sábado, 31 de março de 2012

Rosário: Supremi Apostolatus Officio (Leão XIII).




CARTA ENCÍCLICA
SUPREMI APOSTOLATUS OFFICIO
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII

A todos os Veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes,
Arcebispos, Bispos do Orbe Católico
em graça e comunhão com a Sé Apostólica
sobre o Rosário de Nossa Senhora.

Veneráveis Irmãos, Saúde e Bênção Apostólica.

O auxílio de Maria nos males presentes da Igreja

1. O ofício do Sumo Pontificado, que Nós exercemos, e a dificílima condição dos tempos presentes, cada dia mais nos induzem e como que nos impelem a prover com tanto maior solicitude à tutela e à incolumidade da Igreja, quanto mais graves são as suas provações. Por isto, enquanto, com todas as forças, nos aplicamos a salvaguardar por todos os modos os direitos da Igreja, e a prevenir e afastar os perigos que ou estão iminentes ou já a rondam, sem trégua nos aplicamos a invocar os celestes auxílios, persuadidos de que só com estes a Nossa obra è as Nossas solicitudes poderão conseguir o êxito desejado.

2. Para este fim, nada consideramos mais eficaz e mais poderoso do que tornar-nos propícia, pela devoção e pela piedade, a grande Mãe de Deus, a Virgem Maria. De fato, mediadora, junto a Deus, da nossa paz, e dispensadora das graças celestes, ela está sentada no Céu no mais alto trono de poder e de glória, para conceder o auxílio do seu patrocínio aos homens, que, entre tantas penas e tantas lutas, fadigosamente caminham para a eterna pátria.

Portanto, estando já agora próxima a anual solenidade destinada a receber os inúmeros e assinalados benefícios concedidos ao povo cristão por meio do santo Rosário de Maria, queremos que, este ano, todo o orbe católico com particular devoção dirija à Virgem Maria a mesma piedosa oração, a fim de que, pela sua intercessão, possamos ter a alegria de ver seu Filho aplacado e movido a compaixão das nossas misérias.

Por tal motivo, julgamos bem, ó Veneráveis Irmãos, dirigir-vos esta Carta, para que, conhecidas as Nossas intenções, possais, com a vossa autoridade e com o vosso zelo, estimular a piedade dos fiéis a corresponder-vos diligentemente.

Poder e bondade de Maria

3. Nos momentos de apreensão e de incerteza, foi sempre o primeiro e sagrado pensamento dos católicos o de recorrerem a Maria, e de se refugiarem na sua maternal bondade. E isto demonstra a firmíssima esperança, antes a plena confiança, que a Igreja Católica com toda razão sempre depositou na Mãe de Deus. De fato, a Virgem Imaculada, escolhida para ser Mãe de Deus, e por isto mesmo feita Co-Redentora do gênero humano, goza junto a seu Filho de um poder e de uma graça tão grande, que nenhuma criatura, nem humana nem angélica, jamais pôde nem jamais poderá atingir uma maior. E, visto como a alegria mais grata para ela é a de ajudar e consolar todo fiel em particular que invoque o seu socorro, não pode haver dúvida de que ela muito mais prazeirosamente deseje acolher, antes, que exulte em acolher, os votos da Igreja toda.

Intervenções de Maria na história de Igreja

4. Mas esta ardente e confiante piedade para com a augusta Rainha do Céu foi posta em mais clara luz quando a violência dos erros largamente difundidos, ou a transbordante corrupção dos costumes, ou o assalto de inimigos poderosos, pareceram pôr em perigo a Igreja militante de Deus.

5. As memórias antigas e modernas e os sagrados fastos da Igreja relembram, de uma parte, as súplicas públicas e particulares e os votos elevados à divina Mãe, e, de outra parte, os auxílios por meio dela obtidos, e a tranqüilidade e a paz pelo Céu concedidas. Daí tiveram origem esses títulos insignes com que os povos católicos a saudaram: Auxiliadora dos cristãos, Socorredora e Consoladora, Dominadora das guerras, Senhora das vitórias, Pacificadora. Entre os quais é principalmente digno de menção o titulo, tão solene, do Rosário, que consagra à imortalidade os seus assinalados benefícios em favor da inteira Família cristã.

6. Nenhum de vós, ó Veneráveis Irmãos, ignora quantas dores e quantas lágrimas, no fim do século XII, proporcionaram à santa Igreja de Deus os hereges Albigenses, que, nascidos da seita dos últimos Maniqueus, haviam infectado de perniciosos erros a França meridional e outras regiões do mundo latino. Espalhando em torno de si o terror das armas, eles tramavam estender o seu domínio pelos morticínios e pelas ruínas. Contra esses péssimos inimigos Deus misericordioso suscitou, como vos é bem conhecido, um homem virtuosíssimo: o ínclito padre fundador da Ordem dominicana. Insigne pela integridade da doutrina, por exemplos de virtude e pelos seus labores apostólicos, ele se preparou com intrépida coragem para travar as batalhas da Igreja Católica, confiando não na força das armas, mas sobretudo na daquela oração que ele, por primeiro, introduziu sob o nome do santo Rosário, e que, ou diretamente ou por meio dos seus discípulos, depois divulgou por toda parte.

Visto como, por inspiração ou por impulso divino, ele bem sabia que, com o auxílio desta oração, poderoso instrumento de guerra, os fiéis poderiam vencer e desbaratar os inimigos, e forçá-los a cessar a sua ímpia e estulta audácia. E é sabido que os acontecimentos deram razão à previsão. De feito, desde quando tal forma de oração ensinada por S. Domingos, foi abraçada e devidamente praticada pelo povo cristão, de um lado começaram a revigorar-se a piedade, a fé e a concórdia, e, de outro, foram por toda parte quebradas as manobras e as insídias dos hereges. Além disto, muitíssimos errantes foram reconduzidos à trilha da salvação, e a loucura dos ímpios foi esmagada por aquelas armas que os católicos haviam empunhado para reprimir a violência.

7. A eficácia e o poder da mesma oração foi, depois experimentada também no século XVI, quando as imponentes forças dos Turcos ameaçavam impor a quase toda a Europa o jugo da superstição da barbárie. Nessa circunstância, o Pontífice S. Pio V, depois de estimular os soberanos cristãos à defesa de uma causa que era a causa de todos, dirigiu todo o seu zelo a obter que a poderosíssima Mãe de Deus, invocada por meio do santo Rosário, viesse em auxílio do povo cristão. E a resposta foi o maravilhoso espetáculo então oferecido ao Céu e à terra; espetáculo que empolgou as mentes e os corações de todos!

Com efeito, de um lado os fiéis, prontos a dar a vida e a derramar o sangue pela incolumidade da religião e da pátria, junto ao golfo de Corinto esperavam impávidos o inimigo; de outro lado, homens inermes, com piedosa e suplicante falange, invocavam Maria, e com a fórmula do santo Rosário repetidamente a saudavam, a fim de que assistisse os combatentes até à vitória. E Nossa Senhora, movida por aquelas preces, os assistiu: porquanto, havendo a frota dos cristãos travado batalha perto de Lepanto, sem graves perdas dos seus desbaratou e matou os inimigos, e alcançou uma esplêndida vitória. Por este motivo o santo Pontífice, para perpetuar a lembrança da graça obtida, decretou que o dia aniversário daquela grande batalha fosse considerado festivo com honra da Virgem das Vitórias; festa que depois Gregório XIII consagrou sob o título do Rosário.

8. Igualmente são conhecidas as vitórias alcançadas sobre as forças dos Turcos, durante o século passado, primeiramente perto de Timisoara, na Rumania, depois perto da ilha de Corfu: com dois dias dedicados à grande Virgem, e após muitas preces a ela elevadas sob a forma do Rosário. Esta foi a razão que levou o Nosso Predecessor Clemente XI a estabelecer que, com prova de gratidão, a Igreja toda celebrasse cada ano a solenidade do santo Rosário.

Louvores do Rosário

9. Portanto, visto que os fatos demonstram o quanto esta oração é agradável à Virgem, e o quanto é eficaz na defesa da Igreja e do povo cristão, em alcançar os divinos favores para os simples indivíduos e para a sociedade inteira, não há-de causar nenhuma admiração que também outros Nossos Predecessores, com palavras de fervoroso encômio, se hajam aplicado a incrementá-la.

Assim Urbano IV afirmou que "cada dia o povo cristão recebe novas graças por meio do Rosário"; Sixto IV proclamou que esta forma de oração "é oportuna, não só para promover a honra de Deus e da Virgem, mas também para afastar os perigos que o mundo nos prepara"; Leão X disse-a "instituída contra os heresiarcas e contra o serpear das heresias"; e Júlio III chamou-lhe "ornamento da Igreja de Roma". Igualmente Pio V, falando desta oração, disse que, "ao difundir-se ela, os fiéis, inflamados por aquelas meditações e afervorados por aquelas preces, começaram de repente a transformar-se com outros homens; as trevas das heresias começaram dissipar-se, e mais clara começou a manifestar-se a luz da fé católica". Finalmente, Gregório XIII declarou que "o Rosário foi instituído por S. Domingos para aplacar a ira de Deus e para obter a intercessão da bem-aventurada Virgem".

O Rosário e os males dos tempos presentes

10. Movido por estas considerações e pelos exemplos dos Nossos Predecessores, julgamos assaz oportuno, nas presentes circunstâncias, ordenar solenes preces a fim de que a Virgem augusta, invocada por meio do santo Rosário, nos impetre de Jesus Cristo, seu Filho, auxílios iguais às necessidades.

11. Bem vedes, ó Veneráveis Irmãos, as incessantes e graves lutas que trabalham a Igreja. Vedes que a moralidade pública e a própria fé - o maior dos bens e o fundamento de todas as outras virtudes estão expostas a perigos sempre mais graves. Assim também vós não só conheceis a Nossa difícil situação e as Nossas múltiplas angústias, mas, pela caridade que a Nós tão estreitamente vos une, as sofreis juntamente conosco.

Porém o fato mais doloroso e mais triste de todos é que tantas almas, remidas pelo sangue de Cristo, como que arrebatadas pelo turbilhão desta época transviada, vão-se precipitando numa conduta sempre mais depravada, e se abismam na eterna ruína; por isto a necessidade do divino auxílio certamente não é menor hoje do que a que era sentida quando o grande Domingos, para curar as feridas da sociedade, introduziu a prática do Rosário mariano. Iluminado do alto, ele viu claramente que para os males do seu tempo não havia remédio mais eficaz do que reconduzir os homens a Cristo, que é "caminho, verdade e vida", mediante a freqüente meditação da Redenção por Ele operada; e interpor junto a Deus a intercessão dessa Virgem a quem foi concedido "aniquilar todas as heresias".

Por este motivo ele dispôs a prática do Rosário de modo que fossem sucessivamente recordados os mistérios da nossa salvação, e a este dever da meditação se entremeasse como que uma mística coroa de saudações angélicas, intercaladas pela oração a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nós, pois, que andamos procurando um igual remédio para não diversos males, não duvidamos de que a mesma oração, pelo santo Patriarca introduzida com tão notável vantagem para o mundo católico, tornar-se-á eficacíssima para aliviar também as calamidades dos nossos tempos.

12. Portanto, em consideração destas razões, não somente exortamos calorosamente todos os cristãos a praticarem, sem se cansar, o piedoso exercício do Rosário, publicamente, ou em particular, nas suas casas e famílias, mas também queremos que todo o mês de Outubro do ano em curso seja consagrado e dedicado à celeste Rainha do Rosário.

Prescrições e privilégios para o mês de outubro

13. Estabelecemos, pois, e ordenamos que, em todo o mundo católico, a solenidade de Nossa Senhora do Rosário seja este ano celebrada com particular devoção e com esplendor de culto. Ordenamos, além disso, que, do dia primeiro de Outubro ao dia dois do seguinte mês de Novembro, em todas as igrejas paroquiais, e, se os Ordinários o julgarem vantajoso e conveniente, também nas outras igrejas e nas capelas dedicadas à Mãe de Deus, se recitem devotamente ao menos cinco dezenas do Rosário, com o acréscimo das Ladainhas Lauretanas. Depois, desejamos que, quando o povo se reunir para tais orações, ou se ofereça o santo Sacrifício da Missa, ou se exponha solenemente o SS. Sacramento, e no fim se dê aos presentes a Bênção com a Hóstia sacrossanta.

14. Vivamente aprovamos que as Confrarias do Rosário, seguindo uma antiga tradição, façam solenes procissões pelas ruas da cidade, em pública demonstração da sua fé. Mas onde, pela adversidade dos tempos, isto não for possível, não duvidamos de que tudo quanto por este lado for subtraído ao culto público será compensado por uma concorrência mais numerosa nas igrejas; e que o fervor da piedade se manifestará por uma prática mais diligente das virtudes cristãs. Em favor, pois, daqueles que executarem tudo quanto mais acima dispusemos, abrimos de bom grado os celestes tesouros da Igreja, a fim de que achem neles o estímulo e ao mesmo tempo o prêmio da devoção.

Por isto, àqueles que, dentro do tempo estabelecido, participarem da pública recitação do Rosário com as Ladainhas, e orarem segundo a Nossa intenção, concedemos, para cada vez, a Indulgência de sete anos e de sete quarentenas: Queremos, igualmente, que de tal benefício possam fruir aqueles que, impedidos por legítima causa de praticar em público o piedoso exercício, o praticarem em particular, e orarem também segundo a Nossa intenção.

15. Depois, àqueles que, dentro do sobredito tempo, ao menos por dez vezes cumprirem a mesma prática, ou em público nas igrejas ou, por justos motivos, nas suas casas, concedemos a Indulgência plenária, desde que à piedosa prática juntem a Confissão e a Comunhão.

16. Esta Indulgência plenária das suas culpas concedemo-la também a todos os que, na mesma solenidade da bem-aventurada Virgem do Rosário ou num dos oito dias seguintes, igualmente se aproximarem do tribunal da Penitência e da Mesa do Senhor, e em alguma igreja rezarem, segundo a Nossa intenção, pelas necessidades da santa Igreja.

Esperanças do Sumo Pontífice

17. Eia, pois, Veneráveis Irmãos: pelo zelo que tendes da honra de Maria e da salvação da sociedade humana, esforçai-vos por alimentar a devoção e por aumentar a confiança do povo para com a grande Virgem. Nós pensamos seja de atribuir-se a divino favor o fato de, mesmo em momentos tão procelosos para a Igreja como estes, haver-se mantido sólida e florescente, na maior parte do povo cristão, a antiga veneração e piedade para com a Virgem augusta. Mas agora esperamos que, incitados por estas Nossas exortações e inflamados pelas vossas palavras, os fiéis se hão de colocar com sempre mais ardente entusiasmo sob a proteção e assistência de Maria, e continuarão a amar com crescente fervor a prática do Rosário, que nossos pais costumavam considerar não só como um poderoso auxílio nas calamidades, mas também como um distintivo honorifico da piedade cristã. A celeste Padroeira do gênero humano acolherá benigna as humildes e unânimes preces que lhe dirigirmos, e, complacente, obter-nos-á que os bons se revigorem na prática da virtude; que os desviados caiam em si e se emendem; e que Deus, justo vingador das culpas, dobrando a misericordiosa clemência, afaste os perigos, e restitua ao povo cristão e à sociedade a tão desejada tranqüilidade.

18. Confortados por esta esperança, com os mais ardentes votos do Nosso coração rogamos vivamente a Deus, pela intercessão d'Aquela em quem Ele depositou a plenitude de todos os bens, que vos conceda a vós, Veneráveis Irmãos, as mais escolhidas e mais abundantes graças celestes, das quais é auspício e penhor a Bênção Apostólica, que de coração concedemos a vós, ao vosso clero e aos povos confiados aos vossos cuidados.

Dado em Roma, junto de S. Pedro, a 1 de Setembro de 1883, sexto ano do Nosso Pontificado.

LEÃO PP. XIII

Humani Generis (Pio XII).

CARTA ENCÍCLICA DO PAPA PIO XII

HUMANI GENERIS

SOBRE OPINIÕES FALSAS QUE AMEAÇAM A DOUTRINA CATÓLICA

A nossos veneráveis irmãos
os Patriarcas, Primazes, Arcebispos e Bispos
e demais Ordinários locais em paz e comunhão com a Sé Apostólica

INTRODUÇÃO

1. As dissensões e erros do gênero humano em questões religiosas e morais têm sido sempre fonte e causa de intensa dor para todas as pessoas de boa vontade e, principalmente, para os filhos fiéis e sinceros da Igreja; mas, de maneira especial, o continuam sendo hoje em dia, quando vemos combatidos até os próprios princípios da cultura cristã.

2. Não é de admirar que haja constantemente discórdias e erros fora do redil de Cristo. Pois, embora possa realmente a razão humana com suas forças e sua luz natural chegar de forma absoluta ao conhecimento verdadeiro e certo de Deus, único e pessoal, que sustém e governa o mundo com sua providência, bem como ao conhecimento da lei natural, impressa pelo Criador em nossas almas, entretanto, não são poucos os obstáculos que impedem a razão de fazer uso eficaz e frutuoso dessa sua capacidade natural. De fato, as verdades que se referem a Deus e às relações entre os homens e Deus transcendem por completo a ordem dos seres sensíveis e, quando entram na prática da vida e a enformam, exigem o sacrifício e a abnegação própria. Ora, o entendimento humano encontra dificuldades na aquisição de tais verdades, já pela ação dos sentidos e da imaginação, já pelas más inclinações, nascidas do pecado original. Isso faz com que os homens, em semelhantes questões, facilmente se persuadam de ser falso e duvidoso o que não querem que seja verdadeiro.

3. Por isso deve-se defender que a revelação divina é moralmente necessária para que, mesmo no estado atual do gênero humano, todos possam conhecer com facilidade, com firme certeza e sem nenhum erro, as verdades religiosas e morais que não são por si inacessíveis à razão.(1)

4. Ademais, por vezes, pode a mente humana encontrar dificuldade mesmo para formar juízo certo sobre a credibilidade da fé católica, não obstante os múltiplos e admiráveis indícios externos ordenados por Deus para se poder provar certamente, por meio deles, a origem divina da religião cristã, exclusivamente com a luz da razão. Isso ocorre porque o homem, levado por preconceitos, ou instigado pelas paixões e pela má vontade, não só pode negar a evidência desses sinais externos, mas também resistir às inspirações sobrenaturais que Deus infunde em nossas almas.



I. FALSAS DOUTRINAS ATUALMENTE EM VOGA

5. Se olharmos para fora do redil de Cristo, facilmente descobriremos as principais direções que seguem não poucos dos homens de estudo. Uns admitem sem discrição nem prudência o sistema evolucionista, que até no próprio campo das ciências naturais não foi ainda indiscutivelmente provado, pretendendo que se deve estendê-lo à origem de todas as coisas, e com ousadia sustentam a hipótese monista e panteísta de um mundo submetido a perpétua evolução. Dessa hipótese se valem os comunistas para defender e propagar seu materialismo dialético e arrancar das almas toda noção de Deus.

6. As falsas afirmações de semelhante evolucionismo pelas quais se rechaça tudo o que é absoluto, firme e imutável, vieram abrir o caminho a uma moderna pseudo-filosofia que, em concorrência contra o idealismo, o imanentismo e o pragmatismo, foi denominada existencialismo, porque nega as essências imutáveis das coisas e não se preocupa mais senão com a "existência" de cada uma delas.

7. Existe igualmente um falso historicismo, que se atém só aos acontecimentos da vida humana e, tanto no campo da filosofia como no dos dogmas cristãos, destrói os fundamentos de toda verdade e lei absoluta.

8. Em meio a tanta confusão de opiniões nos é de algum consolo ao ver os que hoje, não raramente, abandonando as doutrinas do racionalismo em que haviam sido educados, desejam voltar aos mananciais da verdade revelada e reconhecer e professar a palavra de Deus conservada na Sagrada Escritura como fundamento da ciência sagrada. Contudo, ao mesmo tempo, lamentamos que não poucos desses, quanto mais firmemente aderem à palavra de Deus, tanto mais rebaixam o valor da razão humana; e quanto mais entusiasticamente enaltecem a autoridade de Deus revelador, tanto mais asperamente desprezam o magistério da Igreja, instituído por nosso Senhor Jesus Cristo para defender e interpretar as verdades reveladas. Esse modo de proceder não só está em contradição aberta com a Sagrada Escritura, como ainda pela experiência se mostra equívoco. Tanto é assim que os próprios "dissidentes" com freqüência se lamentam publicamente da discórdia que entre eles reina em questões dogmáticas, a tal ponto que se vêem obrigados a confessar a necessidade de um magistério vivo.



II. INFILTRAÇÃO DESSES ERROS NO PENSAMENTO CATÓLICO

9. Os teólogos e filósofos católicos, que têm o grave encargo de defender e imprimir nas almas dos homens as verdades divinas e humanas, não devem ignorar nem desatender essas opiniões que, mais ou menos, se apartam do reto caminho. Pelo contrário, é necessário que as conheçam bem; pois não se podem curar as enfermidades antes de serem bem conhecidas; ademais, nas mesmas falsas afirmações se oculta por vezes um pouco de verdade; e, por fim, essas opiniões falsas incitam a mente a investigar e ponderar com maior diligência algumas verdades filosóficas ou teológicas.

10. Se nossos filósofos e teólogos somente procurassem tirar esse fruto daquelas doutrinas, estudando-as com cautela, não teria motivo para intervir o magistério da Igreja. Embora saibamos que os doutores católicos em geral evitam contaminar-se com tais erros, consta-nos, entretanto, que não faltam hoje os que, como nos tempos apostólicos, amando a novidade mais do que o devido e também temendo que os tenham por ignorantes dos progressos da ciência, intentam subtrair-se à direção do sagrado Magistério e, por esse motivo, acham-se no perigo de apartar-se insensivelmente da verdade revelada e fazer cair a outros consigo no erra.

11. Existe também outro perigo, que é tanto mais grave quanto se oculta sob a capa de virtude. Muitos, deplorando a discórdia do gênero humano e a confusão reinante nas inteligências dos homens e guiados por imprudente zelo das almas, sentem-se levados por interno impulso e ardente desejo a romper as barreiras que separam entre si as pessoas boas e honradas; e propugnam uma espécie de "irenismo" que, passando por alto as questões que dividem os homens, se propõe não somente a combater em união de forças contra o ateísmo avassalaste, senão também a reconciliar opiniões contrárias, mesmo no campo dogmático. E, como houve antigamente os que se perguntavam se a apologética tradicional da Igreja constituía mais impedimento do que ajuda para ganhar almas a Cristo, assim também não faltam agora os que se atreveram a propor seriamente a dúvida de que talvez seja conveniente não só aperfeiçoar mas também reformar completamente a teologia e o método que atualmente, com aprovação eclesiástica, se emprega no ensino teológico, a fim de que se propague mais eficazmente o reino de Cristo em todo o mundo, entre os homens de todas as civilizações e de todas as opiniões religiosas.

12. Se tais propugnadores não pretendessem mais do que acomodar, com alguma renovação, o ensino eclesiástico e seus métodos às condições e necessidades atuais, não haveria quase nada que temer; contudo, alguns deles, arrebatados por imprudente "irenismo", parecem considerar como óbice para restabelecer a unidade fraterna justamente aquilo que se fundamenta nas próprias leis e princípios legados por Cristo e nas instituições por ele fundadas, ou o que constitui a defesa e o sustentáculo da integridade da fé, com a queda do qual se uniriam todas as coisas, sim, mas somente na comum ruína.

13. Os que, ou por repreensível desejo de novidade, ou por algum motivo louvável, propugnam essas novas opiniões, nem sempre as propõem com a mesma intensidade, nem com a mesma clareza, nem com idênticos termos, nem sempre com unanimidade de pareceres; o que hoje ensinam alguns mais encobertamente, com certas cautelas e distinções, outros mais audazes propalarão amanhã abertamente e sem limitações, com escândalo de muitos, em especial do clero jovem, e com detrimento da autoridade eclesiástica. Mais cautelosamente é costume tratar dessas matérias nos livros que são postos à publicidade, já com maior liberdade se fala nos folhetos distribuídos privadamente e nas conferências e reuniões. E não se divulgam somente estas doutrinas entre os membros de um e outro clero, nos seminários e institutos religiosos, mas também entre os seculares, principalmente aqueles que se dedicam ao ensino da juventude.



III. CONSEQÜÊNCIAS

1. Desprezo da teologia escolástica

14. Quanto à teologia, o que alguns pretendem é diminuir o mais possível o significado dos dogmas e libertá­los da maneira de exprimi-los já tradicional na Igreja, e dos conceitos filosóficos usados pelos doutores católicos, a fim de voltar, na exposição da doutrina católica, às expressões empregadas pela Sagrada Escritura e pelos santos Padres. Esperam que, desse modo, o dogma, despojado de elementos que chamam extrínsecos à revelação divina, possa comparar-se frutuosamente com as opiniões dogmáticas dos que estão separados da unidade da Igreja, e que, por esse caminho, se chegue pouco a pouco à assimilação do dogma católico e das opiniões dos dissidentes.

15. Reduzindo a doutrina católica a tais condições, crêem que se abre também o caminho para obter, segundo exigem as necessidades atuais, que o dogma seja formulado com as categorias da filosofia moderna, quer se trate do imanentismo, ou do idealismo, ou do existencialismo, ou de qualquer outro sistema. Alguns mais audazes afirmam que isso se pode e se deve fazer também em virtude de que, segundo eles, os mistérios da fé nunca se podem expressar por conceitos plenamente verdadeiros, mas só por conceitos aproximativos e que mudam continuamente, por meio dos quais a verdade se indica, é certo, mas também necessariamente se desfigura. Por isso não pensam ser absurdo, mas antes, pelo contrário, crêem ser de todo necessário que a teologia, conforme os diversos sistemas filosóficos que no decurso do tempo lhe servem de instrumento, vá substituindo os antigos conceitos por outros novos; de sorte que, de maneiras diversas e até certo ponto opostas, porém, segundo eles, equivalentes, faça humanas aquelas verdades divinas. Acrescentam que a história dos dogmas consiste em expor as várias formas que sucessivamente foi tomando a verdade revelada, de acordo com as várias doutrinas e opiniões que através dos séculos foram aparecendo.

16. Pelo que foi dito é evidente que tais esforços não somente levam ao relativismo dogmático, mas já de fato o contém, pois o desprezo da doutrina tradicional e de sua terminologia favorece tal relativismo e o fomenta. Ninguém ignora que os termos empregados, tanto no ensino da teologia como pelo próprio magistério da Igreja, para expressar tais conceitos podem ser aperfeiçoados e enriquecidos. É sabido também que a Igreja não foi sempre constante no uso dos mesmos termos. Ademais, é evidente que a Igreja não se pode ligar a qualquer efêmero sistema filosófico; entretanto, as noções e os termos que os doutores católicos, com geral aprovação, foram compondo durante o espaço de vários séculos para chegar a obter alguma inteligência do dogma não se assentam, sem dúvida, sobre bases tão escorregadias. Fundam-se realmente em princípios e noções deduzidas do verdadeiro conhecimento das coisas criadas; dedução realizada à luz da verdade revelada, que, por meio da Igreja, iluminava, como uma estrela, a mente humana. Por isso, não há que admirar terem sido algumas dessas noções não só empregadas mas também sancionadas por concílios ecumênicos; de sorte que não é lícito apartar-se delas.

17. Abandonar, pois, ou repelir, ou negar valor a tantas e tão importantes noções e expressões que homens de talento e santidade não comuns, com esforço multissecular, sob a vigilância do sagrado magistério e com a luz e guia do Espírito Santo, conceberam, expressaram e aperfeiçoaram para exprimir as verdades da fé cada vez com maior exatidão, e substituí-las por noções hipotéticas e expressões flutuantes e vagas de uma filosofia moderna que, assim como a flor do campo, hoje existe e amanhã cairá, não só é de suma imprudência, mas também converte o dogma numa cana agitada pelo vento. O desprezo dos termos e noções que os teólogos escolásticos costumam empregar leva naturalmente a abalar a teologia especulativa, a qual, por fundar-se em razões teológicas, eles julgam carecer de verdadeira certeza.

2. Desprezo do magistério da Igreja

18. Desgraçamente, esses amigos de novidades facilmente passam do desprezo da teologia escolástica ao pouco caso e até mesmo ao desprezo do próprio magistério da Igreja, que tanto prestígio tem dado com a sua autoridade àquela teologia. Apresentam este magistério como empecilho ao progresso e obstáculo à ciência; e já existem acatólicos que o consideram como freio injusto, que impede alguns teólogos mais cultos de renovar a teologia. Embora este sagrado magistério, em questões de fé e moral, deva ser para todo teólogo a norma próxima e universal da verdade (visto que a ele confiou nosso Senhor Jesus Cristo a guarda, a defesa e a interpretação do depósito da fé, ou seja, das Sagradas Escrituras e da Tradição divina), contudo, por vezes se ignora, como se não existisse, a obrigação que têm todos os fiéis de fugir mesmo daqueles erros que se aproximam mais ou menos da heresia e, portanto, de observar também as constituições e decretos em que a Santa Sé proscreveu e proibiu tais falsas opiniões. (2) Alguns há que de propósito desconhecem tudo quanto os sumos pontífices expuseram nas encíclicas sobre o caráter e a constituição da Igreja, a fim de fazer prevalecer um conceito vago, que eles professam e dizem ter tirado dos antigos Padres, principalmente dos gregos. Os sumos pontífices, dizem eles, não querem dirimir questões disputadas entre os teólogos; e, assim, cumpre voltar às fontes primitivas e explicar com os escritos dos antigos as modernas constituições e decretos do magistério.

19. Esse modo de falar pode parecer eloqüente, mas não carece de falácia. Pois é verdade que os romanos pontífices em geral concedem liberdade aos teólogos nas questões controvertidas entre os mais acreditados doutores; porém, a história ensina que muitas questões que antes eram objeto de livre discussão já não podem ser discutidas.

20. Nem se deve crer que os ensinamentos das encíclicas não exijam, por si, assentimento, sob alegação de que os sumos pontífices não exercem nelas o supremo poder de seu magistério. Entretanto, tais ensinamentos provêm do magistério ordinário, para o qual valem também aquelas palavras: "Quem vos ouve a mim ouve" (Lc 10,16); e, na maioria das vezes, o que é proposto e inculcado nas encíclicas, já por outras razões pertence ao patrimônio da doutrina católica. E, se os romanos pontífices em suas constituições pronunciam de caso pensado uma sentença em matéria controvertida, é evidente que, segundo a intenção e vontade dos mesmos pontífices, essa questão já não pode ser tida como objeto de livre discussão entre os teólogos.

21. Também é verdade que os teólogos devem sempre voltar às fontes da revelação; pois, a eles cabe indicar de que maneira "se encontra, explícita ou implicitamente" na Sagrada Escritura e na divina Tradição o que ensina o magistério vivo. Ademais, ambas as fontes da doutrina revelada contêm tantos e tão sublimes tesouros de verdade que nunca realmente se esgotarão. Por isso, com o estudo das fontes sagradas rejuvenescem continuamente as sagradas ciências; ao passo que, pelo contrário, a especulação que deixa de investigar o depósito da fé se torna estéril, como vemos pela experiência. Entretanto, isto não autoriza a fazer da teologia, mesmo da chamada positiva, uma ciência meramente histórica. Pois, junto com as sagradas fontes, Deus deu à sua Igreja o magistério vivo para esclarecer também e salientar o que no depósito da fé não se acha senão obscura e como que implicitamente. E o divino Redentor não confiou a interpretação autêntica desse depósito a cada um dos fiéis, nem mesmo aos teólogos, mas exclusivamente ao magistério da Igreja. Se a Igreja exerce esse múnus (como o tem feito com freqüência no decurso dos séculos pelo exercício, quer ordinário, quer extraordinário desse mesmo ofício), é evidentemente falso o método que pretende explicar o claro pelo obscuro; antes, pelo contrário, faz-se mister que todos sigam a ordem inversa. Eis porque nosso predecessor de imortal memória, Pio IX, ao ensinar que é dever nobilíssimo da teologia mostrar como uma doutrina definida pela Igreja está contida nas fontes, não sem grave motivo acrescentou aquelas palavras; "com o mesmo sentido com o qual foi definida pela Igreja".(3)

3. Desprezo das Sagradas Escrituras

22. Voltando às novas teorias de que acima tratamos, alguns há que propõem ou insinuam nos ânimos muitas opiniões que diminuem a autoridade divina da Sagrada Escritura. Pois atrevem-se a adulterar o sentido das palavras com que o concílio Vaticano define que Deus é o autor da Sagrada Escritura, e renovam uma teoria já muitas vezes condenada, segundo a qual a inerrância da Sagrada Escritura se estende unicamente aos textos que tratam de Deus mesmo, ou da religião, ou da moral. Ainda mais, sem razão falam de um sentido humano da Bíblia, sob o qual se oculta o sentido divino, que é, segundo eles, o único infalível. Na interpretação da Sagrada Escritura não querem levar em consideração a analogia da fé nem a tradição da Igreja; de modo que a doutrina dos santos Padres e do Sagrado magistério deveria ser aferida por aquela das Sagradas Escrituras explicadas pelos exegetas de modo puramente humano; o que seria preferível a expor a sagrada Escritura conforme a mente da Igreja, que foi constituída por nosso Senhor Jesus Cristo guarda e intérprete de todo o depósito das verdades reveladas.

23. Além disso, o sentido literal da Sagrada Escritura e sua exposição, que tantos e tão exímios exegetas, sob a vigilância da Igreja, elaboraram, deve ceder lugar, segundo essas falsas opiniões, a uma nova exegese a que chamam simbólica ou espiritual; por meio dela, os livros do Antigo Testamento, que seriam atualmente na Igreja uma fonte fechada e oculta, se abririam finalmente para todos. Dessa maneira, afirmam, desaparecerão todas as dificuldades que somente encontram os que se atêm ao sentido literal das Escrituras.

24. Todos vêem quanto se afastam essas opiniões dos princípios e normas de hermenêutica justamente estabelecidos por nossos predecessores de feliz memória, Leão XIII, na encíclica Providentissimus, e Bento XV, na encíclica Spiritus Paraclitus, e também por nós mesmo, na encíclica Divino Afflante Spiritu.

4 . Erros subseqüentes

25. E não há que admirar terem essas novidades produzido frutos venenosos em quase todos os capítulos da teologia. Põe-se em dúvida que a razão humana, sem o auxílio da divina revelação e da graça divina, possa demonstrar a existência de Deus pessoal, com argumentos tirados das coisas criadas; nega-se que o mundo tenha tido princípio e afirma-se que a criação do mundo é necessária, pois procede da necessária liberalidade do amor divino; nega-se também a Deus a presciência eterna e infalível das ações livres dos homens; opiniões de todo contrárias às declarações do concílio Vaticano.(4)

26. Alguns também põem em discussão se os anjos são pessoas; e se a matéria difere essencialmente do espírito. Outros desvirtuam o conceito de gratuidade da ordem sobrenatural, sustentando que Deus não pode criar seres inteligentes sem ordená-los e chamá-los à visão beatífica. E não só isso, mas, ainda, passando por cima das definições do concílio de Trento, destrói-se o conceito de pecado original juntamente com o de pecado em geral, como ofensa a Deus, e também o da satisfação que Cristo ofereceu por nós. Nem faltam os que defendem que a doutrina da transubstanciação, baseada como está num conceito filosófico já antiquado de substância, deve ser corrigida; de maneira que a presença real de Cristo na santíssima eucaristia se reduza a um simbolismo, no qual as espécies consagradas não são mais do que sinais externos da presença espiritual de Cristo e de sua união íntima com os féis, membros seus no corpo místico.

27. Alguns não se consideram obrigados a abraçar a doutrina que há poucos anos expusemos numa encíclica e que está fundamentada nas fontes da revelação, segundo a qual o corpo místico de Cristo e a Igreja católica romana são uma mesma coisa.(5) Outros reduzem a uma fórmula vã a necessidade de pertencer à Igreja verdadeira para conseguir a salvação eterna. E outros, malmente, não admitem o caráter racional da credibilidade da fé cristã.

28. Sabemos que esses e outros erros semelhantes serpenteiam entre alguns filhos nossos, desviados pelo zelo imprudente ou pela falsa ciência; e nos vemos obrigado a repetir-lhes, com tristeza, verdades conhecidíssimas e erros manifestos, e a indicar-lhes, não sem ansiedade, os perigos de erro a que se expõem.

5. Desprezo da filosofia escolástica

29. É coisa sabida o quanto estima a Igreja a humana razão, à qual compete demonstrar com certeza a existência de Deus único e pessoal, comprovar invencivelmente os fundamentos da própria fé cristã por meio de suas notas divinas, expressar de maneira conveniente a lei que o Criador imprimiu nas almas dos homens, e, por fim, alcançar algum conhecimento, por certo frutuosíssimo, dos mistérios.(6) Mas a razão somente poderá exercer tal oficio de modo apto e seguro se tiver sido cultivada convenientemente, isto é, se houver sido nutrida com aquela sã filosofia, que é já como que um patrimônio herdado das precedentes gerações cristãs e que por conseguinte goza de uma autoridade de ordem superior, porquanto o próprio Magistério da Igreja utilizou os seus princípios e os seus fundamentais assertos, manifestados e definidos lentamente por homens de grande talento, para comprovar a mesma revelação divina. Essa filosofia, reconhecida e aceita pela Igreja, defende o verdadeiro e reto valor do conhecimento humano, os inconcussos princípios metafísicos, a saber, os da razão suficiente, causalidade e finalidade, e a posse da verdade certa e imutável.

30. É verdade que em tal filosofia se expõem muitas coisas que, nem direta, nem indiretamente, se referem à fé ou aos costumes, e que, por isso mesmo, a Igreja deixa à livre disputa dos peritos; entretanto, em outras muitas não existe tal liberdade, principalmente no que diz respeito aos princípios e aos fundamentais assertos que há pouco recordamos. Mesmo nessas questões fundamentais pode-se revestir a filosofia com mais aptas e ricas vestes, reforçá-la com mais eficazes expressões, despojá-la de certos modos escolares menos adequados, enriquecê-la com cautela com certos elementos do progressivo pensamento humano; contudo, jamais é licito derrubá-la ou contaminá-la com falsos princípios, ou estimá-la como um grande monumento, mas já fora de moda. Pois a verdade e sua expressão filosófica não podem mudar com o tempo, principalmente quando se trata dos princípios que a mente humana conhece por si mesmos, ou daqueles juízos que se apóiam tanto na sabedoria dos séculos como no consenso e fundamento da revelação divina. Qualquer verdade que a mente humana, procurando com retidão, descobre não pode estar em contradição com outra verdade já alcançada, pois Deus, verdade suprema, criou e rege a humana inteligência, de tal modo que não opõe cada dia novas verdades às já adquiridas, mas, apartados os erros que porventura se tiverem introduzido, edifica a verdade sobre a verdade, de forma tão ordenada e orgânica como vemos estar constituída a própria natureza da qual se extrai a verdade. Por esse motivo o cristão, seja filósofo, seja teólogo, não abraça apressada e levianamente qualquer novidade que no decurso do tempo se proponha, mas deve sopesá-la com suma diligência e submetê-la a justo exame a fim de que não venha perder a verdade já adquirida ou a corrompa, com grave perigo e detrimento da mesma fé.

31. Se tudo quanto expusemos for bem considerado, facilmente se compreenderá porque a Igreja exige que os futuros sacerdotes sejam instruídos nas disciplinas filosóficas, segundo o método, a doutrina e os princípios do Doutor Angélico,(7) visto que, através da experiência de muitos séculos, conhece perfeitamente que o método e o sistema do Aquinate se distinguem por seu valor singular, tanto para a educação dos jovens quanto para a investigação das mais recônditas verdades, e que sua doutrina está afinada como que em uníssono com a divina revelação e é eficacíssima para assegurar os fundamentos da fé e para recolher de modo útil e seguro os frutos do são progresso.(8)

32. E, pois, altamente deplorável que hoje em dia desprezem alguns a filosofia que a Igreja aceitou e aprovou, e que, imprudentemente, a tachem de antiquada em suas formas e racionalística, como dizem, em seus processos. Pois afirmam que essa nossa filosofa defende erroneamente a possibilidade de uma metafísica absolutamente verdadeira, ao passo que eles sustentam, contrariamente, que as verdades, principalmente as transcendentes, só podem ser expressas por doutrinas divergentes que mutuamente se completam, embora pareçam opor-se entre si. Pelo que, concedem que a filosofia ensinada em nossas escolas, com a lúcida exposição e solução dos problemas, com a exata precisão de conceitos e com as claras distinções, pode ser conveniente preparação ao estudo da teologia, como de fato o foi adaptando-se perfeitamente à mentalidade medieval; crêem, porém, que não é o método que corresponde à cultura e às necessidades modernas. Acrescentam, ainda, que a filosofia perene é só a filosofia das essências imutáveis, enquanto a mente moderna deve considerar a "existência" de cada um dos seres e a vida em sua fluência contínua. E, ao desprezarem esta filosofia, enaltecem outras, antigas ou modernas, orientais ou ocidentais, de forma tal a parecer insinuar que toda filosofia ou doutrina opinável, com o acréscimo de algumas correções ou complementos, se for necessário, harmonizar-se-á com o dogma católico; o que nenhum fiel pode duvidar seja de todo falso, principalmente quando se trata dos errôneos sistemas chamados imanentismo, ou idealismo, ou materialismo, seja histórico, seja dialético, ou também existencialismo, tanto no caso de defender o ateísmo, quanto no de impugnar o valor do raciocínio metafísico.

33. Por fim, acusam a filosofia ensinada em nossas escolas do defeito de atender só à inteligência no processo do conhecimento, sem levar em conta o papel da vontade e dos sentimentos. O que certamente não é verdade; de fato, a filosofia cristã jamais negou a utilidade e a eficácia das boas disposições de toda alma para conhecer e abraçar plenamente os princípios religiosos e morais; ainda mais, sempre ensinou que a falta de tais disposições pode ser a causa de que o entendimento, sufocado pelas paixões e pela má vontade, se obscureça a ponto de não mais ver como convém. E o Doutor Comum crê que o entendimento é capaz de perceber de certo modo os mais altos bens correspondentes à ordem moral, tanto natural como sobrenatural, enquanto experimentar no íntimo certa afetiva "conaturalidade" com esses mesmos bens, seja ela natural, seja fruto da graça; (9) e claro está quanto esse conhecimento, por assim dizer, subconsciente, ajuda as investigações da razão. Porém, uma coisa é reconhecer a força dos sentimentos para auxiliar a razão a alcançar conhecimento mais certo e mais seguro das realidades morais, e outra o que intentam esses inovadores, isto é, atribuir às faculdades volitiva e afetiva certo poder de intuição, e afirmar que o homem, quando, pelo exercício da razão, não pode discernir o que deva abraçar como verdadeiro, recorra à vontade, mediante a qual escolherá livremente entre as opiniões opostas, com inaceitável mistura de conhecimento e de vontade.

34. Nem há que admirar se ponham em perigo, com essas novas opiniões, as duas disciplinas filosóficas que, pela sua própria natureza, estão estreitamente relacionadas com a doutrina católica, a saber, a teodicéia e a ética, cuja função acreditam não seja demonstrar coisa alguma acerca de Deus ou de qualquer outro ser transcendente, mas antes mostrar que os ensinamentos da fé sobre Deus, ser pessoal, e seus preceitos, estão inteiramente de acordo com as necessidades da vida e que por isso mesmo todos devem aceitá-los para evitar a desesperação e obter a salvação eterna; tudo isso está em oposição aberta aos documentos de nossos predecessores Leão XIII e Pio X e não se pode conciliar com os decretos do concílio Vaticano. Não haveria, certamente, tais desvios da verdade que deplorar se também no terreno filosófico todos olhassem com a devida reverência ao magistério da Igreja, ao qual compete, por divina instituição, não só custodiar e interpretar o depósito da verdade revelada, mas também vigiar sobre as disciplinas filosóficas para que os dogmas católicos não sofram dano algum da parte das opiniões não corretas.

6. Erros relativos a certas ciências positivas

35. Resta-nos agora dizer algo acerca de algumas questões que, embora pertençam às disciplinas a que é costume chamar positivas, entretanto, se entrelaçam mais ou menos com as verdades da fé cristã. Não poucos rogam insistentemente que a religião católica tenha em máxima conta a tais ciências; o que é certamente digno de louvor quando se trata de fatos na realidade demonstrados, mas que hão de admitir-se com cautela quando se trata de hipóteses, ainda que de algum modo apoiadas na ciência humana, que tocam a doutrina contida na sagrada Escritura ou na tradição. Se tais conjecturas opináveis se opõem direta ou indiretamente à doutrina que Deus revelou, então esses postulados não se podem admitir de modo algum.

36. Por isso o magistério da Igreja não proíbe que nas investigações e disputas entre homens doutos de ambos os campos se trate da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente (pois a fé nos obriga a reter que as almas são diretamente criadas por Deus), segundo o estágio atual das ciências humanas e da sagrada teologia, de modo que as razões de uma e outra opinião, isto é, dos que defendem ou impugnam tal doutrina, sejam ponderadas e julgadas com a devida gravidade, moderação e comedimento, contanto que todos estejam dispostos a obedecer ao ditame da Igreja, a quem Cristo conferiu o encargo de interpretar autenticamente as Sagradas Escrituras e de defender os dogmas da fé.(10) Porém, certas pessoas, ultrapassam com temerária audácia essa liberdade de discussão, agindo como se a própria origem do corpo humano a partir de matéria viva preexistente fosse já certa e absolutamente demonstrada pelos indícios até agora achados e pelos raciocínios neles baseados, e como se nada houvesse nas fontes da revelação que exigisse a máxima moderação e cautela nessa matéria.

37. Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.(11)

38. Da mesma forma que nas ciências biológicas e antropológicas, há alguns que também nas históricas ultrapassam audazmente os limites e cautelas estabelecidos pela Igreja. De modo particular, é deplorável a maneira extraordinariamente livre de interpretar os livros históricos do Antigo Testamento. Os fautores dessa tendência, para defender a sua causa, invocam indevidamente a carta que há não muito tempo a Comissão Pontifícia para os estudos bíblicos enviou ao arcebispo de Paris.(12) Essa carta adverte claramente que os onze primeiros capítulos do Gênesis, embora não concordem propriamente com o método histórico usado pelos exímios historiadores greco-latinos e modernos, não obstante, pertencem ao gênero histórico em sentido verdadeiro, que os exegetas hão de investigar e precisar; e que os mesmos capítulos, com estilo singelo e figurado, acomodado à mente do povo pouco culto, contêm as verdades principais e fundamentais em que se apóia a nossa própria salvação, bem como uma descrição popular da origem do gênero humano e do povo escolhido. Mas, se os antigos hagiógrafos tomaram alguma coisa das tradições populares (o que se pode certamente conceder), nunca se deve esquecer que eles assim agiram ajudados pelo sopro da divina inspiração, a qual os tornava imunes de todo erro ao escolher e julgar aqueles documentos.

39. Todavia, o que se inseriu na Sagrada Escritura tirado das narrações populares, de modo algum deve comparar-se com as mitologias e outras narrações de tal gênero, as quais procedem mais de uma ilimitada imaginação do que daquele amor à simplicidade e à verdade que tanto resplandece nos livros do Antigo Testamento, a tal ponto que os nossos hagiógrafos devem ser tidos neste particular como claramente superiores aos antigos escritores profanos.



IV. DIRETRIZES

40. Sabemos, é verdade, que a maior parte dos doutores católicos, que com sumo proveito trabalham nas universidades, nos seminários e nos colégios religiosos, estão muito longe desses erros que hoje aberta e ocultamente se divulgam, ou por certo afã de novidades, ou por imoderado desejo de apostolado. Porém, sabemos também que tais opiniões novas podem atrair os incautos, e, por isso mesmo, preferimos nos opor aos começos do que oferecer remédio a uma enfermidade inveterada.

41. Pelo que, depois de meditar e considerar largamente diante do Senhor, para não faltar ao nosso sagrado dever, mandamos aos bispos e aos superiores religiosos, onerando gravissimamente suas consciências, que com a máxima diligência procurem que, nem nas classes, nem nas reuniões, nem em escritos de qualquer gênero, se exponham tais opiniões de modo algum, nem aos clérigos, nem aos fiéis cristãos.

42. Saibam quantos ensinam em institutos eclesiásticos que não poderão em consciência exercer o oficio de ensinar, que lhes foi comado, se não receberem religiosamente as normas que temos dado e se não as cumprirem escrupulosamente na formação dos discípulos. E procurem infundir nas mentes e nos corações dos mesmos aquela reverência e obediência que eles próprios em seu assíduo labor devem professar ao magistério da Igreja.

43. Esforcem-se com todo o alento e emulação por fazer avançar as ciências que professam; mas, evitem também ultrapassar os limites por nós estabelecidos para salvaguardar a verdade da fé e da doutrina católica. Às novas questões que a moderna cultura e o progresso do tempo suscitaram, apliquem sua mais diligente investigação, entretanto, com a conveniente prudência e cautela; e, finalmente, não creiam, cedendo a um falso "irenismo", que os dissidentes e os que estão no erro possam ser atraídos com pleno êxito, a não ser que a verdade íntegra que está viva na Igreja seja ensinada por todos sinceramente, sem corrupção nem diminuição alguma.



V. CONCLUSÃO

44. Fundados nessa esperança, que vossa pastoral solicitude ainda aumentará, concedemos, de todo o coração, como penhor dos dons celestiais e em sinal de nossa paterna benevolência, a todos vós, veneráveis irmãos, a vosso clero e a vosso povo, a bênção apostólica.



Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 12 de agosto de 1950, ano XII de nosso pontificado.



PIO PP. XII





Notas

1. Conc. Vat. I, Const. Dei Filius de Fide Cath., c. 2, "De revelatione".

2. CIC, cân.1324; cf. Conc. Vat. I, Const. Dei Filius, de Fide cath., c. 4, "De fide et ratione", post canones.

3. Pio IX, Inter gravissimas, de 28 de outubro de 1870, Pio IX P.M. Acta, vol. V, p. 260.

4. Cf. Conc.Vat. I, Const. Dei Filius de fide cath., c. l, "De Deo rerum omnium creatore".

5. Cf. Carta. Enc. Mystici Corporis Christi, AAS 35(1943), p.193ss.

6. Cf. Conc. Vat. I, Const. Dei Filius de fide cath., c. 4 "De fide et ratione".

7. CIC, cân.1366, § 2.

8. AAS 38 (1946), p. 387.

9. Cf. S. Tomás, Summa Theol, II-II, q. l, a. 4 ad 3; q. 45, a. 2, in c.

10. Cf. Aloc. Pont. aos membros da Academia das Ciências, 30 nov 1941; AAS, 33(1941), p. 506.

11. Cf. Rm 5,12-19; Conc. Trid., sess. V, cân. l - 4.

12. Dia 16 de janeiro de 1948, AAS 40(1948), pp. 45-48.

Doctor Mellifluus, de Pio XII, sobre São Bernardo de Claraval.


CARTA ENCÍCLICA DO PAPA PIO XII

DOCTOR MELLIFLUUS(*)

SOBRE O VIII CENTENÁRIO DA MORTE DE
SÃO BERNARDO DE CLARAVAL

Aos veneráveis irmãos Patriarcas, Primazes,
Bispos e outros Ordinários,
em paz e comunhão com a Sé Apostólica

INTRODUÇÃO

1. O doutor melífluo, "último dos padres, mas certamente não inferior aos primeiros"(1), distinguiu-se por tais dotes de mente e de espírito, enriquecidos por Deus com dons celestes, que pareceu dominar totalmente nas múltiplas e turbulentas vicissitudes da sua era, por santidade, sabedoria, suma prudência e conselho na ação. Por isso, não só os romanos pontífices e escritores da Igreja católica, mas também não raramente os próprios hereges lhe tributam grandes louvores. E nosso predecessor de feliz memória Alexandre III, quando o inseriu, com universal júbilo, no catálogo dos santos, assim escreveu com veneração: "...Evocamos a santa e venerável vida do mesmo bem-aventurado: pois que ele, amparado por singular prerrogativa da graça, não só resplandeceu em santidade e religião, mas também irradiou, em toda a Igreja de Deus, a luz da sua fé e doutrina. Na verdade não há ninguém, por assim dizer, em toda a cristandade que ignore o fruto que ele produziu na casa de Deus com sua palavra e exemplo, visto que difundiu as instituições da nossa santa religião até às terras estrangeiras e bárbaras... e fez voltar uma infinita multidão de pecadores... à reta prática da vida espiritual".(2) "Ele foi com efeito como escreve o Cardeal Barônio - homem verdadeiramente apostólico, autêntico apóstolo enviado por Deus, poderoso em obras e palavras, tornando célebre em toda a parte e em todas as coisas o seu apostolado com os prodígios que o acompanhavam, de maneira que se deve dizer que em nada foi inferior aos grandes apóstolos... ornamento e ao mesmo tempo amparo de toda a Igreja católica".(3)

2. A esses testemunhos de sumo louvor, a que se podiam acrescentar outros sem-número, dirige-se o nosso pensamento, ao andar o oitavo século desde que o restaurador e fomentador da sagrada ordem cisterciense passou piamente desta vida mortal, que ilustrara com tanta luz de doutrina e fulgor de santidade, à suprema vida. E muito nos agrada meditar e escrever sobre seus grandes méritos, de modo que não só os seus seguidores mas todos quantos se deleitam em tudo o que é verdadeiro, belo e santo, sintam o estímulo de seguir os seus preclaros exemplos de virtude.

Fontes e orientação de sua doutrina

3. A sua doutrina foi embebida quase toda nas páginas da Sagrada Escritura e dos santos padres, que dia e noite tinha à mão e meditava profundamente; não nas sutis disputas dos dialéticos e filósofos, que mais de uma vez parece menosprezar.(4) Deve, todavia, notar-se que ele não rejeita a filosofia humana, a genuína filosofia que conduz a Deus, à vida honesta e à sabedoria cristã; mas aquela que, com vã verbosidade e falaz prestígio das cavilações, presume com temerária audácia subir às coisas divinas e sondar todos os segredos de Deus; de maneira a violar - como freqüentemente acontecia também então - a integridade da fé e miseravelmente cair na heresia.

4. "Vês... - escreve ele - como (s. Paulo apóstolo(5)) faz depender o fruto e a utilidade da ciência do modo de saber? Que quer dizer modo de saber? Que quer dizer senão que se saiba com que ordem, com que vontade, para que fim se deva saber? Com que ordem: em primeiro lugar o que mais convém para a salvação; com que vontade: mais ardentemente o que mais acende o amor; para que fim: não por vaidade, ou por curiosidade, ou coisa parecida, mas somente para edificação própria ou do próximo. Há alguns de fato que gostam de saber só por saber; e é curiosidade ignóbil. Outros há que desejam saber para serem conhecidos; e é indigna vaidade. E há também os que desejam saber para vender a sua ciência, por exemplo, por dinheiro, pelas honras; e é vergonhosa mercadoria. Mas há ainda os que querem saber, para edificar, e é caridade. E, finalmente, os que desejam saber para serem educados; e é prudência".(6)

5. A doutrina, ou melhor, a sabedoria que ele segue e ardentemente ama, bem a exprime com estas palavras: "Há o espírito de sabedoria e de inteligência que, à maneira da abelha que produz cera e mel, tem com que acender a luz da ciência e infundir o sabor da graça. Não espere, portanto, receber o beijo, nem o que compreende a verdade, mas não a ama; nem o que a ama, mas não a compreende".(7) "Que faria a ciência sem o amor? Envaideceria. Que faria o amor sem a ciência? Erraria".(8) "Só resplandecer é vão; só arder é pouco; arder e resplandecer é perfeito."(9) Donde nasça, porém, a verdadeira e genuína doutrina, e como deva unir-se com a caridade, assim explica: "Deus é sabedoria e quer ser amado não só suave mas também sapientemente... Aliás com muita facilidade o espírito do erro zombará do teu zelo, se desprezares a ciência; nem o astuto inimigo tem instrumento mais eficaz para arrancar do coração o amor, do que conseguir que no mesmo amor se ande incautamente, e não com a razão". (10)

6. Claramente se deduz dessas palavras que s. Bernardo, com o estudo e contemplação, procurou unicamente dirigir para a Suma Verdade os raios de verdade recolhidos de toda a parte, estimulado pelo amor, mais do que pela sutileza das opiniões humanas. Dessa Verdade impetrou luz para as inteligências, chama de caridade para os ânimos, as retas normas para o comportamento moral. É essa a verdadeira sabedoria, que supera todas as coisas humanas e tudo conduz à sua fonte, ou seja a Deus, para lhe converter os homens. O doutor melífluo, na verdade, não se dando na agudeza do seu engenho, procede lentamente através dos incertos e mal seguros meandros do raciocínio; não se baseia nos artifícios e hábeis silogismos, de que abusavam muitas vezes no seu tempo os dialéticos, mas, como águia que procura fitar o sol, com vôo rapidíssimo tende para o vértice da verdade. A caridade, com que agia, não conhece impedimentos e como que dá asas à inteligência. Para ele, a doutrina não é meta última, mas caminho que conduz a Deus; não é coisa fria, em que inutilmente o espírito possa deter-se, como se vagueasse enfeitiçado por flutuantes fulgores, mas é movido, impelido e governado pelo amor. Por isso são Bernardo, amparado por tal sabedoria, meditando, contemplando e amando, eleva-se ao supremo ápice da ciência mística, e une-se com o próprio Deus, gozando já nesta vida mortal a bem-aventurança infinita.

Seu estilo

7. E depois o seu estilo vivaz, florido, abundante e sentencioso é tão suave e doce que atrai o espírito do leitor, deleita-o e eleva-o para as coisas do alto; excita, alimenta e dirige a piedade; força, enfim, o ânimo a procurar atingir os bens que não são caducos e passageiros, mas verdadeiros, certos e eternos. Por isso os seus escritos foram sempre tidos em grande consideração; e deles a própria Igreja tirou não poucas páginas celestiais e ardentes de piedade para a sagrada liturgia.(11) Parecem vivificadas pelo sopro do Espírito Santo e resplandecentes de tal esplendor de luz que nunca se podem apagar no decurso dos séculos, pois nascem da alma de quem escreve, sequioso de verdade e caridade e desejoso de nutrir os outros e conformá-los com a sua imagem.(12)

Sua caridade para com Deus

8. Apraz-nos, veneráveis irmãos, citar dos seus livros, para comum utilidade, algumas sentenças, entre as mais belas, acerca desta mística doutrina: "Ensinamos que toda alma, embora carregada de pecados, enredada nos vícios, escrava das paixões, prisioneira no exílio, encarcerada no corpo,.. ainda que, digo, de tal forma condenada e desesperada; ensinamos que ela pode, todavia, encontrar em si não só com que possa dilatar o espírito na esperança do perdão e da misericórdia; mas até com que ouse aspirar às núpcias do Verbo, não temer estreitar um pacto de aliança com Deus, nem ter receio de levar o suave jugo de amor com o Rei dos anjos. O que é que não pode ousar com segurança junto daquele cuja insigne imagem ela vê em si e cuja esplêndida semelhança ela conhece?"(13) "Tal conformidade desposa a alma com o Verbo, visto que assim ela se torna semelhante por meio da vontade àquele a quem é semelhante por natureza e o ama como é amada. Portanto se ama perfeitamente, contraiu as núpcias. Que há de mais aprazível do que tal conformidade? Que há de mais desejável do que aquela caridade, que faz com que, tu, ó alma, não contente do magistério humano, por ti mesma te aproximes com confiança do Verbo, estejas sempre unida ao Verbo, interrogues familiarmente o Verbo e o consultes sobre todas as coisas, tanto capaz de compreender quanto és audaz no desejo? É isso realmente um contrato de espiritual e santo conúbio. Disse pouco, contrato: é um abraço, na verdade, em que querer ou não querer a mesma coisa faz de dois um só espírito. Nem há que recear que a diferença das pessoas torne de qualquer maneira imperfeito o acordo das vontades, porque o amor não conhece temor reverencial. De fato amor vem de amar, não de reverenciar... O amor transborda, o amor; quando chega, assimila e submete todas as outras afeições. Por isso quem ama, ama e mais nada sabe".(14)

9. Depois de ter observado que Deus quer ser amado pelos homens, muito mais que temido e reverenciado, acrescenta com agudeza e sagacidade: "Ele (o amor) basta por si só, agrada em si mesmo e por causa de si. É mérito e prêmio de si mesmo. O amor não procura motivo, nem fruto, fora de si. O seu fruto é o seu uso. Amo porque amo, amo para amar. Grande coisa é o amor, desde que recorra ao seu princípio, desde que voltando à sua origem, restituído à sua fonte, sempre dela tome o de que perenemente se alimentar. Entre todos os movimentos, sentimentos e afetos da alma, é só no amor que a criatura pode, embora não adequadamente, corresponder ao seu Autor, ou pagar com o mesmo amor".(15)

10. Visto que ele próprio várias vezes experimentou, na contemplação e na oração, esse divino amor com o qual nos podemos unir estreitamente a Deus, do seu espírito saem estas palavras abrasadas: "Feliz (a alma) que mereceu ser prevenida com a bênção de tão grande suavidade! Feliz, porque teve a graça de experimentar tão grande abraço de felicidade! Isso não é outra coisa senão amor santo e casto, suave e doce; amor tão sereno como sincero; amor mútuo, íntimo e forte, que une dois não numa carne só, mas num só espírito, faz com que dois já não sejam dois, mas um só, como disse s. Paulo:(16) 'Quem adora a Deus é um só espírito com ele"'.(17)

11. Essa doutrina mística do Doutor de Claraval, que excede e pode satisfazer todos os desejos humanos, parece em nosso tempo ser desprezada e posta de parte, ou esquecida por muitos, que, impedidos pelos cuidados e negócios cotidianos, não procuram nem desejam outra coisa senão o que é útil e rendoso para esta vida mortal e quase nunca erguem os olhos e o espírito para o céu; quase nunca aspiram às coisas celestiais, aos bens imortais.

12. Ora, embora nem todos possam atingir o cume de tal contemplação divina, de que fala s. Bernardo com sublimes pensamentos e palavras; embora nem todos possam unir-se tão intimamente a Deus, que se sintam unidos ao Sumo Bem como que pelos vínculos de arcano conúbio celestial; todavia, todos podem e devem elevar de vez em quando o espírito das coisas terrenas às celestes, e amar com vontade apaixonada o Supremo Doador de todos os bens.

Necessidade desta caridade para nossa época

13. Por isso, enquanto hoje em muitas almas o amor de Deus ou insensivelmente arrefece, ou não raramente até extingue completamente, julgamos que se devem meditar atentamente esses escritos do doutor melífluo; pois da sua doutrina, que de resto brota do Evangelho, tanto na vida particular como na sociedade pode difundir-se uma nova energia sobrenatural, que governe a moralidade pública e a torne conforme com os preceitos cristãos; e possa, assim, proporcionar remédios oportunos a tantos e tão graves males que perturbam e afligem a sociedade. Quando de fato os homens não amam como devem o seu Criador, do qual receberam tudo o que têm, nem sequer entre si se podem amar; por isso - como muitas vezes acontece - separam-se e mutuamente se combatem no ódio e na inimizade. Deus, porém, é Pai amorosíssimo de todos; e nós irmãos em Cristo, que ele remiu com o seu sangue. Todas as vezes, portanto, que não correspondemos com o nosso amor ao amor de Deus para conosco, e não reconhecemos com reverência a sua divina paternidade, até os laços do amor fraterno se quebram miseramente, e por desgraça despontam - como infelizmente às vezes se vê - as discórdias, os litígios e as inimizades, que podem chegar a ponto de destruir e subverter os próprios alicerces da sociedade humana.

14. É, portanto, necessário restituir a todos os ânimos esta divina caridade, que tão ardentemente abrasou o Doutor de Claraval, se quisermos que tornem a florescer por toda a parte os costumes cristãos, que a religião católica possa exercer eficazmente a sua missão, e que, sendo sedados os dissídios e restaurada a ordem na justiça e na eqüidade, ao gênero humano cansado e atormentado torne a brilhar serena a paz.

15. Desta caridade, com que devemos sempre e com grande fervor estar unidos a Deus, sejam inflamados em primeiro lugar os que abraçaram a ordem do doutor melífluo, e todos os sacerdotes aos quais incumbe o dever especial de exortar e excitar os outros a reacenderem o amor divino. Deste divino amor - como dissemos - e nunca foi doutro modo, têm grande necessidade especialmente em nosso tempo os cidadãos, a sociedade e a humanidade inteira. Se ele arde e leva os espíritos para Deus, fim último dos mortais, as outras virtudes tornamse fortes; se pelo contrário, ele enfraquece e se extingue, também a tranqüilidade, a paz, a alegria e todos os outros verdadeiros bens pouco a pouco afrouxam e se extinguem completamente, pois que promanam daquele que "é caridade".(18)

O contemplativo

16. Desta divina caridade ninguém falou talvez com tal clareza, elevação e ardor como são Bernardo. "A causa para amar a Deus - assim diz - é o próprio Deus; a medida, amá-lo sem medida".(19) "Onde há amor, não há canseira, mas gosto".(20) Ele mesmo confessa que o experimentou, quando escreve: "Oh! amor santo e casto! Oh! doce e suave afeto!... Tanto mais doce e suave, porque é todo divino o sentimento que se prova. Experimentá-lo é divinizar-se".(21) E noutro lugar: "É melhor para mim, Senhor, abraçar-te na tribulação e estar contigo na fornalha, do que estar sem ti até mesmo no Céu".(22) Quando, porém, chegou à suma e perfeita caridade, que o uniu em íntimo conúbio com o próprio Deus, então goza de uma alegria e paz tal que não pode haver outra maior: "Oh! lugar do verdadeiro repouso... em que não se vê a Deus como que perturbado pela ira e ocupado em cuidados; mas nele se experimenta a sua vontade bondosa, benévola e perfeita. Essa visão não atemoriza, mas afaga; não excita curiosidade inquieta, mas acalma; não cansa os sentidos, mas tranqüiliza. Aqui realmente repousa-se. Deus tranqüilo dá tranqüilidade em tudo; e vê-lo pacífico é estar em paz".(23)

17. Todavia esse repouso total não é morte da alma, mas verdadeira vida: "Este sono vital e vigilante ilumina pelo contrário o sentido interior e, sendo repelida a morte, dá a vida eterna. É deveras um sono, que todavia não adormece, mas eleva. É também morte - não receio dizê-lo - visto que o apóstolo elogiando alguns ainda vivos na carne, assim diz: (24) "Estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus".(25)

18. Esse total repouso do espírito, de que gozamos correspondendo com o nosso ao amor de Deus, e por meio do qual para ele nos voltamos e dirigimos com todo o nosso ser, não nos leva à preguiça nem à inércia, mas a uma álacre, solícita e operosa diligência, com que nos esforçamos por procurar, com a ajuda de Deus, não só a nossa salvação, mas também a dos outros. De fato, tal sublime meditação e contemplação, incitada e estimulada pelo amor divino, "governa os afetos, dirige as ações, corrige os excessos, regula os costumes, aformoseia e põe em ordem a vida, dá enfim a ciência das coisas divinas e humanas... É ela que distingue o que é confuso, une o que está dividido, recolhe o que está espalhado, investiga o que está escondido, procura a verdade, pondera o que é verossímil e descobre a ficção e o artifício. É ela que preordena o que se deve fazer, reflete sobre o que se fez, de maneira que nada fique na mente por corrigir. É ela que na prosperidade, nas contrariedades quase não as sente; uma é fortaleza, a outra prudência".(26)

O homem de ação

19. E com efeito, embora deseje ficar imerso em tão alta contemplação e suave meditação, que se nutre do espírito divino, todavia o Doutor de Claraval não se fecha na sua cela, que "guardada é suave"(27), mas onde quer que se trate da causa de Deus e da Igreja, está imediatamente presente com o conselho, com a palavra e com a ação. Afirmava de fato que não "deve cada qual viver para si só, mas para todos".(28) De si mesmo, além disso, e dos seus, assim escrevia: "Também aos nossos irmãos, no meio dos quais vivemos, somos devedores, por direito de fraternidade e convívio humano, de conselho e de auxílio".(29) Quando, porém, com tristeza, via ameaçada ou perseguida nossa santa religião, não se poupava a canseiras, viagens e cuidados para a defender esforçadamente e ajudá-la segundo as suas forças. "Nada daquilo que se revele interesse de Deus - dizia - me é alheio".(30) E ao rei Luís de França escrevia estas corajosas palavras: "Nós, filhos da Igreja, não podemos de forma alguma dissimular as injúrias feitas à nossa mãe, o seu desprezo e os seus direitos conculcados... Certamente estaremos firmes, e combateremos até à morte, se for necessário, pela nossa mãe, com as armas convenientes; não com os escudos e as espadas, mas com as orações e lágrimas diante de Deus".(31) A Pedro, abade de Cluny: "Glorio-me nas minhas tribulações, se fui considerado digno de sofrer alguma coisa pela lgreja. Esta é na verdade a minha glória que exalta a minha cabeça, o triunfo da Igreja. Com efeito se fomos companheiros na dificuldade, sê-lo-emos também na consolação. Houve que trabalhar e sofrer juntamente com a nossa mãe...". (32)

20. Quando depois o corpo místico de Jesus Cristo foi perturbado por um cisma tão grave que até os bons estavam hesitantes entre uma e outra parte, ele entregou-se totalmente a compor os dissídios e à feliz reconciliação e união dos espíritos. Visto que os príncipes, por ambição do domínio terreno, estavam divididos por terríveis discórdias, de que podiam derivar graves prejuízos para os povos, fez-se artífice de paz e reconciliador de mútua concórdia. Enfim, pois que os lugares santos da Palestina, que o divino Redentor consagrou com o seu sangue, corriam grande perigo, e estavam expostos à pressão hostil de exércitos estrangeiros, por mandato do sumo pontífice excitou com altas palavras e mais elevada caridade os príncipes e os povos cristãos a uma nova cruzada; se ela não teve êxito feliz, não foi certamente por culpa sua.

21. E quando a integridade da fé católica e dos costumes, transmitida pelos antigos como herança sagrada, estava exposta a gravíssimos perigos, sobretudo por obra de Abelardo, Arnaldo de Bréscia e Gilberto Porretano, ele, quer com a publicação de escritos cheios de doutrina, quer com laboriosas viagens, tentou tudo o que pode, amparado pela graça divina, para que os erros fossem debelados e condenados, e para que os errantes conforme as suas possibilidades voltassem ao reto caminho e se emendassem.

O defensor da autoridade pontifícia

22. Como bem sabia que nesta questão não importava tanto a doutrina dos doutores, como a autoridade especialmente do romano pontífice, tratou de interpor tal autoridade, que em dirimir tais questões reconhecia suprema e completamente infalível. Por isso ao nosso predecessor de feliz memória Eugênio III, que fora seu discípulo, escreve estas palavras, que revelam o seu amor e profunda reverência para com ele, unida com aquela liberdade de espírito, que convém aos santos: "O amor não conhece o patrão, conhece o filho mesmo com a tiara... Admoestar-te-ei, portanto, não como mestre, mas como mãe; certamente como alguém que te quer muito".(33) Dirige-se-lhe, em seguida, com estas ardentes palavras: "Quem és? O sumo sacerdote, o sumo pontífice. És o príncipe dos bispos, o herdeiro dos apóstolos... Pedro por poder, por unção Cristo. És aquele a quem foram entregues as chaves e confiadas as ovelhas. Há também outros porteiros do céu e pastores de rebanhos; mas tu és tanto mais glorioso, quanto maior é a diferença com que herdaste, em comparação dos outros, os dois nomes. Aqueles foram confiados os seus rebanhos, e a cada qual o seu: a ti foram confiados todos, a ti só, na unidade. E não só és pastor dos rebanhos mas único pastor de todos os pastores".(34) E de novo: "Devia sair deste mundo quem quisesse encontrar o que não pertence ao teu cuidado".(35)

23. Reconhece, porém, aberta e plenamente a infalibilidade do magistério do romano pontífice, quando se trata de coisas de fé e costumes. Quando combate, na verdade, os erros de Abelardo, o qual, "quando fala da Santíssima Trindade, sabe a Ario; quando da graça, sabe a Pelágio; quando sobre a pessoa de Cristo, sabe a Nestório"(36); "ele que... põe graus na Santíssima Trindade, modos na majestade, sucessão numérica na eternidade"(37); e no qual "a razão humana tudo chama a si, nada deixando à fé"(38); não só discute, desfaz e refuta os seus ardis e sofismas, sutis e falazes, mas também escreve ao nosso predecessor de imortal memória Eugênio III, por tal motivo, estas graves palavras: "É mister referir à vossa autoridade apostólica todos os perigos... sobretudo os que dizem respeito à fé. Julgo, pois, justo que se remediem os prejuízos da fé sobretudo onde ela não pode faltar. É esta de fato a prerrogativa da Sé Apostólica... É tempo de reconhecerdes a vossa autoridade, Pai amantíssimo... Nisso realmente fazeis as vezes de Pedro, cuja cadeira ocupais, se confirmais com as vossas admoestações os espíritos hesitantes na fé e se com a vossa autoridade esmagais os seus corruptores".(39)

Força e humildade

24. Mas de onde esse monge humilde, quase sem recursos humanos, pôde receber a força para superar as mais árduas dificuldades, resolver os mais complicados problemas e dirimir as mais intricadas questões, só se pode compreender se se considera a exímia santidade de vida, que o ornava, unida a um grande amor da verdade. Ardia sobretudo, como dissemos, da mais ardente caridade para com Deus e para com o próximo, que é, como sabeis, veneráveis irmãos, o preceito principal e como que o compêndio de todo o Evangelho; de modo que não só vivia sempre misticamente unido ao Pai celeste, mas nada mais desejava do que lucrar os homens para Cristo, defender os sacrossantos direitos da Igreja e defender com invicta coragem a integridade da fé católica.

25. No meio de tanta benevolência e estima de que gozava junto dos sumos pontífices, dos povos, não se envaidecia, nem corria atrás da transitória e vã glória dos homens, mas sempre nele resplandecia aquela humildade cristã, que "reúne as outras virtudes... depois de as reunir guarda-as... e conservando-as aperfeiçoa-as"(40); de maneira que "sem ela... nem sequer parecem virtudes".(41) Por isso "a sua alma não foi tentada pelas honras que lhe ofereceram, nem o seu pé se moveu para procurar a glória; nem a tiara e o anel o atraíam mais do que o ancinho e a enxada".(42) E, sujeitando-se a tantas e tão grandes canseiras pela glória de Deus e proveito do nome cristão, professava-se "servo inútil dos servos de Deus"(43), "desprezível inseto" (44) , "árvore estéril"(45), "pecador, cinza...".(46)Alimentava essa humildade cristã e as outras virtudes com a assídua contemplação das coisas celestes, com ardentes orações dirigidas a Deus, com as quais atraia a graça sobrenatural sobre si e sobre os seus empreendimentos e obras.

Seu amor a Jesus

26. De modo muito especial amava tão ardentemente Jesus Cristo, divino Redentor, que sob sua moção e impulso escrevia belas e elevadas páginas, que ainda hoje causam a admiração de todos e fomentam a piedade do leitor. "O que é que enriquece a alma que medita... dá força às virtudes, faz prosperar os bons e honestos costumes, suscita puros afetos? É árido todo o alimento da alma, se não tiver esse azeite; e insípido, se não for temperado com este sal. Se escreves alguma coisa, não pinto gosto se não leio Jesus. Se discutes e falas, não me agrada, se não ouço Jesus. Jesus é mel na boca, doce melodia no ouvido, alegria no coração. Mas é também medicina. Há no meio de vós alguém triste? Jesus desça ao coração e depois suba aos lábios; e eis que à luz desse nome desaparecem todas as nuvens, volta a serenidade. Cometeu alguém um pecado? Corre desesperado ao laço da morte? Mas se invocar esse nome de vida, não há de sentir imediatamente o respiro vital?... A quem é que, agitado e hesitante nos perigos, a invocação desse nome de força não restituiu imediatamente a confiança e repeliu o medo?... Nada melhor refreia o ímpeto da ira, reprime o tumor da soberba e cura a ferida da inveja...".(47)

O louvor da Mãe de Deus

27. A esse ardente amor por Jesus Cristo unia-se uma devoção terna e suave à sua excelsa Mãe, que amava e venerava com filial ternura. Tinha tanta confiança no seu poderoso patrocínio, que não receou escrever: "Deus quis que nada recebêssemos que não passe pelas mãos de Maria".(48) E de novo: "Tal é a vontade daquele, que quis que nós tudo tivéssemos por meio de Maria".(49)

28. E agora apraz-nos, veneráveis irmãos, propor à meditação de todos aquela página, que, sobre os louvores à virgem Mãe de Deus, é talvez a mais bela, a mais ardente, a mais apta a excitar em nós o amor para com ela e a mais útil para fomentar a piedade e para imitar os seus exemplos de virtude: "...Chama-se estrela do mar, e o nome é bem apropriado à Virgem Mãe. Ela na verdade é comparada muito justamente a uma estrela; porque assim como a estrela emite os seus raios, sem se corromper, assim também a Virgem dá à luz o seu Filho sem lesar a sua integridade. Os raios não diminuem a claridade à estrela, nem o Filho à Virgem a sua integridade. Ela é, portanto, aquela nobre estrela que nasceu de Jacó, cujos raios iluminam todo o universo, cujo esplendor brilha no céu e penetra no inferno... É ela, digo, a estrela preclara e exímia, erguida necessariamente sobre este grande e largo mar, que ilumina com os seus méritos e ilustra com seus exemplos. Oh! tu, quem quer que sejas, que te vês mais flutuar à mercê das ondas neste mundo em tempestade do que andar sobre a terra; não tires os olhos do fulgor dessa estrela, se não queres ser submergido pelas tempestades. Se se levantarem os ventos das tentações, se topares nos escolhos das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria. Se fores arremessado pelas ondas da soberba, da ambição, da murmuração e da inveja: olha para a estrela, invoca Maria. Se a ira, a avareza ou as atrações da carne sacudirem a barquinha da alma: olha para Maria. Se, perturbado pela enormidade do pecado, cheio de confusão pela fealdade da consciência, cheio de medo pelo horror do juízo, começares a ser devorado pelos abismos da tristeza e do desespero: pensa em Maria. Nos perigos, nas aflições, nas incertezas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste da tua boca nem do teu coração; e para obter o auxílio da sua oração, nunca deixes o exemplo da sua vida. Se a segues, não te podes perder; se a invocas, não podes desesperar; se pensas nela, não te podes enganar. Se ela te ampara, não cais; se te protege, não tens que temer; se te guia, não te cansas; se te é propícia, chegas ao fim...".(50)



CONCLUSÃO

29. Julgamos, pois, que não podíamos terminar melhor esta carta encíclica do que convidando-vos a todos, com as palavras do doutor melífluo, a aumentar cada dia mais a devoção para com a santa Mãe de Deus, e imitar com o maior empenho suas excelsas virtudes, cada qual segundo as peculiares condições da sua vida. Se no século XII graves perigos ameaçavam a Igreja e a humanidade, não menos graves, sem dúvida, ameaçam a nossa época. A fé católica, que dá aos homens o supremo conforto, não raramente afrouxou nos espíritos, mas até em alguns países é áspera e publicamente combatida. E quando a religião cristã é desprezada ou combatida, vê-se infelizmente que a moralidade individual e pública se desvia do reto caminho, e até às vezes, através dos meandros do erro, cai miseramente nos vícios.

30. À caridade, que é vínculo da perfeição, da concórdia e da paz, substituem-se os ódios, as inimizades e as discórdias.

31. Há inquietação, angústia e trepidação no espírito humano; teme-se que, se a luz do Evangelho for pouco a pouco diminuindo e afrouxando em muitos, ou - pior ainda-for rejeitada completamente, desmoronem os próprios alicerces da civilização e da vida doméstica; e dessa forma venham tempos ainda piores e mais infelizes.

32. Assim como o doutor de Claraval pediu o auxílio da santíssima Virgem e o alcançou para a sua época turbulenta, assim também nós todos, com a mesma constante piedade e oração, devemos alcançar da nossa Mãe divina que para estes graves males, que já avançam ou se temem, impetre de Deus os remédios oportunos; e conceda, com o auxílio divino, benigna e poderosa, que uma sincera, sólida e frutuosa paz brilhe finalmente para a Igreja, para os povos, para as nações.

33. Sejam esses os abundantes e salutares frutos, que, sob a proteção de s. Bernardo, tragam as celebrações centenárias da sua pia morte; que todos se unam conosco nestas preces e súplicas, e, observando e meditando os exemplos do doutor melífluo, envidem todos os esforços para seguir com boa vontade e zelo as suas pegadas.

34. Desses salutares frutos seja propiciadora a bênção apostólica que a vós, veneráveis irmãos, aos rebanhos que vos foram confiados, e especialmente àqueles que abraçaram a ordem de s. Bernardo, de todo o coração concedemos.



Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 24 de maio, festa do Pentecostes, de 1953, XV ano do nosso pontificado.



PIO PP. XII



Notas

(*). Carta enc. Doctor mellifluus sobre o VIII centenário da morte de são Bernardo de Claraval, na qual recorda os principais ensinamentos e os mais belos textos do "último dos santos Padres, mas certamente não inferior aos primeiros".

(1) Mabillon, Bernardi Opera, Praef. generalis, n. 23; PL 182, 26.

(2) Carta Apost. Contigit olim, 17 de janeiro de 1174.

(3) Annal. t. XII, An.1153, p. 385.

(4) Cf. Serm. in Festo Ss. Apost. Petri et Pauli, n. 3; PL 183, 407, e Serm. 3, in Festo Pentec., n. 5; PL 183, 332-B.

(5) Cf. 1Cor 8, 2.

(6) In Cântica, Sermo 36,3; PL 183, 968-40 CD.

(7) Ibid., Sereno 8,6; PL 183, 813AB.

(8) Ibid., Sermo 69, 2; PL 183,1113-A.

(9) In Nativ. s. Joan. Bapt., Sermo 3, PL 183, 399B.

(10) In Cântica, Sermo 19,7; PL 183, 866D.

(11) Cf. Brev. Rom. in festo Ss. Nom. Iesu; die III infra octavam Concept. immac. B.M.V; in octava Assump. B.M.V; in festo septem Dolor. B.M.V; in festo sacrat. Rosarii B.M.V; in festo s. Iosephi Sp. B.M.V; in festo s. Gabrielis Arch.

(12)Cf. Fénelon, Panégyrique de St. Bernard.

(13) In Cantica, serm. 83,1; PL 183,1181CD.

(14) Ibid., 3; PL 183,1182CD.

(15) Ibid., 4; PL 183,1183B.

(16) Cf. 1Cor 6,17.

(17) In Cantica, Serm. 83, 6; PL 183,1184C.

(18) 1Jo 4,8.

(19) De diligendo Deo, c. I, PL 182, 974A.

(20) In Cantica, Sermo 85, 8, PL 183,1191D.

(21) De diligendo Deo, c.10, 28, PL. 182, 991A.

(22) In Ps.190, Serm. 17, 4; PL 183, 252C.

(23) In Cantica, Serm. 23,16; PL 183, 893AB.

(24) Cl 3,3.

(25) In Cantica, serm. 52, 3; PL 183,1031A.

(26) De Consid., I, c. 7, PL 182, 737AB.

(27) Imit. de Cristo, 1, 20, 5.

(28) In Cantica, serm. 41, 6; PL 183, 987B.

(29) De adventu D., serm. 3, 5; PL 183, 45D.

(30) Epist. 20 (ad Card. Haimericum); PL 182,123B.

(31) Epist. 221, 3; PL 182, 386D-387A.

(32) Epist. 147,1; PL 182, 304C-305A.

(33) De Consid., Prolog.; PL 182, 727A, 728AB.

(34) Ibid., II, c. 8, PL 182, 751CD.

(35) Ibid., III, c. l, PL 182, 751B.

(36) Epist.192; PL 182, 358D-359A.

(37) De error. Abaelardi, I, 2; PL 182,1056A.

(38) Epist.188, PL 182, 353AB.

(39) De error. Abaelardi, Praef.; PL 182,1053,1054D.

(40) De moribus et off. Episc., seu Epist. 42, 5,17; PL 182, 821A.

(41) Ibid.

(42) Vita Prima, II, 25; PL 185, 283B.

(43) Epist., 37; PL 182,143B.

(44) Epist., 215; PL 182, 379B.

(45) Vita prima, V,12; PL 185, 358D.

(46) In Cantica, Sermo 71, 5; PL 183, 1123D.

(47) In Cantica, Sermo 15, 6; PL 183, 846D, 847AB.

(48) In vigil. Nat. Domini, Serm. III,10; PL 183,100A.

(49) Sermo in Nat. Mariae, 7; PL 183, 441B.

(50) Hom.11 super "Missus est",17; PL 183, 70BCD, 71A.

"Sacrum Commercium": a Aliança de São Francisco com a Senhora Pobreza.


Sacrum Commercium: Aliança de São Francisco com a Senhora Pobreza


Começa o “Sacrum commercium” (Prólogo)

1. Entre as outras virtudes preclaras e principais, que preparam no homem lugar e morada para Deus e indicam o caminho mais excelente e expedito para ir e chegar até Ele, a santa Pobreza sobressai entre todas por uma certa prerrogativa e supera os títulos das outras por uma graça singular, porque ela é o fundamento e guardiã de todas as virtudes e tem, entre as outras virtudes evangélicas, a primazia de ser citada merecidamente em primeiro lugar. Por isso, as outras não precisam temer que caiam as chuvas, que cheguem os rios e que soprem os ventos ameaçando ruína, se estiverem estabelecidas sobre esta base.

2. E com razão, pois o Filho de deus, Senhor das virtudes e Rei da glória, amou-a com afeto especial, buscou-a, encontrou-a e a manteve, quando realizava a salvação no meio da terra. Foi a ela que ele colocou, no começo de sua pregação, como luz para os que entram pela porta de fé e lançou como pedra fundamental da casa. E ela foi investida sem demora alguma com o reino dos céus, que as outras virtudes receberam dele como promessa. Pois disse: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus (cfr. Mt 5,3).

3. O reino dos céus é mesmo, com dignidade, daqueles que não possuem nada de terreno por vontade própria, por uma intenção espiritual e pelo desejo das coisas eternas. Quem não se preocupa com as coisas terrenas precisa viver das celestes, e pode comer neste exílio, saboreando-as, as doces migalhas que caem da mesa dos santos anjos. São os que, renunciando a todas as coisas terrenas, têm tudo como lixo, para ter o mérito de saborear quão doce e suave é o Senhor. Ela é a verdadeira investidura do reino dos céus, é a segurança de sua posse eterna, é uma oportunidade de já provar a felicidade futura.

4. Por isso, o bem-aventurado Francisco, como verdadeiro imitador e discípulo do Salvador, entregou-se, no princípio de sua conversão, com todo esforço, com todo desejo, com toda decisão a buscar, encontrar e preservar a santa pobreza, sem duvidar de adversidades, sem temer nada de sinistro, sem fugir a nenhum trabalho, sem escapar de nenhuma angústia do corpo, para que lhe fosse dada finalmente a opção de chegar àquela a quem o Senhor entregou as chaves do reino dos céus.


Capítulo 1 – O bem-aventurado Francisco indaga sobre a Pobreza.

5. Aplicadamente, como um explorador curioso, ele começou a rondar pelos becos e praças da cidade, procurando diligentemente a que era a amada de sua alma. Interrogava os que estavam parados, perguntava aos que chegavam, dizendo: “Será que não vistes aquela que minha alma ama?” (cfr. Ct 3,3). Mas essa palavra era como um enigma para eles (Lc 18,34), parecia estrangeiro. Como não o entendiam, diziam: “Ó homem, não sabemos do que estás falando. Fala-nos em nossa lingua e te responderemos”. Naquele dia, os filhos de Adão não tinham voz nem sensibilidade para querer conversar sobre a pobreza, ou mesmo mencioná-la. Odiavam-na veementemente, como fazem até hoje, e sobre ela não podiam falar nada de pacífico ao que perguntava; por isso responderam como a um estranho, afirmando que não sabiam nada do que se estava perguntando.

6. O bem-aventurado Francisco disse: “Vou falar com os importantes e os sábios. Pois eles conhecem o caminho do Senhor e o juízo do seu Deus (Jr 5,5); estes talvez sejam pobres e ignorantes. Desconhecendo o caminho do Senhor e o juízo do seu Deus (Jr 5,4)”. Quando o fez, eles lhe responderam ainda mais duramente, dizendo: “Que doutrina nova é essa que apresentas aos nossos ouvidos? Pois que essa pobreza, que buscas, pertença sempre a ti, aos teus filhos e à tua descendência depois de ti! Para nós o que conta é gozar as delícias e ter muitas riquezas, porque o tempo de nossa vida é curto e tedioso, e não há refrigério para o fim do homem (cfr. Sb 2,1). Não conhecemos nada de melhor do que alegrar-se, comer e beber enquando vivemos”.

7. O bem-aventurado Francisco, ouvindo essas coisas, ficava admirado em seu íntimo e, dando graças a Deus, dizia: “Bendito sejas tu, Senhor Deus (cfr. Lc 1,68), que escondeste estas coisas dos sábios e prudentes e as revelaste aos pequeninos! Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado (Mt 11,25-26). Senhor, Pai e dominador de minha vida, não me abandones ao conselho deles, nem me deixes cair nessa reprovação, mas dá-me, por tua graça, encontrar o que busco, porque sou teu servo e filho de tua serva (cfr. Sl 115,16)”.

8. Então, saindo da cidade, o bem-aventurado Francisco foi com passo rápido para um campo, em que, olhando de longe, viu dois velhos sentados tomados se grande tristeza. Um deles dizia: “Para quem vou olhar senão para o pobrezinho e contrito de coração, e para o que teme as minhas palavras (Is 66,2)?”.
* E o outro dizia: “Nada trouxemos para este mundo; sem dúvida também não podemos levar nada; tendo comida e com que nos cobrir, ficamos contentes com isso (1Tm 6,7-8)”.


Capítulo 2
Ele pede que lhe indiquem onde mora a Pobreza.

9. Quando chegou junto deles, o bem-aventurado Francisco lhes disse: “Indicai-me, por favor, onde mora a senhora Pobreza, onde apascenta, onde se deita ao meio-dia (cfr. Ct 1,6), porque estou doente de amor por ela” (cfr. Ct 2,5). Mas eles responderam dizendo: “Bom irmão, nós estamos sentados aqui por um tempo, e dois tempos e metade de um tempo (cfr. Dn 7,25; 12,7; Ap 12,14), e a vimos passar freqüentemente, porque muitos a buscavam. Às vezes, eram muitos os que a acompanhavam, mas muitas vezes ela voltava sozinha e nua, sem nenhum enfeite de jóias (cfr. Is 61,10), sem se distinguir por nenhum acompanhante, sem vestir roupa alguma. Chorava muito amargamente, e dizia: Os filhos de minha mãe lutaram contra mim (Ct 1,5)”. E nós lhe dizíamos: “Tem paciência (cfr. Mt 18,26), que os retos te amam (cfr. Ct 1,3)”.

10. E agora, irmão, ela subiu a uma montanha grande e alta onde Deus a estabeleceu; porque Deus a ama mais do que a todas as tendas de Jacó (cfr. Sl 86,1-2). Gigantes não puderam acompanhar os vestígios de seus pés (cfr. Est 13,13), e águias não voaram até o seu pescoço. A pobreza é algo singular, que todo homem despreza, porque não se encontra na terra dos que vivem acomodados (cfr. Jó 28,13); por isso ela se escondeu aos seus olhos, esconde-se até das aves do céu (Jó 28,21); Deus conhece o seu caminho, só Ele sabe onde é o seu lugar (Jó 28,23).

11. Por isso, irmão, se queres chegar até ela, despe as tuas roupas de festa (cfr. Jdt 10,3) e deixa todo peso e pecado que te cerca (cfr. Hb 12,1) porque, se não fores nu, não poderás subir até ela, que se recolheu em tão grande altura. Mas, como é benigna (cfr. 1Cor 13,4), é enxergada facilmente pelos que a amam, e é encontrada pelos que a buscam (Sb 6,13). Irmão, pensar nela é sabedoria consumada, e quem velar por causa dela, logo vai estar seguro (Sb 6,16). Toma companheiros fiéis, para usar seu conselho e apoiar-se em sua ajuda na subida da montanha, porque ai do só! Se cair, não tem quem o levante; se um cair, será apoiado pelo outro (Ecl 4,10)”.


Capítulo 3
O bem-aventurado Francisco exorta os frades.

12. Por isso, depois de ter o conselho de homens tão importantes, o bem-aventurado Francisco foi escolher alguns companheiros que lhe eram fiéis, com os quais chegou correndo à montanha. E disse a seus irmãos: “Vinde, subamos ao monte do Senhor e à casa da Senhora Pobreza, para que nos ensine seus caminhos e nós andemos por suas sendas (Is 2,3)”.

Quando eles olharam a subida do monte de todos os lados, por causa de sua demasiada altura e aspereza, alguns deles disseram uns aos outros: “Quem subirá nesta montanha (cfr. Sl 23,3) e quem vai chegar ao seu cume?”

13. Ouvindo isso, o bem-aventurado Francisco lhes disse: “Apertado é o caminho, irmãos, e estreita a porta que leva para a vida, e poucos são os que a encontram” (Mt 7,14). Fortalecei-vos no Senhor e no poder de sua força (Ef 6,10), pois tudo que é difícil vai ser fácil para vós. Deponde a carga da vontade própria, jogai for a o peso dos pecados, e cingi-vos como homens poderosos (cfr. 1Mac 3,58). Esquecidos do que ficou para trás, estendei-vos quanto puderdes para o que está à frente (cfr. Fl 3,13). Eu vos digo que todo lugar que vosso pé pisar, vosso será (cfr. Dt 11,24). Pois há um espírito diante de vossa face, Cristo Senhor, que vos arrastará até os cumes do monte com os vínculos da caridade (cfr. Os 11,4). Irmãos, o esponsal da Pobreza é admirável, mas nós poderemos gozar facilmente de seus abraços, porque a Senhora dos povos tornou-se como uma viúva (cfr. Lm 1,1), a rainha das virtudes fez-se vil e desprezada para todos. Não há ninguém da região que ouse protestar, ninguém que a nós se oponha, ninguém que possa ter o direito de proibir esta aliança salutar. Todos os seus amigos a desprezaram e se tornaram seus inimigos (Lm 1,2)”. Quando foram ditas essas coisas, todos começaram a andar atrás de São Francisco.


Capítulo 4
A Pobreza se admira da facilidade dos que estão subindo.

14. Como eles estavam correndo para o cume com um passo muito fácil, eis que a Senhora Pobreza, em pé no pico da montanha, olhou pelas escarpas do monte. Quando viu aqueles homens subindo com tanta potência, e até voando, ficou fortemente admirada e disse: Quem são esses que voam como nuvens e parecem pombas voltando a suas janelas (Is 60,8)? Já faz tempo que não vejo pessoas assim, nem vi tão expeditas por terem jogado fora toda a carga. Vou falar-lhes do que se passa no meu coração, para que não se arrependam como os outros de toda essa subida, e não vejam o abismo que as cerca. Sei que eles não podem me alcançar sem o meu consentimento, mas terei mérito diante de meu Pai celeste se lhes der um conselho de salvação”.

13. E eis que se fez ouvir uma voz para ela (cfr. Lc 1,44), dizendo: Não temas, filha de Sião (cfr. Jo 12,15), pois estes são a descendência que o Senhor abençoou (cfr. Is 61,9) e escolheu em caridade não fingida (cfr. 2Cor 6,6)”. E assim, reclinando-se no trono de sua nudez, a Senhora Pobreza adiantou-se a eles com bênçãos de doçura (cfr. Sl 20,4) e lhes disse: “Qual é a causa de vossa vinda, dizei-me, irmãos, e por que vindes com tanta pressa do vale dos míseros ao monte da claridade? Ou será que me procurais, a mim que, como vêdes, sou pobrezinha, sacudida pela tempestade e sem consolação alguma (Is 54,11)?”.


Capítulo 5
O bem-aventurado Francisco louva a Pobreza.

16. Eles responderam, dizendo: “Viemos a ti, senhora nossa, e pedimos: recebei-nos em paz. Queremos tornar-nos servos do Senhor das virtudes, porque Ele é o rei da glória. Ouvimos dizer que és a rainha das virtudes e, de qualquer maneira, foi isso que aprendemos com a experiência. Por isso, prostrados aos teus pés, suplicamos humildemente que te dignes estar conosco e sejas para nós o caminho que leva ao rei da glória, como foste caminho para Ele, quando se dignou visitar, vindo do alto, os que jaziam nas trevas e na sombra da morte (cfr. Lc 1,79.78).

17. Pois sabemos que teu é o poder, teu é o reino, tu estás acima de todas (1Cr 29,11) as virtudes, constituída pelo Rei dos reis como rainha e senhora. É só fazeres a paz conosco e seremos salvos, para que por ti nos receba aquele que por ti nos remiu. Se determinares salvar-nos, ficaremos imediatamente livres. Pois o próprio Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19,16), Criador do céu e da terra, desejou tua beleza e formosura (cfr. Sl 44,12). Quando o rei estava em sua cama (cfr. Ct 1,11), rico e glorioso em seu reino, deixou sua casa, largou sua herança (cfr. Jr 12,7): pois a glória e a riqueza estão em sua casa (cfr. Sl 111,3). E assim, vindo de seu trono real (cfr. Sb 18,15) te procurou dignissimamente.

18. Por isso é grande a tua dignidade e incomparável a tua altura, porque, deixando todas as ordens de anjos e as imensas virtudes, dos quais havia um grande número nas alturas, veio porcurar-te nas partes inferiores da terra, a ti que jazias no lodo das fezes (cfr. Sl 39,3), nos lugares tenebrosos e na sombra da morte veio o Senhor dominador (cfr. Ml 3,1), acolhendo-te nele mesmo, exaltou tua cabeça (cfr. Sl 109,7) diante das tribos dos povos e te ornou com uma coroa, como uma noiva (cfr. Is 61,10), elevando-te acima das nuvens (cfr. Is 14,14). Embora seja certo que ainda há muitos que te detestam, ignorando tua virtude e tua glória (cfr. Sl 62,3), isso não te diminui em nada, porque habitas livremente nos montes santos (cfr. Sl 86,1), na casa firmíssima (cfr. 2Par 6,33) da glória de Cristo”.


Capítulo 6
A dignidade da Pobreza.

19. “Assim o Filho do sumo Pai enamorou-se de tua formosura (cfr. Sb 8,2): prendendo-se só a ti no mundo, comprovando que tu és fidelíssima em tudo. Pois ainda antes que viesse da pátria luminosa para a terra, preparaste-lhe um lugar adequado, um trono para sentar e um tálamo para descansar, isto é, a Virgem paupérrima, de quem nasceu e brilhou para o mundo. É certo que acorreste quando ele nasceu, para que encontrasse em ti e não nas delícias um lugar de que gostasse. Diz o evangelista que ele foi posto num presépio, porque não havia lugar para ele na estalagem (Luc 2,7). E assim o acompanhaste sempre, para que em toda a sua vida, quando foi visto na terra e conviveu com os homens (cfr. Br 3,38), pois as raposas tinham tocas e as aves os seus ninhos, mas ele não tinha onde reclinar a cabeça (cfr. Mt 8,20). Depois, quando abriu a boca para ensinar, Ele, que outrora abrira a boca dos profetas, entre muitas coisas que disse, louvou-te em primeiro lugar, exaltou-te primeiramente dizendo: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus (Mt 5,3)”.

20. Mas, quando escolheu algumas testemunhas necessárias para a santa pregação e para sua gloriosa convivência para a salvação do gênero humano, certamente não escolheu ricos comerciantes mas pobres pescadores, para mostrar com quanta estima tu devias ser amada por todos. Finalmente, para que se manifeste a todos a tua bondade, a tua magnificência e a tua fortaleza, e como precedes a todas as virtudes, como sem ti não pode haver virtude nenhuma, como o teu reino não é deste mundo (cfr. Jo 18,36), mas do céu, e como, quando todos os escolhidos e amados o abandonaram medrosamente foste a única que, então, aderiste ao rei da glória. Mas tu, esposa fidelíssima, amiga dulcíssima, nem por um momento dele te afastaste; antes, até aderias mais a Ele quanto mais o vias ser desprezado por todos.

21. Pois, se não estivesses com Ele, nunca poderia ter sido desprezado dessa maneira por todos. Estavas com Ele nas zombarias dos judeus, nos insultos dos fariseus, nas exprobrações dos príncipes dos sacerdotes; com Ele estavas nos tapas, nas cusparadas, nos açoites. O que devia ser mais reverenciado por todos foi vilipendiado por todos, e foste a única que o consolou. Não o abandonaste até a morte, morte de cruz (cfr. Fl 2,8). E na própria cruz, com o corpo já despido, os braços estendidos, as mãos e os pés pregados, padecias com Ele, de modo que nada nele parecia mais glorioso do que tu. Finalmente, quando foi embora para o céu, deixou contigo o sinal do reino dos céus para marcar os eleitos, para que todo aquele que suspira pelo reino eterno venha a ti, peça a ti, entre por ti, porque, se não for marcado com o teu sinal (cfr. Ct 8,6; Ap 7,3) ninguém poderá entrar no reino.

22. Por isso, Senhora, tem compaixão de nós e marca-nos com o sinal da tua graça. Quem seria tão tapado, tão sem gosto para não te amar com todo o coração a ti que foste escolhida pelo Altísismo e preparada desde a eternidade? Quem não te reverenciará e honrará, quando te distinguiu com tanta honra Aquele a quem adoram todas as virtudes do céu? Quem não adorará os vestígios de teus pés de boa vontade, se a ti o Senhor da majestade se inclinou tão humildemente, se uniu tão amigavelmente, aderiu com tanto amor? Por Ele e por causa dele, nós te rogamos, Senhora, não desprezes nossos pedidos nas necessidades, mas livra-nos sempre dos perigos, ó gloriosa e bendita pela eternidade”.



Capítulo 7
Resposta da Senhora Pobreza.

23. A Senhora Pobreza, com o coração alegre, rosto sorridente e voz suave, respondeu dizendo:

“Confesso-vos, irmãos e amigos queridos, que, desde que começastes a falar, fiquei cheia de alegria, transbordo de gozo (cfr. 2Cor 7,4), vendo o vosso fervor, já conhecendo o vosso santo propósito. Vossas palavras tornaram-se para mim muito mais desejáveis que o ouro e a pedra preciosa, e mais doces que o mel e o favo (Sl 18,11). Pois não sois vós que falais mas é o Espírito Santo que fala em vós (cfr. Mt 10,20), e a sua unção vos ensina sobre todas as coisas (cfr. 1Jo 2,27) que falastes sobre o Rei altissimo, que, só por sua graça, tomou-me como a amada, assumiu o meu opróbrio (cfr. Lc 1,25) da terra, e me glorificou no céu entre os mais destacados.

24. Por isso eu quero, se não for pesado ouvir, contar-vos a longa mas não menos útil história da minha situação, para que aprendais como deveis andar e agradar a Deus (cfr. 1Ts 4,1), cuidando de não olhar para trás, vós que quereis pôr a mão no arado (cfr. Lc 9,62).

Não sou rude, como muitos acham, mas bastante antiga e rica em número de dias, conhecendo a disposição das coisas, a variedade das criaturas, a mutabilidade dos tempos. Conheço as flutuações do coração humano, em parte pela experiência do tempo, em parte pela sutileza natural, em parte pela dignidade da graça”.


Capítulo 8
Lembrança da pobreza no paraíso.

25. “Estive, uma vez, no paraíso de Deus (cfr. Ap 2,7), onde estava o homem nu e até passeando no homem e com o homem nu naquele belíssimo jardim (cfr. Gn 2,25; 3,8), sem temer nada, sem duvidar de nada, e sem suspeitar de nenhuma coisa adversa. Eu achava que ia ficar com ele para sempre, porque foi criado pelo Altíssimo justo, sábio, e colocado num lugar ameníssimo e muito bonito. Estava muito alegre e brincando diante dele todo o tempo (cfr. Pr 8,30), porque, não tendo nenhuma propriedade, era todo de Deus.

26. Mas ai! Sofreu um mal inesperado, jamais ouvido desde o começo da criação, quando aquele infeliz, que outrora tinha perdido a sabedoria, e não pôde ficar no céu, entrou numa serpente, (cfr. Ez 28,17; Gn 3,1) e o agrediu, para que o homem, como ele mesmo, se tornasse um prevaricador do mandamento divino. O infeliz deu ouvidos e consentiu com quem lhe dava mau conselho e, esquecido de seu Criador, Deus, imitou o primeiro transgressor. Antes, ele estava nu, mas não se envergonhava como disse a Escritura sobre ele (cfr. Gn 2,25), porque, nele, a inocência era completa. Mas, quando pecou, percebeu que estava nu e, por causa da vergonha, correndo às folhas de figueira, fez uma tanga para si (cfr. Gn 3,7).

27. Vendo que meu companheiro se tornara transgressor e estava coberto de folhas, pois não tinha outra coisa, afastei-me dele e, ficando de longe, comecei a olhá-lo com lágrimas no rosto. esperava quem me salvasse da pusilanimidade do espírito e de tamanha tempestade (cfr. Sl 54,9). De repente, veio do céu um rumor (cfr. At 2,2) sacudindo todo o paraíso e, com ele, foi enviada do céu uma luz esplendisíssima.

Quando olhei, vi o Senhor da majestade passeando no paraíso na brisa depois do meio dia (cfr. Gn 3,8), refulgindo de glória inenarrável e indizível. Acompanhavam-no multidões de anjos, clamando com voz forte e dizendo: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos, cheia está a terra inteira de tua glória (Is 6,3). Mil milhares serviam-no, e dez centenas de milhares assistiam-no (Dn 7,10).

28. Comecei, eu confesso, a me apavorar e a tremer muito, a desmaiar toda de estupor e de horror, com o corpo fraquejando mas o coração palpitando, clamei das profundezas (Sl 129,1), dizendo: “Senhor, misericórdia! Senhor, misericórdia! Não leves teu servo a julgamento, porque nenhum vivente poderá justificar-se diante de ti (Sl 142,2)”. E Ele me disse: “Vai esconderte um pouco, por um momento, até que passe a minha indignação”.

E chamou logo em seguida o meu companheiro, dizendo: “Adão, onde estás?”E ele: “Ouvi tua voz, Senhor, e fiquei com medo, porque estava nu, e me escondi (Gn 3,9-10)”. Na verdade estava nu, porque, descendo de Jerusalém a Jericó, caiu na mão dos ladrões, que antes de tudo despojaram-no (cfr. Lc 10,30) da bondade da natureza, pois perdera a semelhança com o Criador. Mas o próprio Rei altíssimo, e não menos bondosíssimo, esperou sua conversão, dando-lhe oportunidade de voltar a Ele.

29. Mas o miserável deixou seu coração fraquejar, rompendo em palavras de malícia para se desculpar dos pecados cometidos (cfr. Sl 140,4). E assim aumentou a culpa e acumulou mais penas, entesourando para si a ira para o dia da ira e da indignação do justo juízo de Deus (cfr. Rm 2,5). Não poupou a si mesmo nem à sua descendência, que veio depois dele, juntando para todos a terrível maldição da morte. E quando todos os presentes o julgaram, o Senhor expulsou-o do paraíso do prazer, (cfr. Gn 3,23) por um julgamento justo mas não menos misericordioso. E, para que voltasse à terra, da qual tinha sido tomado (cfr. Gn 3,19), ditou-lhe a sentença da maldição, bem temperada; fez para ele túnicas de pele (cfr. Gn 3,21), designando nelas a sua mortalidade, despojado que foi a das vestes da inocência.

30. Quando vi meu companheiro vestido com as peles dos mortos, afastei-me de uma vez dele, porque tinha sido expulso para trabalhar bastante para ficar rico. Por isso andei errante e fugitiva pela terra (cfr. Gn 4,12), chorando e gemendo demais. Desde esse tempo não encontrei onde descansar meu pé (cfr. Gn 8,9), enquanto Abraão, Isaac, Jacó e os outros justos recebiam como promessa as riquezas e a terra onde corria leite e mel (cfr. Ex 3,17). Em todos eles procurei repouso e não encontrei (cfr. Eclo 24,11; Jr 45,3), pois diante da porta do paraíso estava um querubim com uma espada de fogo vibrante (cfr. Gn 3,24), até que o Altíssimo viesse do seio do Pai (cfr. Jo 1,18) para o mundo, e Ele me procurou com a maior dignidade.


Capítulo 9
Testamento de Cristo.

31. “O qual, depois que cumpriu tudo que dissestes, quis voltar ao seu pai, que o enviara e fez um testamento sobre mim para os seus eleitos, e o confirmou com uma sentença irrevogável, dizendo-lhes: “Não queirais possuir ouro, nem prata, nem dinheiro. Não queirais levar bolsa, nem mochila, nem pão, nem bastão, nem calçado, e nem tenhais duas túnicas (Mt 10,9-10; Lc 9,3). Se alguém quiser mover um processo contra ti na justiça para te tomar a túnica, dá-lhe também o manto. Se alguém te provocar para andar mil passos, vai com ele mais dois mil (Mt 5,40-41). Não ajunteis tesouros para vós na terra, onde a ferrugem e as traças os corroem e onde os ladrões cavam e roubam (Mt 6,19-20). Não vos aflijais dizendo: Que vamos comer? Ou que vamos beber? Ou com que vamos nos cobrir? (Mt 6,31)? Não vos preocupeis com o dia de amanhã: o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta para cada dia o seu cuidado (Mt 6,34). Quem não renunciar a tudo que possui, não pode ser meu discípulo (Lc 14,33), e o resto que está escrito no mesmo livro”.


Capítulo 10
Sobre os apóstolos.

32. “Os apóstolos e todos os seus discípulos observaramn tudo isso com a maior diligência, e não descuidaram, nem por uma hora, (cfr. Gl 2,5) de coisa alguma de tudo que ouviram de seu Senhor e Mestre. Eles, soldados fortíssimos, juízes de toda a terra, cumpriram o salutar mandamento, pregando-o por toda parte, e o Senhor cooperava com eles e confirmava suas palavras com os milagres que a acompanhavam (cfr. Mr 16,20). Ardiam em caridade, levando em todo lugar o carinho de sua dedicação e cuidando das necessidades de todos, cuidando com toda vigilância que não se pudesse dizer deles: Dizem e não fazem (Mt 23,3)”. Por isso um deles disse, com a maior ousadia: Pois eu não ouso falar coisa alguma que Cristo não tenha feito em mim com fatos e palavras pela força do Espírito Santo (Rm 15,18.19)”. E outro disse: Não tenho prata ou ouro (At 3,6). E assim todos, na vida e na morte, me exaltaram com os maiores louvores.

Seus ouvintes tratavam de cumprir tudo que seus mestres lhes haviam ensinado, vendendo suas propriedades e bens, dividindo-os entre todos conforme a necessidade de cada um (At 2, 45). Viviam todos juntos e tinham tudo em comum (cfr. At 2,44), louvando juntos a Deus e gozavam da simpatia de todo o povo. Por isso o Senhor aumentava todos os dias os que haveriam de ser salvos nele (At 2,47)”.


Capítulo 11
Sobre os seguidores dos apóstolos.

33. Durante muito tempo, a verdade destas palavras permaneceu em muitos, principalmente porque o sangue do pobre Crucificado ainda estava quente em sua memória e o cálice preclaro de sua paixão inebriava os seus corações. Pois, se alguns, tentassem abandonar-me por uma hora sequer, por causa da demasiada aspereza, lembrando-se das chagas do Senhor, pelas quais se revelavam as entranhas de sua piedade, puniam-se gravemente por sua tentação e aderiam a mim com mais força, abraçando-me com mais ardor. Por isso eu estava com eles, inculcando-lhes sempre na memória as dores da paixão do Rei eterno, de modo que, não pouco confortados por minhas palavras, pegavam de boa vontade o ferro que dilacerava seu corpo, e era com alegria que viam manar de sua carne o sangue sagrado. Essa vitória perdurou por um tempo muito longo, de maneira que cada dia mil milhares eram marcados com o sinal do rei supremo (cfr. Ap 7,2-3)”.


Capítulo 12
Sobre a paz contrária à Pobreza.

34. “Mas, ai! Depois de pouco tempo fez-se a paz, e essa paz foi pior que qualquer guerra: no princípio, foram poucos os assinalados; no meio, menos ainda; e no fim, pouquíssimos. E agora, certamente, eis que na paz está a minha maior amargura (cfr. Is 38,17), nela todos fogem de mim, todos me afugentam, não sou procurada por ninguém, por todos sou abandonada. Estou em paz com os inimigos mas não com os de casa, tenho a paz dos estranhos mas não a dos filhos. E no entanto, criei os filhos e os exaltei, mas eles me desprezaram (Is 1,2).

35. Naquele tempo, quando resplandecia a lâmpada do Senhor sobre a minha cabeça e eu caminhava à sua luz nas trevas (cfr. Jo 29,3), o diabo estava em muitos que estavam comigo, maltratando-os, e o mundo aliciava-os, a carne tentava-os, de modo que muitos começaram a amar o mundo e as coisa que estão no mundo (cfr. 1Jo 2,15)”.


Capítulo 13
A Perseguição, irmã da Pobreza.

36. “Mas a consumação de todas as virtudes, a senhora Perseguição, a quem Deus entregou o reino dos céus (cfr. Mt 5,10) como a mim, estava comigo: era em tudo uma fiel ajudante, uma auxiliar forte e uma conselheira prudente, que, se via alguma vez que alguns se esfriavam na caridade, esqueciam mesmo que um pouquinho as coisas celestes, colocavam o coração em toda parte nas coisas terrenas, trovejava imediatamente, arregimentava imediatamente o exército, enchia imediatamente os rostos de meus filhos de igniomínia, para que buscassem o nome do Senhor. Mas agora minha irmã me abandonou (Lc 10,40) e a luz de meus olhos não está (cfr. Sl 37,11), porque, enquanto a paz era dada pelos perseguidores aos meus filhos, eles se estraçalhavam em luta doméstica e interna, invejando-se mutuamente, provocando-se mutuamente (Gl 5,26) na aquisição de riquezas e na torrente de delícias”.


Capítulo 14
Louvor dos bons pobres.

37. “Passado algum tempo, alguns começaram a respirar e a ir, por própria decisão, pelo caminho reto, que, naquele tempo, só era percorrido por poucos, forçados pela necessidade. Todos eles vieram a mim, rogando insistentemente com muitas preces e lágrimas, para fazer com eles uma aliança de paz perpétua, e para que estivesse com eles como estive outrora nos dias da minha adolescência (cfr. Ez 16,60), quando o Onipotente estava comigo e os meus filhos ao meu redor (Jó 29,5). Eram homens de virtude, homens pacíficos, sem querela diante de Deus (cfr. 1Ts 3,13), persistentes no amor da fraternidade (2Pd 1,7), enquanto viveram na carne, pobres em espírito, despojados de bens, ricos em santidade de vida, cumulados com os dons dos carismas celestes, fervorosos em espírito, alegres na esperança, pacientes na tribulação (cfr. Rm 12,11.12), mansos e humildes de coração (cfr. Mt 11,29), conservando a paz de espírito, a concórdia dos costumes, a unidade do relacionamento e alegria da unidade.

Afinal, eram homens devotados a Deus, agradáveis aos anjos, amáveis para as pessoas, rígidos consigo mesmos, misericordiosos com os outros, religiosos pela ação, modestos no caminhar, alegres de rosto, graves de coração, humildes na prosperidade, magnânimos nas adversidades, sóbrios na convivência, muito parcimoniosos nas roupas, muito comedidos no sono, discretos, tementes, notáveis pelo brilho de todos os bens. Minha alma estava grudada com eles e havia em nós uma só espírito e uma só fé (cfr. Ef 4,4.5)”.


Capítulo 15
Sobre os falsos pobres.

38. “Levantaram-se, por fim, contra nós os que não eram dos nossos (cfr. 1Jo 2,19), uns certos filhos de Belial (cfr. Dt 13,13), falando bobagens, fazendo iniquidades, dizendo que eram pobres quando não eram (cfr. Ap 2,9; 3,9), e eu, que fui amada de todo coração pelos varões gloriosos de que falei, fui desprezada e desonrada pelos que seguiam o caminho de Balaão filho de Bosor, que amou o salário da iniquidade (cfr. 2Pd 2,15), homens corruptos na mente, privados da verdade, achando que a piedade é fonte de lucro (1Tm 6,5): homens que vestiram o hábito da santa religião, não vestiram o homem novo (cfr. Ef 4,24), mas recobriram o velho. Falavam mal dos seus mais antigos e mordiam, às escondidas, a vida e os costumes dos que foram os fundadores de uma santa forma de vida, chamando-os de indiscretos, sem misericórdia, cruéis (cfr. Jr 50,42), e a mim, que tinham assumido, chamavam de ociosa, dura, torpe, inculta, exangue e morta.

Isso era movimentado com o maior esforço pela minha inimiga, que, vestindo a roupa de ovelha, ocultava a raiva de lobo com a astúcia de uma raposa”.


Capítulo 16
A Avareza.

39. “Ela era a Avareza, nome da cobiça imoderada de adquirir ou conservar riquezas. Davam-lhe um nome mais decente para que, de maneira alguma, parecessem ter abandonado a mim, que os ajudei a levantar-se do pó e a sair do esterco. Comigo falavam sobre ela pacificamente, mas tramavam dolos sobre a ira (cfr. Sl 34,20). E, embora não se possa esconder a desolação de uma cidade colocada sobre um monte (cfr. Mt 5,14), assim mesmo impuseram-lhe o nome (cfr. Dt 22,17) de Discrição ou Providência, ainda que fosse melhor chamar essa discrição de confusão e a providência de esquecimento pernicioso de todos os bens.

E me diziam: Teu é o poder, teu é o reino cfr. 1Pr 29,11), não temas. É bom perseverar nas obras de piedade e ter tempo para os bons frutos, ajudar os necessitados e dar alguma coisa aos pobres”.


Capítulo 17
A Pobreza admoesta os falsos religiosos.

40. “Eu lhes dizia: “Irmãos, não vos contesto, que não é bom o que dizeis, mas eu vos peço, considerai a vossa vocação (cfr. 1Cor 1,26). Não olheis para trás! Não queirais descer do telhado, pegar alguma coisa da casa (cfr. Mt 24,17; Mr 13,15). Não queirais voltar do campo para buscar a roupa (cfr. Mt 24,18). Não vos envolvais com os negócios seculares (cfr. 2Tm 2,4). Não vos impliqueis de novo com as sujeiras do mundo e com as corrupções, das quais fugistes quando conhecestes o Salvador. Pois é preciso que sejam vencidos os que se implicaram de novo com essas coisas, e a situação posterior deles vai ser pior que a anterior (cfr. 2Pd 2,20; Mt 112,45), uma vez que, com a desculpa da piedade, voltaram atrás do santo mandamento que lhes tinham sido confiado.


Capítulo 18
A resposta deles.

41. “Quando eu lhes propuz isso, nasceu uma dissensão entre eles (cfr. Jo 7,43; 10,19). Uns diziam: Ela é boa e fala bem; mas outros respondiam: Não, ela quer nos seduzir (cfr. Jo 7,12), para que a imitemos; é miserável e quer que todos nós sejamos miseráveis com ela.


Capítulo 19
A Pobreza fala sobre os bons religiosos.

42. “A minha rival não conseguiu me expulsar, naquele tempo, do recinto deles, porque ainda havia entre eles muitos homens de grande fervor e de grande caridade, no começo de sua conversão. Eles batiam às portas do céu comclamores e entravam pela insistência das orações, superando-se na contemplação, desprezando todas as coisas terrenas. Então, o Criador de todas as coisas, Aquele que me criou, deu-me suas ordens dizendo: “Habita em Jacó, possui tua herança em Israel e põe tuas raízes entre os eleitos (cfr. Sr 24,12-13)”. E eu fazia isso com a maior diligência. E como eu assim estava com eles, e caminhássemos juntos pela estrada real, eles tinham graças a mim, a glória entre as multidões e a admiração diante dos poderosos (cfr. Sb 8,10-11); as pessoas prestavam-lhes honra e os chamavam de santos. Eles mesmos começaram a não gostar de ser chamados de santos, lembrando o que foi dito pelo Filho de Deus: “A glória dos homens não recebo (cfr. Jo 5,41), e recusavam totalmente a glória recebida”.


Capítulo 20
A Avareza arroga-se o nome de Discrição.

43. “Quando eles andavam em tão grande fervor de amor por Cristo, a Avareza arrogou-se o nome de Discrição e começou a dizer-lhes: “Não vos mostreis tão rígidos para as pessoas, nem desprezeis desse modo a honra deles, mas mostrai-vos afáveis para com eles e não rejeiteis exteriormente a honra que vos prestam, mas fazei isso interiormente, o máximo que puderdes. É bom ter a amizade dos reis, a familiaridade dos grandes, o reconhecimento dos príncipes, porque, quando eles assim vos honram e veneram, quando vêm ao vosso encontro e vos acolhem, é um exemplo para muitos, porque, vendo isso, convertem-se mais facilmente para Deus”.

44. Eles, vendo o proveito, receberam o conselho dado mas, como não se cuidaram do laço armado à beira do caminho, abraçaram, afinal, a glória e a honra, com todo o coração. No íntimo, eles achavam que eram como se dizia fora, e punham sua glória na boca dos aduladores, como as loucas diante dos vendedores (cfr. Mt 25,8) e o servo inútil na terra (cfr. Mt 25,30).

Mas as pessoas, que achavam que eles eram por dentro o que pareciam por fora, ofereciam-lhes suas coisas de boa vontade, para a remissão de seus pecados. No começo, tinham-nas eles todas como esterco (cfr. Fp 3,8), dizendo: Nós somos e queremos ser sempre pobres, não queremos vossas coisas más (cfr. 2Cor 12,14). Tendo alimento e com que nos cobrir, estamos contentes com isso (cfr. 1Tm 6,8), porque vaidade das vaidades, tudo é vaidade (Qo 1,2; 12,8)”. Por isso, a devoção das pessoas para com eles crescia cada dia, de modo que muitos deles amavam menos as suas coisas, que viam ser desprezadas dessa forma pelos santos”.


Capítulo 21
A Avareza dá-se o nome de Providência.

45. “No entanto, aquela minha bárbara inimiga, vendo isso, começou a se irritar veementemente e a ranger seus dentes (cfr. Sl 34,16), e, tocada por profunda dor do coração (cfr. Gen 6,6), disse: “Que farei? todo o mundo foi atrás dela (cfr. Lc 16,3; Jo 12,19). Vou assumir o nome de Providência, e falarei ao coração deles; pode ser que ouçam e fiquem quietos (cfr. Ez 2,5)”.

Assim fez, falando-lhes com palavras humildes:
Por que estais aqui, ociosos, o dia inteiro? (cfr. Mt 20,6), sem tomar nenhuma providência para o futuro? Que mal há em terdes o necessário para a vida, se vos abstiverdes do supérfluo? Pois poderíes cuidar da vossa salvação e das dos outros com maior paz e tranquilidade se tivésseis à mão tudo que vos é absolutamente necessário. Enquanto tendes tempo (cfr. Gl 6,10), providenciai para vós e para os que virão, porque os homens vão fechar as mãos que deram no começo e fazem os dons costumeiros. Seria bom se fosse sempre assim, mas não conseguireis mantê-lo absolutamente, porque o Senhor vos aumenta cada dia (cfr. At 2,47). Por acaso Deus não aceitaria que tivésseis o que pudesses dar aos necessitados e que fôsseis lembrados dos pobres (Gl 2,10), se ele mesmo diz: Há mais felicidade em dar que em receber (At 20,35)? Por que não recebeis os dons que vos oferecem para não defraudar os doadores do prêmio eterno? Já não há mais motivo para temer a intimidade com as riquezas, pois as tendes como nada. O mal não está nas coisas mas no ânimo, porque viu Deus tudo que tinha feito, e era muito bom (Gn 1,31). Pois, para os bons, todas as coisas são boas, todas servem, todas foram feitas (cfr. Jo 1,3) para eles. Oh! Quantos que têm bens gastam-nos mal. Se vós os tivésseis, mudaríeis para um bom uso, porque o vosso propósito é santo, o vosso desejo é santo! Não tendes vontade de enriquecer os vossos parentes, porque eles são bastante ricos mas, se tivésseis o necessário, poderíeis viver mais honesta e ordenadamente”.

Quando aquela malvada disse essas e outras coisas, alguns deles, que tinham a consciência corrompida, concordaram bem depressa. Mas outros não deram ouvidos aos argumentos apresentados e os refutaram com respostas agudas. E tanto uns como outros apresentaram testemunhos das escrituras.


Capítulo 22
A Avareza pede a ajuda da Acídia.

46. “Mas a Avareza, vendo que sozinha não ia realizar o que queria com eles, mudou de tática para chegar a seu propósito. Convocou a Acídia, que descuidada de começar as coisas boas e de completar o que já tinha começado, fez uma aliança com ela, firmando um pacto contra eles. Não tinha muita familiaridade nem estava fortemente ligada a ela mas, para o mal, de boa vontade juntaram-se, como outrora Herodes e Pilatos contra o Salvador. Feita a aliança, a Acídia se enraiveceu, tomou impulso, e invadiu o terreno deles com suas companheiras.

Usou suas armas com toda a força, extinguiu neles a caridade e os tornou mornos e entorpecidos. E assim, um tanto absorvidos pela pusilanimidade do espírito (Sl 54,9), ficaram como que mortos no coração (Sl 30,13)”.


Capítulo 23
Sobre os religiosos vencidos pela Acídia.

47. “Depois disso, começaram a suspirar por tudo que tinham deixado no Egito, suspirando miseravelmente e buscando vergonhosamente o que tinham desprezado com um coração tão grande. Andavam tristes pelo caminho dos mandamentos (cfr. Sl 118,32) de Deus, acorrendo de coração seco para tudo que era mandado. Desfaleciam sob o pêso e, pela deficiência da espiritualidade, mal podiam respirar. Era raro ficarem compungidos, não tinha contrição nenhuma, a obediência era cheia de murmurações, o pensamento animalesco, a alegria dissoluta, pusilânime a tristeza, incauta a palavra, fácil a risada; tinham hilaridade no rosto, vaidade no andar, roupas macias e delicadas, de corte engenhoso, costura ainda mais engenhosa, dormiam demais, comiam o supérfluo e não se dominavam na bebida. Jogavam ao vento gracejos, anedotas e palavras. Contavam fábulas, alteravam as leis, dispunham das províncias e tratavam diligentemente das realizações humanas. O cuidado com os exercícios espirituais era nenhum, nenhuma era a solicitude pela salvação das almas, raramente conversavam sobre as coisas celestes e morno era o desejo da eternidade.

48. Estavam tão endurecidos que começaram a invejar um ao outro, a provocar-se a dominar um ao outro; cada irmão acusava ao outro dos piores crimes (cfr. Gn 37,2). Evitavam os assuntos sérios, buscando com que se alegrassem porque, na verdade, não o conseguiam. Entretanto, mantendo uma aparência de santidade em tudo, para não ficarem completamente desmoralizados e, falando de coisas santas, escondiam aos simples o seu miserável comportamento. Mas era tão grande a dissolução de seu homem interior que, não conseguindo dominar-se, estouravam no exterior com indícios abertos”.

49. “No fim, começaram a adular os seculaes e a juntar-se com eles para esvaziar suas bolsas, para ampliar os edifícios e para multiplicar as coisas a que tinham renunciado absolutamente. Vendiam palavras aos ricos, saudações às nobres matronas; frequentavam as cortes dos reis e dos príncipes com toda diligência, para juntarem casa com casa e unirem campo ao campo (cfr. Is 5,8). E agora tornaram-se grandes e ricos, enraizados na terra, porque vão de mal a pior e não reconheceram o Senhor (cfr. Jr 9,3). Caíram quando se elevaram (cfr. Sl 72,18), deslizaram para o chão antes de nascer, mas ainda me dizem: “Somos teus amigos”.


Capítulo 24
Os pobres que se tornaram ricos perseguem a Pobreza.

50. “Eu sofria mais por causa de alguns que, tendo sido bastante miseráveis e desprezíveis no século, tornaram-se ricos (cfr. Ap 18,19; 1Cor 1,5) depois que vieram a mim. Mais cevados e gordos que os outros, revoltam-se (cfr. Dt 32,15) caçoando de mim. É certo que eram julgados indignos até de viver, eram estéreis por causa da indigência e da fome, comiam ervas e cascas de árvores, esquálidos pela calamidade e a miséria (cfr. Jó 30,2-4). Agora não se contentam com a vida comum, mas se isolam (Jd 19), saciando a si mesmos sem temor (Jd 12), e como vivem procurando coisas supérfluas, seu comportamento é muito pesado para os outros. Querem ter honra entre os discípulos de Cristo, eles que no século eram muito desprezíveis até entre os conhecidos. Muitas vezes, não tinham nem pão de cevada e água, e achavam uma delícia estar sob os espinheiros, filhos de estultos e de ignóbeis, que não se deixavam absolutamente ver na terra (Jó 30,14), mas me abominam e fogem para longe de mim, e não se envergonham de cuspir no meu rosto (Jó 30,10). Padeci, por causa deles, afrontas e terrores , e os que tinham sido de paz comigo e protegiam os meus flancos (Jr 20,10) agora me insultavam. Tinham vergonha de mim e tanto mais me desprezavam quanto sabiam que tinham sido favorecidos por mim, a ponto de não se dignarem ouvir o meu nome”.


Capítulo 25
A Pobreza exorta-os a voltarem.

51. “Eu sentia muita dor, e lhes dizia: “Voltai, filhos que fostes embora, eu vou curar vossos extravios” (cfr. Jr 3,22). Guardai-vos de toda avareza, que é servidão dos ídolos (cfr. Lc 12,15; Ef 5,5), porque o avarento não vai encher-se de dinheiro (cfr. Ecl 5,9). Recordai-vos dos primeiros dias em que, iluminados, sustentastes o grande combate das paixões (Hb 10,32). Não sejais filhos que se afastam para se perderem, mas filhos da fé para conquistar sua alma (cfr. Hb 10,39). Executam sem compaixão quem viola a lei de Moisés, se tiverem duas ou três testemunhas. Quanto mais achais que vai merecer suplícios piores quem conculcar o Filho de Deus e tiver profanado o sangue do Testamento, em que foi santificado, e tiver ultrajado o espírito da graça (Hb 10,28-29)? Por isso, prevaricadores, voltai ao coração (Is 46,8), porque a vida de ninguém está na abundância das coisas que possui (Lc 12,15)”.

Mas eles, indignados, diziam: “Vai-te, miserável, afasta-te de nós não queremos o conhecimento de teus caminhos (cfr. Jó 21,14)”.

Eu lhes digo: Tende misericórdia de mim, tende misericórdia de mim, pelo menos vós, meus amigos. Por que me perseguis (Jó 19,21-22) sem motivo? Eu não vos disse que o meu e o vosso modo de viver não combinam? Estou arrependida de ter-vos encontrado”.


Capítulo 26
O Senhor fala à Pobreza.

52. “E o Senhor falou comigo, dizendo: (Jr 13,3): “Volta, volta, Sunamite, volta, volta para nós te vermos (Ct 6,12). Teus próprios filhos são irritantes (cfr. Ez 2,7) e não querem te ouvir, porque não querem me ouvir (Ez 3,7). Têm um coração incrédulo e exasperante: afastaram-se e foram embora (Jr 5,23), mas não desprezaram a ti e sim a mim (cfr. Jr 8,7). Mas tu os ensinaste contra ti e os instruiste contra ti mesma, porque se eles não te tivessem assumido nunca seriam tão ricos. Fingiam que te amavam para serem beneficiados e irem embora. Por isso afastaram-se com um desprezo hostil e aferrando-se à mentira, não querem voltar (Jr 8,5). Não acredites mais nele quando te disserem coisas boas, porque te desprezaram e perseguem tua vida (cfr. Jr 4,30). Não eleves louvores e orações por eles, porque não te ouvirei (Jr 7,16), eu os rejeitei (cfr. Jr 15,23), porque eles me desprezaram (cfr. Is 1,2)”.


Capítulo 27
A senhora Pobreza previne o bem-aventurado Francisco
sobre o progresso e a decadência do comportamento.

53. “Eis, irmãos, contei-vos essa comprida parábola para que vejais por onde vai o vosso caminho (cfr. Pr 4,25) e vejais o que tendes que fazer. É perigoso olhar muito para trás e iludir a Deus. Lembrai-vos da mulher de Ló (cfr. Lc 17,32; Gn 19,26) e não acrediteis em qualquer espírito (1Jo 4,1). Mas, caríssimos, eu confio em vós (cfr. Hb 6,9), porque vejo em vós, mais do que nos outros, coisas melhores e mais próximas da salvação, porque parece que desprezastes tudo, que vos libertastes de todas as coisas. E a melhor prova que tenho de tudo isso, para mim, é vossa subida ao monte, ao qual poucos tiveram jamais acesso. Mas eu vos digo, meus amigos (cfr. Lc 12,4), que a malícia de muitos me faz desconfiar da virtude dos bons, e muitas vezes descobri lobos arrebatadores sob a roupa das ovelhas (cfr. Mat 7,15).

54. É certo que eu desejo que cada um de vós seja um imitador dos santos, que me herdaram por sua fé e paciência. Mas, como temo que aconteça convosco o que aconteceu com os outros, dou-vos um salutar conselho, isto é, que não queirais alcançar logo no começo os pontos mais altos e secretos, mas, caminhando devagar, sob a orientação de Cristo, chegueis finalmente ao mais alto. Cuidai para que, depois de ter colocado o adubo da humildade nas vossas raízes, não vos reveleis estéreis, porque então a única coisa que vos sera dada é o machado. Não acrediteis de todo coração no que tendes agora, porque os sentidos do homem são mais inclinados para fazer o mal (cfr. Gn 8,21) do que para fazer o bem, e o ânimo volta com facilidade ao que estava acostumado, mesmo que alguma vez se tenha afastado bastante disso. Sei que, por causa do vosso grande fervor, tudo vos parece muito fácil; mas lembrai-vos do que está dito: porque Eis que os que servem a Deus não têm estabilidade, e Ele descobre defeitos mesmo em seus anjos (cfr. Jó 4,18).

55. “No começo, tudo vos parece agradável de suportar, mas, pouco depois, quando pensardes estar seguros, admitireis que houve falta de cuidado com os benefícios recebidos. Achareis que será possível, na hora em que quiserdes, voltar à consolação do início, mas não é fácil acabar com a negligência, depois que foi aceita uma vez. Então vosso coração vai se inclinar para outras coisas, mas a razão vai reclamar que volteis às do começo. Assim, levados para o torpor e a acídia espiritual, alegareis desculpas inconsistentes, dizendo: “Não podemos ser fortes como fomos no começo, agora os tempos são outros”; ignorando que se diz que: Quando o homem tiver acabado, aí é que vai começar (cfr. Eclo 18,6).

E em vosso ânimo haverá uma voz dizendo sempre: Amanhã, amanhã voltaremos ao primeiro marido, porque para nós era melhor antes do que agora (cfr. Os 2,7). Irmãos, eu vos predisse (cfr. Mt 24,25) muitas coisas, e ainda tenho muito que vos dizer, que agora não podereis suportar (cfr. Jo 16,12). Chegará a hora (cfr. Jo 16,25) em que vos direi claramente todas as coisas de que falei”.


Capítulo 28
O bem-aventurado Francisco responde
à Pobreza com os frades.

56. Respondendo, o bem-aventurado Francisco caiu prostrado em terra com os seus frades, deu graças a Deus, e disse:

“Senhora nossa, gostamos do que dizes, não se pode criticar nada do que falaste. É verdade o que nos disseram em nossa terra sobre as tuas palavras e sobre a tua sabedoria; e tua sabedoria é do que ouvimos falar. Felizes os teus homens e felizes os teus servos, que estão diante de ti e ouvem sempre a tua sabedoria. Bendito seja o Senhor teu Deus pelos séculos. Tu o agradaste e Ele te amou para sempre e te fez rainha para administrares a misericórdia e o juízo entre os seus servos (cfr. 3Rs 10,6-9). Oh! Como é bom e suave o teu espírito (cfr. Sb 12,1), corrigindo os que erram e admoestando os pecadores!

57. “Eis, senhora, pela caridade do Rei eterno, com que te amou, e por aquela com o amas, nós te suplicamos que não nos faltes em nosso desejo (cfr. Sl 77,30), mas uses conosco tua mansidão e misericórdia (cfr. Eclo 50,24). Pois grandes e indizíveis são tuas obras; por isso as almas indisciplinadas vagueiam longe de ti (cfr. Sb 17,1). E como andas sozinha, erissada de escolhos por toda parte como um exército em ordem de batalha (cfr. Ct 6,3), não podem morar contigo os insensatos. Mas nós somos os teus servos, as ovelhas de teu rebanho (cfr. Gn 50,18; Sl 78,13). Para sempre e por todos os séculos, juramos e prometemos guardar os preceitos da tua justiça (cfr. Sl 118,106)”.


Capítulo 29
Consentimento da Pobreza.

58. Com essas palavras, comoveram-se as entranhas da senhora Pobreza (cfr. 3Rs 3,26; Gn 43,30) e, como é próprio dela ter sempre misericórdia e perdoar, não conseguindo mais conter-se, correu e abraçou-os, dando o beijo da paz em cada um e dizendo: “Meus irmãos e meus filhos, já estou indo convosco: sei que vou conquistar muitos de vós.

O bem-aventurado Francisco, não cabendo em si de alegria, começou a louvar em voz alta o Onipotente, que não abandona os que nele esperam (cfr. Jdt 13,17), dizendo: “Bendizei ao Senhor, vós todos os seus eleitos, celebrai dias de alegria e confessai-o, (Tb 13,10), porque é bom, porque sua misericórdia é para sempre (Sl 105,1; 135,1)”.

E, descendo do de monte, levaram a senhora Pobreza ao lugar em que ficavam; pois já era pelo meio-dia (cfr. Jo 4,6).


Capítulo 30
Sobre o banquete da Pobreza com os frades.

59. Quando estava tudo preparado, forçaram-na a comer com eles.

Mas ela disse: “Mostrai-me antes a capela, a sala do capítulo, o claustro, o refeitório, a cozinha, o dormitório e o estábulo, as cadeiras bonitas, as mesas bem lisas e as casas enormes. Pois não estou vendo nada disso; só o que vejo sois vós, alegres e felizes, transbordando de gozo, cheios de consolação (cfr. 2Cor 7,4), como se esperásseis que é só desejar e vos darão tudo”.

Eles responderam: “Senhora e rainha nossa; nós, que somos teus servos há tanto tempo (cfr. Js 9,9), estamos cansados do caminho, e tu também, que vieste conosco, não trabalhaste pouco. Então, vamos comer primeiro, se permites, e assim, confortados, tudo será feito como mandares”.

60. Disse ela: “Gostei do que dissestes; então, tragam a água para lavarmos as mãos e toalhas para as enxugarmos”. Trouxeram logo meio vaso de barro cheio de água, porque não havia ali um inteiro.

Despejaram-na nas mãos dela, enquanto olhavam para cá e para lá, buscando uma toalha. Como não a encontraram, um deles ofereceu-lha a túnica que vestia para enxugar as mãos. Ela, recebendo-a agradecida, louvava a Deus em seu coração, por tê-la unido a tais homens.

61. Depois, levaram-na ao lugar em que a mesa estava preparada. Chegando lá e não vendo mais do que três ou quatro pedaços de pão de cevada ou farelo colocados na grama, ficou muito admirada, dizendo consigo: Quem jamais viu essas coisas nos séculos que passaram (cfr. Is 66,8; 51,9)? Bendito sejas, Senhor Deus (cfr. 1Cr 29.10; Lc 1,68), que cuidas de tudo (cfr. Sb 12,13); pois, quando queres, podes usar o poder (cfr. Sb 12,18); com essas obras, ensinaste o teu povo (cfr. Sb 12,19) a te agradar”.

Assim assentaram-se juntos, dando graças a Deus (cfr. Cl 3,17) por todos os seus dons.

62. A senhora Pobreza mandou trazer a comida cozida nas travessas. Trouxeram uma travessa cheia de água fria, para que nela todos molhassem o pão: ali não havia nem uma quantidade de travessas nem variedade de cozidos.

Pediu pelo menos que servissem algumas ervas odoríferas cruas. Mas, como não tinham hortelão nem sabiam de alguma horta, colheram ervas silvestres no mato e puseram-nas na sua frente.

Ela disse: “Trazei-me um pouco de sal para salgar as ervas, porque são amargas”.

Disseram: “Espera, senhora, que entremos na cidade para te trazer, se houver alguém que nos dê”.

Ela disse: “Dai-me uma faca para tirar o supérfluo e cortar o pão, porque está muito duro e seco”.

Responderam-lhe: “Senhora, nós não temos um ferreiro para nos fazer espadas; corta agora com os dentes, em vez de uma faca, e depois vamos tomar providências”.

“Tendes um pouquinho de vinho?”, perguntou. E

les responderam: “Senhora nossa, não temos vinho (cfr. Jo 2,3) porque o principal para a vida do homem é pão e água (cfr. Eclo 29,28), e, para ti, não é bom tomar vinho, porque a esposa de Cristo tem que fugir do vinho como de um veneno”.

63. Depois que ficaram satisfeitos, mais pela glória de tanta privação do que ficariam pela abundância de todas as coisas, bendisseram ao Senhor, diante do qual encontraram tanta graça, e levaram-na para um lugar em que pudesse repousar, porque estava cansada.

E assim jogou-se despida sobre a terra nua. Pediu também um travesseiro para sua cabeça. Trouxeeram logo uma pedra e colocaram embaixo.

Mas ela, depois de um sono bem repousado e sóbrio, levantou-se apressada, pedindo que lhe mostrassem o claustro. Levaram-na para uma colina e lhe mostraram todo o mundo que podiam ver, dizendo:

“Senhora, este é o nosso claustro”.


Capítulo 31
A senhora Pobreza abençoa os frades e os exorta a perseverarem na graça recebida.

64. Ela mandou que todos se sentassem juntos e lhes comunicou palavras de vida (cfr. Jo 6,69), dizendo:

“Filhos, vós sois benditos pelo Senhor Deus, que fez o céu e a terra (cfr. Jdt 13,23.24), que com tão grande plenitude de caridade me recebestes em vossa casa, que hoje me pareceu estar convosco como no paraíso de Deus (cfr. Ez 31,8.9; Ap 2,7). Por isso, fiquei cheia de alegria, transbordo de consolação (cfr. 2Cor 7,4), e peço desculpas porque demorei tanto para vir. Na verdade, o Senhor está convosco e eu não sabia (cfr. Gn 28,16). Eis que já vejo o que almejei, já tenho o que desejei, porque me uni na terra aos que representam para mim a imagem daquele com quem estou desposada nos céus. Que o Senhor abençoe a vossa fortaleza e receba as obras de vossas mãos (cfr. Dt 33,11).

65. Eu vos peço e rogo com insistência, como a meus filhos muito queridos (cfr. 1Cor 4,14), que persvereis naquilo que começastes por inspiração do Espírito Santo, sem abandonar vossa perfeição, como alguns costumam fazer, mas, escapando de todas as ciladas das trevas, esforçai-vos sempre pelo que é mais perfeito. Altíssima é a vossa perfeição; brilha comn luz mais clara, mais do que o homem, mais do que a virtude e a perfeição dos antigos. Não tenhais nenhuma dúvida de que possuireis o reino dos céus, não hesiteis, porque já tendes a garantia da herança futura e já recebestes o penhor do Espírito, fostes marcados com o sinal da glória de Cristo e, por graça dele, correspondeis em tudo àquela sua primeira escola, que reuniu quando veio ao mundo. Pois o que eles fizeram em sua presença foi o que vós começastes a fazer por completo em sua ausência, e não tendes por que envergonhar-vos de dizer: “Eis que deixamos tudo e te seguimos” (Mt 19,27)”.

66. Não vos espante a grandeza da luta e a imensidade do trabalho, porque tereis uma grande recompensa. E, olhando para o autor e consumador de todos os bens, o Senhor Jesus Cristo, quando lhe ofereceram gozo enfrentou a cruz, desprezando a confusão, (Hb 12,2), mantende a confissão indeclinável da vossa esperança (cfr. Hb 10,23). Correi ao certame que vos é proposto (Hb 12,1) na caridade. Correi com paciência, que vos é principalmente necessária, para que, cumprindo a vontade de Deus, alcanceis a promessa (Hb 10,36). Porque Deus é poderoso (cfr. Rm 11,23) para poder consumar felizmente, por sua santa graça, o que começastes e está acima de vossas forças, porque é fiel em suas promessas.

67. “Não encontre em vós nada do que lhe agrada o espírito que age nos filhos da rebeldia (cfr. Ef 2,2), que não encontre nada duvidoso, nada desconfiado, para não ter motivos para desencadear sobre vós a sua maldade. Porque é muito soberbo, e sua soberba e arrogância são maiores do que o seu poder (cfr. Is 16,6). Tem muita raiva (cfr. Ap 12,12) contra vós e vai voltar contra vós as armas de toda a sua astúcia, tentando derramar o veneno de sua malícia, pois já venceu e derrubou outros, e sofre por que vos vê acima dele.

68. Por causa de vossa conversão, queridos, os cidadãos do céu festejaram grandes gozos e cantaram cânticos novos diante do Rei eterno (cfr. Sl 95,1; 97,1; Ap 5,9). Alegram-se os anjos em vós e por vós, porque, enquanto por vós muitos vão guardar a virgindade e brilhar pela castidade, vão encher-se as ruínas da cidade superna, onde os virgens deverão ser colocados num lugar mais destacado, porque os que não se casam nem se dão em casamento serão como os anjos de Deus no céu (cfr. Mt 22.30). Exultam os Apóstolos ao verem que é renovada sua forma de vida, que sua doutrina é pregada, e que por vós são demonstrados exemplos da santidade especial. Alegram-se os mártires vendo que, pela efusão do sangue sagrado, sua constância está sendo apresentada de novo. Saltam de alegria os confessores, porque sabem que em vós rememora-se freqüentemente a sua vitória sobre o inimigo. Regozijam-se os virgens que seguem o Cordeiro onde quer que Ele vá (cfr. Ap 14,4), vendo que, por vós aumenta todos os dias o seu número. Por fim, toda a corte celestial enche-se de exultação, celebrando as solenidades dos novos concidadãos todos os dias, aspergida pelo odor das santas orações que sobem continuamente deste vale.

69. Então eu vos suplico, irmãos, pela misericórdia de Deus, (Rm 12,1), pela qual vos fizestes tão miseráveis, fazei de fato aquilo que vos trouxe, aquilo para que subistes dos rios da Babilônia. Recebei humildemente a graça que vos é oferecida, usando-a sempre dignamente em tudo para o louvor, a glória e a honra (cfr. Ap 4,9.11) daquele que morreu por vós, Jesus Cristo, Senhor nosso, que com o Pai e o Espírito Santo, vive e reina, vence e impera, Deus eternamente glorioso, por todos os séculos dos séculos. Amém”.
Ocorreu um erro neste gadget

Pesquisar: