terça-feira, 20 de setembro de 2011

Apotegmas dos Padres do Deserto (partes VIII e IX).




Os Apotégmas dos Padres do Deserto (Parte VIII)


Capítulo VIII: Da fuga da notoriedade



1. Escutara o abade Antão a história dum jovem monge que operara um milagre enquanto caminhava: ao avistar uns anciãos que também faziam estrada e estavam fatigados, ordenara a uns onagros que aparecessem e lhes servissem de montaria até Antão. Apeados, os anciãos contaram o fato a Antão, que ripostou: “A mim esse monge parece um navio sobrecarregado de riquezas, mas ignoro se chega a surgir ao porto”. Pouco depois, começou a chorar o abade Antão e a se lamentar, arrancando os cabelos. A tal cena perguntaram os discípulos: “Pai, ¿por que choras?” – “Acabou de ruir uma grã coluna da Igreja”, respondeu ele. Referia-se ao jovem monge. Acrescentou ele: “Ide até onde ele e vede o que aconteceu”. Partiram os discípulos e depararam o monge sentado sobre uma esteira e deplorando seu pecado; quando notou os discípulos do ancião, lhes disse ele: “Dizei ao ancião para suplicar que Deus se digne ceder-me apenas dez dias, pois tenho esperanças de reparar o mal”. Mas cinco dias depois, estava ele morto. (Antão, 14).


2. Monges elogiaram um irmão na presença do abade Antão. Quando o irmão veio lhe ver, quis experimentá-lo o ancião a fim de saber se suportava a injúria; ao reconhecer que não, lhe disse ele: “És semelhante a uma casa de admirável fachada, mas em cujo interior roubam os ladrões.” (Antão, 15).


3. Contavam que o abade Arsênio e o abade Teodoro de Farméia detestavam os homens acima de tudo. Com pouca freqüência ia Arsênio à presença dum visitante. Já Teodoro ia, mas como quem trespassado por espada (Arsênio, 31).


4. O padre Eulógio foi discípulo do arcebispo João. Era o padre um asceta que só quebrava o jejum a cada dois dias, chegando em certas épocas a conservá-lo a semana inteira. Louvavam-no os homens, pois só comia pão e sal. Um dia foi até Panefo onde habitava o abade José, pois pensava encontrar lá nele supina austeridade. O ancião o acolheu com imenso gozo e lhe mandou preparar o que de comida havia, como testemunho de afeição. Disseram-lhe contudo os discípulos de Eulógio: “O padre só come pão e sal”. José continuava a comer sem falar palavra. Permaneceram Eulógio e os discípulos três dias nesse lugar sem que escutassem os discípulos de José orar ou salmodiar, pois que a obra espiritual deles se cumpria no secreto; sairam dali desedificados. Ora, por disposição divina cerrou a nebrina e os viajores erraram o caminho e retornaram até onde o ancião. Antes que batessem à porta, escutaram os irmãos a salmodiar; ficaram ali longo tempo a escutar e só então bateram, ao que lhes recebeu o ancião com alegria. Os discípulos de Eulógio pegaram uma quartinha [que acharam] e lhe deram a ele de beber, pois fazia calor: como era uma mistura de água do mar com água do rio, Eulógio não a conseguiu engolir. Caindo em si, prosternou-se Eulógio ante o ancião, no desejo de lhe obter o segredo de seu modo de vida: “¿Que quer dizer isso, Pai?”, lhe disse ele, “não salmodiáveis enquanto estávamos aqui, só começastes após nossa partida; em seguida, quando quis beber água, só a encontrei salobra.” Ripostou-lhe o ancião: “O irmão anda meio turbado; deve ter-se enganado e misturado por engano [a água doce] com água do mar.” Mas insistia Eulógio, pois queria conhecer a verdade. Acabou que lhe disse o ancião: “Aquela copita de vinho era obra da caridade; já essa água é a beberagem ordinária dos irmãos.” E assim lhe ensinou o ancião o discernimento dos pensamentos e desviou seus pensamentos das considerações humanas. Eulógio passou a agir como o ordinário das gentes e comia o que se lhe apresentava. Tambem aprendera Eulógio a como agir no secreto. Ao final disse ele ao ancião: “Decerto as obras vossas são isentas de hipocrisia.” (Eulógio).


5. Dizia o abade Zenão, o discípulo do abade Silvano: “Não habites jamais em lugares afamados, não residas com homem de grã reputação, nem faças fundações a tua cela”. (Zenão, 1).


6. Chegou-se um irmão até onde o abade Teodoro de Farméia e durante três dias lhe suplicou uma palavra, mas o abade não lhe respondia e o irmão se foi dali triste. Disse a Teodoro um discípulo: “Pai, ¿por que nada disseste? Ele se foi triste daqui.” – “Crê em mim, lhe respondeu o ancião, nada lhe disse porque é um traficante que quer gloriar-se com a palavra alheia.” (Teodoro de Farméia, 3).


7. Interrogou um irmão ao abade Teodoro: “¿Quereis permitir-me, Pai, não comer pão durante alguns dias?” Respondeu-lhe o ancião: “Bem farás; eu de mim farei o mesmo.” Acrescentou o irmão: “Vou levar ervilhas ao moinho e fazer farinha.” Replicou o abade Teodoro: “Se vais ao moinho, faze pão. ¿Mas há mister de ir até lá?” (Teodoro de Farméia, 7).


8. Um irmão foi encontrar-se com o abade Teodoro e disparou a falar e versar sobre assuntos de que não tinha experiência. Disse-lhe o ancião: “Ainda não achaste o navio, nem guardaste a bagagem e, mesmo antes de zarpar, eis tu já chegado à cidade aonde queres ir. Quando praticares tudo quanto me noticiaste, poderás falar comigo”. (Teodoro de Farméia, 9).


9. Contou o abade Cassiano que um irmão foi ao encontro do abade Serapião, que o convidou a recitar a prece cotidiana, mas o irmão recusou: confessava-se pecador, indigno de usar o hábito monacal. Quis o ancião lhe lavar os pés, mas com os mesmos protestos recusou-se de todo. Daí o ancião lhe deu de comer e com caridade lhe interpelou: “Meu filho, se queres progredir, fica na cela, vela sobre ti e aplica-te ao trabalho manual, pois para ti é melhor ficar que sair.” Com tais palavras irritou-se o irmão e deformou a cara, de modo que não pode disfarçar ao ancião. Disse-lhe o ancião: “Atequi dizias: ‘Sou pecador’, e te declaravas indigno de viver, mas porque te admoestei com caridade, ¿ficas assim irritado? Se queres deveras te tornar humilde, aprende a suportar com ganas o que vem dos outros, e não fales para que nada digas.” Ao escutar isso, o irmão fez uma metania defronte o ancião e se foi dali aproveitado. (Serapião, 4).


10. Certo dia o govenador da província teve notícias acerca do abade Moisés e foi até a Cítia vê-lo. Anunciaram ao ancião a visita, mas ele se refugiou no pântano. O governador com o séquito o encontrou: “Velho, disse ele, indica-nos onde é a cela do abade Moisés.” Ao que este respondeu: “¿Por que quereis vê-lo? ¡É um sandio e um herético!” Retornou o governador à igreja e disse aos religiosos: “Ouvir falar do abade Moisés e vim aqui a vê-lo. Mas deparamos um velho que ia ao Egito e lhe perguntamos onde era a cela do abade Moisés, ao que nos respondeu: ‘¿Por que o buscais? ¡É um sandio e um herético!’” Com tais palavras se afligiram os religiosos e perguntaram: “¿Como era o ancião que vo-lo disse?” – “Era um velho, espadaúdo, negro de pele e com roupas bem ruçadas”, ripostaram os recém-chegados. “¡Mas que era o abade Moisés em pessoa!, declararam os religiosos. Ele vos não queria receber, por isso falou nesse estilo.” O governador se foi dali edificado em extremo. (Moisés, 8).


11. Interrogou um irmão ao abade Matóis: “Se fosse eu morar nalgum lugar, ¿como deveria me comportar?” Respondeu-lhe o ancião: “Onde habitares, em nada busques nomeada, seja ao dizer: ‘Recuso-me a ir à assembléia dos irmãos’, ou ainda: ‘Não como tal ou qual coisa’. Tais práticas te darão um bafo de celebridade e bem logo sofrerás aborrecimentos, pois os homens acorrem ao sítio em que ouvem dizer que há coisas deste jaez”. (Motios, 1).


12. Cruzava o deserto o abade Nisteros o Grande junto a um irmão. Avistaram ambos uma serpe e deram às de vila-diogo. “¿Até tu tens medo, Pai?”, lhe disse o irmão. “Medo não tenho, meu filho, lhe respondeu o ancião, mas é salutar fugir à vista da serpente pois, como ela, não tenho como afugentar o demônio da vanglória”. (Nisteros, 1).


13. Certo dia quis o governador da província visitar o abade Pastor, mas este não lho consentira. Para lograr seu intento, mandou prender – juiz que era – o filho da irmã do abade, qual fosse ele um malfeitor, e jogou-o na prisão; depois fez saber de que relaxaria a pena se o ancião lhe viesse pedir a liberdade. Foi a mãe da criança até a morada do irmão, o abade Pastor, e derramou muitas lágrimas ante a porta da cela, mas ele não disse palavra. Golpeada de dor, pôs-se ela a lhe repreender: “Se teu coração é bronze, dizia ela, e não te demove a compaixão, ao menos tem piedade do teu sangue”. Contudo, mandou Pastor lhe ripostar que não tinha filho. Partiu dali sua irmã. Ciente do ocorrido, fez saber o governador: “Só uma palavra, e eu o soltarei”. Mas o ancião lhe mandou este recado: “Examina a causa segundo a lei; se é caso de morte, morra; se não é, faz como bem te saíres”. (Poemão, 5).


14. Disse o abade Pastor: “Que aprenda teu coração a observar o que tua língua ensina aos outros”. Disse ainda ele: “Quando falam, querem os homens parecer perfeitos; mas na prática dos dizeres, já não querem tanto.” (Poemão, 63 e 56).


15. Certo dia foi o abade Adelfo, outrora bispo de Nilópolis, render visita ao abade Sisóis à montanha. Quando estava prestes a retornar, Sisóis lhe ofereceu comida e aos discípulos ao despontar o dia; ora, aquele era dia de jejum. Já estavam aprestando a mesa, quando alguns irmãos bateram à porta de Sisóis. Disse ele a um seu discípulo: “Dá-lhes um pouco de caldo, pois estão fatigados.” Interveio o abade Adelfo: “Deixai-os esperar um tanto, para que não saiam por aí contando que Sisóis comia desde a manhã.” Cravou-lhe os olhos Sisóis, surpreso, e disse ao discípulo: “Vai logo e dá-lhes o que comer”. Quando viram o caldo, perguntaram os irmãos: “¿Tendes hóspedes? ¿Come convosco o ancião?” – “Decerto”, respondeu o outro. Atristaram-se os irmãos e começaram a dizer: “¡Que Deus vos perdoe por permitir que o ancião comesse a tais horas! ¿Não sabeis que ele o há de expiar dias a fio?” A tais palavras o bispo fez uma metania e disse ao ancião: “Pai, perdoa-me, pois cogitei ao estilo dos homens, mas agiste segundo Deus”. Ripostou-lhe o abade Sisóis: “Se vem do homem a glória do homem, e não de Deus, é sem consistência”. (Sisóis, 15)


16. O abade Amão de Raitu interrogou o abade Sisóis: “Quando leio as Escrituras, preocupo-me em aparelhar um discurso cuidado, com fito de responder às questões”. Respondeu-lhe o ancião: “Não é necessário: antes trata de adquirir o dom da palavra com a pureza do coração, e ficarás livre de tal preocupação”. (Sisóis, 17).


17. Certo dia foi-se o governador da província visitar o abade Simão, mas este, assim que o soube, pegou da correia que lhe servia de cinta e a usou para trepar numa palmeira, que começou a podar. Apropinquaram-se os visitantes e lhe perguntaram: “¿Onde está o ancião que habita neste ermo?” – “Aqui não há anacoretas”, respondeu ele. Ante tal resposta afastou-se o governador. (Simão, 1).


18. Certa outra vez, outro governador foi visitá-lo. Adiantaram-se os religiosos e disseram ao ancião: “Pai, prepara-te, pois o governador ouviu notícias sobre ti e vem te pedir a benção”. Respondeu ele: “Bem, vou-me preparar”. Vestiu-se de saco e, tomando pão e queijo, sentou-se à porta da cela e começou a comer. Com um séquito chegou o governador; quando viram o ancião, puseram-se a zombar dele dizendo: “¿É este o anacoreta de quem ouvimos dizer tantas virtudes?” E logo deram meia-volta para retornar a casa. (Simão, 2).


19. Disse Santa Sinclética: “Pilha-se o tesouro tão logo o descobrem; assim, arruina-se a virtude tão logo ganhe notoriedade pública. De fato, como o fogo derrete a cera, o louvor enfraquece o vigor e a energia da alma.” (Sinclética, 3).


20. Disse ela também: “É impossível ser ao mesmo tempo forragem e grão; assim, é impossível a quem possui a glória do mundo produzir fruto para o céu.” (Sinclética, 4).


21. Certo dia de festa nas Celas, comiam juntos os irmãos na igreja. Disse um deles a quem o servia: “Não como alimento cozido, somente sal com pão.” O servo chamou outro e lhe disse ante todos: “Este irmão cá não come alimento cozido; oferece-lhe sal.” Então se ergueu um ancião e disse: “Para ti melhor seria comer vianda na cela que te ouvir dizer isso na presença de tantos irmãos.” (N. 256).


22. Certo irmão, grande asceta e abstêmio de pão, rendeu visita a um ancião. Por obra da Providência, outros pelegrinos chegaram também. Preparou-lhe o ancião um caldo. Quando iam começar a comer, o asceta pegou um só grão embebido de grão de bico e o comeu. Após a refeição, o ancião chamou o irmão a parte e lhe disse: “Irmão, quando fores até onde alguém, não faças pregão de tua prática: se tens de observá-la, fica na tua cela e jamais saias.” Convenceu-se o irmão às palavras do ancião e, quando se via entre os irmãos, conformava-se aos usos comuns. (N. 257).


23. Disse um ancião: “A inquietação de agradar aos homens acaba com a corpulência espiritual e vos deixa descarnado.”


24. Disse um ancião: “Ou bem te apartas dos homens, ou bem escarneces do mundo e dos homens mundanos e faças-te de louco o mais que possas.” (N. 320).


Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte IX)


Capítulo IX: Não se deve julgar ninguém


1. Aconteceu a um irmão do monastério do abade Elias sucumbir à tentação; posto porta afora, partiu em direção à montanha para se encontrar com o abade Antão, e lá ficou um tempo, até Antão o remeter ao monastério donde viera. Mas tão logo o viram os irmãos, expulsaram-no novamente. Retornou o irmão até onde o abade Antão e lhe disse: “Pai, não me quiseram receber”. Transmitiu-lhes este recado o ancião: “Certa vez, naufragou um navio no mar e perdeu a carga. Às duras penas conseguiu aportar, mas vós quereis submergir a nave que chegou sã e salva à margem.” Quando souberam que outro não era senão o abade santo que lhes devolvia o faltoso, receberam-no sem pestanejar. (Antão, 21).

2. Pecara um irmão, e por isso ordenara-lhe o padre saísse da igreja. Contudo, levantou-se o abade Bessarião e saiu com o irmão dizendo: “Também devo eu sair, que sou pecador.” (Bessarião);

3. Certo dia foi o abade Isaque de Tebas a um cenóbio. Ao testemunhar a falta dum irmão, julgou-o. Ao retornar ao deserto, apareceu-lhe um anjo do Senhor defronte a porta da cela e lhe disse: “Não hei de deixar-te entrar!” Perguntou-lhe o ancião a razão daquilo, no que lhe ripostou o anjo: “Enviou-me Deus a perguntar-te: ¿Para onde me ordenas tu mandar aquele irmão culpado que julgaste?” Num instante Isaque fez uma metania e disse: “Eu pequei, perdoai-me ! » E lhe disse o anjo: “Ergue-te, Deus te perdoou, mas guarda-te doravante de nunca mais julgar ninguém, sem que Deus o faça antes.” (Isaque de Tebas).

4. Certo dia cometeu uma falta um irmão da Cítia. Os anciãos em conselho mandaram se pedisse a presença do abade Moisés, que se recusou a ir. O mensageiro encaregou a outro que lhe dissesse: “Vem, que te esperam os irmãos.” Ergueu-se o abade, pegou dum saco furado, encheu-o de areia e pô-lo sobre os ombros, e com ele foi até onde os irmãos. Saindo-lhe ao encontro, perguntaram os irmãos: “¿Que é isto, Pai?”, ao que lhes respondeu o ancião: “Meu pecados escorrem às minhas costas, e não nos vejo eu; ¿e tenho eu agora de julgar os pecados alheios?” Ao escutarem aquela palavra conceituosa, já não tocaram mais no assunto os irmãos e perdoaram o culpado. (Moisés, 2).

5. Perguntou o abade José ao abade Pastor o seguinte: “Dize-me: ¿como alguém se torna monge?” Respondeu-lhe o ancião: “Se quiseres encontrar repouso neste e noutro mundo, em todas as ocasiões levanta-te esta questão: ‘¿Quem sou eu?’ e não julgues ninguém.” (José de Panefo, 2).

6. Outro irmão interrogou o abade Pastor lhe dizendo: “Se vejo a falta do meu irmão, ¿faço bem em escondê-la?” Ripostou-lhe o ancião: “Cada vez que escondemos o pecado do irmão, esconde Deus o nosso; e cada vez que denunciamos as faltas dos irmãos, denuncia Deus as nossas igualmente.” (Poemão, 64)

7. Certo dia no cenóbio cometeu um irmão uma falta. Naqueles páramos vivia um anacoreta, que de há muito estava em recolhimento. Foi-lhe visitar o abade do monastério, para falar do irmão manchado de culpa. Disse o anacoreta: “Expulsa-o”. Expulsaram destarte o irmão, que foi-se refugiar numa ravina, onde chorava. Acontecia de passar outros irmãos que se iam até onde o abade Pastor, e que escutando o choro do irmão na ravina desceram o barrocal e depararam-no mergulhado em nímia tristeza. Convidaram-no a ir até a morada do ancião, mas recusou-se dizendo: “Hei de morrer aqui.” Encaminharam-se os irmãos até onde o abade Pastor e lhe contaram a história. Instou-lhes o ancião a retornar ao local onde estava o irmão e lhe dizer: “O abade Pastor te chama”. Pôs-se a caminho o irmão. À vista de sua tristeza, ergueu-se o ancião e abraçou-o e convidou-o amavelmente a comer. Logo após enviou o ancião até onde o anacoreta um dos discípulos com missão de lhe dar este recado: “Anos há que te desejo ver, pois que já tive notícias de ti, mas a preguiça minha e tua nos empeceu o encontro. Mas eis que, com a vontade de Deus, se nos aparece a ocasião. Sofre vir atéqui, para que possamos nos ver.” De fato ele nunca havia abandonado a cela. Ao receber a mensagem, disse entre si o anacoreta: “Se não houvesse revelação de Deus sobre mim, não ordenaria o ancião me procurassem.” Ergueu-se pois e saiu ao encontro do ancião. Após mútua e alegre saudação sentaram-se ambos e tratou o abade Pastor de começar assim: “Dois homens habitavam no mesmo lugar, e cada um tinha um morto em casa, mas um deles deixou o seu para chorar o do outro.” Com tais palavras, arrependeu-se o anacoreta e recordou o que tinha feito. Respondeu ele: “Pastor, tu moras no mais alto do céu, e eu no mais abatido da terra!” (Poemão, 6)
8. Um irmão interrogou o abade Pastor dizendo: “¿Que devo fazer quando na cela sinto me faltar coragem?” Disse-lhe o macróbio: “Não desprezes a ninguém, não julgues a ninguém e não infames a ninguém, assim dar-te-á Deus repouso e tua vida na cela será tranqüila.”

9. Certo dia reuniram-se os padres da Cítia por amor de falar dum irmão que pecara; todavia o abade Pior calava-se, até qu’enfim levantou-se, saiu, tomou dum saco que encheu d’areia e pô-lo às espaldas; tratou também de meter uma pouca de areia num cestinho que lhe estava adiante. Aos padres que perguntaram o significado daquilo respondeu: “O saco cheio d’areia são meus pecados; como são numerosos, pu-los às espaldas para não lamentá-los nem deplorá-los. Já a pouca de areia são os pecados do meu irmão, nos quais me reconcentro a julgá-los. Não é isto contudo o que se há de fazer: antes devia levar meus pecados ao diante de mim, para neles meditar, e pedir a Deus mos perdoar.” Aos escutar isso exclamaram os padres: “Verdadeiramente, esse é o caminho da salvação!” (Pior, 3).

10. Disse um ancião: “Se fores casto, não condenes o lúbrico, pois que tu bem transgridirias na mesma lei. Com efeito, quem disse: ‘Não fornicarás’, também disse: 'Não julgarás'”. (N. 11).

11. Um padre que servia na basílica foi até onde um anacoreta, por mor de celebrar o sacrifício eucarístico e lhe dar a comunhão. Mas o anacoreta recebeu visita dalguém que muito aborrecia o padre, de quem falou mal, e ficou escandalizado. Assim quando veio o padre como de hábito celebrar o sacrifício, o anacoreta não lhe quis abrir as portas. Diante disso, foi-se embora o padre. Então o anacoreta passou a escutar uma voz que lhe dizia: “Os homens me a mim defraudaram do julgamento.” Reptado em êxtase, vislumbrou um poço d’oiro, um cântaro d’oiro e uma corda d’oiro. O poço era de água muito doce e limpa; à borda estava um leproso que puxava água e a revia num vaso. Quis o anacoreta bebê-la, mas se não podia resolver, porque quem a puxava – era um leproso. Novamente escutou a voz, a lhe perguntar: “¿Por que não bebes desta água? ¿Que pouco vai quem a puxa? Seu encargo é só o de encher o cântaro e revê-lo no vaso.” De volta a si, refletiu o solitário acerca do sentido da visão e reclamou o padre e lhe pediu celebrasse o sacrifício eucarístico como outrora. (N; 254).
12. Num cenóbio viviam dois irmãos vida exemplar; mereceu cada um enxergar noutro a graça divina. Mas numa sexta-feira um dos irmãos saiu do monastério e viu alguém que começara a comer já no ar-do-dia. Disse-lhe o irmão: “¿Isto são horas de comer numa sexta-feira?” No dia seguinte cantou-se o ofício como de ordinário. Ora o outro irmão, fitando o companheiro, notou que o abandonara a graça divina, o que lhe desolou. Mal reentraram na cela, interrogou-o: “¿Que hás feito, meu irmão? Não vi sobre ti a graça divina de Deus.” – “Mas, respondeu o outro, a consciência não me acusa de ação ou pensamento culpável”. Insistiu: “¿Não disseste alguma palavra má?” – “Sim, respondeu o irmão, a quem o fato retornava à memória. Vi alguém que comia já no sol-das-almas e lhe disse: ‘¿Isto são horas de comer numa sexta-feira?’ Eis o meu pecado. Façamos pois penitência juntos durante duas semanas e oremos a Deus que me perdoe.” O que de fato fizeram, e duas semanas depois o irmão percebeu a graça de Deus que retornava sobre o outro. Ficaram assim consolados ambos e renderam graças a Deus, que é o só bom. (N. 255)

Méritos do blog de Luiz de Carvalho, http://traducoesgratuitas.blogspot.com/

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