terça-feira, 19 de junho de 2012

Dogmas imutáveis?




Dogmas mutáveis¹.


Padre Guido Matiussi

[Tradução: Gederson Falcometa]

Virá o dia que um Concílio adaptará a religião aos novos tempos, expondo-a segundo as idéias agora aceitadas, como o Concílio de Trento por sua vez a expôs segundo as idéias escolásticas. Assim muitos dizem, e mais despudoradamente que outros, Loisy“.

O conceito de verdade relativa, não é uma vaidade sem dano. Porque junto com o reo subjetivismo kantiniano no qual se funda, ela também leva ao ceticismo. E aquilo que é pior, espalhando o falso conceito e a forma errada de verdade relativa, e, portanto mutável segundo as condições do homem, a tudo aquilo que por qualquer meio passamos a conhecer, vem a causar dano também nas verdades reveladas. Se não ousam tocar precisamente enquanto são em Deus ou a nós vem de Deus, ao menos os despojos enquanto são recebidas pela Igreja, e expressas no ensinamento cristão, e formuladas nas definições dogmáticas. Os autores daquele novo modo de falar a apoiam ainda ao fato, que a nossa mente não pode adequar-se aos divinos mistérios; observam que historicamente as religiões se adaptaram aos conceitos e a voz que encontrou nas escolas humanas; deduzem que as asserções propostas a nossa fé são como são, pelo fato contingente da influência grega prevalecente entre nós; outro seria, se ao princípio tivesse prevalecido a filosofia kantiniana, de Spencer ou de Descartes; e assim podemos esperar que mudando-se o estado das almas com a cultura moderna, também as expressões usadas nos antigos Concílios, e o sentido a essas atribuído, as novas idades e as nossas mentes se adaptarão.

O Ser superior unido a Humanidade de Cristo não seria jamais dito Verbo do Pai, assim dizem, se a filosofia platônica florescente em Alexandria não tivesse sugerido aquela voz e aquele pensamento. Não se teria distinto a Essência do conceito de Pessoa em Deus, se os gregos não tivessem falado de supostos e de razões genéricas específicas. Assim a transubstanciação se funda sobre a opinião da substância distinta dos acidentes. E a graça foi concebida ao modo de qualidade, a causa dos predicamentos aristotélicos. E a alma foi definida como forma do corpo, exprimindo no melhor modo que podia no medievo a união que faz no homem. Mas todas essas determinações passam e mudam como a doutrina que domina na escola. Quem dos modernos compreende mais estas antiquadas noções? Virá o dia que um Concílio adaptará a religião aos novos tempos, expondo-a segundo as ideias agora aceitadas, como o Concílio de Trento por sua vez a expôs segundo as ideias escolásticas. Assim muitos dizem, e mais despudoradamente que outros Loisy.

Ora tudo isto é intolerável. Porque nós somos obrigados a acreditar por fé divina, qualsubesse non potest falsum(como disse o Tridentino), nas verdades reveladas por Deus, propostas pela Igreja, como são contidos nas distintas asserções do magistério comum ou da suprema autoridade. Quem não afirma as proposições onde constam os cânones do Concílio, não aceitando as palavras ai escritas, ou alterando o significado, cai sobre o anátema, Quem se atreve a dizer: Segundo o presente grau de cultura, convém afirmar uma Essência única em Deus, na qual subsiste três Pessoas; talvez, também irá o progresso filosófico mudar o próprio sentido daqueles termos e mostrará inexata a expressão usada até agora? Se fosse licito dizer assim, a presente asserção seria falsa, e a verdade deveria esperar, mas sempre em vão, pelo tempo futuro.

Alguns acreditam ter em mãos um exemplo evidente de verdade dogmática, onde é necessário mudar as ideias, ou ao menos as expressões, na descida de Cristo ao inferno e na ascensão ao céu: dizem que os novos conhecimentos astronômicos destroem de fato as antigas imagens. – Respondemos que, quanto a colocar a habitação dos danados e das almas suspensas no subterrâneo, não existe parecer cientifico algum, com o qual se possa combater a opinião tida como antiquada. Não se chegou ainda a cinco quilômetros de profundidade, e para chegar ao centro ainda faltam mais de seis mil e trezentos. Então, quem chegasse talvez veria ou ouviria almas e diabos? Se o descendit in inferiores partes terraede S. Paulo persuade os Padres, pode igualmente persuadir também a nós. Quanto aos céus, as representações que os antigos podiam fazer dos céus esféricos não foi jamais objeto de fé, e estavam bem cônscios os Escolásticos que tratava-se de opinião humana. Prescindindo de toda determinada imagem do céu, se diz e sempre se dirá entre nós como entre os antípodas, que localmente se eleva da terra e parte em sentido oposto a gravidade; metaforicamente se eleva daqui e vai a lugar mais nobre. Ora, Nosso Senhor foi visto elevando-se do solo indo para o firmamento; foi a lugar mais nobre e glorioso que não era a terra; então se elevou. Se qualquer velho pensou por isto ao primeiro móvel ou a última esfera, pior para ele; nunca na definição dogmática, nunca na profissão comum da fé, de esferas e de empíreo, disso se falou. Então o que se quer mudar? Nada. Ou pensastes vós de poder fazer um ato de fé segundo a cosmografia moderna? Estejam certos de que a Igreja não a definirá nem mais nem menos que a antiga.

No que diz respeito aos divinos mistérios, se advirta que os conceitos ou os nomes não nos são revelados nem infusos, como novas espécies. Devemos tomá-lo da linguagem humana, humanamente determinar-lhe a significação. Pela fé lhe conectamos em juízo, que do contrário não formaríamos. Não nos foi dito sobrenaturalmente que coisa importe a substância ou pessoa, que coisa seja um e três: mais Deus nos disse que Nele uma é a substância e devemos afirmar três pessoas. Aquelas mesmas noções eram naturais nos nossos intelectos, foram cultivadas e clareadas pelo estudo sincero da filosofia, e as melhores escolas da Grécia forneceram certamente uma doutrina racional, da qual pode se valer a Igreja para exprimir exatamente a verdade, não para falar segundo a cultura relativa. Até quando as expressões não foram bastante claras e exatas, a Igreja não definiu, não formulou o dogma que deve permanecer pelos séculos: assim ela foi prudente, assim o Espírito a dirigiu. Mas quando foi necessário dar a exata definição contra os hereges enfurecidos, dispôs Deus que os conceitos e as vozes fossem preparadas convenientemente, para assegurar que as afirmações resultassem em tudo verdadeiras – conformes a realidade, vale dizer – e para sempre imutáveis. Os novos estudos poderão acrescentar novas notícias; corrigir ou tocar aquelas que foram definidas, não poderão nunca (2).

E que a antiga filosofia de Alexandria ou de Atenas tenha podido fornecer elementos a serem incorporados na linguagem teológica católica, como de uma mina se leva o ouro e gemas (Ndt: Pedra preciosa) para o tabernáculo, é sinal de grande honra para está filosofia, e bem demonstra que, embora em muitas partes incertas e errantes, todavia, em grande parte tinha proposto o verdadeiro, com a luz da boa natureza; era uma parte daquela filosofia perennis, que injustamente outros dizem caduca; era um testemunho a bondade da natureza que de Deus recebemos, e que, com verdadeiríssimo sacrilégio, a humana soberba, enquanto aspira a inchar-se e a elevar-se, degrada e destrói. Se ao contrário as modernas filosofias não tem nada a dar ao pensamento cristão, estás se encontram ao invés a ele contrário, e tendem a mudar aquilo que foi estabelecido, é sinal que essas são falsas, e já não são ilustração e desenvolvimento, mas perversão e ruína, da reta razão e da luz natural.

Certamente quem se provou a exprimir os mistérios da Trindade e da encarnação, mudando o conceito antigo de pessoa para aquele que agora corre pelas escolas e pelos livros, mudou aquele dogma em absurdas heresias. Era claro e profundo o antigo conceito de pessoa, melhor que qualquer outro desenvolvido pelo Angélico Doutor, colocando-lhe a parte comum com qualquer suposto na subsistência distinta, e a própria determinação no ser intelectivo. Está última nota vale para discernir a pessoa, que tem razão própria em vista de um fim, das coisas simplesmente voltadas ao bem de outros, como são todas as naturezas inferiores. Mas aquilo que importa ao mistério está na primeira parte da subsistência: aqui competi a verdade revelada que a divina Essência subsiste em três distintas Pessoas; ou a outra, que em Jesus Cristo é única a Pessoa divina, a qual é e assumiu a Humanidade concebida no seio da Virgem Maria. Tríplice então é em Deus, por oposição relativa, não por divisão de entidades absolutas, a personalidade distinta; única é a subsistência em Jesus.

Agora que dirão os modernos? Para adaptarem-se as escolas modernas, deverão colocar a pessoa constituída da consciência. Consciência que é? É ato cognoscitivo de si. Serão em Deus três consciências como três pessoas? Então, Ele conhece a Si mesmo com três atos e o triteísmo, ou um brutíssimo politeísmo, é manifesto. Jesus conhecerá a si mesmo com um só ato? Aqui estamos em plena heresia monofisista, e será removida a distinção perfeita das duas naturezas, com as suas propriedades e operações. Para escapar a tal profanação e absurdidade, dirão ao invés que único é o conhecimento na Divindade, dúplice em Jesus Cristo; mas que Deus tem consciência de ser três, Jesus disse ser um, e em tal modo reduziram a consciência a noção de pessoa? Ou não se notam que o saber de si supõe já o ser constituído; que por consequência é ridículo querer declarar a unicidade real da pessoa, com a consciência de ser um e não mais? Convém que antecedentemente seja verdadeira está unicidade, ou seja, já constituída a pessoa que sabe ser uma. São então estes novos mestres, formados pelos nebulosos conceitos da escola moderna, ou ímpios contra a fé, ou absurdos contra a razão, e de fato corrompem a uma e a outra.

Poderemos induzir outros exemplos, talvez tantos quantos são os dogmas da Igreja, ou quanto são os cânones do Tridentino, a qual atribuem a desventura de ter expresso a doutrina da fé com linguagem da Escola antiga. Que dirão os modernos da graça, ou santificante ou movente? Que dirão para adaptar as novas doutrinas a Eucaristia? Bastará evidentemente para a subjetiva imanência, que se tenha união de pensamento e de espírito, de símbolos e de figuras. De fato disseram: esteja diante da Hóstia consagrada, como se realmente fosse Jesus. Mas isto não é declarar novamente os dogmas; é negar-lhe com verdadeira e já danada heresia. E sem chegar a tais excessos, malgrado é embebida de ceticismo aquela hipótese corrente que, estudando e aprendendo, tem de mudar a doutrina antes adquirida. Isto advém entre aqueles que são semper discentes et nunquam ad scientiant veritatis pervenientes(II Tm. III, 7); não advém na Escola da sã teologia, nem muito menos na Igreja do Deus vivo, a qual é coluna e sustentáculo da verdade (I Tm. III, 15)

(1) “O Veneno Kantiniano”, Roma, Tipografia Pontíficia no Instituto Pio XI, II ed., 1914, pg 320-327;

(2) Então não havia errado, mais verdadeiramente escrevia Bossuet, opondo a indefinida variação da hidra herética, a eternamente imutável verdade das definições dogmáticas na Igreja Católica. E se Newman a isto tivesse contradito, observando que a verdade do catolicismo é inexaurível para as nossas mentes: observação de resto notabilíssima e anquíssima. Mal se imaginou de ver contrariedade quem escreve o artigo “O dogma na história”, na Revista das ciências teológicas, nov. de 1905.

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