segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A Vida de Santo Antão do Deserto, o Grande, por Santo Atanásio.



Vida de Santo Antão
por Santo Atanásio

Fonte:
http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/monaquismo/vida_de_santo_antao_indice.html

1. Sobre a Obra:

1.1 - Introdução

Santo Atanásio de Alexandria, o autor da "Vida de Santo Antão", é o insigne patriarca de Alexandria. Santo Atanásio nasceu cerca do ano 295. Em 325, sendo diácono, acompanhou o patriarca Alexandre, seu predecessor, ao Concílio de Nicéia, onde foi condenada a heresia ariana. Foi consagrado bispo de Alexandria a 08 de junho de 328. Toda sua vida pastoral viu-se envolvida pela controvérsia e lutas desencadeadas pelo arianismo, constituindo-se ele um dos baluartes da verdadeira fé proclamada pelo Concílio de Nicéia. Por cinco vezes foi desterrado de sua sede, sob os imperadores Constantino, Constâncio, Juliano e Valente. Entre 335 e 337 esteve em Tróvoris; entre 339 e 346, em Roma; os três últimos desterros passou-os no deserto do Egito: 356-362, 362-363, 365-366. Voltando finalmente a Alexandria, morre em 373. Nada sabemos sobre sua formação, seus mestres, seus estudos. Segundo seu próprio testemunho, alguns de seus mestres morreram durante as perseguições; em conseqüência, eram cristãos. Em todo caso, seu âmbito era a Igreja. Sem vacilar entrega-se a seu serviço e à sua defesa. parece ser mais copta do que grego. Fala e escreve copta. Conhece seu povo, pois dele provém. Sua comunidade vai apoiá-lo sempre, através de todas as turbulências de sua vida agitada. Dos quarenta e cinco anos de sua atividade episcopal, passou quase vinte no desterro. Isto explica que a maior parte de suas obras tenham surgido da contenda anti-ariana. Não pretende fazer literatura, mas apenas ensinar e convencer. Fora de uma obra em duas partes (Contra os pagãos e Sobre a encarnação do Verbo), escrita em seus tempos de diácono do patriarca Alexandre, a maioria de suas obras teológicas se dedicam a rebater o arianismo e defender a fé nicena, e nelas predomina o tom polêmico, chegando à ironia e ao sarcasmo. (Três sermões contra os arianos, Apologia contra os arianos, Apologia ao imperador Constantino, Apologia sobre sua fuga, História dos arianos para os monges). Mas Santo Atanásio foi também pastor de almas. Infelizmente perderam-se muitas de suas obras, especialmente seus comentários à Sagrada Escritura. Entre seus escritos sobressaem suas cartas pastorais pascais e um tratado sobre a virgindade.

1.2. Santo Atanásio e o monaquismo

Santo Atanásio não foi monge, mas acha-se em lugar muito destacado nas origens do movimento monástico.Sua vida, como a de todos os Padres da igreja do século IV, foi sumamente ascética. Ainda que seus estudos, segundo o testemunho de São Gregório Nazianzeno, não tenham sido especialmente amplos, possuía ele um grande domínio da Sagrada Escritura. Desde muito cedo parece ter estado em relação com os monges, particularmente com Santo Antão. Dois discípulos deste o acompanharam em seu desterro a Roma em 339, e entre os monges buscou e encontrou colaboradores durante sua luta anti-ariana, confiando a alguns deles sedes episcopais. Todas estas relações de amizade e mútua compreensão - os monges apoiaram amplamente a causa de Santo Atanásio, e este defendeu e propagou o nascente ideal no Oriente e no Ocidente - fizeram-se mais sólidas e profundas durante os três últimos desterros do bispo, na Tebaida e entre os monges pacomianos. Em face à resistência de muitos bispos, Santo Atanásio soube compreender o valor do movimento monástico, estimulou-o, influiu grandemente nele através de seu contato pessoal e de seus escritos, propagou seus ideais e o estabeleceu definitivamente como movimento de Igreja. É indubitável que, fora a ajuda de Deus e sua própria convicção e a adesão inquebrantável de seu povo de Alexandria, Santo Atanásio encontrou no apoio entusiasta do monaquismo copta um grande consolo em sua luta e em seus desterros. Aqui se destaca de modo especial a amizade de Santo Antão: segundo o historiador Sozomeno, escreveu ao imperador Constantino em favor de seu amigo, e não vacilou em apresentar-se na própria cidade de Alexandria. É indubitável também que, fora do influxo doutrinal, a presença de Santo Atanásio foi decisiva na orientação essencialmente escriturística e evangélica do movimento monástico. E, entre todas as suas obras, é sua "Vida de Santo Antão" a que constitui sua mais significativa contribuição ao desenvolvimento do espírito monástico.

1.3. A "vida de Santo Antão"

Santo Atanásio escreveu a "Vida", segundo alguns, por ocasião de seu primeiro desterro no deserto, na Tebaida, encontrando-se entre os monges, 356-362; segundo outros, tê-la-ia escrito em sua volta definitiva a Alexandria, depois de 366. Atualmente já ninguém discute que tenha sido efetivamente Santo Atanásio o autor da "Vida". O que se discute entre os entendidos é, sim, o caráter dessa biografia, isto é, qual o seu gênero literário, a veracidade histórica de seu conteúdo, o próprio pensamento de Santo Antão. Parece haver acordo em aceitar que o substancial dos dados contidos na "Vida" corresponde ajustadamente à verdade histórica, Santo Antão, não é, pois, uma figura mítica, pura criação de Santo Atanásio, como tampouco o são as diversas circunstâncias e etapas de sua vida. No entanto, deve-se conceder que os diversos episódios, separadamente considerados, não têm todos a mesma qualidade. A maior dificuldade se apóia na apresentação da doutrina espiritual de Santo Antão e em alguns aspectos de sua luta contra os demônios; é evidente que se no essencial Santo Atanásio é fiel à figura de seu herói, não é menos certo que expõe suas próprias reflexões sobre o tema. Não cremos que se possa ir tão longe como afirmar que a "Vida" é um tratado de espiritualidade; ela é, efetivamente, uma biografia, que pretende credibilidade histórica (5:7), mas que tem, além dessa finalidade expressa, também outra, abertamente declarada: dar aos monges um modelo digno de imitação (4; 93,1.9; 94,1). É possível que Santo Atanásio tenha tomado em conta o gênero biográfico da antiguidade e que tenha inclusive conhecido determinadas biografias de autores pagãos que puderam ter-lhe servido de modelo. De qualquer modo, deseja demonstrar que o copta iletrado que foi Santo Antão superou amplamente todos aqueles heróis ou homens divinos, não por suas próprias forças, mas pela graça de Deus (5,10; 7,1; 38,3; 78,1.2; 84,1; 94,1). Dificuldades aparte apresentam os dois longos discursos dos caps. 16-43 (sobre o combate espiritual) o 72-80 (contra os arianos). Sabe-se que os historiadores antigos costumavam pôr na boca de seus heróis discursos ou sermões nos quais expunham seus próprios pontos de vista ou sintetizavam livremente as opiniões atribuídas a seus biografados. É provável que Santo Atanásio tenha também recorrido a este procedimento. Contudo, principalmente no primeiro dos discursos dever-se-á reconhecer que se trata do resultado de um influxo recíproco; dadas as íntimas relações entre Santo Atanásio e o mundo monástico do deserto, especialmente Santo Antão, os discursos espirituais refletem a sabedoria experimental dos monges, mas igualmente as reflexões e sabedoria pastoral do patriarca alexandrino. Pois bem, a conferência espiritual dos caps. 16-43, que constitui um quarta parte de toda a "Vida" é a que justamente apresenta o traço que costuma chocar o leitor não iniciado, o mundo horripilante dos demônios. Esse discurso foi caracterizado às vezes como verdadeira súmula de demonologia. Talvez não seja possível dar uma explicação absolutamente satisfatória desse fenômeno. Como todo documento antigo, incluído o Novo Testamento, também a "Vida" dá provavelmente mais lugar ao mundo do maravilhoso, e, portanto, do demoníaco. Muitos serão os fatores que influíram: incapacidade para discernir causas naturais; a convicção de que deuses e ídolos pagãos eram em realidade demônios, que se enfureciam contra os cristãos por sentir ameaçado seu domínio sobre o mundo; crenças populares; influxos de movimentos ocultistas. Não dando muita atenção, sem eliminá-las, no entanto, às representações demasiado realistas do mundo espiritual, fica o essencial de uma grande sabedoria feita de profunda observação e experiência vivida, unida ao carisma do discernimento e da direção espiritual. Finalmente, Santo Atanásio apresenta na "Vida" como tese fundamental, que a santidade ou perfeição cristã, animada pelo Espírito e refletida nas figuras bíblicas (especialmente São João Batista, Nosso Senhor Jesus Cristo, os Apóstolos) e nos mártires da Igreja, continuava ao alcance de todos. Podia mudar, sem dúvida, o quadro externo - agora, o monaquismo tal como Santo Antão o viveu -, mas a plenitude de vida do Espírito continuava sendo a mesma. Neste sentido, a "Vida" continua sendo um documento, não só monástico, mas simplesmente cristão, de perene atualidade. Isto explica também a imensa popularidade que a "Vida" teve em todos os tempos, a quantidade de traduções, desde as que, muito pouco depois da aparição do original grego, foram feitas do latim e do sírio, e constitui a razão mais profunda da versão castelhana (de onde vem esta portuguesa).

1.4. Santo Antão

Para conhecer a vida de Santo Antão tem-se como texto fundamental a obra de Santo Atanásio. Fora dela citam-se por vezes outras fontes, mas que não dão as mesmas garantias de autenticidade. Com mais ou menos segurança se lhes atribuem algumas cartas, ditadas por ele em todo caso, pois não sabia grego. Menor segurança reveste a atribuição que de alguns apoftegmas se lhe faz tradicionalmente. Fora de dúvida estão, no entanto, as notícias contidas na carta que, por ocasião da morte de Santo Antão, escreveu ao amigo deste, São Serapião, bispo de Thmuis (ob. entre 339 e 353), como igualmente a menção do historiador Sozomeno (+ 439?) e o elogio de São Gregório Nazianzeno (+ 389/390). Valem também as menções na literatura pacomiana, ainda que por vezes adornadas com um traço bem legendário. As datas da vida de Santo Antão são inseguras. A mais certa é a de sua morte, no ano 356. Segundo a "Vida" (89,3), tinha nesta data cento e cinco anos de idade. Ainda que semelhante idade, certamente não comum, não seja de todo improvável na vida de um homem, pode, no entanto, estar excedida em alguns anos. Sendo assim, Santo Antão teria nascido entre 250 e 260. Como lugar de origem, costuma-se dar a aldeia de Coma (Kiman-el-Arus), no Egito médio, perto da antiga Heracleópolis. Seus pais eram camponeses abastados. Além de Antão, tinham uma filha. À morte dos pais, o jovem, de uns 18 a 20 anos, vendeu a propriedade, por amor ao Evangelho, distribuiu o dinheiro aos pobres, reservando apenas algo para sua irmã, menor que ele. Posteriormente distribuiu também isso, consagrando sua irmã ao estado de virgem cristã. Retirou-se ele à vida solitária, perto de sua aldeia natal, segundo o costume da época. É a etapa de sua formação monástica, de sua apaixonada dedicação à Escritura e à oração; é também o período de seus primeiros encontros com o demônio. Depois de um certo tempo, buscando uma confrontação mais direta com o demônio, vai viver num cemitério abandonado, encerrando-se um mausoléu. Ali sofre ataques violentíssimos dos demônios, mas sem se deixar amedrontar, persevera em seu propósito. Assim chega aos 35 anos. Empreende então a separação decisiva: vai para o deserto. A "Vida" assinala esse passo como algo totalmente insólito nessa época (11,1). Santo Antão cruza o Nilo e se interna na montanha, onde ocupa um fortim abandonado. Ali passou quase vinte anos (14,1), não se deixando ver por ninguém, entregue absolutamente só à prática da vida ascética. Pressionado pelos que queriam imitar sua vida, Santo Antão abandona a solidão e se converte em pai e mestre de monges. Conta cinqüenta e cinco anos, e junto ao dom da paternidade espiritual, Deus lhe concede diversos outros carismas. Em torno dele forma-se uma pequena colônia de ascetas (44). Nesta etapa conta-se também a descida de Santo Antão e de seus discípulos a Alexandria, por ocasião da perseguição de Maximino Daia (311), para confortarem os mártires de Cristo ou ter a graça de sofrerem eles próprios o martírio. Voltando à solidão, encontrou-a povoada demais para seus desejos. Fugindo então à celebridade, Santo Antão chega ao que a "Vida" chama "Montanha interior" (a "Montanha" exterior, ou Pispir (Deir-el-Mnemonn) havia sido até então sua residência, e nela permanece a colônia de seus discípulos), o Monte Colzim, perto do Mar Vermelho. Apesar de tudo, de vez em quando visita seus irmãos, e estes vão a ele. A "Vida" coloca neste tempo a maioria dos prodígios que lhe atribui. A pedido dos bispos e dos cristãos, empreende segunda vez o caminho de Alexandria, para prestar seu apoio à verdadeira fé na luta contra o arianismo. Os últimos anos de sua vida passou em companhia de dois discípulos. Vaticina sua morte, faz legado de suas pobres roupas e roga a seus acompanhantes que não revelem a ninguém o lugar de sua sepultura. Gratificado com uma última visão de Deus e de seus santos, morreu em grande paz. Ainda que a "Vida" diga explicitamente que Santo Antão não foi o primeiro anacoreta (3,3-5; 4,1-5), sustentando, por outro lado, que foi o primeiro a retirar-se ao deserto do Egito (11,1), e ainda que, além disso , seja muito difícil assinalar origens e iniciadores precisos num movimento humano tão complexo como o monástico, contudo, a figura se sobressai em forma tão extraordinária, que com razão é ele considerado pai da vida monástica e, especialmente, como modelo perfeito da vida solitária. Sua fama já em vida, acrescentada depois de sua morte sobretudo através das páginas da "Vida", é inteiramente justa. Ao celebrar sua festa, de acordo com muito antigas tradições, a 17 de janeiro, os cristãos reconhecemos o poder de Deus entre os homens, a força de sua sabedoria ao deixar-nos um exemplo em homem tão humilde, o dom de seu Espírito multiforme com a discrição e o alento fraterno do grande ancião.

1.5. O deserto

O deserto constitui, na revelação do Antigo e do Novo Testamento, um tema de atração particular. Sabemos que Israel teve no deserto as experiências mais imediatas da presença, do amor, da misericórdia de Deus, e que nele teve que lutar pela pureza de sua entrega, pela fidelidade a seu Deus. Para uma tradição, o deserto passou a ser inclusive um símbolo da relação mais pura, da frescura do primeiro amor entre Deus e Israel. Na medida, porém, em que Israel se fez sedentário, foi variando sua compreensão do deserto, e não viu nele senão algo terrível, cheio de ameaças e feras, onde ninguém podia viver. Deste modo, a meditação de sua própria história fê-lo perder a visão idílica de sua peregrinação pelo deserto, e apercebeu-se de que essa época esteve cheia de pecado, de ofensa a Deus, a tal ponto que em certo momento o deserto chegou a ser símbolo do juízo condenatório de Deus. Já se vislumbra nisto a oscilação na consideração do deserto como habitação privilegiada de Deus e como lugar de sua ausência, horrível, cheio de perigos e tentações. O Novo Testamento é igualmente devedor dessa dupla visão. É no deserto que São João Batista começa o anúncio do Reino de Deus, e para onde foge a Igreja perseguida do Apocalipse (12,5-6). É também a montanha solitária lugar preferido por Jesus para sua oração íntima. Mas o deserto é, além disso, morada do demônio, símbolo do obscuro e sem vida. Jesus é tentado no deserto e, segundo seu próprio ensinamento, esse é o lugar próprio dos demônios. Seja qual for a origem dessa dupla imagem do deserto, o essencial é que participa do paradoxo de tudo o que conforma a relação de Deus com o homem. Não há lugar, nem tempo, nem coisa, nem pessoa que goze da unidade que só é própria de Deus. Tudo está marcado com o signo da ambigüidade. Tudo pode ser sinal da presença de Deus, tudo pode ser também tentação para esquecê-lo. O deserto aparece então não sob a simplista concepção de uma fuga ou evasão do mundo, senão como aquela realidade de nosso mundo na qual, mais do que em nenhuma outra, se está com indefesa desnudez ante a única decisão que importa: por Deus ou contra ele. O deserto recorda ao homem sua pobreza e solidão essenciais, sem as quais não se pode compreender nem a riqueza da criação nem a graça que significa a comunidade e o serviço aos homens. É essa dupla visão caracterizada também pela "Vida". Santo Antão vai ao deserto, vai progressivamente em busca de maior solidão para poder se enfrentar com todas as incitações que pretendem envolvê-lo em sua complexidade, estorvando-lhe o caminho à recuperação de sua unidade. É o lugar de sua luta contra o demônio. À medida, porém, que seu progresso espiritual avança, o deserto se converte para ele em lugar privilegiado de seu encontro pessoal e místico com Deus. Esta é a finalidade verdadeira e última de toda austeridade, de toda vida ascética. Seria insensato crer que Santo Antão ou os monges esgotam sua vida na busca do demônio. Buscam primeiramente a Deus, mas sabem muito bem que esse caminho passa através de todas as ilusões demoníacas. As privações de todo tipo, a leitura e meditação da Palavra de Deus, a oração constante, são as armas para percorrer o caminho sem temer os perigos. Sua meta última é, porém, restaurar a imagem do homem tal como foi criado por Deus: dono, e não escravo do mundo, ao serviço do único Senhor do universo, e assinalar o estado último e definitivo, em que tudo é um, em que tudo é Sim e Amém.

1.6. Texto da "Vida"

A "Vida de Santo Antão" foi escrita por Santo Atanásio em grego. Do texto grego se conhecem 165 manuscritos. Mais da metade deles se conservam na forma que receberam na compilação de Simeão Metafrasto, o hagiógrafo grego, em fins do século X. Este texto só teve até agora duas edições originais. A primeira foi feita por David Hoeschel em 1611; por este texto todo o século XVII conheceu a "Vida". Em 1698, os beneditinos da Congregação de São Mauro J. Loppin e B. de Montfaucon publicam a primeira edição crítica das obras de Santo Atanásio, a qual figura na Patrologia grega de Migne, t.26, col. 837-976. De fato, ambas as edições, salvo algumas variantes, continuam utilizando o texto metafrástico. Seria necessária uma edição crítica do texto grego. Do texto original há duas versões latinas e várias orientais. A versão latina mais conhecida é a devida ao presbítero Evágrio de Antioquia, que no ano 388 chegou a ser bispo de sua cidade; Evágrio era amigo de São Jerônimo, e dedicou sua tradução a Inocêncio, amigo comum de ambos, morto em 374. Esta versão é, pois, do tempo de Santo Atanásio, e deve ter sido feita pouco depois da publicação do original, o que demonstra sua ampla difusão e popularidade. Dom André Wilmart deu a conhecer em 1914 a existência de outra versão latina distinta, conservada num códice do Capítulo da Basílica de São Pedro, e publicou algumas partes. Gérard Garitte editou-a integralmente em 1939. Supõe-se hoje em dia, geralmente, que esta versão é também anterior à de Evágrio, mas a deste é que foi constantemente copiada e impressa. Aparece efetivamente na edição beneditina mencionada anteriormente, ao pé do texto grego, e é também a publicada por Migne, tanto na Patrologia grega como no vol. 73, col. 125-168, da Patrologia latina. Também existem versões coptas, árabes, etíopes, sírias, armênias e georgianas, algumas já editadas, outras entretanto inéditas.

1.7. Nossa versão

Como já se explicou ao leitor no prólogo, o manuscrito original da tradução castelhana foi preparado sobre o texto latino de Evágrio de Antioquia. Dada a penúria de material patrístico em nossa região, só nos foi possível utilizar o volume da Patrologia grega por muito pouco tempo. De todo modo, revimos todo o manuscrito segundo esse texto. As variantes de Evágrio, que nos pareceram mais importantes, consignamo-las nas notas com a sigla: E. Foram-nos muito úteis as versões de René Draguet, Robert T. Meyer e Jean Bremond, assinaladas mais adiante na bibliografia. Desde já agradecemos todas as observações dos eruditos amigos sobre erros de tradução ou sugestões para sua melhor formulação. É este também o lugar para agradecer de todo o coração ao Pe. Elmar Boos, o.f.m. Cap. do Convento de São Francisco de Valdivia, por sua generosidade em obter para nossa biblioteca o "Patristic Greek Lexikon", de G.W.H. Lampe.

1.8. Lacunas

Estamos muito conscientes de nossas insuficiências e lacunas. Em particular teríamos gostado de incluir a tradução das cartas e apoftegmas atribuídos a Santo Antão. Igualmente quiséramos ter podido incluir nesta "Introdução" uma resenha das traduções castelhanas da "Vida" e, sobretudo, uma exposição dos motivos mais salientes de sua doutrina espiritual. Mas, não só esta "Introdução" se teria estendido muito além do que já o foi, como também declaramos nossa incompetência neste ponto, maior ainda do que nos outros em que nos atrevemos a tocar.

1.9. Bibliografia

Damos a lista das obras que mais nos serviram tanto para a redação desta Introdução, como para a preparação da tradução e das notas:

MIGNE, Patrologia grega, t. 26 (PG).
MIGNE, Patrologia latina, t. 73 (PL).
COLOMBAS, GARCIA M., El monacato primitivo, T. I BAC 351, Madrid, 1974, 376 p.
BREMOND, JEAN, Los Padres del Yermo.
Prólogo de Henri Bremond. Aguilar, Madrid, s.a., 510 p.
DRAGUET, RENE, Les Pères du Désert. Plon, Paris, 1949, 1 X - 333.
LAMPE, G.W.H., Patristic Greek Lexikon. Clarendon. Oxford, XLVII - 1568 p.
LORIE, L.T.H.A., Spiritual Terminology in the Latin Translation of the Vita Antonii (Latinitas Christianorum Primaeva XI). Dekker & van de Vegt, Nimega, 1955, XV - 180 p.
MEYER, ROBERT T., The Life of Saint Anthony (Ancient Christian Writers, n. 10).
The Newman Press, Westminster, Maryl., 1950, 130 p.
Studia Anselmiana 38: Antonius Magnus Eremita.
Cura BASILII STEIDLE OSB Herder, Roma, 1956, VIII - 306.
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2. Parte I

2.1 - PRÓLOGO

Atanásio, Bispo, aos Irmãos [1] no estrangeiro [2] Excelente é a competição em que vocês entraram com os monges [3] do Egito, decididos como estão a igualá-los ou mesmo sobrepujá-los na prática da vida ascética [4]. De fato, já existem celas monásticas [5] em sua terra e o nome de "monge" se estabeleceu por si mesmo. Este propósito é, em verdade, digno de louvor, e consignam suas orações que Deus o realize. Vocês me pediram um relato sobre a vida de Santo Antão: querem saber como chegou à vida ascética, que foi antes dela, como foi sua morte, e se é verdade o que dele se diz. Pensam modelar suas vidas segundo o zelo da dele. Muito me alegro em aceitar esse pedido, pois também eu tiro real proveito e ajuda da simples lembrança de Antão, e pressinto que também vocês, depois de ouvida a história, não só admirarão o homem, mas quererão emular sua resolução, quanto lhes seja possível. Realmente, para monges, a vida de Antão é modelo ideal de vida ascética. Assim, não desconfiem dos relatos que receberam de outros a respeito dele, mas certifiquem-se de que, ao contrário, ouviram muito pouco. Em verdade, pouco lhes contaram quando há tanto que dizer. Eu mesmo, com tudo o que lhes conto por cartas, apenas lhes transmitirei algumas das lembranças que tenho dele. Vocês, por sua parte, não deixem de perguntar a todos os viajantes que cheguem de cá. Assim, talvez, com o que cada um conte do que saiba, ter-se-á um relato que aproximadamente lhe faça justiça. Bem, quando recebi sua carta, quis mandar alguns monges, em especial os que estiveram mais estreitamente unidos a ele. Assim teria eu aprendido detalhes adicionais e poderia mandar um relato mais completo. Mas o tempo de navegação já passou, e o homem do correio começa a impacientar-se. Por isso apresso-me a escrever o que sei - porque o vi com frequência -, e o que pude aprender do que foi seu companheiro por largo tempo e lhe vertia água nas mãos [6]. Do começo ao fim considerei escrupulosamente a verdade: não quero que alguém recuse crer por lhe parecer excessivo o que ouviu, nem que considero menos a esse homem tão santo, por não lhe parecer suficiente o que tenha sabido.

2.2 - Nascimento e Juventude de Antão

Antão foi egípcio de nascimento. Seus pais eram de boa linhagem e abastados. Como eram cristãos, também o menino cresceu como cristão. Quando menino viveu com seus pais, só conhecendo sua família e sua casa; quando cresceu e se fez moço e avançou em idade, não quis ir à escola [7], desejando evitar a companhia de outros meninos; seu único desejo era, como diz a Escritura acerca de Jacó (Gn 25,27), levar uma simples vida no lar. Supõe-se que ia à igreja com seus pais, e aí não demonstrava o desinteresse de um menino nem o desprezo dos jovens por tais coisas. Ao contrário, obedecendo aos pais, prestava atenção às leituras e guardava cuidadosamente no coração o proveito que delas extraía. Além disso, sem abusar das fáceis condições em que vivia como criança, nunca importunou seus pais pedindo manjares caros ou finos, nem tinha prazer algum em coisas semelhantes. Ficava satisfeito com o que se lhe punha adiante e não pedia mais [8].

2.3 - A Vocação de Antão e seus primeiros passos na vida ascética
Depois da morte de seus pais ficou só com sua única irmã, muito mais jovem. Tinha então uns dezoito a vinte anos, e tomou cuidado da casa e de sua irmã. Menos de seis meses depois da morte de seus pais, ia, como de costume, a caminho da igreja. Enquanto caminhava, ia meditando e refletia como os apóstolos deixaram tudo, e seguiram o Salvador (Mt 4,20;19,27); como, segundo se refere nos Atos (4,35-37), os fiéis vendiam o que tinham e o punham aos pés dos Apóstolos para distribuição entre os necessitados, e quão grande é a esperança prometida nos céus para os que assim fazem (Ef 1,18; Col 1,5). Pensando estas coisas, entrou na igreja. Aconteceu que nesse momento se estava lendo o evangelho, e ouviu a passagem em que o Senhor disse ao jovem rico: "Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá-o aos pobres, depois vem, segue-me e terás um tesouro no céu " (Mt 19,21). Como se Deus lhe houvera proposto a lembrança dos santos, e como se a leitura houvesse sido dirigida especialmente a ele [9], Antão saiu imediatamente da igreja e deu a propriedade que tinha de seus antepassados: trezentas "aruras" [10], terra muito fértil e formosa. Não quis que nem ele nem sua irmã tivessem algo que ver com ela. Vendeu tudo o mais, os bens móveis que possuía, e entregou aos pobres a considerável soma recebida, deixando só um pouco para sua irmã [11].

3. De novo, porém, entrando na igreja, ouviu aquela palavra do Senhor no evangelho: "Não se preocupem do amanhã" (Mt 6,34). Não pôde suportar maior espera, mas foi e distribuiu aos pobres também este pouco [12]. Colocou sua irmã entre virgens conhecidas e de confiança, entregando-a para que a educassem [13]. Então ele dedicou todo seu tempo à vida ascética, atento a si mesmo e vivendo de renúncia a si mesmo, perto de sua própria casa. Ainda não existiam tantas celas monásticas no Egito, e nenhum monge conhecia sequer o longínquo deserto. Todo o que desejava enfrentar-se consigo mesmo, servindo a Cristo, praticava sozinho a vida ascética, não longe de sua aldeia. Naquele tempo havia na aldeia vizinha um ancião que desde sua juventude levava na solidão a vida ascética. Quando Antão o viu, "teve zelo pelo bem" (Gl 4,18), e se estabeleceu imediatamente na vizinhança da cidade. Desde então, quando ouvia que em alguma parte havia uma alma esforçada, ia, como sábia abelha, buscá-la e não voltava sem havê-la visto; só depois de haver recebido, por assim dizer, provisões para sua jornada de virtude, regressava. Aí, pois, passou o tempo de sua iniciação, se afirmou sua determinação de não voltar à casa de seus pais nem de pensar em seus parentes, mas a dedicar todas as suas inclinações e energias à prática contínua da via ascética. Fazia trabalho manual pois tinha ouvido que "o que não quer trabalhar não tem direito de comer" (2 Ts 3,10). Do que recebia guardava algo para sua manutenção e o resto dava-o aos pobres. Orava constantemente [14], tendo aprendido que devemos orar em privado (Mt 6,6) sem cessar (Lc 18,1; 21,36; 1 Ts 5,17). Além disso, estava tão atento à leitura da Sagrada Escritura, que nada se lhe escapava: retinha tudo [15], e assim sua memória lhe servia de livros.
4. Assim vivia Antão e era amado por todos.Por seu lado, submetia-se com toda sinceridade aos homens piedosos que visitava, e se esforçava por aprender aquilo em que cada um o avantajava em zelo e prática ascética. Observava a bondade de um, a seriedade de outro na oração; estudava a aprazível quietude de um e a afabilidade de outro; fixava sua atenção nas vigílias observadas por um e nos estudo de outro; admirava um por sua paciência, a outro por jejuar e dormir no chão, considerava atentamente a humildade de um e a paciente abstinência de outro; e em uns e outros notava especialmente a devoção a Cristo e o amor que mutuamente se tinham [16]. Havendo-se assim saciado, voltava a seu lugar de vida ascética. Então se apropriava do que havia obtido de cada um e dedicava todas as suas energias a realizar em si as virtudes de todos (17). Não tinha disputas com ninguém de sua idade, nem tampouco queria ser inferior a eles no melhor; e ainda isto fazia-o de tal modo que ninguém se sentia ofendido, mas todos se alegravam com ele. E assim todos os aldeões e os monges com os quais estava unido viram que classe de homem era ele e o chamavam "o amigo de Deus" (18), amando-o como filho ou irmão.

2.4 - Primeiros combates com os demônios

Mas o demônio, que odeia e inveja o bem, não podia ver tal resolução num jovem, e se pôs a empregar suas velhas táticas também contra ele (19). Primeiro tratou de fazê-lo desertar da vida ascética recordando-lhe sua propriedade, o cuidado de sua irmã, os apegos da parentela, o amor do dinheiro, o amor à glória, os inumeráveis prazeres da mesa e todas as demais coisas agradáveis da vida. Finalmente apresentou-lhe a austeridade e tudo o que se segue a essa virtude, sugerindo-lhe que o corpo é fraco e o tempo é longo. Em resumo, despertou em sua mente toda uma nuvem de argumentos, procurando fazê-lo abandonar seu firme propósito. O inimigo viu, no entanto, que era impotente em face da determinação de Antão, e que antes era ele que estava sendo vencido pela firmeza do homem, derrotado por sua sólida fé e sua constante oração. Pôs então toda a sua confiança nas armas que estão "nos músculos de seu ventre" (Jo 40,16). Jactando-se delas, pois são sua preferida artimanha contra os jovens, atacou o jovem molestando-o de noite e instigando-o de dia, de tal modo que até os que viam Antão podiam aperceber-se da luta que se travava entre os dois. O inimigo queria sugerir-lhe pensamentos baixos, mas ele os dissipava com orações; procurava incitá-lo ao prazer, mas Antão, envergonhado, cingia seu corpo com sua fé, orações e jejuns. Atreveu-se então o perverso demônio a disfarçar-se em mulher e fazer-se passar por ela em todas as formas possíveis durante a noite, só para enganar a Antão. Mas ele encheu seus pensamentos de Cristo, refletiu sobre a nobreza da alma criada por Ele, e sua espiritualidade, e assim apagou o carvão ardente da tentação. E quando de novo o inimigo lhe sugeriu o encanto sedutor do prazer, Antão, enfadado com razão, e entristecido, manteve seus propósitos com a ameaça do fogo e dos vermes (cf Jd 16,21; Sir 7,19; Is 66,24; Mc 9,48) (20). Sustentando isto no alto, como escudo, passou por tudo sem se dobrar. Toda essa experiência levou o inimigo a envergonhar-se. Em verdade, ele, que pensara ser como Deus, fez-se louco ante a resistência de um homem. Ele, que em sua presunção desdenhava carne e sangue, foi agora derrotado por um homem de carne em sua carne. Verdadeiramente o Senhor trabalhava com este homem, Ele que por nós tornou-se carne e deu a seu corpo a vitória sobre o demônio. assim, todos os que combatem seriamente podem dizer: "Não eu, mas a graça de Deus comigo" (1 Cor 15,10).

6. Finalmente, quando o dragão não pôde conquistar Antão nem por estes últimos meios, mas viu-se arrojado de seu coração, rangendo seus dentes, como diz a Escritura (Mc 9,17), mudou, por assim dizer, sua pessoa. Tal como é seu coração, assim lhe apareceu: como um moço preto (21); e como inclinando-se diante dele, já não o molestou com pensamentos - pois o impostor tinha sido lançado fora - mas usando voz humana disse-lhe: "A muitos enganei e venci; mas agora que te ataquei a ti e a teus esforços como o fiz com tantos outros, mostrei-me demasiadamente fraco". "Quem és tu que me falas assim?", perguntou-lhe Antão. Apressou-se o outro a replicar com a voz lastimosa: "Sou o amante da fornicação. Minha missão é espreitar a juventude e seduzi-la; chamam-me o espírito de fornicação. A quantos eu enganei, decididos que estavam a cuidar de seus sentidos! A quantas pessoas castas seduzi com minhas lisonjas! Eu sou aquele por cuja causa o profeta censura os decaídos: "Foram enganados pelos espírito da fornicação" (Os 4,12). Sim, fui eu que os levei à queda. Fui eu que tanto te molestei e tão a miúdo fui vencido por ti". Antão deu, pois, graças ao Senhor e armando-se de coragem contra ele, disse: "És então inteiramente desprezível; és negro em tua alma e tão débil como um menino. Doravante já não me causas nenhuma preocupação, porque o Senhor está comigo e me auxilia: verei a derrota de meus adversários" (Sl 117, 7). Ouvindo isto, o negro desapareceu imediatamente, inclinando-se a tais palavras e temendo acercar-se do homem.

2.5 - Antão aumenta sua austeridade

Esta foi a primeira vitória de Antão sobre o demônio; ou melhor, digamos que este singular êxito em Antão foi do Salvador, que "condenou o pecado na carne, a fim de que a justificação prescrita pela Lei, fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o Espírito" (Rm 8,3-4). Mas Antão não se descuidou nem se acreditou garantido por si mesmo pelos simples fato de se ter o demônio lançado a seus pés; tampouco o inimigo, ainda que vencido no combate, deixou de estar-lhe à espreita. andava dando voltas em redor, como um leão (1 Pd 5,8), buscando uma ocasião contra ele. Antão, porém, tendo aprendido nas Escrituras quão diversos são os enganos do maligno (Ef 6,11), praticou seriamente a vida ascética, tendo em conta que, se não pudesse seduzir seu coração pelo prazer do corpo, trataria certamente de enganá-lo por algum outro método; porque o amor do demônio é o pecado. Resolveu, por isso, acostumar-se a um modo mais austero de vida. Mortificou seu corpo sempre mais, e o sujeitou, para não acontecer que, tendo vencido numa ocasião, perdesse em outra (1 Cor9,27). Muitos se maravilhavam de suas austeridades, porém ele próprio as suportava com facilidade. O zelo que havia penetrado sua alma por tanto tempo transformou-se pelo costume em segunda natureza, de modo que ainda a menor inspiração recebida de outros levava-o a responder com grande entusiasmo. Por exemplo, observava as vigílias noturnas com tal determinação, que a míudo passava toda a noite sem dormir, e isso não só uma vez mas muitas, para admiração de todos. Assim também comia só uma vez ao dia, depois do cair do sol; às vezes cada dois dias, e com freqüência tomava seu alimento só depois de quatro dias. Sua alimentação consistia em pão e sal; como bebida tomava só água. Não necessitamos sequer mencionar carne ou vinho, porque tais coisas tampouco se encontravam entre os demais ascetas. Contentava-se em dormir sobre uma esteira, embora regularmente o fizesse sobre o simples chão. Despreza o uso de unguentos para a pele, dizendo que os jovens devem praticar a vida ascética com seriedade e não andar buscando coisas que amolecem o corpo; deviam antes acostumar-se ao trabalho duro, tendo em conta as palavras do Apóstolo: "É na fraqueza que se revela minha força" (2 Cor 12,10). Dizia que as energias da alma aumentam quanto mais débeis são os desejos do corpo. Além disto estava absolutamente convencido do seguinte: pensava que apreciaria seu progresso na virtude e seu conseqüente afastamento do mundo não pelo tempo passado nisto mas por seu apego e dedicação. Assim, não se preocupava com o passar do tempo, mas dia por dia, como se estivesse começando a vida ascética, fazia os maiores esforços rumo à perfeição. Gostava de repetir a si mesmo as palavras de S. Paulo: "Esquecer-me do que fica para trás e esforçar-me por alcançar o que está adiante" (Fl 3,13), recordando também a voz do profeta Elias: "Viva o Senhor em cuja presença estou neste dia" (1 Rs 17,1; 18,15). Observava que, ao dizer "este dia", não estava contando o tempo que havia passado, mas, como que começando de novo, trabalhava duro cada dia para fazer de si mesmo alguém que pudesse aparecer diante de Deus: puro de coração e disposto a seguir Sua vontade. E costumava dizer que a vida levada pelo grande Elias devia ser para o asceta como um espelho no qual poderia sempre mirar a própria vida.

2.6 - Antão recluso nos sepulcros: mais lutas com os demônios

Assim dominou-se Antão a si mesmo. Decidiu então mudar-se para os sepulcros (22) que se achavam a certa distância da aldeia. Pediu a um de seus familiares que lhe levasse pão a longos intervalos. Entrou, pois, em uma das tumbas; o mencionado homem fechou a porta atrás dele, e assim ficou dentro sozinho. Isto era mais do que o inimigo podia suportar, pois em verdade temia que agora fosse encher também o deserto com a vida ascética. Assim chegou uma noite com um grande número de demônios e o açoitou tão implacavelmente que ficou lançado no chão, sem fala pela dor. Afirmava que a dor era tão forte que os golpes não podiam ter sido infligidos por homem algum para causar semelhante tormento. Pela Providência de Deus - porque o Senhor não abandona os que nele esperam - seu parente chegou no dia seguinte trazendo-lhe pão. Quando abriu a porta e o viu atirado no chão como morto, levantou-o e o levou até a igreja da aldeia e o depositou sobre o solo. Muitos de seus parentes e da gente da aldeia sentaram-se em volta de Antão como para velar um cadáver. Mas pela meia-noite Antão recobrou o conhecimento e despertou. Quando viu que todos estavam dormindo e só seu amigo se achava desperto, fez-lhe sinais para que se aproximasse e pediu-lhe que o levantasse e levasse de novo para os sepulcros, sem despertar ninguém.

9. O homem levou-o de volta, a porta foi trancada como antes e de novo ficou dentro, sozinho. Pelos golpes recebidos estava demasiado fraco para manter-se de pé; orava então, estendido no solo. Terminada sua oração, gritou: "Aqui estou eu, Antão, que não me acovardei com teus golpes, e ainda que mais me dês, nada me separará do amor de Cristo (Rm 8,35). E começou a cantar: "Se um exército se acampar contra mim, meu coração não temerá" (Sl 26,3). Tais eram os pensamentos e palavras do asceta, mas o que odeia o bem, o inimigo assombrado de que depois de todos os golpes ainda tivesse valor para voltar, chamou seus cães (23) e arrebatado de raiva disse: "Vêem vocês que não pudemos deter esse tipo nem com o espírito de fornicação nem com os golpes; ao contrário, chega até a desafiar-nos. Vamos proceder contra ele de outro modo". A função de malfeitor não é difícil para o demônio. Essa noite, por isso, fizeram tal estrépito que o lugar parecia sacudido por um terremoto. Era como se os demônios abrissem passagens pelas quatro paredes do recinto, invadindo impetuosamente através delas em forma de bestas ferozes e répteis. De repente todo o lugar se encheu de imagens fantasmagóricas de leões, ursos, leopardos, touros, serpentes, víboras, escorpiões e lobos; cada qual se movia segundo o exemplar que havia assumido. O leão rugia, pronto a saltar sobre ele; o touro, quase a atravessá-lo com os chifres; a serpente retorcia-se sem o alcançar completamente; o lobo acometia-o de frente (24). E a gritaria armada simultaneamente por todas essas aparições era espantosa, e a fúria que mostravam, feroz. Antão, atormentado e pungido por eles, sentia aumentar a dor em seu corpo; no entanto, permanecia sem medo e com o espírito vigilante. Gemia, é verdade, pela dor que atormentava seu corpo, mas a mente era senhora da situação e, como por debique, dizia-lhes: "Se tivessem poder sobre mim, teria bastado que viesse um só de vocês; mas o Senhor lhes tirou a força e por isso se esforçam em fazer-me perder o juízo com seu número; é sinal de fraqueza terem de imitar animais ferozes". De novo teve a valentia de dizer-lhes: "Se é que podem, se é que receberam poder sobre mim, não se demorem, venham ao ataque! E se nada podem, para que esforçar-se tanto sem nenhum fim? Porque a fé em Nosso Senhor é selo para nós e muro de salvação". Assim, depois de haver intentado muitas argúcias, rangeram os dentes contra ele, porque eram eles próprios que estavam ficando loucos e não ele.
10. De novo o Senhor não se esqueceu de Antão em sua luta, mas veio ajudá-lo. Pois quando olhou para cima, viu como se o teto se abrisse e um raio de luz baixasse até ele. Foram-se os demônios de repente, cessou-lhe a dor do corpo, e o edifício estava restaurado como antes. Notando que a ajuda chegara, Antão respirou livremente e sentiu-se aliviado de suas dores. E perguntou à visão: "onde estavas tu? Por que não aparecestes no começo para deter minhas dores?" E uma voz lhe falou: "Antão, eu estava aqui, mas esperava ver-te enquanto agias. E agora, porque agüentaste sem te renderes, serei sempre teu auxílio e te tornarei famoso em toda parte". Ouvindo isto, levantou-se e orou: e ficou tão fortalecido que sentiu seu corpo mais vigoroso que antes. Tinha por aquele tempo uns trinta e cinco anos de idade.
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2.7 - Notas Bibliográficas

As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da "Vida".

E = versão latina de Evágrio.
As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da "Vida".
E = versão latina de Evágrio.
[1] O título que traz E é provavelmente o original: Athanasius episcopus ad peregrinos fratres. A palavra latina "frater" (irmão) foi usada pela latinidade cristã com o sentido de "irmão em Cristo", "cristão". Na literatura monástica "irmão" chegou a ser sinônimo de "monge". MEYER 106; LORIE 34 ss.; LAMPE 30.
[2] Trata-se de monges ocidentais, que, parece, pediram a Santo Atanásio esse servió. O patriarca esteve relegado em Tréveris em 336/337; em março de 340 foi de novo deportado; desta vez esteve em Roma. Visitou Milão e voltou a Tréveris.
[3] O sentido original de "monge" é do que vive em solidão. Quando o monaquismo se foi estruturando para maior comunidade de vida, a palavra foi ampliando seu sentido. Denota qualquer monge, viva solitário ou em mosteiro. A insistência de Santo Atanásio em sublinhar a solidão de Santo Antão indica que usa a palavra em seu sentido original. Por outro lado, porém, já devia estar consciente da ampliação do significado, pelas características dos monges ocidentais que conheceu, e também por sua convivência com os monges de São Pacômio, entre os quais passou seus últimos desterros; pois bem, eles não eram solitários, mas monges de vida comunitária. LAMPE 878 SSL; LORIE 24 ss.; COLOMBAS 40 SS.

[4] A "ascesis", que significa "exercício, prática, treino", designa em linguagem cristão o estudo das Escrituras, a prática das virtudes, a vida devota, a disciplina espiritual, a vida austera. Como termo técnico designa a vida monástica e suas práticas. Santo Atanásio a utiliza neste sentido, mas com todos os matizes anteriores. É a tarefa própria dos monges, que exige toda classe de virtudes e modificações, requer um exercício contínuo e tem como finalidade a perfeição, não por amor a si mesmo mas por amor a Deus. Seu fruto é a sabedoria espiritual, com a pureza do coração, o discernimento dos espíritos, a consciência da presença de Deus e o gozo de sua comunicação. O sentido fundamental é, no entanto, a austera e difícil disciplina de si mesmo. LAMPE 244; LORIE 55 ss.

[5] Literalmente, "Mosteiros". Originalmente a palavra designava a habitação de um solitário. Paulatinamente, e passando pela organização de colônias de solitários (44, 2-4), o termo se aplica à residência dos monges de vida comunitária. Para evitar a conotação já demasiado precisa de "mosteiro", preferimos nesta versão "cela" ou "cela monástica". LAMPE 878; MEYER 111; LORIE 43 ss.; COLOMBAS 75-76.

[6] Uma variante do texto gego - "já que fui sem companheiro e verti água em suas mãos" - mostra Santo Atanásio como discípulo e companheiro de cela de Sasnto Antão. A maior parte dos críticos se inclina para a variante que traduzimos no texto. MEYER 106; L.V. Hertling, "Studio storici antoniani", Stud. Ans. 38 (1956), 23; COLOMBAS 51.

[7] Talvez não deva ser isto tomado muito ao pé da letra. É mais provável que Santo Atanásio desde o começo da "Vida" esteja interessado em assinalar a contraposição entre sabedoria divina e rusticidade humana. Cv 20,4; 33,5; 72,1; 73,3. Em todo caso, Santo Atanásio não possuía a cultura grega, uma vez que para falar com gregos necessita de intérprete. Cf também nota (73).

[8] É difícil determinar com segurança a certeza histórica dos detalhes desta descrição da infância de Santo Antão. Este teria sido desde menino um pequeno asceta. Não se pode negar a tendência edificante. A hagiografia posterior abusou amplamente deste recurso até fazer incríveis as infâncias dos santos. Mas ainda assim, a existência concreta de meninos santos e certas indicações da psicologia infantil deveriam acautelar-nos contra uma repulsa absoluta do conteúdo deste capítulo.

[9] Cf Santo AGOSTINHO, Confissões, 8,12.29.

[10] Uma "arura" - m/m 2.700m2. A extensão correspondia mais ou menos a 80 Has.

[11] E (PL 73, 128 A) acrescenta: mais necessitada por seu sexo e idade.

[12] Os "Apoftegmas dos Padres" (Antão 20; PG 65, 81 C; PL 73, 772 C; Guy 25; Dion 87) relatam: "Um irmão havia renunciado ao mundo e distribuído seus bens aos pobres, reservando-se porém um pouco. Veio a Antão que, informado do assunto, disse-lhe: Se queres ser monge, vai à cidade, compra carne, cobre com ela teu corpo nu, e volta. O irmão assim o fez. Vieram então cães e aves e lhe dilaceraram o corpo. De volta a Antão, este lhe perguntou se havia seguido seu conselho. Mostrou-lhe então seu corpo dilacerado. Disse-lhe Antão: Os que renunciam ao mundo e querem guardar dinheiro, são assim dilacerados quando os demônios os atacam".

[13] Esta seria a primeira vez que aparece a palavra "parthenoôn" no sentido cristão de "casa ou grupo de virgens". Todavia, nessa época precoce (c 271), as mulheres religiosas viviam geralmente com suas famílias, embora se reunissem para exercícios comuns. Mais tarde, a "Vida" nos diz que a irmã de Antão foi superiora de um grupo de virgens (54,6). Mas uma variante do texto grego, apoiada por diversas versões, traz: consagrou sua irmã "à virgindade'. MEYER, 107; COLOMBAS 58. Seguimos a E, deixando a imprecisão.

[14] A doutrina da oração incessante goza de tradição ininterrupta na literatura monástica. O tema como tal, que provém do ensino do N.T., foi desenvolvido especialmente pela escola alexandrina, como Clemente e Orígenes. Conseguiu-se estabelecer que muitas idéias destes dois doutores, ainda que não todas, acham-se na "Vida". A oração incessante não é, entretanto, um ponto isolado mas acha-se estreitamente unido à prática da virtude e à pureza do coração. Segundo a "Vida", a vida ascética tende à recuperação, para a alma, do estado em que foi criada por Deus antes do pecado. A isto se chega pela prática constante e decidida da renúncia, da abnegação, da mortificação. Mas em todo esse processo para a pureza do coração, a oração constitui o elemento central que é simultaneamente meio e fim da vida ascética. A oração é, por sua vez, sustentada pela leitura (ou memorização) e meditação da Escritura. A meta final é aquela perfeita paz do espírito que nada, externa nem internamente, pode perturar, por que todo o ser do monge está penetrado das coisas de Deus. A oração incessante é a contemplação amorosa do que Deus fez e lutou no monge e pelo monge. Cf M.J. MARX, "Incessant Pryer in the Vita Antonii", Stud. Ans. 38 (1956) 208-135.

[15] Reminiscência de Lc 8,15. De mais de um monge se dizia que sabia de cor a Escritura, como por ex. apa Or, apa Amón, ou os monges pacomianos, segundo Paládio em sua "História Lausíaca" MEYER 108.

[16] Conforme o ensinamento do NT. aparece aqui a suma e essência de toda vida santa: o amor a Deus e ao próximo, com a nota tipicamente atanasiana de um marcado cristocentrismo. Tal como no NT, conhecem-se diversas listas de virtudes, e a mesma "Vida" apresenta outra em 17,7.

[17] Sempre foi traço característico dos monges antigos o desejo de aprender de outros, imitando suas virtudes mais salientes. No entanto, é interessante notar que na "Vida" não se trata de um afã exibicionista por estabelecer uma espécie de competição ao respeito. Sempre destaca o perfeito equilíbrio espiritual de Santo Antão e o profundo respeito pelos carismas alheios.

[18] "Amigos de Deus" é o título que a Escritura atribui ao patriarca Abraão e aos profetas ou geral; c. Tiago 2,23; Sb 7,27; 2 Cr 20,7; Is 41,8; Judite 8,22; de Moisés: Ex 33,11; Nm 12,8. Apoiada na linguagem bíblica, a tradição cristã desde os primeiros séculos chamou "amigos de Deus" os justos que gozavam da graça ou do favor particular de Deus (cf Jo 15,15). E.T. BETTENCOURT, "L'idéal religieux de S. Antoine", Stud. Ans. 38 (1956) 48; B. STEIDLE, "Homo Dei Antonius", ib. 189 ss.

[19] O tempo e a experiência fizeram o diabo um perito em manhas. Cf S. Cipriano, ad Fortun. 2: "Adversarius vetus est... usu ipso vetustatis edididicit." Cf também S. Jerônimo, Ep. 22,7.29; Ep. 125,12. Ver também c. 40 da "Vida". MEYER 108-109.

[20] E (PL 73,129D) acrescenta: Ele lhe oferecia o caminho da adolescência, resvaladiço, fácil para cair; mas este, considerando os eternos tormentos do juízo futuro, conserva incólume a pureza da alma em meio das tentações.

[21] "Negro": o uso desta palavra era freqüente entre romanos e gregos num sentido moral figurado, para designar malícia ou perversidade. O mesmo no uso cristão primitivo. Dar a cor negra ao autor do mal e de toda iniqüidade era muito comum. Dado que os etíopes e egípcios eram de tez muito escura, o diabo foi muitas vezes designado com tais nomes nacionais. LAMPE 840a. meyer 109.

[22] Os antigos consideram as ruínas de mausoléus, as tumbas e os desertos como ambiente predileto dos demônios. Os três têm em comum ser lugares abandonados, não habitados pelos homens, e onde o demônio não é combatido pelo bem nem pelos exorcismos. Só os malfeitores se refugiam neles (cf At 21,38). Cf Mc 5,2-5; Lc 8,29; 11-24. A morada escolhida por Antão é provavelmente um cemitério abandonado. E. T. BETTENCOURT, o.c. 50; COLOMBAS 59.

[23] Na mitologia antiga, os servidores dos deuses eram freqüentemente chamados "cães", cf também, 42,1, MEYER 110.

[24] E (PL 73,132B) acrescenta" O leopardo com suas diversas cores indicava a variedade de astúcias de seu autor.

3. Parte II

3.1- Antão busca o deserto e habita em Pispir

No dia seguinte ele se foi, inspirado por um zelo maior ainda pelo serviço de Deus. Foi ao encontro do ancião já antes mencionado (3,5) e rogou-lhe que fosse viver com ele no deserto. O outro declinou o convite devido à sua idade e porque tal modo de viver não era costume. Então ele se foi sozinho para a montanha. Aí estava, entretanto, de novo o inimigo! Vendo sua seriedade e querendo frustrá-la, projetou a imagem ilusória de um grande disco de prata sobre o caminho. Antão, porém, penetrando o ardil daquele que odeia o bem, deteve-se e, mirando o disco, desmascarou nele o demônio, dizendo: "- Um disco no deserto? De onde vem isto? Esta não é uma estrada freqüentada e não há sinais de que haja passado gente por este caminho. É de grande tamanho e não pode haver caído inadvertidamente. Em verdade, ainda que fora perdido, o dono teria voltado a procurá-lo, e seguramente o haveria encontrado, pois esta região é deserta. Isto é engano do demônio. Não vás frustrar minha resolução com estas coisas, demônio! Teu dinheiro pereça contigo!" (cf At 8,20). E ao dizer isto Antão, o disco desapareceu como fumo.

12. Logo, enquanto caminhava, viu de novo, não mais outra ilusão, mas ouro verdadeiro, espalhado ao longo do caminho. Pois bem, seja que o próprio inimigo lhe tivesse chamado a atenção, ou fosse um bom espírito que atraiu o lutador, ficou demonstrado ao demônio que ele não se preocupava nem sequer das riquezas autênticas; ele próprio não o indicou, e por isso não sabemos nada senão que era realmente ouro o que ali havia. Quanto a Antão, ficou surpreendido pela quantidade que havia, mas passou por ele como se fora fogo, e seguiu seu caminho sem olhar para trás. Ao contrário, pôs-se a correr tão rápido que em pouco tempo perdeu de vista o lugar e dele desapareceu.

Assim, firmando-se sempre mais em seu propósito, apressou-se em direção à montanha

[25] Em lugar distante do rio encontrou um fortim deserto que com o correr do tempo achava-se infestado de répteis. Ali se estabeleceu para viver. Os répteis, como que expulsos por alguém, foram-se de repente. Bloqueou a entrada, e depois de enterrar pão para seis meses - assim o fazem os tebanos e muitas vezes os pães se mantêm frescos por todo um ano - e tendo água perto, desapareceu como num santuário. Ficou sozinho, não saindo nunca e não vendo ninguém passar. Por muito tempo perseverou nesta prática ascética; só duas vezes por ano recebia pão, que lhe deixavam cair pelo teto.

13. Seus amigos que vinham vê-lo passavam a miúdo dias e noites fora, pois não queria deixá-los entrar. Ouviam barulho dentro como de multidão frenética, fazendo ruídos, armando tumultos, gemendo lastimosamente e dando guinchos: "Sai de nosso domínio! Que vens fazer no deserto? Tu não agüentas nossa perseguição!" A princípio, os que estavam fora criam haver homens lutando com ele e que haviam entrado por escadas, mas quando espreitaram por um buraco e não viram ninguém, deram-se conta de que os demônios é que estavam na coisa, e cheios de medo, chamaram Antão que estava mais inquieto por eles do que preocupado com os demônios. Chegando à porta, aconselhou-os que se fossem e não tivessem medo. Disse-lhes: "Os demônios só conjuram fantasmas contra o medroso. Façam agora o sinal da cruz e voltem a suas casas sem temor, e deixem que eles se enlouqueçam a si mesmos".

Foram-se, então, fortalecidos com o sinal da cruz, enquanto ele ficava sem sofrer dos demônios mal algum, sem se cansar, nem se alterar na contenda, porque a ajuda que recebia do alto por meio de visões e a debilidade de seus inimigos, davam-lhe grande alívio em suas penas, e ânimo para um entusiasmo maior. Seus amigos vinham uma ou outra vez supondo encontrá-lo morto, mas o ouviam cantar: "Levanta-se Deus e seus inimigos se dispersam; fogem de sua presença os que o odeiam. Como a fumaça, eles se dissipam; como se derrete a cera ante o fogo, assim perecem os ímpios diante de Deus" (Sl 67,2). E ainda: "Todos os povos me rodeavam, em nome do Senhor eu os expulsei" (Sl 117,10).

3.2 - Antão abandona a solidão e se converte em Pai Espiritual

Assim passou quase vinte anos, só praticando a vida ascética, não saindo nunca e sendo raramente visto por outros. Depois disto, como havia muitos que ansiavam e aspiravam imitar sua santa vida [26], e alguns de seus amigos vieram e forçaram a porta, derrubando-a, Antão saiu como de um santuário, como um iniciado nos sagrados mistérios e cheio do Espírito de Deus [27]. Foi a primeira vez que se mostrou fora do fortim aos que vieram a ele. Quando o viram, estavam estupefatos ao comprovar que seu corpo conservava a antiga aparência: não estava nem obeso pela falta de exercício nem macilento pelos jejuns e lutas com os demônios: era o mesmo homem que haviam conhecido antes de seu retiro.

O estado de sua alma era puro, pois não estava nem retraído pela aflição, nem dissipado pela alegria, nem dominado pela distração ou pelo desalento. Não se desconcertou ao ver a multidão nem se orgulhou quando viu tantos que o recebiam. mantinha-se completamente controlado, como homem guiado pela razão e com grande equilíbrio de caráter.

Por ele o Senhor curou muitos dos presentes que tinham enfermidades corporais, e a outros libertou de espíritos impuros. Concedeu também a Antão o encanto no falar; e assim confortou a muitos em suas penas e reconciliou a outros que brigavam. Exortou a todos a nada preferir neste mundo ao amor de Cristo. E quando em seu discurso exortou-os a pensar nos bens futuros e na bondade demonstrada a nós por Deus, "que não poupou seu próprio Filho mas o entregou por todos nós" (Rm 8,32), induziu muitos a abraçar a vida monástica. E assim apareceram celas monásticas na montanha, e o deserto se povoou de monges que abandonavam os seus e se inscreviam como cidadãos do céu (cf Hb 3,20; 12,23).

15. Uma vez teve necessidade de atravessar o canal de Arsino e - por ocasião de uma visita aos irmãos -, o canal estava cheio de crocodilos. Orou simplesmente, meteu-se com todos os seus companheiros, e passou ao outro lado sem ser tocado. De volta à cela, aplicou-se com todo o zelo a seus santos e vigorosos exercícios. Por meio de constantes conferências inflamava o ardor dos que já eram monges e incitava muitos outros ao amor à vida ascética; e logo, na medida em que sua mensagem arrastava homens após ele, o número de celas monásticas multiplicava-se, e era para todos como pai e guia.

3.3 - Conferência de Antão aos Monges sobre o discernimento dos espíritos e exortação à virtude (16-43)

Um dia em que ele saiu, vieram todos os monges e lhe pediram uma conferência. Falou-lhes em língua copta, como segue:

"As Escrituras bastam realmente para nossa instrução. No entanto, é bom para nós alentar-nos uns aos outros na fé e usar da palavra para estimular-nos. Sejam, por isso, como meninos e tragam a seu pai o que saibam e lho digam, tal como eu, sendo o mais velho, reparto com vocês meus conhecimento e minha experiência.
Para começar, tenhamos todos o mesmo zelo, para não renunciar ao que começamos, para não perder o ânimo, para não dizer: 'Passamos demasiado tempo nesta vida ascética'. Não, começando de novo cada dia, aumentemos nosso zelo. Toda a vida do homem é muito breve comparada ao tempo vindouro, de modo que todo o nosso tempo é nada comparado com a vida eterna [28]. No mundo, tudo se vende; e cada coisa se comercia segundo seu valor por algo equivalente; mas a promessa da vida eterna pode comprar-se por muito pouco. A Escritura diz: 'Ainda que alguém viva setenta anos, e o mais robusto até oitenta, a maior parte é fadiga inútil' (Sl 89,10). Se, pois, vivemos todos nossos oitenta anos, ou mesmo cem, na prática da vida ascética, não vamos reinar o mesmo período de cem anos, mas em vez dos cem reinaremos para sempre. E ainda que nosso esforço seja na terra, não receberemos nossa herança na terra mas o que nos foi prometido no céu. Mais ainda, vamos abandonar nosso corpo corruptível e recebê-lo-emos incorruptível (cf 1Cor 15,42).

17. Assim, filhinhos, não nos cansemos nem pensemos que nos afastamos muito tempo ou que estamos fazendo algo grande. Pois 'os sofrimentos da vida presente não podem comparar-se com a glória futura que nos será revelada' (Rm 8,18). Não olhemos tampouco para trás, para o mundo, crendo que renunciamos a grandes coisas, pois também o mundo é muito trivial comparado com o céu. E ainda que fôssemos donos de toda a terra e renunciássemos a toda ela, nada seria isto comparado com o reino dos céus. Assim como uma pessoa desprezaria uma moeda de cobre para ganhar cem moedas de ouro, assim o que é dono de toda a terra e a ela renuncia, dá realmente pouco e recebe cem vezes mais (cf Mt 19,29). Se, pois, nem sequer toda a terra equivale ao céu, certamente o que entrega uma porção de terra não deve jactar-se ou penalizar-se: o que abandona é praticamente nada, ainda que seja um lar ou uma soma considerável de dinheiro aquilo de que se separa.

Devemos, além disso ter em conta que se não deixamos estas coisas por amor à virtude, teremos depois de abandoná-las de qualquer modo e a miúdo também, como nos recorda o Eclesiastes (2,18; 4,8; 6,2), a pessoas às quais não teríamos querido deixá-las. Então, por que não fazer da necessidade virtude e entregá-las de modo a podermos herdar um reino por acréscimo? Por isso nenhum de nós tenha nem sequer o desejo de possuir riquezas. Do que nos serve possuir o que não podemos levar conosco? Por que não possuir antes aquelas coisas que podemos levar conosco: prudência, justiça, temperança, fortaleza, entendimento, caridade, amor aos pobres, fé em Cristo, humildade, hospitalidade? [29]. Uma vez possuindo-as, veremos que elas vão diante de nós [30], preparando-nos as boas-vindas na terra dos mansos (cf Lc 16,9; Mt 5,4).

3.4 - Perseverança e vigilância

"Com estes pensamentos cada qual deve convencer-se de que não deve descuidar-se, mas considerar-se servo do Senhor e preso ao serviço de seu Mestre. Um servo, porém, não se atreve a dizer: "Já que trabalhei ontem, não vou trabalhar hoje". Tampouco vai se por a calcular o tempo em que já serviu e descansar durante os dias que lhe ficam pela frente; não, dia após dia, como está escrito no evangelho ( Lc 12,35-38; 17,7-10; Mt 24,45), mostra a mesma boa vontade para que possa agradar a seu patrão e não causar nenhum incômodo. Perseveremos, pois, na prática diária da vida ascética, sabendo que se somos negligentes um só dia, Ele não nos vai perdoar em consideração ao tempo anterior, mas vai aborrecer-se conosco por nosso descuido. Assim o ouvimos em Ezequiel (Ez 18,24-26; 32,12s); assim Judas, numa só noite, destruiu o trabalho de todo o seu passado.

19. Por isso, filhos, perseveremos na prática do ascetismo e não desanimemos. Também nisso temos o Senhor que nos ajuda, diz a Escritura: 'Deus coopera para o bem de todos os que o amam' (Rm 8,28). E quanto a não devermos descuidar-nos, é bom meditar o que diz o Apóstolo: 'Morro cada dia' (1Cor15,31). Realmente se também nós vivêssemos como se cada novo dia fôssemos morrer, não pecaríamos. Quanto à citação, seu sentido é este: ao despertarmos cada dia, deveríamos pensar que não vamos viver até à tarde; e de novo, quando vamos dormir, deveríamos pensar que não chegaremos a despertar. Nossa vida é insegura por natureza, e diariamente nos é medida pela Providência. Se com esta disposição vivemos nossa vida diária, não cometeremos pecado, nada cobiçaremos, não nos mancharemos com ninguém, não acumularemos tesouros na terra; mas como quem cada dia espera morrer, seremos pobres e perdoaremos tudo a todos. Desejar mulheres ou outros prazeres desonestos, tampouco teremos semelhantes desejos mas lhes voltaremos as costas como coisas transitórias, combatendo sempre e tendo ante os olhos o dia do juízo. O maior temor ao juízo e o desassossego pelos tormentos dissipam invariavelmente a fascinação do prazer e fortalecem o ânimo vacilante.

3.5 - Objeto da virtude

Agora que temos um começo e estamos na senda da virtude, alarguemos ainda mais nosso passo para alcançar o que temos adiante (cf Fl 3,13). Não olhemos para trás, como o fez a mulher de Lot (Gn 19,26), sobretudo porque o Senhor disse: "Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o reino dos céus" (Lc 9,62). E este olhar para trás não é outra coisa senão arrepender-se do começado e lembrar-se de novo do que deixara no mundo.

Quando ouvirem falar da virtude, não se assustem nem a tratem como palavra estranha. Realmente não está longe de nós nem seu lugar está fora de nós; está dentro de nós, e sua realização é fácil contanto que tenhamos vontade (cf Dt 30, 11ss). Os gregos viajam e cruzam o mar para estudar as letras; nós, porém, não temos necessidade de nos por a caminho pelo reino dos céus nem de cruzar o mar para alcançar a virtude. O Senhor no-lo disse de antemão: 'O Reino dos céus está dentro de vós' (Lc 17,21). Por isso a virtude só necessita de nossa vontade, já que está dentro de nós e brota de nós. A virtude existe quando a alma se mantém em seu estado natural. É mantida nesse estado natural quando permanece como veio a ser. E veio a ser limpa e perfeitamente íntegra (cf Ecl 7,30). Por isso Josué, o filho de Nun, exortou ao povo com estas palavras: 'Mantenham íntegros seus corações diante do Senhor, o Deus de Israel (Jos 24, 23); e João: 'Endireitem seus caminhos' (Mt 3,3). A alma é reta quando a mente se mantém no estado em que foi criada. Mas quando se desvia e se perverte de sua condição natural, isso se chama vício da alma.

A tarefa não é difícil: se ficamos como fomos criados, estamos no estado de virtude; mas se entregamos nossa mente a coisas baixas, somos considerados perversos. Se esse trabalho tivesse de ser realizado de fora, seria em verdade difícil; mas estando dentro de nós, acautelemo-nos contra os pensamentos maus. E tendo recebido a alma como sendo confiada a nós, guardemo-la para o Senhor, a fim de que Ele possa reconhecer sua obra, tal qual a fez [31].
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3.6 - Notas Bibliográficas
As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da "Vida".
E = versão latina de Evágrio.
[25] Trata-se da chamada "Montanha Exterior", onde Santo Antão passou vinte anos de absoluta reclusão. É em Pispir, na margem oriental do Nilo, a mais ou menos 90 km ao sul de Mênfis. O deserto de Nítria fica a noroeste, no outro lado do Nilo, diretamente ao sul de Alexandria. Ao sul de Heracleópolis, em ambos os lados do Nilo, está o "grande deserto" da Tebaida, o lar do monacato egípcio de são Pacômio. MEYER 110; COLOMBAS 93 ss.
[26] E (PL 73, 134B) acrescenta: e se reunira uma infinita quantidade de enfermos.
[27] Ainda que a "Vida" seja muito sóbria quanto aos detalhes da vida pessoal de Santo Antão, há diversas anotações que permitem ver a íntima relação entre a vida ascética e vida mística. Nessa passagem, Santo Antão é apresentado como tendo atingido o cume da vida cristã: penetrou os mistérios da fé cristã e pode ser considerado portador do Espírito de Deus. A cena tem reminiscências da descida de Moisés, Ex 34,29ss. Santo Antão, "deificado" assim por essa vida íntima com Deus, é agora apto para transmitir vida divina; a paternidade espiritual é o fruto de seu retiro absoluto. LAMPE 642, 890. LORIE 133 ss.: BETTENCOURT o.c. 51-52.
[28] E (PL 73,135 A) acrescenta: Tendo assim começado, calou-se um momento, e admirando a excessiva generosidade de Deus, continuou.
[29] E (PL 73.135 D) traz uma lista algo diversa dessas dez virtudes (cf também, 4,2-3): sabedoria, castidade, justiça, fortaleza, vigilância, amor aos pobres, fé em Cristo, mansidão, hospitalidade.
[30] S. AGOSTINHO, em suas Enarrat. in Pss. 38,12, diz que há um modo de levar conosco as riquezas da terra: mandando-as diante de nós nas mãos dos pobres.
[31] E (PL 73, 137 A) acrescenta: Basta-nos o adorno natural. Não sujes, homem, o que a generosidade divina te concedeu. Querer alterar a obra de Deus é manchá-la.

4. Parte III

Lutemos, pois, para que a ira não nos domine nem a concupiscência nos escravize; pois está escrito que 'a ira do homem não faz o que agrada a Deus' (Tg 1,20). E a concupiscência 'depois de conceber, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte' (Tg 1,15). Vivendo esta vida, mantenhamo-nos cuidadosamente atentos e, como está escrito, 'guardemos nosso coração com a máxima vigilância' (Pr 4,23). Temos inimigos poderosos e fortes: são os malvados demônios; e contra eles é nossa luta', como diz o Apóstolo, 'não contra gente de carne e osso, mas contra forças espirituais de maldade espalhados nos ares, isto é, os que têm autoridade e domínio sobre este mundo tenebroso (Ef 6,12). Grande é seu número no ar e em redor de nós [32], e não estão longe de nós. Mas a diferença entre eles é considerável. Levaria muito tempo para dar uma explicação de sua natureza e distinções, e tal investigação é para outros mais competentes do que eu; o único urgente e necessário para nós agora é só conhecer suas vilanias contra nós.

4.1 - Artifícios dos demônios

Em primeiro lugar, demo-nos conta disto: os demônios não foram criados como demônios, tal como entendemos este termo, porque Deus não fez o mal. Também eles foram criados puros, mas desviaram-se da sabedoria celestial. Desde então andam vagando sobre a terra. Por um lado, enganaram aos gregos com vãs fantasias [33], e, invejosos de nós, cristãos, nada omitiram para nos impedir de entrar no céu; não querem que subamos ao lugar de onde caíram. Por isso é necessário muita oração e disciplina ascética para que alguém possa receber do Espírito Santo o dom do discernimento dos espíritos e ser capaz de conhecê-los; qual deles é menos mau, qual o pior; que interesse especial tem cada um e como hão de ser repelidos e lançados fora; pois são numerosas suas astúcias e maquinações. Bem sabiam isto o santo Apóstolo e seus discípulos quando diziam: 'Conhecemos muito bem suas manhas' (2 Cor 2,11). E nós, ensinados por nossas experiências, deveríamos guiar outros a apartarem-se deles. Por isso eu, tendo feito em parte essa experiência, falo a vocês como a filhos meus.

23. Quando eles vêem que os cristãos em geral, mas em particular os monges, trabalham com cuidado e fazem progressos, primeiro os assaltam e tentam colocando-lhes continuamente obstáculos em seus caminhos (Sl 139,6). Estes obstáculos são os maus pensamentos. Mas não devemos assustar-nos com suas armadilhas que são logo desbaratadas com a oração, o jejum e a confiança no Senhor. No entanto, ainda que desbaratados, não cessam, mas antes voltam ao ataque com toda maldade e astúcia. Quando não podem enganar o coração com prazeres abertamente impuros, mudam de tática e vão ao ataque. Então urdem e fingem aparições para aturdir o coração, transformando-se e imitando mulheres, bestas, répteis, corpos de grande estatura e hordas de guerreiros. Nas nem assim devem esmagar-nos o modo de semelhantes fantasmas, já que não passam de pura vaidade - especialmente se se fortalece com o sinal da cruz.

Em verdade, são atrevidos e extraordinariamente desavergonhados. Se neste ponto também os derrotamos, avançam uma vez mais com nova estratégia. Pretendem profetizar e predizer acontecimentos futuros. Aparecem mais altos que o teto, gordos e corpulentos. Seu propósito é, se possível, arrebatar com mais aparições, os que não puderam enganar com pensamentos. E se acham que ainda assim a alma permanece forte em sua fé e sustentada pela esperança, fazem seu chefe intervir.

24. Este aparece freqüentemente desta maneira como, por exemplo, o Senhor revelou a Jo: 'Seus olhos são como pálpebras da aurora. De sua boca saem tochas acesas, chispas de fogo saltam fora. De suas narinas sai fumaça como de panela ou caldeirão a ferver. Seu sopro acende carvões e de sua boca saem chamas' (Jo 41,18-21). Quando o chefe dos demônios aparece desta maneira, o velhaco trata de atemorizar-nos, como disse antes, com seu falar valentão, tal como foi desmascarado pelo Senhor quando disse a Jo: 'Tem toda arma por folha seca e zomba de brandir da azagaia; faz ferver como uma panela o mar profundo e o revolve como uma panela de ungüento (Jo 41,29,31); também diz o profeta: 'Disse o inimigo: Persegui-los-ei e os alcançarei (Ex 15,9); e em outra parte: 'Minha mão achou como ninho as riquezas dos povos, e como se recolhem ovos abandonados, assim me apoderei de toda a terra' (Is 10,14).
Esta é, em resumo, a jactância do que alardeiam, estas são as arengas que fazem para enganar o que teme a Deus. Com toda confiança não precisamos temer suas aparições nem dar atenção a suas palavras. É apenas um embusteiro e não há verdade em nada do que diz. Quando fala semelhantes estultícias, e o faz com tanta jactância, não se apercebe de de como é arrastado com um garfo de ferro, como dragão, pelo Salvador (cf Jo, 41, l-2), com um cabresto como animal de carga, com anel no nariz como escravo fugitivo, e com seus lábios atravessados por uma argola de ferro. Foi, pois, apanhado como animal pra nossa diversão. Tanto ele como seus companheiros foram tratados assim para serem pisados como escorpiões e cobras (cf Lc 10,19) por nós, cristãos; e prova disso é o fato de que continuamos a existir, apesar dele. Em verdade, notem que ele, que proclamou secar o mar e apoderar-se do mundo todo, não pode impedir nossas práticas ascéticas nem que eu fale contra ele. Por isso, não demos atenção ao que possa dizer, porque é um mentiroso astuto, nem temamos suas aparições, por que são mentiras também. Certamente não é verdadeira luz a que aparece neles, mas antes é mero começo e semelhante ao fogo preparado para eles próprios; e com o mesmo que os queimará tratam de aterrorizar os homens. Aparecem, é verdade, mas desaparecem de novo no mesmo momento, sem danificar nenhum crente, enquanto levam consigo essa aparência de fogo que os espera. Por isso, não há razão alguma para ter medo deles, pois, pela graça de Cristo todas as suas táticas dão em nada.

25. São, porém, traiçoeiros e estão preparados para suportar qualquer mudança ou transformação. Muitas vezes, por exemplo, pretendem até cantar salmos, sem aparecer, e citam textos das Escrituras. Também algumas vezes, quando estamos lendo, repetem de repente, como eco, o que lemos. Quando vamos dormir, despertam-nos para orar, e fazem isto continuamente, mal nos deixando dormir. Outras vezes se disfarçam em monges e simulam piedosas conversas, tendo como meta enganar com sua aparência e arrastar então suas vítimas para onde querem. Mas não lhes devemos prestar atenção, ainda que nos despertem para orar, ou nos aconselhem a não comer de todo, ou pretendem nos acusar de coisas que antes aprovavam. Fazem isto não por amor à piedade ou à verdade, mas para levar o inocente ao desespero, para apresentar a vida ascética como sem valor e fazer com que os homens se enfastiem da vida solitária como algo muito rude e demasiadamente pesado, e assim fracassem os que levam tal vida.

26. Por isso o profeta enviado pelo Senhor chamou a tais infelizes com estes termos: 'Ai daquele que dá a beber a seu próximo um mau trago!' (Hab 2,15). Tais táticas e argumentos são desastrosos para o caminho que conduz à virtude. Nosso Senhor mesmo, ainda que os demônios falassem também a verdade - pois diziam verdadeiramente: 'Tu és o Filho de Deus' (Lc 4,41) -, não obstante os fez calar e proibiu-lhes falar. Não quis que esparramassem sua própria maldade junto com a verdade, e tampouco desejava que fizéssemos caso deles ainda quando aparentemente falassem verdade. Por isso é inconveniente que nós, possuindo as Escrituras e a liberdade do Salvador, sejamos ensinados pelo demônio que não ficou em seu posto (cf Judas 6), mas constantemente mudou de parecer. Por isso também proíbe-lhe citar as Escrituras, ao dizer: 'Deus disse ao pecador: Por que recitas meus preceitos e tens sempre em tua boca minha aliança?' (Sl 49,16). Certamente eles fazem de tudo: falam, gritam, enganam, confundem, e tudo para enganar o simples. Armam também tremendos estrépitos, soltam risadas tontas e sibilos. Se ninguém faz caso deles, choram e lamentam-se como derrotados.

27. O Senhor, por isso, porque é Deus, fez os demônios calarem-se. Quanto a nós, aprendemos nossas lições dos santos, fazemos como eles fizeram e imitamos-lhe o valor. Pois quando eles viam tais coisas, costumavam dizer: 'Quando o pecador se levantou contra mim, guardei silêncio resignado, não falei com leviandade (Sl 38,2); e em outra parte: 'Mas eu como um surdo não ouço, como um mudo não abro a boca; sou como alguém que não ouve' (Sl 37,14). Assim também nós não os escutemos, olhando-os como a estranhos, não lhes prestando atenção, ainda que nos despertem para a oração ou nos falem de jejuns. Antes, sigamos atentos a prática da vida ascética como é nosso propósito, e não nos deixemos enganar pelos que praticam a traição em tudo o que fazem. Não lhes devemos ter medo ainda que apareçam para atacar-nos e ameaçar-nos de morte. Na realidade são frágeis e nada podem fazer mais do que ameaçar.

4.2 - Impotência dos Demônios

Bem, até agora só falei deste tema de passagem. Mas agora não devo deixar de tratá-lo com maiores detalhes; recordar-lhes isto só pode redundar em maior segurança.

Desde que o Senhor habitou conosco, o inimigo caiu e declinaram seus poderes. Por isso não pode nada; no entanto, ainda que caído, não pode ficar quieto, mas como tirano que não pode fazer outra coisa, vai-se com ameaças, sejam elas embora puras palavras. Cada qual lembre-se disto e poderá desprezar os demônios. Se estivessem confinados a corpos como os nossos, deveriam então dizer: 'Aos que se escondem, não os vamos encontrar; mas se os encontramos, então vamos daná-los'. E neste caso poderíamos escapar deles escondendo-nos e trancando as portas. Não é este, porém, o caso, e podem entrar apesar das portas trancadas. Vemos que estão presentes em todas as parte no ar, eles e seu chefe, o demônio, e sabemos que sua vontade é má e que estão inclinados a danar, e que, como diz o Salvador, 'o demônio foi homicida desde o princípio' (Jo 8,44); então, se apesar de tudo vivemos, e vivemos nossas vidas desafiando-o, é claro que não tem nenhum poder. Como vêem, o lugar não lhes impede a conspiração; tampouco nos vêem amáveis com eles como para que nos perdoem, nem tampouco são amantes do bem para mudar seus caminhos. Não, ao contrário, são maus e nada há que desejem mais ansiosamente do que fazer dano aos amantes da virtude e aos adoradores de Deus. Pela simples razão de serem impotentes para fazer algo, nada fazem senão ameaçar. Se pudessem, estejam vocês seguros de que não esperariam, mas, antes, realizariam seus mais fortes desejos: o mal, e isso contra nós. Notem, por exemplo, como agora estamos reunidos aqui falando contra eles, e ademais eles sabem que na medida em que fazemos progressos, eles se debilitam. Em verdade, se estivesse em seu poder, não deixariam vivo nenhum cristão, porque o serviço de Deus é abominação para o pecador (Sir 1,25). E posto que não podem nada, fazem dano a si mesmos, já que não podem cumprir suas ameaças.

Ademais, para acabar com o medo a eles, dever-se-ia também levar em conta que, se tivessem algum poder, não viriam em manadas, nem recorreriam a aparições, nem usariam o artifício de transformar-se. Bastaria que viesse apenas um e fizesse o que fosse capaz de fazer, ou de acordo com sua inclinação. O mais importante de tudo é que o detentor do poder não se esforça em matar com fantasmas nem trata de aterrorizar com hordas, mas, sem mais histórias, usa de seu poder como quer. Atualmente, porém, os demônios, impotentes como são, fazem piruetas como se estivessem sobre um cenário, mudando suas formas em espantalhos infantis, com manadas ilusórias e contorções, tornando-se assim mais desprezível sua carência de vigor. Estejamos seguros: o anjo verdadeiro, enviado pelo Senhor contra os assírios, não teve necessidade de grande número, nem de ilusões visíveis, nem de sopros retumbantes, nem de ressoar de guizos; não, ele exerceu tranqüilamente seu poder, e de uma vez matou cento e oitenta e cinco mil deles (cf 2 Rs 19,35). Mas os demônios, impotentes criaturas como são, tratam de aterrorizar, e isto com meros fantasmas!
29. Se alguém, ao examinar a história de Jo dissesse: 'Por que, então, continuou o demônio agindo contra ele? Despojou-o de suas posses, matou seus filhos e o feriu com graves úlceras' (cf Jo, 1,13ss; 2,7), que essa pessoa se aperceba de que não se trata de que o demônio tivesse poder para fazer isso, mas Deus é que lhe entregou Jo para que o tentasse (cf Jo 1,12). Fica suposto que não tinha poder para fazê-lo; pediu esse poder e só depois de havê-lo recebido agiu. Aqui temos outra razão para desprezar o inimigo, pois ainda que tal fosse o seu desejo, não foi capaz de vencer o homem justo. Se o poder houvesse sido dele, não haveria necessidade de pedi-lo, e o fato de o pedir não uma, mas duas vezes, mostra sua fraqueza e incapacidade. Não é de estranhar que não tivesse poder contra Jo, quando lhe foi impossível destruir nem mesmo seus animais, a não ser que Deus lhe desse permissão. Mas não tem poder nem sequer contra porcos, como está escrito no Evangelho: (Mt 8,31). Mas se não têm poder nem sequer sobre animais, muito menos o têm sobre os homens feitos à imagem de Deus.

30. Por isso se deve temer a Deus só e desprezar esses seres, sem lhes ter medo, absolutamente. E quanto mais se dedicam a tais coisas, tanto mais dediquemo-nos à vida ascética para contra atacá-los, pois uma vida reta e a fé em Deus são grande arma contra eles. Temem aos ascetas por seu jejum, suas vigílias, orações, mansidão, tranqüilidade, desprezo do dinheiro, falta de presunção, humildade, amor aos pobres, esmolas, ausência de ira, e, acima de tudo, sua lealdade para com Cristo. Esta é a razão pela qual tudo fazem para que ninguém os espezinhe. Conhecem a graça dada pelo Salvador aos crentes quando diz: 'Olhem: dei-lhes o poder de calcar aos pés serpentes e escorpiões e todo o poder do inimigo' (Lc 10,19).

4.3 - Falsas Predições do Futuro

Também, se pretendem predizer o futuro, não lhes façam caso. Às vezes, por exemplo, nos comunicam dias antes a visita de irmãos, e efetivamente chegam. Mas não é por se preocuparem com seus ouvintes que fazem isto, mas para induzi-los a colocar sua confiança neles, e assim, tendo-os bem nas mãos, poderem destruí-los. Não os escutemos, mas deitemo-los fora, pois não precisamos deles. Que prodígio haverá em que eles, tendo corpos mais sutis que os homens [34], vendo que alguém se põe a caminho, se adiantem e anunciem sua chegada? Uma pessoa a cavalo poderia também adiantar-se de outro a pé e dar a mesma informação. Assim, pois, tampouco nisto não há de que admirar-nos deles. Não têm nenhum conhecimento prévio do que ainda não aconteceu [35], mas só Deus conhece todas as coisas antes que existam (cf Dn 13,42). Neste ponto são como ladrões que correm adiante e anunciam o que viram. Neste momento mesmo, a quantos já terão anunciado o que estamos fazendo, como estamos aqui discutindo sobre eles, antes que nenhum de nós possa levantar-se e informar o mesmo! Mas até um menino veloz para correr faria o mesmo, adiantando-se a uma pessoa mais lenta. Vou ilustrar com um exemplo o que quero dizer. Se alguém quiser pôr-se em viagem de Tebaida ou de qualquer outro lugar, antes de que efetivamente parta não sabem se vai sair ou não; mas quando o vêem caminhar, adiantam-se e anunciam de antemão sua chegada. E assim sucede que depois de alguns dias chega. Às vezes, porém, o viajante volta e a informação é falsa.

32. Também às vezes falam sandices a respeito da água do Rio [36]. Por exemplo, vendo as grossas chuvas nas regiões da Etiópia e sabendo que as enchentes do Rio tem ali sua origem, adiantam-se e o anunciam antes que as águas alcancem o Egito. Também os homens poderiam fazê-lo, se pudessem correr com a rapidez deles. E como a sentinela de Davi (2 Sm 18,24), subindo a uma altura, conseguiu avistar o que chegava antes do que os que estavam em baixo, e correndo informou logo, não o que ainda não havia passado, mas o que estava por acontecer logo, assim também os demônios se apressam a anunciar coisas a outros com o único fim de enganá-los. Em verdade, se entretanto, a Providência tivesse uma disposição especial quanto à água ou aos viajantes, e isto é perfeitamente possível, então se veria ser mentira a informação dos demônios, e ficariam enganados os que neles puseram sua confiança.
33. Assim surgiram os oráculos gregos e assim foi desviado o povo da antiguidade pelos demônios. Com isto deve-se dizer também quanto engano foi preparado para o futuro, mas o Senhor veio para suprimir os demônios e sua vilania. Não conhecem nada fora de si mesmos, mas vendo que outros têm conhecimento, como ladrões apoderam-se dele e o desfiguram. Praticam mais a conjectura do que a profecia. Por isso, ainda que às vezes pareçam estar na verdade, ninguém deveria se admirar. Na realidade, também os médicos, cuja experiência em enfermidades lhes vem de haver observado a mesma doença em diferentes pessoas, fazem muitas vezes conjecturas baseadas em sua prática e predizem o que se vai passar. Também os pilotos e camponeses, observando as condições do tempo, prognosticam se vai haver tempestade ou bom tempo. A ninguém ocorreria dizer que profetizam por inspiração divina, mas pela experiência que lhes dá a prática. Em conseqüência, se também os demônios adivinham algumas destas mesmas coisas e as dizem, nem por isso devemos maravilhar-nos nem fazer absolutamente caso delas. De que serve aos ouvintes saber dias antes o que se vai passar? Ou porque afanar-se em saber tais coisas, mesmo supondo que este conhecimento seja verdadeiro? Por certo não é este o elemento fundamental da virtude nem tampouco prova de nosso progresso; pois ninguém é julgado pelo que não sabe, e ninguém é chamado bem-aventurado pelo que aprendeu e sabe. O juízo que nos espera a cada um é se guardamos a fé e observamos fielmente os mandamentos.

34. Daí, não demos importância a estas coisas, nem nos afanemos na vida ascética com o fim de sabermos o futuro, mas para agradar a Deus vivendo bem. Deveríamos orar, não para conhecer o futuro nem deveríamos pedir isto como recompensa pela prática ascética, mas que o fim de nossa oração deve ser que o Senhor seja nosso companheiro para conseguirmos a vitória sobre o demônio. Se algum dia, porém, chegarmos a conhecer o futuro, mantenhamos pura nossa mente. Tenho a absoluta confiança de que se a alma é integralmente pura e está em seu estado natural, alcança a claridade da visão e vê mais e mais longe que os demônios. A ela o Senhor revela as coisas. Tal era a alma de Eliseu que viu o que se passou com Giezi (2 Rs 5,26), e contemplou os exércitos que estavam perto (2 Rs 6,17).

4.4 - Notas Bibliográficas
As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da "Vida".
E = versão latina de Evágrio.
[32] O conceito do ar como ambiente dos demônios é estranho ao AT e à apocalíptica judaica. É crença comum no mundo grego e helenista, mas presente também no judaísmo rabínico. A literatura cristã antiga, incluído o NT (cf Ef), compartilha a mesma crença, mas o ar não é o ambiente natural dos demônios, mas sim caíram aí de sua primeira morada, o céu. O ar é também o lugar de suas desordens e de suas guerras. Cf. S. AGOSTINHO, De Civ. Dei 8,15.22. J. DANIELOU, Les démons de l'air dans la Vie d'Antoine, Std. Ans. 38 (1956) 136-147; MEYER 112.
[33] Os mitos religiosos gregos eram, segundo Justino, Apol. 1,54, invenções dos espíritos maus. os vários ritos pagãos, semelhantes aos sacramentos cristãos, são um arremedo deles e inspirados pelos demônios. Outros autores estabelecem que os antigos poetas gregos foram inspirados por espíritos impostores. Do mesmo modo os antigos oráculos também eram obra do demônio. Cf 78,5; 79,1; MEYER 112-113.
[34] Dentro da dificuldade do mundo antigo para conceber uma natureza espiritual, aparece aqui esta imagem materialista e grosseira dos demônios. Ver também nota (63).
[35] Já Orígenes em "Contra Celsum" 4,92 ss., participava desta opinião, sua superioridade a qualquer substância corpórea lhes dá em certa medida a faculdade de prognosticar eventos futuros. Ao recorrer a disfarces animais, enganam ao curiosos e crédulos.
[36] Isto é, o Nilo que, para um egípcio, era o que fazia o Egito. Também no AT o Nilo é geralmente chamado "o Rio", ou "o grande Rio". MEYER 114.

5. Parte IV

5.1 - Discernimento dos Espíritos

Agora, pois, quando se lhes apareçam de noite e queiram contar-lhes o futuro ou lhes digam: 'Somos os anjos', ignorem-nos porque estão mentindo. Se louvam sua prática da vida ascética ou os chamam santos, não os ouçam nem tenham nada que ver com eles. Façam antes o sinal da cruz sobre si mesmos, sobre sua morada e oração, e vê-los-ão desaparecer. São covardes e têm terror mortal do sinal da cruz de Nosso Senhor, desde que na cruz o Senhor os despojou e escarmentou-os (Sl 2,15). Se insistem, porém, com maior cinismo, bailando em torno e mudando de aparência, não os temam nem se acovardem nem lhes prestem atenção como se fossem bons; é totalmente possível distinguir entre o bem e o mal com a garantia de Deus. Uma visão dos santos não é turbulenta, 'pois não contenderá nem gritará' e ninguém ouvirá sua voz nas ruas (Mt 12,19; cf Is 42,2). Essa visão chega tão tranqüila e suave, que logo haverá alegria, gozo e valor na alma. Com eles está nosso Senhor, que é nossa alegria, e o poder de Deus Pai. E os pensamentos da alma permanecem desembaraçados e sem agitação, de modo que em sua própria brilhante transparência é possível contemplar a aparição. Um anelo das coisas divinas e da vida futura se apossa da alma, e seu desejo é unir-se totalmente a eles e com eles poder partir. Se alguns, porém, por ser humanos, têm medo ante a visão dos bons, então os que aparecem expulsam o temor pelo amor, como o fez Gabriel com Zacarias (Lc 1,13), e o anjo que apareceu às mulheres no santo sepulcro (Mt 28,5) e o anjo que apareceu aos pastores. 'Não temam' (Lc 2,10). Temor, nestes casos, não é covardia da alma, antes, porém, consciência da presença de seres superiores. Tal é, pois, a visão dos santos.

36. Por outro lado, o ataque e a aparição dos maus estão cheios de confusão, acompanhada de ruídos, bramidos e alaridos; bem poderia ser o tumulto produzido por homens grosseiros ou salteadores. Isto no começo ocasiona terror na alma, distúrbios e confusão de pensamentos, desalento, ódio da vida ascética, tédio, tristeza, lembrança dos parentes, medo da morte; e logo vem o desejo do mal, o desprezo da virtude e completa mudança do caráter. Por isso, se vocês têm uma visão e sentem medo, mas se o medo se afasta logo e em seu lugar lhes vem inefável alegria e contentamento, recuperação da força e da calma do pensamento e tudo o mais que mencionei, e valentia de coração e amor de Deus, então alegrem-se e orem; seu gozo e a tranqüilidade da alma dão prova da santidade Daquele que está presente. Assim, Abraão, vendo o Senhor, alegrou-se (Jo 8,56), e João, ouvindo a voz de Maria, a Mãe de Deus [37], saltou de alegria (Lc 1,41). Se, porém, visões os surpreendem e confundem e há abertamente tumulto e aparições terrenas e ameaças de morte e tudo o mais que mencionei, saibam então que a visita é do mau.

37. Tenham, também este outro sinal: se a alma prossegue com medo, o inimigo está presente. Os demônios não tiram o medo que produzem, como o fez o grande arcanjo Gabriel com Maria e Zacarias, e o que apareceu às mulheres no sepulcro. Os demônios, ao contrário, quando vêem que os homens têm medo, aumentam suas fantasmagorias para aterrorizá-los ainda mais, depois descem e os enganam dizendo-lhes: 'Prostrem-se e adorem-nos' (cf Mt 4,9). Assim enganaram aos gregos, pois entre eles os havia, tomados falsamente por deuses. Nosso Senhor, porém, não permitiu que fôssemos enganados pelo demônio, quando uma vez repeliu-o quando intentava utilizar suas alucinações com Ele: 'Aparta-se, Satanás, porque está escrito: Adorarás ao Senhor, teu Deus, e só a Ele servirás' (Mt 4,10). Por isso, desprezemos sempre mais o autor do mal, pois o que nosso Senhor disse foi por nós: quando os demônios ouvem tais palavras, são expulsos pelo Senhor que com essa palavras os repreendeu.
38. Não devemos jactar-nos de expulsar os demônios nem vangloriar-nos por curas realizadas; não devemos honrar só ao que expulsa os demônios e desprezar o que não o faz. Que cada um observe atentamente a vida ascética do outro, e então imite-a e emule, ou a corrija; quanto a fazer milagres, não nos compete. Isto está reservado ao Salvador, que, por outro lado, disse a seus discípulos: 'Alegrem-se, não porque os demônios se lhes submetem, mas porque têm seus nomes escritos no céu' (Lc 10,20). E o fato de estarem nossos nomes escritos no céu é testemunho para nossa vida de virtude, mas quanto a expulsar demônios, é dom do Salvador. Por isso, aos que se gloriavam não de sua virtude mas de seus milagres e diziam: 'Senhor, não expulsamos demônios em teu nome e não operamos milagres, também em teu nome?' (Mt 7,22). Ele respondeu: 'Em verdade lhes digo que não os conheço' (Mt 7,23), pois o Senhor não conhece o caminho dos ímpios (cf Sl 1,6). Em resumo, deve-se orar, como já disse, pelo dom do discernimento dos espíritos, a fim de que, como está escrito, não creiamos a cada espírito (cf 1 Jo 4,1).

5.2 - Antão narra suas experiências com os Demônios

Em realidade, queria agora deter-me e não dizer nada mais que viesse de mim mesmo, já que basta o que foi dito. Mas para que vocês não pensem que simplesmente digo estas coisas por falar, mas para que se convençam de que o faço por verdadeira experiência, por isso quero contar-lhes o que vi quanto às práticas dos demônios. Talvez me chamem de tonto, mas o Senhor que está ouvindo o sabe que minha consciência é limpa e que não é por mim mesmo mas para vocês e para alentá-los que digo tudo isto.

Quantas vezes me chamaram bendito, enquanto eu os maldizia em nome do Senhor! Quantas vezes faziam predições acerca da água do Rio! E eu lhes dizia: 'Que têm vocês a ver com isto? 'Uma vez chegaram com ameaças e me rodearam como soldados armados até os dentes. Noutra ocasião encheram a casa com cavalos e bestas e répteis, mas eu cantei o salmo: 'Uns confiam nos carros, outros em sua cavalaria, mas nós confiamos no nome do Senhor nosso Deus' (Sl 19,8), e a esta oração foram rechaçados pelo Senhor. Outra vez, no escuro, chegam com uma luz fátua dizendo: 'Vimos trazer-te luz, Antão'. Fechei, porém os olhos, orei, e de um golpe apagou-se a luz dos ímpios. Poucos meses depois chegaram cantando salmos e citando as Escrituras. Mas 'eu fui como um surdo que não ouve' (Sl 37,14). Uma vez sacudiram a cela de um lado a outro, mas eu rezei, permanecendo inalterável em minha mente. Voltaram então e fizeram um ruído contínuo, dando golpes, sibilando e fazendo cabriolas. Pus-me então a orar e cantar salmos, e então começaram a gritar e lamentar-se como se estivessem extenuados, e eu louvei ao Senhor que reduziu a nada seu descaramento e insensatez e lhes deu uma lição.

40. Uma vez apareceu-me em visão um demônio realmente enorme, que teve a desfaçatez de dizer: 'Sou o Poder de Deus' e: 'Sou a Providência. Que favor desejas que te faça?' Então soprei-lhe meu bafo [38], invocando o nome de Cristo e fiz empenho de golpeá-lo. Parece que tive êxito, porque logo, grande como era, desapareceu, e todos seus companheiros com ele, ao nome de Cristo. Outra vez, estava eu jejuando e chegou-se a mim o velhaco trazendo pães ilusórios. Pôs-se a dar-me conselhos: 'Come e deixa-te de privações. Também tu és homem e estás a ponto de adoecer.' Mas eu, percebendo seu embuste, levantei-me para orar e ele não agüentou: desapareceu como fumaça através da porta.

Quantas vezes me mostrou no deserto uma visão de ouro que eu podia pegar e levar! Opus-me cantando um salmo e se dissolveu. Bateu-me muitas vezes e eu dizia: 'Nada poderá separar-me do amor de Cristo' (cf Rm 8, 35), e eles então se golpeavam uns aos outros. Não fui eu, porém, quem deteve e paralisou seus esforços, mas o Senhor que disse: 'Vi Satanás caindo do céu como um relâmpago' (Lc 10,18).
Filhinhos meus, lembrem-se do que disse o Apóstolo: 'Apliquei-me isto a mim mesmo' (1 Cor 4,6), e aprenderão a não descoroçoar-se em sua vida ascética e a não temer as ilusões do demônio e de seus companheiros.

41. Já que me fiz louco entrando em todas estas coisas, escutem também o que segue, para que possa servir-lhes para sua segurança; creiam-me, não minto. Uma vez ouvi um golpe na porta de minha cela, saí e vi uma figura enormemente alta. Quando lhe perguntei: 'Quem és?', respondeu-me: 'Sou Satanás'. 'Que estás fazendo aqui?'Ele respondeu: 'Que falta encontram em mim os monges e os demais cristãos, sem razão alguma? Por que me expulsam a cada momento?'- 'Bem, por que os molestas?, disse-lhe.
Ele contestou: 'Não sou eu que os molesto, mas seus embaraços têm origem neles mesmos, pois eu me enfraqueci. Não leste por acaso: O inimigo foi desarmado, arrasaste suas cidades (Sl 9,7)? Agora não tenho nem lugar nem armas nem cidade. Em toda parte há cristãos e até o deserto está cheio de monges. Que se dediquem ao que lhes é próprio e não me maldigam sem causa.

Maravilhei-me então ante a graça do Senhor e lhe disse: 'Ainda que sejas sempre mentiroso e nunca fales a verdade, no entanto desta vez a disseste, por mais que te desagrade fazê-lo. Vês, Cristo, com sua vinda te fez impotente, derrubou-te e te despojou'. Ele, ouvindo o nome do Salvador e incapaz de suportar o calor que isto lhe causava, desvaneceu-se.

42. Por isso, se até o próprio demônio confessa que não tem poder, deveríamos desprezá-lo totalmente. O mau e seus cães têm, é verdade, todo um provimento de velhacaria; nós, porém, conhecendo sua impotência, podemos desprezá-los. Não nos entreguemos, pois, nem nos desalentos, nem deixemos que haja covardia em nossa alma nem nos causemos medo a nós próprio, pensando: 'Oxalá não venha o demônio e me faça cair! Queira Deus que não me leve para cima ou para baixo, ou apareça de repente e me tire dos eixos! Não deveríamos absolutamente ter semelhantes pensamentos nem afligir-nos como se fôssemos perecer. Antes tenhamos coragem e alegremo-nos sempre como homens que estão sendo salvos. Pensemos que o Senhor está conosco, Ele que afugentou os maus espíritos e lhes tirou o poder.

Meditemos sempre sobre isto e recordemos que enquanto o Senhor estiver conosco, nossos inimigos não nos causarão dano. Pois quando vêm, atuam como nos encontram, e, no estado de alma em que nos encontrem, apresentam suas ilusões [39]. Se nos vêem cheios de medo, de pânico, imediatamente tomam posse como bandidos que encontram a praça desguarnecida; tudo o que pensemos de nós, aproveitam-no com redobrado interesse. Se nos vêem temerosos e acovardados, aumentam nosso medo o mais que possam em forma de imaginações e ameaças, e assim a pobre alma é atormentada para o futuro. Se nos encontram, porém, alegrando-nos no Senhor; meditando nos bens futuros e contemplando as coisas que são do Senhor; considerando que tudo isto está em Suas mãos e que o demônio não tem poder sobre um cristão, que, de fato, não tem poder sobre ninguém, absolutamente, então, vendo a alma salvaguardada com tais pensamentos, envergonham-se e voltam atrás. Assim, quando o inimigo viu Jo fortificado, retirou-se dele, enquanto que encontrando Judas desprovido de toda defesa, aprisionou-o.

Por isso, se quisermos desprezar o inimigo, mantenhamos sempre nosso pensamento nas coisas do Senhor e que nossa alma goze com a esperança (cf Rm 12,12). Veremos então como os enganos do demônio se desvanecem como fumo e vê-lo-emos fugir em lugar de perseguir-nos. Eles são, como disse, abjetos covardes, sempre receosos [40] do fogo preparado para eles (Mt 25,41).

43. Observem também isto quanto à intrepidez que devem ter na presença deles. Cada vez que venha uma aparição não se precipitem imediatamente cheios de medo covarde, mas seja como for, perguntem primeiro com coração resoluto: 'Quem és e donde vens?' Se é uma visão boa, há de tranqüilizá-los e mudar o medo em alegria. No entanto, se tem que ver com o demônio, vai desvanecer-se logo vendo o ânimo decidido de vocês, pois a simples pergunta: 'quem és e donde vens? 'é sinal de tranqüilidade. Assim o aprendeu o filho de Nun (Jos 5,13s) e o inimigo se livrou de ser descoberto quando Daniel o interrogou (Dan 13,51-59).

5.3 - Virtude Monástica

Enquanto Antão discorria sobre esses assuntos com eles, todos se regozijavam. Aumentava em uns o amor à virtude, em outros desaparecia a negligência, e em outros era reprimida a vanglória. Todos prestavam atenção a seus conselhos sobre os ardis do inimigo, e se admiravam da graça dada a Antão pelo Senhor para discernir os espíritos.

Suas celas solitárias nas colinas eram assim como tendas cheias de coros divinos, cantando salmos, estudando, jejuando, orando, gozando com a esperança da vida futura, trabalhando para dar esmolas e preservando o amor e a harmonia entre si. E em realidade, era como ver um país diferente, uma terra de piedade e justiça. Não havia nem malfeitores nem vítimas do mal, nem acusações do cobrador de impostos [41], mas uma multidão de ascetas, todos com um só propósito: a virtude. Assim, ao ver estas celas solitárias e o admirável afastamento dos monges, não se podia deixar de elevar a voz e dizer: "Como são belas tuas tendas, ó Jacó, e tuas moradas, ó Israel! Como arroios se estendem, como horto junto ao rio, como tendas plantadas pelo Senhor, como cedros junto às águas (Num 24,5).

45. Antão voltou como de costume à sua própria cela e intensificou as práticas ascéticas. Dia por dia suspirava na meditação das moradas celestiais (cf Jo 14,2), com todo anelo, vendo a breve existência do homem. Ao pensamento da natureza espiritual da alma, envergonhava-se quando devia dispor-se a comer ou dormir ou a executar outras necessidades corporais. Muitas vezes, quando ia compartilhar seu alimento com muitos outros monges, sobrevinha-lhe o pensamento do alimento espiritual e, rogando que o perdoassem, afastava-se deles, como que envergonhado de que outros o vissem comendo. Comia, certamente, por necessidade de seu corpo, e freqüentemente em companhia dos irmãos, perturbado por causa deles, mas falando-lhes pelo auxílio que suas palavras significavam para eles. Costumava dizer que se deveria dar todo seu tempo à alma antes que ao corpo. Certamente, posto que a necessidade o exige, algo de tempo deve ser dado ao corpo, mas em geral deveríamos dar nossa primeira atenção à alma e procurar seu progresso. Ela não deveria ser arrastada para baixo pelos prazeres do corpo, mas este é que deve ser posto sob a sujeição da alma. Isto, dizia, é o que o Salvador expressou: 'Não se preocupem por sua vida, pelo que hão de comer ou beber, nem estejam ansiosamente inquietos,: os mundanos é que buscam todas estas coisas, pois o Pai sabe que têm necessidade de tudo isto. Procurem primeiro seu Reino, e tudo o mais lhes será dado por acréscimo (Lc 12,22. 29-31; cf tb. Mt 6,31-33).

5.4 - Notas Bibliográficas
As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da "Vida".
E = versão latina de Evágrio.
[37]"Theotókos", Dei Genitrix, Deipara. É o título mais célebre da Virgem Maria, com o qual se designa sua maternidade divina. Foi pedra de toque nas controvérsias cristológicas do século V sobre a pessoa de Cristo. O título foi negado pelo patriarca Nestório de Constantinopla (+ c.451), por não ser escriturístico, não utilizado pelo Concílio de Nicéia (325), não poder a Virgem Maria, por ser criatura, gerar a divindade, por convir o título somente ao Pai. Os nestorianos preferiam "Christótókos". Os oponentes a Nestório, encabeçados por São Cirilo de Alexandria (+ 444), não só conseguiram no Concílio de Éfeso (431) a definição da união de naturezas em sua única pessoa e a condenação de Nestório, mas também fizeram aceitar o título mariano. A primeira menção segura disto é a de Santo Alexandre de Alexandria (+ 328), o predecessor de Santo Atanásio, em sua carta a Alexandre de Constantinopla. O historiador Sócrates (Hist. ecl. 7,32.17) sustenta que já Orígenes (+235) usou este título, mas não foi encontrado nas obras que até nós chegaram do grande mestre alexandrino. Entre as obras de Santo Hipólito de Roma (+235) aparece o título várias vezes, mas em obras cuja autentiticidade se discute ou em passagens interpoladas. LAMPE 639-641.
[38] Tanto nos Padres como na liturgia e na literatura monástica encontra-se o uso da exsuflação como sinal de defesa e proteção contra os demônios. Igualmente a utilização do sinal da Cruz, que é o método favorito de Santo Antão. E traz aqui "cuspi", por alguma variante de seu texto grego, o que também se fala na literatura como sinal contra o demônio.
[39] São Gregório Magno em suas Moralia 14,13.15, faz o demônio aparecer como excelente psicólogo, que se dedica a estudar cuidadosamente o temperamento e as inclinações potenciais de sua vítima, e de acordo com isto dispõe as astúcias correspondentes. Nesse planejamento, o demônio também escolhe a ocasião propícia. MEYER 117.
[40] Literalmente: "estar na espectativa, aguardar". Aqui, como em 24,6-7, aparece a antiga crença, baseada em Ap 20 (cf também Mt 25,41), de que o castigo dos demônios com o fogo do inferno ainda não começou, ou, então, foi interrompido.
[41] Como o NT já o testemunha, era notório na antiguidade o desprezo pelos cobradores de impostos. Cf. S. GREGÓRIO NAZ., Orat. 19,14: "A guerra é o pai dos impostos". E indubitável a idealização da vida monástica no Egito neste panegírico; cf também S. JOÃO CRISÓSTOMO, Hom. in Mt 8,4.5. MEYER 118.

6. Parte V

6.1 - Antão vai a Alexandria sob a perseguição do Imperador Maximino (311)
Depois disto, a perseguição de Maximino [42], que irrompeu nessa época, abateu-se sobre a Igreja. Quando os santos mártires foram levados a Alexandria, ele também deixou sua cela e os seguiu, dizendo: "Vamos também nós tomar parte no combate se somos chamados, ou a ver os combatentes." Tinha grande desejo de sofrer o martírio, mas não querendo entregar-se [43], servia aos confessores da fé nas minas e nas prisões. Afanava-se no tribunal, estimulando o zelo dos mártires quando eram chamados e escoltando-os quando iam para o mártírio, ficando junto deles até que expirassem. Por isso o juiz, vendo sua intrepidez e a de seus companheiros e seu zelo nestas coisas, deu ordem para que nenhum monge aparecesse no tribunal ou ficasse na cidade. Todos os demais julgaram conveniente esconder-se esse dia; Antão, porém, preocupou-se tão pouco com isso que lavou suas roupas e no dia seguinte colocou-se à frente de todos, num lugar proeminente, à vista e paciência do prefeito [44]. Enquanto todos se admiravam e o prefeito mesmo o via ao acercar-se com todos os seus funcionários, ele estava ali de pé, sem medo, mostrando o espírito anelante próprio a nós cristãos. Como expressei antes, orava para que também ele pudesse ser martirizado, por isso penalizava-se por não haver sido.

Mas o Senhor cuidava dele para nosso bem e para o bem de outros, a fim de que pudesse ser mestre da vida ascética que ele próprio havia aprendido nas Sagradas Escrituras. De fato, muitos, só ao ver sua atitude, converteram-se em zelosos seguidores de seu modo de vida. De novo, por isso, continuou com o costume de ir ao serviço dos confessores da fé como se estivesse encadeado junto com eles (Hb 13,3), esgotou-se em seu afã por eles.

6.2 - O martírio diário da Vida Monástica

Quando finalmente cessou a perseguição e o bispo Pedro, de santa memória, sofreu o martírio, voltou à solidão de sua cela e aí foi mártir cotidiano em sua consciência, lutando sempre as batalhas da fé [45]. Praticou um vida ascética cheia de zelo e mais intensa. Jejuava continuamente, sua veste interior era de pelo, e de couro a exterior, e a conservou até o dia de sua morte. Nunca banhou seu corpo [46], nem tampouco lavou seus pés nem permitiu metê-los na água sem necessidade. Ninguém viu seu corpo nú até que morreu e foi sepultado.

48. De volta à solidão, determinou um período de tempo durante o qual não sairia nem receberia ninguém. Então um oficial militar, um certo Martiniano, chegou a importunar Antão: tinha uma filha à qual o demônio molestava. Como persistia batendo à porta e rogando que saísse e rogasse a Deus por sua filha, Antão não quis sair, mas por uma janelinha lhe disse: "Homem, por que fazes todo esse barulho comigo? Sou um homem como tu. Se crês em Cristo a quem eu sirvo, vai e como crês, ora a Deus e Ele te ouvirá". O homem foi, crendo e invocando a Cristo, e sua filha foi liberta do demônio. Muitas outras coisas fez também o Senhor por intermédio dele, segundo a palavra: "Peçam e lhes será dado" (Lc 11,9). Muitíssima gente, que sofria, dormia simplesmente fora de sua cela [47], pois ele não queria abrir-lhes a porta, eram curados por sua fé e sincera oração.

6.3 - Fuga para a montanha interior

Quando se viu acossado por muitos e impedido de retirar-se como era seu propósito e seu desejo, e inquieto pelo que o Senhor estava operando por intermédio dele, pois podia transformar-se em presunção, ou poderia alguém estimá-lo mais do que convinha, refletiu e foi-se para a Alta Tebaida, a um povo que o desconhecia. Recebeu pão dos irmãos e sentou-se à margem do rio, esperando ver um barco que passasse e no qual pudesse partir. Enquanto estava assim esperando, ouviu-se uma voz do alto: "Antão, aonde vais e por que?"

Não se desorientou, mas, ouvindo outras vezes tais palavras, contestou: "Já que as multidões não me permitem estar só, quero ir para a Alta Tebaida, porque são muitos os incômodos a que estou sujeito aqui, e sobretudo porque me pedem coisas para além de meu poder". "Se sobes à Tebaida", disse a voz "ou se, como também pensaste, desces à Bucolia [48], terás mais, sim, o duplo de incômodos a suportar. Mas se realmente queres estar contigo mesmo, então vai-te ao deserto interior".

"Mas, disse Antão, quem me mostrará o caminho? Eu não o conheço". De repente chamaram-se a atenção uns sarracenos que estavam a tomar aquele caminho.

Aproximando-se, Antão lhes pediu para ir com eles ao deserto. Como por ordem da Providência, deram-lhe as boas-vindas. E viajou com eles três dias e três noites e chegou a uma montanha muito alta, tendo ao pé uma água clara como cristal e muito fresca. Estendendo-se dali havia uma planície e algumas tamareiras.

50. Como inspirado por Deus, Antão ficou encantado com o lugar [49] porque foi isto o que quis dizer Quem falou com ele à margem do Rio. Começou por conseguir uns pães de seus companheiros de viagem e ficou sozinho na montanha, sem companhia alguma. Daí em diante olhou esse lugar como se houvera encontrado seu próprio lar. Quanto aos sarracenos, notando o entusiasmo de Antão, fizeram do lugar um ponto em suas travessias, e estavam contentes de levar-lhe pão. Também as tamareiras lhe davam uma pequena e frugal mudança de dieta. Mas tarde os irmãos, inteirando-se do lugar, como filhos preocupados por seu pai, engenharam-se para enviar-lhe pão. No entanto, vendo Antão que o pão lhes causava incômodo, pois tinham de aumentar o trabalho que já suportavam, e querendo demonstrar consideração aos monges também nisso, refletiu sobre o assunto e pediu a alguns de seus visitantes que lhe trouxessem um enxadão e um machado e alguns grãos.

Quando o trouxeram, ele foi ao terreno junto da montanha, e encontrando um pedaço adequado, com abundante provisão de água vertente, cultivou-o e semeou. Assim o fez cada ano e conseguia seu pão. Estava feliz, pois com isto não era molesto a ninguém e em tudo tratava de não ser carga para os outros [50]. Mais tarde, porém, vendo que de novo chegava gente para vê-lo, começou a cultivar também algumas hortaliças, a fim de que seus visitantes tivessem algo mais para restaurar suas forças depois de tão cansativa e pesada viagem.

No começo, os animais do deserto que vinham beber água danificavam as plantações de sua horta. Pegou então um deles, reteve-o suavemente e disse a todos: "Por que me prejudicam se não lhes faço nada a nenhum de vocês? Retirem, e em nome do Senhor não se aproximem outra vez destas coisas!" E desde então, como atemorizados com essas ordens, lá não voltaram mais.

6.4 - De novo, os demônios

Assim esteve sozinho na Montanha Interior, dando seu tempo à oração e à prática da vida ascética. Os irmãos que foram em sua busca rogaram-lhe que lhes permitisse ir cada mês e levar-lhe azeitonas, legumes e azeite, pois agora já era ancião.
De seus visitantes soubemos quantos combates teve de suportar enquanto viveu ali, "não contra carne e sangue", como está escrito (Ef ,12), mas em luta com os demônios. Também ali ouviram tumultos e muitas vozes e clamor como de armas. À noite viram a montanha encher-se de vida com animais selvagens. Viram-no também lutando como com inimigos visíveis, e orando contra eles. A um que o visitou falou-lhe palavras de alento enquanto ele próprio mantinha-se firme na contenda, de joelhos e orando ao Senhor. Era realmente notável que, sozinho como estava nesse despovoado, nunca desmaiasse ante os ataques dos demônios, nem tampouco com todos os animais e répteis que havia, tivesse medo de sua ferocidade. Como está na Escritura, ele realmente "confiava no Senhor como o monte Sião (Sl 124,1), com ânimo inquebrantável e intrépido. Assim os demônios antes fugiam dele, e os animais selvagens fizeram paz com ele, como está escrito (Jó 5,23).

52. O mau pôs estreita guarda sobre Antão e rangeu os dentes contra ele, como o disse Davi no salmo (Sl 34,16), mas Antão foi animado pelo Salvador, não sendo danificado por essa vilania e sutil estratégia. Enviou-lhe animais selvagens enquanto estava em suas vigílias noturnas, e em plena noite todas as hienas do deserto sairam de suas tocas e o rodearam. Tendo-o no centro, abriam suas fauces e ameaçavam mordê-lo. Ele, porém, conhecendo bem as manhas do inimigo, disse-lhes: "Se receberam poder para fazer isto contra mim, estou disposto a ser devorado; mas se foram enviados pelos demônios, saiam imediatamente porque sou servidor de Cristo". Enquanto Antão dizia isto, fugiram como açoitados pelo látego dessa palavra.
53. Poucos dias depois, enquanto estava trabalhando - porque o trabalho sempre era parte de seu propósito - alguém chegou à porta e puxou a corda com que trabalhava (estava fazendo cestos que dava a seus visitantes em troca do que lhe traziam). Levantou-se e viu um monstro que parecia homem até as coxas, mas com pernas e pés de asno. Antão fez simplesmente o sinal da cruz e disse: "Sou servidor de Cristo. Se foste enviado contra mim, aqui estou". O monstro porém com seus demônios fugiu tão rápido que sua própria rapidez o fez cair e morreu. A morte do monstro veio a significar o fracasso dos demônios: fizeram o que puderam para que saísse do deserto e não o conseguiram [51].

6.5 - Antão visita os irmãos ao longo do Nilo

Um vez os monges pediram-lhe que voltasse para eles e passasse algum tempo visitando-os e a seus estabelecimentos. Fez a viagem com os monges que vieram a seu encontro. Um camelo ia carregado com pão e água, já que em todo esse deserto não havia água, e a única potável estava na montanha de onde haviam saído e onde estava sua cela. Indo a caminho, acabou-se a água, e estavam todos em perigo quando o calor era mais intenso. Andaram buscando [52] e voltaram sem a encontrar. Estavam por demais fracos para poderem caminhar. Lançaram-se ao chão e deixaram partir o camelo, entregando-se ao desespero.

Vendo o perigo em que todos estavam, o ancião encheu-se de aflição. Suspirando profundamente, apartou-se um pouco deles. Ajoelhou-se, estendeu as mãos e orou. E de repente o Senhor fez brotar uma fonte no lugar onde estava orando, e todos puderam beber e refrescar-se. Encheram os odres e puseram-se a buscar o camelo até que o encontraram: sucedeu que o cordel se embaraçara numa pedra e ficara preso. Levaram-no a beber e carregando-o com os odres concluíram sua viagem sem mais prejuízos ou acidentes.

Ao chegar às celas exteriores, todos lhe deram cordiais boas-vindas, olhando-o como a um pai [53]. Por seu lado, como trazendo-lhes provisões de sua montanha, ele os entretinha com suas narrações e lhes comunicava sua experiência prática. E de novo houve alegria nas montanhas e anelos de progresso, e de consolo que vem de uma fé comum (cf Rm 1,12). Também se alegrou ao contemplar o zelo dos monges, e ao ver sua irmã que havia envelhecido em sua vida de virgindade, sendo ela mesma guia espiritual de outras virgens.

6.6 - Os irmãos visitam Antão

Depois de alguns dias voltou à sua montanha. Desde então muitos foram visitá-lo, entre eles muitos cheios de aflição, que arriscavam a viagem até ele. Para todos os monges que chegavam até ele, tinha sempre o mesmo conselho: pôr sua confiança no Senhor e amá-lo, guardar-se a si mesmo dos maus pensamentos e dos prazeres da carne, e não ser seduzidos por um estômago cheio, como está escrito nos Provérbios (Pr 24,15). Deviam fugir da vanglória e orar continuamente; cantar salmos antes e depois do sono; guardar no coração os mandamentos impostos nas Escrituras e recordar os feitos dos santos, de modo que a alma, ao recordar os mandamentos, possa inflamar-se ante o exemplo de seu zelo. Aconselhava-os sobretudo recordar sempre a palavra do Apóstolo: "Que o sol não se ponha sobre vossa ira" (Ef 4,26), e a considerar estas palavras como ditas em relação a todos os mandamentos: o sol não se deve pôr não apenas sobre nossa ira, como sobre nenhum outro pecado.

É inteiramente necessário que o sol não nos condene por nenhum pecado de dia, nem a lua por nenhuma falta noturna (inclusive o mau pensamento). Para assegurar-nos disso, é bom ouvir e guardar o que diz o apóstolo: "Julguem-se e provem-se a si mesmos" (2 Cor 13,5). Por isso, cada um deve fazer diariamente um exame do que fez de dia e de noite; se pecou, deixe de pecar; se não pecou, não se orgulhe disso. Persevere antes na prática do bem e não deixe de estar em guarda. Não julgue o próximo nem se declare justo a si mesmo, como diz o santo apóstolo Paulo , "até que venha o Senhor e traga à luz o que está escondido" (1 Cor 4,5; Rm 2,16). Muitas vezes não temos consciência do que fazemos; nós não o sabemos, mas o Senhor conhece tudo. Por isso, deixando a Ele o julgamento, compadeçamo-nos mutuamente e "levemos as cargas uns dos outros" (Gl 6,2). Julguemo-nos a nós mesmos e, se nos vemos diminuídos, esforcemo-nos com toda a seriedade por reparar nossa deficiência. Que esta observação seja nossa salvaguarda contra o pecado: anotemos nossos atos e impulsos da alma como se tivéssemos de informar a outro: podem estar seguros de que de pura vergonha de que isto seja conhecido, deixaremos de pecar e de prosseguir com pensamentos pecaminosos. Quem gosta que o vejam pecando? Quem, depois de pecar, não preferiria mentir, esperando escapar assim de que o descubram? Assim como não quiséramos abandonar-nos ao prazer à vista de outros, assim também se tivéssemos de escrever nossos pensamentos para dizê-los a outro, muito nos guardaríamos de maus pensamentos, por vergonha que alguém os soubesse. Que essa informação escrita seja, pois, como os olhos de nossos irmãos ascetas, de modo que, ao nos envergonharmos de escrever como se nos estivessem vendo, jamais nos demos ao mal. Modelando-nos desta maneira, seremos capazes de "levar nossos corpos a obedecer-nos" (1 Cor 9,27), para agradar ao Senhor e calcar aos pés as maquinações do inimigo".

6.7 - Milagres no deserto

Estes eram os conselhos a seus visitantes. Com os que sofriam unia-se em simpatia e oração, e amiúde e em muitos e variados casos, o Senhor ouviu sua oração. Nunca, porém, se jactou quando atendido, nem se queixou não o sendo. Sempre deu graças ao Senhor, e animava os que sofriam a ter paciência e a se aperceberem de que a cura não era prerrogativa dele nem de ninguém, mas de Deus só, que a opera quando quer e a favor de quem Ele quer. Os que sofriam ficavam satisfeitos, recebendo as palavras do ancião como cura, pois aprendiam a ter paciência e a suportar o sofrimento. E os que eram curados aprendiam a dar graças, não a Antão, mas a Deus só.

57. Havia, por exemplo, um homem chamado Frontão, oriúndo de Palatium [54]. Tinha uma enfermidade horrível: mordia continuamente a língua e sua vista ia se encurtando. Chegou à montanha e pediu a Antão que rogasse por ele. Orou e disse logo a Frontão: "Vai-te, vais ser curado". Ele porém, insistiu e ficou durante dias, enquanto Antão prosseguia dizendo-lhe: "Não ficarás curado enquanto ficares aqui. Vai-te, e quando chegares ao Egito, verás em ti o milagre". O homem consentiu afinal e foi-se; e ao chegar à vista do Egito, sua enfermidade desapareceu. Sarou segundo as instruções que Antão havia recebido do Senhor enquanto orava.

58. Uma menina de Busiris em Trípoli padecia de uma enfermidade terrível e repugnante: uma supuração nos olhos, nariz e ouvidos transformava-se em vermes quando caía no chão. Além disso tinha o corpo paralisado e seus olhos eram defeituosos. Seus pais ouviram falar de Antão por alguns monges que iam vê-lo, e tendo fé no Senhor que curou a hemorroísa (Mt 9,20), pediram-lhes licença para irem também com sua filha, e eles consentiram. Os pais e a menina ficaram ao pé da montanha com Pafnúcio [55], o confessor e monge. Os demais subiram, e quando se dispunham a falar-lhe da menina, ele adiantou-se e lhes falou tudo sobre os sofrimentos dela, e de como havia feito com eles a viagem. Então, quando lhe perguntaram se essa gente podia subir, não lhes permitiu e disse: "Podem ir e, se não morreu, vão encontrá-la sã. Não é certamente nenhum mérito meu que ela tenha querido vir a um infeliz como eu; não, em verdade, sua cura é obra do Salvador que mostra sua misericórdia em todo lugar aos que o invocam. Neste caso o Senhou ouviu sua oração, e Seu amor pelos homens me revelou que curará a enfermidade da menina onde ela está". Em todo caso o milagre se realizou: quando desceram, encontraram os pais felizes e a memina em perfeita saúde.

59. Sucedeu também que quando dois dos irmãos estavam em viagem para vê-lo, acabou-se-lhes a água; um morreu e o outro estava a ponto de morrer. Já não tinha forças para andar, mas jazia no chão esperando também a morte. Sentado na montanha, Antão chamou dois monges que casualmente estavam ali e os compeliu a se apresarem: "Tomem um jarro d'água e corram descendo pelo caminho do Egito; vinham dois, um acaba de morrer e o outro também morrerá se vocês não se apressarem. Foi-me revelado isto agora na oração". Foram-se os monges, acharam um morto e o enterraram. Ao outro fizeram-no reviver com água e o levaram ao ancião. A distância era de um dia de viagem. Agora, se alguém pergunta porque não falou antes de morrer o outro, sua pergunta é injustificada. O decreto de morte não passou por Antão, mas por Deus que a determinou para um, enquanto revelava a condição do outro. Quanto a Antão, o admirável é que, enquanto estava na montanha com seu coração tranquilo, mostrou-lhe o Senhor coisas distantes.

60. Noutra ocasião em que estava sentado na montanha, olhando para cima viu no ar alguém levado para o alto entre grande regozijo de outros que lhe saíam ao encontro. Admirando-se de tão grande multidão e pensando quão felizes eram, orou para saber quem podia ser este. De repente uma voz se dirigiu a ele dizendo-lhe que era a alma do monge Amón de Nítria [56], que levou vida ascética até idade avançada. Pois bem, a distância de Nítria à montanha onde Antão estava era de treze dias de viagem. Os que estavam com Antão, vendo o ancião tão extasiado, perguntaram-lhe o motivo e ele lhes contou que Amón acabava de morrer.

Este era bem conhecido pois vinha aí amiúde e muitos milagres foram operados por seu intermédio. Segue um exemplo. Uma vez tinha que atravessar o chamado rio Lycus na estação das cheias; pediu a Teodoro que se adiantasse para que não se vissem nus um ao outro enquanto atravessavam o rio a nado. Então, quando Teodoro se foi, ele sentiu-se entretanto envergonhado por ter que se ver ele mesmo nu. Enquanto estava assim desconcertado e refletindo, foi de repente transportado à outra margem. Teodoro, também, homem piedoso, saiu da água, e ao ver que o outro chegara antes dele sem se haver molhado, perguntou-lhe como atravessara. Quando viu que não o queria contar, agarrou-se a seus pés, insistindo em que não o soltaria até que lhe dissesse. Notando a determinação de Teodoro, especialmente depois do que lhe disse, insistiu por sua vez para que não o dissesse a ninguém antes de sua morte, e assim lhe revelou ter sido levado e depositado na margem; que não havia caminhado sobre as águas, uma vez que isto só é possível ao Senhor e àqueles aos quais Ele o permite, como o fez no caso do grande apóstolo Pedro (Mt 14,19). Teodoro relatou isto depois da morte de Amón.

Os monges aos quais Antão falou sobre a morte de Amón anotaram o dia e quando, um mês depois, os irmãos voltaram de Nítria, perguntaram e souberam que Amón havia dormido no mesmo dia e hora em que Antão viu sua alma levada para o alto. E tanto eles como os outros ficaram estupefatos ante a pureza de alma de Antão, que podia saber imediatamente o que se passara treze dias antes, e que era capaz de ver a alma levada para o alto.

61. Noutra ocasião, o conde Arqueláo [57] o encontrou na Montanha Exterior e pediu-lhe somente que rezasse por Policrácia [58], a admirável virgem de Laodicéia, portadora de Cristo [59]. Sofria muito do estômago e das costas devido à sua excessiva austeridade, o seu corpo estava reduzido a grande debilidade. Antão orou e o conde anotou o dia dessa oração. Ao voltar a Laodicéia encontrou curada a virgem. Pergutando quando se havia visto livre de sua debilidade, tirou o papel onde anotara a hora da oração. Quando lhe responderam, imediatamente mostrou a sua anotação no papel, e todos se maravilharam ao reconhecer que o Senhor a havia curado de sua doença no próprio momento em que Antão estava orando e invocando a bondade do Salvador em seu auxílio.

62. Quanto a seus visitantes, predizia frequentemente sua vinda ,dias e às vezes um mês antes, indicando o motivo da visita. Alguns vinham só para vê-lo, outros devido a enfermidades, e outros, atormentados pelos demônios. E ninguém considerava viagem demasiado molesta ou que fosse tempo perdido; cada um voltava sentindo que fora ajudado. Ainda que Antão tivesse esses poderes de palavra e visão, no entanto suplicava que ninguém o admirasse por essa razão, mas admirasse antes ao Senhor porque Ele nos ouve a nós, que somos apenas homens, a fim de que possamos conhecê-lo melhor.

63. Noutra ocasião havia descido de novo para visitar as celas exteriores. Quando convidado a subir a um barco e orar com os monges, só ele percebeu um mau cheiro horrível e sumamente penetrante. A tripulação disse que havia a bordo pescado e alimento salgado e que o cheiro vinha disso, mas ele insistiu que o odor era diferente. Enquanto estava falando, um jovem que tinha um demônio e subira a bordo pouco antes como clandestino, soltou de repente um guincho. Repreendido em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, foi-se o demônio, e o homem voltou à normalidade; todos então se aperceberam de que o mau cheiro vinha do demônio.

64. Outra vez um homem de posição foi a ele, possuído por um demônio. Neste caso o demônio era tão terrível que o possesso não estava consicente de que ia a Antão. Chegava mesmo a devorar seus próprios excrementos. O homem que o levou a Antão rogou-lhe que rezasse por ele. Compadecido pelo jovem, Antão orou e passou com ele toda a noite. Ao amanhecer, o jovem lançou-se de repente sobre Antão, empurrando-o. Seus companheiros indignaram-se diante disso, mas Antão acalmou-os, dizendo: "Não se aborreçam com o jovem, pois não é ele o responsável, e sim o demônio que nele está. Ao ser increpado e mandado a lugares desertos (Lc 11,24), ficou furioso e fez isto. Dêem graças ao Senhor, pois o atacar-me deste modo é um sinal da partida do demônio". E enquanto Antão dizia isto, o jovem voltou a seu estado normal; deu-se conta de onde estava, abraçou o ancião e deu graças a Deus.

6.8 - Notas Bibliográficas
As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da "Vida".
E = versão latina de Evágrio.
[42] Em 305 abdicaram os imperadores Diocleciano e Maximiano. Sucederam-nos Constâncio e Galério como Augustos; Severo e Maximino Daia foram feitos Césares. Este último tomou a seu cargo a administração da Síria, Palestina e Egito e sobressaiu por seu fanatismo na continuação da perseguição de Diocleciano. A violenta repressão cessou temporalmente com o edito de tolerância de Nicomedia (30 de abril de 311), aplicado de muito má vontade por Maximino, que, antes de seis meses recomeçou a perseguição. Só em fins de 312 maximino volta à tolerância e finalmente sob a pressão de seus rivais ocidentais Constantino e Licínio, concede a paz religiosa. J. DANIELOU, Nova História da Igreja, t.1.
[43] A excessiva exaltação do martírio, relacionada em parte com a crença na iminência da Parusia, em fins do século II, mas sobretudo impulsionada por toda uma literatura em torno do martírio e dos mártires, havia criado uma mística do martírio. Às vezes apresentavam-se cristãos em grupo ante os prefeitos. Isto levou a Igreja a intervir, proibindo a apresentação voluntária ante as autoridades. J. DANIELOU, Nova História da Igreja.
[44] E (PL 73,147C) acrescenta: vestido de branco. MEYER 119 supõe que se trata da mudança de sua aparência monástica pela de um civil egípcio. L.V. HERTLING, o.c. 29, supõe em todo caso que esse disfarce de Santo Antão não foi muito eficaz, já que o prefeito o reconhece, ainda que não o prendesse. Santo Antão queria oferecer-se ao martírio, mas sem violar a legislação eclesiástica.
[45] A palavra "mártir", que significa originalmente "testemunha", e que foi aplicada a Deus, às Escrituras, às diversas figuras bíblicas, usou-se posteriormente para os ou as que selavam com seu sangue sua fidelidade a Cristo. Posteriormente chamavam-se também "mártires" os que, embora sem morrer, haviam sofrido por Cristo. Deu-se também tal nome a todo verdadeiro cristão, e falou-se do martírio de diversas virtudes. Isto levou a aplicar esse título também aos ascetas. A vida monástica é descrita na literatura com os mesmos termos que se usavam para descrever a luta do mártir da fé. LAMPE 830-833; E.E. MALONE, "The Monk and the Martyr" Stud.Ans. 38 (1956) 201-228.
[46] O mesmo se refere acerca de Plotino. PALADIO em sua "História Lausíaca" relata exemplos semelhantes nas vidas de vários de seus personagens. Não se pode negar o motivo penitencial, mas talvez o fundamento mais profundo desta forma de ascese (no deserto!) era o profundo horror aos costumes licenciosos que prevaleciam nos banhos públicos pagãos. MEYER 119-120.
[47] Isto lembra a antiga prática do "incubare": os que desejavam receber uma visão (cf 1 Sm 3,3) ou ser curados de suas enfermidades, deitavam-se no recinto de um templo. MEYER 120.
[48] Trata-se de um distrito pantanoso no delta do Nilo, habitado por pastores. MEYER 120; H. ROSWEIDE, Onomaticon, PL 74, 417C. Parece que Santo Antão havia pensando não só em ir para o sul, como também na possibilidade de ir habitar para o norte.
[49] Trata-se do monte Colzim, em pleno deserto na planície de Qalala do sul, aproximadamente 180 km a sueste de Alexandria, entre o Nilo e o Mar Vermelho. A montanha com o antigo mosteiro de Santo Antão é chamada inda Der Mar Antonios.
[50] E (PL 73,149A) acrescenta: "vivendo no deserto do trabalho de suas mãos" (cf At 20,34).
[51] E (PL 73,150B) acrescenta: Maravilha sobre maravilha sucediam-se. Não havia passado muito tempo, e o homem de tão grandes vitórias foi vencido pelos rogos dos irmãos.
[52] E (PL 73, 150B) acrescenta: ainda que fosse uma laguna com água de chuva.
[53] E (PL 73, 250C) acrescenta: todos foram sobre ele saudando-o com beijos e abraços.
[54] Ambos os nomes são romanos. Havia duas cidades com esse nome na antiga Itália, mas como a palavra significa também "corte, palácio", sugere-se que este homem, quanto aos demais desconhecidos, era um oficial, ou empregado romano a serviço do prefeito romano de Alexandria. MEYER 122. E traduz: ex Palaestinis. DRAGUET (Arnauld d'Andilly): da casa do Imperador.
[55] E (PL 73, 152C) acrescenta: Sob a perseguição de Maximino arrancaram-lhe os olhos por Cristo, mas gloriava-se imensamente de tal desonra de seu corpo. Pafnúcio era nome sumamente comum no Egito do século IV. Vários bispos e monges são conhecidos sob esse nome, o que dificulta sua identificação. Neste caso, o epíteto de "confessor" e o acréscimo feito por Evágrio, assinalado antes, parecem indicar que se trata do bispo Pafnúcio da Alta Tebaiba, martirizado sob Maximino. participou no Concílio de Nicéia, com grandes honras. O Martirológio Romano menciona-os no dia 4 de setembro. H. ROSWEIDE, PL 73, 181 B).
[56] PALADIO, em sua "História Lausíaca" 8, conta a história de Ammón (ou Amoun). Casado sob a influência de um tio viveu com sua mulher 18 anos em virgindade. Então, por sugestão dela mesma, Ammón abandonou-a para fazer-se monge no deserto de Nítria. Ali morou vinte anos, até sua norte. Consta que em fins do século IV, haveria no deserto de Nítria uns cinco mil discípulos dele. MEYER 123.
[57] Trata-se talvez do alto oficial que ajudou Santo Atanásio no Sínodo de Tiro do ano 335, a por a descoberto algumas das maquinações de eusebianos e melecianos. MEYER 124.
[58] Nome feminino que ocorre não raramente em antigas inscrições gregas. Alguns manuscritos latinos acrescentam: Filha de Públio. Não é claro que Laodicéia se refere ao texto, já que havia várias cidades com esse nome. É provável que seja Laodicéia da Síria. H. ROSWEIDE, PL 73,181 D; MEYER 124.
[59] "Christóforos" = portador de Cristo, isto é, cheio ou inspirado por Cristo. Já Santo Inácio de Antioquia ( + c.110), Ef 9,2, usou esse título para os cristãos. Cf também em Nt G 1,3,27. Posteriormente, o título aplicou-se a pessoas especialmente inspiradas: apóstolos, mártires. Logo foi dado também aos ascetas. LAMPE 1533.

7. Parte VI

7.1 - Visões

São numerosas as histórias, e além disso todas concordes, que os monges transmitiram sobre muitas outras coisas semelhantes operadas por ele. E no entanto não parecem tão maravilhosas como outras ainda mais maravilhosas. Uma vez, por exemplo, à hora de noa [60], quando se pôs de pé para orar antes de comer, sentiu-se transportado em espírito e, estranho é dizê-lo, viu-se a si mesmo como se achasse fora de si mesmo e como se outros seres o levassem aos ares. Então viu também outros seres terríveis e abomináveis no ar, que lhe embargavam o passo. Como seus guias oferecessem resistência, os outros perguntaram sob que pretexto queria fugir de sua responsabilidade diante deles. E quando começaram eles próprios a pedir-lhe contas desde seu nascimento, intervieram os guias de Antão: "Tudo o que date desde o seu nascimento o Senhor apagou; podem pedir-lhe contas desde que começou a ser monge e se consagrou a Deus [61]. Então começaram a apresentar acusações falsas e como não as puderam provar, tiveram de deixar-lhe livre a passagem. Imediatamente viu-se a si mesmo aproximando-se - ao menos assim lhe pareceu - e juntando-se a si mesmo, e assim Antão voltou de novo à realidade [62].

Esquecendo-se então de comer, passou todo o resto do dia e toda a noite suspirando e orando. Estava abismado de ver contra quantos inimigos devemos lutar e que trabalhos se tem para abrir passagem pelos ares. Lembrou-se de que é isto o que diz o apóstolo: "de acordo com o príncipe das potências do ar" (Ef 2,2). Aí está precisamente o poder do inimigo que peleja e trata de deter os que intentam passar. Por isto o mesmo apóstolo dá também sua especial advertência: "Tomem a armadura de Deus que os faça capazes de resistir no dia mau" (Ef 6,13), e "nada tendo que dizer contra nós, fique envergonhado (Tito 2,8). E nós que aprendemos isto, recordemos o que o mesmo apóstolo diz: "Se fui levado em meu corpo ou fora dele, não sei; Deus o sabe" (2 Cor 12,2). Paulo, porém, foi levado ao terceiro céu e ouviu "palavras inefáveis" (2 Cor 12,2.4), e voltou, enquanto Antão viu-se a si mesmo entrando nos ares e lutando até que ficou livre.

66. Noutra ocasião teve o seguinte favor de Deus: Quando sozinho na montanha e refletindo, não podia encontrar solução alguma, a Providência lha revelava em resposta à sua oração; o santo varão era ensinado por Deus com palavras da Escritura (cf Is 54,13; Jo 6,45; 1 Ts 4,9). Assim favorecido, teve uma vez discussão com alguns visitantes sobre a vida da alma e que lugar teria depois desta vida. Na noite seguinte chegou-lhe um chamado do alto: "Antão, sai para fora e veja!" Ele saiu, pois distinguia os chamados que devia atender, e olhando para o alto viu uma enorme figura, espantosa e repugnante, de pé, que alcançava as nuvens; viu além disto certos seres que subiam como com asas. A primeira figura estendia as mãos e alguns dos seres eram detidos por ela, enquanto outros voavam sobre ela, e havendo-a ultrapassado, continuavam sem maior incômodo. Contra eles o monstro rangia os dentes, alegrando-se porém pelos outros que haviam caído. Nesse momento uma voz dirigiu-se a Antão: "Compreende a visão!" (cf Dn 9,23). Abriu-se seu entendimento (cf Lc 24,45) e apercebeu-se de que isso era a passagem das almas [63] e de que o monstro que ali estava era o inimigo, o invejoso dos crentes. Sujeitava os que lhe correspondiam e não os deixava passar; mas os que ele não tinha podido dominar, tinha que deixá-los passar fora de seu alcance [64].

Tendo visto isso, e tomando-o como advertência, lutou ainda mais para adiantar cada dia na direção do que o esperava. Não tinha nenhuma inclinação para falar acerca destas coisas. Quando, porém, havia passado muito tempo em oração e absorto em toda essa maravilha, e seus companheiros insistiam e o importunavam para que falasse, era forçado a fazê-lo. Como pai não podia guardar um segredo ante seus filhos. Sentia que sua própria consciência era limpa e que contar-lhes isto poderia servir-lhes de ajuda. Conheceriam o bom fruto da vida ascética, e que muitas vezes as visões são concedidas como compensação pelas privações.

7.2 - Devoção de Antão aos Ministros da Igreja - Equanimidade de seu caráter
Era paciente por disposição e humilde de coração. Sendo homem de tanta fama, mostrava, no entanto, o mais profundo respeito aos ministros da Igreja, e exigia que a todo clérigo se desse maior honra do que a ele [65]. Não se envergonhava de inclinar a cabeça diante de bispos e de sacerdotes. Se algum diácono chegava a ele pedindo-lhe ajuda, conversava com ele o que lhe fosse proveitoso, mas, chegando a oração, pedia-lhe que presidisse, não se envergonhando de aprender. De fato, muitas vezes propôs questões inquirindo os pontos de vista de seus companheiros, e se tirava proveito do que dizia o outro, mostrava-se grato.

Seu rosto tinha grande e indescritível encanto. E o Salvador lhe tinha dado por acréscimo este dom: se se achava presente numa reunião de monges e algum a quem não conhecia desejava vê-lo, esse tal, ao chegar, passava por alto os demais, como que atraído por seus olhos. Não eram nem sua estatura nem sua figura que o destacavam entre os demais, mas seu caráter sossegado e a pureza de sua alma. Ela era imperturbável e assim sua aparência externa era tranqüila [66]. O gozo de sua alma transparecia na alegria de seu rosto, e pela forma de expressão de seu corpo se sabia e conhecia a estabilidade de sua alma, como o diz a Escritura: "O coração contente alegra o semblante, o coração triste deprime o espírito" (Pr 15,13). Também Jacó observou que Labão estava tramando algo contra ele e disse a suas mulheres: "Vejo que o pai de vocês não me olha com bons olhos" (Gn 31,5). Também Samuel reconheceu Davi porque tinha olhos que irradiavam alegria e dentes brancos como o leite (cf 1 Sm 16,12; cf tb.Gn 49,12). Assim também era reconhecido Antão: nunca estava agitado, pois sua alma estava em paz; nunca estava triste porque havia alegria em sua alma.

7.3 - Por lealdade à fé Antão intervém na luta anti-ariana

Em assuntos de fé, sua devoção era sumamente admirável. Por exemplo, nunca se relacionou com os cismáticos melecianos, sabedor desde o começo de sua maldade e apostasia [67]. Tampouco teve trato amistoso com os maniqueus [68] nem com outros hereges, à exceção unicamente das admoestações que lhes fazia para que voltassem à verdadeira fé. Pensava e ensinava que amizade e associação com eles prejudicavam e arruinavam a alma. Detestava também a heresia dos arianos [69], e exortava a todos a não se acercarem deles nem compartilhar de sua perversa crença. Uma vez quando alguns desses ímpios arianos chegaram a ele, interrogou-os detalhadamente; e ao aperceber-se de sua ímpia fé, expulsou-os da montanha, dizendo que suas palavras eram piores que veneno de serpentes.

69. Quando numa ocasião os arianos espalharam a mentira de que partilhava de suas opiniões, demonstrou que estava enojado e irritado contra eles. Respondendo ao chamado dos bispos e de todos os irmãos [70], desceu a montanha e entrando em Alexandria denunciou os arianos. Dizia que sua heresia era a pior de todas e precursora do anticristo. Ensinava ao povo que o Filho de Deus não é uma criatura nem veio "da não existência" ao ser, mas "é Ele a eterna Palavra e Sabedoria da substância do Pai". Por isso é ímpio dizer: 'houve um tempo em que não existia', pois a Palavra foi sempre coexistente com o Pai. Por isso, não se metam em nada com estes arianos sumamente ímpios: simplesmente 'não há comunidade entre a luz e as trevas' (2 Cor 6,14). Vocês devem se lembrar de que são cristãos tementes a Deus, mas eles ao dizerem que o Filho e Palavra de Deus é uma criatura, não se diferenciam dos pagãos 'que adoram a criatura em lugar de Deus Criador' (Rm 1,25). E estejam seguros de que toda a criação está irritada contra eles, porque contam entre as coisas criadas o Criador e Senhor de tudo, pelo qual todas as coisas foram criadas" (cf Gl 1,16).

70. Todo o povo se alegrava ao ouvir semelhante homem anatematizar a heresia que lutava contra Cristo [71]. Toda a cidade corria para ver Antão. Também os pagãos e inclusive seus assim chamados sacerdotes iam à Igreja dizendo: "Vamos ver o homem de Deus" [72], pois assim o chamavam todos. Além disso, também ali o Senhor operou por seu intermédio expulsões de demônios e curas de doenças mentais. Muitos pagãos queriam também tocar o ancião, confiando em que seriam auxiliados, e em verdade houve tantas conversões nesses poucos dias como não tinham sido vistas em todo um ano. Alguns pensaram que a multidão o incomodava e por isso trataram de afastar todos dele, mas ele, sem se molestar, disse: "Toda essa gente não é mais numerosa do que os demônios contra os quais temos que lutar na montanha".

71. Quando se ia e estávamos nos despedindo dele, ao chegar à porta, uma mulher atrás de nós gritava: "Espera, homem de Deus, minha filha está sendo terrivelmente atormentada por um demônio! Espera, por favor, ou vou morrer, correndo!" O ancião ouviu-a, rogamos-lhe que se detivesse e ele acedeu com gosto. Quando a mulher se aproximou, sua filha estava arrojada ao chão. Antão orou e invocou sobre ela o nome de Cristo; a moça levantou-se sã e o espírito impuro a deixou. A mãe louvou a Deus e todos renderam graças. E ele também contente partiu para a Montanha, para o seu próprio lar.

7.4 - A verdadeira Sabedoria

Tinha também um grau muito alto de sabedoria prática. O admirável era que, ainda que não tivesse educação formal [73], possuía no entanto engenho e compreensão despertos. Um exemplo: uma vez chegaram a ele dois filósofos gregos, pensando que podiam divertir-se com Antão. Quando ele, que nessa ocasião vivia na Montanha Exterior, catalogou os homens por sua aparência, dirigiu-se a eles e lhes disse por meio de um intérprete: "Por que, filósofos, se deram tanto trabalho vindo a um homem louco?" Quando eles lhe contestaram que não era louco, mas muito sábio, ele lhes disse: "Se vieram a um louco, seu incômodo não tem sentido; mas se pensam que sou sábio, então façam-se o que sou, porque se deve imitar o bom. Em verdade, se eu tivesse ido a vocês, tê-los-ia imitado; ao invés, agora que vieram a mim, convertam-se no que sou: eu sou cristão". Eles se foram, admirados; viram que até os demônios temiam a Antão.

73. Também outros da mesma classe foram a seu encontro na Montanha Exterior e pensaram que podiam zombar dele porque não tinha cultura. Antão lhes disse: "Bem, que dizem vocês: que é primeiro, o sentido ou a letra? E qual é a origem do outro: o sentido da letra ou a letra do sentido?" Quando eles expressaram que o sentido é primeiro e origem da letra, Antão disse: "Por isso, quem tem mente sã não necessita das letras" [74]. Isto os assombrou e a todos os circunstantes. Foram-se admirados de ver tal sabedoria num homem iletrado, que não tinha as maneiras grosseiras de quem viveu e envelheceu na montanha, mas era um homem simpático e cortês. Seu falar era sazonado com a sabedoria divina (cf Cl 4,6), de modo que ninguém lhe tinha má vontade, mas todos se alegravam de haver ido em sua procura.

74. E por certo, depois destes vieram outros. Eram daqueles que entre os pagãos têm reputação de sábios. Pediram-lhe que suscitasse uma controvérsia sobre nossa fé em Cristo. Quando procuravam argüir com sofismas a partir da pregação da divina Cruz, a fim de zombar, Antão guardou silêncio por um momento e, compadecendo-se primeiro da ignorância deles, disse logo por um intérprete que fazia excelente tradução de suas palavras: "Que é melhor: confessar a Cruz ou atribuir adultérios e pederastias aos assim chamados deuses? Pois manter o que mantemos é sinal de espírito viril e denota desprezo da morte, enquanto que o que vocês pretendem só fala de paixões desenfreadas. Outra vez, que é melhor: dizer que a Palavra de Deus imutável permaneceu a mesma ao tomar corpo humano para salvação e bem da humanidade de modo que ao compartilhar o nascimento humano pôde fazer os homens participantes da natureza divina e espiritual (cf 2 Pd 1,4), ou colocar o divino num mesmo nível que os seres insensíveis e adorar por isso a bestas e répteis e imagens de homens? Precisamente esses são os objetos adorados por seus homens sábios. Com que direito vêm rebaixar-nos porque afirmamos que Cristo apareceu como homem, sendo que vocês fazem provir a alma do céu, dizendo que se extraviou e caiu da abóbada do céu ao corpo? E, oxalá fosse só o corpo humano, e não que se mudasse e emigrasse no de bestas e serpentes! [75]. Nossa fé declara que Cristo veio para salvação das almas, e vocês erroneamente teorizam acerca de uma Alma incriada [76]. Cremos no poder da Providência e em seu amor pelos homens e em que essa vinda não era portanto impossível para Deus, mas vocês, chamando à alma imagem da Inteligência [77], imputam-lhe quedas e fabricam mitos sobre sua possibilidade de mudança [78]. Como conseqüência fazem mutável a mesma Inteligência por causa da alma; pois enquanto imagem deve ser aquilo de que é imagem. Se vocês, entretanto, pensam semelhantes coisas acerca da Inteligência, recordem-se de que blasfemam do Pai da Inteligência" [79].

75. Em referência à Cruz, que dizem vocês ser o melhor: suportar a Cruz, quando homens malvados lançam mão da traição, e não vacilar ante a morte de maneira ou forma alguma, ou fabricar fábulas sobre as andanças de Isis e Osiris [80], as conspirações de Tifon, a expulsão de Cronos [81], com seus filhos devorados e seus parricídios? [82]. Sim, aqui temos sua sabedoria!

E por que enquanto se riem da Cruz, não se maravilham da Ressurreição? Pois os mesmos que nos transmitiram um acontecimento escreveram também sobre o outro. Ou por que enquanto se lembram da Cruz, nada têm que dizer sobre os mortos devolvidos à vida, os cegos que recuperaram a vista, os paralíticos que foram curados e os leprosos que foram limpos, o caminhar sobre as águas e os outros sinais e milagres que mostram Cristo não como homem mas como Deus? Em todo caso, parece-me que vocês se enganam a si mesmos e que não têm nenhuma familiaridade real com nossas Escrituras. Leiam-nas, porém, e vejam que tudo quando Cristo fez prova que era Deus que habitava conosco para a salvação dos homens.

76. Mas falem-nos também vocês sobre seus próprios ensinamentos. Que podem, porém dizer acerca de coisas insensíveis senão insensatezes e barbaridades? Se entretanto, como ouço, querem dizer que entre vocês tais coisas se falam em sentido figurado [83], e assim convertem o rapto de Coré em alegoria da terra; a cólera de Hefestos, do sol, a Hera, do ar; a Apolo do sol; a Artemísia, da lua, e a Poseidon, do mar, ainda assim vocês não adoram o próprio Deus, mas servem à criatura em lugar de Deus que tudo criou. Se vocês compuseram tais histórias porque a criação é bela, não deveriam ter ido além de admirá-la, e não fazer das criaturas deuses para não dar às coisas criadas a honra do Criador [84]. Nesse caso já seria tempo de darem à casa construída a honra devida ao arquiteto, ou a honra devida ao general, aos soldados. Agora, que têm que dizer a tudo isto? Assim saberemos se a Cruz tem algo que sirva para escarnecer-se dela.

77. Eles estavam desconcertados e davam voltas ao assunto de uma e de outra forma. Antão sorriu e disse, de novo através de um intérprete [85]: "Só ao ver as coisas já se tem a prova de tudo o que eu disse. Dado, porém, que vocês, supõe-se, confiam absolutamente nas demonstrações, e isto é uma arte em que vocês são mestres, e já que exigem de nós não adorar a Deus sem argumentos demonstrativos, digam-me isto primeiro: Como se origina o conhecimento preciso das coisas, em especial o conhecimento de Deus? É por uma demonstração verbal ou por um ato de fé? E que vem primeiro: o ato de fé ou a demonstração verbal?" Quando replicaram que o ato de fé precede e que isto constitui um conhecimento exato, disse Antão: "Bem respondido! A fé surge da disposição da alma, enquanto a dialética vem da habilidade dos que a idealizam. De acordo com isto, os que possuem uma fé ativa não necessitam de argumentos de palavras, e provavelmente os reputam supérfluos; pois o que apreendemos pela fé, vocês cuidam construí-lo com argumentações e amiúde nem sequem podem exprimir o que nós percebemos. A conclusão é que uma fé ativa é melhor e mais forte de que seus argumentos sofísticos.

78. Os cristãos, por isso, possuímos o mistério, não baseando-nos na razão da sabedoria grega (cf 1 Cor 1,17), mas fundados no poder de uma fé que Deus nos garantiu por meio de Jesus Cristo. Pelo que toca à verdade da explicação dada, notem como nós, iletrados, cremos em Deus, reconhecendo sua Providência a partir de suas obras. E quanto a ser nossa fé algo de efetivo, notem que nos apoiamos em nossa fé em Cristo, enquanto vocês a baseiam em disputas ou palavras sofísticas; seus ídolos fantasmas estão passando de moda, mas nossa fé se difunde em toda parte. Com todos seus silogismos e sofismas vocês não convertem ninguém do cristianismo ao paganismo, mas nós, ensinando a fé em Cristo, estamos despojados os deuses do medo que inspiravam [86], de modo que todos reconhecem Cristo como Deus e Filho de Deus. Como toda sua elegante retórica, vocês não impedem o ensinamento de Cristo, mas nós, à simples menção do nome de Cristo crucificado, expulsamos os demônios que vocês veneram como deuses. Onde aparece o sinal da Cruz, ali a magia e a feitiçaria são impotentes e sem efeito.

79. Em verdade, digam-nos, onde ficaram seus oráculos? Onde os encantamentos dos egípcios? Onde estão suas ilusões e os fantasmas dos magos? Quando terminaram estas coisas e perderam seu significado? Não foi acaso quando chegou a Cruz de Cristo? Por isso, será ela que merece desprezo e não, antes, o que ela deitou abaixo, demonstrando sua impotência? Também é notável o fato de que jamais a religião de vocês foi perseguida; ao contrário, em todas as partes goza de honra entre os homens. mas os seguidores de Cristo são perseguidos, e sem embargo é a nossa causa que floresce e prevalece e não a sua. Com toda a tranqüilidade e proteção do que goza, sua religião está morrendo, enquanto a fé e o ensinamento de Cristo, desprezados pro vocês e freqüentemente perseguidos pelos governantes, encheram o mundo. Em que tempo resplandeceu tão brilhantemente o conhecimento de Deus? Ou em que tempo apareceram a continência e a virtude da virgindade? Ou quando foi tão desprezada a morte como quando chegou a Cruz de Cristo? E ninguém duvida disto ao ver os mártires que desprezam a morte por causa de Cristo, ou ao ver as virgens da Igreja que por causa de Cristo guardam seus corpos puros e sem mancha.

80. Estas provas bastam para demonstrar que a fé em Cristo é a única religião verdadeira. Aqui porém estão vocês, que buscam conclusões baseadas no raciocínio, vocês que não têm fé. Nós não buscamos provas, como diz nosso Mestre, 'com palavras persuasivas de sabedoria humana'(1 Cor, 2,4), mas persuadimos os homens pela fé que tangivelmente precede todo raciocínio baseado em argumentos. Vejam, aqui há alguns que são atormentados pelos demônios". Estes eram gente que tinham vindo para vê-lo e sofriam por causa dos demônios; fazendo-os adiantar-se, disse: "Pois bem, curem-nos com seus silogismos ou com qualquer magia que desejem, invocando a seus ídolos; ou então, se não podem , deixem de lutar contra nós e vejam o poder da Cruz de Cristo". Dito isto, invocou a Cristo e fez sobre os enfermos o sinal da Cruz, repetindo a ação por segunda e terceira vez. Imediatamente as pessoas se levantaram completamente sãs, tendo-lhes voltado o uso da razão e dando graças ao Senhor. Os assim chamados filósofos estavam assombrados e realmente atônitos pela sagacidade do homem e pelo milagre realizado. disse-lhes, porém, Antão: "Por que se maravilham com isto? Não somos nós, mas Cristo quem age através do que Nele crêem. Creiam vocês também e verão que não é palavreado e sim fé que pela caridade opera para Cristo (cf Gl 5,6); se vocês também abraçam isto, não necessitarão andar buscando argumentos da razão, mas verão que a fé em Cristo é suficiente." Assim falou a Antão. Quando partiram, admiraram-no, abraçaram-no e reconheceram que os havia ajudado.

7.5 - Os Imperadores escrevem a Antão

A fama de Antão chegou aos imperadores. Quando Constantino Augusto e seus filhos Constâncio Augusto e Constante Augusto ouviram estas coisas, escreviam-lhe como a um pai, rogando-lhe que lhe respondesse. Ele, no entanto, não deu muita importância aos documentos nem se alegrou pelas cartas; continuou o mesmo que antes de lhe escrever o imperador. Quando lhe levaram os documentos, chamou-os e disse: "Não se devem surpreender -se um imperador nos escreve, porque é homem; deveriam surpreender-se é de que Deus haja escrito a lei para a humanidade e nos tenha falado por meio de seu próprio Filho". Em verdade, nem queria receber as cartas, dizendo que não sabia que responder. Os monges, porém, persuadiram-no manifestando-lhe que os imperadores eram cristãos e que se ofenderiam de ser ignorados; então acedeu a que lhas lessem. E respondeu, recomendando-lhes que prestassem culto a Cristo e ando-lhes o saudável conselho de não apreciar demasiado as coisas deste mundo, mas antes recordando o juízo futuro, e saber que só Cristo é o Rei verdadeiro e eterno. Rogava-lhes que fossem humanos e atendessem à justiça e aos pobres. E eles ficaram felizes ao receber sua resposta. Por isso era amado por todos, e todos desejavam tê-lo como pai.

7.6 - Antão prediz os estragos da heresia ariana

Argumentando assim de si mesmo, e contestando assim aos que o buscavam, voltou à Montanha Interior. Continuou observando suas costumadas práticas ascéticas, e muitas vezes, quando estava sentado ou caminhando com visitantes, quedava-se mudo, como está escrito no livro de Daniel (cf 4,16 LXX). Depois de algum tempo, retomava o que estivera dizendo aos irmãos que o acompanhavam, e os presentes apercebiam-se de que havia tido uma visão; pois amiúde quando estava na montanha via coisas que aconteciam até no Egito, como o confessou ao bispo Serapião [87], quando este se encontrava na Montanha Interior e viu Antão em transe de visão.

Numa ocasião, por exemplo, enquanto estava sentado trabalhando tomou a aparência de alguém que estivesse em êxtase e se lamentava continuamente pelo que via. Depois de algum tempo voltou a si, lamentando-se e tremendo, e se pôs a orar prostrado, ficando longo tempo nessa posição. E quando se endireitou, o ancião estava chorando. Agitaram-se então os que estavam com ele, alarmaram-se muitíssimo, e lhe perguntaram o que se passava; urgiram-no por tanto tempo que o obrigaram a falar. Suspirando profundamente, disse: "O', filhos meus, seria melhor morrer antes que se sucedam as coisas que vi". Fazendo-lhe mais perguntas, disse entre lágrimas: "A ira está a ponto de golpear a Igreja, e ela está a ponto de ser entregue a homens que são como bestas insensíveis. Vi a mesa da casa do Senhor e havia mulas em torno, rodeando-a por todas as partes e dando coices com seus cascos em tudo e que havia nela, tal como o escoicear de uma tropa que golpeia desenfreada. Vocês ouviram seguramente como eu me lamentava; é que ouvi uma voz que dizia: "Meu altar será profanado".
Assim falou o ancião. E dois anos depois chegou o atual assalto dos arianos e o saque das igrejas [88], quando à força se apoderaram dos vasos e os fizeram levar pelos pagãos; quando também forçaram os pagãos de suas tendas para irem a suas reuniões, e em sua presença fizeram o que lhes aprouve sobre a sagrada mesa [89]. Todos então nos apercebemos que o escoucear de mulas predito por Antão, era o que os arianos estão fazendo como bestas brutas.

Quando teve esta visão, consolou a seus companheiros: "Não percam a coragem, meus filhos, pois ainda que o Senhor esteja irritado, nos restabelecerá depois. E a Igreja recobrará rapidamente a beleza que lhe é própria e resplandecerá com seus costumados esplendor. Verão restabelecidos os que foram perseguidos, e a irreligião retirando-se de novo a suas próprias guaridas, e a verdadeira fé afirmando-se em toda parte, em liberdade completa. Tenham porém, cuidado em não se deixarem manchar com os arianos. Seu ensinamento não é do apóstolos, mas dos demônios e de seu pai, o diabo. É estéril e irracional, e falta-lhe inteligência, tal como às mulas lhes falta o entendimento [90].

7.7 - Antão, Taumaturgo de Deus e Médico das almas

Tal é a história de Antão. Não deveríamos ser céticos por se terem sucedido esses grandes milagres por intermédio de um homem, pois tal é a promessa do Salvador: "Se tiverem fé ainda que seja como um grão de mostarda, dirão a este monte: 'Passa-te daqui para lá' e ele passará; nada lhes será impossível" (Mt 17,20). E também: "Em verdade lhes digo: tudo o que pedirem ao Pai em meu Nome Ele lhes dará... Peçam e receberão (Jo 16, 23s). É Ele quem diz a seus discípulos e a todos os que Nele crêem: "Curem os enfermos.... lancem fora os demônios; de graça o receberam, grátis devem dá-lo" (Mt 10,8).

84. Antão, pois, curava, não dando ordens mas orando e invocando o nome de Cristo, de modo que para todos era claro que não era ele quem atuava, mas o Senhor que mostrava seu amor pelos homens curando aos que sofriam, por intermédio de Antão. Este ocupava-se apenas da oração e da prática da ascese, e por esta razão levava sua vida na montanha, feliz na contemplação das coisas divinas, e pesaroso de que tantos o perturbassem e o forçassem a sair à Montanha Exterior.

Os juízes, por exemplo, rogavam-lhe que descesse da montanha já que para eles era impossível ir lá, devido ao grande número de gente envolta em pleitos. Pediram-lhe que fosse a eles para que pudessem vê-lo. Ele procurou livrar-se da viagem e rogou-lhes que o dispensassem de fazê-la. Eles no entanto insistiram, e mesmo mandaram-lhe réus com escolta de soldados, para que em consideração a eles se decidisse a descer. Sob tal pressão, e vendo-os lamentar-se, foi à Montanha Exterior. De novo, o incômodo que teve não foi em vão, pois ajudou a muitos e sua presença foi um verdadeiro benefício. Ajudou os juízes aconselhando-os a que dessem à justiça precedência sobre tudo o mais, que temessem a deus e que se recordassem de que "seriam julgados com a mesma medida com que julgassem" (Mt 7,2). Amava porém sua vida montanhesa acima de tudo.

85. Uma vez importunado por pessoas que necessitavam de ajuda, e solicitado pelo comandante militar que enviou mensageiros a pedir-lhe que descesse, foi e falou algumas palavras acerca da salvação e a favor dos necessitados, e logo apressou-se a ir embora. Quando o duque [91], como o denominavam, rogou-lhe que ficasse, respondeu que não podia passar mais tempo com eles e o satisfez com esta bela comparação: "Assim como um peixe morre quando fica algum tempo em terra seca, assim também os monges se perdem quando se tornam folgazões e passam muito tempo com vocês. Por isso, temos que voltar à montanha, como o peixe à água. De outro modo, se nos entretemos, podemos perder de vista a vida interior" [92]. O comandante, ao ouvir isto e muitas coisas mais, reconheceu admirado que era verdadeiramente servo de Deus, pois como poderia um homem ordinário ter uma inteligência tão extraordinária se não fosse amado por Deus?

86. Havia uma vez um comandante - Balácio era seu nome - que como partidário dos execráveis arianos perseguia duramente os cristãos. Em sua barbárie chegava até a espancar as virgens e desnudar e açoitar os monges. Antão enviou-lhe por isso uma carta dizendo-lhe o seguinte; "Vejo que o juízo de Deus se aproxima de ti; deixa pois de perseguir os cristãos para que não te surpreenda o juízo; agora está a ponto de cair sobre ti". Balácio entretanto pôs-se a rir, jogou a carta no chão e nela cuspiu; maltratou os mensageiros e ordenou-lhes que levassem a Antão a seguinte mensagem: "Vejo que estás muito preocupado pelos monges; virei também a ti". Não haviam passado cinco dias quando o juízo de Deus caiu sobre ele. Balácio e Nestório, prefeito do Egito, haviam saído para a primeira estação fora de Alexandria, chamada Chereu; ambos iam a cavalo. Os cavalos pertenciam a Balácio e eram os mais mansos que ele tinha. Ainda não haviam chegado, quando os cavalos, como costumam fazer, começaram a retrucar um contra o outro, e de repente o mais manso dos dois, cavalgado por Nestório, mordeu Balácio, lançou-o por terra e o atacou. Rasgou-lhe de tal modo o músculo com seus dentes, que tiveram de levá-lo de volta à cidade, onde morreu depois de três dias. Todos se admiraram de que se cumprisse tão rapidamente o que Antão predissera.

87 Assim se escarmentaram os duros. Quanto aos demais que recorriam a ele, suas íntimas e cordiais conversações faziam-nos esquecer imediatamente os litígios e os levavam a considerar felizes os que abandonavam a vida do mundo. De tal modo lutava pela causa dos ofendidos que se podia pensar ser ele mesmo e não outros a parte agravada. Tinha além disso tal dom para ajudar a todos, que muitos militares e homens de grande influência abandonavam sua vida onerosa e faziam-se monges. Numa palavra, era como se Deus houvesse dado um médico ao Egito. Quem recorreu a ele na dor sem voltar com alegria? Quem chegou chorando por seus mortos e não se libertou imediatamente de seu pesar? Houve alguém que chegasse com ira e não a transformasse em amizade? Quem pobre ou arruinado foi a ele, e ao vê-lo e ouvi-lo não desprezou a riqueza, sentindo-se consolado em sua pobreza? Que monge negligente não ganhou novo fervor ao visitá-lo? Que jovem, chegando à montanha e vendo Antão, não renunciou logo ao prazer, começando a amar a castidade? Quem se lhe acercou atormentado por um demônio e não foi liberto? Quem chegou com a alma torturada e não encontrou a paz do coração?

88. Era algo único, na prática ascética de Antão, ter ele, como já foi dito, o dom do discernimento dos espíritos. Reconhecia seus movimentos e sabia muito bem em que direção seu esforço e ataque levava cada um deles. Não só ele próprio não foi enganado, mas alentando a outros que eram fustigados em seus pensamentos, ensinou-lhes como resguardar-se de seus desígnios, descrevendo a debilidade e os ardis dos espíritos que praticavam a possessão. Assim cada um se ia como que ungido por ele [93] e cheio de confiança para a luta contra os desígnios do diabo e de seus demônios.

E quantas jovens que tinham pretendentes mas que viram Antão só de longe, e permaneceram virgens por Cristo! Muita gente chegava a ele de terras estranhas, e também eles recebiam ajuda como os demais, voltando como enviados em seu caminho por um pai. E em verdade, agora que já se foi, todos, com órfãos de pai, se consolam e se confortam só com sua recordação, guardando ao mesmo tempo com carinho suas palavras de admoestação e de conselho.

7.8 - Notas Bibliográficas

As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da "Vida".
E = versão latina de Evágrio.
[60] O dia era dividido em 12 horas de igual duração, mas dependia da estação do ano. A nona hora correspondia, segundo a época do ano, a nosso tempo entre as 13 e as 15 horas. Esta era a hora normal entre os anacoretas coptas para tomar seu alimento. Só durante o tempo pascal comiam à hora sexta, isto é, ao meio dia. No tempo da Quaresma o jejum se prolongava, para os que comiam, até depois de Vésperas. Aconselhava-se os monges a comer todos os dias o mesmo alimento e à mesma hora. COLOMBAS 81.
[61] Dentro do paralelo entre o martírio e a vida monástica (ver nota 45), destaca o seguinte: a morte do mártir, isto é, o ato pelo qual consumava a oferenda de sua vida a Deus, foi concebida como segundo batismo (em alguns casos, como o dos catecúmenos mártires, como o único batismo). Do mesmo modo, o ato do oferecimento irrevogável de um monge a Deus, isto é, sua profissão monástica, foi considerado também como segundo batismo. O ritual da profissão adota também alguns elementos do rito batismal. Isto chega a ponto de alguns Padres sustentarem para a profissão monástica os mesmos efeitos que os do batismo, como se vê na "Vida". Cf S. JERÔNIMO, Ep 25,2; Ep 8; S. BERNARDO, "Lib. de Praec. et Disp. 17,54 (BAC 130,817). Cf também S. TOMÁS, 2-2, q.189, a. 3 ad 3. Cf também o apoftegma anônimo que identifica o poder de Deus no batismo e na tomada de hábito: PL 73, 994B Guy 402; Dion 268. E.E. MALONE. o.c. 211; H. ROSWEYDE PL 73, 182A-D.
[62] Nestes dois cc. 65-66 aparecem as duas mais famosas visões de Santo Antão (cf também 60,1). Em ambas trata-se de uma contemplação da alma. Na primeira, que se produz num êxtase durante sua oração, contempla-se o estado da alma em oração. Na segunda, o estado da alma depois da morte. No fundo ambas supõem a mesma concepção sobre o ambiente e função dos demônios e identificam o estado de oração mística a posse definitiva da visão beatífica. Aquele é a antecipação terrena desta, por certo provisória, mas sujeita às mesmas dificuldades em sua consecução. Também a alma, em sua ascensão às alturas da contemplação divina, deve passar pela esfera de domínio dos demônios. Só se é pura pode conseguir a união com Deus na oração perfeita. E. T. BETTENCOURT oc. 57.
[63] O esforço da antiguidade por conceber a alma como algo espiritual, ou ao menos como algo imaterial ou quase imaterial, tem uma boa ilustração em suas representações na arte, especialmente em jazigos, monumentos ou ícones. Os intentos de representá-la como um pequeno ser, idêntico em todo caso, ao homem defunto, ao qual, freqüentemente se pinta com asas, documentam este esforço e a concepção de seu vôo do corpo no momento da morte. Era igualmente concepção geral, tanto pagã como cristã, que, ao chegar a morte, é perseguida por graves perigos, representados por dragões e outras bestas demoníacas. Cristo muitas vezes aparece como "pxycopompós", isto é, guia e protetor das almas. MEYER 125-126.
[64] Sobre o ar como ambiente dos demônios, ver nota (32). Que os demônios do ar procuram impedir a ascensão das almas ao céu, é conceito que aparece no s. II. É de notar neste sentido a "Passio Perpetuae" (IV,3-4), onde o tema de monstro aparece em sua primeira forma. O rasgo da função "aduaneira" dos demônios encontra-se já em Orígenes, Hm in Lc 23, PG 13, 1861 D; o demônio é comparado a um arrecadador de impostos que examina dívidas pendentes. Essa idéia vai ser retomada e explicitada pelos Padres posteriores, e é também a concepção da "Vida". O ponto em que esta insiste particularmente é que o ar é o domínio demoníaco em que semelhante exame se realiza. Como algumas almas são retidas, o ar vem a ser também o lugar de seu castigo ou purificação. Pois bem, uma parte das almas conseguem escapar desse controle. Ainda que o tema de Cristo como aquele que abriu caminho do céu não apareça na "Vida", faz parte do mesmo contexto conceptual. J. DANIELOU, Les démons de l'air... 140-147.
[65] O movimento monástico é fundamentalmente um movimento leigo. Na época de Santo Atanásio eram pouquíssimos os monges que estavam em algum grau de hierarquia eclesiástica. No entanto, em muitas das colônias de anacoretas o sacerdote da igreja central parece haver gozado de certa autoridade. A existência de monges clérigos explica-se por uma dupla razão: de um lado, havia clérigos que se tornavam monges; de outro, a necessidade de contar com sacerdotes para as celebrações litúrgicas obrigou os monges a providenciar a ordenação de alguns dentre eles para o serviço pastoral. De qualquer modo ainda era isto excepcional no monaquismo primitivo; de fato, São Pacômio preferia ir à igreja paroquial ou convidar um sacerdote secular a celebrar no mosteiro, em lugar de deixar seus monges ordenarem-se. Não se deve ver nisto um desprezo pelo ministério sacerdotal, mas o temor de perder o valor próprio de sua vida ascética pelas responsabilidades pastorais de uma vida sacerdotal conseqüente. Santo Atanásio mesmo preocupou-se em dissipar alguns escrúpulos em monges aos quais desejava confiar o episcopado; indiretamente reprova o querer desprezar o estado clerical como inferior em perfeição ao monástico; cf Ep. ad Drac. 9. COLOMBAS 52; 58; 111. Um Sínodo de Saragoça em 380, contra os priscilianistas, prescreve que um clérigo que se faça monge por orgulho, supondo ser esta uma observância melhor da Lei, deve ser excomungado. MEYER 126. A insistência de Santo Atanásio ao apresentar esse rasgo edificante de Santo Antão é alusão indubitável à existência real de um certo menosprezo pelos clérigos nos ambientes monásticos que conheceu ou freqüentou. Isto vai ser um ponto de atrito constante ao longo da história da Igreja, com as disputas medievais entre seculares e regulares, até as modernas discussões sobre o sacerdócio dos monges e sobre o valor da vida retirada. É interessante notar que nas controvérsias que nos séculos XI-XII se opuseram beneditinos e cônegos regulares, Santo Antão foi invocado por ambos os lados. J. LECLERCQ, S. Antoine dans la tradition monastique médévale, Stud. Ans. 38 (1956) 239.
[66] Ainda que a "Vida" não utilize a palavra "apátheia", o estado aqui descrito de perfeito controle de si mesmo, de estabilidade, de libertação de toda paixão, corresponde a ela. A alma purificada chegou, pois, ao que sempre constituiu o ideal de todo asceta: junto à estabilidade moral mantêm-se a pureza e a vida da alma conforme a sua natureza. O homem que conseguiu este alto grau de perfeição, está livre de distrações deste mundo e dos ataques do demônio, e pode então dedicar-se por completo à contemplação das coisas divinas. Nada o perturba mais, nem é arrojado de um para outro lado por seus desejos ou inquietudes. Daí, tudo o que perturba sua alma ou a despoje do equilíbrio alcançado, é mau; é bom tudo o que favoreça a estabilidade alcançada. CASSIANO, Coll. 9.2.1 denominará este estado: imóvel tranqüilidade da alma. Esta expressão é a versão latina da "apátheia", conceito essencial da filo estóica, e que passou à linguagem espiritual cristã através dos alexandrinos Clemente e Evágrio Pôntico, se bem que eliminando em parte a negação do humano que ela comporta. Para o cristão, Cristo aparece como o verdadeiro "apathés". Santo Antão aparece, pois, imperturbável em sua alma, levado entretanto por um imenso amor a Deus e a seus irmãos, cuja vida e sofrimento não lhe são indiferentes. LORIE 108-126.
[67] Assim chamados segundo Melécio, bispo de Licópolis no Egito (c. 325). Não se devem confundir com o bispo homônimo de Antioquia e seu cisma, meio século mais tarde. No princípio da perseguição de Décio, a partir de 306 enfrentam-se Melécio e Pedro de Alexandria, o futuro mártir, então encarcerado. Melécio propugna uma atitude severa com os "lapsi" ou cristãos apóstatas da perseguição. Deportado, em seu regresso organizam no Egito uma hierarquia cismática. Posteriormente o Concílio de Nicéia tomou medidas contra ele. Esses melecianos uniram-se aos arianos, destacando em sua luta contra Santo Atanásio. J. DANIELOU, Nova Hist. da Igrej. t.1.
[68] Uma velha heresia gnóstica, assim chamada por seu fundador Mani (aproximadamente entre 216 e 275). Está vinculado ao sincretismo religioso que caracterizou o período do parto. Mani, primeiro batista mandou, entra posteriormente em contato com diversas formas religiosas; cristianismo, budismo, religiões helenistas, zoroastrismo, e de todas elas toma elementos para sua nova religião. Ela vai ter extensão universal, da China até a África do Norte (que teve entre seus membros também a Santo Agostinho na primeiro época de sua vida), e se vai prolongar até a Idade Média, J. DANIELOU, Nova Hist. da Igr..t.1.
[69] É a grande heresia do séc. IV. Toma seu nome de Ario, líbio, nascido na segunda metade do séc. III, e era presbítero de Alexandria. Talvez tenha pertencido ao cisma meleciano (ver nota 67). Até 318 opõe-se violentamente a seu bispo, Alexandre de Alexandria num ponto da teologia trinitária: defende o subordinacianismo ontológico do Verbo. A controvérsia ariana, que comoveu toda a cristandade e que alcançou por vezes contornos violentíssimos, ocupou toda a vida de Santo Atanásio, desde quando diácono de Alexandria. J. DANIELOU, Nova Hist. d Igr., t.1.
[70] Aqui a palavra "irmãos" parece antes significar "cristãos". Assim a fórmula "os bispos e todos os irmãos" abarca toda a comunidade cristã. LORIE, 36. Cf nota (1).
[71] E (PL 73, 157C) acrescenta: Não se pode exprimir quanto serviu a pregação deste grande homem para fortalecer a fé do povo.
[72] "Varão de Deus", "Homem de Deus". Título dado já pela Escritura a certos homens escolhidos por Deus, que se distinguiram por sua palavra de seus altos feitos (especialmente Moisés e os profetas; cf At 7,22). Santo Atanásio apresenta Santo Antão segundo o esquema típico já existente do "Homem de Deus" bíblico além de algumas conotações do "Homem divino" helenista. Este esquema já é reconhecível no ideal de perfeição de Clemente e Orígenes. De todo modo, Santo Antão é apresentado, como o "Homem de Deus" exemplar. Dos diversos matizes, destacam o asceta e lutador contra os demônios, amigo de Deus; outros ficam menos sublinhados como o taumaturgo ou o profeta. Finalmente, toda a vida e ação deste "Homem de Deus" é guiada e mantida pela fé em Jesus Cristo, o Deus feito homem. B. STEIDLE, o.c. 148-200.
[73] Literalmente: "não tendo aprendido as letras". Será esta uma afirmação realmente histórica? Alguns autores (L.v. HERTLING, MEYER) pensam que isto só significa que não recebeu a formação retórica e humanística que teria sido usual numa família abastada como a de Antão. COLOMBAS pensa que este traço (cf também 1,1; 73,1) é reflexo de um propósito de Santo Atanásio: provar que não são as letras mas a virtude o que aproxima de Deus, e que a profunda sabedoria de Santo Antão não era devida a sua formação humana mas à ilustração divina. COLOMBAS, 63.
[74] CASSIANO, Inst. 5,33ss. traz algo semelhante de apa Teodoro: "Uma vez, procurando esclarecer uma questão muito obscura, persistiu infatigável na oração sete dias e sete noites consecutivas, sem cessar em seu empenho, até que mereceu conhecer, por uma revelação divina, a solução desejada". O monge que suspira por conhecer a fundo as divinas Escrituras não deve preocupar-se demasiado em folhear comentários, mas dirigir sobretudo o cuidado de seu espírito e o ardor de seu coração em purificar-se de seus vícios e pecados". (Trad. de L. M. SANSEGUNDO, Ed. Rialp, Madri, 1957, 216-217)
[75] Aqui se notam dois elementos bem conhecidos da psicologia antiga: a preexistência e a metempsicose da alma. No âmbito grego esta crença é própria sobretudo do orfismo, de Pitágoras, Platão, os gnósticos e o neoplatonismo. MEYER, 130.
[76] É a "Psykhé", "alma do mundo", "alma do todo", "alma cósmica", "terceiro da Tríade de Princípios Divinos de Plotino, da qual emanam as almas individuais.
[77] É o "Nous", segundo da Tríade plotiniana.
[78] Em verdade, na doutrina plotiniana, o princípio emanantista permite a identificação da Alma e as almas só até certo limite.
[79] É o primeiro princípio da Tríade de Plotino, chamado também "Uno", "Absoluto".
[80] São as divindades tutelares do Egito, cujo culto se estendera também entre gregos e romanos. Alude-se à demorada busca que Isis deve empreender do corpo de seu esposo Osiris, assassinado e posteriormente esquartejado por seu irmão Tifón. MEYER, 132.
[81] Kronos (o Saturno dos romanos). O mais jovem dos titãs, filho de Gea e de Urano, a quem despojou do governo do universo. Casado com sua irmã Rea, com ela reinou sobre o mundo. Segundo um oráculo, seria destronado por um de seus filhos; para evitá-lo, devorava-os logo ao nascer. Por uma astúcia de sua mãe Rea, pôde salvar-se Zeus que, chegando à idade adulta, declarou guerra aos titãs e a seu pai, vencendo-os a todos.
[82] E (PL 73, 159C) acrescenta: Envergonhem-se do parricidio e do incesto de Júpiter; envergonhem-se de seus coitos com mulheres e rapazes. Ele, como cantam seus poetas, no cume e no furor de sua espantosa luxúria soltava prazenteiros gemidos. Arrojou-se no seio de Dánae, como amante e como preço. Com asas harmoniosas buscou os abraços de Leda. Encarniçando-se com seu próprio sexo, em má hora manchou a honra do filho do rei.
[83] A utilização da alegoria aparecia aos cristãos como o último e desesperado esforço por defender o panteão pagão contra burlões e incrédulos. Daí a freqüente crítica dos primitivos escritores cristãos contra a alegoria como racionalização de antigos mitos. MEYER, 132.
[84] "Demiurgós", isto é, artesão. Na linguagem filosófico-pagã costuma-se usar a palavra para o Criador do universo. No N.T. acha-se em Hb 11,10. A literatura cristã usou o termo também para o demônio, como autor do mal. Mas seu uso era preferentemente aplicado a Deus Criador. LAMPE, 342.
[85] E (PL 73, 160C) acrescenta: muito duro parece isto para todo trabalho, já que depois que alguém tudo fez convenientemente, dá-se o mérito do trabalho mais ao feito do que ao que o fez.
[86] "Deisidaimonia"; para os pagãos significava normalmente "respeito devido aos deuses", "religião"; para os cristãos significava "superstição, falsa religião". Cf também At 17,22. LAMPE, 335; MEYER, 133.
[87] São Serapião (cf também 91,11) foi superior de uma colônia de anacoretas antes de chegar a ser bispo de Thmuis no Baixo Egito. Segundo os testemunhos dos historiadores cristãos, foi homem de grande santidade e saber. S. JERÔNIMO, em seu De vir. ill., 99, atribui-lhe o sobrenome de "Scholasticus", e diz ue escreveu um tratado contra os maniques, um sobre os títulos dos samos e várias cartas. Em PG 40 conservam-se uma carta a Eudóxio e outra aos monges, além dos fragmentos de seu trabalho contra os maniques. A obra mais conhecida que se lhe atribui é o "Eucológio" ou Sacramentário: é uma coleção de trinta orações litúrgicas de grande importância para a história da liturgia cristã antiga. Sendo amigo de Santo Atanásio, viu-se envolvido na controvérsia ariana, foi também expulso de sua sede episcopal. Morreu em 362. H. ROSWEYDE, PL 73, 186D) MEYER, 134. LAMPE, XXXIX.
[88] Ao dizer a "Vida": "o atual assalto", parece indicar que estes sucessos ocorriam quando Santo Atanásio escrevia o livro. Ademais, na "Apologia de sua fuga", descreve, talvez com algo de hipérbole, as crueldade e excessos dos arianos.
[89] E (PL 73, 163B) acrescenta: Então, conseguindo operário pagãos como escolta e levando palmas (sinal idolátrico em Alexandria), obrigaram os cristãos a irem à igreja, para que fossem tomados como arianos. Que horror! O ânimo não se atreve a contar o que se passou. Virgens e damas foram violadas. Verteu-se o sangue das ovelhas de Cristo, e com ele borrifaram os veneráveis altares. O batistério foi profanado à vontade pelos pagãos.
[90] Esta comparação dos arianos com as mulas é característica da linguagem da época, e reflete o conceito que Santo Atanásio tinha dos hereges.
[91] "Doux", do latim "dux". Era o título do comandante militar de uma ou várias províncias. Esse ofício foi criado pelo imperador Diocleciano, ao separar os poderes civis e militares, debilitando assim a autoridade dos prefeitos que até então exerciam ambos os poderes. LAMPE, 385; MEYER, 135.
[92] Apoftegmas dos Padres, Antão, 10: Guy, 21. Dion, 31; PL 73, 858A.
[93] Metáfora tomada da unção dos atletas nos jogos desportivos de gregos e romanos. MEYER, 135.

8. Parte VII - Final

8.1 - Morte de Antão

Este é o lugar para que eu lhes conte e vocês ouçam, já que desejosos disto, como foi o fim de sua vida, pois também nisto foi modelo digno de imitação.

Segundo seu costume, visitava os monges na Montanha Exterior. Recebendo, da Providência, um premonição de sua morte, falou aos irmãos: "Esta é a última visita que lhes faço e me admiraria se nos voltássemos a ver nesta vida. Já é tempo de morrer, pois tenho quase cento e cinco anos". Ao ouvir isto, puseram-se a chorar, abraçando e beijando o ancião. Ele porém, como se tivesse de partir de uma cidade estranha à sua própria, continuou falando alegremente. Exortava-os a "não se relaxarem em seus esforços nem a se desalentarem na prática da vida ascética, mas a viver como se tivessem de morrer cada dia e, como disse antes, a trabalhar duramente a fim de guardar a alma limpa de pensamentos impuros, e a imitar os homens santos. Não se aproximem dos cismáticos melecianos, pois já conhecem seu ensinamento ímpio e perverso. Não se metam para nada com os arianos, pois sua irreligião é clara para todos. E se vêem que os juízes os apóiam, não se deixem confundir: isto se acabará, é um fenômeno mortal, destinado a seu fim em pouco tempo. Por isso, mantenham-se limpos de tudo isto e observem a tradição dos Padres e, sobretudo, a fé ortodoxa em nosso Senhor Jesus Cristo, como aprenderam das Escrituras e eu tão freqüentemente o recordei."

90. Quando os irmãos instaram pra que ficasse com eles, até morrer, ali, recusou-se a isto por muitas razões, segundo disse, embora sem indicar nenhuma. Especialmente era por isto: os egípcios têm o costume de honrar com ritos funerários e envolver em sudários de linho os corpos dos homens santos e particularmente dos santos mártires; mas não os enterram: colocam-nos sobre divãs e os guardam em suas casas, pensando honrar o defunto deste modo [94]. Antão pediu muitas vezes inclusive aos bispos que dessem instruções ao povo sobre esse assunto. Ao mesmo tempo envergonhou os leigos e reprovou as mulheres, dizendo que "isto não era correto nem reverente, em absoluto. Os corpos dos patriarcas e dos profetas se guardam em túmulos até estes dias; e o corpo do Senhor também foi depositado num túmulo e puseram uma pedra sobre ele (Mt 27,60) até que ressuscitou ao terceiro dia". Ao expor assim as coisas, demonstrava que cometiam erro e que não dava sepultura aos corpos dos defuntos, por santos que fossem. E em verdade, quem maior ou mais santo que o corpo do Senhor? Como resultado, muitos que o ouviram começaram desde então a sepultar seus mortos [95], e deram graças ao Senhor pelo bom ensinamento recebido.

91. Sabendo disto, Antão teve medo de que fizessem o mesmo com seu próprio corpo. Por isso, despedindo-se dos monges da Montanha Exterior, apressou-se para a Montanha Interior, onde costumava viver. Depois de poucos meses, caiu doente. Chamou os que o acompanhavam - havia dois que levavam vida ascética havia quinze anos e se preocupavam com ele devido a sua idade avançada - [96], e lhes disse: "Vou-me pelo caminho de meus pais", como diz a Escritura (cf 1 Rs 2,2; Jos 23,14), pois me vejo chamado pelo Senhor. Quanto a vocês, estejam vigilantes e não façam tábula rasa da vida ascética que tanto tempo praticaram. Esforcem-se por manter seu entusiasmo como se estivessem começando agora. Já conhecem os demônios e seus desígnios; conhecem também sua fúria e também sua incapacidade. Assim, pois, não os temam; deixem antes que Cristo seja o alento de sua vida e ponham nele sua confiança. Vivam como se cada dia tivessem de morrer, fazendo atenção a si mesmos e recordando tudo o que ouviram de mim. Não tenham nenhuma comunhão com os cismáticos e absolutamente nada com os hereges arianos. Sabem como eu mesmo me guardei deles devido à sua pertinaz heresia contra Cristo. Sejam ansiosos em manifestar sua lealdade primeiro a Cristo e depois a seus santos, 'para que depois de sua morte eles os recebam nas moradas eternas' (Lc 16,9), como a amigos familiares. Gravem este pensamento, tenham-no como propósito. Se vocês realmente se preocupam comigo e me consideram como pai, não permitam que ninguém leve meu corpo para o Egito, não aconteça que me guardem em suas casas. Foi esta a razão que me trouxe para cá, à montanha. Sabem como sempre confundi os que fazem isto e os intimei a deixar tal costume. Por isso, façam-me vocês mesmos os funerais e sepultem meu corpo na terra, e respeitem de tal modo o que lhes disse, que ninguém senão vocês saiba o lugar. Na ressurreição dos mortos, o Salvador me devolverá incorruptível. Distribuam minha roupa. Ao bispo Atanásio dêem uma túnica e o manto em que estou, e que ele mesmo me deu, mas que se gastou em meu poder; ao bispo Serapião dêem a outra túnica, e vocês podem ficar com a camisa de pelo (47,2). E agora, meus filhos, Deus os abençoe. Antão parte e não está mais com vocês.

92. Depois de dizer isto e de que eles o houvessem beijado, estendeu os pés, seus rosto estava transfigurado de alegria e seus olhos brilhavam de regozijo como se visse amigos vindo a seu encontro; e assim faleceu e foi reunir-se a seus pais [97]. Eles então, seguindo as ordens que lhes havia dado, prepararam e envolveram o corpo e o sepultaram aí na terra. E até o dia de hoje ninguém, exceto esses dois, sabe onde está sepultado [98]. Quanto aos que receberam as túnicas e o manto usados pelo bem-aventurado Antão, cada um guarda seu presente como grande tesouro. Olhá-los é ver Antão e pô-los é como revestir-se de suas exortações com alegria.

93. Este foi o fim da vida de Antão no corpo, como antes tivemos o começo de sua vida ascética. E ainda que seja um pobre relato comparado com a virtude do homem, recebam-no, entretanto, e reflitam que classe de homem foi Antão; o varão de Deus. Desde sua juventude até uma idade tão avançada conservou uma devoção inalterável à vida ascética. Nunca tomou a velhice como desculpa para ceder ao desejo de abundante alimentação, nem mudou sua forma de vestir, pela debilidade de seu corpo, nem tampouco lavou seus pés com água. E no entanto sua saúde se manteve totalmente sem prejuízo - Por exemplo, mesmo seus olhos eram perfeitamente normais, de modo que sua vista era excelente; não havia perdido nem um só dente; só se haviam gasto até as gengivas pela grande idade do ancião. Manteve mãos e pés sãos, e em tudo aparecia com melhores cores e mais fortes do que os que têm uma dieta diversificada, banhos e variedade de roupas.

O fato de chegar a ser famoso em todas as partes, de ter encontrado admiração universal e de que sua perda foi sentida por pessoas que nunca o viram, sublinha sua virtude e o amor que Deus lhe tinha. Antão ganhou renome, não por seus escritos nem por sabedoria de palavras nem por nenhuma outra coisa, senão só por seu serviço a Deus.

E ninguém pode negar que isto é dom de Deus. Como explicar, efetivamente, que este homem, que viveu escondido em uma montanha, fosse conhecido em Espanha e Gália, em Roma e África, senão por Deus, que em toda parte faz conhecidos os seus, que, mais ainda, havia dito isto a Antão em seus começos [99]. Pois ainda que façam suas obras em segredo e desejem permanecer na obscuridade, o Senhor os mostra publicamente como lâmpadas a todos os homens (Mt 5,16), e assim, os que ouvem falar deles podem aperceber-se de que os mandamentos levam à perfeição, e então se encorajam pela senda que conduz à virtude.

8.2 - Epílogo

94. Agora, pois, leiam isto aos demais irmãos, para que também eles aprendam como deve ser a vida dos monges, e se convençam de que nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo glorifica aos que o glorificam. Ele não só conduz ao Reino dos Céus os que o servem até o fim, mas, ainda que se escondam e façam o possível por viver fora do mundo, faz com que em toda parte sejam conhecidos e se fale deles, por sua própria santidade e pela ajuda que dão a outros. Se a ocasião se apresenta, leiam-no também aos pagãos, para que ao menos deste modo possam aprender que nosso Senhor Jesus Cristo é Deus e Filho de Deus, e que os cristãos, que o servem fielmente e mantêm sua fé ortodoxa nele, demonstram que os demônios, considerados deuses pelos pagãos, não o são, mas antes os calcam aos pés e afugentam pelo que são: enganadores e corruptores de homens.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem seja dada a glória pelos séculos. Amém.

8.3 - Notas Bibliográficas

As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da "Vida".
E = versão latina de Evágrio.
As obras citadas só com nome de autor são as indicadas na bibliografia (no fim destas notas). Os números sem maior indicação referem-se aos capítulos e parágrafos da "Vida".
E = versão latina de Evágrio.
[94] Desde os primeiros dias da Igreja teve-se o costume de honrar os corpos dos mártires e dos homens santos. É provável que Santo Atanásio e Santo Antão impugnem não o fato de honrá-los, mas de que se guardem os corpos nas casas em vez de sepultá-los como havia sido sempre o costume cristão. Em todo o caso, que a mesma honra fosse dada aos mártires e aos homens santos demonstra mais uma vez que a vida ascética havia tomado todos os paralelos do martírio. E.E. MALONE e.c. 216,s.
[95] Na medida em que o cristianismo, com sua visão espiritualizada da vida para além da morte, foi penetrando os costumes egípcios, foram diminuindo o embalsamamento e a mumificação, práticas associadas à crença na necessária participação do corpo na outra vida.
[96] A tradição identificou estes monges como sendo Amatas e Macário (PALADIO em sua "História Lausíaca"), ou Isaac e Pelusiano (Vida de Santo Hilarião. H. ROSWEYDE, Pl 73, 192B).
[97] E (PL 73, 167C) acrescenta: "Pela alegria de seu rosto se podia conhecer a presença dos santos anjos que haviam descido para conduzir sua alma". A aparição dos anjos na morte de um santo homem é traço típico nas "Vidas" posteriores. É igualmente frequente o resplendor ou a alegria no rosto do agonizante. E. STEIDLE, o.c. 173.
[98] A tumba foi descoberta em 561, o seu corpo trasladado a Alexandria. Quando os sarracenos dominaram o Egito em 635, os restos foram levados a Constantinopla. Dali foram trasladados à França em fins do século X, e desde 1491 se guardam na igreja de São Julião de Arles (Lexikon f. Theol. u. Kirche, 3a.ed. 1957, 667. COLOMBAS, 62, não parece compartilhar esta opinião. Sobre o dado do texto, cf Deut 34,6.
[99] Também estes detalhes correspondem aos da vida de Moisés; cf Deut 43,7. Cf também B. STEIDLE, o.c. 159ss.

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