sábado, 26 de novembro de 2011

Espelho da Perfeição - Capítulos LI a LX.






Capítulo 51. Como os frades daquele tempo se reconciliavam, quando um perturbava o outro.

1 Afirmava que, nestes últimos tempos, os frades menores foram enviados (cf. Jd 18; Jo 1,6) pelo Senhor para darem exemplos de luz aos envolvidos pela treva dos pecados. 2 Dizia.que se impregnava de suavíssimos perfumes (cf. Ex 29,18; Jo 12,3) e se ungia da força de um óleo precioso (cf. Mt 26,7), quando ouvia as maravilhas (cf. At 2,11) realiza­das pelos santos frades espalhados pelo mundo.

3 Uma vez, aconteceu que um frade lançou palavras (cf. Jó 18,2) injuriosas contra outro frade, na presença de um nobre da ilha de Chipre. Quando percebeu que, por isso, seu irmão ficara um pouco ofendido, levado pelo desejo de punir-se, imediatamen­te apanhou esterco de asno, 4 colocou-o na boca e mordeu-o com os dentes, dizendo: “Mastigue esterco a língua que derramou o veneno (cf. Pr 23,32) da raiva no meu irmão !” 5 Vendo isso, o ho­mem, atônito de espanto, foi embora edificado e, desde então, colocou tudo que era seu à disposição dos frades.

6 Porque todos os frades tinham o costume de, se algum deles dirigisse uma palavra injuriosa ou perturbadora ao outros, lançava-se imediatamente por terra (cf. 2Mc 10,4), beijava o pé do irmão ofendido e humildemente pedia perdão. 7 O santo pai ficava exultante com essas coisas, quando ouvia que .seus filhos tiravam exemplos de santidade de si mesmos e cumulava de bênçãos dignas de toda a aceitação (cf. 1Tm 1,15). os frades que, por palavras ou por obras (cf. Cl 3,17), induziam os pecadores ao amor de Cristo; 8 pois, estando ele próprio perfeitamente repleto de zelo (cf. At 5,17) pelas almas, queria que seus filhos fossem verdadeiramen­te semelhantes a ele.



Capítulo 52. Como Cristo se queixou a Frei Leão, companheiro do bem-aventurado Francisco, por causa da ingratidão e da soberba dos frades.

1 Uma vez, o Senhor Jesus Cristo disse a Frei Leão, compa­nheiro do bem-aventurado Francisco: “Frei Leão, tenho queixas contra os fra­des”. Perguntou-lhe Frei Leão: “Por que motivo, Senhor?” 2 E o Senhor disse: “Por três: porque não reconhecem meus be­nefícios que, tão pródiga e abundantemente derramo sobre eles, pois, como sabes, não semeiam nem ceifam (cf. Lc 12,24); 3 por­que murmuram o dia todo e estão ociosos (cf. Mt 20,6); e porque, com freqüência, provocam a ira um do outro, não voltam ao amor e não perdoam a injúria que recebem”.

Capítulo 53. Como humilde e sabiamente respondeu a um dou­tor da Ordem dos Pregadores que o interrogou sobre uma pala­vra da Escritura.

1 Durante sua permanência em Sena, veio a ele um doutor em Teologia, da Ordem dos Pregadores, um homem realmente hu­milde e muito espiritual. 2 Tendo conversado com o bem-aventurado Francisco sobre as palavras do Senhor, o referido mestre interrogou~o sobre a palavra de Ezequiel: “Se não falares ao ímpio de sua impiedade, pedirei contas a ti (cf. Ez 3,18) de sua alma”. 3 Disse: “Bom pai, conheço muitos que estão em pecado mortal, aos quais não anuncio a sua impiedade: deverei eu prestar conta da alma (cf. Ez 3,18) deles?”

4 O bem-aventurado Francisco disse humildemente que era iletrado e, por isso, era-lhe mais conveniente ser instruído por ele do que respon­der sobre a sentença da Escritura. 5 Então, o humilde mestre acres­centou: “Irmão, embora tenha ouvido de vários sábios a explica­ção dessa palavra, de boa vontade receberia tua opinião sobre ela”. 6 Então, o bem-aventurado Francisco respondeu: “Se a palavra deve ver entendi­da de modo geral, eu a compreendo assim: o servo de Deus deve arder e refulgir por sua vida e santidade de forma que, pela luz do exemplo e pela linguagem de um santo comportamento (cf. 1Tm 4,12), repreenda todos os ímpios. 7 Assim eu digo que o esplendor de sua vida e o perfume da própria fama anunciará a todos as suas iniqüidades” (cf. Ez 3,19).

8 O doutor ficou muito edificado e, quando ia embora, disse aos companheiros de São Francisco: “Meus irmãos, a teologia deste homem, apoiada na pureza e na contemplação, é uma águia que voa (cf. Jó 9,26); nossa ciência, em vez, arrasta o ventre pela ter­ra” (cf. Gn 1,20.22; 3,14).

Capítulo 54. A humildade e a paz com os clérigos.

1 Embora São Francisco quisesse que seus filhos vivessem em paz com todos os homens (cf. Rm 12,18) e se mostrassem peque­nos diante de todos, no entanto, ensinou-lhes com a palavra e mos­trou pelo exemplo a serem humildes sobretudo com os clérigos.

2 Com efeito, dizia: “Somos enviados como ajuda (cf. Sl 69,2; Dn 10,13) aos clérigos para a salvação das almas (cf. 1Pd 1,9), de forma que, se algo faltar neles, seja suprido por nós. 3 pO­rém, cada um receberá a recompensa conforme o trabalho (cf. 1Cor 3,8), não conforme a autoridade. 4 Irmãos, sabei que é muito do agrado de Deus a conquista das almas, e isso podemos conse­gui-lo melhor em paz com os clérigos do que com a discórdia. 5 Mas, se eles impedem a salvação das pessoas, a Deus cabe a vin­gança e ele lhes retribuirá no momento oportuno (cf. Dt 32,25). Por isso, sede submissos (cf. 1Pd 2,13) aos prelados, a fim de que, dependendo de vocês (cf. Rm 12,18), não surja um mau zelo. 6 Se fordes filhos da paz (cf. Lc 10,6), ganhareis o clero e o povo e isso é mais agradável a Deus (cf 1Pd 2,5) do que ganhar somente o povo, deixando o clero escandalizado. 7 Cobri suas fal­tas e supri seus muitos defeitos e, quando tiverdes feito isto (cf. Lc 17,10), sede ainda mais humildes”.

Capítulo 55. Com que humildade adquiriu a igreja de Santa Maria dos Anjos, do abade de São Bento de Assis, e quis que os frades sempre habitassem ali e vivessem com humildade.

1 Vendo o bem-aventurado Francisco que o Senhor queria multiplicar o nú­mero (cf. At 6,7) dos frades, disse-lhes: “Caríssimos irmãos e fi­lhinhos meus, vejo que o Senhor quer multiplicar-nos. 2 Pare­ce-me, pois, bom e religioso que adquiramos do bispo, ou dos cô­negos de São Rufino, ou do abade de São Bento uma igreja, 3 onde os frades possam suas horas e ter ao lado dela apenas uma pequena e pobre casa, construída de barro e vimes, onde os frades possam descansar e trabalhar. 4 Pois este lugar não é conveniente nem suficiente para os frades, agora que o Senhor quer multiplicá-los e, sobretudo, porque não temos aqui uma igre­ja onde os frades possam recitar suas horas. 5 E se algum frade vier a morrer, não seria conveniente sepultá-lo aqui nem na igreja do cle­ro secular”. Esta palavra agradou a todos (cf. J s 22,33) os frades.
6 Foi, então, ao bispo de Assis e expôs-lhe as palavras acima. O bispo lhe respondeu: “Irmão, não tenho nenhuma igreja que possa dar a vocês”. A mesma coisa responderam os cônegos.

7 Foi, então, ao abade de São Bento do Monte Subásio e expôs-lhe as mesmas palavras. 8 Compadecido e tendo feito uma reunião com seus monges, por obra da graça e da vontade divi­na, o abade concedeu ao bem-aventurado Francisco e a seus frades a igreja de Santa Maria da Porciúncula: a menor e mais pobre igreja que possuíam. 9 E o abade disse ao bem-aventurado Francisco: “Irmão, atendemos o que pediste. Mas, se o Senhor multiplicar esta vossa congregação, queremos que este lugar se torne a cabeça de tudo o que é vosso”.

10 E a palavra agradou (cf. At 6,5) ao bem-aventurado Francisco e a seus frades; o bem-aventurado Francisco alegrou-se muito com o local concedido aos frades, principalmente por causa do nome da igreja da Mãe de Cristo, 11 e porque era uma igreja muito pobre e pequenina e tam­bém porque era denominada de Porciúncula, e isso fazia antever que devia ser mãe e cabeça dos pobres Frades Menores. Chama­va-se Porciúncula, porque antigamente aquela região era chama­da de Porciúncula.
12 Daí que São Francisco dizia: “Por isso, o Senhor quis que nenhuma outra igreja fosse concedida aos frades 13 e que os pri­meiros frades não construíssem uma igreja nova nem tivessem outra além daquela. Dessa maneira, com a chegada dos Frades Menores realizou-se uma profecia”.

14 E, embora fosse pobrezinha e já quase destruída, por muito tempo as pessoas da cidade de Assis e de toda aquela região tive­ram a maior devoção por aquela igreja e têm a maior devoção até hoje: aumenta dia a dia. 15 Por isso, desde que os frades foram morar naquele lugar, quase diariamente o Senhor multiplicava o número (cf. At 6,7) deles, e o perfume de sua fama se espalhou admiravelmente por todo o Vale de Espoleto e por muitas regiões do mundo. 16 Antigamente, porém, chamava-se Santa Maria dos Anjos porque, conforme se diz, com freqüência foram ali ouvidos cantos angélicos.

17 E, embora o abade e os monges a tenham concedido livremente ao bem-aventurado Francisco e seus frades, o bem-aventurado Francisco, como bom e há­bil mestre, querendo fundamentar sua casa, isto é, sua religião, sobre uma rocha (cf. Mt 7,24) firme, isto é, sobre a maior po­breza, 18 anualmente enviava ao dito abade e aos monges um cesto ou um pequeno balaio cheio de peixinhos, chamados las­cas, como sinal da maior humildade e pobreza. 19 Isso para que os frades não tivessem nenhum lugar próprio nem permaneces­sem em algum lugar que não pertencesse a outrem e, também, para que jamais os frades tivessem poder de vendê-lo ou de al­guma forma aliená-lo. 20 Mas quando anualmente os frades leva­vam os peixinhos aos monges, por causa da humildade de São Francisco, que fazia isso por própria iniciativa, eles lhes davam uma vasilha cheia de óleo.

21 Nós que vivemos com (cf. 2Pd 1,18) o bem-aventurado Francisco damos testemunho (cf. Jo 21,24) de que, falando daquela igreja, ele afir­mou com ênfase que ali lhe foi revelado que, por causa das mui­tas prerrogativas que o Senhor ali mostrou, entre todas as igrejas do mundo que a Bem-aventurada Virgem ama, amava esta igreja com a maior afeição. 22 E, por esse motivo, desde então ele teve o maior respeito e devoção por ela e, para que os frades sempre lembrassem disso no coração, na sua morte mandou es­crever no Testamento que os frades agissem da mesma forma. Com efeito, perto de sua morte, diante do ministro geral e dos demais frades, disse: 23 “Quero organizar e deixar o lugar de Santa Maria da Porciúncula como testamento aos frades, para que sempre seja tratado pelos frades com a maior devoção e respeito.
24 É o que fizeram os nossos antigos frades: mesmo que o lu­gar seja santo, predileto e escolhido por Cristo e pela Virgem glo­riosa, conservavam sua santidade rezando ininterruptamente e observando o silêncio dia e noite. 25 E se, por vezes, falavam de­pois que terminava o silêncio estabelecido, falavam com a maior devoção e dignidade e somente sobre assuntos relativos ao lou­vor de Deus e à salvação das almas (cf. 1Pd 1,9). 26 E se, por aca­so, alguém começasse a falar palavras inúteis e ociosas (cf. Mt 12,36), embora isso acontecesse raramente, imediatamente era corrigido por outro frade.

27 Mortificavam sua carne com muitos jejuns e vigílias, frio e nudez e pelo trabalho de suas mãos (cf. 2Cor 11,27). 28 Muitas ve­zes, também, para não ficarem ociosos, ajudavam os pobres em seus campos e estes, depois, lhes davam pão por amor de Deus. Santificavam o lugar com estas e outras virtudes e manti­nham-se em santidade. 29 Mais tarde, porém, porque frades e secu­lares afluíam àquele lugar mais do que de costume 30 e tam­bém porque os frades eram mais frios na oração e nas obras de virtude e mais soltos para dizer palavras ociosas (cf. Mt 12,36) e novidades deste século do que costumavam, o lugar não se conser­vou com tanto respeito e devoção como até então se costumava e conforme eu gostaria”.

31 Dito isso, o bem-aventurado Francisco concluiu imediatamente, com grande fervor, dizendo: “Quero, pois, que este lu­gar esteja sempre sob o direto poder do ministro geral e servo (cf. Mt 20,26.27), 32 para que tenha o maior cuidado e solicitude em estabelecer ali uma boa e santa família.

33 Os clérigos sejam escolhidos entre os melhores, mais san­tos e mais virtuosos frades que haja em toda a religião e que me­lhor saibam recitar o ofício; para que não somente os seculares, mas também os outros frades os vejam e ouçam de boa vontade e com grande devoção.

34 Escolham-se para servi-los também dentre os irmãos leigos, homens santos, discretos, humildes e virtuosos. 35 Quero também que nenhuma pessoa e nenhum frade entre nesse lugar, a não ser o ministro geral e os frades que os servem. 36 E eles não fa­lem com nenhuma pessoa, senão com os frades que os servem e com o ministro, quando os visitar.

37 De forma semelhante, quero que os irmãos leigos que os servem sejam obrigados a nunca dizer-lhes palavras ociosas (cf. Mt 12,36) ou novidades deste século ou qualquer outra coisa que não seja útil às suas almas. 38 E, assim, quero especialmente que ninguém entre naquele lugar, para que eles melhor conservem sua pureza e santidade e que, aí, nada absolutamente se faça ou diga inutilmente, mas todo o lugar seja conservado puro e santo, em meio a hinos e lou­vores do Senhor.
39 E quando algum destes frades migrar para o Senhor, quero que em seu lugar seja mandado pelo ministro geral outro frade santo, onde quer que estiver, 40 pois, se os outros frades, alguma vez, se afas­tarem da pureza e da dignidade, quero que este lugar seja abenço­ado 41 e permaneça sempre o espelho e o bom exemplo de toda a Ordem, como um candelabro sempre ardente e luminoso (cf. Jo 5,35) ante o trono de Deus (cf. Ap 4,5) e a Bem-aventurada Vir­gem, 42 pelo qual o Senhor seja indulgente com os defeitos e as cul­pas de todos os frades e conserve sempre e proteja esta sua religião e plantinha”.

Capítulo 56. A humilde reverência que dedicava às igrejas, varrendo-as e limpando-as.

1 Um tempo, quando estava em Santa Maria da Porciúncula e os frades ainda eram poucos, o bem-aventurado Francisco ia por aquelas vi­las e igrejas em torno de Assis, anunciando.e pregando às pessoas que fizessem penitência. 2 Levava uma vassoura para varrer as igrejas sujas, pois o bem-aventurado Francisco sofria muito quando via algu­ma igreja que não estivesse limpa como queria.

3 Por isso, terminada a pregação, reunia todos os sacerdotes presentes em algum lugar separado, para não ser ouvido pe­los seculares, 4 e pregava-lhes sobre a salvação das almas e, principalmente, para que fossem solícitos para manter limpas as igrejas, os a1tares e tudo o que se usa para a celebração dos mistérios divinos.

Capítulo 57. O camponês que o encontrou varrendo humilde­mente a igreja e, convertido, entrou na ordem e foi um santo frade.

1 Tendo ido à igreja de uma vila da cidade de Assis, co­meçou a varrê-la humildemente e limpá-la. Saiu imediatamente, a notí­cia sobre ele por toda a vila, pois com prazer era visto por aquelas pessoas, e ouvido com prazer ainda maior. 2 Assim que ou­viu isso, um camponês de admirável simplicidade, chamado João, que estava arando em seu campo, dirigiu-se logo a ele e o encon­trou varrendo a igreja humilde e devotamente. 3 E lhe disse: “Ir­mão, dá-me a vassoura, pois quero te ajudar”. E, recebendo a vas­soura de suas mãos, varreu o que faltava.

4 Sentaram-se juntos, e ele disse ao bem-aventurado Francisco: “Irmão, já faz tempo que tenho vontade de servir a Deus, especi­almente depois que ouvi falar de ti e dos teus frades, mas não sa­bia como chegar a ti. 5 Por isso, agora que agradou ao Senhor que eu te visse, quero fazer o que te agradar”.

6 Considerando o seu fervor, o bem-aventurado Francisco exultou no Se­nhor, principalmente porque naquele tempo tinha poucos frades e lhe parecia que, por sua simplicidade e pureza, deveria ser um bom religioso. 7 Então lhe disse: “Irmão, se queres participar de nossa vida e companhia, é preciso que te desfaças de tudo que pode ter sem escândalo e dês tudo aos pobres (cf. Mt 19 ,21), conforme o conselho do santo Evangelho, pois assim fizeram todos os meus frades que puderam”.
8 Ouvindo isso, voltou logo para o campo, onde tinha deixado os bois, e os soltou. Levou um a São Francisco e disse: “Ir­mão, por muitos anos servi a meu pai e a todos os de minha casa. 9 Embora seja pequena esta porção de minha herança, quero rece­ber este boi como minha parte e dá-lo aos pobres, segundo me­lhor te parecer”.
10 Mas vendo que queria deixá-los, seus pais e seus irmãos, que eram ainda pequenos, e todos os de sua casa começaram a chorar tão fortemente e a erguer vozes tão dolorosas que o bem-aventurado Fran­cisco se moveu de piedade, porque era uma família gran­de e de poucos recursos. 11 Disse-lhes: o bem-aventurado Francisco: “Preparai uma refeição para todos nós, comamos todos juntos, e não choreis, porque vou deixá-los bem alegres”. Eles logo prepararam e come­ram todos juntos com grande alegria.

12 Depois da refeição, disse-lhes o bem-aventurado Francisco: “Este vosso fi­lho quer servir a Deus, e disso não deveis entristecer-vos, mas alegrar-vos muito. 13 Com efeito, não só diante de Deus mas também diante deste século, a vós é dada uma grande honra e proveito para as almas e os corpos, pois Deus é honrado com vossa carne e todos os nossos frades serão vossos filhos e ir­mãos. 14 Não posso nem devo devolvê-lo a vós, porque é criatura de Deus e ele quer servir a seu criador, a quem servir é reinar. 15 Mas, para terdes dele um consolo, quero que ele ceda a vós este boi que lhe pertence, porque sois pobres, embora, segundo o Evangelho, deveria dá-lo a outros pobres” (cf. Mt 19,21). 16 E to­dos ficaram consolados com as palavras do bem-aventurado Francisco e se alegraram, sobretudo pelo boi que lhes foi devolvido, porque eram muito pobres.

17 E como agradava muito ao bem-aventurado Francisco a pura e santa simplicidade, em si e nos outros, imediatamente o vestiu com as roupas da religião e o levava humildemente consigo, como seu companheiro. 18 Pois ele de uma simplicidade tão grande que tinha que fazer tudo que o bem-aventurado Francisco fazia. Assim, quando São Francisco estava a rezar numa igreja ou em outro lugar, ele queria vê-lo, para conformar-se exatamente em todos os seus atos e gestos. 19 De modo que, se São Francisco dobrava os joe­lhos, ou elevava as mãos ao céu (cf. Dt 32,40), ou cuspia, ou tos­sia, ou suspirava, também ele fazia tudo parecido. 20 Quando o bem-aventurado Francisco percebeu isso, começou a repreendê-lo com grande alegria por essas simplicidades. 21 Mas ele lhe respondeu: “Irmão, prometi fazer tudo o que tu fazes e, então, preciso ser con­forme a ti em tudo”. 22 Vendo-o tão puro e simples, o bem-aventurado Francisco ficou muito admirado e contente.

23 De fato, depois ele começou a progredir tanto em todas as virtudes e bons costumes que o bem-aventurado Francisco e todos os outros frades se admiravam muito de sua perfeição. Pouco tempo depois, ele morreu naquele santo progresso de virtudes. 24 Por isso, mais tarde, quando, com muita alegria interior e exterior, o bem-aventurado Francisco falava com os frades sobre o seu comportamento, não o chamava de Frei João, mas de São João.

Capítulo 58. Como puniu a si mesmo, comendo na escudela com um leproso, porque o fizera passar vergonha.

1 Voltando à igreja de Santa Maria da Porciúncula, o bem-aventurado Francisco encontrou Frei Tiago o Simples, em companhia de um leproso bastante ulcerado. 2 São Francisco havia-lhe recomendado aquele leproso e todos os outros, porque era como um médico de­les e, de bom grado, tocava, limpava e curava suas feridas, 3 pois nesse tempo os frades moravam nos leprosários.

4 Em tom de repreensão, disse o bem-aventurado Francisco a Frei Ti­ago: “Não deverias levar assim os irmãos cristãos, porque não é conveniente para ti nem para eles”. 5 Pois, embora quisesse que os servisse, não queria que levasse para fora do hospital aqueles que estavam muito chagados, porque as pessoas costumavam ter muita repugnância deles, 6 e Frei Tiago era tão simples que ia com eles do hospital até a igreja de Santa Maria, como se fosse com os frades. 7 O bem-aventurado Francisco chamava os leprosos de irmãos cristãos.

8 Tendo dito isso, o bem-aventurado Francisco logo se repreendeu, pensando que o leproso tivesse ficado envergonhado por causa da repreensão que fizera a Frei Tiago. 9 Por isso, querendo satisfazer a Deus e ao leproso, disse sua culpa a Frei Pedro Cattani que era, então, o ministro geral. 10 E disse: “Quero que confirmes a peni­tência que resolvi fazer por esta falta e que de modo algum me contradigas”. Ele respondeu: “Irmão, faze como te agradar”. 11 Pois Frei Pedro tinha tanta veneração e respeito por ele que não ousava contradizê-lo, embora muitas vezes ficasse aflito.
12 Então, São Francisco disse: “Esta seja a minha penitência: que eu coma numa escudela junto com o irmão cristão”. 13 Assim, quando o bem-aventurado Francisco se sentou à mesa com o leproso e os outros frades, foi colocada uma escudela entre São Francisco e o leproso. 14 O leproso estava totalmente ulcerado, repugnante e, até, disso, tinha os dedos, com os quais tirava os bocados da escude­la, contraídos e ensangüentados, de forma que quando os punha na escudela, o sangue e o pus dos dedos escorriam nela. 15 Vendo isso, Frei Pedro e os outros frades ficaram muito tristes, mas nada ousavam dizer, por temor e respeito para com o santo pai.

16 Quem escreveu viu estas coisas e dá testemunho delas (cf. Jo 19,35,21,24).

Capítulo 59. Como afugentou os demônios com palavras de hu­mildade.

1 Certa ocasião, o bem-aventurado Francisco foi à igreja de São Pedro de Bovara, perto do castelo de Trevi, no Vale de Espoleto; e foi com ele Frei Pacífico que, no século, era chamado de rei dos ver­sos, um homem nobre e cortês mestre de canto.
2 Aquela igreja estava abandonada. Então, o beato Francisco dis­se a Frei Pacífico: “Volta para o hospital dos leprosos, porque, nesta noite, quero ficar sozinho aqui. Amanhã bem cedinho voltarás a mim”.

3 Quando ficou sozinho e recitou as Completas e as outras orações, quis descansar e dormir, mas não pôde. 4 Seu espírito co­meçou a ter medo, o corpo a tremer e a sentir as sugestões diabó­licas. Saiu logo da igreja e fez o sinal-da-cruz, dizendo: “Da par­te de Deus onipotente, eu vos ordeno, demônios, que façais com meu corpo o que vos for permitido pelo Senhor Jesus Cristo, pois estou pronto a suportar tudo. 5 Sendo meu corpo o maior inimigo que eu tenho, vingar-me-eis do meu adversário (cf. Lc 18,3) e pior inimigo”.

6 Imediatamente cessaram por completo as tentações e, re­gressando ao local onde estava deitado, dormiu (cf. 1Sm 3,2.9) em paz.

Capítulo 60. A visão de Frei Pacífico, que viu e ouviu que o trono de Lúcifer estava reservado ao humilde Francisco.

1 Chegada a manhã (cf. Jo 21,4), Frei Pacífico voltou até ele. O bem-aventurado Francisco estava diante do altar em oração. Frei Pacífico espe­rou-o fora do coro, orando também diante do crucifixo. 2 E quando começou a rezar, foi elevado e arrebatado ao céu — se foi no corpo, ou fora do corpo, só Deus soube (cf. 2Cor 12,2.3) — e viu muitos tronos no céu; entre os quais um mais elevado e mais glorioso que os ou­tros, refulgente e ornado de toda espécie de pedras preciosas (cf. Ap 21,19). 3 E, admirando sua beleza, começou a indagar a si mes­mo (cf. Dn 4,16) a quem pertenceria aquele trono. E logo ouviu uma voz que lhe dizia (cf. At 9,4): “Este trono pertenceu a Lúcifer; em seu lugar sentar-se-á nele o humilde Francisco”.
4 Logo que voltou a si, o bem-aventurado Francisco saiu e foi ter com ele; o irmão lançou-se a seus pés (cf. At 10,25), com os bra­ços em cruz. 5 E, considerando-o como se já estivesse no céu sen­tado naquele trono, disse-lhe: “Pai, perdoa-me e roga ao Senhor que tenha pena de mim e perdoe meus pecados”. 6 Estendendo a mão (cf. Mt 14,31), o bem-aventurado Francisco ergueu-o e compreendeu ime­diatamente que ele tinha visto (cf. Lc 1,22) alguma coisa na oração. Com efeito, parecia totalmente mudado e falava com o bem-aventurado Francisco não como a alguém que vive na carne, mas como se já estivesse reinando no céu.

7 Depois, porém, não querendo contar a visão ao bem-aventurado Francis­co, começou a falar-lhe por rodeios e, entre outras coisas, disse: “Irmão, o que pensas de ti mesmo?” 8 O bem-aventurado Francisco respondeu e lhe disse: “Acho que sou um pecador maior do que qual­quer outro que existe neste mundo”. 9 No mesmo instante, foi dito à alma de Frei Pacífico: “Nisto podes saber que a visão que tives­te foi verdadeira (cf. Dn 8,26), porque, assim como Lúcifer, por sua soberba, foi alijado de seu trono, Francisco, por sua humilda­de, merecerá ser exaltado e sentar-se nele”.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Quais as graças que alcança a pessoa que ouve a Missa devotamente?

As propriedades da Missa

As graças que alcança a pessoa que ouve a Missa devotamente são estas:

Primeira: Quem celebra a Missa reza especialmente por quem a ouve.

Segunda: Ouvindo a Missa se goza de maravilhosa companhia, porque na Missa está Jesus Cristo, tão grande como no madeiro da cruz, e por concomitância está também a divindade, a Trindade santa. Ademais, está na companhia dos santos anjos. E, segundo escreve um doutor, no lugar donde se celebra o santo sacrifício da Missa têm muitos santos e santas, especialmente por aquele: “São virgens que seguem o Cordeiro para onde quer que ele vá” (Ap XIV, 4).

Terceira graça que alcança a pessoa que ouve devotamente a Missa: Que lhe ajuda nos trabalhos e negócios. Lê-se de um cavaleiro, que tinha o costume de ouvir a Missa tomado de grande devoção, que certa vez saiu do mar com seus companheiros e estava se preparando numa capela para ouvir a Missa. Os companheiros lhe anunciaram que o navio ia dar partida e que se apressasse. O cavaleiro respondeu que primeiro queria ouvir a Missa. Por isso o deixaram em terra e o navio partiu. Depois de ter ouvido a Missa, o cavaleiro dormiu, e quando despertou se encontrou em sua própria terra. Depois de muitos dias chegaram os do navio , e se maravilharam ao ver-lo.

E de outros casos se lêem coisas maravilhosas. Ademais, a pessoa que ouve a Missa desgosta muito ao diabo; pois interrogado certa vez o que era o que mais lhe desagradava, respondeu que três coisas: os sermões, a saber, a palavra de Deus, a Missa e a penitência.

Quarta graça que alcança a pessoa que ouve a Missa devotamente: Que será iluminada nas coisas que há de discernir e determinar por sua inteligência. Diz-se de São Boaventura, da Ordem dos frades menores, que ajudava as Missas frequentemente e com muita devoção. E um dia, servindo a Missa, Santo Tomás de Aquino viu uma língua de fogo sobre a cabeça do dito frei Boaventura, o qual, daí para frente teve ciência infusa.

Quinta graça: Que a pessoa que ouve a Missa devota e benignamente, não morrerá esse dia de desgraça nem sem confissão.

Sexta graça: que na sua morte estarão presentes tantos santos quantas Missas tenha ouvido devotamente. Diz São Jerônimo que às almas por que está obrigado a rezar o que ouve a Missa – seu pai, sua mãe, seus parentes e benfeitores -, durante o espaço de tempo em que ouve a Missa, lhes serão as penas do purgatório. Diz Santo Ambrósio que depois que a pessoa tenha ouvido a Missa, tudo o que coma naquele dia fará mais proveito a sua natureza que se não houvesse ouvido a Missa. Se a mulher grávida ouve a missa, daráà luz sem grande trabalho, se o fizesse naquele dia.

Santo Agostinho escreve no livro De civitate Dei que a pessoa que ouve a Missa devotamente Nosso Senhor lhe dará nesse dia as coisas necessárias. A segunda graça que terá é que suas palavras vãs serão perdoadas. Terceira, que aquele dia não perderá nenhum disputa. Quarta, que ao mesmo tempo que ouve a Missa não envelhece nem debilita seu corpo. Quinta, que se morre nesse dia a Missa lhe valerá tanto como se houvesse comungado. Sexta, que os passos que dá indo e vindo da Missa, são contados pelos santos anjos e remunerados por Deus nosso Senhor. Ademais, mais vale uma Missa que se ouve em vida devotamente, que se depois da morte ouvira outras mil. Lê-se que ouvir Missa com devoção aproveita para remissão dos pecados e crescimento de graça mais que outras orações que o homem possa dizer ou fazer, pois toda a Missa é oração de Nosso Senhor e Redentor Jesus Cristo, infinitamente doce e piedoso, que é cabeça nossa e todos os fiéis seus membros. Diz São Gregório que ao mesmo tempo se celebra a Missa se perdoam os pecados dos mortos e vivos. E são João Crisóstomo escreve que vale tanto a celebração da Missa como a morte de Jesus Cristo, por a que nos redimiu de todos os nossos pecados. Finalmente, a salvação da humanidade está cifrada na celebração do Santo Sacrifício da missa, porque todo o esforço do malvado anticristo se orientará a tirar da Santa Madre Igreja este santo mistério, em que se administra o precioso Corpo de Jesus Cristo, em memória de sua santa paixão, por meio da qual os fiéis cristãos de boa vida, ainda que sejam ignorantes e sem ciência, poderão ver as astúcias e malícias do malvado anticristo e seus seguidores.

São Vicente Ferrer

(Extraído de “São Vicente Ferrer” Ed. B.A.C. )
http://www.institutosapientia.com.br/site/index.php?option=com_content&view=article&id=1373:quais-as-gracas-que-alcanca-a-pessoa-que-ouve-a-missa-devotamente&catid=113:oracoes&Itemid=470

Modéstia.

Por Pe. Peter Scott
(Traduzido por Andrea Patricia)

A modéstia é uma virtude moral, e uma parte da virtude da temperança, pelo qual uma pessoa traz moderação para suas ações externas e para dentro (na medida em que pode ser refletida por certos sinais exteriores), a fim de mantê-las sob o controle da razão correta (Summa Theologica, IIa IIae Q.160, a.2). São Tomás de Aquino enumera quatro tipos de modéstia em matéria comum, que são obrigatórias para todos:

* A primeira é o movimento da mente em direção a alguma excelência, e este é moderado pela humildade.

* A segunda é o desejo de coisas relativas ao conhecimento, e esta é moderada pelo estudo cauteloso que se opõe à curiosidade.

* A terceira refere-se a movimentos corporais e ações (incluindo palavras), que se requer que sejam feitas de forma conveniente e honestamente, se agirmos a sério ou numa brincadeira [em jogos].

* A quarta se refere aparência exterior, por exemplo, vestir e coisas do gênero. (Ibid.)

Se todos os quatro aspectos da modéstia são igualmente importantes, não resta nenhuma dúvida de que os dois últimos, que não têm nome especial, são mais comumente entendidos pelo termo modéstia. Além disso, é mais especialmente o último que é referido por modéstia, por causa da desordem da natureza humana caída, que é mais facilmente derrotada pela atração desordenada para o mais baixo tipo de imodéstia.

Claramente os homens têm um direito igual ao das mulheres de evitar palavras ou ações provocativas e evitar qualquer tipo de vestuário que possa mostrar a sua pessoa ou seu corpo, levando à vaidade. Como as mulheres, eles são proibidos, portanto, de mostrar seus corpos em público de uma forma indecorosa, ou de uma forma que pode produzir uma atração desordenada no sexo oposto. Os homens devem sempre vestir uma camisa para praticar exercícios, e shorts* não devem ser usados em público, mas só serão utilizados para o esporte, e não devem ser muito curtos ou muito apertados. Da mesma forma, os homens devem vestir-se modestamente para a Missa de Domingo, com camisa, gravata, blazer, calça, tudo isso que simboliza um senso de responsabilidade do homem, conduzindo sua família para a auto-disciplina ordenada do vestuário modesto, e cumprindo com o seu dever na verdadeira adoração a Deus.

No entanto, existem duas diferenças importantes na aplicação destes princípios aos homens, em comparação com as mulheres, e que são a razão pela qual os documentos da Igreja sobre o assunto referem-se a modéstia em mulheres. A primeira é que a natureza de uma mulher faz dela muito mais propensa à tentação da vaidade, para mostrar o seu corpo, e a natureza de um homem faz dele muito mais tentado por ver isto. Conseqüentemente, as infrações mais graves e mais perigosas contra o pudor, entendido em seu quarto e mais restrito sentido, ou seja, contra a pureza, são feitas por mulheres.

É por esta razão que a Igreja tem sido muito mais inflexível sobre o vestuário da mulher, como na seguinte citação de um decreto da Sagrada Congregação do Concílio de 18 de janeiro de 1930:

Sua Santidade, Pio XI, nunca deixou de inculcar na palavra e na escrita o preceito de São Paulo (I Tim 2, 5-10) “As mulheres também em vestuário decente; adornem-se com modéstia e sobriedade”, como mulheres que fazem profissão de piedade com boas obras.”

E em muitas ocasiões, o mesmo Sumo Pontífice reprovou e condenou vigorosamente a imodéstia no vestir que hoje está em voga em todos os lugares, até mesmo entre as mulheres e meninas que são católicas, uma prática que fere gravemente a virtude suprema e a glória das mulheres e, além disso infelizmente leva não apenas a sua desvantagem temporal, mas, o que é pior, a sua ruína eterna e a de outras almas.

Não é de admirar, então, que os Bispos e outros Ordinários dos lugares, quando tornam-se ministros de Cristo, têm em sua diocese respectivas resistido por unanimidade em todos os sentidos a estas maneiras licenciosas e desavergonhadas e com isso têm alegremente e corajosamente suportado o escárnio e o ridículo, por vezes, dirigidos a eles pelos mal dispostos…

Há uma segunda razão pela qual a modéstia no vestir é especialmente aplicável às mulheres acima dos homens. É que há uma forma especial de imodéstia que é característica de nossos tempos modernos, e é a imodéstia das mulheres vestindo roupas masculinas, principalmente calças e shorts. Isso prejudica a percepção psicológica que uma mulher tem de si mesma e de sua diferença do homem, que por sua vez a desfeminiza, corrói a relação natural entre homens e mulheres, remove a defesa da excessiva familiaridade, e, eventualmente, degrada as relações entre homens e mulheres para o nível da sensualidade. É esta forma de imodéstia que é, em última análise, de longe, a mais destrutiva das relações humanas e da virtude da pureza.

Se, portanto, há certamente um padrão de modéstia para os homens, deve sempre ser lembrado que a batalha pela modéstia das mulheres é tanto mais crucial quanto mais difícil de vencer.

Homens de verdade, no entanto, ensinam e lideram pelo exemplo. Se eles têm dificuldade ao insistir na modéstia de suas esposas ou filhas, eles vão se lembrar de praticar com muita precisão todos os quatro tipos de modéstia mencionadas acima, e as suas admoestações darão frutos.

Pe. Peter Scott é da FSSPX.
http://a-grande-guerra.blogspot.com/2011/11/o-padrao-catolico-de-vestimenta-para-o.html

Comunismo: ópio do povo.


Comunismo: Ópio do Povo (Mons. Fulton Sheen)
Mons. Fulton J. Sheen
Bispo Auxiliar de Nova York

Comunismo: Ópio do Povo
1952
EDITORA VOZES Ltda., PETRÓPOLIS, R. J.
RIO DE JANEIRO — SãO PAULO

INTRODUÇÃO

O Comunismo é essencialmente anti-religioso.

Depois da revolução de Outubro de 1917, foi gravada nas paredes do antigo Paço Municipal de Moscou, defronte da Igreja da famosa imagem da Virgem Ibéria[1], esta inscrição: "A Religião é o Ópio do Povo". Esta inscrição foi tirada de um dos escritos de Karl Marx intitulado: Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Já em 1844 Marx dissera: "A crítica da religião é o começo de toda crítica". A orientação anti-religiosa do Comunismo subsistiu até o presente. O sexto Congresso Mundial, levado a efeito em 1928, estabeleceu o programa do Partido Comunista em relação à religião: "A luta contra a religião, o ópio do povo, ocupa importante posição entre as tarefas da revolução cultural. Esta luta deve ser levada avante persistente e sistematicamente". Mais tarde, na segunda conferência do Instituto Anti-religioso, realizada em Moscou a 15 de Junho de 1934, o Bezbojnik, jornal anti-Deus, declarou que "a educação comunista da criança requer explicitamente a educação anti-religiosa". Em Maio de 1935, recordando o efeito do programa anti-religioso dos comunistas, ele declarava: "Fechamos todas as casas de ópio". Isto era o cumprimento da política de Marx tanto como da de Lenine, que, a 16 de Dezembro de 1905, escrevera: "O nosso programa comunista inclui a propaganda do ateísmo" (Novoya Zhizn N.º 28).

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I. A RELIGIÃO É O ÓPIO DO POVO?

Não se faz mister insistir no caráter ateísta do Comunismo, porque ele é suficientemente conhecido tanto na teoria como na prática. Antes de tentar qualquer crítica da sua política, seria bom inquirir precisamente as razões que os comunistas alegam em abono da sua afirmação de que a religião é o ópio do povo. Os comunistas não fizeram essa asserção sem alguma base, porquanto, como Lenine escreveu: "Devemos explicar de um ponto de vista materialista a razão pela qual a fé e a religião prevalecem no meio das massas" (Proletarii N.º 45, 26, (13), Maio de 1909). Resta, portanto, investigar-lhes as alegadas razões.

A Argumentação Comunista

Procurando através da sua literatura de caráter oficial, encontramos que os comunistas invocam três razões em abono da sua afirmação de que a religião é o ópio do povo:

1) A religião ensina aos ricos os seus direitos, e portanto ajuda os ricos na sua exploração dos pobres;

2) A religião ensina aos pobres os seus deveres para com os ricos, e destarte ajuda a exploração dos pobres pelos ricos;

3) A religião, pela sua própria natureza, é passiva, e mata toda atividade por meio da qual o homem possa melhorar a sua condição econômica.

1. "Religião, patrocinando a causa dos ricos".

Lenine desenvolve o primeiro argumento, de que a religião é o ópio do povo porque proclama os direitos dos capitalistas e dos ricos. Desenvolve-o assim: "A religião é uma espécie de tóxico espiritual, no qual os escravos do capital afogam a sua humanidade e embotam o seu desejo de uma existência humana decente" (Novoya Zhizn N.º 28). Acrescenta, mesmo, que a religião incentiva a caridade como uma espécie de escusa para a injustiça. "Porque aos que vivem do trabalho dos outros, a religião ensina a serem carido-

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sos, arranjando assim uma justificação para a exploração, e como se fosse um bilhete barato para o céu" (íbid.). Houharin, na obra oficial do Comunismo intitulada O ABC do Comunismo, desenvolve a mesma idéia: "A religião foi no passado, e ainda é hoje, um dos meios mais poderosos à disposição dos opressores para a mantença da desigualdade, exploração e servil obediência por parte dos trabalhadores" (p. 247).

2. "Religião, sedativo dos pobres".

Os comunistas alegam que a religião é o ópio do povo porque ensina aos pobres os seus deveres para com os ricos, e lhes promete uma outra vida ao invés de melhorar a presente. Lenine escreveu: "A fé ortodoxa é cara a eles porque lhes ensina suportarem os infortúnios "sem queixa". Que fé proveitosa não é essa, realmente — para as classes governamentais t Numa sociedade organizada de tal modo que uma insignificante minoria desfruta a riqueza e o poder, ao passo que as massas constantemente sofrem privação e severas obrigações, inteiramente natural é simpatizarem os exploradores com essa religião que nos ensina a suportar "sem queixa" as dores do inferno na terra, na esperança de um prometido paraíso no céu" (Iskra N.º 16, 14 de Fevereiro de 1902). E novamente: "A religião ensina aqueles que labutam na pobreza toda a sua vida a serem resignados e pacientes neste mundo, e consola-os com a esperança de uma recompensa no céu... O desamparo de todos os explorados na sua luta contra os exploradores gera inevitavelmente a crença numa vida melhor após a morte, tal como o desamparo do selvagem nas suas lutas com a natureza dá nascimento a uma crença em deuses, demônios e milagres" (Novaya Zhizn N.º 28, 16 de Dezembro de 1905).

3. "Religião, entorpecente da humanidade"

O terceiro argumento oferecido pelos comunistas em abono da sua afirmação de que a religião é o ópio do poro é o de que, pela sua própria natureza, a religião

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torna o homem passivo. Pregando constantemente a resignação à própria sorte e a resignação à vontade de Deus, ela adormenta o homem ativo e torna-o descuidado no tocante à sua condição econômica. Por exemplo, na sua obra O ABC do Comunismo, N. Houharin declara que "há um conflito irreconciliável entre os princípios do Comunismo e os mandamentos da religião". E, como uma evidência do caráter passivo da religião, cita ele o código cristão: "Quem quer que te ferir na face direita, oferece-lhe também a outra". E então acrescenta: "Todo aquele que, embora chamando-se comunista, continua a aderir à sua fé religiosa, quem quer que em nome dos mandamentos religiosos infringe as prescrições do Partido, por isso mesmo cessa de ser comunista. É proveitoso para a classe rapinante manter a ignorância do povo e manter a crença infantil do povo em milagres (a chave do enigma fica realmente no bolso dos exploradores), e é por isto que os preconceitos religiosos são tão tenazes; é por isto que eles confundem as mentes mesmo de pessoas que, a outros respeitos, são capazes'' (p. 248).

Uma distinção a fazer.

Tal é a atitude oficial do Comunismo para com a religião, apresentada nas palavras dos seus melhores expoentes. Resta agora julgar-lhes as razões calma e desapaixonadamente. Antes de iniciarmos uma apreciação crítica desses argumentos, uma reflexão geral deve ser feita, a saber: devemos distinguir cuidadosamente entre o que a religião é naqueles que se professam religiosos, e o que a religião é na sua natureza e no seu programa. No tocante aos que se professam religiosos, deve-se admitir que há alguns exemplos em que a religião foi usada como ópio do povo. Não há dúvida de que às vezes indivíduos inescrupulosos têm usado a religião como um instrumento de exploração e domínio. Pedro o Grande na Rússia, Napoleão na França, e mesmo o último Czar, oferecem exemplos clássicos de semelhante abuso da religião. Um profes-

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sor da Universidade de Yale, falando do declínio da Cristandade não-católica, atribui isso principalmente à identificação que alguns pregadores têm feito entre religião e uma ordem social decadente que às vezes tem sido ré de exploração.

No tocante a esses indivíduos que têm usado para fins baixos a instituição social da religião, compartilhamos a indignação de Lenine. Porém o que ele e seus companheiros comunistas esquecem é que essas são exceções, e não estão no espírito nem no programa da religião. Nunca poderíamos admitir que a religião que Nosso Senhor fundou tenha favorecido o rico contra o pobre. As palavras de advertência do Mestre ainda nos soam aos ouvidos: "Bem-aventurados os pobres em espírito... Ai de vós que sois ricos... Já tendes a vossa recompensa... As raposas têm tocas, as aves do ar têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde pousar a cabeça". A História inscreveu-o nos seus registros como o Pobre universal, o qual, no seu nascimento, teve de se contentar com um abrigo que não lhe pertencia, e, na sua morte, com um túmulo alheio. A história da religião que Ele fundou é a história de uma Igreja que por dezenove séculos tem cuidado dos pobres e dos fracos e dos enfermos em hospitais e orfanatos e escolas e instituições de caridade, e isso por nenhuma outra razão senão a de que ela vê a Cristo no pobre. Atitude muito infantil, revelando falta de raciocínio crítico da parte dos comunistas, é argüirem eles que, pelo fato de alguns poucos haverem prostituído a santidade da religião, por isto a religião é vil. O fato de haver algumas moedas falsas no mundo não é razão para se abolir o dinheiro; o fato de haver alguns indivíduos que praticam bandalheiras não é razão para se suprimir o governo; o fato de alguns automobilistas serem negligentes não é razão para que se destruam os automóveis; e o fato de haver alguns que traem o Cristianismo não é razão para se destruir o Cristianismo.

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Refinação dos Argumentos Comunistas

Resta agora discutir por miúdo os três argumentos dos comunistas.

1. A Religião e os ricos.

Primeiramente, será verdade que a religião é o ópio do povo pelo fato de ensinar aos ricos os seus direitos? Desafiamos os comunistas a apontarem, em toda a história da Igreja, uma única passagem oficial em que ela use a religião como ópio do povo. Karl Marx nos seus melhores momentos e Lenine nos seus mais amargos, nunca protestaram com tanta justiça e com tanta delicadeza e exatidão contra a exploração dos pobres pelos ricos, como o fizeram Leão XIII e Pio XI. Será que esta advertência de Leão XIII, por exemplo, soa como se ele estivesse defendendo os direitos do rico?: "Os ricos e os patrões devem lembrar-se de que explorar a pobreza e a miséria e especular com a indigência, são coisas igualmente reprováveis pelas leis divinas e humanas" (Rerum Novarum, Ed. Vozes, n.º 32). E Pio XI, com maior ênfase, condena os ricos que são réus de exploração e de domínio:

"É coisa manifesta que em nossos tempos não só se amontoam riquezas, mas se acumula um poder imenso e um verdadeiro despotismo econômico nas mãos de poucos, que as mais das vezes não são senhores, mas simples depositários e administradores de capitais alheios, com que negociam a seu talante. Este despotismo torna-se intolerável naqueles que, tendo nas suas mãos o dinheiro, são também senhores absolutos do crédito e por isso dispõem do sangue de que vive toda a economia, e de tal maneira a manejam, que ninguém pode respirar sem sua licença. Este acumular de poderio e recursos, nota característica da economia atual, é conseqüência lógica da concorrência desenfreada, à qual só podem sobreviver ordinariamente os mais fortes, isto é, os mais violentos competidores e que menos sofrem de escrúpulos de consciência. Por outra parte, este mesmo acumular de poderio gera três

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espécies de lutas pelo predomínio: primeiro luta-se por alcançar o predomínio econômico; depois combate-se renhidamente por obter o predomínio no governo da nação, a fim de poder abusar do seu nome, forças e autoridade nas lutas econômicas ; enfim, lutam os Estados entre si, empregando cada um deles a força e influência política para promover as vantagens econômicas dos seus cidadãos, ou ao contrário empregando as forças e predomínio econômico para resolver as questões políticas que surgem entre as nações" (Quadragesimo Anno, Ed. Vozes, nº 105-108).

Nessa mesma Encíclica o Santo Padre parece insinuar que, a menos que os ricos ponham a sua casa em ordem, devem estar preparados para a subversão da sociedade que o Comunismo fará cair sobre eles: "Digna de censura é a inércia daqueles que não tratam de suprimir ou mudar um estado de coisas que, exasperando os ânimos, abre caminho à subversão e ruína completa da sociedade" (Quadragesimo Anno, Ed. Vozes, nº 112).

Não há aqui, da parte da Igreja, apelo em favor disso a que chamamos liberdade econômica de amontoar riqueza sem consideração com a justiça social; Leão XIII também já condenara esse erro do Liberalismo. As Encíclicas indicam muito bem que a riqueza protege aqueles que a possuem, e não os que não a possuem; que a iniciativa abre novos horizontes para aqueles que podem conseguir a independência, mas não para aqueles que são escravos de salários semanais. Mas, pelo fato de haver a riqueza muitas vezes redundado em exploração, a solução das Encíclicas não é a dos comunistas, que quereriam destituir os homens da sua propriedade. O Santo Padre sustenta que a solução dos nossos males não está na destituição, porém na distribuição; se há ratos no celeiro, não é isto razão para que se toque fogo ao celeiro; é razão somente para que se enxotem os ratos.

Nem é verdade, como Lenine insinuou, que a Igreja pede aos ricos serem caridosos com o fim de cobrirem as suas injustiças, dando-lhes assim um bilhete fá-

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cil para o céu. Como Pio XI afirma: "As riquezas terrenas não são garantia daquela bem-aventurança que nunca findará, antes pelo contrário, porquanto os ricos deveriam tremer ante a ameaça de Jesus Cristo — ameaça tão estranha na boca de Nosso Senhor, — de que muito estrita conta deve ser dada ao Supremo Juiz por tudo quanto possuímos". E se isto ainda não é bastante forte, então ouçamos as palavras de Pio XI sobre a caridade em relação com a justiça: "Com tal estado de coisas (divisão da sociedade em duas classes) facilmente se resignavam os que, nadando em riquezas, o supunham efeito inevitável das leis econômicas, e por isso queriam que se deixasse à caridade o cuidado de socorrer os miseráveis; como se a caridade houvesse de cobrir estas violações da justiça, que os legisladores toleravam e, por vezes, sancionavam" (Quadragesimo Anno, Ed. Vozes, n.º 4). Em face destas afirmações oficiais da Igreja, semelhante às quais nem uma simples página existe em toda a literatura comunista, imediatamente evidente deveria ser que a religião não é o ópio do povo pelo fato de ensinar aos ricos os seus direitos. Estas passagens do Santo Padre acentuam, antes, os deveres dos ricos, e para um comunista é muito inconveniente acusar a Igreja de se aliar somente com os ricos, quando às almas a ela consagradas ela pede fazerem voto de pobreza. Não podemos colher uvas de abrolhos; como então poderia a Igreja colher da sua vinha o Pobrezinho de Assis, se plantasse somente o amor dos ricos?

2. A Religião, defensora dos pobres.

A Igreja nunca foi unilateral a ponto de ensinar aos pobres somente os seus deveres. Os comunistas não podem apontar uma simples linha, em toda a história da Igreja, na qual ela tenha pedido aos pobres se submeterem à exploração. Pelo contrário, a Igreja ensina que o Estado tem deveres para com os pobres. Leão XIII diz: "Assim como o Estado pode tornar-se útil às outras classes, assim também pode melhorar muitíssimo a sorte da classe operária; .. .e quanto mais

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se multiplicarem as vantagens desta ação de ordem geral, tanto menos necessidade haverá de recorrer a outros expedientes para remediar a condição dos trabalhadores" (Rerum Novarum, Ed. Vozes, n. 48). Não é apenas uma questão de caridade para com o pobre; é, antes, uma questão de verdadeira justiça, e uma questão que reclama aplicação estrita, se não por outra razão, ao menos pelo fato de serem os pobres a maioria.

"Os pobres, com o mesmo título que os ricos, são, por direito natural, cidadãos; isto é, do número das partes vivas de que se compõe, por intermédio das famílias, o corpo inteiro da nação, para não dizer que em todas as cidades são o grande número. Como, pois, seria desrazoável prover a uma classe de cidadãos e negligenciar outra, torna-se evidente que a autoridade pública deve também tomar as medidas necessárias para salvaguardar a salvação e os interesses da classe operária. Se ela faltar a isto, viola a estrita justiça que quer que a cada um seja dado o que lhe é devido. A esse respeito S. Tomás diz muito sabiamente: "Assim como a parte e o todo são em certo modo uma mesma coisa, assim o que pertence ao todo pertence de alguma sorte a cada parte" (II-II, q. 61, a. 1, 2). É por isso que, entre os graves e numerosos deveres dos governantes que querem prover, como convém, ao bem público, o principal dever, que domina todos os outros, consiste em cuidar igualmente de todas as classes de cidadãos, observando rigorosamente as leis da justiça, chamada distributiva" (Rerum Novarum, Ed. Vozes, n. 49).

Se houver possibilidade de escolha, devem os pobres ser favorecidos de preferência aos ricos: "Na proteção dos direitos particulares, o Estado deve preocupar-se, de maneira especial, dos fracos e dos indigentes. A classe rica faz das suas riquezas uma espécie de baluarte e tem menos necessidade da tutela pública. A classe indigente, ao contrário, sem riquezas que a ponham a coberto das injustiças, conta principalmente com a proteção do Estado. Que o Estado se faça, pois,

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sob um particularíssimo título, a providência dos trabalhadores, que em geral pertencem à classe pobre" Rerum Novarum, Ed. Vozes, n. 54).

É precisamente contra a exploração dos pobres que o Pontífice protesta, e em particular contra essa exploração que o Comunismo pratica, a saber, o trato dos homens como outros tantos estômagos a fazerem dinheiro para o Estado.

"No que diz respeito aos bens naturais e exteriores, primeiro que tudo é um dever da autoridade pública subtrair o pobre operário à desumanidade de ávidos especuladores, que abusam, sem nenhuma discrição, das pessoas como das coisas" (Rerum Novarum, Ed. Vozes, n. 59).

Nem é verdade, como diz Lenine, que a Igreja não faz outra coisa senão ensinar "aqueles que labutam na pobreza a vida toda a serem resignados e pacientes neste mundo, e consolá-los com uma recompensa no céu". A verdade é o contrário: "Nem se pense que a Igreja se deixa absorver de tal modo pelo cuidado das almas, que põe de parte o que se relaciona com a vida terrestre e mortal. Pelo que em particular diz respeito à classe dos trabalhadores, ela faz todos os esforços para os arrancar à miséria e procurar-lhes uma sorte melhor. E, certamente, não é um fraco apoio que ela dá a esta obra só pelo fato de trabalhar, por palavras e atos, para reconduzir os homens à virtude. Os costumes cristãos, desde que entram em ação, exercem naturalmente sobre a prosperidade temporal a sua parte de benéfica influência; porque eles atraem o favor de Deus, princípio e fonte de todo o bem; comprimem o desejo excessivo das riquezas e a sede dos prazeres, esses dois flagelos que freqüentes vezes lançam a amargura e o desgosto no seio mesmo da opulência (1 Tim 6, 10); contentam-se enfim com uma vida e alimentação frugal, e suprem pela economia a modicidade do rendimento, longe desses vícios que consomem não só as pequenas, mas as grandes fortunas, e dissipam os maiores patrimônios" (Rerum Novarum, Ed. Vozes, n. 42).

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Para que não fosse deixado vago o interesse pela prosperidade terrena do homem, Pio XI adita à concreta sugestão de Leão XIII uma recomendação que é o contrário do Comunismo, como seja — ajudar os trabalhadores a possuírem a propriedade. Não arrancá-la e tornar milionários os "leaders" do Partido Comunista; porém dá-la aos pobres como posse deles: "É, pois, necessário empregar energicamente todos os esforços, para que, ao menos de futuro, as riquezas granjeadas se acumulem em justa proporção nas mãos dos ricos, e, com suficiente largueza, se distribuam pelos operários; não para que estes se dêem ao ócio, — já que o homem nasceu para trabalhar como a ave para voar, — mas para que, vivendo com parcimônia, aumentem os seus haveres, aumentados e bem administrados provejam aos encargos da família; e, livres assim de uma condição precária e incerta qual é a dos proletários, não só possam fazer frente a todas as eventualidades durante a vida, mas deixem ainda por morte alguma coisa aos que lhes sobrevivem" (Quadragesimo Anno, Ed. Vozes, n. 61).

3. A Religião, estimuladora das atividades humanas.

Consideremos agora o argumento dos comunistas de que a religião torna o homem passivo.

a) Provavelmente, não haverá maior perversão da verdade do que esta afirmação do Comunismo. O contrário é que é verdade. A religião é essencialmente dinâmica. A Igreja, é verdade, prega-nos a resignação à nossa própria sorte, mas isto não significa passividade. Antes, é uma resignação orientada para a ação. Resignação significa aceitação da nossa sorte enquanto se aguardam melhores coisas que devem ser alcançadas não por meio de revolução, mas mediante atuação inteligente. Não é esta a atitude de uma mãe para com seu filhinho? Ela se resigna à infância deste, mas isto não quer dizer que ela se recuse a criá-lo e educá-lo até que ele entre na adolescência e na maturidade. O lavrador que semeia a sua semente resigna-se ao fato

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de ter ela de crescer mediante um processo lento, misterioso, pois nem em pensamento pode ele aumentar um côvado à sua própria estatura. Porém semelhante resignação não significa que ele não deva cultivar a sua seara, ou não deva extirpar o joio ou receber com agrado a ação do sol e da chuva. De igual modo, quando a Igreja fala de resignação cristã, entende dizer que devemos trabalhar efetivamente pela melhoria social como o lavrador o faz com sua semente, isto é, que nos devemos capacitar de que toda reforma deve proceder de uma verdadeira consideração da natureza da coisa a ser reformada. Ela repudia o sistema comunista, por saber que não se pode criar um paraíso terrestre econômico mediante uma revolução, tão pouco como se pode fazer uma criança crescer acendendo-lhe uma bomba debaixo do berço.

b) Por que é que os comunistas não podem ver esse fato óbvio de que, se a religião acentuasse a passividade do homem, então nunca admitiria a terrível realidade do pecado? O pecado não significa que o homem é consciente, deliberado e ativo, e que a criatura pode levantar o seu Non serviam contra o Criador? O próprio símbolo do Cristianismo, que é a Cruz, atesta melhor do que qualquer outra coisa a atividade do homem na religião. Diante dessa Cruz o homem não pode ficar indiferente; não pode ser passivo; ou tem de pregar nela o Salvador, ou tem de subir a ela para ser crucificado com Ele. Se a religião é passiva, por que então os comunistas hão de ser tão ativos para destruí-la? Acaso organizamos exércitos para matarmos aquilo que acreditamos serem cães mortos? Se a religião é passiva, por que então incentivava o martírio entre os católicos na Espanha? Realmente, se a religião é um ópio, é uma estranha espécie de ópio que faz mártires.

c) Além disto, se for verdade que o Cristianismo lança toda a responsabilidade sobre Deus, então como explicarmos a sua filosofia do progresso técnico? De acordo com a Igreja, todo progresso na ciência e na tecnologia é devido à livre atividade do homem. Por

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que é que ela condena o quietismo, senão por ser ele bastante néscio para esperar que Deus diga por nós as nossas preces, como néscio é esperar que Deus venha em pessoa cultivar as nossas searas? Deus dá ao homem a graça para elevá-lo e sustentá-lo num estado sobrenatural; mas a invenção das suas máquinas, o incremento da sua agricultura, a melhoria da sua condição econômica deve vir dele mesmo, como causa secundária, ainda mesmo quando ele reconheça a Deus como causa primária. Um dos princípios mais básicos da filosofia católica é que o controle sobre a natureza, que é o requisito da ciência, só é possível a um espírito superior à natureza. Quer isto dizer que todo progresso científico, todo progresso técnico e adiantamento cultural procede do homem, cuja liberdade é conseqüência da espiritualidade da sua alma. Por que é que as pedras não podem conhecer? Por que é que a erva não pode pensar e refletir no seu crescimento? Por que é que o ferro, nas entranhas da terra, não pode clamar pela sua libertação? É porque essas coisas não têm um espírito desligado da sua materialidade; é porque cada uma delas está tão imersa na matéria, que não pode voltar-se sobre si mesma para jazer alguma coisa consigo mesma. Mas um homem pode justamente fazer isso; pode pensar sobre si mesmo, entristecer-se com os seus fracassos e alegrar-se com os seus êxitos, porque tem uma alma que transcende à matéria. É o espírito que o torna livre; e, pelo fato de ser livre da matéria, ele pode transformar a matéria: converter árvores em estátuas, pedras em edifícios, carvão em calor, e a insignificância de um carbono no brilho de um diamante. Porém o Comunismo, partindo do princípio de que só há matéria, é, por isso, incapaz de explicar o progresso científico, ou por que razão o homem pode edificar mil cidades diferentes, e uma formiga tem de construir sempre um formigueiro. Negar o espírito é negar a liberdade, negar a liberdade é arruinar a atividade criadora do homem — e tal é a essência do Comunismo. Daí achar-se ele na contingência de deixar inexplicada a própria

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coisa que ele exalta, ou seja o progresso técnico. Ele nos diz que a civilização muda com as suas ferramentas, mas não nos diz por que razão o homem faz ferramentas e não as fazem os esquilos. De fato, se há filosofia que torne o homem passivo, é a filosofia que diz ao homem que ele é apenas material; porquanto podeis imaginar algo mais passivo do que uma ferramenta?

d) Finalmente, a religião é dinâmica porque se interessa pelo futuro. O Comunismo assevera que os pensamentos acerca do futuro tornam o homem passivo. Se isto é verdade, por que então eles insistem tanto no Plano Qüinqüenal? É o futuro ou é o presente que faz a vaca ficar satisfeita com o seu pasto? A verdade é esta: quanto mais ideal é o futuro, tanto mais forte é o incentivo à ação. O simples fato de eu ter que tomar uma refeição amanhã não reclama grande ação da minha parte hoje. Mas o fato de eu querer ser médico ou advogado em dez anos dá-me energias para dez anos de estudo. Ora, o futuro que a religião ostenta diante do homem não é somente uma consciência tranqüila todos os dias da sua vida, mas também uma eterna recompensa na outra. Destarte o cristão é convidado a ser um homem de ação tal, que, se lhe forem dados dez talentos, deve ele ganhar mais outros dez para conquistar o reino dos céus, e, se lhe forem dados cinco, deve ele ganhar mais cinco; porém ai dele se for passivo e enterrar o seu talento dentro de um guardanapo — então, até mesmo aquilo que ele tem ser-lhe-á tirado. A religião é tão ativa que baseia o seu incentivo numa intérmina vista de perfeição. Ao cristão é dito que ele deve não somente correr a corrida ou combater o bom combate, porém ganhar; e que a coroa só virá àqueles que são bastante enérgicos para tomar uma cruz, ser benignos para com os que blasfemam, bendizer os que os perseguem e dizer "perdoai-lhes" até mesmo àqueles que nos pregam numa cruz. Isto é ação, e o comunista que disser que não é deve experimentar viver por um dia a vida ativa de um santo. Então descobrirá que, quando se rouba a

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um homem o seu ideal futuro, rouba-se a esse homem a sua força motriz para agir. Porquanto, se esta vida é tudo, então que diferença faz, para o regime comunista, que eu viva mal ou bem? Se esta vida presente é um mero sonho entre dois vácuos, então por que construir um túmulo para Lenine e não o construir para um fiel cavalo velho numa fazenda coletiva? Se ambos têm o mesmo fim, e se ambos são materiais, então por que um deve ser honrado de preferência ao outro? Certamente, no fundo dos seus corações os comunistas devem perguntar-se que lhes aproveita encherem o mundo de tratores e perderem suas almas imortais. E, do momento em que eles fizerem a si esta pergunta, começarão a ser ativos como os cristãos, planejando não somente como hão de salvar suas colheitas, mas também como hão de salvar as suas almas.

II. O COMUNISMO É O ÓPIO DO POVO!

Sucede com freqüência certos indivíduos acusarem outros de pecado, com o fim de encobrirem os seus próprios. Isto também é verdade no Comunismo. Este tem acusado a religião de ser o ópio do povo, para encobrir o fato de ser o próprio Comunismo o ópio do povo. E por que é ele o ópio do povo? Por três razões :

1) Porque explora os pobres, submetendo-os à vontade do Partido Comunista;

2) Porque adormece os pobres prometendo-lhes algo que ele nunca pode dar, a saber: um paraíso terrestre;

3) Porque torna o homem passivo, fazendo-o um instrumento do Partido Comunista.

1. O Comunismo justifica a exploração do trabalhador pelo Partido.

O Comunismo é o ópio do povo porque mascara as injustiças da exploração comunista; ou, trocando apenas uma palavra numa sentença de Lenine: "O Comunismo é uma espécie de intoxicação espiritual que fornece uma justificação para a exploração". Ele en-

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gana o proletariado dentro da crença de que eles devem sofrer tudo para estabelecer a revolução mundial, ao passo que o Partido em controle se ceva em poder, privilégio e luxo. Para compreender esta afirmação devemos considerar o fato de que há menos de três milhões de membros do Partido Comunista na Rússia, e de que, pelo terror e pela propaganda, esses poucos milhões governam cento e sessenta milhões. A máscara favorita do Partido para a exploração é o seu ódio ao capitalismo, capitalismo que ele diz ter reduzido os trabalhadores a pó. Na realidade, o Comunismo não é inimigo do capitalismo. Antes, o Comunismo tem ignorado certos aspectos benéficos do capitalismo, e tem elevado a uma filosofia da vida todas as suas formas perversas e corrompidas. O capitalismo disse que o fim econômico é o principal fim do homem; o Comunismo diz que o fim econômico é o único fim do homem. O capitalismo muitas vezes pagou ao operário um salário tão baixo, que este não podia possuir casa própria; o Comunismo paga um salário ainda mais baixo, e nega ao operário o direito de possuir sua casa. O capitalismo desenvolveu o egoísmo individual; o Comunismo gera o egoísmo coletivo. O capitalismo concentrou a riqueza nas mãos de alguns; o Comunismo concentra a riqueza nas mãos do Partido. O capitalismo até certo ponto controlou o contrato de salário, controlando a maioria dos empregos; o Comunismo elimina o contrato de salário, controlando todos os empregos; nele há só um patrão, o Partido, e, se recusardes trabalhar para esse patrão, perdereis o direito de comer — pois na Rússia não há caridade. O Comunismo é o capitalismo enlouquecido, e um comunista é um capitalista que tem ganância no coração mas não tem dinheiro no bolso.

Ponha-se uma vez a máscara do Comunismo, e a exploração dos trabalhadores é fácil; se o Plano Qüinqüenal falhar, lance-se a culpa sobre os operários nos campos, por haverem recusado cooperar com os ideais do Partido. Que pensaríamos nós se o Ministério da Agricultura fuzilasse trinta e cinco dos seus funcioná-

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rios, sem processo, por causa de um fracasso de colheita, ou se o Governo fuzilasse quarenta e oito dos seus especialistas, sem processo, por haver a produção declinado? Todavia, foi justamente isto que o Partido Comunista fez em 1930 e 1933. Que sucederia no nosso País se alguma grande organização produtora afixasse amanhã de manhã no seu quadro de avisos o Código 47 da União Soviética, para o fim de que todo empregado que faltasse ao trabalho por um dia perdesse o emprego, e ele e sua família fossem privados das suas posses (Izvestia, 21 de Novembro de 1932)? Não chamaríamos de explorador o nosso Governo se, na sua ânsia de colher uma grande safra, mesmo na área seca, publicasse uma nota proibindo os agricultores de comerem as próprias espigas de milho que eles haviam plantado e cultivado? Contudo, foi isto o que o Partido Comunista fez aos famintos lavradores das fazendas coletivas na Rússia, rezando a nota: "O culpado deve ser fuzilado e seus bens confiscados" (Izvestia, 8 de Agosto de 1932). Suponde que, por causa do decréscimo nas colheitas, o nosso Departamento de Agricultura ordenasse às crianças "guardarem os campos mesmo durante a noite, desde que tenham oito anos de idade" (Moldaia Guardia, 17 de Agosto de 1935); não seria isto uma máscara para encobrir a mais diabólica espécie de exploração? Suponde, ademais, que o Presidente confiscasse toda propriedade privada, e depois, em nome de um Brasil maior, fizesse o lavrador pagar, por uma broa ou por um pão, dezenove vezes mais do que o governo deu ao lavrador pelo seu trigo (Izvestia, 26 de Setembro de 1935)! Contudo, esta é a situação na Rússia, país sem intermediários, porém com centenas de funcionários desonestos.

Certamente, se o termo exploração pertence a alguém, deve ser aplicado àqueles que o usam mais para encobrir os seus próprios pecados, ou seja àquele país onde o Comunismo ilude o explorado trabalhador mantendo baixos os salários dos funcionários públicos e altos os seus privilégios — tais como cartões especiais, casas de férias, carros particulares, transporte especial

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e casas de luxo; — onde o operário é tão explorado para efeito de comércio exterior e de propaganda, que em 1934 o Estado produziu para cada cidadão, no seu clima frio, somente 2/5 de uma jarda de fazenda de lã e 11/10 de jardas de fazenda de linho (Izvestia, 22 de Abril de 1935), e para cada 4,5 pessoas somente um par de sapatos. A exploração torna-se nada menos que criminosa quando diz aos trabalhadores que há tanto trigo que eles não precisam mais de racionamento de pão; mas, de fato, fecha os armazéns das cooperativas onde eles podem comprá-lo a preço mais ou menos razoável, e força-os a comprar em armazéns comerciais onde se sabe que o preço é muitas vezes mais alto. Em virtude desta exploração, o Partido Comunista alardeou haver aumentado a sua renda de vinte e quatro bilhões de rublos para 1935 (Za Ind., 9 de Fevereiro de 1935). Não é, pois, de admirar que uma das anedotas mais populares na Rússia seja a de um explorado operário pendurado precariamente a um coletivo superlotado, e que, quando viu Stalin e seus ajudantes passarem perto num Rolls-Royce, observou sarcasticamente: "Eu sou o patrão. Esses são os meus caixeiros".



2. O Comunismo engana o pobre com a esperança falaz de um paraíso terrestre.

O Comunismo é o ópio do povo porque adormece os pobres prometendo-lhes algo que nunca lhes pode dar, ou seja um paraíso terrestre. Mudando apenas uma palavra numa sentença de Lenine: "O Comunismo ensina aqueles que labutam toda a sua vida em pobreza a serem resignados e pacientes neste mundo, e consola-os pelo pensamento de um paraíso terrestre". Singular espécie de paraíso esse, que é inaugurado pelo morticínio, pelo exílio e pelo confisco; estranha espécie de paraíso esse, que espera estabelecer a fraternidade pregando a luta de classes, e estabelecer a paz praticando a violência. Estranha espécie de paraíso esse que tem de recorrer ao temor e à tirania para impedir que alguém "escape" dele. Um anjo teve de

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conduzir Adão e Eva para fora do Éden; mas parece que tantos foram os que tentaram escapar do paraíso de Stalin, que este publicou um decreto no Izvestia de 9 de Junho de 1934, para o efeito de que, se alguém tentasse fugir, a sua família inteira seria mandada para o exílio e para o trabalho forçado por cinco anos, mesmo se não soubesse nada da intenção dele; também seria privada dos direitos eleitorais, o que significava perda dos cartões de alimentação. Estranho paraíso esse em que, no meio de uma fome, Kalinin, o Presidente da U. S. S. R., disse aos camponeses que as colheitas eram pequenas porque eles comiam pão demais (Izvestia, 10 de Janeiro de 1936). O Comunismo é realmente o ópio do povo quando, de um lado, permite que pelo menos cinco milhões de pessoas morram de fome na Ucrânia e no norte do Cáucaso pelo fato de o Estado exigir dos operários duas ou três vezes a safra dos anos anteriores; e, de outro lado, anuncia no seu jornal, o Pravda (28 de Julho de 1933) : "A União Soviética é o único país no mundo que não conhece a pobreza". Não admira que o povo russo diga que não há Verdade (Pravda) nas Novidades (Izvestia) e não há Novidades na Verdade.

O Comunismo é realmente o ópio dos pobres quando lhes diz que aboliu completamente o desemprego na Rússia, embora ocultando o trágico fato de que qualquer país estaria sem desemprego se houvesse nele conscrição de trabalho em massa. Lá, o homem desempregado tem de aceitar trabalho onde quer que este lhe seja oferecido, mesmo quando a mil milhas de distância, porque não há senão o Estado que emprega; e, se o operário recusar o emprego, não poderá ir para nenhum outro lugar. O Brasil também poderia abolir o desemprego se o Presidente assumisse poderes ditatoriais e declarasse que cada cidadão tinha de fazer para o Estado um trabalho prescrito, em troca de comida e de roupa. Chamberlin, que passou doze anos na Rússia, declarou que as famílias socorridas na América estão em melhores condições do que muitos dos lavradores russos. Knickerbocker, jornalista ameri-

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cano, comparando o custo de vida na U. S. S. R. e nos Estados Unidos, avaliou o salário diário de um kolkhozian (lavrador numa fazenda coletivista) em oito centavos americanos. Para que essa estimativa não seja considerada falsa, seria bom reportar-se ao Jornal de Instrução Comunista (publicação comunista, 18 de Novembro de 1934), onde é declarado que um lavrador que conserva consigo uma vaca deve dar ao Estado, por esse privilégio, 136 quartilhos de leite e 50 libras de carne. O salário médio de um trabalhador na Rússia é de 225 rublos por mês. Uma indicação do poder de compra desse salário é proporcionada pelo fato de ser preciso o salário de três semanas para comprar um par de sapatos (Sovietskaia Torgovlia, Ns. 99 e 110, 1936). Há algumas cidades na Rússia onde é quase impossível comprar umas calças, p. e., Kharkov, Gorki, Rostov (Izvestia, 10 de Março de 1936). O diário oficial de Moscou diz: "Nenhum armazém em Moscou pode dizer quando será possível fornecer mercadoria" (Izvestia, 28 de Junho de 1936). Mikoyan, o Comissário da Indústria de Alimentação, disse: "Na República Soviética estamos acostumados a ter somente mercadorias de má qualidade, e sempre em quantidades insuficientes" (Izvestia, 27 de Dezembro de 1935). Soulimov, Presidente dos Comissários do Povo, disse: "Tudo está a um nível muito baixo, exceto os preços, que são exorbitantes" (Pravda, 31 de Julho de 1936).

E assim a citação de fatos poderia prosseguir indefinidamente. Todos eles contam a mesma história, a saber: o Comunismo é o ópio do povo porque explora os pobres prometendo-lhes o impossível, mesmo nesta vida. A Religião, é verdade, faz crer numa vida futura; mas nunca pediu aos homens que, na esperança de uma sorte futura, se resignassem a condições tais como existem na Rússia. Quem quer que leia o autorizado livro do Dr. Ewald Ammende, A Vida Humana na Rússia (Alien and Unwin, 1936, Londres), verá como os russos se acham mal sob o domínio dos comunistas. As fotografias das vítimas da fome por si só contam uma história, independentemente do texto. Ali não so-

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mente sofre a vida humana, mas sofre até mesmo a vida animal.


3. O Comunismo escraviza o cidadão, reduzindo-o a mero instrumento do Partido.

O Comunismo é o ópio do povo porque, colocando toda iniciativa e responsabilidade sobre o Partido, destrói a personalidade do homem, e o torna passivo. Nos países do mundo, tais como o nosso, onde o governo é distinto de um partido, um homem é livre de afirmar a sua personalidade e de escolher o seu destino. Sob o Comunismo, só há um partido, e é o Partido Comunista. Suponhamos por exemplo que no Brasil o Partido Democrático estivesse no poder; suponhamos que os membros desse partido exilassem ou matassem todos os membros dos outros partidos como "contra-revolucionários"; poderíamos dizer que um cidadão sob tal regime era livre de afirmar a sua personalidade? E, no entanto, tal é a filosofia do Comunismo, onde há somente um partido, e esse partido é o governo. Necessariamente o homem tem de ser passivo sob um sistema que também afirma que as leis econômicas são as determinantes da cultura, e que não são as idéias, porém as mudanças de ferramentas, que determinam as mudanças de civilização.

Paralelo entre Cristianismo e Comunismo.

Note-se a diferença entre a visão Cristã e a visão Comunista do homem:

a) Para o Cristão, o homem é livre, porque a sua iniciativa vem de dentro, a saber, da sua alma. Ele pode ser comparado a um capitão de navio, que é livre de traçar o seu próprio curso e de escolher o seu próprio porto.

b) Para o Cristão, o homem é um sujeito. Um sujeito pode determinar suas ações, como o artista pode livremente pintar quaisquer pinturas que escolher.

c) Para o Cristão há duas espécies de unidade: unidade político-econômica, e unidade orgânico-espiritual,

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pela qual nós somos membros uns dos outros no Corpo Místico de Cristo.

d) Para o Cristão, o homem é um cidadão de dois mundos, e, em virtude do segundo, ele possui certos direitos inalienáveis, tais como a vida, a liberdade e a propriedade, dos quais nenhum Estado pode privá-lo.

e) Para o Cristão, o homem existe não somente no presente, mas também no futuro. A personalidade é independente do tempo, porque tem um valor intrínseco em todos os tempos.

f) Para o Cristão, o homem deve determinar a natureza da sociedade e ser o senhor desta.

a) Para o Comunista, o homem não é livre, porque a sua iniciativa vem de fora, i. é, do Partido, que dita não somente o que ele deverá fazer, mas também o que deverá pensar. Ele é como o leme de um navio, que vai para onde quer que o dirija o comandante, que é o ditador do Partido.

b) Para o Comunista, o homem é um objeto. Um objeto não pode agir, mas é acionado como um autômato social, e torna-se como o cinzel na mão de um escultor.

c) Para o Comunista, só há uma espécie de unidade — a unidade político-econômica, que é realizada não de dentro, por laços espirituais, mas de fora, pela força, pelo terror e pela propaganda.

d) Para o Comunista, o homem é cidadão de um só mundo, e, desde que o Estado é tudo, daí se segue que o homem não tem direitos salvo aqueles que o Estado lhe deu. Por conseguinte, quando o entender, pode o Estado tirar-lhe esses direitos.

e) Para o Comunista, a personalidade é relacionada ao tempo. O homem é alienado da sua humanidade no presente, para atingir uma humanidade duvidosa num paraíso terrestre no futuro. Tal como o expõe Lenine: "Durante o período da ditadura em que não haveria liberdade, o povo acostumar-se-ia às novas condições e sentir-se-ia livre numa sociedade comunista" (O Estado e a Revolução).

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f) Para o Comunista, o homem é determinado pela sociedade, completamente absorvido e possuído por ela, e nela perde a sua identidade como uma gota de água perde a sua identidade num copo de vinho. Em vez de ser o senhor da sociedade, ele é o escravo dela.

Em resumo: O conceito cristão do homem é ativo — o homem é livre; o conceito comunista do homem é, necessàriamente, passivo — o homem é um animal social obediente, cuja mais alta função é realizar o Piatiletka (Plano Qüinqüenal). Destarte sucede que o Comunismo, que começou por protestar contra a desumanidade do capitalismo, acabou por descapitalizar o capitalismo com a sua própria desumanidade. O homem, para o Comunismo, não é um espírito livre, uma personalidade, porém função de um processo social. O que é primário no Comunismo é o Partido, e o Partido controla o Estado. Criando uma opinião pública que ele representa como a única possível, o Estado Soviético torna impotente a vontade do indivíduo, e guia na direção que bem lhe aprouver a vontade, aparentemente espontânea e livre, das massas. Mesmo na nova Constituição proposta na Rússia, aos cidadãos não será permitido votar em diferentes partidos, mas somente em diferentes homens do mesmo partido. Que protesto não fariam os brasileiros se cada eleição fosse uma nomeação, e se eles só pudessem votar numa chapa! Como Troud, o órgão oficial dos operários soviéticos, o expõe: "A diferença essencial entre a existência de partidos no Mundo Ocidental e no nosso pais é a seguinte: um partido está no poder e todos os outros estão na prisão" (13 de Novembro de 1927). O Comunismo criou uma instituição especial para tornar o homem passivo ao Partido, e tão cruel foi a perversidade dela, que, por amor da opinião mundial,, julgou-se necessário mudar-lhe o nome de vez em quando; primeiramente foi a Cheka, depois a Ogpu, e agora é o Comissariado Interno. Em 1931, quando Lady Astor se encontrou com Stalin, perguntou-lhe à queima-roupa: "Por quanto tempo ainda vai o sr. continuar matando gente?" Apanhado desprevenido, Stalin respondeu: "Por tanto tempo quanto for necessário".

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A subida de Stalin ao poder.

Mas poderíamos prosseguir, perguntando: necessário para quê? E a resposta seria: necessário para a vontade do Partido. E quem é a vontade do Partido? São os indivíduos que o controlam. As lutas aparentemente profissionais por trás de diferentes ideologias, na realidade, são apenas a capa de lutas pelo poder promovidas por diferentes indivíduos, sendo a vítima em cada caso o cidadão-títere. A luta entre os exilados Trotsky, Kamenev, Zinoviev (este último que concebeu a idéia de mumificar Lenine) e Stalin é uma triste história de ambição pessoal. Lenine, como deverá ser lembrado, declarou expressamente no seu testamento que Stalin era demasiado inclinado a concentrar o poder em suas mãos, para poder ser seu sucessor. Como foi que Stalin se tornou ditador, isto é a história de como Stalin mentiu a Trotsky sobre a data do funeral de Lenine, é a história de como ele foi bem sucedido, no Terceiro Congresso, em fazer que o testamento fosse lido perante uma comissão escolhida a dedo, e não no plenário; é por isto que o testamento de Lenine ainda não foi publicado na Rússia.

O verdadeiro ópio do povo.

Não há ópio pior do que aquele que adormece as personalidades de uma nação reduzindo-as ao estado de formigas que não têm direitos que o Estado seja obrigado a respeitar. Enquanto o direito do indivíduo de gozar de liberdade não for considerado como superior à vontade do Partido, e enquanto a verdade não significar alguma coisa mais do que aquilo que o Estado prescreve, e a falsidade alguma coisa mais do que aquilo que o Estado opõe; enquanto a justiça não significar mais do que a mantença de poder do Partido; enquanto a paz não significar mais do que uma ditadura de ferro; — o Comunismo deve estar preparado para ser chamado, o que na verdade é, o ópio do povo. E não o é somente tornando o homem passivo e inerte, é também martirizando-lhe a natureza, tentando que-

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brar o molde em que Deus o vazou e expulsar dele a humanidade pela força, como Pilatos, flagelando a Cristo, tentou expulsar dele a divindade.

Imaginando o Brasil sob o regime comunista.

Suponhamos por exemplo que no Brasil houvesse somente um partido; que esse partido se mantivesse no poder por meio da Polícia, do Exército e da Marinha; e que cada senador ou deputado que criticasse esse partido fosse exilado ou morto; suponhamos que o Presidente estabelecesse uma censura tal como existe na Rússia, e que todo livro que fosse publicado e todo jornal que fosse impresso e todo programa de teatro que fosse distribuído tivesse de glorificar o partido e de trazer o Imprimatur deste; suponhamos, além disso, que o Presidente controlasse toda estação de rádio e toda agência de informações, e não permitisse entrarem no Brasil livros ou revistas estrangeiras que criticassem o seu partido; e suponhamos que qualquer suspeita de falta de simpatia expusesse a pessoa à perda do seu emprego, e o fato de haver pertencido a um partido oposicionista condenasse a pessoa ao exílio; suponhamos que a polícia pudesse punir alguém sem processo; suponhamos que todas as nossas casas, fábricas, fazendas e terras fossem postas nas mãos do partido, para este fazer delas o que bem entendesse, e que as nossas igrejas fossem convertidas em celeiros e museus — suponhamos todas estas coisas como acontecendo aqui no Brasil e teremos uma pintura do que sucedeu na Rússia. E, se eu vos perguntasse o que deveria acontecer-vos antes de renderdes a vossa atual liberdade e independência — vós diríeis que primeiramente teríeis de ser prostrados inconscientes. Foi isso justamente o que o Comunismo fez na Rússia com a sua propaganda — prostrou-os na inconsciência.

Que é o ópio? É uma droga que amortece as potências intelectuais do homem, mas deixa continuarem as suas funções animais e vegetativas. Um homem sob a influência dele não pode pensar, mas pode digerir;

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não pode querer, mas ainda pode respirar. Por outras palavras, é como um animal e não como um homem.

Ora, qual dos dois merece ser chamado ópio — a religião ou o Comunismo? A religião pede intelecto; começa pedindo ao homem usar a sua razão para descobrir o grande Legislador por trás da lei, o grande Pensador por trás de todo pensamento, a Beleza Perfeita por trás de toda poesia. Feito isto, pede à razão estabelecer critérios científicos para julgar a possibilidade de haver-se Deus alguma vez revelado a nós de qualquer outro modo que não pela sua atividade criadora; e, uma vez estabelecidos estes critérios, aplica-os Àquele que apareceu na terra e pretendeu ser o Criador do mundo. Só depois que esse Pretendente provou a sua Divindade por coisas divinas, racionalmente reconhecíveis, é que o intelecto opera a sua submissão à verdade d'Ele. Depois, pegando do telescópio da fé, que não destrói a razão como o telescópio material não destrói o olho, ele entra em comunicação com outros mundos com que a razão nunca sonhou. Isso é a religião — e uma religião assim pede que o homem conserve bem viva a sua razão.

Porém o Comunismo adormece a razão; diz ao homem que não procure uma causa para este mundo, que não se admire de que a gente tenha medo de morrer, que não pergunte por que é que uma ação má enche de remorso a consciência, e uma ação boa a enche de paz. Diz ao homem que tudo o de que ele precisa para ser um cidadão no Estado Comunista é ter um estômago e duas mãos; por outras palavras, é ser um animal econômico a amontoar riqueza para o Estado, e depois morrer, como uma besta, mesmo sem ter um Zinoviev para o mumificar. Todo regime que faz isto a seres humanos está-lhes negando aquilo que os diferencia dos animais, e está criando uma nova escravidão em que a mente e a vontade são atadas com grilhões — escravidão mil vezes mais amarga do que a escravidão do corpo. Os governos do mundo estão gradualmente fechando o cerco àqueles que traficam em narcóticos e drogas; e muito breve os povos inteligen-

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tes do mundo atentarão sobre o mal feito pelo ópio que vem da Rússia e da propaganda comunista. Esse ópio já arruinou milhões de pessoas na Rússia, mas não se deve permitir que arruíne o mundo.

A guerra do Comunismo contra a religião.

A guerra do Comunismo contra a religião continuará — não num plano intelectual, mas num plano muscular e militar, ou seja no plano da força. Eles não podem atacar inteligentemente a religião. Eles nunca conseguiram sequer o direito de discutir sobre ela, porque nada conhecem dela. Resta, pois, perguntar que fará a força deles? Botarão Deus para fora do céu? Acaso a sua violência esvaziará dos anjos o céu? A resposta é: Não! Eles apenas deixarão devastada a terra.

Vimo-los proscreverem a religião na Rússia, desterrarem o seu clero e matarem o seu povo; vimo-los fecharem as igrejas do México; vimo-los crucificarem padres na Espanha, abrirem os túmulos de Religiosas e espalhar-lhes os restos diante das portas da catedral. Vimos os seus museus anti-religiosos; lemos a sua literatura anti-Deus; mas tudo o que os vimos e ouvimos fazer e dizer contra a religião não nos convenceu de que não há Deus. Eles apenas nos convenceram de que há Demônio!

ÍNDICE

Introdução — O Comunismo é essencialmente anti-religioso....................................................... 3

I. A Religião é o ópio do povo? ........................................................................................ 4

A argumentação comunista .................................................................................................. 4

1. "Religião, patrocinando a causa dos ricos" ........................................................................... 4

2. "Religião, sedativo dos pobres" ......................................................................................... 5

3. "Religião, entorpecente da humanidade" ............................................................................ 5

Uma distinção a fazer .......................................................................................................... 6

Refutação dos argumentos comunistas .................................................................................. 8

1. A Religião e os ricos ........................................................................................................ 8

2. A Religião, defensora dos pobres ..................................................................................... 10

3. A Religião, estimuladora das atividades humanas.................................................................. 13



II. O Comunismo é o ópio do povo! ................................................................................ 17

1. O Comunismo justifica a exploração do trabalhador pelo Partido ............................................ 17

2. O Comunismo engana o pobre com a esperança falaz de um paraíso terrestre ........................ 20

3. O Comunismo escraviza o cidadão, reduzindo-o a mero instrumento do Partido ....................... 23

Paralelo entre Cristianismo e Comunismo ............................................................................... 23

A subida de Stalin ao poder ................................................................................................ 26

O verdadeiro ópio do povo ................................................................................................. 26

Imaginando o Brasil sob o regime comunista........................................................................... 27

A guerra do Comunismo contra a religião .............................................................................. 29


[1] N. do T. — Do Cáucaso.

OBS: a paginação citada segue a obra original.


Título do original: Communism: The Opium of the People

Copyright. 1937 by Saint Anthony's Guild, Paterson, N.Y.

Adaptação brasileira, autorizada



IMPRIMATUR POR COMISSÃO ESPECIAL DO EXMO. E REVMO. SR. DOM MANUEL PEDRO DA CUNHA CINTRA, BISPO DE PETRÓPOLIS.

FREI LAURO OSTERMANN, O. F. M. PETRÓPOLIS, 10-IV-1952.

Idade média: idade das trevas?

Conhecendo a Idade Média

http://www.institutosapientia.com.br/site/index.php?option=com_content&view=article&id=1360:conhecendo-a-idade-media&catid=28:outros-artigos&Itemid=285

É inteiramente razoável, digo, que não saibam História: mas por que raios pensam que sabem? Aqui está uma opinião, tomada a esmo do livro de um dos mais cultos dentre os nossos jovens críticos, obra muito bem escrita e inteiramente digna de confiança – quando trata do seu próprio tema, que é um tema moderno. Diz esse escritor: “Na Idade Média, houve pouco ou nenhum avanço social ou político” até a Reforma e a Renascença.

Ora, eu poderia igualmente bem afirmar que, no século XIX, houve pouco avanço na ciência e na técnica até a vinda de William Morris[1], e depois justificar essa afirmação dizendo que não tenho nenhum interesse pessoal por teares a vapor ou águas-vivas – o que certamente é o caso. Porque isto é tudo o que o escritor realmente quis dizer: que não tem nenhum interesse pessoal por arautos ou abades mitrados. Tudo isso está muito bem; mas por que, ao escrever sobre coisas que não existiam na Idade Média, esse autor sente a necessidade de dogmatizar sobre um assunto de que evidentemente nunca ouviu falar? E sobre o qual, apesar de tudo, talvez ainda se pudesse contar uma História muito interessante?

Pouco antes da conquista pelos normandos[2], países como o nosso apresentavam um feudalismo ainda incipiente e completamente pulverizado, sulcado por contínuas ondas de bárbaros, bárbaros que nunca tinham montado um cavalo. Praticamente não havia casa de pedra ou de tijolo na Inglaterra; quase não havia estradas, apenas sendas batidas; praticamente não havia lei, apenas costumes locais. Essa era a Idade das Trevas, da qual surgiria a Idade Média.

Mas tomemos agora a Baixa Idade Média, duzentos anos depois da conquista normanda e praticamente outro tanto antes do início da Reforma. As grandes cidades surgiram; os cidadãos são privilegiados e importantes; os trabalhadores organizaram-se em Corporações de Ofício livres e responsáveis; os Parlamentos são poderosos e litigam com os próprios reis; a escravidão desapareceu quase por completo; abriram-se as grandes Universidades, que ministram esse programa de ensino tão admirado por Huxley[3]; repúblicas tão orgulhosas e patrióticas como as dos antigos pagãos erguem-se como estátuas de mármore ao longo da costa mediterrânea; e por todo o norte os homens construíram igrejas tão grandiosas que os homens talvez nunca mais as igualem. E isso – que, na sua maior parte, foi realizado mais propriamente não em dois, mas em um século –, é a isso é o que o nosso crítico chama “pouco ou nenhum avanço social ou político”. Praticamente não há instituição moderna importante que tenha influenciado a sua vida – da escola em que estudou ao Parlamento que o governa –, que não teve os seus principais avanços na Idade Média.

Se alguém pensa que escrevo isso por pedantismo, espero poder mostrar-lhe em um momento que tenho um objetivo mais humilde e mais prático. Quero considerar a natureza da ignorância, e começo por dizer que, em qualquer sentido escolar e acadêmico, sou eu mesmo muito ignorante. Assim como dizemos de um homem como Lord Brougham[4] que tinha um grande conhecimento geral, eu diria que tenho uma grande ignorância geral.

Só que este é exatamente o ponto a que pretendia chegar. É um conhecimento geral e uma ignorância geral: sei pouco de História, mas sei um pouco de quase toda a História. Não sei muito, digamos, sobre Martinho Lutero e sua Reforma, mas sei que ela fez uma diferença enorme; ora, não saber que o rápido progresso dos séculos XII e XIII fez uma diferença enorme é pelo menos tão extraordinário como nunca ter ouvido falar de Martinho Lutero. Também não estou muito bem informado sobre os budistas, mas sei que se interessam por filosofia; não saber que os budistas se interessam por filosofia, acredite em mim, seria tão chocante como não saber que os medievais se interessavam pela experimentação e pelo progresso políticos.

Da mesma forma, não sei muito sobre Frederico o Grande. Na minha infância, a enorme coleção de volumes de Carlyle sobre o assunto inspirava-me medo: parecia haver tantas coisas a conhecer! No entanto, apesar desses receios, eu seria perfeitamente capaz de adivinhar, com uma razoável probabilidade de acerto, o tipo de assunto que esses volumes continham. Por exemplo, eu arriscaria (penso que não incorretamente) que os volumes deviam conter a palavra “Prússia” em um ou mais lugares; que, de tempos a tempos, se falaria de guerra; que se faria alguma menção de tratados e fronteiras; que a palavra “Silésia” poderia ser encontrada caso se procurasse diligentemente, bem como os nomes de Maria Teresa e Voltaire; que em algum lugar de todos aqueles volumes, o seu grande autor diria se Frederico o Grande tivera um pai, se chegara a casar-se, se possuíra grandes amigos, se tivera algum hobby ou aficção literária de qualquer tipo, se havia morrido no campo de batalha ou na cama, e assim por diante. Se eu tivesse reunido coragem suficiente para abrir um daqueles volumes, provavelmente teria encontrado alguma coisa, ao menos nessas linhas gerais.

Agora, troque a imagem; imagine o jornalista ou homem de letras comum, jovem e bem educado, recém-saído de uma escola pública ou faculdade, parado diante de uma coleção ainda maior de livros ainda maiores das bibliotecas da Idade Média – digamos, todos os volumes de São Tomás de Aquino. Digo-lhe que, de nove casos em dez, aquele jovem bem-educado não tem a menor noção do que iria encontrar naqueles volumes encadernados em couro. Pensa que irá encontrar discussões sobre as capacidades dos anjos de se equilibrarem sobre pontas de agulhas, e talvez o fizesse. Mas afirmo que ele não pensa – nem de longe – que irá encontrar um professor universitário a discutir quase todas as coisas que Herbert Spencer discutiu: política, sociologia, formas de governo, monarquia, liberdade, anarquia, propriedade privada, comunismo, e todas as variadas idéias que, no nosso tempo, se dedicam a brigar em nome do futuro “socialismo”.

Igualmente, não sei muito sobre Maomé ou o maometanismo. Não levo o Alcorão para ler na cama toda noite. Mas, se em determinada noite o fizesse, há pelo menos um sentido em que sei o que não encontrarei nele. Suponho que a obra não transbordará de fortes encorajamentos ao culto dos ídolos; que não se cantarão ali em alta voz os louvores do politeísmo; que o caráter de Maomé não será submetido a nada que se parece com o ódio e o ridículo; e que a grande doutrina moderna da irrelevância da religião não será enfatizada sem necessidade.

Mas troque novamente a imagem, e imagine o homem moderno (o pobre homem moderno) que tivesse levado um volume de teologia medieval para a cama. Ele esperaria encontrar ali um pessimismo que não há, um fatalismo que não há, um amor à barbárie que não há, um desprezo pela razão que não há.

Aliás, seria na verdade muito bom que fizesse a experiência. Far-lhe-á bem de uma forma ou de outra: ou o fará dormir – ou o fará acordar.



[1] William Morris (1834-1896): Artista e escritor inglês, contribuiu com grande sucesso para a valorização e o aprimoramento das mais variadas formas de arte (desde a decoração até a arquitetura e a iluminura), chegando mesmo a fundar empresas bem-sucedidas nesse ramo (entre elas, a tipografia Kelmscott Press, em 1890). Ao fim da vida, deixou de lado os seus êxitos artísticos e empresariais para dedicar-se a difusão de idéias socialistas.

[2] A conquista da Inglaterra pelos normandos comandados por Guilherme o conquistador ocorreu no ano de 1066.

[3] Thomas Henry Huxley (1825-1895): biólogo inglês, amigo de Charles Darwin e um dos maiores defensores e divulgadores da teoria evolucionista, o que fez especialmente através do seu livro Man´s Place in Nature (“O lugar do homem na natureza”, 1863), em que pela primeira vez os princípios do evolucionismo são aplicados ao homem.

[4] Henry Peter, Lord Brougham (1778-1868): político britânico nascido em Edimburgo. Suas numerosas obras, às vezes contraditórias entre si, cobriram quase todos os ramos do conhecimento da época, tendo ele escrito sobre Filosofia, Teologia, Economia e até Matemática. Destacou-se também por ter fundado revistas e sociedades de difusão do conhecimento e por ter realizado reformas no Parlamento britânico.
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