segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Fioretti de São Francisco: capítulos 26, 27, 28, 29, 30.



Capítulo 26
Como S. Francisco converteu três ladrões homicidas, e se fizeram frades;
e da nobilíssima visão que viu um deles, o qual foi santíssimo frade

S. Francisco foi uma vez pelo deserto do burgo do Santo Sepulcro, e passando por um castelo que se chama Monte Casal, veio ter com ele um jovem nobre e delicado e disse-lhe: "Pai, tenho multa vontade de ser um dos vossos frades".

Respondeu S. Francisco: "Filho, és jovem, delicado e nobre, talvez não possas suportar a pobreza e a aspereza nossas". E ele disse: "Pai, não sois homem como eu? Como as suportais vós, assim o poderei com a graça de Cristo". Agradou muito a S. Francisco esta resposta: pelo que, bendizendo-o, imediatamente o recebeu na Ordem e lhe pôs o nome de Frei Ângelo.

E portou-se este jovem tão graciosamente, que pouco tempo depois .S. Francisco o fez guardião do convento chamado Monte Casal. Naquele tempo freqüentavam a região três famosos ladrões, os quais faziam aí muito mal; os quais vieram um dia ao dito convento dos frades e pediram ao dito Frei Ângelo que lhes desse de comer. O guardião respondeu-lhes deste modo, repreendendo-os asperamente: "Vós, ladrões e cruéis homicidas, não vos envergonhais de roubar as fadigas dos outros; mas ainda, como presunçosos e impudentes, quereis devorar as que são mandadas aos servos de Deus; que não sois talvez dignos de que a terra vos sustente; porque não tendes nenhuma reverência aos homens e a Deus que vos criou.

Ide cuidar de vossa vida e não me apareçais outra vez". Pelo que eles perturbados se partiram com grande raiva. E eis que S. Francisco chega de fora com um saco de pães e um vaso de vinho que ele e o companheiro tinham esmolado: e contando-lhe o guardião como os havia expulsado, S. Francisco fortemente o repreendeu, dizendo-lhe: "Tu te comportaste cruelmente; porque melhor se levam os pecadores a Deus com doçura do que com cruéis repreensões: donde nosso mestre Jesus Cristo, cujo Evangelho prometemos observar, disse que os sãos não têm necessidade de médico, mas os enfermos; e que não tinha vindo para chamar a penitência os justos, mas os pecadores; e por isso ele freqüentes vezes comia com eles.

E porque obraste contra a caridade e contra o santo Evangelho de Cristo, ordeno-te pela santa obediência que imediatamente apanhes este saco de pães e este vaso de vinho, e que vás atrás deles solicitamente por montes e por vales até os encontrar, e lhes apresentes de minha parte todo este pão que mendiguei e este vinho; e depois te ajoelhou-se diante deles, dizendo-lhes humildemente toda a culpa de tua crueldade; e depois lhes rogues de minha parte que não mais façam mal, mas temam a Deus, e não ofendam ao próximo e se eles fizerem isso prometo de prover-lhes em suas necessidades e de dar-lhes continuamente de comer e de beber. E quando isto lhes tiveres dito, volta aqui humildemente".

Enquanto o dito guardião foi cumprir o mandado de S. Francisco, ele se pôs em oração e pedia a Deus que abrandasse os corações daqueles ladrões e os convertesse à penitência. Aproximou-se deles o obediente guardião e apresentou-lhes o pão e o vinho; e fez e disse o que S. Francisco lhe impôs. E como aprouve a Deus, comendo aqueles ladrões a esmola de S. Francisco, juntos começaram a dizer: "Ai de nós, míseros desventurados! Que duras penas do inferno nos esperam, que vamos não somente roubando o próximo e batendo e ferindo, e ainda mais matando; e no entanto por tantos males e tão celeradas coisas, que fizemos, nenhum remorso de consciência nem temor de Deus sentimos.

E eis este santo frade vem a nós e por algumas palavras que nos disse justamente por causa de nossas malícias, nos disse humildemente a sua culpa; e além disso nos trouxe pão e vinho e tal liberal promessa do santo pai. Verdadeiramente esses frades são santos de Deus os quais merecem o paraíso, e nós somos filhos da eterna danação, e merecemos as penas do inferno e cada dia aumentamos nossa perdição, e não sabemos se, pelos pecados que temos cometido até hoje, acharemos a misericórdia de Deus". Estas, e semelhantes palavras disse um deles e os outros disseram: "Certamente dizes a verdade: mas que devemos fazer?" "Vamos, disse este, a S. Francisco; e se ele nos der esperança de que podemos achar misericórdia em Deus de nossos pecados, façamos o que ele mandar, e possamos livrar as nossas almas das penas do inferno".

Este conselho agradou aos outros, e os três de acordo se dirigiram logo a S. Francisco e disseram-lhe assim: "Pai, nós, por muitos celerados pecados que cometemos, não cremos poder achar misericórdia em Deus, mas, se tiveres alguma esperança que Deus nos receba em sua misericórdia, eis-nos, estamos prontos a fazer o que disseres e fazer penitência contigo". Então S. Francisco, recebendo-os caritativamente e com benignidade, confortou-os com muitos exemplos; e os deixando certos da misericórdia de Deus, prometeu-lhes alcançá-la de Deus, mostrando-lhes que a misericórdia de Deus é infinita: e se nós tivéssemos infinitos pecados, ainda a misericórdia de Deus é maior, segundo o Evangelho; e o apóstolo S. Paulo disse: "Cristo bendito veio a este mundo para resgatar os pecadores".

Por quais palavras e semelhantes ensinamentos os ditos três ladrões renunciaram ao demônio e às suas operações, e S. Francisco os recebeu na Ordem, e começaram a fazer grande penitência: dois deles pouco viveram após a conversão e foram ao paraíso. Mas o terceiro, sobrevivendo e repensando em seus pecados, deu-se a fazer tal penitência, que, durante quinze anos contínuos, exceto as Quaresmas comuns, as quais fazia com os outros frades, o resto do tempo, sempre três dias na semana jejuava a pão e água, andava sempre descalço e só trazia uma túnica às costas, e nunca dormia depois de Matinas.

Por esse tempo S. Francisco passou desta mísera vida. Tendo, pois, ele continuado por muitos anos com tal penitencia, eis que uma noite, após Matinas, lhe veio tanta tentação de sono, que por maneira nenhuma podia resistir ao sono e vigiar como soía. Finalmente, não podendo resistir ao sono nem orar, foi ao leito para dormir: e logo que repousou a cabeça foi arrebatado e levado em espírito a um monte altíssimo no qual havia um abismo profundíssimo, e daqui e dali penhascos lascados e aguçados e escolhos desiguais sobressaíam dos rochedos; e o aspecto deste abismo era medonho de ver-se.

E o anjo que conduzia esse frade o empurrou e o lançou por este abismo abaixo: o qual, entrechocando-se e espedaçando-se de escolho em escolho, chegou por fim ao fundo do abismo desmantelado e pulverizado, conforme lhe parecia. e jazendo mal acomodado no chão, disse-lhe aquele que o conduzia: "Levanta-te, que é preciso fazer ainda viagem maior". Respondeu-lhe o frade: "Pareces-me muito indiscreto e cruel homem, porque me vês a morrer da queda que me fez em pedaços e me dizes: 'Levanta-te"'. E o anjo, aproximando-se dele e tocando-lhe os membros, os sarou perfeitamente a todos e o curou.

E depois lhe mostrou uma planície cheia de pedras agudas e cortantes e de espinhos e de abrolhos, e disse-lhe que por toda aquela planura lhe era necessário passar a pés nus até que chegasse ao fim, no qual se via uma fornalha ardente em que devia entrar. E havendo o frade atravessado toda aquela planície com grande agonia e pena, o anjo lhe disse: "Entra nessa fornalha, porque isto te convém fazer". Respondeu ele: "Ai de mim, quanto me tens sido cruel guia, que me vês quase morto por causa desta angustiosa planície, e agora, para repouso, me mandas entrar nesta fornalha ardente!" E olhando ele viu em torno à fornalha muitos demônios com forcados de ferro nas mãos, com os quais, porque ele hesitava em entrar, o atiraram dentro subitamente.

Entrado que foi na fornalha, olha e vê um que fora seu compadre, o qual ardia inteiramente, e lhe perguntou: "Ó compadre desventurado, como vieste aqui?" E ele respondeu: "Segue um pouco mais adiante e acharás minha mulher, tua comadre, a qual te dirá a causa da nossa danação". Indo o frade um pouco além, eis que aparece a dita comadre toda abrasada e metida numa medida de trigo toda de fogo; e ele lhe perguntou: "Ó comadre desventurada e mísera, por que vieste a um tão cruel tormento? " E ela lhe respondeu: "Porque no tempo da grande fome, a qual S. Francisco havia predito, meu marido e eu falsificávamos o trigo e a aveia que vendíamos nesta medida, por isso me abraso dentro desta medida". E ditas estas palavras, o anjo que conduzia o frade tirou-o da fornalha e depois lhe disse: ``Prepara-te para uma horrível viagem que tens de fazer".

E ele se lamentava dizendo: "Õ duríssimo condutor, que não tens compaixão de mim! Vês que estou quase todo queimado da fornalha e ainda me queres levar a uma viagem perigosa". Então o anjo o tocou e ele ficou são e forte: depois o levou para uma ponte que se não podia atravessar sem grande perigo; porque ela era muito frágil e estreita, muito escorregadia e sem parapeito, e embaixo passava um rio terrível, cheio de serpentes e de dragões e de escorpiões, e lançava um grandíssimo fedor; e o anjo lhe disse: "Passa por esta ponte, que por tudo te convém passar".

Respondeu ele: "E como poderei passar sem cair neste perigoso rio?" Disse o anjo: "Vem atrás de mim e põe o pé onde vires que ponho o meu, e assim passarás bem". Passou este frade atrás do anjo, como lhe havia ensinado, até ao meio da ponte: e estando assim no meio, o anjo voou e partindo-se dele foi para um monte altíssimo, muito longe da ponte. E ele considerou bem o lugar para onde o anjo voara; mas ficando sem guia e olhando para baixo, via aqueles animais tão terríveis com as cabeças fora da água e com as bocas abertas, prontos para devorá-lo se caísse; e estava com tanto temor que não sabia o que fazer ou o que dizer; porque não podia voltar atrás ou seguir adiante.

Pelo que, vendo-se em tal tribulação e que não tinha outro refúgio senão em Deus, debruçou-se e abraçou a ponte e com todo o coração e com lágrimas recomendou-se a Deus que pela sua santíssima misericórdia o quisesse socorrer E feita a oração pareceu-lhe que lhe começavam a nascer asas; pelo que com grande alegria esperava que elas crescessem, para poder voar além da ponte aonde voara o anjo. Mas, depois de algum tempo, pelo grande desejo que tinha de passar a ponte, pôs-se a voar; e porque as asas não estavam bastante crescidas, caiu sobre a ponte e as penas lhe caíram: pelo que de novo se abraçou com a ponte, como antes, e recomendou-se a Deus.

E terminada a oração, ainda lhe pareceu ter asas; e como da primeira vez não esperou que elas crescessem perfeitamente; por isso, metendo-se a voar antes do tempo, caiu ainda sobre a ponte e as penas lhe caíram. Vendo assim que caia pela pressa de voar antes do tempo, começou a dizer consigo mesmo: "Na verdade, se tiver asas terceira vez, esperarei que elas estejam tão grandes até poder voar sem cair". E estando a pensar assim, viu-se a terceira vez com asas; e esperou muito tempo até que elas ficaram bem grandes, e pareceu-lhe que pelo primeiro e segundo e terceiro crescimento de asas, tinha esperado bem cento e cinqüenta anos ou mais.

Finalmente levanta-se pela terceira vez com todo o esforço, toma o vôo e voou para o alto ao lugar aonde tinha voado o anjo e, batendo à porta do palácio em que ele estava, o porteiro perguntou-lhe: "Quem és tu que vieste aqui?" Respondeu ele: "Eu sou frade menor". Disse o porteiro: "Espera, que eu vou chamar S. Francisco para ver se te conhece". Indo aquele a S. Francisco, ele começou a olhar as maravilhosas paredes do palácio; e eis, lhe pareciam aquelas paredes transluzirem tanta claridade, e ele via claramente os coros dos santos e o que dentro se fazia. E estando ele estupefato a olhar assim, eis que vêm S. Francisco e Frei Bernardo e Frei Egídio e, atrás deles, tal multidão de santos e santas que tinham seguido a vida deles, que quase parecia inumerável. Chegando, disse S. Francisco ao porteiro: "Deixa-o entrar, porque ele é dos meus frades".

E logo que entrou sentiu tanta consolação e tanta doçura, que esqueceu todas as tribulações que tinha tido, como se não houvessem existido. E então S. Francisco, levando-o para dentro, mostrou-lhe muitas coisas maravilhosas e depois lhe disse: "Filho, é necessário que voltes ao mundo, e aí ficaras sete dias, durante os quais te prepararás diligentemente com toda a devoção; porque, depois de sete dias, eu irei por ti, e então virás comigo para este lugar de bem-aventurados" E S. Francisco trazia um manto maravilhoso adornado de estrelas belíssimas, e seus cinco estigmas eram como cinco estrelas belíssimas e de tanto esplendor que iluminavam todo o palácio com seus raios.

E Frei Bernardo tinha à cabeça uma coroa de estrelas belíssimas, e Frei Egídio estava adornado de maravilhoso lume; e muitos outros santos frades conheceu, os quais no mundo nunca tinha visto. Despedido, pois, por S. Francisco, voltou, ainda que de má vontade, ao mundo. Despertando e estremunhando e voltando a si, os frades tocavam a Prima: de sorte que só tinha durado esta visão entre Matinas e Prima, ainda que lhe parecera durar muitos anos.

E contando em ordem ao seu guardião toda essa visão, dentro de sete dias começou a sentir febre, e no oitavo dia veio a ele S. Francisco, como lhe prometera, com grandíssima multidão de gloriosos santos e conduziu a alma dele ao reino dos bemaventurados à vida eterna.

Em louvor de Cristo. Amém.

Capítulo 27
Como S. Francisco converteu em Bolonha dois estudantes, e se fizeram frades,
e depois um deles se livrou de uma grande tentação

Indo uma vez S. Francisco à cidade de Bolonha, todo o povo da cidade correu a vô-lo; e era tal a multidão de povo, que com grande trabalho pôde chegar à praça. E estando toda a praça cheia de homens e de mulheres e de estudantes, S. - Francisco se ergueu no meio deles em um lugar elevado e começou a pregar o que o Espírito Santo lhe ditava; e pregava tão maravilhosamente, que antes parecia pregar um anjo do que um homem e pareciam as suas palavras celestiais a modo de setas agudas, as quais traspassavam tanto os corações dos que o ouviam, que por aquela prédica grande multidão de homens e mulheres se converteu à penitência.

Entre os quais estavam dois nobres estudantes da Marca de Ancona; um se chamava Peregrino e outro Riccieri; os quais dois pela dita prédica tocados no coração por divina inspiração, chegaram-se a S. Francisco, dizendo que queriam tudo abandonar no mundo e ser dos seus irmãos. Então S. Francisco, conhecendo pela revelação que eles eram mandados por Deus e que na Ordem deviam ter vida santa e considerando-lhes o grande fervor, recebeu-os alegremente, dizendo-lhes: "Tu, Peregrino, seguirás na Ordem a via da humildade, e tu, Riccieri, servirás aos frades".

E assim foi; porque Frei Peregrino não quis ser clérigo, mas leigo, ainda que fosse muito letrado e grande canonista, e pela humildade chegou a grande perfeição de virtude, de modo que Frei Bernardo, primogênito de S. Francisco, disse dele que era um dos mais perfeitos frades do mundo. E finalmente o dito Frei Peregrino, cheio de virtude, passou desta vida à vida dos bem-aventurados, com muitos milagres antes da morte e depois. E o dito Frei Riccieri devotamente e fielmente serviu aos frades, vivendo em grande santidade e humildade; e tornou-se muito familiar de S. Francisco, e muitos segredos lhe revelava S. Francisco. E depois, sendo ministro da província de Marca de Ancona, dirigiu-a muito tempo com grande paz e discrição.

Após algum tempo, Deus lhe permitiu uma grande tentação em sua alma; pelo que, atribulado e angustiado, fortemente se afligia com jejuns, com disciplinas, com lágrimas e orações, de dia e de noite, e não podia no entanto expulsar aquela tentação; mas freqüentes vezes ficava em grande desesperação, porque por ela se reputava abandonado de Deus. Estando nessa desesperação, por último remédio resolveu ir a S. Francisco, pensando assim: "Se S. Francisco me mostrar bom semblante e mostrar familiaridade como costuma, crerei que Deus terá ainda piedade de mim: mas, se não, será sinal de que estou abandonado por Deus".

Partiu, pois, e foi a S. Francisco, o qual nesse tempo estava no palácio do bispo de Assis, gravemente enfermo; e Deus lhe revelou todo o modo da tentação e da desesperação do dito Frei Riccieri, sua decisão e sua vinda. E sem demora, S. Francisco chama Frei Leão e Frei Masseo e lhes diz: "Ide já ao encontro do meu filho caríssimo Frei Riccieri e abraçai-o por mim e saudai-o e dizei-lhe que entre todos os frades que vivem neste mundo eu o amo singularmente".

Estes vão e acham no caminho Frei Riccieri e abraçam-no, dizendo que S. Francisco os tinha mandado. Pelo que tal consolação e doçura lhe entraram na alma que quase foi transportado fora de si; e agradecendo a Deus com todo o coração, caminhou e chegou ao lugar onde S. Francisco estava enfermo. E ainda que S. Francisco estivesse gravemente enfermo, não obstante, sentindo vir Frei Riccieri, levantou-se, foilhe ao encontro e abraçou-o dulcissimamente, e assim lhe falou: "Filho meu caríssimo, Frei Riccieri, entre todos os irmãos que estão neste mundo, amo-te singularmente".

E dito isto, fez-lhe o sinal-da-cruz no fronte, beijou-o ai e depois lhe disse: "Filho caríssimo, esta tentação Deus a permitiu para ganhares grande mérito; mas se não quiseres este prêmio, não a tenhas mais". Maravilhosa coisa! Logo que S. Francisco disse estas palavras, subitamente dele fugiu toda a tentação, como se em toda a sua vida nunca a tivesse tido, e ficou todo consolado.

Capítulo 28
De um arroubamento que veio a Frei Bernardo;
no qual esteve desde Matinas a Nona, sem que voltasse a si

Quantas graças Deus faz muitas vezes aos pobres evangélicos, os quais pelo amor de Cristo abandonam o mundo, se demonstrou em Frei Bernardo de Quintavalle, o qual, depois que tomou o hábito de S. Francisco, era arrebatado freqüentes vezes em Deus pela contemplação das coisas celestiais. Sucedeu uma vez entre outras que, estando ele em uma igreja a ouvir missa e ficando com toda a mente suspensa em Deus, permaneceu tão absorto e arroubado em contemplação, que, à elevação do corpo de Cristo, nada percebeu nem se ajoelhou nem tirou o capuz como faziam os outros que lá estavam; mas sem bater os olhos, ficou assim com o olhar fixo, insensível, de Matinas a Nona.

E após Nona, voltando a si, girava pelo convento gritando com voz admirada: "Ó irmãos! O irmãos! Não há homem nesta terra, por mais nobre e maior, ao qual se lhe fosse prometido um palácio belíssimo cheio de ouro, não lhe fosse possível carregar um saco cheio de esterco para ganhar aquele tesouro tão nobre". A este tesouro celeste, prometido aos amadores de Deus, foi o dito Frei Bernardo tão elevado com a mente, que por quinze anos seguidos sempre andou com a mente e com a face levantadas para o céu: e naquele tempo não saciou a fome à mesa, bem que comesse um pouco do que lhe punham em frente, porque dizia que do que o homem não gosta não faz perfeita abstinência; mas a verdadeira abstinência é não usar das coisas que são agradáveis à boca: e com isto chegou a tal clareza e lume de inteligência, que mesmo os grandes clérigos recorriam a ele para dar solução a fortíssimas questões e a obscuras passagens de Escritura; e ele lhes esclarecia todas as dificuldades.

E porque sua mente estava inteiramente desprendida e abstraída das coisas da terra, ele, como uma andorinha, voava muito alto pela contemplação; pelo que, algumas vezes vinte dias, outras trinta, ficava sozinho nos cumes dos montes altíssimos, contemplando as coisas celestiais.

Por este motivo dizia dele Frei Egídio que não era dado aos outros homens este dom que era dado a Frei Bernardo de Quintavalle, a saber, que a voar se sustentava como a andorinha. E por esta excelente graça que tinha de Deus, freqüentes vezes S. Francisco falava voluntariamente com ele de dia e de noite: donde algumas vezes foram encontrados juntos por toda a noite arroubados' em Deus na selva, na qual se haviam recolhido a falar juntos de Deus, o que é bendito in secula, etc. Amém.

Capítulo 29
Como o demônio em forma de crucifixo apareceu muitas vezes a Frei Rufino, dizendo-lhe que perdia o bem que praticava por não ser dos eleitos à vida eterna. Do que S. Francisco, por uma revelação de Deus, foi advertido e fez reconhecer a Frei Rufino o erro em que tinha acreditado

Frei Rufino, um dos mais nobres homens de Assis e companheiro de S. Francisco, homem de grande santidade, foi um tempo fortissimamente combatido e tentado na alma, pelo demônio, sobre a predestinação, de que ele estava todo melancólico e triste: porque o demônio lhe tinha posto no coração que estava danado e não era dos predestinados à vida eterna, e que se perdia o que ele fazia na Ordem.

Durando aquela tentação muitos dias, e ele por vergonha não a revelando a S. Francisco, sem deixar todavia de fazer as orações e a abstinência de costume; porque o inimigo lhe começou a juntar tristeza sobre tristeza, além da batalha interior, combatendo-o ainda exteriormente com falsas aparições. Pelo que de uma vez lhe apareceu em forma de crucifixo e disse-lhe: "Ó Frei Rufino, por que te afliges com penitências e orações se não és dos predestinados à vida eterna? E crê em mim, porque sei a quem escolhi e predestinei, e não creias no filho de Pedro Bernardone, se ele te disser o contrário, nada lhe perguntes sobre isso, porque nem ele nem ninguém mais o sabe, senão eu, que sou o filho de Deus: portanto crê-me com certeza que és do número dos danados; e o filho de Pedro Bernardone, teu pai, e ainda o pai dele são danados e todo aquele que o seguir está danado e enganado". Ditas estas palavras, Frei Rufino começou a ficar entenebrecido pelo príncipe das trevas e já perdia toda a fé e o amor que tinha por S. Francisco, cuidando de não lhe dizer nada.

Mas o que ao pai santo não disse Frei Rufino, revelou o Espírito Santo. Pelo que S. Francisco, vendo em espírito o tal perigo do dito frade, mandou Frei Masseo a ele; ao qual Frei Rufino respondeu: "Que tenho eu que ver com Frei Francisco?" Então Frei Masseo, todo cheio de divina sabedoria, conhecendo a falácia do demônio, disse: "Ó Frei Rufino, não sabes que Frei Francisco é como um anjo de Deus, o qual tem iluminado tantas almas no mundo e do qual recebemos a graça de Deus? Por isso quero que a todo transe vás a ele; porque vejo claramente que estás enganado pelo demônio"- E dito isto Frei Rufino levantou-se e foi a S. Francisco; e vendo-o vir de longe S. Francisco começou a gritar: "Ó Frei Rufino mauzinho, em quem acreditaste?" E Frei Rufino aproximando-se, ele lhe disse em ordem toda a tentação que tinha tido do demônio dentro e fora; mostrando-lhe claramente que aquele que lhe havia aparecido fora o demônio e não Cristo, e que por maneira nenhuma ele devia consentir em suas sugestões.

"Mas - disse S. Francisco - quando o demônio te disser ainda: 'Tu estás danado', responde-lhe: 'Abre a boca que a quero encher de esterco; e este te seja o sinal de que ele é o demônio e não Cristo: porque, desde que lhe dês tal resposta, imediatamente fugirá. E por isso ainda já devias ter conhecido que ele era o demônio, porque te endureceu o coração a todo bem, o que é próprio do seu oficio; mas Cristo bendito nunca endurece o coração do homem fiel, antes o enternece, conforme disse pela boca do profeta: 'Eu vos tomarei o coração de pedra e vos darei um coração de carne"'.

Então Frei Rufino, vendo que S. Francisco lhe dizia assim por ordem todo o modo de sua tentação, compungido por suas palavras começou a chorar fortissimamente e a venerar S. Francisco e humildemente reconheceu sua culpa de ter-lhe ocultado a tentação. E assim ficou todo consolado e confortado pelas admonições do pai santo e todo mudado para melhor. Depois finalmente lhe disse S. Francisco: "Vai, filho, e confessa-te e não deixes a ocupação da oração costumada e tem como certo que esta tentação é de grande utilidade e consolação, e em breve o experimentarás".

Voltou Frei Rufino à sua cela na floresta; e estando com muitas lágrimas em oração, eis que vem o inimigo em figura de Cristo, segundo a aparência exterior, e disse-lhe: "Ó Frei Rufino, não te disse que não confiasses no filho de Pedro Bernardone e que não te fatigasses com lágrimas e orações, porque estás danado? Que te vale afligir-te enquanto estás vivo, se depois que morreres serás danado?" E subitamente Frei Rufino respondeu ao demônio: "Abre a boca, que a quero encher de esterco". Pelo que o demônio enraivecido imediatamente partiu com tanta tempestade e comoção de pedras do monte Subásio, existente perto dali, que por grande espaço de tempo durou o desabamento das pedras que caíam em baixo; e era tão grande o choque que davam umas nas outras a rolar, que lançavam faíscas horríveis de fogo no vale; e pelo rumor terrível que faziam, S. Francisco e os companheiros saíram do convento para ver que novidade era aquela; e ainda se vê ali aquela ruína grandíssima de pedras.

Então Frei Rufino manifestamente percebeu que havia sido o demônio que o tinha enganado. E voltando a S. Francisco, de novo se lançou em terra e reconheceu sua culpa. E S. Francisco confortou-o com doces palavras e o mandou consolado à sua cela.

Na qual estando em oração devotíssimamente, Cristo bendito lhe apareceu e toda a sua alma inflamou de divino amor e disse: "Bem fizeste, filho, de crer em Frei Francisco, porque aquele que te havia contristado era o demônio; mas eu sou o Cristo teu mestre e, para te dar a certeza, dou-te este sinal: enquanto viveres, não sentirás mais tristeza nenhuma nem melancolia". E dizendo isto Cristo partiu, deixando- o com tanta alegria e doçura de espírito e elevação de mente, que passou aquele dia e a noite absorto e arroubado em Deus. E dora em diante foi tão confirmado em graça e segurança de salvação, que se mudou inteiramente em outro homem, e teria ficado dia e noite em oração a contemplar as coisas divinas, se os outros o tivessem deixado.

Pelo que dizia dele S. Francisco, que Frei Rufino tinha sido canonizado em vida por Jesus Cristo e que na presença ou na ausência dele não duvidava de chamar-lhe S. Rufino, bem que fosse ainda vivo na terra.

Em louvor de Cristo. Amém

Capítulo 30
Da bela prédica que fizeram em Assis S. Francisco e Frei Rufino, quando pregaram nus

Vivia o dito Frei Rufino, pela contemplação continua, tão absorto em Deus, que ficara quase insensível e mudo, e caríssimas vezes falava; e também não tinha a graça nem a coragem nem a facúndia de pregar. No entanto S. Francisco uma vez mandou-o que fosse a Assis e pregasse ao povo o que Deus lhe inspirasse.

Ao que Frei Rufino respondeu: "Reverendo pai, peço-te que me perdoes e não me mandas lá; porque, como sabes, não tenho a graça de pregar, e sou simples e idiota".

Então disse S. Francisco: "Por não teres obedecido prontamente, ordeno-te pela santa obediência que nu como nasceste, somente de bragas, vás a Assis, entres numa igreja e assim nu pregues ao povo". A esta ordem Frei Rufino se despe e vai nu a Assis e entra numa igreja; feita a reverência ao altar, subiu ao púlpito e começou a pregar. Pelo que os meninos e os homens começaram a rir e disseram: "Ora, ai está, fazem tanta penitência que se tornam malucos e fora de si". Neste entrementes S. Francisco, repensando na pronta obediência de Frei Rufino, o qual era dos melhores gentis-homens de Assis, e na dura ordem que lhe dera, começou a repreender-se a si mesmo, dizendo: "De onde te vem tanta presunção, filho de Pedro Bernardone, vil homenzinho, para ordenares a Frei Rufino, o qual é dos melhores gentis-homens de Assis, que fosse nu pregar ao povo, como um louco? Por Deus; que hás de experimentar em ti o que ordenaste ao outro".

E imediatamente no fervor do espírito fica nu do mesmo modo, e vai a Assis e leva consigo a Frei Leão para carregar-lhe o hábito e o de Frei Rufino. Vendo-o da mesma forma. os assisienses escarneciam, reputando que ele e Frei Rufino tivessem endoidecido pelo excesso de penitência. Entrou S. Francisco na igreja onde Frei Rufino pregava estas palavras: "Ó caríssimos, fugi do mundo, deixai o pecado, restitui o bem alheio, se quiserdes evitar o inferno; obedecei aos mandamentos de Deus, amando a Deus e ao próximo, se quiserdes ir ao céu.

E fazei penitência, se quiserdes possuir o reino do céu". Então S. Francisco subiu ao púlpito: e começou a pregar tão maravilhosamente do desprezo do mundo, da penitência santa, da pobreza voluntária, do desejo do reino celeste e da nudez e do opróbrio da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que todos os que ouviam a prédica, homens e mulheres em grande multidão, começaram a chorar fortissimamente com incrível devoção e compunção de coração: e não somente ali mas por toda Assis houve naquele dia tanto choro pela paixão de Cristo como nunca houvera igual.

E assim edificado e consolado o povo pelo ato de S. Francisco e Frei Rufino, S. Francisco vestiu a Frei Rufino, e a si; e assim vestidos voltaram ao convento da Porciúncula, louvando e glorificando a Deus que lhes havia dado a graça de se vencerem a si mesmos pelo desprezo próprio, e edificarem as ovelhinhas de Cristo com bom exemplo e de demonstrarem quanto o mundo é desprezível. E naquele dia cresceu tanto a devoção do povo para com eles, que bendito se considerava quem lhes podia tocar na orla do hábito.

Em louvor de Cristo. Amém.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Infelizmente, devido ao alto grau de estupidez, hostilidade e de ignorância de tantos "comentaristas" (e nossa falta de tempo para refutar tantas imbecilidades), os comentários estão temporariamente suspensos.

Contribuições positivas com boas informações via formulário serão benvindas!

Regras para postagem de comentários:
-
1) Comentários com conteúdo e linguagem ofensivos não serão postados.
-
2) Polêmicas desnecessárias, soberba desmedida e extremos de ignorância serão solenemente ignorados.
-
3) Ataque a mensagem, não o mensageiro - utilize argumentos lógicos (observe o item 1 acima).
-
4) Aguarde a moderação quando houver (pode demorar dias ou semanas). Não espere uma resposta imediata.
-
5) Seu comentário pode ser apagado discricionariamente a qualquer momento.
-
6) Lembre-se da Caridade ao postar comentários.
-
7) Grato por sua visita!

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Ocorreu um erro neste gadget

Pesquisar: