sexta-feira, 30 de março de 2012

Espelho da Perfeição: capítulos CI a CXXIV.




NONA PARTE
Do espírito de profecia

CAPÍTULO 101
Como predisse que a paz seria estabelecida entre o bispo
e o prefeito de Assis, diante dos quais mandou cantar o Cântico das Criaturas,
que havia composto para seus companheiros

Depois que São Francisco compôs o Cântico das Criaturas, que chamara "Cântico do Irmão Sol", uma grande contenda eclodira entre o bispo e o prefeito de Assis, a ponto de o bispo excomungar o prefeito e este proibir vender ou comprar, fosse o que fosse, ao bispo, ou concluir com ele qualquer contrato.

Quando o Seráfico Pai, já enfermo, tomou conhecimento deste fato, ficou profundamente consternado e sentiu por eles grande compaixão, sobretudo por não ter ninguém servido de mediador, para restabelecer a paz entre ambos. Disse então a seus companheiros: "É uma grande vergonha para nós, servidores do Senhor, que o bispo e o prefeito se odeiem a este ponto sem que ninguém se interponha em favor da paz". E, imediatamente, acrescentou um verso alusivo a esta circunstância, ao Cântico das Criaturas, e disse: "Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por amor de ti e suportam injustiças e tribulações. Bemaventurados os que perseveram na paz porque por ti, lá no alto, serão coroados".

Chamou em seguida um de seus companheiros e lhe disse: "Vai à casa do prefeito e dize-lhe de minha parte que venha ao bispado com os notáveis da cidade, todos os que puderes reunir".

Logo que o irmão partiu ele disse aos seus companheiros: "Ide à presença do bispo e do prefeito e de todos os que se encontrarem com eles e cantai o 'Cântico do Irmão Sol'. Confio no Senhor que tornará seus corações mais humildes e eles voltarão à antiga amizade".

Quando todos se reuniram no palácio do bispo os dois frades se levantaram e um deles exclamou: "Nosso pai Francisco compôs durante a sua doença os louvores do Senhor através de suas criaturas, para a glória de Deus e edificação do próximo. Ele vos roga que os escuteis com grande piedade". Começaram então a recitálos e cantá-los.

Imediatamente o prefeito se levantou, cruzou os braços e escutou-os com grande devoção e copiosas lágrimas como se fosse o próprio Evangelho do Senhor; ele tinha, com efeito, grande confiança em São Francisco e verdadeira devoção por ele.

Terminados os louvores, o prefeito disse diante de todos: "Em verdade vos digo, eu perdôo ao Senhor Bispo a quem quero e devo ter como meu senhor e perdoarei mesmo a morte de um irmão ou de um filho". Proferidas estas palavras, prostrou-se de joelho ante o bispo e acrescentou: "Estou pronto a dar-vos satisfação em tudo, como desejais, por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo e do seu servidor São Francisco". O bispo tomou-lhe as mãos e levantou-o, dizendo-lhe: "Meu ofício exige que eu seja humilde, mas, porque sou por natureza inclinado à cólera, é preciso que me perdoes". Eles se abraçaram com grande bem-querer e afeição.

Os frades, ficaram estupefatos ao ver a reconciliação que São Francisco havia predito e se rejubilaram. Todos os que estavam lá consideraram como grande milagre, que atribuíram aos méritos de São Francisco, o fato de que o Senhor os tivesse visitado assim, subitamente, e os fizesse sair de tamanha discórdia e escândalo para a concórdia e a paz, sem se lembrarem de qualquer injúria passada. Nós que vivemos com São Francisco somos testemunhas de que quando ele dizia: "Isto acontece, ou acontecerá", realizava-se sempre literalmente. Presencia-mos tantos e tantos exemplos que seria demasiado longo escrevê-los ou narrá-los.

CAPÍTULO 102
Como predisse a sorte de um frade que não queria se confessar
sob o pretexto de guardar silêncio

Havia um frade de vida honesta e santa que dia e noite parecia se dedicar à oração. Observava o silêncio de tal modo que quando se confessava a um padre o fazia não por palavras, mas por sinais. Parecia tão piedoso e ardente no amor de Deus que, às vezes, quando estava sentado com os outros frades manifestava, embora não revelasse, uma alegria interior e exterior, porque ao ouvirem suas piedosas palavras eles se sentiam mais inclinados à devoção.

Como persistisse neste modo de vida há vários anos, aconteceu que um dia São Francisco veio à casa onde ele morava. Informado pelos outros frades sobre a conduta daquele religioso, disse: "Em verdade, sabei que é por tentação diabólica que este frade não se quer confessar".

Entrementes, o ministro geral, que viera ter com São Francisco, se pôs a fazer elogios ao dito frade na presença do santo patriarca. Ao ouvi-lo, o Seráfico Pai retrucou-lhe: "Acredita-me, irmão, este homem é conduzido por um espírito maligno que o engana". Ao que o ministro geral respondeu: "Parece-me surpreendente e incrível que isto possa acontecer a um homem que manifesta tantos sinais de santidade e pratica tantas boas ações". São Francisco lhe disse, então: "Põe-no à prova, ordena-lhe que se confesse duas vezes por semana. Se não te escutar, saberás que te digo a verdade".

O ministro geral disse então ao homem: "Irmão, quero, em absoluto, que te confesses duas vezes, ou ao menos uma, por semana". O frade pôs o dedo na boca e sacudiu a cabeça mostrando por sinais que não queria fazê-lo por amor ao silêncio. Temendo escandalizá-lo, o ministro o deixou. Poucos dias depois, o frade saiu da Ordem por sua livre vontade, regressando ao mundo com vestes seculares.

Um dia, dois companheiros de São Francisco, enquanto empreendiam uma viagem, o encontraram no caminho. Ia sozinho como um peregrino, paupérrimo. Cheios de compaixão lhe disseram: "Desventurado, onde está a vida santa e honesta que levavas? Não querias falar e explicar-te na presença de teus irmãos e agora erras pelo mundo como um homem que não conhece a Deus".

Ele então se pôs a falar, jurando sempre "por minha fé", como fazem os homens do mundo. "Desgraçado", retrucaram-lhe os frades, "por que juras por tua fé, como fazem os homens do século, tu que te guardavas não somente das palavras inúteis mas também das boas!"

Em seguida o deixaram. Este homem morreu pouco depois. Ficamos surpresos de ver como era verdade o que São Francisco predissera deste miserável, quando os frades o olhavam como a um santo.

CAPÍTULO 103
De certo jovem que chorava na presença de São Francisco
para ser recebido na Ordem

No tempo em que ninguém era admitido à Ordem sem a permissão de São Francisco, o filho de um nobre de Lucca veio ter com ele, juntamente com outros jovens, desejosos de ingressarem na Ordem, quando o Seráfico Pai se encontrava doente no palácio do bispo de Assis. Logo que foram todos apresentados a São Francisco, o jovem de Lucca inclinou-se diante do santo e começou a chorar, suplicando-lhe o admitisse à Ordem. Ao vê-o chorar deste modo, o santo lhe disse: ('Homem miserável e carnal, por que mentes ao Espirito Santo e a mim? Tuas lágrimas provêm da carne e não do espirito". Com efeito, apenas proferiu estas palavras, os pais do jovem apareceram fora do palácio, para prendê-lo e reconduzi-lo à sua casa. Ouvindo o tropel dos cavalos, o jovem olhou pela janela e avistou os seus pais. Dirigiu-se imediatamente para eles e, como o santo havia previsto, retornou com eles ao mundo.

CAPÍTULO 104
Da vinha despojada de suas uvas por causa de são Francisco

Enquanto São Francisco permanecia na igreja de São Fabiano, próximo a Rieti, com um padre pobre, por causa de sua enfermidade dos olhos, o Senhor Papa Honório encontrava-se na cidade com toda sua Cúria. Quase todos os dias, vários cardeais e clérigos importantes visitavam-no por devoção. Ora, essa igreja possuía uma pequena vinha ao longo da casa, onde se encontrava o santo. Havia na casa uma porta pela qual os visitantes penetravam na vinha: as uvas estavam maduras e o lugar era aprazível, de sorte que a vinha foi quase por completo arrasada e despojada de suas uvas.

O padre ficou furioso e lamentou-se: "Embora fosse pequena a minha vinha, colhia dela o vinho de que necessitava e eis que perdi a vindima do ano".

Tendo-o ouvido, o santo fê-lo vir à sua presença e lhe disse: "Senhor, não te aflijas mais; nada posso fazer agora, mas confia no Senhor, porque ele pode compensar-te inteiramente do prejuízo, por mim, seu servidor. Dize-me: quantas medidas de vinho produz a tua vinha nos seus melhores anos?" A esta pergunta o padre respondeu: "Treze medidas, pai". Então, São Francisco lhe disse: "Não te perturbes, nem te entregues à injúria por isso, tem confiança no Senhor e em minhas palavras, pois se colheres menos de vinte medidas, farei completá-las".

O padre tranqüilizou-se imediatamente. No tempo da colheita, por graça divina, colheu exatamente vinte medidas de vinho, nem uma a menos.

Admirou-se sobremodo com isto, pois todos quantos conheciam sua vinha afirmavam que mesmo que estivesse cheia de uvas lhe era impossível colher vinte medidas.

Nós que vivemos com ele somos testemunhas deste fato e de que tudo o que predisse se realizou literalmente.

CAPÍTULO 105
De certos cavaleiros de Perusa que tentavam impedi-lo de pregar

De outra feita, enquanto o santo pregava na praça de Perusa, no meio de grande multidão, alguns cavaleiros se puseram a galopar na praça, empunhando armas. Impediam-no de pregar e embora os assistentes tivessem protestado se recusaram a parar.

São Francisco voltou-se então para eles e lhes disse com grande fervor e devoção: "Escutai e compreendei o que o Senhor vos anuncia por mim, seu humilde servidor, e não digais: 'Oh! é um habitante de Assis"' (falava assim por haver uma velha amizade entre o povo de Perusa e o de Assis).

E bradou-lhes: ('O Senhor vos elevou acima de vossos vizinhos, devíeis, portanto, ser mais gratos ao vosso Criador, humilhando-vos não somente perante Deus, mas também perante os vossos vizinhos. Mas vosso coração cresceu no orgulho, devastastes os países vizinhos e matastes os seus habitantes. Advirto-vos, portanto, que se não vos converterdes imediatamente a Deus, dando satisfação aos que lesastes, o Senhor que não deixa nada impune vos fará precipitar-vos uns contra os outros, em grande vingança, para castigo vosso. Presa da revolta e da guerra civil, sofrereis também tribulações maiores do que as que os vossos vizinhos padeceram por vossa causa".

Quando são Francisco pregava não silenciava jamais sobre os pecados do povo, mas os expunha pública e rigorosamente. O Senhor lhe dera para isto tanta graça que os que o viam ou ouviam, qualquer que fosse o seu estado ou condição, o temiam e respeitavam tanto que, embora tivessem sido energicamente repreendidos, ficavam sempre edificados com suas palavras e se convertiam ao Senhor, ou se arrependiam em conseqüência.

Poucos dias depois, permitiu Deus que uma disputa eclodisse entre os cavaleiros e o povo, de modo que este os expulsou da cidade. Os cavaleiros, apoiados pela Igreja e devastaram os campos, as vinhas, as árvores e fizeram ao povo todo o mal que puderam. Por seu turno, o povo saqueou os bois dos cavaleiros e assim, como predissera São Francisco, um e outro foi punido.

CAPÍTULO 106
Como conheceu, por intuição as tentações
e tribulações secretas que afligiam um religioso

Certo frade, homem de grande vida interior e amigo de São Francisco, fora atormentado durante longos dias por gravíssimas tentações diabólicas. Tais tribulações o levaram a profunda prostração e desespero. Era diariamente atormentado de tal modo que tinha vergonha de se confessar com freqüência e se mortificava por abstinência, vigílias, lágrimas e disciplina.

Deus permitiu que São Francisco fosse ao convento onde se encontrava o dito frade. Um dia, enquanto caminhava com o frade, o Espírito Santo lhe fez conhecer suas tentações e tribulações. Afastando-se de outro frade que os acompanhava, aproximou-se do que estava conturbado e lhe disse: "Caríssimo irmão, não desejo, de hoje em diante, que sejas obrigado a estas tentações do demônio. Não temas, pois elas não causarão nenhum mal a tua alma. com minha permissão, disse o pai-nosso toda vez que fores tentado".

O frade alegrou-se sobremodo por tê-lo eximido da obrigação de confessar tais tentações, pois isto o aborrecia profundamente. Todavia ficou grandemente surpreso ao verificar que São Francisco sabia o que não era conhecido, senão pelos padres com os quais se confessara.

Imediatamente sentiu-se livre de todas as tentações e experimentou grande tranqüilidade e grande paz pela graça de Deus e méritos de São Francisco. Era justamente o que o santo patriarca esperava e por isso o havia, com toda certeza, dispensado da confissão.

São Francisco já sabia, por inspiração divina, o que iria acontecer; eis por que o dispensou da confissão.

CAPÍTULO 107
De suas predições a Frei Bernardo
e como se cumpriram totalmente

Pouco antes de sua morte, como lhe tivessem preparado finas Iguarias, lembrou-se de Frei Bernardo, que foi o primeiro a segui-lo. Disse então a seus companheiros: "Este prato é bom para Frei Bernardo". Imediatamente aquele religioso foi chamado para junto de são Francisco e chegando ao lugar onde se encontrava o santo, sentou-se perto do leito onde ele estava deitado e lhe disse: "Pai, rogo-te que me abençoes e me dês testemunho de tua afeição para comigo, pois se me mostrares teu amor de pai, creio que o próprio Deus e todos os frades me amarão mais". São Francisco não podia vê-lo, pois havia perdido a vista ha vários dias; estendendo a mão direita, pousou-a sobre a cabeça de Frei Egídio, que foi o terceiro dos primeiros companheiros, pensando que a punha sobre a cabeça de Frei Bernardo que estava sentado a seu lado. Imediatamente, por inspiração do Espirito santo, exclamou: "Não é a cabeça de Frei Bernardo".

Este último se aproxima e o santo passa a mão sobre sua cabeça e o abençoa, dizendo a um dos seus companheiros: "Escreve o que te digo: 'O primeiro companheiro que o Senhor me deu foi Frei Bernardo. Ele foi o primeiro a observar em toda perfeição o santo Evangelho, distribuindo todos os seus bens aos pobres. Por estes méritos e tantos outros, sou obrigado a amá-lo mais do que qualquer frade de toda a Ordem. Quero e ordeno, na medida de minhas possibilidades, que quem quer que for ministro geral o ame e honre tanto quanto eu mesmo o faria. Os ministros e os frades da Ordem o olhem como a mim próprio"'. Frei Bernardo e os outros frades ficaram grandemente reconfortados.

Considerando, com efeito, a grande perfeição de Frei Bernardo, São Francisco profetizou a seu respeito diante de alguns frades dizendo: "Em verdade vos digo que os mais poderosos e engenhosos demônios foram enviados a Frei Bernardo para exercitá-lo na virtude, cumulando-o de grandes tentações e tribulações. Todavia, quando chegar perto de sua morte, o Senhor misericordioso o libertará e trará a sua alma e seu corpo tamanha paz e tranqüilidade que os frades que presenciarem tal fato o admirarão e terão por grande milagre; e ele emigrará para o Senhor nesta paz e consolação de espírito".

Todas estas predições, que os frades ouviram com grande surpresa, realizaram-se integralmente. Frei Bernardo durante sua última doença experimentou tal paz e tal repouso de espírito que não queria deitar-se. E quando o fazia, permanecia quase sentado a fim de evitar que a mais leve distração lhe subisse à cabeça e o impedisse de pensar em Deus, trazendo-lhe o sono ou algum sonho. Se isto às vezes acontecia, levantava-se imediatamente e se batia, dizendo: "Que é que há? Em que estou pensando?"

Não queria nem sequer receber qualquer medicamento e dizia a quem lho oferecia: "Não me perturbes!"

Enfim, para morrer mais livremente e mais pacificamente, confiou o cuidado do seu corpo a um frade que era médico e lhe disse: "Não quero ter nenhuma preocupação com alimentação e bebida, mas tu me proverás disto. Se me deres alguma coisa, comerei; se não, nada pedirei".

Logo que se sentiu mais fraco quis ter sempre um padre ao seu lado até a hora da morte. Quando lhe vinha ao espírito um pensamento que pesava na consciência, logo o confessava.

Após a morte seu semblante tornou-se branco e suave, parecendo sorrir. Tornou-se assim mais belo, estando morto, do que vivo. Os frades se alegravam ao vê-lo, pois lhes parecia um santo de face sorridente.

CAPÍTULO 108
Como, próximo à sua morte, fez saber a Santa Clara que ela o veria;
e como isto aconteceu

Na mesma semana em que morreu São Francisco, Santa Clara, primeira plantinha das Pobres Damas de São Damião de Assis, discípula excepcional de São Francisco, na guarda da pobreza evangélica, teve medo de morrer antes dele, pois ambos se encontravam então enfermos. Ela chorava amargamente sem poder se conformar ao pensar que não veria mais, antes de sua morte, seu único pai depois de Deus, São Francisco, sua alegria, seu mestre e aquele que primeiro a estabeleceu na graça de Deus.

Fez saber a São Francisco suas inquietações por intermédio de um de seus frades. Ao ser informado do que ocorria com Santa Clara, o Seráfico Pai, que a amava com uma especial e paternal afeição, encheu-se de compaixão, mas considerando que não podia fazer o que ela desejava, isto é, mostrar-se a ela, escreveu-lhe para sua consolação e de todas as irmãs e lhe enviou sua bênção e sua absolvição de todas as faltas contra as admoestações, ordens e ensinamentos do Filho de Deus, caso ela as houvesse cometido.

Para que abandonasse toda a tristeza, inspirado pelo Espirito Santo, disse ao frade que lhe enviara: "Vai e dize à Dama Clara que deixe toda tristeza e todo pesar de não me poder mais ver; em verdade lhe digo que ela e todas as suas irmãs me verão antes de sua morte e receberão de mim uma grande consolação".

Pouco depois de São Francisco morrer, ao anoitecer, todo o povo e clero de Assis vieram e retiraram o corpo do santo do lugar onde havia morrido, cantando hinos e louvores e agitando ramos de árvores. Pela vontade de Deus, eles o levaram a são Damião para consolação de suas filhas e servas, a fim de que se cumprissem as palavras que o Senhor havia proferido pela boca de são Francisco.

Tendo sido retirada a grade de ferro através da qual as irmãs costumavam comungar e ouvir a palavra de Deus, os frades descobriram o corpo do santo e o reclinaram sobre a janela, bastante tempo; neste momento Santa Clara e suas irmãs ficaram consoladas, embora sentissem grande dor e derramassem copiosas lágrimas ao se verem privadas do consolo e da exortação de tão santo pai.

CAPÍTULO 109
Como predisse que seu corpo receberia honrarias após a sua morte

Certo dia, quando se achava de cama por estar doente, o bispo de Assis, religioso e homem de profunda espiritualidade, disse-lhe, entre sorrindo e brincando: "Por quanto venderias tu todos os teus sacos ao Senhor? Baldaquinos e tecidos de seda cobrirão este corpo que agora jaz vestido de saco". Efetivamente, ele usava uma cinta coberta de pano de saco e suas vestes eram da mesma fazenda. são Francisco respondeu, ou melhor, o Espírito Santo fê-lo por ele, inspirando-lhe estas palavras, proferidas com grande fervor e alegria interior: "Dizes a verdade, pois assim acontecerá para honra e glória de meu Senhor".



DÉCIMA PARTE
Como a divina Providência proveu às suas necessidades materiais



CAPÍTULO 110
Como o Senhor revigorou os frades que tomaram uma frugal refeição
com o médico de São Francisco

Quando estava no eremitério de Fonte Colombo, um médico veio vê-lo por causa de sua doença dos olhos. Tendo permanecido algum tempo na presença do santo, já se dispunha a sair, quando São Francisco ordenou a um dos frades: "Vai, irmão, e prepara uma boa refeição para este médico". Ouvindo esta ordem, o companheiro respondeu: "Pai, neste momento estamos tão desprovidos que teríamos vergonha de convidá-lo para jantar".

Ante esta resposta, São Francisco repreendeu-o e disse a seus companheiros: "Homens de pouca fé, não me façais repetir a ordem!" E o médico falou a são Francisco nestes termos: "Pai, compreendendo agora a pobreza dos frades, tomarei de bom grado esta refeição com eles". Ora, este médico era tão rico que, embora o santo e seus companheiros o tivessem convidado com freqüência, nunca quis partilhar de suas refeições.

Os frades foram então preparar a mesa e envergonhados olhavam um pequeno pão, um pouco de vinho e l gumes que eles mesmos haviam preparado. Quando estavam à mesa e começaram a comer, bateram à porta. Um frade levantou-se e foi abrir. Uma mulher trazia-lhe uma grande cesta cheia de belos pães, peixes, mel e uvas frescas que uma senhora de um burgo, distante daí sete léguas, enviara a São Francisco.

Ao verem o presente, os frades e o médico encheram-se de admiração e de alegria e, considerando a santidade de São Francisco, atribuíram tudo a seus méritos. O médico disse então aos frades: "Nem vós, nem eu, meus irmãos, conhecemos, como devíamos, a santidade deste homem".

CAPÍTULO 111
Como desejou comer certa espécie de peixe durante sua enfermidade

Certa vez, como estivesse gravemente enfermo no palácio do bispo de Assis, os frades pediram-lhe que se alimentasse. Ele respondeu-lhes: "Não tenho vontade, mas se tivésseis um pouco de peixe chamado lixa, talvez comesse algo".

Logo que disse estas palavras, alguém apareceu trazendo num cesto três lixas preparadas e alguns camarões, de que o Seráfico Pai gostava tanto. Essas iguarias haviam sido enviadas por Frei Geraldo, ministro de Rieti.

Os frades ficaram pasmados da súbita intervenção da divina providência. e louvaram ao Senhor que proveu o seu servidor daquilo que lhes era impossível encontrar em Assis, pois estavam no inverno.

CAPÍTULO 112
De certo prato e de certo alimento que desejou antes de morrer

Como estivesse em Santa Maria dos Anjos, padecendo da última enfermidade, mandou chamar seus companheiros e lhes disse: "Sabeis quanto a Senhora Jacoba dei Settesoli foi e permanece ainda fiel e devotada à Ordem e a mim. Creio que ela haveria de considerar uma grande graça e consolação, se lhe fizéssemos saber de meu estado de saúde. Rogai-lhe de modo especial que' me envie um pedaço de fazenda cuja cor seja semelhante à da cinza e um pouco daqueles bolinhos que ela tantas vezes preparou para mim em Roma".

São aqueles bolinhos que os romanos chamam mostaccioli' e que são feitos de amêndoa, açúcar e outro ingrediente.

Esta senhora era, com efeito, de uma profunda espiritualidade. Viúva, era considerada entre os mais nobres e mais ricos de Roma. Pelos méritos e pregações de São Francisco, recebeu do Senhor' tamanha graça que parecia outra Madalena cheia de lágrimas e devoção pelo amor e ternura de Cristo.

Escreveram, pois, a carta como lhes ordenava são Francisco e um irmão foi procurar um outro para levá-la à tal senhora, quando se ouviu bater à porta. Um frade foi abri-la e viu a Senhora Jacoba que chegara apressada para visitar São Francisco.

Ao vê-la um dos frades foi às pressas ter com o Seráfico Pai, para anunciar-lhe com alegria que a Senhora Jacoba havia chegado de Roma com seu filho e várias pessoas para visitá-lo. E perguntou-lhe: "Que devemos fazer, pai? Deixamo-la entrar e vir ter contigo?" Falava assim porque, por vontade do Seráfico Pai, havia sido decidido que nenhuma mulher entrasse na clausura, a fim de preservar a boa ordem e a piedade do lugar. Ao que o santo respondeu: "Não tem cabimento observar esta regra com respeito a tal dama, porque uma grande fé e uma grande devoção fizeram-na vir de tão longe". A Senhora Jacoba foi, portanto, conduzida à presença do santo e ao vê-lo começou a derramar copiosas lágrimas. E maravilha! Ela trazia um pedaço de fazenda escura, isto é, cor de cinza, para confecção de um hábito e tudo quanto havia sido mencionado na carta, como se a houvesse recebido.

E explicou aos frades: "Foi-me revelado em espírito, meus irmãos, enquanto rezava: apressa-te a visitar teu pai São Francisco, pois se tardares mais um pouco não o encontrarás em vida. Leva-lhe aquela fazenda para o habito e os ingredientes para lhe preparar os bolinhos. E ainda leva contigo uma grande quantidade de cera para confeccionar os círios e também incenso". Tudo aquilo, exceto o incenso, havia sido mencionado na carta que lhe deveria ser entregue.

Assim, aquele que inspirou aos três magos a irem com presentes render homenagem a seu Filho no dia do seu nascimento, inspirou esta nobre senhora a proceder da mesma maneira, para com o seu mui caro servidor no dia de sua morte, na realidade de seu verdadeiro nascimento. A Senhora Jacoba preparou, pois, os bolinhos que o santo pai havia desejado, mas ele comeu pouco, porque estava muito próximo da morte. Mandou igualmente que se fizessem muitos círios para iluminar seu santo corpo depois da morte. Com a fazenda os frades confeccionaram um habito em que foi envolvido. Ele mesmo ordenara aos frades que forrassem o tecido com saco, em sinal da santíssima humildade e da soberana pobreza. E na mesma semana em que velo a Senhora Jacoba o santo pai emigrou para o Senhor.



DÉCIMA PRIMEIRA PARTE
De seu amor pelas criaturas, e do das criaturas para com ele

CAPÍTULO 113
Do amor todo especial que tinha pelos pássaros chamados cotovias de capuz
por serem a imagem do bom religioso

Completamente absorvido pelo amor de Deus, São Francisco via a bondade não somente na sua alma adornada da perfeição das virtudes, mas também em todas as criaturas. Eis por que as amava de modo particular e profundo, especialmente aquelas em que vislumbrava a representação de uma qualidade divina ou de algo que pertencesse à Ordem.

Entre todas as aves, amava especialmente a uma pequenina chamada cotovia, ou como se diz comumente "cotovia de capuz". Dizia dela: "A irmã cotovia ostenta seu capuz como um religioso, e é um humilde pássaro que percorre voluntariamente os caminhos para encontrar qualquer grão e, embora o encontre no esterco o retira e come. No seu vôo canta suavemente os louvores ao Senhor, como os bons religiosos já desligados da terra, cujos pensamentos estão sempre voltados para o céu e o fervor para o louvor a Deus. Suas vestes, isto é, suas plumas, são semelhantes à terra dando deste modo exemplo aos religiosos a não levarem vestes finas e de bela coloração, mas hábitos de preço e cor semelhante à terra que é o mais vil dos elementos.

Por ver em tais avezinhas todas estas qualidades, gostava muito de encontrá-las. Por isso pediu ao Senhor que estas mesmas avezinhas lhe testemunhassem um sinal de amor na hora de sua morte. Na tarde de sábado antes da noite em que morreu, após as Vésperas, um bando de cotovias se reuniu sobre o teto da casa onde jazia deitado. Puseram-se a voar em volta da casa, circundando o telhado e cantando docemente, como se louvassem ao Senhor.

CAPÍTULO 114
Como pretendeu persuadir o imperador a editar um decreto
que no dia de Natal os homens alimentassem generosamente as aves,
o boi, o asno e os pobres

Nós que vivemos com São Francisco e escrevemos estas palavras, somos testemunhas de que o ouvimos dizer várias vezes: "Se eu pudesse falar com o imperador, suplicar-lhe-ia que editasse, por amor de Deus, uma lei proibindo se capturarem ou matarem nossas irmãs cotovias, ou lhes causarem qualquer mal. E ordenando ainda que todos os prefeitos das cidades e todos os senhores de burgos e aldeias fossem compelidos todos os anos, no dia de Natal, a obrigarem o povo a lançar trigo e outros grãos pelos caminhos, fora das vilas e dos burgos para que nossas irmãs cotovias tivessem o que comer, como também as outras aves, em tão grande dia de festa". E por respeito para com o Filho de Deus a quem nesta noite a Santíssima Virgem deu à luz numa manjedoura entre o boi e o asno, que quem quer que possuísse um destes animais deveria alimentá-lo generosamente nesta mesma noite. Do mesmo modo, neste dia os pobres deveriam ser abundantemente providos pelos ricos.

E porque tinha um grande respeito pela Natividade de Nosso Senhor, como pelas outras solenidades, costumava dizer: "Depois que o Senhor nasceu por nós, urgia que fôssemos salvos". Era, pois, seu desejo que neste dia todos os cristãos se alegrassem no Senhor e, por amor daquele que se deu a si mesmo por nós, todos demonstrassem grande liberalidade, não somente com os pobres, mas também com os animais e as aves.

CAPÍTULO 115
De seu amor pelo fogo
quando com este lhe fizeram uma cauterização

Obrigado pela obediência ao bispo de Óstia e Frei Elias, ministro geral da Ordem, o Seráfico Pai chegou ao eremitério de Fonte Colombo, próximo a Rieti, para tratar dos olhos. Certo dia, o médico veio vêlo e, depois de examinar-lhe a enfermidade, disse-lhe que desejava cauterizá-lo do maxilar ao olho que estava mais doente. São Francisco, no entanto, não queria começar o tratamento antes da chegada de Frei Elias que havia declarado expressamente que desejava estar presente antes que o médico começasse o tratamento.

Causava também ao santo certo pesar preocupar-se tanto consigo mesmo e por isso hesitava e desejava que Frei Elias ordenasse o que julgasse conveniente.

Impedido pelos negócios do governo da Ordem, o ministro geral não pôde vir, sendo esperado em vão. Vendo que Frei Elias não vinha, São Francisco permitiu, finalmente, que o médico fizesse como entendesse. Tendo o médico colocado o ferro no fogo para a cauterização, São Francisco, para tranqüilizar seu espírito contra o medo do fogo, começou a falar-lhe nestes termos: "Meu irmão Fogo, tu és a mais nobre e a mais útil de todas as criaturas; sê-me, pois, favorável nesta hora, porque sempre te amei e continuarei a amar-te por aquele que te criou. Peço-te, portanto, que moderes teu calor a fim de que eu possa suportá-lo". Tendo terminado sua prece, fez sobre o fogo o sinal-da-cruz.

Nós que estávamos com ele nesta ocasião, retiramo-nos por piedade e compaixão, deixando-o sozinho com o medico. Terminada a cauterização, voltamos para junto dele e ouvimos de sua boca estas palavras: “Homens medrosos e de pouca fé, por que fugistes? Em verdade vos digo, não senti nenhuma dor, nem mesmo a do fogo. E se a cauterização não produzir efeito, repeti-la-emos com melhor resultado"

O médico ficou emocionado e disse: "Meus irmãos, senti grande temor de que tão dolorosa cauterização não pudesse ser suportada por ele que está tão fraco e doente, quando homens muito mais robustos não a suportam. Mas ele não se moveu nem mostrou qualquer sinal de dor".

Com efeito, todas as veias da orelha e do sobrolho foram cauterizadas, sem que se obtivesse qualquer melhora. Outro médico perfurou-lhe as orelhas com um ferro em brasa, sem nenhum resultado.

Que ninguém se admire de que o fogo e as outras criaturas lhe obedecessem e o respeitassem. Nós que vivemos com ele vimos muitas vezes como as amava e se alegrava com elas. Seu espírito estava tão cheio de piedade e compaixão, que se entristecia quando as via tratadas com desprezo. Falava-lhes com alegria interior e exterior como se fossem dotadas de razão e aproveitava sempre estas ocasiões para, enternecido, louvar a Deus.

CAPÍTULO 116
Como não quis apagar o fogo que queimava suas calças
nem permitiu que o apagassem

De todas as criaturas inferiores e insensíveis, o santo tinha particular afeição pelo fogo por causa de sua beleza e utilidade. Eis por que não permitia jamais que o impedissem de realizar suas funções.

Um dia, quando se encontrava perto do fogo, seus calções de linho começaram a queimar-se à altura do joelho sem que ele desse conta disso. Embora sentisse o calor do fogo não quis apagá-lo. Seu companheiro, ao ver a fazenda pegar fogo, precipitou-se para apagá-lo, mas ele o impediu, dizendo: "Não, meu caríssimo irmão, não faças mal ao irmão Fogo!" E não permitiu de forma alguma que o irmão o apagasse.

Mas o irmão foi às pressas procurar o irmão guardião e o levou à presença de São Francisco. Imediatamente, contra a vontade deste último, o fogo foi extinto. Desde então, embora fosse indispensável fazê-lo, não queria jamais que se apagasse um fogo, uma lâmpada ou uma candeia, tal era o seu amor por este elemento.

Nem sequer permitia que um irmão atirasse sobre o fogo um tição fumegante, de um lugar a outro, como se costuma fazer. Antes, desejava que o pusessem cuidadosamente sobre o solo em sinal de respeito para com Deus de quem ele é criatura.

CAPÍTULO 117
Como não quis jamais vestir uma capa por não ter permitido
que o fogo a consumisse

Como passasse a Quaresma no monte Alverne, um dia, à hora da refeição, um de seus companheiros acendeu o fogo na cela onde tomaria refeição. Tendo feito o fogo, foi procurar São Francisco que se encontrava em outra cela, onde rezava, levando-lhe um missal para que lesse o Evangelho do dia. Com efeito, o Seráfico Pai desejava sempre ouvir o Evangelho da missa do dia quando não podia assistir à celebração eucarística.

Quando retornou à cela para fazer a refeição, o fogo já havia atingido o teto que ardia em chamas. Seu companheiro procurava apagá-lo, mas em vão, pois o santo não queria ajudá-lo, e era-lhe de todo impossível apagá-lo sozinho. Apanhando uma capa com que se cobrira durante a noite, retirou-se para o bosque.

Quando os outros frades que moravam mais longe da cela a viram arder em chamas, acorreram todos e apagaram o fogo. Pouco depois, São Francisco voltou para a refeição. Depois, disse a seus companheiros: "Não quero mais usar esta capa porque, por avareza, não permiti que o irmão Fogo a devorasse".

CAPÍTULO 118
Como devotava particular amor à água,
às pedras, ao bosque e às flores

Depois do irmão Fogo, amava de modo todo particular a água porque simboliza a santa penitência e as tribulações pelas quais as almas enxovalhadas são purificadas e porque a primeira ablução da alma se faz com a água do batismo.

Quando lavava as mãos procurava um lugar apropriado de modo que a água que caísse não fosse calcada aos pés. Quando andava por sobre pedras, fazia-o com grande reverência e respeito por amor àquele que disse ser pedra. E quando recitava o Salmo "Sobre o rochedo me ergueste..." fazia-ócom grande respeito e devoção, e dizia: "Sobre o rochedo debaixo de meus pés tu me ergueste".

E recomendava ao irmão que cortava e preparava a lenha para o fogo que jamais abatesse a árvore inteira, mas cortasse de maneira que lhe restasse sempre uma parte intata por amor daquele que quis realizar nossa salvação sobre o lenho da cruz.

Costumava dizer ao irmão que tomava conta do jardim que não ocupasse todo o terreno com legumes, mas reservasse uma parte para as árvores que, em seu tempo, produzem nossas irmãs flores, por amor para com aquele que disse: "a flor dos campos e os lírios dos vales".

Recomendava ainda ao jardineiro que reservasse sempre uma parte do jardim para as ervas odoríferas e plantas que produzem belas flores a fim de que, em seu tempo, elas convidassem ao louvor de Deus os homens que vissem tais ervas e flores. Pois toda criatura diz e proclama: "Deus me criou para ti, ó homem". Nós que vivemos com ele vimo-lo rejubilar-se interior e exteriormente à vista de todas as criaturas. Era tal o seu amor por estas maravilhosas criaturas que, ao tocá-las ou vê-las, seu espírito parecia não mais pertencer à terra, mas ao céu. Por causa do grande consolo que recebeu destas criaturas, compôs pouco antes de sua morte os "Louvores do Senhor nas suas criaturas" para incitar os corações dos que os ouvissem a louvar a Deus e para louvar, ele próprio, ao Senhor nas suas criaturas.

CAPÍTULO 119
Como exaltava o sol e o fogo acima
de todas as criaturas

Acima de todas as criaturas destituídas de razão, São Francisco nutria um amor todo particular pelo sol e pelo fogo. Costumava dizer, com efeito: "De manhã, quando o sol se levanta, todos os homens deveriam louvar a Deus que o criou para nossa utilidade, pois é por ele que nossos olhos São iluminados durante o dia. Do mesmo modo, à tarde, quando desce a noite, todos os homens deveriam glorificar a Deus pelo nosso irmão Fogo pelo qual nossos olhos são iluminados durante a noite. Na verdade, somos todos como cegos e o Senhor ilumina nossos olhos por meio destes nossos irmãos. Portanto, devemos louvar de maneira toda especial nosso Criador por causa destas e de todas as outras criaturas, das quais nós nos servimos cada dia".

E foi isto que nosso pai São Francisco fez durante toda sua vida.

Além disso, quando a doença se agravou ainda mais, punha-se a cantar os "Louvores do Senhor através de suas criaturas" que compusera tempos atrás. E fazia que fossem cantados também por seus companheiros para que, pensando no louvor do Senhor, esquecessem a aspereza de suas penas e de suas enfermidades.

Porque considerava o sol a mais bela das criaturas - pois tinha o privilégio de ser semelhante a Deus - e porque na Sagrada Escritura o próprio Deus intitulou-se a si mesmo como "Sol da Justiça", pôs o seu nome à testa dos Louvores que compôs, quando o Senhor lhe assegurou que entraria no seu reino, e denominou-os "Cântico do Irmão Sol".

CAPÍTULO 120
Eis o "Cântico das Criaturas" que o Seráfico Pai compôs
quando o Senhor lhe assegurou que entraria no seu reino:

Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a bênção.

Só a ti, Altíssimo, são devidos;
E .homem algum é digno
De te mencionar.

Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o senhor irmão Sol
Que clareia o dia
E com sua 'luz nos alumia.
E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo, é a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as estrelas
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo
Pelo qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Água
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Fogo
Pelo qual iluminas a noite.
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a mãe Terra
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e tribulações.
Bem-aventurados os que as sustentam em paz,
Que por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a Morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar.
Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes à tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!

Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande humildade.



DÉCIMA SEGUNDA PARTE
De sua morte e da alegria que experimentou quando conheceu
que a morte estava próxima

CAPÍTULO 121
Da resposta que deu a Frei Elias por lhe ter este censurado
a multa alegria que manifestava

Como se encontrasse doente no palácio episcopal de Assis e a mão do Senhor pesasse sobre ele com mais força do que de costume, o povo de Assis começou a temer que ele morresse à noite e os frades retirassem o seu santo corpo, transladando-o para outra cidade. Decidiram, por isso, que toda a noite um grupo de cavaleiros montasse guarda em torno dos muros do palácio.

Entrementes o Seráfico Pai ordenou que seus companheiros lhe cantassem os "Louvores do Senhor", para reconfortar o seu espírito e impedi-lo de desfalecer por causa das acerbas dores que o afligiam. Ordenou que fizessem o mesmo durante a noite, para edificação e consolação dos leigos que, por sua causa, velavam fora do palácio.

Mas Frei Elias, vendo que São Francisco se reconfortava no Senhor e se fortalecia apesar de seus graves sofrimentos, disse-lhe: "Irmão caríssimo, sinto-me grandemente consolado e edificado pela alegria que experimentas e mostras a teus companheiros, nas tuas enfermidades. Não há dúvida de que os habitantes desta cidade te veneram como a um santo. Todavia, como acreditam firmemente que estás próximo da morte, por causa de tua moléstia incurável, ao ouvir-te assim cantar os Louvores do Senhor, dia e noite, poderão dizer: 'Como pode mostrar tamanha alegria, se está à morte? Deveria antes pensar e meditar"'.

Ao ouvi-lo, o santo pai replicou-lhe: "Lembra-te da visão que tiveste em Foligno, na qual, segundo me disseste, te foi revelado que eu não viveria mais de dois anos? Antes desta visão, pela graça de Deus que suscita tudo que há de bom no coração e inspira palavras santas nos seus servos, meditei continuamente, de dia e de noite, sobre meu fim. Mas depois da revelação que tiveste, fui levado a meditar mais ainda sobre minha morte..."

Em seguida concluiu com grande unção e fervor: "Deixa-me, irmão, alegrar-me no Senhor e cantar seus louvores no meio de meus sofrimentos porque, pela graça do Espírito Santo, eu estou tão unido a meu Senhor que, por sua misericórdia, posso muito bem rejubilar-me no Altíssimo".

CAPÍTULO 122
Como induziu o médico a lhe revelar quantos dias
de vida lhe restavam

Por este tempo um médico de Arezzo, chamado Bom João, muito ligado ao santo, veio lhe fazer uma visita no palácio episcopal de Assis. Em conversa com ele São Francisco o interpelou nestes termos: "Que pensas tu, irmão, de minha enfermidade?" Não quis chamá-lo pelo seu verdadeiro nome por não querer jamais chamar a ninguém de "bom", em respeito para com o Senhor que disse: "Ninguém é bom, senão Deus". Do mesmo modo não chamava a ninguém de mestre ou pai, nem mesmo nas suas cartas, por respeito para com o Senhor que dissera também: "Não vos chameis de mestre, pois não tendes senão um mestre... Não chameis a ninguém de pai na terra, pois não tendes senão um, o Pai celeste".

Ao ouvi-lo, o médico respondeu: "Irmão, ficarás bom, pela graça de Deus". Mas São Francisco replicoulhe: "Dize-me a verdade! Que pensas das minhas enfermidades? Não tenhas medo de me dizer a verdade, pois, pela graça de Deus, não sou tão medroso a ponto de temer a morte. Com a graça do Espírito Santo, estou tão unido a meu Senhor que igualmente estarei contente de viver ou de morrer".

O médico falou-lhe então com toda a franqueza: "Pai, mediante os conhecimentos de medicina, tua moléstia é incurável; penso que morrereis no fim de setembro ou a 4 de outubro".

Ouvindo isto, o santo patriarca estendeu as mãos para o Senhor com grande devoção e respeito, excluindo, com grande alegria de corpo e de alma: "Bendita sejas tu, minha irmã Morte".

CAPÍTULO 123
Como, tão logo soube da Iminência de sua morte,
pediu que lhe cantassem os "Louvores"

Depois disto um frade lhe disse: "Pai, tua vida e teu exemplo foram e ainda são uma luz e um espelho não somente para teus frades mas também para toda a Igreja, e o mesmo será a tua morte. Assim, embora ela seja motivo de tristeza e de dor para teus frades, para ti será uma consolação e uma alegria infinita. Passarás de um grande trabalho ao repouso, de numerosas penas e tentações para a paz eterna, da pobreza material, que tu sempre amaste e perfeitamente serviste, para a vida eterna, onde vereis o Senhor teu Deus face a face, a Ele que neste mundo amaste e desejaste com um amor tão ardente".

Em seguida acrescentou com toda a franqueza: "Pai, sabe em verdade que se o Senhor não te enviar um remédio do céu, tua moléstia é incurável e que te resta, conforme afirmam os médicos, poucos dias de vida. Digo-te isto para reconfortar teu espírito e para que te fortaleças interior e exteriormente no Senhor, a fim de que os frades e os leigos que te visitam te encontrem sempre alegre no Senhor e que depois de tua morte isto seja uma recordação perpétua para os que a presenciaram ou ouviram falar como foram tua vida e tua morte".

Mas o santo, embora sofresse mais do que de costume, parecia estar possuído de uma nova alegria, por saber que sua irmã Morte estava próxima. Com grande fervor de espírito louvou o Senhor, dizendo: "Já que apraz ao Senhor que eu morra brevemente, chamai-me Frei Angelo e Frei Leão para que eles cantem a minha irmã Morte".

Quando os dois frades se apresentaram diante dele, cheios de piedade e tristeza, e com olhos banhados em lágrimas, começaram a cantar "O Cântico do Irmão Sol e das outras criaturas do Senhor", que ele próprio compusera.

Ao chegarem ao penúltimo verso, o santo compôs mais alguns versos em louvor irmã Morte, dizendo:

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a Morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar.

Aí dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes à tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!

CAPÍTULO 124
Como abençoou a cidade de Assis,
quando era transportado a Santa Maria para morrer

Enquanto permanecia no palácio do bispo de Assis, o Seráfico Pai foi advertido, não só por inspiração do Espirito Santo como também pela palavra dos médicos, de que sua morte estava próxima. Sentindo que seu estado se agravava de dia para dia, pois suas forças declinavam, fez-se transportar sobre uma padiola a Santa Maria da Porciúncula, a fim de que sua vida corporal terminasse no mesmo lugar onde começara a conhecer a luz e a vida do espírito.

Quando os carregadores chegaram ao hospital que havia a meio caminho entre Assis e Santa Maria, o santo ordenou-lhes que pusessem a padiola no chão. Como não visse quase nada por causa de sua longa e grave enfermidade dos olhos, pediu que o virassem para a cidade de Assis e, erguendo-se um pouco, abençoou a cidade, dizendo: "Senhor, sei que esta cidade foi outrora lugar e morada de homens iníquos. Mas agora vejo que na tua grande misericórdia, no momento escolhido por ti, mostra-lhe tua imensa compaixão. Somente por tua bondade a escolheste para ser morada e habitação dos que te conhecem na verdade, rendem glória a teu santíssimo nome e espalham entre o povo cristão o aroma de sua santa vida, da verdadeira ciência e da perfeição evangélica. Rogo-te, pois, meu Senhor Jesus Cristo, Pai de misericórdia, que não olhes para as nossas ingratidões, mas te lembres sempre da grande compaixão que tiveste para com ela, a fim de que esta cidade permaneça sempre como habitação e morada dos que te conhecem verdadeiramente e glorificam teu bendito e mui glorioso nome pelos séculos dos séculos. Amém".

Proferidas estas palavras, foi conduzido a Santa Maria, onde, com quarenta anos de idade e vinte de perfeita penitência, emigrou, no dia 4 de outubro do ano do Senhor de 1226, para o Senhor Jesus Cristo, a quem havia amado com todo o coração, com toda sua alma, com todas as suas forças, com ardente desejo e com todo seu afeto; seguindo-o com toda perfeição, correndo atrás de suas pegadas e chegando, por fim, à glória daquele que reina com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.

Aqui termina o Espelho da Perfeição do estado de Frade Menor, no qual se reflete a perfeição de sua vocação.

Louvor e glória a Deus Pai e ao Pilho e ao Espírito Santo.
Aleluia. Aleluia. Aleluia.
Honra e glória sejam dadas à Gloriosa Virgem Maria.
Aleluia. Aleluia. Aleluia.
Exaltemos o seu santo servidor Francisco. Aleluia. Amém.

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