sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Espelho da Perfeição - Capítulos XI a XX.


Capítulo 11. Como os frades, sobretudo os prelados e os dou­tos, se opuseram a ele na construção de lugares e edifícios pobrezinhos.

1 Como o bem-aventurado Francisco havia estabelecido que as igrejas dos frades fossem pequenas e suas casas feitas só de madei­ra e barro, como sinal da santa pobreza e da humildade, 2 quis começar a reformar no lugar de Santa Ma­ria da Porciúncula, particularmente com as casas construí das de madeira e barro, a fim de que o lugar fosse um eterno modelo para todos os frades presentes e futuros, pois era o primeiro e princi­pal lugar de toda a Ordem.

3 Alguns frades opuseram-se a ele nisso, dizendo que em algumas regiões a madeira é mais cara do que as pedras, de modo que não lhes parecia bom que as casas fossem feitas de madeira e barro. 4 Mas o bem aventurado Francisco não queria discutir com eles, principalmente porque estava perto da morte e gravemente enfermo. 5 Por isso mandou escrever em seu testamento: “Evitem os frades aceitar igre­jas, modestas habitações e tudo o que for construído para eles, se não estiverem conformes com a santa pobreza, e morem nelas sempre como forasteiros e peregrinos”.

6 De fato, nós que com ele estivemos (cf. 2Pd 1,18) quando es­creveu a ,Regra e compôs quase todos os seus outros escritos, damos testemunho (cf. Jo 21,24; 3Jo 12) de que mandou escrever muitas outras coisas, na Regra e nos outros escritos seus, em que muitos frades se opuseram, sobretudo nossos prelados e doutos, 7 e que hoje seriam muito úteis e necessárias a toda a Ordem. Mas, como ele temia muito o escândalo, condescendia com as vontades dos frades contra a sua vontade. 8 Entretanto, dizia isto muitas vezes: “Ai dos frades que se opõem a mim naquilo que sei firmemente ser a vontade de Deus para a maior utilidade e necessidade de toda a religião, mesmo que, contra a vontade, eu me submeta à vontade deles!”

9 Por isso, também dizia com freqüência a nós, seus companheiros: “Nisto consiste minha dor e minha aflição: que nas coisas que com muita trabalho de oração e meditação obtenho de Deus, por sua misericórdia e para a utilidade presente e futura de toda a Ordem, 10 e que ele me assegura estar de acordo com a sua vontade, alguns frades, em nome de sua ciência e de sua falsa providência, se opõem a mim e as suprimem dizendo: Isto tem que ser mantido e observado; aquilo não’’.

Capítulo 12. Considerava roubo pedir esmolas e utilizá-las além da necessidade.

1 São Francisco dizia freqüentemente estas palavras a seus frades: “Não fui ladrão de esmolas, pedindo-as ou usando-as além da necessidade. 2 Sempre aceitei menos do que me cabia, para que os outros pobres não fossem lesados em sua parte; pois agir ao contrário seria um furto”.

Capítulo 13. Como Cristo lhe disse que não queria que os frades possuíssem coisa alguma em comum nem em particular.

1 Quando os irmãos ministros procuraram persuadi-lo a con­ceder alguma coisa aos frades, pelo menos em comum, para que tão grande multidão tivesse algo a que recorrer, o bem-aventurado Francisco, em oração, invocou Cristo e o consultou sobre o assunto. 2 Ele respondeu na mesma hora, dizendo: “Eu vou tirar tudo em particular e em comum (cf. At 2144; 4,32); estou sempre pronto a socorrer esta família, por mais que ela cresça, e sempre a sustentarei, enquanto confiar em mim” (cf. Sl 21,5).

Capítulo 14. A maldição do dinheiro e como puniu um frade que tocou o dinheiro.

1 Verdadeiro amigo e imitador de Cristo, Francisco, despreza­ndo perfeitamente todas as coisas do mundo (cf. 1Cor 7,33), exe­crava sobretudo o dinheiro; pela palavra e pelo exemplo, levou seus frades a fugir dele como do demônio. 2 Ensinava aos frades a esperteza de dar o mesmo valor ao esterco e ao dinheiro.

3 Um dia, aconteceu (cf. Gn 39,11) que um secular entrou na igreja de Santa Maria da Porciúncula para rezar e, para dar uma esmola, pôs uma moeda junto à cruz. Assim que ele se retirou, com simplicidade, um frade a tomou na mão e a colocou numa janela. 4 Quan­do o fato foi relatado ao bem-aventurado Francisco, vendo-se descoberto, o frade imediatamente pediu perdão e, prostrado por terra, ofereceu-se às chicotadas. 5 O santo censurou-o e repreen­deu duramente por ter tocado o dinheiro e mandou que o retirasse da janela com a boca, que o levasse para fora da sebe do lugar e, com a própria boca, o colocasse sobre o esterco de um asno.

6 Enquanto o frade executava com gratidão o que lhe fora orde­nado, todos os que viram ou ouviram foram tomados de grande temor e, daí em diante, desprezaram ainda mais o dinheiro, com­parado ao esterco do asno; e, com novos exemplos, diariamente eram animados a desprezar sempre mais o dinheiro.

Capítulo 15. Sobre evitar a maciez e a abundância de túnicas
e ter paciência nas necessidades.

l Revestido da força do alto (cf. Lc 24,49), este homem se aquecia mais internamente com o fogo divino do que exterior­mente com a roupa do corpo. Execrava quem se vestia triplamente ou, na Ordem, usasse vestes macias sem necessidade. 2 Considerava si­nal de espírito extinto (cf. 1Ts 5,19) uma necessidade provocada pelo prazer e não pela razão. Dizia que quando “o espírito é mor­no e, pouco a pouco, a graça esfria,. é necessário que a carne e o sangue (cf. Gl 1,16; Mt 16,17) procurem o que lhes é próprio” (cf. FI 2,21).

3 E dizia: “O que resta, quando a alma não tem delícias espirituais, senão que a carne volte para as suas? Então, o apetite animal se veste de necessidades, e o senso carnal forma a consciência. 4 Se meu irmão tiver uma verdadeira necessidade e correr logo a satisfazê-la, que recompensa terá (cf. Gn 29,15)? Apresentou-se uma ocasião de mérito, mas ele provou com acinte que não lhe agradava. Pois, não suportar com paciência as privações outra coisa não é senão voltar para o Egito”.
5 Enfim, em ocasião alguma queria que os frades tivessem mais do que duas túnicas, ainda que permitisse que fossem remendadas com retalhos. 6 Dizia ter horror aos tecidos finos e repreendia seve­ramente os que faziam o contrário e, para confundi-los com seu exemplo, sobre sua túnica costurava sempre um saco (cf. Jó 16,16) grosseiro. Por isso, até na morte mandou que a túnica exe­quial fosse coberta com um saco. 7 Mas concedia aos frades forçados pela doença ou outra necessidade que vestissem outra túnica macia sobre a pele, contanto que por fora sempre se preservasse a aspereza e a vileza no hábito. 8 Pois dizia com a maior dor: “Ainda se relaxará tanto a austeridade, e dominará a moleza que os filhos de um pobre pai não se envergonharão de usar vestes de escarlate, mudando apenas a cor”.

Capítulo 16. Não queria satisfazer seu corpo com aquilo
que julgava faltar aos outros irmãos.

1 Quando o bem-aventurado Francisco morou no lugar de Santo Eleu­tério, perto de Rieti, costurou, por causa do frio, alguns remendos por dentro de sua túnica e da túnica de seu companheiro, 2 pois trazia somente uma túnica, isto é, a habitual; por isso, seu corpo começou a sentir-se um pouco consolado.

3 Pouco depois, quando voltava da oração, disse com grande alegria a seu companheiro: “Eu devo ser modelo e exemplo para todos os frades; 4 por isso, embora meu corpo necessite ter uma túnica forrada, devo, todavia, considerar que os outros irmãos meus, que sentem a mesma necessidade, talvez não a tenham nem possam ter. 5 Por isso, tenho que condescender com eles, para sofrer as mesmas necessidades que também eles sofrem, para que, vendo isso em mim, eles consigam suportá-las com mais paciência”.

6 Mas quantas e quão grandes necessidades negou a seu corpo para dar bom exemplo aos frades, para eles suportarem com mais paciência suas privações, nós que com ele vivemos (cf. 2Pd 1, 18) não podemos explicar com palavras ou escritos. 7 Pois, depois que os frades começaram a se multiplicar, dedicou-se com grande e es­pecial empenho a ensinar aos frades, mais com obras do que com palavras, o que deviam fazer ou evitar.

Capítulo 17. Envergonhava-se de verdade quando via alguém mais pobre do que ele.

1 Uma vez, quando encontrou um pobrezinho, considerando sua pobreza, disse a seu companheiro: “A pobreza deste homem causou uma grande vergonha em nós e questiona muito a nossa po­breza; 2 pois sinto a maior vergonha quando encontro al­guém mais pobre do que eu, porque escolhi a santa pobreza como minha senhora, como minha alegria e minha riqueza espiritual e corporal 3 e no mundo inteiro correu a notícia de que fiz profissão de pobreza diante de Deus e dos homens”.

Capítulo 18. Como induziu e ensinou os primeiros frades a pe­dir esmolas, porque tinham vergonha.

1 Quando São Francisco começou a ter irmãos, alegrava-se tanto com a conversão deles e que o Senhor lhe dera uma boa companhia, e tanto os amava e venerava que não os mandava pe­dir esmolas, 2 sobretudo porque percebia que tinham vergonha de ir. Então, poupando-os da vergonha, ia todos os dias pedir esmo­las sozinho.

3 Como isso o cansava muito, principalmente porque no século tinha sido um homem delicado e de frágil compleição, e também porque fica­ra ainda mais debilitado pela demasiada abstinência e austeridade. 4 Considerando que não podia carregar sozinho todo esse peso e que os outros eram chamados à mesma tarefa, mesmo que tivessem ver­gonha de fazer isso, porque ainda não sabiam bem como se fazia e não eram tão sensíveis para dizer: “Também nós queremos pedir es­molas”, 5 ele lhes disse: “Caríssimos irmãos e filhinhos meus, não vos envergonheis de pedir esmola, porque o Senhor se fez (cf. 2Cor 8,9) pobre por nós neste mundo e, a seu exemplo, escolhe­mos o caminho da mais verdadeira pobreza. 6 Pois esta é nossa heran­ça, que o Senhor Jesus Cristo adquiriu e deixou para nós e para to­dos os que, a seu exemplo, querem viver na santíssima pobreza. 7 Na verdade, digo-vos que muitos dos mais nobres e mais sábios deste século virão a esta congregação e considerarão uma grande honra e graça ir pedir esmolas. 8 Então, ide esmolar com confiança e de ânimo alegre, com a bênção de Deus; e deveis ir esmolar com mais liberdade e alegria do que aquele que com uma moedinha conseguisse cem denários, 9 porque ofereceis o amor de Deus a quem pedis esmola, dizendo: Dai-nos uma esmola por amor do Senhor Deus. Comparando com Ele, o céu e a terra são um nada”.

10 Mas porque os frades ainda eram poucos, não pôde enviá-los dois a dois, mas enviou (cf. Lc 10, I) cada um em separado pelos castelos e vilas. 11 E aconteceu que, quando eles voltavam com as esmolas que tinham encontrado, cada um mostrava ao bem-aventurado Francisco suas esmolas recebidas. E um dizia ao outro: “Eu consegui uma esmola maior do que a tua”. 12 O bem-aventurado Francisco alegrou-se por vê-los alegres e contentes. Desde então, cada um pedia espontaneamente a permissão de ir esmolar.

Capítulo 19. Não queria que os frades fossem preocupados e solícitos pelo dia de amanhã.

1 Nesse mesmo tempo, estando o bem-aventurado Francisco com os irmãos que então tinha, vivia em tal pureza com eles que em tudo e por tudo observavam o santo Evangelho ao pé da letra, 2 e isso desde o dia em que o Senhor lhe revelou que ele e seus frades vivessem se­gundo a forma do santo Evangelho.

3 Por isso, proibiu que o irmão que cuidava da cozinha pusesse os legumes na água morna à tarde, como é costume, quando devia dá-los a comer aos frades no dia seguinte. 4 1sso para observar a palavra do santo Evangelho: Não vos preo­cupeis com o dia de amanhã (cf. Mt 6,34). 5 E assim, o frade deixava para pô-los de molho depois das Matinas, quando já havia começado o dia em que deviam ser comidos. 6 Por causa disso, em muitos lugares, sobretudo nas cidades, muitos frades obser­varam por longo tempo o costume de não pedir ou receber mais esmolas do que lhes eram necessárias para um dia.

Capítulo 20. Como, pela palavra e pelo exemplo, repreendeu os frades que haviam preparado suntuosamente a mesa no dia do Natal do Senhor, por causa da presença do ministro.

1 Um ministro dos frades veio ter com o bem-aventurado Francisco, para celebrar com ele a festa do Natal do Senhor no lugar dos frades de Rieti. 2 Com o pretexto do ministro e da festa, os frades prepararam as mesas com certa solenidade e capricho pelo dia do Natal, cobrindo-as com belas toalhas brancas e copos de vidro.

3 Quando o bem-aventurado Francisco desceu da cela para comer, viu as mesas postas no alto e preparadas com requinte. 4 Logo saiu escondido, pegou o chapéu e o bastão de um pobre que ali chegara naquele dia e, chamando em voz baixa um de seus companheiros, foi para fora da porta do lugar, sem que os frades da casa o soubessem. 5 O companheiro, porém, ficou junto à porta do lado de dentro. Enquanto isso, os frades foram para a mesa, pois o bem-aventurado Francisco havia ordenado que os frades não o es­perassem, quando não chegasse logo na hora da refeição.

6 Tendo permanecido um pouco fora, bateu à porta, e seu companheiro logo lhe abriu. Chegando, com o chapéu às costas e o bastão nas mãos, foi para a porta da sala onde os frades co­miam e, como peregrino e pobre, gritou dizendo: “Por amor do Senhor Deus, dai uma esmola a este pobre, peregrino e doente!” 7 O ministro e os outros frades, porém, logo o reconheceram. E o ministro respondeu-lhe: “Irmão, também nós somos pobres e, sendo muitos, as esmolas que temos nos são necessárias. 8 Mas, por amor do Senhor que tu invocaste, entra na sala e te daremos das esmolas que o Senhor nos deu”.

9 Quando ele entrou e parou diante da mesa dos frades, o mi­nistro lhe deu a escudela em que comia e também pão. Recebendo-os, sentou-se humildemente no chão, perto do fogo, diante dos frades, sentados à mesa.

10 E, suspirando, disse aos frades: “Ao ver a mesa preparada com tanta honra e requinte, achei que não era a mesa de pobres religiosos que pedem esmola cada dia, de porta em porta. 11 Pois a nós, caríssimos, mais do que aos outros religiosos, convém seguir o exemplo de humildade e pobreza de Cristo, por­que a isso fomos chamados e assim professamos diante de Deus e dos homens. 12 Por isso, acho que agora estou sentado como um frade me­nor: pois as festas do Senhor e dos outros santos são honradas mais com a indigência e a pobreza, pela qual os santos ga­nharam o céu, do que com o requinte e a superfluidade, pelos quais a alma se distancia do céu”.

13 Os frades ficaram envergonhados com isso, considerando que ele dizia a pura verdade. E alguns deles, vendo-o sentado no chão e como quis corrigi-los e instruí-los tão santa e honestamente, começa­ram a chorar muito. 14 De fato, admoestava os fra­des a terem mesas tão humildes e honestas com as quais até os se­culares podiam se edificar e, se algum pobre aparecesse ou fosse convidado pelos frades, podia sentar-se como igual, ao lado de­les, e não o pobre no chão e os frades no alto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Infelizmente, devido ao alto grau de estupidez, hostilidade e de ignorância de tantos "comentaristas" (e nossa falta de tempo para refutar tantas imbecilidades), os comentários estão temporariamente suspensos.

Contribuições positivas com boas informações via formulário serão benvindas!

Regras para postagem de comentários:
-
1) Comentários com conteúdo e linguagem ofensivos não serão postados.
-
2) Polêmicas desnecessárias, soberba desmedida e extremos de ignorância serão solenemente ignorados.
-
3) Ataque a mensagem, não o mensageiro - utilize argumentos lógicos (observe o item 1 acima).
-
4) Aguarde a moderação quando houver (pode demorar dias ou semanas). Não espere uma resposta imediata.
-
5) Seu comentário pode ser apagado discricionariamente a qualquer momento.
-
6) Lembre-se da Caridade ao postar comentários.
-
7) Grato por sua visita!

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Ocorreu um erro neste gadget

Pesquisar: