírito cabalista e pagão retoma a marcha, ainda se não totalmente, a Roma e dalí ao mundo inteiro, espalhando os seus erros e as suas revoltas em toda parte (Cesarismo, Protestantismo, Revolução americana, inglesa e francesa, Comunismo, Mundialismo) até 1870, quando uma seita infernal a judaico-maçonaria, caça o Vigário de Cristo em Roma, para adorar César. Mas a luta continua, Pedro retorna a Roma, até que depois da morte de Pio XII, o naturalismo neo-pagã retoma espaço, tento ocupado, infelizmente, o próprio Vaticano, onde se expande a mancha do óleo e prepara o reino do Anticristo.(Cfr. J. J. Gaume, Traité du Saint-Esprit, tomo I, Paris, Gaume-Duprey, 1864, pagg. 463-502).



[13]) P. De Ribadeneira, op. cit., pagg. 15-16.

[14]) Ibidem, pagg. 33-35.

[15]) Ibidem, pagg. 45-46.

[16]) Ibidem, pag. 49.

[17]) Ibidem, pag. 85.

[18]) Ibidem, pagg. 99-103.

[19]) Ibidem, pagg. 99-107.

[20]) Ibidem, pagg. 108-111.

[21]) Ibidem, pagg. 115-118.

[22]) Ibidem, pagg. 119-122.

[23]) Ibidem, pagg. 136-140.

[24]) Ibidem, pagg. 170-171.

[25]) R. Bellarmino, Scritti Spirituali, il dovere del principe cristiano, Morcelliana, Brescia, 1997, pag. 37.

[26]) Ibidem, pag. 43.

[27]) Ibidem, pag. 45.

[28]) Ibidem, pag. 53.

[29]) Ibidem, pagg. 77 e 79.

[30]) Ibidem, pag. 79 e 81.

[31]) Ibidem, pagg. 89 e 91.

[32]) Ibidem, pag. 93.

[33]) Ibidem, pagg. 127 e 129 e 131.

[34]) Ibidem, pag. 159.

[35]) Ibidem, pagg. 175 e 177.

[36]) Ibidem, pag. 203.

[37]) Cfr. também C. Roth, História dos marranos.A odisséia dos ‘hebreus invisíveisi’ da inquisição aos nossos dias, Serra e Riva, Milão, 1991, pagg. 272-277). A. Sicroff, Les controverses des statuts de puereté de sang en Espagne du XV au XVII siècle, Paris, 1960. H. J. Zimmels, Die Marranen in der Rabbinischen Literatur, Berlin, 1932. S. Assaf, Os marranos espanhóis e portugueses em respostas (em hebraico), «Me’ assef», vol. V, pagg. 19-61. D’Azevedo, Història de Antonio Vieira, Lisboa, 1908-1931, 2 voll. Gli escritos messiânicos de A. Vieira se encontram na suas Obras escolhidas, vol. VI, que contém a importante Esperanças de Portugal, quinto imperio do mundo, pagg. 1-66. Cfr. anche M. Gonçalves Viana [ao cuidado de], Cartas do Padre Antonio Vieira, Oporto, s.d., pagg. 135-164).Vieira foi também um un milenarista empregnado profundamente do pensamento teológico de Joaquim de Fiore. Cfr. m. reeves – w. goulo, Joachim of Fiore and the myth of the Eternal Evangel in the nineteenth century, Clarendon Press, Oxford, 1987, p. 22.

[38]) A. Vieira S.J., Quattro prediche agli uomini di governo, Centro Studi Sociali, Milano, 1960, pag. 26.

[39]) Ibidem, pagg. 30-31.

[40]) Ibidem, pag. 35.

[41]) Ibidem, pagg. 40-41.

[42]) Ibidem, pagg. 43-45.
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