sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Contradições do Protestantismo: PERGUNTAS QUE NENHUM EVANGÉLICO SABE RESPONDER!


Perguntas que nenhum evangélico sabe responder:

1. Quem fundou a sua Igreja? Por quê? Então, as igrejas existentes estavam erradas para que fosse preciso surgir mais uma igreja? E quem garante que a sua é que está cer-ta? Foi o Senhor que a fundou ou foi um mero homem? (Sl 126(127), 1.2; Mt 16,18).

2. É correto o denominacionalismo? Se o é, por que a Bíblia insiste na unidade dos cristãos (Jo 10,16;17,21.22; Ef 4,5) e pede que nos afastemos dos que geram divisão (Rm 16,17)? Se não é, por que os evangélicos não obedecem a sua única regra de fé e prática?

3. Se você existisse antes da Reforma a que Igreja cristã pertenceria?

4. Frequentemente, os evangélicos acusam os católicos de adotarem costumes humanos porque, dizem eles, não se encontram na Bíblia. Perguntamos: a Igreja não pode criar determina-do costume, se quiser? Os costumes têm que estar na Bíblia? E os evangélicos? Por acaso, os costumes deles estão todos na Bíblia? Está na Bíblia, por exemplo, o costume de andar com a Bíblia embaixo do braço? E o de pregar com paletó? E a formiga smilinguido, está também na Bíblia? E o pior, as diversas igrejas evangélicas criadas diária e contraditoriamente estão na Bíblia? Se os evangélicos podem criar costumes e até igrejas (apesar de Cristo já ter fundado a sua Igreja há quase dois mil anos, que justamente é a Igreja Católica), por que só a Igreja Católica não pode criar seus costumes? (Leia Mt 18,19).

5. Antes de atrair os católicos para a sua doutrina (ou melhor, doutrinas), você não acha que os evangélicos deveriam chegar a um acordo entre si e descobrirem, no meio de tantas doutrinas desencontradas, onde se encontra a verdadeira doutrina do evangelho?

6. Os nomes das Igrejas evangélicas como Batista, Assembléia de Deus, Universal do Reino de Deus, Casa da Bênção, Anglicana, Presbiteriana, Quadrangular, Deus é amor, Cuspe de Cristo, etc., etc., estão na Bíblia? Se não estão, por que os evangélicos seguem essas igrejas fundadas por homens? Além disso, não dizem que só devemos seguir o que está na Bíblia?

7. Você não acha que em Mt 12,25 se faz uma severa crítica à Babel evangélica?

8. Se é verdadeira a interpretação que os evangélicos dão à Bíblia, onde está a sua firmeza? Por que eles caem em tantas contradições? Como garantir qual doutrina é realmente bíblica, se cada um apresenta interpretações diferentes?

9. Você concorda com o princípio de que “onde há contradição não existe a verdade, porque uma coisa não pode ser e deixar de ser ao mesmo tempo”? Se discorda, por que exigem coerência dos católicos? Se concorda, como crer, então, na Babel evangélica?

10. Em 1 Cor 1, 12.13, S. Paulo se mostra zangado porque vê os coríntios divididos em grupos apesar de estarem na mesma Igreja. Que diria ele se chegasse hoje e visse estes cristãos que se julgam perfeitos imitadores da Igreja primitiva dizerem: eu sou batista; eu sou pentecostal; eu sou luterano; eu sou calvinista, eu sou testemunha de Jeová; etc., pregando todos eles as mais diversas doutrinas? Se você concorda que Paulo ficaria horrorizado (o que é lógico), perguntamos: por que os evangélicos desobedecem à palavra de Deus? Isso não demonstra que são infiéis à Bíblia?

11. Você acha que a oração de Cristo em Jo 17,21 foi eficaz? Se foi e a religião protes-tante interpreta corretamente a Bíblia, por que o resultado foi esta tremenda confusão que lavra entre as igrejas ditas evangélicas? Percebeu, porém, que a oração se cumpre na unidade da Igreja Católica?

12. Você acha que uma igreja evangélica em particular pode querer nos convencer de que as outras interpretam errado a Bíblia e que ela é que está certa? Se acha, então, perguntamos:

I- Por que todas as outras igrejas dizem a mesma coisa?

II- Por que todas as igrejas se subdividem tanto?

III- Por que todas elas ensinam doutrinas inexistentes antes do século XVI?

IV- Você acha que Cristo esperou 16 séculos para propagar sua doutrina?

13. O Catolicismo é cristão? Se não é, então, o Protestantismo é? Se o Catolicismo não fosse, como o Protestantismo, que se inspirou na teologia Católica, poderia ser?

14. Quem lhe dá certeza de que sua interpretação da Bíblia está correta? O Espírito Santo? Mas por que toda igreja diz a mesma coisa? Então, temos vários espíritos santos ou o único Espírito Santo sopra contraditoriamente em lugares diferentes? (1Cor 12,13; 14,33).

15. Você acha que a Igreja falhou? Se não, por que afirmam isso? Se sim, não é isso chamar Cristo de mentiroso? (Mt 16,18).

16. Suponhamos absurdamente que um dia a Igreja inventasse de agradar aos evangélicos (Mt 16,18; At 4,19). Pois bem, perguntamos: qual doutrina evangélica a Igreja deveria adotar? Se negasse a Trindade, agradaria às TJs, por exemplo, mas desagradaria aos que creem, como os batistas; se negasse o batismo às crianças, agradaria aos batistas, mas desagradaria aos metodistas, anglicanos e outros mais; se guardasse o sábado, agradaria aos adventistas e batistas do sétimo dia, mas desagradaria ao outro ramo que guarda o domingo, e assim suces-sivamente. E aí, o que fazer?
17. Se os erros dos homens afetaram a pureza doutrinal da Igreja Católica e tornaram necessária a Reforma de 1516, não acha você que já passou da hora de haver uma Reforma similar dentro do Protestantismo?

18. Constantemente ouvimos pastores evangélicos criticarem o surgimento de novas igrejas. Mas perguntamos também a estes:

I- Mas a sua igreja não surgiu pelo mesmo processo?

II- Se sua igreja surgiu por um homem e por motivo de discordância doutrinária, como você pode exigir que os outros acatem o que vocês pregam? (Mt 7, 3).

III- Se os pastores não podem hoje fundar igrejas (e realmente não podem), e o que fundou a sua igreja podia? Se podia, onde está isso na Bíblia? Se não podia, por que fundou?

19. Será que a Bíblia autorizou Lutero, David Miranda, Edir Macedo, RR Soares, Joseph Smith, Charles Russel ou qualquer outro homem a fundar uma Igreja, se quase dois mil anos atrás Jesus já fundara sua Igreja e prometera indestrutibilidade a essa Igreja? Sl 126 (127),1.2; Mt 16,18. Se autorizou, onde está isso na Bíblia? Se não autorizou, por que todo dia surge uma Igreja?

20. Os evangélicos podem estar errados em sua doutrina? Se não podem, por que se con-tradizem tanto? Além disso, não gritam para todo mundo que só Deus é infalível? Se podem, como posso crer nos seus ensinamentos? Como posso garantir que a Sola Scriptura, a Sola fide ou qualquer outra doutrina protestante é correta, se eles podem estar enganados na interpretação que dão às Sagradas Escrituras?

21. Se para os evangélicos só Deus é mesmo infalível, por que nunca vimos nem ouvi-mos um evangélico criticar seu pai Lutero pela seguinte exclamação: “Não admito que minha doutrina seja julgada por ninguém, nem sequer por um anjo. Quem não receber a minha doutrina, não será salvo.”? Não é isso se dizer infalível?

22. Por que os evangélicos defendem sua inerrância, assumindo a infalibilidade que negam aos católicos? Ora, se ninguém é infalível, como podem defender com unhas e dentes as suas doutrinas? Como podem garantir que suas interpretações da Bíblia estão absolutamente certas? A cada igreja que surge, novas “verdades” aparecem (ou reaparecem) e nenhuma larga o osso de suas convicções. Para as testemunhas de Jeová a terra será um paraíso, e não se fala mais nisso. Para os batistas não se pode batizar criança, e ninguém pode duvidar. Para os adventistas devemos guardar o sábado, e acabou-se o assunto. Para os metodistas deve-se batizar criança e pronto. Para a Universal do Reino de Deus o cristão tem prosperidade garan-tida e fim de papo. Por que essa certeza, se não são infalíveis?

23. Os apóstolos eram infalíveis? Se não eram, como podemos confiar na doutrina de-les? E mais, por que os apóstolos exigiam crença total naquilo que pregavam (Gl 1, 8.9)? Se o eram, por que a Igreja hoje não o pode ser? Ainda, se o eram, isso não é prova de que os evangélicos estão entendendo Jer 17, 5 de forma errada? Ou os apóstolos não eram humanos?

24. Constantemente, os evangélicos gostam de nos lembrar dos erros da Inquisição. Da maneira como falam até parece que nunca cometeram erros. Perguntamos, porém: Os evangélicos estiveram isentos desses mesmos crimes dos quais nos lembram? Foi com a Bíblia na mão ou com violência que conseguiram se impor em países como E.U.A, Irlanda, Escócia, Inglaterra, Suécia, Suíça e Holanda? Você sabia que nenhum país cuja maioria hoje é protestante foi convertido com a Bíblia na mão? Você sabia que a Reforma protestante se expandiu rapidamente porque foi imposta de cima para baixo, e a ferro e fogo? (Mt 7, 3).

25. Há heresia dentro do Protestantismo? Se não há, por que frequentemente se vê um pastor acusar outro de herege? Se há, onde fica a credibilidade protestante? E além disso, por que acusam a Igreja Católica de heresia, se tais “heresias” são compartilhadas aqui ou ali dentro do próprio Protestantismo?

26. Os evangélicos dizem que os cristãos não precisam pertencer a nenhuma igreja, basta a fé. Mas se isso é verdade, por que os católicos precisam ir para o Protestantismo? Para que ser-vem, então, os pastores? Por que os evangélicos vão para alguma igreja, gastam dinheiro com dízimo, perdem todo o tempo se dedicando a algo que é até desnecessário? Se a Bíblia não ensina a pertencermos à Igreja, os evangélicos não estão desobedecendo a sua única regra de fé, quando passam a frequentar determinada igreja, principalmente sabendo que a igreja evangélica a que pertence não se acha dentro de sua única regra de fé e prática?

27. Você não acha que esta confusão de igrejas evangélicas é a demonstração de que o homem não pode confiar na suposta inspiração de outro homem? (Jer 17,5).

28. O Protestantismo tem dogmas? Se não tem, a Sola Scriptura, a Sola fide ou qualquer outra doutrina protestante pode ser questionada? Além disso, por que cada igreja garante que suas doutrinas estão absolutamente corretas? Tal certeza não dogmatiza suas crenças?

29. Os evangélicos têm tradição? Se não têm, por que frequentemente recorrem a ela para justificar suas doutrinas? Além disso, algum evangélico seria capaz de justificar o cânon bíblico sem usar a tradição? Podemos desafiá-lo?
30. Se todos os argumentos usados pelos evangélicos contra a inspiração dos livros deutero-canônicos do AT forem aplicados contra a inspiração dos livros protocanônicos, estes últimos passarão na peneira? Por exemplo:

I- Por que as “heresias” que os evangélicos dizem haver nesses livros também existem em li-vros que eles consideram inspirados? (Compare Tob 4,7-11 com 2 Cron 6,30; Prov 24,12; Rom 2,5-8).

II- Por que existem “erros” históricos e geográficos em livros que também estão na própria Bíblia deles? (Gn 1, 3.14; Jos 10, 12.13; Jó 9, 5.6; Mc 3,41).

III- Por que também há “contradições” em muitos desses livros? (Compare, por exemplo, 1 Sm 21,1-6 e 1 Sm 23,6 com Mc 2,25.26; Mt 21,2 com Mc 11, 2; 2 Sm 23,8 com 1 Cron 11,11).

IV- Por que alguns personagens de livros protocanônicos também “mentiram”? (Gn 27,19; Ex 1,15-21;Jz 4, 18-21; 5,24; Mt 24,36).

V- Por que em alguns desses livros também há histórias “absurdas”? (Gn 3,1-5; Nm 22,22; Jn 2).

VI- Por que os evangélicos não negam a inspiração da carta aos Coríntios, já que S. Paulo afirma ali (1 Cor 7,25) que não tem “mandamento do Senhor aos virgens, mas dá seu próprio conselho”? Se isso fosse dito num livro deuterocanônico, os evangélicos não usariam a expres-são para negar a inspiração dele como fazem com 2 Mac 15, 37-39?

Você percebeu que se esses argumentos negassem a inspiração dos livros deuteroca-nônicos, negariam também a de muitos outros livros existentes na própria Bíblia protestante? Na realidade, as supostas falhas acima, com discernimento, são plenamente entendidas.

31. Por que até hoje nenhum evangélico conseguiu provar pela sua única regra de fé e prática que os livros deuterocanônicos são apócrifos?

32. Frequentemente os pastores evangélicos recorrem ao grego, ao hebraico e ao aramaico para explicarem certos trechos bíblicos. Não há aí uma implícita condenação do livre exame? Se para entender bem certas passagens das Escrituras, é preciso recorrer às línguas bíblicas, e tais línguas, bem poucos conhecem, como é, então, que os evangélicos dizem a todas as pessoas a quem se entrega a Bíblia, que elas têm capacidade para interpretá-la?

33. Por que a Bíblia não ensina a Sola Scriptura?

34. Se todos podem interpretar a Bíblia livremente, por que só a Igreja Católica não o pode?

35. Se a Sola Scriptura é a solução dos males, por que em vez de ter trazido a “pureza do evangelho” trouxe foi a Babel?

36. Frequentemente, os evangélicos exigem que nós católicos provemos tal e tal doutrina na Bíblia, e só nela. Perguntamos: Em qual Bíblia? Na católica ou na protestante? Se é na protestante, perguntamos também: onde está na Bíblia que uma doutrina só pode ser provada na Bíblia protestante? Se disserem que é por causa do cânon, perguntamos, ainda: onde está na Bíblia que o correto é o cânon protestante?

37. Por que a Bíblia teria precisado de 1600 anos para ser entendida corretamente, se segundo os evangélicos, ela é algo que qualquer pessoa pode ler e entender?

38. Você não acha que o livre exame é um grande achado para os que gostam de se apre-sentar como líderes religiosos, envaidecidos de ver muitos homens aderirem às suas idéias e contentes com a perspectiva de deixarem o nome célebre na História de qualquer maneira, ao menos, como fundadores de mais uma religião?

39. Como os evangélicos pretendem impor suas crenças aos católicos, se eles pregam o livre exame?

40. Os apóstolos acreditavam na Sola Scriptura? Se a resposta for “sim”, perguntamos: Como, se não existia a Bíblia? Se eles acreditavam apenas no AT, não acha que assim estariam inva-idando todas as suas pregações bem como todos os escritos do NT? Se a resposta for “não”, também perguntamos: então, como ela pode ser uma doutrina bíblica?

41. Por que os evangélicos aceitam a autoridade dos Concílios de Hipona (393) e de Car-tago (397) para os 27 livros do NT, mas não para os do AT?

42. Por que os evangélicos aceitam os deuterocanônicos do NT e não aceitam os do AT? Que critérios adotam para aceitar ou excluir um livro da Bíblia? São bíblicos mesmo esses critérios ou foram buscá-los na tradição da sinagoga? Se foi na sinagoga, por que não excluem também o NT, que a sinagoga excluiu? E mais, não foi justamente essa tradição que Jesus condenou em Mt 15,3, texto tão lembrado por eles?

43. Onde está na Bíblia que para se salvar basta levantar o dedo?

44. Por que os evangélicos não creem no purgatório só porque esse nome não está na Bíblia, se creem na Trindade, cujo nome também não se encontra nela? Há também nas Escrituras os nomes “Sola Scriptura”, “Sola fide”, o nome das igrejas evangélicas ou o próprio nome “Bíblia”?

45. Por que os evangélicos dizem não crer em doutrinas definidas durante ou após Constantino, se guardam o domingo, creem na Trindade, comemoram o natal e aceitam o cânon de 27 livros para o NT, se tudo isso foi decretado durante e após Constantino? E o pior, pela Igreja Romana?

46. Em que ano, local e qual o nome do fundador da Igreja Católica? Não foi Jesus Cristo? Se foi (e realmente foi), o que você está fazendo fora daquela Igreja sobre a qual Cristo disse “a minha Igreja”? (Mt 16,18). Se não, então, há provas históricas? Ou vai querer que acreditemos naquela piada de que foi Constantino que a fundou? Se é, então, responda-nos:

I- Que Igreja, então, existia antes de Constantino e que desde o século II já era chamada de “Católica”?

II- Constantino fundou ou apenas oficializou uma Igreja que já existia antes dele?

III- Há algum documento histórico comprovando que Constantino fundou alguma Igreja?

47. Os evangélicos sabem diferenciar “ídolo” de “imagem”? Toda imagem é ídolo?

48. O que é “adoração” e “idolatria”? São a mesma coisa?

49. Ao vestirmos a camisa de um time de futebol, estamos homenageando a camisa em si (ou seja, a peça de roupa, o tecido), ou o time representado naquela camisa?

50. Ao cantarmos respeitosamente o Hino Nacional quando a Bandeira do Brasil é hasteada, estamos homenageando uma música e um pedaço de pano colorido, ou o que esses símbolos realmente representam?

51. O evangélico venera a Bíblia? Se venera (e é claro que venera), perguntamos: Você venera o papel e a tinta ou o que esse livro santo contém, que é a palavra de Deus?

52. Quando alguém beija a foto de uma pessoa querida ou uma peça de roupa dessa pessoa, está fazendo isso apenas por causa do papel ou do pedaço de tecido, ou por causa da pessoa a quem pertencem esses objetos?

53. Você não acha que foi perigoso Deus mandar fazer uma serpente de bronze e curar através dela (Nm 21,4-9; 2 Rs 18,4)?

54. Por que ao prometer a Eucaristia em João 6, no momento em que muitos discípulos se retiraram por entenderem suas palavras em sentido real, Jesus não recuou, mas perguntou aos doze se também não queriam ir com eles? (Jo 6, 53-71).

59. Se Jesus queria falar em sentido figurado, por que preferiu usar o verbo “ser” aos quarenta verbos figurativos existentes no aramaico?

55. Nos versos 52 e 54 de João 6, Jesus falou em “comer” e o verbo correspondente no grego é “phagéin”. A partir do verso 55, porém, o texto grego usa um verbo mais forte: “trógo” – que além de “comer”, quer dizer também “mastigar”, “quebrar com os dentes os alimentos mais duros”. Perguntamos: Se Jesus falou em sentido figurado, por que além do verbo “ser”, o texto grego usa um verbo que exige o sentido real das palavras?

56. Por que o único sentido simbólico da expressão “comer carne” na Bíblia é o de “ca-luniar”, “perseguir”, “injuriar” (Jó 19,22; Sl 26(27),2; Miq 3,3; Gl 5,17) e nunca o de crer?

57. Se a Eucaristia é mero símbolo, figura de Jesus, que exagero é esse de S. Paulo em dizer, em 1Cor 11, 27, que quem come ou bebe da Eucaristia indignamente é réu do corpo e do sangue de Cristo? Além disso, não há aí uma tremenda contradição de Deus? Se Deus proíbe imagens, conforme querem os evangélicos, como Jesus deixaria o pão e o vinho como imagens suas? Então, quando um evangélico quebra uma imagem de Jesus, que também é figura dEle, está quebrando o corpo e o sangue de Cristo? Se o é, por que fazem isso?

58. Se as expressões “comer carne” e “beber sangue” em João 6 significam crer em Je-sus, por que razão Nosso Senhor haveria de fazer a distinção entre duas ações diversas: “comer carne” e “beber sangue”? Além disso, onde a Bíblia afirma que tais expressões significam mesmo “crer”?

59. Admitamos, por enquanto, que Jesus falou em sentido figurado na ceia. Perguntamos, po-rém:

I- Jesus, o Todo-Poderoso, teria o poder de estar em todas as hóstias ao mesmo tempo caso quisesse?

II- Que verbo usaria Ele caso quisesse dizer que aquele pão e aquele vinho eram na realidade o seu corpo?

III- Em Mt 26, 26-29, por exemplo, na própria Bíblia evangélica se lê “isto significa…” ou “isto é…” ?

60. Se Deus quisesse, Ele teria o poder de preservar Maria do pecado em previsão dos méritos de Cristo na cruz?

61. Se pela fé, Abraão tornou-se pai de todo o povo de Deus (Gn 17,5) e, nisso, não houve nenhuma afronta ao único e verdadeiro Pai, Deus; por que também pela fé (Lc 1,45) Maria não se tornou mãe do novo povo de Deus (Jo 19,26.27)? Por que aquela que é a mãe da cabeça, Jesus, não é também a mãe do corpo, a Igreja? Por acaso, alguém poderia ser mãe apenas da cabeça sem o ser também do corpo?

62. Não é lógico que Jesus, o puro, o único imaculado por natureza, preservasse do pecado o templo humano, Maria, do qual Ele nasceu?

63. A lei de honrar pai e mãe inclui cuidar deles quando precisarem (Mt 15, 4). Por que Jesus não entregou a sua mãe a os outros filhos caso tivesse? (Jo 19, 25-27). Se disserem que era porque não acreditavam em Jesus, perguntamos: então, esses supostos filhos de Maria ganharam permissão para desobedecerem aos mandamentos de Deus porque não acreditavam em Jesus? Por acaso o mandamento não mandava “Honrar pai e mãe”? Os judeus só precisavam guardar os mandamentos caso cressem em Jesus?

64. Por que as Sagradas Escrituras não afirmam que os “irmãos de Jesus” são na reali-dade filhos de Maria? Elas não dizem clara e expressamente que Jesus é filho de Maria, por que não fazem a mesma coisa com os “irmãos dEle”?
65. Se a doutrina de Cristo só pode ser aprendida através da leitura da Sagrada Escritura, como fica, então, a situação dos analfabetos?

66. Por que só por Pedro Jesus orou (Lc 22, 31.32) e só a ele mandou apascentar a sua Igreja (Jo 21,15-17)?

67. Por que Pedro é sempre nomeado em primeiro lugar (Mt 10,2; Mc 3,16-19; Lc 6,13-16; At 1,13) e, ainda, achando pouco Mateus o chama de “primeiro” (protos no grego), palavra que aparece constantemente no NT com o sentido de superioridade (Mc 12,31; Lc 15,22; At 28,7)?

68. Todas as doutrinas dos evangélicos são realmente fundamentadas na Bíblia sagra-da? Se o é, por que são tão contraditórias? Por que não concordam entre si quanto a pontos importantes da fé? E por que não constituem uma só igreja, em vez de serem centenas e centenas de denominações separadas (e até hostis) entre si?

70. Quem é a pedra de Mateus 16,18? Não é Pedro? Se não é, então, perguntamos:

I- Por que Jesus mudou o nome de Simão, e só o dele, justamente para Kefas, que significa pedra, rocha?

II- Por que as palavras anteriores e as posteriores à expressão “…e sobre esta pedra”, sem exceção, referem-se a Pedro? Já percebeu que dos versículos 17 ao 19 o texto está todo escrito na 2ª pessoa do singular?

III- Por que todos os dicionaristas, inclusive os evangélicos, são unânimes em afirmar que o nome Pedro significa pedra, rocha?

IV- Por que em vez de usar a conjunção adversativa mas, Cristo usou a aditiva e? Não signi-fica isso que a 2ª pedra só pode ser a 1ª?

V- Quem é a rocha desta frase: “O Corcovado é uma rocha e sobre esta rocha foi levantado um monumento a Cristo Redentor.”? É o próprio Corcovado, não é? Pois bem, como Pedro pode não ser a pedra do texto em questão?

VI- No texto em questão, Cristo apresenta-se como o fundamento ou como o “fundador”, o “construtor” da Igreja?

VII- Se Deus tornou Jeremias uma coluna de ferro e um muro de bronze (Jr 1,18), por que não poderia fazer o mesmo com Pedro?

VIII- Se Cristo não mudou o nome de Pedro para fazê-lo líder dos apóstolos, por que mudou o nome dele, então?

IX- A diferença grega para as palavras petros e petra significa mesmo que Jesus não fundou sua Igreja sobre Pedro? Se o é, perguntamos: Você sabia que o NT foi escrito em grego Koiné e que nessa língua não havia diferença de sentido entre essas palavras no 1º século? Sabia também que a palavra grega para “pedrinha” era lithos e não petros (Mt 4,3; Jo 8,7)? Não fica claro, então, que essas palavras referem-se à mesma pessoa: Pedro? E que a diferença de gênero ocorre por outro motivo, não para se diferenciar as pedras citadas? Na realidade, Pedro é petros tão somente porque no grego os nomes masculinos só podem terminar em AS, ES, IS, OS, US.
X- Se a pedra não é mesmo Pedro, por que em seguida Cristo explica o sentido da pedra com as palavras “Eu te darei as chaves do reino dos céus…”? E além disso, para que dará as chaves? Para que ele ligue ou desligue tudo o que for preciso. Não é lógico?

XI- Será que o fato de S. Pedro dizer em At 4,11, por exemplo, que Jesus é a pedra angular, invalida isso sua missão petrina? Se o é, podemos dizer, então, que Jo 8,12 invalida Mt 5,14?

XII- Apesar de Cristo ter dado a todos os apóstolos a autoridade de ligar e desligar (Mt 18,18), por que só Pedro as recebeu em particular?

71. Por que só por Pedro Jesus orou (Lc 22, 31.32) e só a ele mandou apascentar a sua Igreja (Jo 21,15-17)?

72. Por que Pedro é sempre nomeado em primeiro lugar (Mt 10,2; Mc 3,16-19; Lc 6,13-16; At 1,13) e, ainda, achando pouco Mateus o chama de “primeiro” (protos no grego), palavra que aparece constantemente no NT com o sentido de superioridade (Mc 12,31; Lc 15,22; At 28,7)?

73. Todas as doutrinas dos evangélicos são realmente fundamentadas na Bíblia sagra-da? Se o é, por que são tão contraditórias? Por que não concordam entre si quanto a pontos importantes da fé? E por que não constituem uma só igreja, em vez de serem centenas e centenas de denominações separadas (e até hostis) entre si?

74. Os evangélicos dizem que rejeitam os livros deuterocanônicos do AT porque eles não se-guem os critérios abaixo citados:

I- Não foram escritos em hebraico;

II- Foram escritos depois de Esdras;

III- Foram escritos fora de Israel;

IV- Nunca foram citados no NT.

Perguntamos, porém:

I- A sua única regra de fé e prática apresenta esses critérios para se considerar um livro inspirado ou não? Se não apresenta, como posso aceitá-los, se os próprios evangélicos exigem que acreditemos apenas no que está na Bíblia? Ou será que foram buscá-los na tradição, que eles tanto condenam? E o pior, foram buscá-los na tradição cristã ou na judaica?

II- Então, quer dizer que se um livro for citado no NT, ele será canônico, e se não for, não será? Então, o que Esdras, Neemias, Ester, Eclesiastes, Cântico dos cânticos, Abdias e Naum fazem na Bíblia protestante, se nenhum deles é citado no NT? E mais, por que o livro da “Assunção de Moisés” e o de “Henoque” não estão na Bíblia deles, já que são citados no NT (Jd 9.14)?

III- Além disso, quem disse que os deuterocanônicos do AT não são citados no NT? Por acaso nunca compararam, por exemplo, 1 Mac 3,60 com Mt 6,10; 2 Mac 7 com Heb 11,35; Sb 12-15 com Rm 1,19-32; Eclo 4,34 com Mt 11,29; Tob 4,15 com Mt 7,12; Jdt 11,19 com Mt 9,36; Br 4,37 com Mt 8,11; Dn 13,46 com Mt 27,24?

75. Por que os evangélicos exigem que nós católicos acreditemos na Sola Scriptura, se, no fundo, eles também não acreditam? Se disserem que acreditam, perguntamos: por que, então, não respondem às perguntas de nº 4, 6, 18, 26, 29, 31, 33, 36, 40, 42, 43, 44, 54, 55, 63, 69, 78, 90, 91 e 92 e unicamente pela Bíblia?

76. S.Pedro morreu em Roma? Se disserem que não, perguntamos: onde ele morreu, então? Além disso, por que todos os pais apostólicos, os historiadores antigos como Eusébio de Cesaréia, por exemplo, e todos os estudiosos modernos (inclusive protestantes), são unânimes em concordar que Pedro não só morreu em Roma como também teve o seu bispado ali naquela cidade?

77. Aos evangélicos que rejeitam o batismo de criança, perguntamos: Por que não existe nenhum documento cristão primitivo que reprove essa prática, mas ao contrário há inúmeros testemunhos que dizem exatamente o contrário? Por que também a sua única regra de fé não a condena? Além disso, se para o evangélico o batismo é mero símbolo, por que, então, tanta briga em torno dele? Não dizem que basta a fé em Cristo?

78. Aos que exigem o batismo por imersão perguntamos: por que nenhum dos seis casos de batismos cristãos feitos no tempo dos apóstolos, e registrados na Bíblia (At 2,41; 8, 36-38; 9, 11-18; 10, 47; 16, 33-35; 19, 3-5), foram feitos em rio? Como explicar, então, o batismo de três mil pessoas no dia de Pentecostes em Jerusalém, se nessa cidade não há rio? Além disso, por que, também, a palavra “imersão” não aparece na Bíblia? Repetimos aqui as perguntas anteriores: se para o evangélico o batismo é mero símbolo, por que, então, tanta briga em torno de-le? Não dizem que basta a fé em Cristo?

79. Se a Bíblia se explica pela própria Bíblia, por que, então, existem tantas Igrejas evangélicas? Ou a suposta clareza das Escrituras não fala por si só?
84. Por que os evangélicos dizem que as doutrinas Católicas surgiram após Constantino, se provamos a apostolicidade dessas doutrinas? Dizem, por exemplo, que a Igreja começou a orar pelos mortos em 310, mas provamos através de vários documentos, inclusive de inscrições sepulcrais do II século, que essa já era prática desde os primórdios do Cristianismo. Di-zem que os livros deuterocanõnicos foram incluídos no cânon em 1546, mas provamos que escritores do início do II século já os colocavam no cânon. Além disso, os Concílios de Hipona e o de Cartago, no IV século já os incluíram ali. Como ficam, então, esses falsos catálogos elaborados para se negar a antigüidade de nossas doutrinas?

80. Se a Escritura é a nossa única regra de fé, por que Jesus não afirmou isso? Além disso, por que Ele não disse “Ide e distribuí Bíblias”, mas, sim “Ide e pregai” (Mt 28,18-20)?

Você não acha que se a Tradição é confiável para estabelecer o cânon bíblico, isso é prova de que há uma autoridade extrabíblica, e que, portanto, a Sola Scriptura não tem fundamento? Por que Deus se utilizaria justamente da Tradição para nos dizer qual o cânon bíblico correto, se segundo os evangélicos Ele condena qualquer outra fonte? Por que será que a Tradição é idônea para definir o ponto de fé mais importante do Protestantismo, que é o cânon bíblico, mas não o é para definir qualquer outro ponto menos importante?

81. Doutrina importa? Se não importa, por que, então, os evangélicos fazem essa tre-menda guerra contra as doutrinas católicas? Por que dizem que vamos para o inferno justamente por causa de nossa doutrina? Se importa, por que quando provamos a veracidade da doutrina Católica, eles se saem negando sua importância?

88. Se rigorosamente não há como haver infalibilidade em alguns homens, como posso crer na infalibilidade da própria Bíblia, se ela foi escrita por homens? Se Deus é poderoso o suficiente para garantir a inerrância bíblica apesar dos erros dos escritores humanos, por que Ele não seria poderoso o suficiente para garantir a infalibilidade papal apesar das limitações dos Papas?

82. Se a própria única regra de fé dos evangélicos nos ensina em 2 Ts 2, 15 a guardar-mos o que foi escrito (a Bíblia) e o que foi transmitido oralmente (a Tradição oral), como, então, os evangélicos querem nos convencer de que a Bíblia é a única regra de fé?

83. Por que os solascripturistas negam verdades tão explícitas na própria Sagrada Escritura? Onde está na Bíblia, por exemplo, que na expressão “Isto é o meu corpo” (Mt 26,26) o pão não é o corpo de Cristo? Onde está nas Escrituras que os celibatários estão espiritualmente inferiores aos casados (Mt 19,12; 1 Cor 7,1.26.27)? Onde está nas Escrituras, ainda, que não pode-mos conservar os ensinamentos orais dos apóstolos(2Ts 2,15)? Onde está na Bíblia que Cristo não deu aos apóstolos o poder de perdoar pecados (Jo 20, 23)? Na verdade, essa tal de Sola Scriptura não parece ser “sola alguns versículos da scriptura”?

84. O AT prescreve várias normas que não foram abolidas pela Bíblia, mas pela Igreja. Ora, como fica, então, a observância de tais normas se a Bíblia for a única fonte de fé?

85. Por que os evangélicos apelam para fontes extrabíblicas e, o pior, até para fontes apócrifas como o Talmude, por exemplo, para justificar seu cânon bíblico, mas não citam sequer um versículo da sua única regra de fé e prática? Será que é porque não existe? Mas se não existe, como podemos crer, então, na Sola Scriptura?

96. Os evangélicos seriam capazes de citar um Pai da Igreja, ao menos, que afirma que os livros deuterocanônicos contêm heresia?

87. Foram os católicos que acrescentaram os livros deuterocanônicos no Concílio de Trento, em 1546, ou foi Lutero que os excluiu da Bíblia? Você sabia que esse papaizinho Lutero também rejeitava a carta de S. Tiago, que está em sua Bíblia? Por falar nisso, você sabe por que ele rejeitava essa carta? Sabia que era porque S. Tiago negava a sola fide (Tg 2)? Pois bem, os livros deuterocanônicos também foram rejeitados por Lutero porque esses livros se chocavam com heresias pregadas por ele. Não é contradição dos evangélicos de hoje acatar de Lutero sua rejeição aos deuterocanônicos e não acatar sua rejeição à carta de S. Tiago?

88. Os evangélicos dizem que a Igreja se corrompeu pelo paganismo. Mas que provas apresentarão para afirmar isso? Alegarão o culto da Virgem Maria, o purgatório, a veneração das imagens e inúmeras outras doutrinas e práticas que o Protestantismo, no seu desprezo à Igreja, rejeitou? Ora, desde quando a rejeição do Protestantismo serve como prova de alguma coisa? Dirão que a Bíblia se opõe a essas doutrinas e práticas? Mas quem o disse? O Protestantismo? Então voltamos para o mesmo lugar, visto que não nos serve a rejeição do Protestantismo, assim como a eles não servem as afirmações do nosso Catolicismo. É tudo uma questão de interpretação. Se disserem, portanto, que tais coisas são contrárias às Escrituras, nós responderemos que não são, e, se apontarem textos que, na opinião deles, favorecem o que sustentam, diremos que não entenderam tais textos, e indicaremos inúmeras outras passagens a contrastar com o que pensam ser a verdade. Por sua vez, certamente nos acusarão de torcer a Palavra de Deus. O que restará, pois? Nada além de afirmações contra afirmações e interpretações contra interpretações. Não acha que tudo findará numa contenda inútil, dessas que embrutecem o espírito e ensoberbecem a inteligência, já tão inclinada à vaidade?

Conclusão: Sem conseguir responder a essas e outras perguntas, o evangélico quanto mais fiel a sua doutrina (aliás, doutrinas), quanto mais vai a sua igreja e ora, escreve nos muros que Jesus o orienta, lê a Bíblia e procura entendê-la, mais desorientado é. De fato, ao comparar as mil e uma doutrinas protestantes ele fica sem saber onde está a verdade.

Nomenclatura

1) Livro protocanônico = livro sempre considerado canônico.

2) Livro deuterocanônico = livro que sofreu dúvidas quanto a sua canonicidade, por isso, foi catalogado déuteron ou em segunda instância. São os 7 livros que existem a mais na Bíblia católica.

3) Sola scriptura = Só a Escritura/ Sola fide = Só a fé. (Expressões usadas pelos evangélicos.)

Professor Evaldo Gomes

Nota da Confraria: a Inquisição mais acertou do que errou - leia nossas postagens sobre inquisição e saiba a explicação.

Fontes:

http://www.programafalandodefe.com.br/2010/perguntas-a-que-nenhum-evangelico-consegue-responder

http://afeexplicada.wordpress.com/2011/10/28/perguntas-para-os-evangelicos-refletirem/#comment-172

Tolerância, diversidade e outras "fábulas".


“Ditadura da Tolerância” – entrevista com José Antônio Ureta

Edson Carlos de Oliveira
Jose Antonio Ureta

José Antonio Ureta

Em 2010, durante o VII Congresso Conservador realizado em Cracóvia, o pesquisador chileno José Antonio Ureta, um dos conferencistas daquele evento, tratou sobre um assunto de grande atualidade: a “Ditadura da Tolerância”.

Para deixar nossos leitores a par do tema, o Sr. Ureta foi muito solicito em nos conceder uma entrevista.

***

- O que podemos entender por “Ditadura da Tolerância”? Não são palavras contraditórias?

José Antonio Ureta - Em teoria, são contraditórias; na prática, não. É uma outra maneira de exprimir aquilo o que o Papa Bento XVI denuncia como a “ditadura do relativismo”.

Se por tolerância se entende que não há verdade nem êrro, nem bem nem mal, e que cada um pode pensar, querer e agir como bem entende, então deixa de haver valores absolutos e limites objetivos que se impõem a todos.

O resultado é que a maioria (ou até uma minoria que se julga “esclarecida”) pode impor ditatorialmente aos demais aberrações contrarias à ordem natural.

Por exemplo, obrigar os médicos a praticar o aborto ou aos pais de família a aceitarem babás homossexuais para seus filhos.

- Essa “Ditadura da Tolerância” é uma manobra de perseguição religiosa?

José Antonio Ureta - Em uma de suas obras, Plinio Corrêa de Oliveira observa – e com muita razão – que quando os maus são minoria, eles pedem liberdade para o mal. Mas, quando passam a ser maioria, ou a manipular a maioria, então eles negam aos bons o direito de fazer o bem.

Para eles, a definição de liberdade é o contrário do que disse o presidente-mártir do Equador, Gabriel García Moreno: “Liberdade para todos e para tudo; exceto para o mal e para os maus”. O lema deles poderia bem ser: “liberdade para todos e para tudo; exceto para o bem e para os bons”.

O slogan de que se servem foi enunciado pelo jacobino Saint-Just, que chegou a ser chamado o “Anjo do Terror”, durante a Revolução Francesa: “Nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade”.

É por esse tortuoso caminho que o liberalismo desemboca no totalitarismo e na perseguição dos opositores por motivos ideológicos. Como toda ideologia tem um fundo religioso, acaba dando numa perseguição religiosa.

- Como o Sr. vê o emprego desta palavra “tolerância” pela mídia? E qual o papel da mídia nessa “Ditadura da Tolerância”?

José Antonio Ureta - Segundo a doutrina católica, a tolerância é uma licença negativa do mal. O mal deve ser normalmente combatido, mas por vezes é preciso tolerá-lo para evitar um mal ainda maior ou para não prejudicar um bem maior. É a aplicação da parábola do joio e o trigo à vida social. Mas essa tolerância bem entendida não confere ao mal tolerado nenhum direito. Logo que as condições objetivas permitem erradicá-lo, esse mal pode ser eliminado.

O conceito relativista de tolerância, pelo contrário, afirma que todas as doutrinas e todos os comportamentos são equivalentes e devem coexistir. O que é uma utopia.

A mídia tem um grande papel em favorecer essa mentalidade relativista, apresentando como modelo as personalidades “abertas” (por exemplo, os artistas e políticos favoráveis à liberalização da maconha) e desacreditando os defensores de princípios absolutos como “autoritários”, “fechados”, “obscurantistas”.

- A mídia de massa usa correntemente certos termos como “homofobia” e até “islamofobia”, mas parece que a mesma mídia se nega a utilizar o termo “cristianofobia” para caracterizar o assassinato e a perseguição aos cristãos. Isso não seria um indício de que a “Ditadura da Tolerância” visa apenas perseguir os cristãos?

José Antonio Ureta – Homofobia foi um termo inventado por um psiquiátra americano para estigmatizar aqueles que se opõem à homossexualidade, pressupondo que o fazem por desordens temperamentais e não por princípios. É uma maneira cômoda de amordaçar os opositores sem ter que responder a seus argumentos.

Vendo o sucesso da manobra, os líderes muçulmanos cunharam o termo de “islamofobia” para silenciar, no Ocidente, aqueles que denunciam as falsidades do Corão ou as injustiças nos países muçulmanos ou a invasão massiva de islamitas nos países desenvolvidos.

A mídia usa e abusa desses termos. Mas, como você diz, quando se trata de denunciar as perseguições aos cristãos nos países muçulmanos ou os ataques ao Cristianismo no Ocidente, a mídia cala a boca, ou é conivente com os ataques em nome da liberdade de expressão.

- Na Europa, há leis ou projetos de lei que vão na linha dessa “Ditadura da Tolerância”?

José Antonio Ureta – Claro que há. Por exemplo, os farmacêuticos católicos são obrigados a vender a pílula abortiva do dia seguinte e os anticoncepcionais, sob pretexto que são “medicamentos”. Como quase todos os médicos jovens invocam a cláusula de objeção de consciência para recusar-se a praticar abortos, as feministas querem impor a prática dizendo que o aborto é um tratamento de saúde.

Em matéria de homossexualidade é parecido. As agências católicas inglesas de adoção de crianças tiveram que fechar porque não podiam “discriminar” os casais homossexuais. As paróquias não podem mais alugar o salão paroquial para casamentos (o que era frequente, porque era mais fácil fazer a festa logo após a cerimônia), porque não podem mais discriminar os homossexuais.

Nesta semana, na Inglaterra, o gerente de uma companhia pública que cuida de alojamentos foi sancionado por ter colocado no seu Facebook – num espaço que somente seus amigos têm acesso- a opinião de que permitir a celebração de “casamentos” entre homossexuais nas igrejas seria uma “igualdade excessiva” !

- O Sr. poderia dizer como nós aqui no Brasil poderíamos combater de modo inteligente e eficaz a implantação dessa “Ditadura da Tolerância”?

José Antonio Ureta – Acho que o melhor método é tornar pública a perseguição que está acontecendo em outros países e dizer que, se não há reação, o mesmo vai acontecer ai.

E, sobretudo, lembrar que “é preciso obedecer a Deus antes que aos homens”, como disse S. Pedro quando foi conduzido diante do tribunal por pregar o Evangelho.

É melhor reagir agora do que depois ter que morrer como mártir ou, pior ainda, viver vergonhosamente como “cidadão de segunda classe”.

Fonte: http://www.ipco.org.br/home/noticias/%E2%80%9Cditadura-da-tolerancia%E2%80%9D-entrevista-com-jose-antonio-ureta-2?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+ipco+%28IPCO+-+Instituto+Pl%C3%ADnio+Corr%C3%AAa+de+Oliveira%29

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Mortalium Animos, Pio XI.


CARTA ENCÍCLICA MORTALIUM ANIMOS DO SUMO PONTÍFICE PIO XI
AOS REVMOS. SENHORES PADRES PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS, BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS DOS LUGARES EM PAZ E UNIÃO COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE A PROMOÇÃO DA VERDADEIRA UNIDADE DE RELIGIÃO

Veneráveis irmãos:
Saúde e Bênção Apostólica.

1. Ânsia Universal de Paz e Fraternidade

Talvez jamais em uma outra época os espíritos dos mortais foram tomados por um tão grande desejo daquela fraterna amizade, pela qual em razão da unidade e identidade de natureza – somos estreitados e unidos entre nós, amizade esta que deve ser robustecida e orientada para o bem comum da sociedade humana, quanto vemos ter acontecido nestes nossos tempos.

Pois, embora as nações ainda não usufruam plenamente dos benefícios da paz, antes, pelo contrário, em alguns lugares, antigas e novas discórdias vão explodindo em sedições e em conflitos civis; como não é possível, entretanto, que as muitas controvérsias sobre a tranqüilidade e a prosperidade dos povos sejam resolvidas sem que exista a concórdia quanto à ação e às obras dos que governam as Cidades e administram os seus negócios; compreende-se facilmente (tanto mais que já ninguém discorda da unidade do gênero humano) porque, estimulados por esta irmandade universal, também muitos desejam que os vários povos cada dia se unam mais estreitamente.

2. A Fraternidade na Religião. Congressos Ecumênicos

Entretanto, alguns lutam por realizar coisa não dissemelhante quanto à ordenação da Lei Nova trazida por Cristo, Nosso Senhor.

Pois, tendo como certo que rarissimamente se encontram homens privados de todo sentimento religioso, por isto, parece, passaram a ter a esperança de que, sem dificuldade, ocorrerá que os povos, embora cada um sustente sentença diferente sobre as coisas divinas, concordarão fraternalmente na profissão de algumas doutrinas como que em um fundamento comum da vida espiritual.

Por isto costumam realizar por si mesmos convenções, assembléias e pregações, com não medíocre freqüência de ouvintes e para elas convocam, para debates, promiscuamente, a todos: pagãos de todas as espécies, fiéis de Cristo, os que infelizmente se afastaram de Cristo e os que obstinada e pertinazmente contradizem à sua natureza divina e à sua missão.

3. Os Católicos não podem aprová-lo

Sem dúvida, estes esforços não podem, de nenhum modo, ser aprovados pelos católicos, pois eles se fundamentam na falsa opinião dos que julgam que quaisquer religiões são, mais ou menos, boas e louváveis, pois, embora não de uma única maneira, elas alargam e significam de modo igual aquele sentido ingênito e nativo em nós, pelo qual somos levados para Deus e reconhecemos obsequiosamente o seu império.

Erram e estão enganados, portanto, os que possuem esta opinião: pervertendo o conceito da verdadeira religião, eles repudiam-na e gradualmente inclinam-se para o chamado Naturalismo e para o Ateísmo. Daí segue-se claramente que quem concorda com os que pensam e empreendem tais coisas afasta-se inteiramente da religião divinamente revelada.

4. Outro erro. A união de todos os Cristãos. Argumentos falazes

Entretanto, quando se trata de promover a unidade entre todos os cristãos, alguns são enganados mais facilmente por uma disfarçada aparência do que seja reto.

Acaso não é justo e de acordo com o dever – costumam repetir amiúde – que todos os que invocam o nome de Cristo se abstenham de recriminações mútuas e sejam finalmente unidos por mútua caridade?

Acaso alguém ousaria afirmar que ama a Cristo se, na medida de suas forças, não procura realizar as coisas que Ele desejou, Ele que rogou ao Pai para que seus discípulos fossem "UM" (Jo 17,21)?

Acaso não quis o mesmo Cristo que seus discípulos fossem identificados por este como que sinal e fossem por ele distinguidos dos demais, a saber, se mutuamente se amassem: "Todos conhecerão que sois meus discípulos nisto: se tiverdes amor um pelo outro?" (Jo 13,35).

Oxalá todos os cristão fossem "UM", acrescentam: eles poderiam repelir muito melhor a peste da impiedade que, cada dia mais, se alastra e se expande, e se ordena ao enfraquecimento do Evangelho.

5. Debaixo desses argumentos se oculta um erro gravíssimo

Os chamados "pancristãos" espalham e insuflam estas e outras coisas da mesma espécie. E eles estão tão longe de serem poucos e raros mas, ao contrário, cresceram em fileiras compactas e uniram-se em sociedades largamente difundidas, as quais, embora sobre coisas de fé cada um esteja imbuído de uma doutrina diferente, são, as mais das vezes, dirigidas por acatólicos.

Esta iniciativa é promovida de modo tão ativo que, de muitos modos, consegue para si a adesão dos cidadãos e arrebata e alicia os espíritos, mesmo de muitos católicos, pela esperança de realizar uma união que parecia de acordo com os desejos da Santa Mãe, a Igreja, para Quem, realmente, nada é tão antigo quanto o reconvocar e o reconduzir os filhos desviados para o seu grêmio.

Na verdade, sob os atrativos e os afagos destas palavras oculta-se um gravíssimo erro pelo qual são totalmente destruídos os fundamentos da fé.

6. A verdadeira norma nesta matéria

Advertidos, pois, pela consciência do dever apostólico, para que não permitamos que o rebanho do Senhor seja envolvido pela nocividade destas falácias, apelamos, veneráveis irmãos, para o vosso empenho na precaução contra este mal. Confiamos que, pelas palavras e escritos de cada um de vós, poderemos atingir mais facilmente o povo, e que os princípios e argumentos, que a seguir proporemos, sejam entendidos por ele, pois, por meio deles, os católicos devem saber o que devem pensar e praticar, dado que se trata de iniciativas que dizem respeitos a eles, para unir de qualquer maneira em um só corpo os que se denominam cristãos.

7. Só uma religião pode ser verdadeira: A revelada por Deus

Fomos criados por Deus, Criador de todas as coisas, para este fim: conhecê-lO e serví-lO. O nosso Criador possui, portanto, pleno direito de ser servido.

Por certo, poderia Deus ter estabelecido apenas uma lei da natureza para o governo do homem. Ele, ao criá-lo, gravou-a em seu espírito e poderia portanto, a partir daí, governar os seus novos atos pela providência ordinária dessa mesma lei. Mas, preferiu dar preceitos aos quais nós obedecêssemos e, no decurso dos tempos, desde os começos do gênero humano até a vinda e a pregação de Jesus Cristo, Ele próprio ensinou ao homem, naturalmente dotado de razão, os deveres que dele seriam exigidos para com o Criador: "Em muitos lugares e de muitos modos, antigamente, falou Deus aos nossos pais pelos profetas; ultimamente, nestes dias, falou-nos por seu Filho" (Heb 1,1 Seg).

Está, portanto, claro que a religião verdadeira não pode ser outra senão a que se funda na palavra revelada de Deus; começando a ser feita desde o princípio, essa revelação prosseguiu sob a Lei Antiga e o próprio cristo completou-a sob a Nova Lei.

Portanto, se Deus falou – e comprova-se pela fé histórica ter Ele realmente falado – não há quem não veja ser dever do homem acreditar, de modo absoluto, em Deus que se revela e obedecer integralmente a Deus que impera. Mas, para a glória de Deus e para a nossa salvação, em relação a uma coisa e outra, o Filho Unigênito de Deus instituiu na terra a Sua Igreja.

8. A única religião revelada é a Igreja Católica

Acreditamos, pois, que os que afirma serem cristão, não possam fazê-lo sem crer que uma Igreja, e uma só, foi fundada por Cristo. Mas, se se indaga, além disso, qual deva ser ela pela vontade do seu Autor, já não estão todos em consenso.

Assim, por exemplo, muitíssimos destes negam a necessidade da Igreja de Cristo ser visível e perceptível, pelo menos na medida em que deva aparecer como um corpo único de fiéis, concordes em uma só e mesma doutrina, sob um só magistério e um só regime. Mas, pelo contrário, julgam que a Igreja perceptível e visível é uma Federação de várias comunidades cristãs, embora aderentes, cada uma delas, a doutrinas opostas entre si.

Entretanto, Cristo Senhor instituiu a Sua Igreja como uma sociedade perfeita de natureza externa e perceptível pelos sentidos, a qual, nos tempos futuros, prosseguiria a obra da reparação do gênero humano pela regência de uma só cabeça (Mt 16,18 seg.; Lc 22,32; Jo 21,15-17), pelo magistério de uma voz viva (Mc 16,15) e pela dispensação dos sacramentos, fontes da graça celeste (Jo 3,5; 6,48-50; 20,22 seg.; cf. Mt 18,18; etc.). Por esse motivo, por comparações afirmou-a semelhante a um reino (Mt, 13), a uma casa (Mt 16,18), a um redil de ovelhas (Jo 10,16) e a um rebanho (Jo 21,15-17).

Esta Igreja, fundada de modo tão admirável, ao Lhe serem retirados o seu Fundador e os Apóstolos que por primeiro a propagaram, em razão da morte deles, não poderia cessar de existir e ser extinta, uma vez que Ela era aquela a quem, sem nenhuma discriminação quanto a lugares e a tempos, fora dado o preceito de conduzir todos os homens à salvação eterna: "Ide, pois, ensinai a todos os povos" (Mt 28,19).

Acaso faltaria à Igreja algo quanto à virtude e eficácia no cumprimento perene desse múnus, quando o próprio Cristo solenemente prometeu estar sempre presente a ela: "Eis que Eu estou convosco, todos os dias, até a consumação dos séculos?" (Mt 28,20).

Deste modo, não pode ocorrer que a Igreja de Cristo não exista hoje e em todo o tempo, e também que Ela não exista como inteiramente a mesma que existiu à época dos Apóstolos. A não ser que desejemos afirmar que: Cristo Senhor ou não cumpriu o que propôs ou que errou ao afirmar que as portas do inferno jamais prevaleceriam contra Ela (Mt 16,18).

9. Um erro capital do movimento ecumêmico na pretendida união das Igrejas cristãs

Ocorre-nos dever esclarecer e afastar aqui certa opinião falsa, da qual parece depender toda esta questão e proceder essa múltipla ação e conspiração dos acatólicos que, como dissemos, trabalham pela união das igrejas cristãs.

Os autores desta opinião acostumaram-se a citar, quase que indefinidamente, a Cristo dizendo: "Para que todos sejam um"... "Haverá um só rebanho e um só Pastor" (Jo 27,21; 10,16). Fazem-no todavia de modo que, por essas palavras, queriam significar um desejo e uma prece de Cristo ainda carente de seu efeito. Pois opinam: a unidade de fé e de regime, distintivo da verdadeira e única Igreja de Cristo, quase nunca existiu até hoje e nem hoje existe; que ela pode, sem dúvida, ser desejada e talvez realizar-se alguma vez, por uma inclinação comum das vontades; mas que, entrementes, deve existir apenas uma fictícia unidade.

Acrescentam que a Igreja é, por si mesma, por natureza, dividida em partes, isto é, que ela consta de muitas igreja ou comunidades particulares, as quais, ainda separadas, embora possuam alguns capítulos comuns de doutrina, discordam todavia nos demais. Que cada uma delas possui os mesmos direitos, que, no máximo, a Igreja foi única e una, da época apostólica até os primeiros concílios ecumênicos.

Assim, dizem, é necessários colocar de lado e afastar as controvérsias e as antiquíssimas variedade de sentenças que até hoje impedem a unidade do nome cristão e, quanto às outras doutrinas, elaborar e propor uma certa lei comum de crer, em cuja profissão de fé todos se conheçam e se sintam como irmãos, pois, se as múltiplas igrejas e comunidades forem unidas por um certo pacto, existiria já a condição para que os progressos da impiedade fossem futuramente impedidos de modo sólido e frutuoso.

Estas são, Veneráveis Irmãos, as afirmações comuns.

Existem, contudo, os que estabelecem e concedem que o chamado Protestantismo, de modo bastante inconsiderado, deixou de lado certos capítulos da fé e alguns ritos do culto exterior, sem dúvida gratos e úteis, que, pelo contrário, a Igreja Romana ainda conserva.

Mas, de imediato, acrescentam que esta mesma Igreja também agiu mal, corrompendo a religião primitiva por algumas doutrinas alheias e repugnantes ao Evangelho, propondo acréscimos para serem cridos: enumeram como o principal entre estes o que versa sobre o Primado de Jurisdição atribuído a Pedro e a seus Sucessores na Sé Romana.

Entre os que assim pensam, embora não sejam muitos, estão os que indulgentemente atribuem ao Pontífice Romano um primado de honra ou uma certa jurisdição e poder que, entretanto, julgam procedente não do direito divino, mas de certo consenso dos fiéis. Chegam outros ao ponto de, por seus conselhos, que diríeis serem furta-cores, quererem presidir o próprio Pontífice.

E se é possível encontrar muitos acatólicos pregando à boca cheia a união fraterna em Jesus Cristo, entretanto não encontrareis a nenhum deles em cujos pensamentos esteja a submissão e a obediência ao Vigário de Jesus Cristo enquanto docente ou enquanto governante.

Afirmam eles que tratariam de bom grado com a Igreja Romana, mas com igualdade de direitos, isto é, iguais com um igual. Mas, se pudessem fazê-lo, não parece existir dúvida de que agiriam com a intenção de que, por um pacto que talvez se ajustasse, não fossem coagidos a afastarem-se daquelas opiniões que são a causa pela qual ainda vagueiem e errem fora do único aprisco de Cristo.

10. A Igreja Católica não pode participar de semelhantes reuniões

Assim sendo, é manifestamente claro que a Santa Sé, não pode, de modo algum, participar de suas assembléias e que, aos católicos, de nenhum modo é lícito aprovar ou contribuir para estas iniciativas: se o fizerem concederão autoridade a uma falsa religião cristã, sobremaneira alheia à única Igreja de Cristo.

11. A verdade revelada não admite transações

Acaso poderemos tolerar - o que seria bastante iníquo -, que a verdade e, em especial a revelada, seja diminuída através de pactuações?

No caso presente, trata-se da verdade revelada que deve ser defendida.

Se Jesus Cristo enviou os Apóstolos a todo o mundo, a todos os povos que deviam ser instruídos na fé evangélica e, para que não errassem em nada, quis que, anteriormente, lhes fosse ensinada toda a verdade pelo Espírito Santo, acaso esta doutrina dos Apóstolos faltou inteiramente ou foi alguma vez perturbada na Igreja em que o próprio Deus está presente como regente e guardião?

Se o nosso Redentor promulgou claramente o seu Evangelho não apenas para os tempos apostólicos, mas também para pertencer às futuras épocas, o objeto da fé pode tornar-se de tal modo obscuro e incerto que hoje seja necessário tolerar opiniões pelo menos contrárias entre si?

Se isto fosse verdade, dever-se-ia igualmente dizer que o Espírito Santo que desceu sobre os Apóstolos, que a perpétua permanência dEle na Igreja e também que a própria pregação de Cristo já perderam, desde muitos séculos, toda a eficácia e utilidade: afirmar isto é, sem dúvida, blasfemo.

12. A Igreja Católica: depositária infalível da verdade

Quando o Filho unigênito de Deus ordenou a Seus enviados que ensinassem a todos os povos, vinculou então todos os homens pelo dever de crer nas coisas que lhes fossem anunciadas pela "testemunha pré-ordenadas por Deus" (At. 10,41). Entretanto, um e outro preceito de Cristo, o de ensinar e o de crer na consecução da salvação eterna, que não podem deixar de ser cumpridos, não poderiam ser entendidos a não ser que a Igreja proponha de modo íntegro e claro a doutrina evangélica e que, ao propô-la, seja imune a qualquer perigo de errar.

Afastam-se igualmente do caminho os que julgam que o depósito da verdade existe realmente na terra, mas que é necessário um trabalho difícil, com tão longos estudos e disputas para encontrá-lo e possuí-lo que a vida dos homens seja apenas suficiente para isso, com se Deus benigníssimo tivesse falado pelos profetas e pelo Seu Unigênito para que apenas uns poucos, e estes mesmos já avançados em idade, aprendessem perfeitamente as coisas que por eles revelou, e não para que preceituasse uma doutrina de fé e de costumes pela qual, em todo o decurso de sua vida mortal, o homem fosse regido.

13. Sem fé, não há verdadeira caridade

Estes pancristãos, que empenham o seu espírito na união das igrejas, pareceriam seguir, por certo, o nobilíssimo conselho da caridade que deve ser promovida entre os cristãos.

Mas, dado que a caridade se desvia em detrimento da fé, o que pode ser feito?

Ninguém ignora por certo que o próprio João, o Apóstolo da Caridade, que em seu Evangelho parece ter manifestado os segredos do Coração Sacratíssimo de Jesus e que permanentemente costumavas inculcar à memória dos seus o mandamento novo: "Amai-vos uns aos outros", vetou inteiramente até mesmo manter relações com os que professavam de forma não íntegra e incorrupta a doutrina de Cristo: "Se alguém vem a vós e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem digais a ele uma saudação" (2 Jo. 10).

Pelo que, como a caridade se apóia na fé íntegra e sincera como que em um fundamento, então é necessário unir os discípulos de Cristo pela unidade de fé como no vínculo principal.

14. União Irracional

Assim, de que vale excogitar no espírito uma certa Federação cristã, na qual ao ingressar ou então quando se tratar do objeto da fé, cada qual retenha a sua maneira de pensar e de sentir, embora ela seja repugnante às opiniões dos outros?

E de que modo pedirmos que participem de um só e mesmo Conselho homens que se distanciam por sentenças contrárias como, por exemplo, os que afirmam e os que negam ser a sagrada Tradição uma fonte genuína da Revelação Divina?

Como os que adoram a Cristo realmente presente na Santíssima Eucaristia, por aquela admirável conversão do pão e do vinho que se chama transubstanciação e os que afirmam que, somente pela fé ou por sinal e em virtude do Sacramento, aí está presente o Corpo de Cristo? Como os que reconhecem nela a natureza do Sacrifício e a do Sacramento e os que dizem que ela não é senão a memória ou comemoração da Ceia do Senhor?

Como os que crêem ser bom e útil invocar súplice os Santos que reinam junto de Cristo - Maria, Mãe de Deus, em primeiro lugar - e tributar veneração às suas imagens e os que contestam que não pode ser admitido semelhante culto, por ser contrário à honra de Jesus Cristo, "único mediador de Deus e dos homens"? (1 Tim. 2,5).

15. Princípio até o indiferentismo e o modernismo

Não sabemos, pois, como por essa grande divergência de opiniões seja defendida o caminho para a realização da unidade da Igreja: ela não pode resultar senão de um só magistério, de uma só lei de crer, de uma só fé entre os cristãos. Sabemos, entretanto, gerar-se facilmente daí um degrau para a negligência com a religião ou o Indiferentismo e para o denominado Modernismo. Os que foram miseravelmente infeccionados por ele defendem que não é absoluta, mas relativa a verdade revelada, isto é, de acordo com as múltiplas necessidades dos tempos e dos lugares e com as várias inclinações dos espíritos, uma vez que ela não estaria limitada por uma revelação imutável, mas seria tal que se adaptaria à vida dos homens.

Além disso, com relação às coisas que devem ser cridas, não é lícito utilizar-se, de modo algum, daquela discriminação que houveram por bem introduzir entre o que denominam capítulos fundamentais e capítulos não fundamentais da fé, como se uns devessem ser recebidos por todos, e, com relação aos outros, pudesse ser permitido o assentimento livre dos fiéis: a Virtude sobrenatural da fé possui como causa formal a autoridade de Deus revelante e não pode sofrer nenhuma distinção como esta.

Por isto, todos os que são verdadeiramente de Cristo consagram, por exemplo, ao mistério da Augusta Trindade a mesma fé que possuem em relação dogma da Mãe de Deus concebida sem a mancha original e não possuem igualmente uma fé diferente com relação à Encarnação do Senhor e ao magistério infalível do Pontífice romano, no sentido definido pelo Concílio Ecumênico Vaticano.

Nem se pode admitir que as verdades que a Igreja, através de solenes decretos, sancionou e definiu em outras épocas, pelo menos as proximamente superiores, não sejam, por este motivo, igualmente certas e nem devam ser igualmente acreditadas: acaso não foram todas elas reveladas por Deus?

Pois, o Magistério da Igreja, por decisão divina, foi constituído na terra para que as doutrinas reveladas não só permanecessem incólumes perpetuamente, mas também para que fossem levadas ao conhecimento dos homens de um modo mais fácil e seguro. E, embora seja ele diariamente exercido pelo Pontífice Romano e pelos Bispos em união com ele, todavia ele se completa pela tarefa de agir, no momento oportuno, definindo algo por meio de solenes ritos e decretos, se alguma vez for necessário opor-se aos erros ou impugnações dos hereges de um modo mais eficiente ou imprimir nas mentes dos fiéis capítulos da doutrina sagrada expostos de modo mais claro e pormenorizado.

Por este uso extraordinário do Magistério nenhuma invenção é introduzida e nenhuma coisa nova é acrescentada à soma de verdades que estando contidas, pelo menos implicitamente, no depósito da revelação, foram divinamente entregues à Igreja, mas são declaradas coisas que, para muitos talvez, ainda poderiam parecer obscuras, ou são estabelecidas coisas que devem ser mantidas sobre a fé e que antes eram por alguns colocados sob controvérsia.

16. A única maneira de unir todos os cristãos

Assim, Veneráveis Irmãos, é clara a razão pela qual esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus estarem presentes às reuniões de acatólicos por quanto não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela.

Dizemos à única verdadeira Igreja de Cristo: sem dúvida ela é a todos manifesta e, pela vontade de seu Autor, Ela perpetuamente permanecerá tal qual Ele próprio A instituiu para a salvação de todos.

Pois, a mística Esposa de Cristo jamais se contaminou com o decurso dos séculos nem, em época alguma, poderá ser contaminada, como Cipriano o atesta: "A Esposa de Cristo não pode ser adulterada: ela é incorrupta e pudica. Ela conhece uma só casa e guarda com casto pudor a santidade de um só cubículo" (De Cath. Ecclessiae unitate, 6).

E o mesmo santo Mártir, com direito e com razão, grandemente se admirava de que pudesse alguém acreditar que "esta unidade que procede da firmeza de Deus pudesse cindir-se e ser quebrada na Igreja pelo divórcio de vontades em conflito" (ibidem).

Portanto, dado que o Corpo Místico de Cristo, isto é, a Igreja, é um só (1 Cor. 12,12), compacto e conexo (Ef. 4,15), à semelhança do seu corpo físico, seria inépcia e estultícia afirmar alguém que ele pode constar de membros desunidos e separados: quem pois não estiver unido com ele, não é membro seu, nem está unido à cabeça, Cristo (Cfr. Ef. 5,30; 1,22).

17. A obediência ao Romano Pontífice

Mas, ninguém está nesta única Igreja de Cristo e ninguém nela permanece a não ser que, obedecendo, reconheça e acate o poder de Pedro e de seus sucessores legítimos.

Por acaso os antepassados dos enredados pelos erros de Fócio e dos reformadores não estiveram unidos ao Bispo de Roma, ao Pastor supremo das almas?

Ai! Os filhos afastaram-se da casa paterna; todavia ela não foi feita em pedaços e nem foi destruída por isso, uma vez que estava arrimada na perene proteção de Deus. Retornem, pois, eles ao Pai comum que, esquecido das injúrias antes gravadas a fogo contra a Sé Apostólica, recebê-los-á com máximo amor.

Pois se, como repetem freqüentemente, desejam unir-se Conosco e com os nossos, por que não se apressam em entrar na Igreja, "Mãe e Mestra de todos os fiéis de Cristo" (Conc. Later 4, c.5)?

Escutem a Lactâncio chamado amiúde: "Só... a Igreja Católica é a que retém o verdadeiro culto. Aqui está a fonte da verdade, este é o domicílio da Fé, este é o templo de Deus: se alguém não entrar por ele ou se alguém dele sair, está fora da esperança da vida e salvação. É necessário que ninguém se afague a si mesmo com a pertinácia nas disputas, pois trata-se da vida e da salvação que, a não ser que seja provida de um modo cauteloso e diligente, estará perdida e extinta" (Divin. Inst. 4,30, 11-12).

18. Apelo às seitas dissidentes

Aproximem-se, portanto, os filhos dissidentes da Sé Apostólica, estabelecida nesta cidade que os Príncipes dos Apóstolos Pedro e Paulo consagraram com o seu sangue; daquela Sede, dizemos, que é "raiz e matriz da Igreja Católica" (S. Cypr., ep. 48 ad Cornelium, 3), não com o objetivo e a esperança de que "a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade" (1 Tim 3,15) renuncie à integridade da fé e tolere os próprios erros deles, mas, pelo contrário, para que se entreguem a seu magistério e regime.

Oxalá auspiciosamente ocorra para Nós isto que não ocorreu ainda para tantos dos nossos muitos Predecessores, a fim de que possamos abraçar com espírito fraterno os filhos que nos é doloroso estejam de Nós separados por uma perniciosa dissensão.

Prece a Nosso Senhor e a Nossa Senhora

Oxalá Deus, Senhor nosso, que "quer salvar todos os homens e que eles venham ao conhecimento da verdade" (1 Tim. 2,4) nos ouça suplicando fortemente para que Ele se digne chamar à unidade da Igreja a todos os errantes.

Nesta questão que é, sem dúvida, gravíssima, utilizamos e queremos que seja utilizada como intercessora a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da graça divina, vencedora de todas as heresias e auxílio dos cristãos, para que Ela peça, para o quanto antes, a chegada daquele dia tão desejado por nós, em que todos os homens escutem a voz do Seu Filho divino, "conservando a unidade de espírito em um vínculo de paz" (Ef. 4,3).

19. Conclusão e Bênção Apostólica

Compreendeis, Veneráveis Irmãos, o quanto desejamos isto e queremos que o saibam os nossos filhos, não só todos os do mundo católico, mas também os que de Nós dissentem. Estes, se implorarem em prece humilde as luzes do céu, por certo reconhecerão a única verdadeira Igreja de Jesus Cristo e, por fim, nela tendo entrado, estarão unidos conosco em perfeita caridade.

No aguardo deste fato, como auspício dos dons de Deus e como testemunho de nossa paterna benevolência, concedemos muito cordialmente a vós, Veneráveis Irmãos, e a vosso clero e povo, a bênção apostólica.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia seis de janeiro, no ano de 1928, festa da Epifania de Jesus Cristo, Nosso Senhor, sexto de nosso Pontificado.

Pio, Papa XI.

Fonte: http://a-grande-guerra.blogspot.com/2011/10/nota-do-blogue-agradeco-sugestao-de-um.html

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Assis 2011: terceira negação de Pedro - Cristo é flagelado no pilar.


Publico no blog, para conhecimento de todos os católicos de boa vontade acerca do evento já próximo, Assis III, convocado para o dia 27 de outubro, por S.S. o Papa Bento XVI, o convite do Rev.mo Christian Bouchacourt:

Fonte: Site da FSSPX-América do Sul

Tradução: Giulia d'Amore di Ugento

COMUNICADO DO SUPERIOR DO DISTRITO DA AMÉRICA DO SUL

ASSIS 2011: NECESSIDADE DE UMA REPARAÇÃO

Queridos Fiéis:

Na próxima quinta-feira, dia 27 de outubro, haverá a terceira reunião de Assis, convocada e presidida pelo Papa Bento XVI. A programação publicada pela Santa Sé informa que será “uma jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e a justiça no mundo”. Bento XVI convida “as diversas confissões cristãs, os representantes das tradições religiosas do mundo e todas as pessoas de boa vontade” para reunir-se sobre o tema: “Peregrinos da verdade, peregrinos da paz”, “com vista a construir um mundo cada vez mais fraterno, no qual todos sejam livres de professar a sua própria religião e fé”. (Bento XVI, Ângelus do dia 1º de Janeiro de 2011, Alocução aos peregrinos franceses).

Aparentemente, os escândalos ocorridos em 1986 em várias igrejas de Assis não serão renovados; no entanto, os princípios invocados com vistas à organização da reunião são os mesmos que há 25 anos: pretende-se que a liberdade religiosa nas nações seja fonte de paz, enquanto a doutrina católica ensina que somente a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo e a fidelidade à Igreja fundada por Ele podem alcançar a paz no mundo enlouquecido. Substitui-se a fé pela liberdade de consciência. O homem-deus quer suplantar o Deus que se fez homem. E quem propõe semelhante delírio – que nasceu nas lojas maçónicas – como remédio para o mundo é o próprio Vigário de Cristo. Que escândalo e mistério tão grande!

Devemos reparar tamanha injuria feita a Deus.

Por este motivo, convido todos os fiéis de nossos priorados e todos os católicos desejosos de defender a honra divina a participar da cerimônia de desagravo que será organizada na quinta-feira, 27 de outubro, em cada uma das capelas do Distrito da América do Sul. Rezar-se-á a Via Crucis e a Santa Missa para a Propagação da Fé. Concorremos maciçamente com espírito de penitência e de reparação.

Os seguintes textos pontifícios demostram que sempre a Igreja condenou semelhantes reuniões inter-religiosas. Em vez de alcançar a paz, esta jornada fomentará o indiferentismo religioso e a apostasia, turbará os católicos e seguirá levando a sociedade ao caos, como consequência inevitável da rejeição do Reinado Social de Cristo Rei.

Parce, Domine, parce populo tuo! Perdoai, Senhor, perdoai o Vosso povo!

Pai Christian BOUCHACOURT

21 de outubro de 2011

DECLARAÇÃO DE DOM ANTÔNIO E DOM LEFEBVRE

POR OCASIÃO DA REUNIÃO ECUMÊNICA DE ASSIS EM 1986

COMO CONSEQUÊNCIA DOS ACONTECIMENTOS DA VISITA DE JOÃO PAULO II À SINAGOGA E AO CONGRESSO DAS RELIGIÕES EM ASSIS

Roma nos mandou perguntar se tínhamos a intenção de proclamar nossa ruptura com o Vaticano por ocasião do Congresso de Assis.


Parece-nos que a pergunta deveria, antes, ser esta: o sr. acredita e tem a intenção de declarar que o Congresso de Assis consuma a ruptura das Autoridades Romanas com a Igreja Católica?

Porque é precisamente isto que preocupa àqueles que ainda permanecem católicos.

Com efeito, é bastante evidente que, desde o Concílio Vaticano II, o Papa e os Episcopados se afastam, de maneira cada vez mais nítida, de seus predecessores.

Tudo aquilo que foi posto em prática pela Igreja para defender a Fé nos séculos passados, e tudo o que foi realizado pelos missionários para difundi-la, até o martírio inclusive, é considerado doravante como uma falta da qual a Igreja deveria se acusar e pedir perdão. (nota: os dois bispos não podiam imaginar a avalanche de pedidos de perdão que viria, anos mais tarde, humilhar a Santa Igreja)

A atitude dos onze Papas que, desde 1789 até 1968, em documentos oficiais, condenaram a Revolução liberal, é considerada hoje como “uma falta de compreensão do sopro cristão que inspirou a Revolução”.

Donde, a reviravolta completa de Roma, desde o Concílio Vaticano II, que nos faz repetir as palavras de Nosso Senhor àqueles que O vinham prender: “Haec est hora vestra et potestas tenebrarum – Esta é a vossa hora e o poder das trevas”. (Lc. 22, 52-63)

Adotando a religião liberal do protestantismo e da Revolução, os princípios naturalistas de J.J. Rousseau, as liberdades atéias da Constituição dos Direitos do Homem, o princípio da dignidade humana já sem relação com a verdade e a dignidade moral, – as Autoridades Romanas voltam as costas a seus predecessores e rompem com a Igreja Católica, e põem-se a serviço dos que destroem a Cristandade e o Reinado Universal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os recentes atos de João Paulo II e dos Episcopados nacionais ilustram, de ano para ano, esta mudança radical de concepção da fé, da Igreja, do Sacerdócio, do mundo, da salvação pela graça.

O cúmulo desta ruptura com o magistério anterior da Igreja, depois da visita à Sinagoga, se realizou em Assis. O pecado público contra a unicidade de Deus, contra o Verbo Encarnado e Sua Igreja faz-nos estremecer de horror: João Paulo II encorajando as falsas religiões a rezar a seus falsos deuses: escândalo sem medida e sem precedente.

Poderíamos retomar aqui nossa Declaração de 21 de novembro de 1974, que permanece mais atual que nunca.

Quanto a nós, permanecendo indefectivelmente na adesão à Igreja Católica e Romana de sempre, somos obrigados a verificar que esta religião modernista e liberal da Roma moderna e conciliar se afasta cada vez mais de nós, que professamos a Fé católica dos onze Papas que condenaram esta falsa religião.

A ruptura, portanto, não vem de nós, mas de Paulo VI e de João Paulo II, que rompem com seus predecessores. Esta negação de todo o passado da Igreja por estes dois Papas e pelos Bispos que os imitam é uma impiedade inconcebível e uma humilhação insuportável para aqueles que continuam católicos na fidelidade a vinte séculos de profissão da mesma Fé. Por isso, consideramos como nulo tudo o que foi inspirado por este espírito de negação: todas as Reformas pós-conciliares, e todos os atos de Roma realizados dentro desta impiedade.

Contamos com a graça de Deus e o sufrágio da Virgem Fiel, de todos os Mártires, de todos os Papas até o Concílio, de todos os Santos e Santas fundadores e fundadoras de Ordens contemplativas e missionárias, para que venham em nosso auxílio na renovação da Igreja pela fidelidade integral à Tradição.

Buenos Aires, 2 de dezembro de 1986

+ Marcel Lefebvre
Arcebispo-Bispo emérito de Tulle

+ Antonio de Castro Mayer
Bispo emérito de Campos

que concorda plenamente com a presente declaração e a faz sua.

domingo, 23 de outubro de 2011

A verdadeira face de Mons. Lefebvre.




A verdadeira face de Mons. Lefebvre




Monsenhor Marcel Lefebvre nasceu em 29 de novembro de 1905, em Tourcoing (Norte da França), e morreu em Martigny (Valais, Suíça), em 25 de março de 1991. Arcebispo católico de Dakar e Delegado Apostólico para a África francesa, é nomeado Bispo de Tulle[1] em 1962; depois, Superior Geral da Congregação do Espírito Santo. Grande figura entre os representantes da oposição ao Concílio Vaticano II, em 1970 funda a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, com a finalidade de preservar o sacerdócio católico.

Menos de um ano após o primeiro livro, "Mons. Marcel Lefebvre: em nome da verdade", a conhecida escritora católica Cristina Siccardi volta a enfrentar a figura do Bispo francês, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Este fato já demonstra claramente o notável aumento do interesse por este personagem, controvertido e discutido, mas que deixou uma mensagem no mínimo atual, justo neste momento em que mais e mais vozes se levantam para analisar, de uma nova forma, e anticonformista, o grande fenômeno eclesial do Concílio Vaticano II.

Neste segundo livro, a autora intenta aprofundar sobretudo a espiritualidade e a doutrina de Mons. Lefebvre, evidenciando seu profundo apego à Igreja e à sua Tradição bimilenar.

Ante de tudo, deve-se observar como o trabalho resulte extremamente bem documentado. É baseado, de fato, na consulta direta de manuscritos, a maioria inédita, guardados no Seminário de Ecône. E, justamente observando cuidadosamente tais manuscritos, Siccardi não descuida até mesmo uma análise grafológica dos documentos.

"Ao observar e examinar a caligrafia de Mons. Lefebvre, podemos compreender sua personalidade transparente e forte. Escrita de corpo médio, ordenadíssima, fácil de ler e alinhada com regularidade. A folha não é preenchida, são deixada partes em branco, dando um sentido harmônico ao espaço ocupado, as letras são estreitas, mais altas do que largas, simples e essenciais, unidas entre si e são próximas umas das outras" (pp.11-12).

Estes elementos, juntamente com os conteúdos e as notícias biográficas, contribuem à reconstrução da personalidade do Arcebispo.

"Tudo isso exprime uma personalidade refinada e elegante, mesmo na humildade e sobriedade. Temperamento enérgico, de líder, obstinado e persuasivo, como de quem sabe se afirmar sem levantar a voz; em suma, com autoridade, mas não autoritário; generosíssimo e capaz de sofrer em silêncio, propenso a apreciar a estima e o afeto. Imediato, intuitivo e lungimirante[2], cheio de iniciativa e capaz de tomar decisões, sabendo envolver os colaboradores" (p.12).

Outra característica importantíssima de sua personalidade era certamente a de organizador. Neste aspecto, Mons. Lefebvre distingue-se e supera, de longe, os outros expoentes do tradicionalismo católico, sabiíssimos e eruditos talvez, mas com pouco senso prático. Sua inata capacidade de envolver os jovens e de formá-los em um espírito de ação autenticamente cristão, era avessa seja ao sectarismo, seja ao compromisso em matéria de Fé e moral.
Este foi provavelmente o segredo que preservou, e continua a preservar a Fraternidade São Pio X, da pulverização que acometeu outros movimentos, mesmo tendo sido obrigado a enfrentar circunstâncias históricas dificílimas e extremamente pesadas.

Folheando as densas páginas do livro, percebe-se claramente qual fosse a específica e mais autêntica vocação do prelado. Assim a resume Cristina Siccardi:

"Duas foram as vocações de Monsenhor Marcel Lefebvre: a primeira, aquela amadurecida desde a mais tenra idade, ou seja se tornar um sacerdote. A segunda: formar santos sacerdotes, mantendo a filosofia católica e a teologia de São Tomás de Aquino..." (p. 9).

E os capítulos do livro não fazem outra coisa senão percorrer e aprofundar tal percurso. O sacerdote é um 'Alter Christus', sua principal tarefa é a de santificar os irmãos através da celebração da S. Missa e a dispensação dos sacramentos. Ele deve ser necessariamente todo de Deus e, portanto, não se podem conciliar com seu papel nem o casamento nem a excessiva dependência aos bens deste mundo. Muito significativos, nesse sentido, os capítulos intitulados: "Deus não precisa de tocadores de bandolim" (p. 38), "O profundo significado da batina" (p. 72) e "Sacerdos in aeternum" (p. 86).

Outro ponto central da mensagem de Mons. Lefebvre é, então, certamente, a crítica ao princípio da liberdade religiosa enunciado pela declaração conciliar 'Dignitatis Humanae'.
No livro de Cristina Siccardi são relatados, acerca disso, numerosas declarações e escritos que remontam essencialmente aos anos '70 e '80. Eis um breve exemplo que se conecta ao princípio que Mons. Lefebvre nunca se cansou de proclamar: a realeza social de Jesus Cristo:

"O Salvador do mundo não é mais chamado a reinar sobre a sociedade porque isto é contrário à dignidade humana de cada povo, cada qual livre de escolher sua própria religião e de não ser 'importunado'." (p. 14)

Ele não podia portanto admitir, de modo algum, esta verdadeira destronização de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Prosseguindo a leitura, não faltam também os passos onde a autora repercorre os momentos dolorosos que levaram à excomunhão de 1988. Mesmo aqui, no entanto, ao contrário de uma versão muito creditada pela mídia, Mons. Lefebvre é apresentado como uma pessoa bem diferente do clichê tétrico e intratável adotado por muitos jornalistas.

Frequentemente, ele censurou o "zelo amargo" daqueles que criticam tudo sem o espírito de caridade que consegue, mais do que as palavras, incentivar o comportamentos virtuosos e capazes de dar frutos.

"Precisa absolutamente evitar o zelo amargo, já condenado por São Pio X em sua primeira encíclica, 'E Supremi' (04 de outubro de 1903). Nada, pelo contrário, é mais eficaz do que a caridade. 'Esperar-se-ia em vão de atrair as almas para Deus com um zelo cheio de amargura; repreender duramente os erros e reprovar os vícios com azedume causa frequentemente mais danos do que proveitos'. São Paulo ensina a confutar, a repreender, a exortar, mas acrescenta que é preciso paciência e brandura" (p. 11).

Mas, no fundo, especialmente nos últimos anos muito dolorosos de sua vida, irão pairar sempre, tanto nos escritos como nas homilias, tanto nas pregações dos exercícios espirituais como nas conferências públicas, as dramáticas constatações expressas, com desarmante simplicidade, no famoso sermão de Lille[3], em 1976:

"Pelo contrário, penso que teria sido excomungado se, naquela época, eu tivesse formado seminaristas como eles fazem agora, nos novos seminários; se, naquela época, eu tivesse ensinado o catecismo como é ensinado hoje, teriam me chamado de herege; e, se eu tivesse rezado a Santa Missa como a rezam hoje, teriam me definido como suspeito de heresia, fora da Igreja. Então, eu não entendo. Algo realmente mudou na Igreja!" (p. 9).

Devemos honestamente admitir: ninguém, até hoje, a não ser que se caia no relativismo mais rigoroso, foi capaz de dar respostas críveis a estas simples constatações. Passam-se as décadas, passam os exegetas do Concílio, alternam-se as hermenêuticas, mas ninguém jamais poderá dar respostas capazes de justificar como elementos de continuidade aqueles denunciados por Mons. Marcel Lefebvre.
Talvez seja até por isso que, passados vinte anos de sua morte, a figura deste Bispo continua a atrair todos aqueles que buscam, mesmo com as nossas limitações de seres humanos, a Verdade.

Marco BONGI

Cristina Siccardi: Mestre em Sacerdócio: a espiritualidade de Monsenhor Marcel Lefebvre, ed. SUGARCO, €23,00 (Rico suplemento fotográfico com documentos inéditos).

Por gentil concessão da Editora SUGARCO, que agradecemos profundamente, publicamos uma prévia do quarto capítulo de Mestre em Sacerdócio. A espiritualidade de Dom Marcel Lefebvre, intitulado:


"Deus não precisa de tocadores de bandolim"

O outro pilar da vida interior de Monsenhor Lefebvre é, como mencionado, Dom Jean-Baptiste Chautard, nascido Gustave. Rapaz vivacíssimo e modelo de acólito, Gustave torna-se catequista formidável e amado pelos malabaristas da feira de Marselha e dedica muitas horas à visitação dos doentes pobres. Um dia sente prepotente a chamada de Deus, que o quer só para si. "Ele resiste o quanto pode – quinze dias – depois se rende" (1). Cartuxo, jesuíta, beneditino? Cada ordem religiosa oferece um lado fascinante para ele, está indeciso... então escolhe, se alista na milícia de São Bernardo, monge solitário. E aquele abade da trapa de Sept-Fons[4] tornar-se-á centro radiante e ativo de toda santa e santificante atividade da Igreja. Seu pai é hostil, não o deixa ir, depois, deve se curvar, mas não quer mais saber dele.

Alguns traços da personalidade de Chautard lembram a determinação e a força de Monsenhor Lefebvre. Tal como de sua grande família trapista o abade é o pai que provê o pão e cura as almas, atingindo tudo e todos, sem descurar nada, assim Monsenhor será o amável pai dos seminaristas da futura Fraternidade São Pio X. Ambos instruem e arrastam: têm um respeito infinito pelas almas que avaliam uma a uma por suas necessidades, predisposições e limitações. Até mesmo na batalha de defesa se assemelham. O primeiro terá de defender com os dentes, com a mesma determinação que usará Lefebvre para as batalhas que susterá, sua ordem ameaçada pela França oprimida pelo liberalismo, que quer suprimir as ordens contemplativas: doze anos de intensa luta, cheia de ardor e de inteligência. "Terá que se insinuar nos círculos políticos, tratar com os homens de toda espécie... se apresentará aos perseguidores tentando esclarecê-los e despertar a sua consciência. Ei-lo diante do grande inimigo, o Tigre, Clemenceau (2). Aquele monge que defende de cabeça erguida, sem medo, o direito de existência para si e para os seus, fala com tanta convicção" (3). Com a mesma energia e o mesmo zelo, Mons. Lefebvre enfrentará as autoridades eclesiásticas: mostrará, às vezes com tons acesos de ardor e paixão, os enganos do Modernismo e os perigos de uma leitura subjetivista das realidades religiosas. Ambos sustiveram a batalha de defesa, um, de seu instituto religioso, o outro, da Fé e da ortodoxia católica, com todos os meios à sua disposição: o sobrenatural neles não exigiu a renúncia a qualquer legítimo meio humano, a qualquer recurso natural. Embora monge, dom Chautard foi forçado a viver, contra a sua vontade, na ação, chegando até a vinte horas de trabalho diário. Ativíssimo foi também Mons. Lefebvre, primeiro como simples sacerdote, depois como missionário no Gabão, Arcebispo de Dakar (4), Delegado Apostólico da África francófona, Bispo de Tulle, Superior da Congregação do Espírito Santo, dinâmico e laborioso padre conciliar, fundador e Superior da Fraternidade São Pio X. "O nome Marcel Lefebvre desperta em muitos antipatia e aversão, na realidade, pelo menos até pouco antes do confronto com Paulo VI, foi considerado no Vaticano durante muitas décadas um dos melhores Bispos, em nível mundial, da Igreja Católica" (5), mas soube igualmente viver em perfeito equilíbrio com a vida contemplativa, tendo aprendido com Chautard que "A verdadeira fecundidade do trabalho apostólico está ligada à santidade do apóstolo" (6) e que "Base de toda ação exterior é uma intensa vida de união com Deus" (7). Em fim, ambos souberam viver com sincera humildade e amável simplicidade. Outra pedra angular da vida de Mons. Lefebvre, fonte de toda sua atividade, foi, como ainda sustenta Chautard, a vontade de Deus. Tudo o que o Bispo francês escolheu e fez foi sempre considerado uma resposta aos desejos e propósitos de Deus: "Cada instante vem até nós carregado de um comando e de um auxílio divinos e vai imergir-se na eternidade para ser, então, sempre, aquilo que nós fizemos dele" (8). Era, portanto, lógico obedecer, cegamente, a Deus e ser-lhe fiel, sempre e a qualquer preço. "Toda manifestação da vontade de Deus é como uma flecha de amor tingida com o sangue divino, que vem do seio da SS. Trindade direto ao nosso coração; e a flecha, apresentando-se à nossa vontade, traz consigo a luz e a força: a graça do momento presente" (9).

A primeira atividade do sacerdote, seja para Chautard que para Lefebvre, foi a própria santificação; a segunda, foi a santificação das almas. Tanto um quanto o outro não aspiraram nunca à polida forma oratória, mas, atentos ao olhar de Deus sobre eles, tornaram-se mestres de pensamento, guias firmes e rigorosos, porque "Deus não precisa de tocadores de bandolim" (10), mas de homens de extrema confiança, de eternas promessas, de comprovada fidelidade, de lealdade genuína, de verdadeiros lutadores; certamente não de gente assonorentada ou "gelatina perfumada" (11) ou de hipócritas e infidos aduladores.

Chautard escreveu uma obra que se tornou um clássico da literatura espiritual, uma verdadeira obra-prima, A alma de todo apostolado. O Beato Giacomo Alberione (1884-1971) escreveu: "Leiam A alma de todo apostolado, em seguida leiam a vida do autor: uma ilumina a outra; em ambas, um calor ardente de vida interior e de vida de apostolado". Desta obra Monsenhor Lefebvre aproximou-se com vivo interesse, aderiu-lhe e a subscreveu.

"Tu ergo, fili mi, confortare in gratia (12). A graça é uma participação à vida do Homem-Deus. A criatura possui uma certa medida de força – e, em certo sentido, pode-se qualificar e definir uma força –, mas Jesus é a força por essência: nEle está a plenitude da força do Pai, a onipotência da ação divina, e Seu Espírito vem do Espírito de fortaleza.

Em vós, somente, ó Jesus – dizia São Gregório Nazianzeno – está toda a minha força. Fora de Cristo, diz por sua vez São Jerônimo, nada mais sou do que impotência" (13).

Mons. Lefebvre seguiu os cinco caráteres da força de Jesus bem elencados por Chautard, que retomou São Boaventura (1217/1221 ca.-1274), o qual tratou disso no quarto livro do Theologiae Compendium: o primeiro caráter é o de empreender as coisas difíceis e enfrentar com determinação os obstáculos: "Viriliter agite et confortetur cor vestrum" (14). O segundo é o desprezo das coisas do mundo: "Omnia detrimentum feci et arbitror ut stercora" (15). O terceiro é a paciência na tribulação, ou "Fortis ut mors dilectio" (16). O quarto é a resistência às tentações: "Tamquam leo rugiens circuit… cui resitite fortes in fide" (17). O quinto é o martírio interior, assim como o descreve Chautard: "o testemunho, não do sangue, mas da vida que brada ao Senhor: Quero ser toda vossa. E consiste em combater a concupiscência, em domar os vícios e em trabalhar energicamente para a aquisição da virtude: 'Bonum certamen certavi' (18), para tanto poder exclamar com orgulho paulino: Combati o bom combate" (19).

Abeberar-se às fontes espirituais e teológicas de Marmion e de Chautard significou para Mons. Lefebvre, em definitivo, vestir uma couraça tão resistente e impenetrável que nada nem ninguém pudessem riscá-la, e mesmo quando restará sozinho diante do novo que avançava e subvertia, bagunçando os métodos formativos dos seminários usados até então e enterrando, com uma nova e protestantizante liturgia, a Santa Missa de sempre, se expôs com vigor, não temendo nada, porque

"enquanto o homem exterior conta com as próprias forças naturais, o homem interior vê nelas apenas auxílios, uteis, sim, mas insuficientes. O sentimento de sua fraqueza e a sua fé no poder de Deus lhe dão, como a S. Paulo, a justa medida de sua força (20). Diante dos perigos que surgem de todos os lados, repete com humilde altivez: Cum infiormor, tunc potens sum. Sem a vida interior, disse São Pio X, faltarão as força para suportar com perseverança os aborrecimentos que acompanham todo apostolado, a frieza e a escassa colaboração dos bons, as calúnias dos adversários e, às vezes, os ciúmes dos amigos e dos companheiros de luta... Somente a virtude paciente, enraizada no bem e, ao mesmo tempo, suave e delicada, é capaz de evitar ou diminuir estas dificuldades" (21).


As palavras de Chautard, ardentes de vida e claramente experimentadas pelo autor, entraram tão profundamente em Mons. Lefebvre que, lendo-as, não é difícil ver diante de nós o pastor de Ecône com sua surpreendente estabilidade, uma estabilidade humanamente impossível de sustentar com todas as pressões que lhe vieram das realidades e autoridades, sejam laicas que eclesiásticas, na tentativa de dobrá-lo e fazê-lo desistir de sua 'teimosice', aquela que permitiu à Tradição de ter um seu 'esconderijo', um seu bunker, enquanto fora voavam mísseis e caíam bombas...

"Com a vida de oração, semelhante à seiva que da videira escorre para os ramos, desce no apóstolo a força divina para fortalecer a inteligência, enraizando-o sempre mais na fé. E o apóstolo, então, progride porque esta virtude ilumina com mais viva luz o seu caminho. Avança resolutamente porque sabe aonde ir e como deve alcançar a sua meta.

Esta divina iluminação é acompanhada por uma tamanha energia sobrenatural de vontade que mesmo o caráter mais fraco e instável se torna capaz de atos heroicos" (22).

É incrível como dom Chautard revele, com tanta naturalidade e simplicidade, os segredos do existir e dê a chave para ter acesso e alcançar, com a perfeição cristã, a felicidade, ainda que na dor. O preço que Mons. Lefebvre pagou, sofrendo inclusive a excomunhão e um repúdio por parte daquela Igreja pela qual ofereceu todo si mesmo, foi o sacrifício que com convicção se dispôs a oferecer, a fim de permanecer ancorado à Igreja de sempre, aquela na qual ele havia entrado e que queria manter tal qual a havia conhecido, sem novas e mundanas maquiagens: "É assim que o manete in me[5], a união com o imutável, com aquele que é o Leão de Judá e o pão dos fortes, explica o milagre da constância invencível e da firmeza tão perfeita que, no admirável apóstolo São Francisco de Sales, se uniam a uma doçura e a uma humildade sem igual", o Bispo de Genebra, todo veemência contra os hereges, era, no entanto, afabilíssimo com as almas que precisava trazer de volta ao único redil, "O espírito e a vontade se fortalecem com a vida interior, porque é fortificado nela o amor. Jesus o purifica, o dirige e o aumenta gradativamente, fá-lo participar dos sentimento de compaixão, de devoção, de abnegação e de desinteresse do seu adorável Coração. Se este amor cresce até se tornar paixão, então conduz ao máximo desenvolvimento e utiliza em seu benefício todas as forças naturais e sobrenaturais do homem" (23).
Com padre Le Floch, dom Marmion e dom Chautard, o jovem dom Marcel Lefebvre, que foi ordenado no dia 21 de setembro de 1929, em Lille, compreendeu que somente Cristo deve ser o ideal para o sacerdote, e nEle encontra cumprimento toda pequena ou grande aspiração.

Fonte: una Fides
Tradução: Giulia d'Amore di Ugento


NOTAS
1. G.B. Chautard, A alma de todo apostolado, Ed. Paulinas, Milão, 1989, p. 6.
2. Georges Benjamin Clemenceau (1841-1929) nasceu na conservadora Vendée, de uma família fortemente anticlerical e republicana.
3. G.B. Chautard, op. cit., p. 10.
4. Recordamos que o Mons. Lefebvre, depois de ter sido ordenado sacerdote em 1929, foi nomeado vigário em uma paróquia operária de Lille. Entrou na Congregação missionária dos Padres do Espírito Santo, partindo para o Gabão em 1932. Logo que chega à África, foi nomeado professor de Dogmática e de Sagrada Escritura no Seminário Maior de Libreville[6], tornando-se seu diretor em 1934. Em setembro de 1947, foi consagrado Bispo e nomeado Vigário Delegado do Senegal. No ano seguinte, foi nomeado Delegado Apostólico por toda a África francesa. Representante da Santa Sé em 18 Países africanos, era responsável por 45 jurisdições eclesiásticas, dois milhões de católicos, 1.400 sacerdotes e 2.400 religiosas. Em 1955, se tornou o primeiro Arcebispo de Dakar, onde permaneceu até 1962. Após o seu regresso à França, Mons. Lefebvre foi encarregado da pequena diocese de Tulle, onde permaneceu alguns meses porque eleito Superior Geral dos Padres do Espírito Santo. No Concílio Vaticano II, foi um dos animadores do Coetus Internationalis Patrum, um grupo de 250 bispos que tentou opor-se à corrente progressista.
5. M. Stanzione, em Agere Contra.
6. G.B. Chautard, op. cit., p. 15.
7. G.B. Chautard, Ibidem, p. 15.
8. G.B. Chautard, Ibidem, p. 15.
9. G.B. Chautard, Ibidem, p. 15-16.
10. G.B. Chautard, Ibidem, p. 17.
11. G.B. Chautard, Ibidem, p. 17.
12. "Tu, pois, ó meu Filho, tomes vigor na graça" (2Tm 2.1).
13. G.B. Chautard, op. cit., p. 125.
14. "Operai como fortes, e o vosso coração se fortaleça" (Salmo XXX).
15. "Privei-me de todas as coisas e as estimei imundície" (Fp III, 8).
16. "O amor é forte como a morte" (Ct VII, 6).
17. "O diabo qual um leão que ruge vagueia ao redor de vós... resisti-lhe firmes na fé" (I Pe 5,8-9).
18. "Busquei o bom combate". G.B. Chautard, op. cit., p. 126.
19. 2Tim 4, 7.
20. "Porque quando estou fraco, então é que sou forte" (2Cor 12, 10).
21. G.B. Chautard, op. cit., pp. 126-127.
22. G.B. Chautard, op. cit., p. 127.
23. G.B. Chautard, op. cit., p. 127.

NOTAS DE TRADUÇÃO
[1] Tulle – a cidade às sete colinas – é uma cidade no sudoeste da França. Seu nove derivaria de "tutela", que é um poder romano ao qual se confiava os cuidados de pessoas, coisas e lugares. Nasceu por volta do sétimo século ao redor de um mosteiro que foi destruído depois pelos vikings em 846. De seu nome vem o famoso tecido criado por fios que se entrelaçam em uma rede transparente mas estável. Wikipédia.
[2] Preferi deixar o original em italiano, lungimirante, porque em português não há uma tradução satisfatória do termo. É algo como: clarividente, perspicaz, sagaz; que vê longe; que mira ao longe, ao futuro.
[3] Lille é uma cidade no norte de França. Capital da Flandres francesa, foi fundada em 640 por Liderico. Nossa Senhora da Grade é a padroeira da cidade e sua aparição se entrelaça com a história de Liderico. Wikipédia.
[4] Abadia de Sept-Fons, na França, é uma abadia trapista, fundada em 1132, com o nome de Notre Dame de Saint-Lieu.
[5] A expressão "Manete in me" em latim significa: "Permanecei em mim".
[6] Libreville é a capital do Gabão. Foi fundada em 1849, por escravos libertos a partir de um navio negreiro chamado Elizier, que serviu como ponto de partida para a colonização francesa no Gabão, de Fort Aumale, e se tornou a capital do Congo Francês, antes de perder esse estatuto em favor de Brazzaville em 1904. Wikipédia.
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