segunda-feira, 2 de abril de 2012

Missa Tridentina: como funciona.


Missa Tridentina

A missa tridentina, também chamada missa tradicional ou missa de São Pio V é uma Missa celebrada em latim, de acordo com as formas sucessivas do Missal Romano tal como foi promulgado em 5 de Dezembro de 1570 por S. Pio V, em cumprimento do mandato que recebera do Concílio de Trento (tridentina é o gentílico do topônimo "Trento") e utilizado por toda a Igreja Católica de rito romano até à reforma litúrgica ordenada pelo Concílio Vaticano II. Esta missa é denominada por alguns de missa de sempre, em razão de o rito referir-se aos primórdios do cristianismo (tal como relatado no séc. II por S. Justino Mártir).

Introdução

Existem muitas diferenças entre a missa de 1570 e a missa dos primeiros séculos em Roma. Já antes do Papa Gregório I (590-604) houve, entre outras mudanças, uma revisão radical do cânon da missa e uma redução do número das leitura bíblicas. O Papa Gregório I também reformou o rito romano: ancorou o Pai-Nosso ao final do cânon. mudou a ordem de algumas partes do cânon, inseriu uma frase no Hanc igitur e introduziu "Christe eleison" como variação de "Kyrie eleison". Outros elementos da forma tridentina do rito romano apareceram mais tarde, como o Credo (1014 em Roma) e as orações do ofertório (século XIII).

O Concílio Vaticano II (1962-1965), na constituição Sacrosanctum Concilium (1963), mandou rever o rito da missa, assim como os restantes livros litúrgicos, segundo os princípios enunciados na mesma constituição. Tal ordem foi executada por um grupo de especialistas em liturgia, Bíblia e teologia, nomeados pelo Papa Paulo VI, que promulgou em 1969 o novo Ordo Missae (ordinário da missa, parte invariável de todas as celebrações da missa) e em 1970 o novo Missal Romano. Este Missal Romano reformado conheceu até hoje três edições, em 1970, 1975 e 2002.

Contudo, os católicos chamados tradicionalistas, descontentes com o Concílio Vaticano II e com o rumo então tomado pelas autoridades eclesiásticas, não receberam com bons olhos o novo missal, preferindo celebrar a missa na anterior forma. Eles alegavam que a nova forma da missa dessacralizava o Sacríficio de Cristo e era muito próxima à Ceia Luterana e outras cerimônias protestantes. Entre estes, notabilizou-se o arcebispo Marcel Lefebvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, um dos mais notáveis grupos tradicionalistas. Além deste, há muitos outros grupos católicos tradicionalistas, alguns dos quais em boas relações com a Santa Sé e com os Bispos da Igreja Católica, enquanto outros, entre os quais a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, estão em disacordo. Característica comum de todos estes grupos é celebrarem a missa tridentina, utilizando para isso ou a última edição típica do Missal Romano antes da reforma de Paulo VI, ou seja, o chamado Missal de 1962 (ano em que foi publicado) ou uma edição publicada antes da eleição do Papa João XXIII.

Apesar do missal de 1962 nunca ter sido abrogado juridicamente, na prática, o novo missal deveria substituir o antigo. Face, porém, aos católicos que mantiveram o uso do missal 1962, foi dada permissão ao seu uso em 1984, quando a carta Quattuor abhinc annos atribuiu aos bispos a faculdade de concederem tais autorizações, em casos justificados e com certas limitações. Tais disposições foram confirmadas pelo motu proprio Ecclesia Dei, de 1988.

Em 7 de Julho de 2007, o Papa Bento XVI promulgou o motu proprio "Summorum Pontificum", em que liberaliza o uso, como forma extraordinária do rito romano, do Missal Romano editado em 1962, cujo uso nas missas celebradas sem o povo fica doravante ao arbítrio da cada padre, podendo também a celebração pública ser permitida, sem recorrer ao bispo, se solicitada por um grupo estável de fiéis. A forma ordinária ou normal da celebração da Missa segundo o rito romano continua a ser a do Missal publicado por Paulo VI, mas a forma do ano 1962 está permitida como forma extraordinária.


História

Face às doutrinas propagadas pelos protestantes, o Concílio de Trento reafirmou a doutrina católica sobre a missa, sobretudo nas sessões XIII, em que versou sobre a presença real, e na XXII, sobre o sacrifício. Além disso, mandou elaborar uma lista de abusos cometidos na celebração da missa, a partir da qual promulgou um documento acerca das "coisas a observar e a evitar na celebração da missa". Tais abusos podem reduzir-se a avareza, irreverência e superstição.

A fim de eliminar esses abusos, era intenção do Concílio proceder à reforma dos livros litúrgicos. No entanto, como o Concílio se arrastava há já longos anos, os padres conciliares decidiram, na última sessão, incumbir o Papa Pio IV dessa função. Contudo, foi Pio V que realizou tal incumbência, promulgando, em 1570, através da bula Quo primum tempore, o Missal Romano revisado. Nessa bula, Pio V esclarece que o objectivo da revisão dos livros litúrgicos era restaurar os ritos "em conformidade com a antiga norma dos Santos Padres". No entanto, como afirma a Instrução Geral do Missal Romano, documento que acompanha o Missal de Paulo VI, "este Missal de 1570 pouco difere do primeiro impresso em 1474, o qual, por sua vez, reproduz fielmente o Missal do tempo de Inocêncio III. Além disso, se bem que os códices da Biblioteca Vaticana tenham ajudado a corrigir algumas expressões, não permitiram, naquela diligente investigação dos “antigos e mais fidedignos autores” ir além dos comentários litúrgicos da Idade Média." (IGMR 7)

O rito da missa foi posteriormente revisto por outros papas em 1604, 1634, 1888, 1920, 1955 e 1962. Estas reformas, contudo, foram pouco significativas, exceptuando algumas mais importantes:

Em 1604, Clemente VIII eliminou uma oração a dizer pelo sacerdote ao entrar na igreja, a palavra omnibus nas duas orações a seguir ao Confiteor, o nome do imperador no Cânon Romano e tríplice bênção da missa solene.

Pio XII, em 1956, restaura a Semana Santa
João XXIII publica em 1960 um novo código das rubricas da Missa e insere no Cânon Romano o nome de São José. São estas modificações que dão origem ao missal de 1962, última edição do missal tridentino. Na bula que o acompanha, João XXIII faz referência ao Concílio Vaticano II, então já convocado, que deveria propor os grandes princípios da reforma da liturgia. Esta edição tornou-se a referência para a celebração actual da missa tridentina.

Características da missa tridentina

A estrutura, os momentos e seu significado e grande parte dos textos litúrgicos mantiveram-se com poucas alterações no Missal actual. No entanto, houve uma série de aspectos alterados. Esta secção versa apenas sobre as diferenças da missa tridentina em relação à missa actual. Para uma descrição dos vários momentos da Missa e do seu significado, consulte o Missal Tridentino.

Língua litúrgica e posição do sacerdote

As características mais visíveis da missa tridentina são o uso do latim como língua litúrgica assim como a posição do sacerdote, aparentemente de costas para os fiéis. No entanto, essas diferenças, embora as mais visíveis, são na verdade circunstanciais.

De facto, a missa tridentina admite, teoricamente, a tradução dos textos. Porém, nela persiste o uso do latim por ser um idioma que está "morto", ou seja, não é mais usado e, portanto, não sofre alterações, o que preservaria a Missa de erros litúrgicos e doutrinais a que as palavras das chamadas "línguas vernáculas" estão sujeitas com sua constante evolução semântica e ortográfica. Situação idêntica ocorre nas chamadas "liturgias orientais", onde em vários casos também podem ser usadas outras "línguas mortas": aramaico no rito siríaco, copta no rito alexandrino, eslavo ou grego arcaicos no rito bizantino, entre outros.

Já a posição "de costas ao povo" é mais corretamente definida como "Ad orientem", ou seja, para o leste, direção da Terra Santa, onde Jesus foi crucificado. Na Missa Tridentina, esta posição é também conhecida como "versus Deum", já que nesta Missa o padre fica voltado para Deus Filho (guardado no Sacrário sob as espécies consagradas, segundo a Fé Católica). O padre assume, assim, postura idêntica à do povo, dirigindo as orações da Missa a Deus. Salvo algumas exceções (como a da atual missa latina), os sacerdotes de praticamente todos os ritos católicos e ortodoxos adotam até hoje a posição "ad Orientem" durante a Missa.

Por outro lado, todas as edições do Missal actual são feitas originalmente em latim, e a missa pode sempre ser celebrada nessa língua. Do mesmo modo, nada proíbe que seja celebrada de costas para o povo, o que acontece sempre que, por exemplo, numa igreja o altar não permite que seja doutra forma.

No entanto, abstraindo destes elementos, há outras diferenças significativas entre a missa tridentina e a actual.

Diferenças no rito da missa em relação à actualidade

Na Missa tridentina só o sacerdote e um acólito, sacristão ou ajudante proferiam os textos da missa, excepto nalguns lugares, em que todos os fiéis presentes proferiam os textos destinados ao ajudante. Tal prática, a das chamadas missas dialogadas, vulgarizou-se mais no séc. XX, graças às propostas do chamado Movimento Litúrgico, que propunha o enriquecimento da participação litúrgica. Os assistentes da missa tridentina muitas vezes acompanham a cerimónia através dum livro que apresenta os textos litúrgicos com a respectiva tradução (Missal ou folheto). Outras vezes, porém, vão fazendo outras orações, tais como o terço.

Ritos iniciais

A Missa tridentina começa com as chamadas orações ao pé do altar, por serem proferidas no fundo dos degraus, antes de subir ao altar. São compostas pelo salmo 42 acompanhado pela antífona Introibo ad altare Dei.

Após um versículo, o Confiteor (Confissão) é rezado duas vezes, primeiro pelo sacerdote, depois pelo ajudante, com as respectivas orações de absolvição. Após um responsório, o sacerdote sobe então ao altar e beija-o, proferindo outras duas orações.

No Kyrie, cada invocação é proferida três vezes, e não apenas duas, como na atualidade.

No Glória a Deus nas alturas prevêem-se alguns gestos tais como inclinações e o sinal da cruz ao proferir certas palavras.

Depois de mais uma saudação Dominus vobiscum (O Senhor esteja convosco), o sacerdote profere uma ou várias orações colectas, enquanto que actualmente é sempre apenas uma.

Liturgia dos catecúmenos

A Missa tridentina propõe na maioria das vezes apenas uma leitura antes do Evangelho, geralmente tirada do Novo Testamento, enquanto que o rito actual propõe duas leituras aos domingos e solenidades. Segue-se o chamado Gradual, composto por um refrão e um versículo, substituído actualmente pelo Salmo Responsorial. Tal como hoje, antes do Evangelho era dito o aleluia ou outro texto.

No Credo prevêem-se alguns gestos agora abandonados, como no Glória. Não existe a oração dos fiéis.

O padre no ofertório tem suas mãos lavadas pelos acólitos (lavabo).

Ofertório

É a parte da missa tridentina que apresenta maiores diferenças em relação à prática actual.

Na apresentação do pão e do vinho são ditas fórmulas que expressam oferecimento já em sentido sacrificial, substituídas actualmente por outras que exprimem a simples apresentação. A reforma litúrgica de Paulo VI optou por eliminar as anteriores justificando que antecipavam a idéia de sacrifício própria do Cânon.

Duas outras orações invocam o Espírito Santo e recordam os mistérios da salvação assim como alguns santos. Foram eliminadas por Paulo VI pelas mesmas razões das anteriores.

O rito do Lavabo é acompanhado por uma longa secção do salmo 25, enquanto que actualmente é-o apenas por um versículo do salmo 50.

A incensação, quando realizada, prevê uma série de textos a serem proferidos antes durante e depois, enquanto que actualmente é realizada em silêncio.

O prefácio prevê~e alguns gestos específicos a realizar durante o diálogo que o precede.

Cânon (Oração Eucarística)

O celebrante durante o Cânon, eleva o cálice, para adoração dos fiéis. Fraternidade Sacerdotal São Pedro.

A missa tridentina apresenta uma única Oração Eucarística, o chamado Cânon Romano, que foi o único utilizado durante séculos. O Missal de 1970 apresenta, além desta, outras três Orações Eucarísticas, retiradas da Tradição ou inspiradas noutras liturgias católicas (embora muito alteradas e até desfiguradas).

Na missa tridentina esta parte é usualmente dita pelo sacerdote em voz baixa.

O texto é o mesmo que se usa actualmente, mas com algumas diferenças em relação aos gestos que o acompanham:

o sacerdote beija o altar por duas vezes

faz ao todo 25 sinais da cruz com a mão ou com a patena (reduzidos a 1 por Paulo VI)

após a consagração o sacerdote não separa os dedos polegar e indicador, que seguraram a hóstia

na consagração genuflecte duas vezes à hóstia e duas ao cálice, uma antes e outra depois da elevação


Além disso, diz sempre todos os nomes dos santos e todas as conclusões Per Christum Dominum nostrum. Amen que se inserem no Cânon (actualmente alguns dos nomes e das conclusões tornaram-se facultativas).

As palavras da consagração da hóstia são apenas Hoc est enim Corpus meum (Isto é o meu Corpo) Na consagração do vinho, as palavras Mysterium fidei (Mistério da fé), que hoje são ditas no final da consagração para introduzir a aclamação dos fiéis, são introduzidas na fórmula de consagração, no meio das palavras de Cristo.

Ritos de Comunhão

O Pai-nosso é dito apenas pelo sacerdote, e o ajudante diz apenas a última frase. Durante a fórmula que se lhe segue, o sacerdote benze-se e beija a patena e parte a hóstia em três partes, benzendo o cálice com a mais pequena, que depois deita no cálice.

A oração pela paz (Domine Iesu Christe) é dita em silêncio pelo sacerdote, seguindo-se-lhe outras duas fórmulas longas de preparação para a comunhão, e comunga, proferindo em silêncio mais algumas fórmulas.

A comunhão dos fiéis não está propriamente prevista no texto do missal mas, a fazer-se na missa, os fiéis recitam a Confissão, o sacerdote diz a absolvição respectiva e mostra-lhes a hóstia dizendo Ecce Agnus Dei... (Eis o Cordeiro de Deus...).

A comunhão dos fiéis na missa tridentina é feita sempre na boca e de joelhos, geralmente junto da balaustrada ou grade que separa os presbitério da assembleia. A fórmula dita pelo sacerdote é mais longa que a actual e dita em silêncio fazendo um sinal da cruz com a hóstia.

Segue-se a purificação dos vasos sagrados e das mãos do sacerdote, acompanhadas de mais algumas orações.

O padre celebrante em missa tridentina solene (Alta Missa) despede o povo: Ite, missa est.

Ritos de conclusão

Após a última oração, o sacerdote despede a assembleia dizendo Ite, missa est (Ide, a missa acabou). Só então tem lugar a bênção, precedida duma oração à Santíssima Trindade.

Por fim, lê-se em todas as missas o início do Evangelho de São João.

Apesar de não virem assinaladas no missal, têm lugar, antes da saída para a sacristia, as chamadas preces leoninas (por terem sido prescritas pelo Papa Leão XIII) e 3 Avé Marias.

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