quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Espelho da Perfeição - Capítulos XXXI a XL.


Capítulo 31.Como, sob condição, deu o manto novo a um pobre.

1 Em Celle di Cortona, São Francisco usava um manto novo que, com esforço, os frades haviam adquirido para ele. Um pobre chegou ao lugar, chorando a morte da mulher e a pobre família abandonada (cf. Sl 10,4). 2 Tomado de compaixão, o santo disse-lhe: “Dou-te este manto, com a condição de que não o dês a ninguém, a não ser que o compre bem e te pague”. 3 Ouvindo isso, os frades correram até o pobre para tomar-lhe o manto. 4 Mas o pobre, tomando coragem (cf. 2Cr 17,6) diante do santo pai, defendia-o com as duas mãos, como seu. Finalmente, os frades resgataram o manto, entregando ao pobre o preço devido.

Capítulo 32. Como um pobre, em virtude da esmola do bem-aventurado Fran­cisco, perdoou as injúrias e deixou de odiar a seu senhor.

1 Em Colle, no condado de Perusa, São Francisco en­controu um pobre que conhecera antes, no século, e lhe disse: “Irmão, como estás?” 2 E ele, enfurecido, começou a proferir mal­dições contra seu senhor, dizendo: “Graças a meu amo, que o Se­nhor o amaldiçoe (cf. Gn 5,29), só posso ir mal (cf. Mt 4,24), pois me roubou tudo que era meu!”

3 Vendo o bem-aventurado Francisco que ele persistia num ódio mortal, teve pena de sua alma e disse-lhe: “Irmão, por amor de Deus, per­doa a teu senhor, para que libertes tua alma (cf. Est 4, 13), e é pos­sível que ele restitua o que te tomou (cf. Ex 22,12); caso contrá­rio, perdeste as tuas coisas e perderás a tua alma” (cf. Lc 9,24). 4 Ele disse: “Simplesmente não posso perdoar, a não ser que antes devolva o que me tomou”. Então o bem-aventurado Francisco lhe disse: “Eis que te dou este manto e te peço que, por amor de Deus, perdoes a teu senhor”.

5 Imediatamente, o coração dele se apaziguou e, movido pelo benefício, perdoou as injúrias do seu senhor.

Capítulo 33. Como mandou o manto a uma mulher pobrezinha, que sofria dos olhos, como ele.

1 Uma mulher pobrezinha de Maquilone veio a Rieti por cau­sa da doença dos olhos. Quando o médico chegou a bem-aventurado Francis­co, disse-lhe: “Irmão, uma mulher, que sofre dos olhos, veio a mim; mas é tão pobre que devo pagar-lhe as despesas”.
2 Ouvindo isso, logo foi tomado de compaixão por ela (cf. Lc 7,13) e, chamando um dos frades, que era seu guardião, dis­se-lhe: “Irmão guardião, é preciso que restituamos o alheio”. 3 Este disse: “Que alheio é esse, irmão, irmão?” E ele respondeu: “Este manto, que tomamos emprestado (cf. Lc 6,34) desta mu­lher pobrezinha e doente. E preciso que o restituamos a ela”. E o guardião disse-lhe: “Irmão, faze como melhor te parecer”.

4 Então, com alegria, o bem-aventurado Francisco chamou um amigo seu, homem espiritual, e lhe disse: “Toma este man­to e doze pães e vai àquela mulher pobrezinha, doente dos olhos, que o médico vai te indicar, 5 e dize a ela: “O pobre a quem emprestaste este manto te agradece pelo empréstimo; toma o que é teu” (cf. Mt 20,14).

6 Ele foi e disse à mulher tudo o que o bem-aventurado Francisco lhe disse­ra. Mas ela, pensando que estava sendo enganada, com temor e vergonha, disse-lhe: “Deixa-me em paz (cf. 1 Sm 20,13); pois não sei o que dizes” (cf. Mt 26,70). 7 Mas ele pôs o manto e os dozes pães nas mãos dela. E ela, vendo que ele dizia a verdade, acei­tou-os com temor e respeito, alegrando-se e louvando o Senhor. 8 E, temendo que o tomassem dela, levantou-se de noite às escon­didas e voltou com alegria para sua casa. São Francisco, porém, já combinara com o guardião que, todos os dias, enquanto per­manecesse ali, pagasse as despesas dela.

9 E nós que vivemos com ele (cf. 2Pd 1,18) damos testemunho (cf. Jo 21,24) que demonstrou muita caridade e compaixão com doentes e sãos, não só em relação a seus frades, mas também em relação a outros pobres sãos e enfermos. 10 E, quanto às coisas que eram necessárias a seu corpo, que às vezes os frades conse­guiam com grande solicitude e esforço, ele primeiro nos confor­tava para que não nos afligíssemos e, depois, com muita alegria interior e exterior, dava-as aos pobres, privando-se delas, mesmo que lhe fossem muito necessárias.

11 Por causa disso, o ministro geral e seu guardião ordenaram-lhe que a nenhum irmão desse sua túnica sem a licença deles. 12 Pois os frades, levados pela de­voção, às vezes, lhe pediam a túnica, e ele imediatamente lha dava; mas às vezes a dividia e dava uma parte e guar­dava a outra para si, porque tinha apenas uma túnica.

Capítulo 34. Como deu a túnica aos frades que a pediram por amor de Deus.

l Certa vez, enquanto andava pregando numa região, dois frades franceses se encontraram com ele. Depois de receberem dele uma grande consolação, por fim lhe pediram a tú­nica, por amor de Deus. 2 Assim que ouviu “por amor de Deus”, despiu a túnica e a deu a eles, ficando despido por algum tempo.

3 Pois quando se apelava para o amor de Deus, seja que lhe pe­dissem a corda, a túnica ou qualquer outra coisa, jamais dizia não a ninguém. E até muito lhe desagradava e, com freqüência, repreen­dia os frades, quando os ouvia pronunciar inutilmente, por qual­quer coisa, o amor de Deus. 4 Pois dizia: “O amor de Deus é tão sublime e precioso que deveria ser dito raramente, por grande necessidade e com muita reverência”.

5 Mas um daqueles frades despiu sua túnica e a deu a ele. 6 E também, quando dava a túnica ou parte dela a alguém, passava grande necessidade e tribulação, porque não podia obter ou fazer outra tão rapidamente, 7 sobretudo porque sempre queria ter uma túnica pobrezinha, remendada de retalhos, às vezes por dentro e por fora; e mais, nunca ou raramente queria usar uma túnica de te­cido novo, mas tomava a túnica que outro frade havia usado por algum tempo. 8 E às vezes até recebia uma parte da túnica de um frade e a outra parte de outro frade. Devido, porém, às suas mui­tas enfermidades e ao esfriamento do estômago e do baço, re­mendava-a por dentro com pano novo. 9 Conservou e observou este tipo de pobreza nas suas roupas até o ano em que mi­grou para o Senhor. 10 Mas poucos dias antes de morrer, visto que era hidrópico e quase todo mirrado e devido a muitas outras do­enças que tinha, os frades lhe fizeram várias túnicas para que, de­vido à necessidade, pudesse mudá-la de dia e de noite.

Capítulo 35. Como, às escondidas, quis dar a um pobre um pano.

1 Noutra ocasião, um pobre foi ao lugar onde estava o bem-aventurado Francisco e, por amor de Deus, pediu aos frades um retalho de pano. 2 Ouvindo isso, o bem-aventurado Francisco disse a um frade: “Procura pela casa e vê se podes encontrar algum retalho ou pano, e dá-o ao po­bre”. Percorrendo toda a casa, o frade disse que não tinha encontrado. 3 Mas, para que o pobre não voltasse de mãos vazias (cf. Sir 29,12), o bem-aventurado Francisco foi às escondidas, para que o guardião não o proibisse, 4 tomou uma faca e, sentando-se num lugar secreto, começou a tirar um pedaço da sua túnica que estava costurado por dentro, querendo dá-lo ocultamente ao pobre. 5 Mas, perce­bendo isso, imediatamente o guardião foi até ele, proibindo-lhe dar o pano, sobretudo porque fazia grande frio e ele estava do­ente e muito enregelado. 6 Então, São Francisco lhe disse: “Se que­res que eu não lhe dê este retalho, é absolutamente preciso que mandes dar outro retalho ao irmão pobre”. E assim, por causa do bem-aventurado Francisco, os frades deram àquele pobre um pano tira­do de suas roupas.

7 Quando andava pelo mundo a pregar, quer a pé, quer monta­do num burro, depois que começou a ficar doente, ou num cava­lo, em caso de grande e estrita necessidade, pois de outra forma não queria cavalgar, e isso pouco antes de sua morte, 8 se um fra­de lhe emprestava um manto, não queria aceitá-lo, a não ser que pudesse doá-lo a algum pobre que encontrasse ou que viesse a ele, sempre que seu espírito lhe desse testemunho (cf. Jo 1,7) de que lhe era necessário.

Capítulo 36. Como disse a Frei Egídio, antes de ser recebido, que desse seu manto a um pobre.

1 Nos primórdios da religião, quando morava em Rivotorto com dois frades, os únicos que tinha até então, eis que um homem, chamado Egídio, que foi o terceiro frade, veio do mun­do até ele, para abraçar sua vida. 2 Permaneceu ali por alguns dias, vestindo as roupas que havia trazido do século. Aconteceu que um pobre chegou àquele lugar, pedindo esmola a São Francisco. 3 Este, voltando-se para Egídio, disse-lhe: “Dá ao irmão pobre o teu manto”.

4 Imediatamente, com grande alegria, ele o tirou de suas costas e o deu ao pobre. Então, viu-se que logo Deus fez descer uma nova graça no seu coração, porque dera com alegria (cf. 2Cor 9,7) o manto ao pobre. 5 E assim, recebido pelo bem-aventurado Francisco, progrediu sempre na virtude até alcançar a maior perfeição.

Capítulo 37. A penitência que impôs ao irmão que julgou mal um pobre.

1 Quando o bem-aventurado Francisco foi pregar num lugar dos frades, perto de Rocca di Brizio, aconteceu que no próprio dia em que devia pregar, um pobre doente se apresentou a ele. 2 Movido de grande compaixão, começou a falar com seu companheiro sobre a pobre­za e a doença do homem. Seu companheiro disse: “Irmão, é verdade que ele parece bastante pobre, mas, talvez, em toda a região não exista ninguém que mais deseje ser rico do que ele”.

3 Logo, duramente repreendido pelo bem-aventurado Francisco, disse sua culpa. E o bem-aventurado Francisco disse-lhe: “Queres fazer a penitência que te imporei por causa disso?” Replicou ele: “Farei de boa vontade”. 4 Disse-lhe: “Vai, despe tua túnica e lança-te nu aos pés (cf. Mt 15,30) do po­bre, dize-lhe que pecaste, falando mal dele, e pede-lhe que reze por ti”.

5 Ele foi e fez tudo o que lhe dissera o bem-aventurado Francisco. Feito isso, levantou-se, vestiu sua túnica e voltou a São Francisco, 6 que lhe disse: “Queres saber como pecaste contra ele e, até, contra Cris­to? Quando vês um pobre, deves considerar aquele em cujo nome vem, isto é, Cristo, que assumiu nossa pobreza e enfermidade; 7 pois a enfermidade e a pobreza deste homem é para nós um es­pelho pelo qual devemos espelhar e considerar com ternura a en­fermidade e a pobreza de nosso Senhor Jesus Cristo, que ele su­portou em seu corpo para a nossa salvação”.

Capítulo 38. O Novo Testamento que mandou dar a uma pobre mulher, mãe de dois frades.

1 Outra vez, quando morava em Santa Maria da Porciúncula, uma mulher idosa e pobrezinha, que tinha dois filhos na Ordem, foi ao lugar, pedindo esmola ao bem-aventurado Francisco.

2 Logo, o bem-aventurado Francisco disse a Frei Pedro Cattani, que, na oca­sião, era o ministro geral: “Será que temos alguma coisa para dar a nossa mãe?”

3 Com efeito, dizia que a mãe de algum frade era sua mãe e de todos os frades. 4 Respondeu-lhe Frei Pedro: “Em casa nada temos que possamos dar a ela, pois quer uma es­mola com a qual possa sustentar seu corpo. Na igreja temos ape­nas um Novo Testamento, no qual fazemos as leituras das Mati­nas”. 5 Pois, naquele tempo, os frades não tinham breviários nem muitos saltérios.

6 Então, São Francisco lhe disse: “Dá o Novo Testamento à nossa mãe, para que o venda em beneficio de sua necessidade. Creio firmemente que isso agradará mais ao Senhor e à Santíssi­ma Virgem do que se nele fizermos as leituras”. E assim lho deu. 7 Ora, pode-se dizer e escrever dele o que se lê do bem-aventurado Jó: Desde o útero de minha mãe, a compaixão nasceu e cresceu comigo (cf. Jó 31,18).

8 Por isso, a nós que com ele vivemos (cf. 2Pd 1,18), seria longo e muito dificil escrever e narrar não só o que ouvimos dos ou­tros sobre sua caridade e piedade para com os frades e outros pobres, mas também o que vimos com nossos olhos (cf. 1Jo 1,1).

CAPÍTULO III (IV) - A perfeição da santa humildade e da obediência nele e nos seus frades

Capitulo 39. Primeiramente, como renunciou ao cargo de prelado e nomeou ministro geral a Frei Pedro Cattani.

1 Para observar a virtude da santa humildade, poucos anos de­pois de sua conversão, renunciou ao cargo de superior num capí­tulo, diante de todos os frades, dizendo: 2 “Doravante estou mor­to para vós; mas aqui está Frei Pedro Cattani, a quem eu e vós to­dos obedeceremos”. E, prostrando-se por terra diante dele, pro­meteu-lhe obediência e reverência.

3 Por isso, todos os frades choravam e a grande dor arranca­va-lhes altos gemidos, quando viram que de alguma forma tornavam-se órfãos de tão grande pai.
4 O santo pai, porém, levantou-se e, elevando os olhos para o céu (cf. Is 51,6), de mãos juntas, ‘disse: “Senhor, recomendo-vos a família que até agora me confiastes; e agora, por causa das doenças que vós conheceis, dulcíssimo Senhor, não podendo mais cuidar dela, eu a confio aos ministros. 5 No dia do juízo, eles deverão pres­tar contas (cf. Mt 12,36) diante de vós, Senhor, se algum frade se perder por sua negligência, mau exemplo ou áspera correção”.

6 Desde então, permaneceu submisso até a morte, comportan­do-se em tudo com mais humildade do que qualquer um dos outros.

Capítulo 40. Como renunciou também a seus companheiros, não querendo ter um companheiro especial.

1 Noutra ocasião, entregou todos os seus companheiros a seu vigário, dizendo: “Não quero parecer diferente por esta prerrogativa da liberdade de ter um companheiro especial, mas os frades se associem a mim de lugar para lugar, conforme o Senhor lhes ins­pirar”. 2 E acrescentou: “Já encontrei um cego que tinha apenas um cachorrinho como guia de seu caminho; não quero ser consi­derado melhor do que ele”.
3 Pois esta foi sempre sua glória: relegar toda aparência de privilégio ou de ostentação, para que habitasse nele a virtude de Cristo (cf. 2Cor 12,9).

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