sábado, 30 de julho de 2011

Mosteiro da Santa Cruz: parte IX.


O Mosteiro é um grande alimentador das almas.

Sua produção intelectual é de altíssimo nível. É um farol a difundir e a preservar o Catolicismo tradicional.

A população local e os visitantes são imensamente beneficiados com as Missas, a catequese das crianças e a orientação espiritual aos visitantes, refugiados das aflições do mundo.

Lembre-se que os bons conselhos e a correção são obras de misericórdia que orientam as pessoas no bom caminho.

Quem quiser ajudar:

Sociedade Civil Mantenedora do Mosteiro da Santa Cruz
Caixa Postal 96582
Nova Friburgo - RJ
28610-974

Banco Itaú SA
Agência 0222
Conta 29186-6
Nova Friburgo - RJ

ou

Banco do Brasil SA
Agência 0335-2
Conta 5055-5
Nova Friburgo - RJ

Leia a Revista Corredentora, do Mosteiro:
http://www.co-redentora.com.br/


Visite o site:
http://www.beneditinos.org.br/

Mosteiro da Santa Cruz: parte VIII.


O gato era sempre um amigo a se esfregar em quem se dispusesse a dar-lhe um carinho.

Mosteiro da Santa Cruz: parte VII.


Os hóspedes pagam sua estadia com trabalhos no Mosteiro ou com doações em dinheiro. Os monges são muito despojados e pobres: trabalham com muito esforço para se sustentarem e contam com doações. Quem não gosta de trabalhar duro, não consegue aguentar a rotina. O lema é "ora et labora" (ora e trabalha). A disciplina, a obediência, a ordem e a humildade são rapidamente aprendidas aqui. E o bom hóspede há de respeitar essas normas.
Foto: cerejeiras em flor. A beleza e a assinatura de Deus estão presentes em cada detalhe do Mosteiro, num verdadeiro chamado à fé e à contemplação do maravilhoso amor de Deus por nós.

Mosteiro da Santa Cruz: parte VI.






Há uma pequena livraria no Mosteiro. Títulos interessantes (comprei vários). E lindos escapulários. Os preços são ótimos. A ética beneditina determina um preço justo e sem exploração. Amor à pobreza e à simplicidade: isso cura as pessoas.

Mosteiro da Santa Cruz: parte V.




Uma vez por semana, há uma rápida caminhada pelos arredores, quando os irmãos podem então dialogar com muita alegria. Os monges são pessoas muito felizes com a vida que escolheram. Serenamente (e invejavelmente) felizes...Impossível não ser feliz assim...

Mosteiro da Santa Cruz: parte IV.







As instalações são muito simples mas muito limpas e bem cuidadas.

O Mosteiro não é um hotel, nem um lugar de veraneio.

É um lugar para meditação, estudo, oração, trabalho...para quem gosta de silêncio, paz, simplicidade e alegrias simples que o mundo não nos dá.

A Regra de São Bento é rigorosamente observada, sem amenizações modernistas.

Quem não tiver o espírito de monge simples, silencioso, trabalhador e orante, nem passe por lá.

Mas os beneditinos são muito hospitaleiros com quem se dispõe a seguir as normas da casa (principalmente o silêncio e os horários).

É bom contatar antecipadamente o Padre Prior pedindo-lhe autorização para pouso (hospedagem). O bom visitante nunca abusa da hospitalidade alheia, certo?

Mosteiro da Santa Cruz: parte III.





A comida é muito saudável: vegetariana, simples e feita com muita dedicação. Não há desperdícios e o cozinheiro se esmera em variar o cardápio. Adorei as sopas! Sempre as refeições eram precedidas e terminadas com belas orações em canto gregoriano. "Benedicite!" O alimento é uma dádiva a ser agradecida.

Tudo segue uma disciplina, uma ordem e uma pontualidade invejáveis. Gostei disso... A humildade e a disciplina hão de restaurar a desordem da desobediência e da vontade rebelde para que Deus seja conhecido, amado e seguido, e em tudo seja glorificado.

Nas fotos, a linda capela.

O Mosteiro é uma embaixada do Paraíso na terra...

Mosteiro da Santa Cruz: parte II.


O ambiente é de grande paz! O cheiro dos pinheiros é maravilhoso. A temperatura variava entre 6ºC e 22ºC (fim de julho)- geralmente entre 8 e 12 à noite e 12 a 18 de dia. Dias ensolarados ou nublados. Vento suave. O silêncio (regra!) era suavemente quebrado pelo balir dos carneiros ou pelos ofícios de oração em canto gregoriano (matinas, laudes, primas, terças, médias, noas, vésperas, completas, além da Missa Tridentina - rito do século XVI, belíssimo!), sempre em latim. Tudo marcado a toques de sino. As atividades se iniciam às 03:40 da manhã e terminam às 19:30, com as completas. Daí até as primas (terminadas às 08:00 do dia seguinte), o grande silêncio deve ser observado. Sem silêncio, não há vida interior; sem vida interior, a alma não vive.

Mosteiro da Santa Cruz: parte I.



O Mosteiro da Santa Cruz, na região rural de Nova Friburgo - RJ, foi visitado por este Anacoreta.

Fui muito bem recebido por todos os irmãos beneditinos, em especial por seu Prior, D. Tomás de Aquino, OSB.

O local é muito bonito, como verão nas fotos.

Nesta foto, o Anacoreta (quem será?), o Pe. Ernesto (FSSPX)- brilhante confessor e orientador, D. Tomás, D. Antônio, os irmãos beneditinos (João Batista, Tarcísio - excelente cozinheiro e meu chefe nos trabalhos que ofereci à Casa, Gabriel, Plácido, o paciente Agostinho e os irmãos postulantes). Todos muito simpáticos!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Qualidades do bom soldado de Deus.


Labuta como um bom soldado de Cristo
(2 Tm 2, 2).

É somente pela luta que o homem glorifica a Deus; se deve ganhar, com o suor do rosto, os alimentos que lhe sustentarão o corpo, deverá pela coragem conquistar as graças que lhe hão de fortalecer e embelezar a alma. Mas qual deve ser sua maneira de combater, que qualidades deve revelar nessa guerra incessante, que durará toda sua vida? O soldado de Deus deve ser obediente, paciente, humilde, sempre senhor de si mesmo.

Obediência

A primeira qualidade de um soldado é o espírito de disciplina; é-lhe exigido, antes de tudo, que obedeça, que avance quando lhe for dada ordem, ou permaneça em seu posto, com risco da própria vida, quando os chefes assim o ordenarem. Um exército em que cada soldado seguisse suas próprias idéias e procedesse a seu bel-prazer, estaria condenado a uma derrota certa. Com maioria de razão, o soldado de Deus, que só pode vencer se for sustentado por Deus, deve combater conforme Deus quer; deve ir, não aonde lhe agrada, mas aonde Deus o quer; deve agir, não segundo seu gosto ou capricho, mas segundo os desígnios de Deus; deve empregar os meios que a Providência lhe prepara, ou que o Espírito divino lhe inspirar, e não atender às suas idéias individuais; deve renunciar a seus próprios projetos e submeter-se à opinião e às ordens daqueles que têm por encargo esclarecê-los e conduzi-los.

São Francisco de Assis, submisso às inspirações que recebera, funda sua ordem sobre as bases da pobreza e da humildade. Este grande santo era de uma simplicidade encantadora e tudo quanto respirasse altivez, convenção, grandeza, lhe era estranho. Entre seus primeiros discípulos; um dos mais notáveis pela inteligência, pela energia e mesmo pelo fervor, foi Frei Elias; mas seu espírito não era o do santo fundador; às idéias de Francisco, entretanto, tão conformes à doutrina do Evangelho, queria substituir suas próprias idéias. Julgava, sem dúvida, a simplicidade ingênua de seu Pai indigna de urna ordem destinada ao apostolado, apta somente a inspirar desprezo aos fiéis: parecia-lhe necessário maior dignidade, maior nobreza. Não era o Espírito do Senhor que o inspirava e o impelia nesse caminho, e sim o espírito do mundo. O fim deste homem celebre provou bem que as maiores qualidades de espírito e de coração, se não forem aliadas a uma perfeita submissão à graça, de nada servem, e antes fazem sobressair a fraqueza humana.

Quantos esforços perdidos, quantas lutas improfícuas naqueles que agem segundo a sua própria prudência e vontade, em vez de procurar conhecer e seguir a vontade divina. O povo de Israel - como no-lo demonstra toda a sua história - era vencido infalivelmente quando marchava para o combate antes de receber as ordens do Senhor; era-lhe, ao contrário, garantida a vitória quando consultava cuidadosamente os oráculos divinos e a eles se conformava. Deus nunca abandona quem combate por Ele e só quer cumprir a Sua santa vontade. Este alcançará sempre, graças a Deus, vitória sobre todos os seus inimigos.

Paciência

A guerra é uma rude escola de paciência onde as fadigas, são penosas e mais enervantes que os próprios perigos! E bom soldado aquele que dá provas de tolerância, a quem nada desanima e nada assusta; nem as marchas e contra-marchas, nem as vigílias, nem as privações, nem as intempéries, aquele que não se queixa se for mal alimentado, mal alojado, mal vestido; que suporta, alegre, todos os sofrimentos, feliz de poder, mesmo a tal preço, contribuir para a defesa e o triunfo de sua pátria.

A luta que devem sustentar os soldados de Cristo é fértil em trabalhos duros e o cristão que quer alcançar a vitória deve armar-se de uma paciência a toda prova.

Os sofrimentos lhe vêm, quer de Deus, que experimenta Seus fiéis, afastando-Se deles e parecendo abandoná-los a si mesmos; quer dos homens, que são os instrumentos de que Deus se utiliza para purificar e santificar os Seus servos; e quem murmura, pois, contra o próximo, inconscientemente murmura contra Deus; quer enfim dos demônios que, ansiando pela sua perda, não o deixam em repouso.

O sofrimento é indispensável ao desenvolvimento da virtude, como a água à planta; a virtude que não é experimentada se estiola, como a planta num solo árido, chegando mesmo a secar e morrer. O sofrimento é um dom de Deus, pois oferece ocasiões de mérito, ajudando a reprimir os ímpetos da natureza, a diminuir-lhe o ardor, a moderar-lhe as tendências, a mantê-la sob o domínio da razão e da fé. Oh! que grande ciência adquire quem sabe sofrer!

O sofrimento fortifica a virtude. Doce é o espetáculo de uma alma que se abre à vida de piedade; semelhante à planta pequenina, cujo caule brota da terra, tem uma aparência delicada que encanta; mas, se a plantinha agrada porque é tenra, também é frágil e sensível, um nada a machuca, uma rajada de vento pode abatê-la, um raio de sol, murchá-la; quando houver experimentado a aridez, as tempestades, as intempéries de toda espécie, será mais forte e estará exposta a menos perigos. Assim o soldado de Cristo que sofreu a aridez, as tentações, as tribulações de toda sorte, adquire grande energia, se, contudo, souber suportar essas tristezas com paciência e amor. A tal preço somente será invencível e os inimigos nada poderão contra ele.

Humildade

Quando os chefes de exército se preparam para conduzir seus soldados ao combate, apresentam-lhes a vitória como certa, e, para aumentar-lhes a confiança, cumulam-nos de elogios, exaltam-nos como se fossem os primeiros guerreiros do mundo. Todos os soldados de Deus são destinados a vencer e devem lutar com a esperança, com a certeza do triunfo, como os dos exércitos humanos, mas, longe de, porem a confiança em si mesmos é pela arma da humildade que devem combater e que poderão alcançar a vitória.

Quando Gedeão, para repelir os madianitas reuniu um exército, o Senhor achou-o numeroso demais e reduziu-o, por duas vezes, até formar um número irrisório.

Trezentos guerreiros, apenas, bastaram para esmagar a multidão imensa de inimigos. "Não quero, dissera o Senhor, que Israel se glorie contra mim e diga: "Fui libertado pelas minhas próprias forças". É por meios mui simples e humildes que o Senhor opera constantes prodígios em favor de seu povo. É também menos por atos de ostentação que por obras ignoradas ou de pouco valor ao juízo do mundo, mas inspiradas numa grande pureza de intenção, em um amor ardente, cheio de delicadezas, que Deus eleva Seus eleitos à perfeição. Os feitos brilhantes favorecem o orgulho e não convêm senão às almas já adiantadas na humildade.

Abraão não começou pelo sacrifício de Isaac; quando Deus o submeteu a esta prova, ele já atingira uma consumada virtude, adquirida pela fidelidade aos deveres e pela piedade constante, que o levava a erguer um altar em todo lugar por onde passasse, bem como por outras obras insignificantes, porém preciosas diante de Deus. Este grande patriarca era humilde de coração, como prova sua conduta em relação ao seu sobrinho Lot, cedendo-lhe de tão bom grado a melhor parte; era bom e afetuoso, como toda a sua história o demonstra. Foi pela prática dessas virtudes que se elevou, pouco a pouco, ao heroísmo. Essa mesma simplicidade, essa humildade, essa fidelidade às virtudes da vida comum, encontram-se também nos outros santos patriarcas, em Isaac, Jacó, José; foi seguindo igual caminho que se tornaram verdadeiros servos de Deus e Seus amigos prediletos.

Não é de supor que essas humildes virtudes só exijam pequenos esforços: exigem, pelo contrário, esforços generosos e constantes, mas que em geral passam despercebidos; são desconhecidos dos homens, porém apreciados por Deus, e quem, continuamente, pratica essas pequenas virtudes, é, na realidade, um valente lutador e um insigne vencedor.

É, de fato, muito merecedor quem, na luta sem tréguas, que deve ser a de todos os homens neste mundo, não, visa atos de realce, postos de honra, reputação brilhante, mas cumpre fielmente com seu dever, alheio à opinião dos homens, e se dedica, sem aparato, com o único intuito de realizar sua tarefa. Esta disposição de alma, entretanto; não basta para constituir um humilde soldado de Cristo.

É mister, para ter direito a esse título, não somente não procurar a glória exterior, como também não se vangloriar a si mesmo; é mister reconhecer sua miséria e aceitar, de bom grado, ser imperfeito, cheio de defeitos, digno de compaixão.

É-nos um grande sofrimento verificar nossos defeitos; foi até este o castigo imediato do primeiro pecado, a causa dessa vergonha, muito bem fundada, que levou Adão e Eva a se esconderem depois da falta cometida. Tal sofrimento é justo, e temos o dever de submeter-nos a ele. Devemos lastimar as nossas faltas, sem, porém, nos deixarmos abater, sem nos irritarmos contra nós mesmos. A humildade que produz abatimento e desânimo é falsa e ilusória e não provém de Deus, mas do demônio. Reconhece-se a árvore pelos frutos. Quando uma disposição de alma nos leva a suspender, por um instante sequer, a obra de nossa santificação, quando nos interrompe o impulso para o bem e nos paralisa as forças, então essa disposição é sugerida pelo nosso inimigo.

O maldito perturba as almas ou as desanima a fim de perdê-las; sob a capa da humildade, excita o amor próprio, amor próprio despeitado da alma que contava consigo mesma, que se aflige com sua fraqueza e se envergonha ao reconhecer-se vil e desprezível. Há um recôndito despeito de orgulho em toda alma desanimada.

O Senhor inspira uma humildade muito diversa e a põe, não somente no espírito, esclarecendo a alma sobre suas misérias, como também no coração, levando-a a consentir, de bom grado, em se humilhar, em se confessar pequenina e má. Então, nada se opõe à segunda graça, que, acompanha sempre a verdadeira humildade, graça de confiança e de paz. Nada posso por mim mesmo, diz o humilde soldado de Jesus, ao experimentar mais uma vez a sua fragilidade, nada sou, tametsi nihil sum, mas tudo posso naquele que me fortifica: omnia possum in eo qui me confortat. Levanta-se, então, cheio de coragem, e corre a vingar a derrota por novas vitórias.

Paz da alma e posse de si mesmo

Um bom soldado é sempre senhor de si; saberá em caso de necessidade, demonstrar uma coragem impetuosa, mas também, sendo preciso, saberá moderar o entusiasmo, nunca cederá a um ímpeto excessivo, nem a um covarde abatimento; dominar-se sempre é a condição da verdadeira coragem que o torna invencível. Soldados de Deus, devemos também ser sempre senhores de nós mesmos e conservar essa paz que nosso Senhor ressuscitado não se cansava de desejar, aos apóstolos. Na paz encontraremos Deus, na paz receberemos a força de Deus. Se a paz estiver ausente de nosso coração ao lutarmos, lembremo-nos que nosso ardor de combate provém antes de nossas paixões que da graça. Neste caso, é a natureza que opera, são interesses humanos que nos dirigem. Com efeito, é próprio da natureza o afligir-se e perturbar-se.

Deus nunca Se perturba; Deus vive na paz, Deus é paz, Ele, o ser imutável e imóvel que comunica todo movimento; e Sua ação é forte, mas suave. A alma que deixa Deus agir nela, que não opõe sua atividade humana ao impulso da graça, sentirá forçosamente em si os sinais da ação divina, permanecendo, portanto, forte e calma, venha o que vier. Se, ao contrário, ceder ao ímpeto da natureza, outros serão os caracteres dessa ação, mas nesse caso que valem suas obras, que resultado produzem seus esforços?

Quem vive na paz, recebe as puras luzes de Deus; quem se entrega à agitação e à angústia, ou quer, a todo custo, satisfazer suas inclinações e ver realizar-se sua própria vontade, obsta o esclarecimento divino; seu espírito obscurecido, velado, qual névoa, pelas inquietações que aceita, ou não procura afastar, pelos desejos naturais que lhe prendem a atenção, pelo receio de ver falhar-lhe os planos, não recebe mais os raios do Sol divino. Tal alma não pensa senão em seus temores, vive mergulhada em suas preocupações, como lhe podem chegar as santas inspirações? Está, pois, muito exposta a enganar-se; pode, por exemplo, conhecer mal seus deveres, exagerar-lhes as dificuldades, não perceber bem as razões que lhe sustentariam a coragem; daí muitas derrotas. Somente quem vive na paz será um valoroso soldado; a luz divina lhe mostrará, por certo, os perigos que corre, os sacrifícios que deve fazer, mas ao mesmo tempo lhe fará compreender que tudo se torna fácil com o auxílio de Deus. Então, a alma porá mãos à obra sem hesitar.

Os israelitas antes de entrar na terra prometida escolheram doze homens e ali os enviaram como exploradores. Alguns, sob a influência de suas paixões, não viram a terra tal qual era, e, cedendo ao medo e à covardia, julgaram que seria loucura e temeridade tentar conquistá-la.

Dois somente, entre eles, mais calmos, mais senhores de si, porque, sem dúvida, possuíam mais que os outros a paz, da alma, apreciaram ponderadamente a situação e não perderam a coragem. A posse, o gozo de Deus, a união com Deus, mesmo neste mundo, eis a terra prometida da alma cristã. Mas, ai de nós! pouquíssimas são as almas que a consideram com as devidas disposições e a apreciam ao seu justo valor; a maior parte, como os enviados de Moisés: consideram a sua conquista como impossível; os obstáculos a vencer os intimidam, a visão de sua fraqueza os desanima. Somente aqueles que não cedem ao temor, que permanecem firmes e calmos, aqueles que possuem a paz da alma, põem a sua confiança em Deus e tentam generosamente a conquista.

Não pensemos, como acontece com demasiada freqüência, que a paz da alma seja um dom reservado de que é cioso, e que só concede a alguns privilegiados. É opinião corrente que a paz da alma não pode coexistir com a luta "Não posso gozar da paz nas circunstâncias em que a Providência me colocou; entre múltiplos lides e os cuidados que me cercam; não posso gozar dela com o meu gênio, inclinado ora à agitação, ora ao abatimento; tomo muito a peito proceder bem e ver que os outros procedam bem, como então conservar a paz quando cometo tantas faltas e vejo os outros caírem em tantos erros?"

Desculpas fúteis, com as quais nos iludimos a nós mesmos e deixamos de prosseguir na conquista de tão estimável bem. Não caem neste erro aqueles que compreendem toda a importância dessa paz; pensam, com razão, que Deus, infinitamente bom, não quer recusar às almas de boa vontade um dom tão necessário. Aqueles que não lhe sabem o valor e não empregam todos os esforços por adquiri-lo, mostram que estão pouco esclarecidos a respeito e que desconhecem o caminho que leva a Deus.

Quando uma alma provar a paz, com que carinhoso desvelo a deve conservar! Como se deve esmerar por não a perturbar!

Quer triunfe, quer sucumba, deve sempre conservar a paz, até que suas quedas e suas vitórias, seus pecados e suas virtudes desapareçam na paz. Ao considerar seus inimigos, procurando descobrir-lhes os ataques e os meios de ação e, ao mesmo tempo, reconhecer os seus próprios pontos fracos, deve fazer esse exame dentro da paz como numa fortaleza inexpugnável. Deveria aspirar e respirar essa paz, e dela impregnar todos os seus atos.

(O caminho que leva a Deus pelo Cônego Augusto Sandreau, 1944, editora Vozes)
Fonte: http://a-grande-guerra.blogspot.com/2011/07/das-qualidades-do-soldado-de-deus.html

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Filosofia do Esporte.


A nobre filosofia do Esporte
http://catolicostradicionais.blogspot.com/2011/07/nobre-filosofia-do-esporte.html

Será imperfeita e mesmo prejudicial qualquer consideração filosófica, pedagógica ou esportiva que não considere o homem na sua realidade completa, na sua dimensão corporal e espiritual. Espírito e matéria, corpo e alma, assim Deus nos criou, e nos quer sadios corporal e espiritualmente. Se a alma é mais importante, nem por isso podemos descurar a saúde do corpo: "Mens sana in corpore sano", alma sã num corpo sadio, já diziam os romanos. E a palavra de Deus na Bíblia Sagrada mostra como não lhe agrada um corpo frouxo e como um corpo vigoroso e saudável colabora imensamente para a sanidade espiritual: "A saúde e a boa compleição valem mais que todo o ouro da terra. E um corpo vigoroso é preferível a uma imensa fortuna". (Ecli XXX, 15).


São Paulo Apóstolo, partilhou a admiração das multidões helenas pelas proezas dos atletas nos Jogos Olímpicos. A agilidade dos corredores, estimulada no estádio pelo triunfo, pela perspectiva de uma coroa de oliveira, sugeria-lhe a beleza moral do combate espiritual, onde se trata também de desenvolver todas as energias para alcançar uma coroa incorruptível no Reino dos Céus.


E essa é a finalidade do verdadeiro esporte: tornar o corpo sadio e dócil para que paralelamente a alma possa se robustecer e enobrecer.


Assim compreendemos como o espírito cristão é altamente eficaz para dar ao esporte o seu verdadeiro sentido e finalidade.


Na alta Idade Média, - a verdadeira, e não a falsa que muitas vezes historiadores superficiais tentam nos impingir, - época em que a "filosofia do Evangelho governava os povos" (Leão XIII), houve uma florescência ideal do verdadeiro desporto cristão.

Pedro de Coubertin, o renovador dos Jogos Olímpicos, assim escreve: "A Idade Média conheceu um espírito desportivo de intensidade e vigor provavelmente superiores aos que conheceu a

própria antigüidade grega". E ele atribui isso à influência primordial da religião que criou uma atmosfera das mais favoráveis a eclosão e desenvolvimento do espírito cavalheiresco que consiste na "lealdade praticada sem hesitação" (Pierre de Coubertin, La Pédagogie Sportive).


Esta sadia e nobre concepção influenciava favoravelmente os torneios de então. Só homens de honra aí eram tolerados; os relaxados, os perjuros, os alteadores, caluniadores, os que tinham faltado respeito às damas, eram implacavelmente afastados. Mesmo no ardor da luta não se podia conceber, e ainda menos tolerar, que um cavaleiro ousasse violar as regras do combate leal.


Esse era o verdadeiro jogo limpo, o "fair-play", como dizem os ingleses. O cristianismo conseguira assim disciplinar e adoçar os costumes de guerreiros belicosos que, sem ele, teriam feito lei de sua força física e cedido aos instintos desenfreados da violência.


Foi isso infelizmente o que ocorreu quando a religião cessou de fazer parte da vida. Quando a cavalaria entrou em decadência por falta do verdadeiro espírito cristão, os cavaleiros esqueciam o seu juramento de honradez e logo os torneios se aviltavam, dominados por instintos de brutalidade.


Com a progressiva decadência, chegamos à Renascença, onde a repugnância pelo esforço físico acompanhava naturalmente a negligência própria da vida fácil, a maré alta dos costumes dissolutos que caracterizavam esta época.

Fica patente que o esporte, sem a salutar dependência das diretivas da religião e das regras morais está fadado à decadência. Esquecendo-se a nobre finalidade do esporte cai-se no embrutecimento e no mercantilismo. Os profissionais tornam-se vulgar mercadoria de negócio, sujeitos à compra de quem mais oferece. As transações e intrigas de bastidores põem em perigo a personalidade do atleta. Toda a idéia educativa, todo o objetivo moral, todo o ideal superior ao do ganho imediato ficam esquecidos. Aí então o esporte deixa de ser esporte; torna-se batalha, espetáculo,

comércio. O jogador deixa de ser esportista para ser mercenário, acrobata, qualquer coisa parecida com um gladiador hipócrita.


Quem vê nos noticiários as loucuras do esporte moderno, as falcatruas, a deslealdade, a falta de nobreza dos atletas, a ausência total de fraternidade cristã, o mercenarismo, as trapaças, a violência e brutalidade das torcidas etc., tem uma idéia de como o esporte se degrada quando se desprezam os valores morais.


Para vergonha de nossa época "civilizada", vai ficar na história do esporte o triste espetáculo ocorrido em 29 de Maio de 1985, no Estádio Heysel de Bruxelas, poucos minutos antes do início da decisão da Copa Européia de Clubes Campeões (Liverpool X Juventus): os "hooligans" (torcedores fanáticos do Liverpool) foram os autores do massacre. Além dos 39 mortos (34 italianos, dois belgas, dois franceses e um inglês), 450 pessoas ficaram feridas e algumas delas sofrem ainda hoje as seqüelas físicas e morais daquela noite de horror.


Que todos, especialmente os jovens, tenham sempre presente o princípio de que o esporte é meio e não fim, meio para se alcançar a saúde do corpo e da alma, e não fim ao qual se deva sacrificar a saúde do corpo e os valores da alma.


Já dizia o filósofo grego Platão (República): "Nos exercícios do corpo os jovens propor-se-ão sobretudo aumentar a sua força moral, de preferência a desenvolver o seu vigor físico".


Assim entendido, o esporte será um meio poderoso de restabelecimento moral da juventude, segundo a afirmação de Borotra, famoso campeão francês de tênis, quando foi Ministro dos Desportos.


O Papa Pio XII propõe esta máxima sadia: "Cuidado do corpo, robustecimento do corpo, sim; culto do corpo, divinização do corpo, não". São Pio X já havia dito: "Os jovens devem amar o esporte; faz-lhes bem ao corpo e à alma; nós mesmos nos sentimos remoçar, quando os vemos correr, saltar e recrear-se".


Num discurso ao Centro Desportivo Italiano, em 09/10/1955, o Papa Pio XII enumera as virtudes próprias que a educação desportiva deve formar nos jovens atletas: "Essas são, entre outras, a lealdade que proíbe recorrer a subterfúgios, a docilidade e obediência às sensatas ordens de quem dirige um exercício de equipe, o espírito de renúncia quando é preciso esconder-se a favor das próprias cores, a fidelidade aos compromissos, a modéstia nos triunfos, a generosidade para com os vencidos, a serenidade na derrota, a paciência para com o público nem sempre moderado, a justiça se a competição esportiva está ligada a interesses financeiros livremente pactuados e, em geral, a castidade e a temperança já recomendadas pelos antigos. Todas estas virtudes, embora tenham como objetivo uma atividade física e exterior, são genuínas virtudes cristãs, que não podem adquirir-se e exercitar-se em grau exímio sem um íntimo espírito religioso e, acrescentemos, sem o freqüente recurso à oração".


Já dizia o nosso Didi (Waldir Pereira, do Fluminense, do Botafogo e da Seleção): "A vida moral e disciplinada favorece muitíssimo o rendimento do jogador. Na minha opinião, é o fator principal na vida do jogador que se preza... O primeiro objeto do meu pensamento é Deus. Recorro a Ele e confio Nele".


Gostaria de encerrar com uma história real, ilustrativa e exemplar:


Em certa prova de ciclismo, correm os dois grandes campeões italianos: Gino Bartali e Fausto Coppi.
Fausto procura crescer em velocidade e Bartali persegue-o, ficando muito para trás o pelotão.Em correria louca, os dois vão galgando quilômetros e quilômetros de estrada, descendo vales e subindo íngremes ladeiras.Aproximam-se da meta os dois campeoníssimos, banhados em suor, pelo esforço dispendido ao longo da caminhada.

Coppi arde em sede, e já não tem gota de água para os lábios ressequidos, pois se lhe esgotaram as provisões.

Dilema terrível se lhe põe ao espírito: ocultar a Gino o estado que se encontra e ir perdendo terreno, ou recorrer ao adversário e expor-se a que ele se aproveite de tal...
Fausto Coppi, a arder em sede, aproxima-se do Monge Voador, Gino, e segreda-lhe com os lábios secos, muito secos:
- Gino, tenho sede. Deixas-me beber da tua água?E Gino responde, perguntando:

- Já não tens nenhuma água, Fausto?

- Nenhuma, Gino, diz Fausto com voz sumida.

- Então, dá-me a tua "bottiglia" – acrescenta o companheiro.

E, em plena estrada, o grande Gino Bartalli divide generosamente com o seu rival a pequena porção de água de que ainda dispõe e diz:

- Olha, Fausto, se precisares mais, pede-me...

- Obrigado, Gino, - responde Fausto, cheio de gratidão.

Este sofregamente se refresca, e eis que ambos partem velozes para o final da tirada.

Os dois gigantes da estrada embalam vigorosamente. E Fausto, com as forças renovadas pela água que bebera, vence a corrida.

A multidão aclama-o com indescritível entusiasmo. Fausto, porém, logo que salta da bicicleta, corre a abraçar o generoso adversário e lhe diz:

- Obrigado, Gino. Tu és um grande Desportista.

- Tenho a certeza de que tu farias o mesmo, Fausto, murmura Gino Bartalli.
A beleza espiritual desta cena maravilhosa, desenrolada em plena estrada, demonstra como o verdadeiro esporte enobrece o homem.

Para que todos saibam, Gino Bartalli, ciclista italiano de renome mundial, foi várias vezes campeão de ciclismo, e é considerado o maior ciclista de todos os tempos.

Onde estava a força deste jovem campeão? Deixemos que ele mesmo nos conte:

"Só com as qualidades técnicas e físicas, e mesmo atléticas, não se dura muito e não se avança com continuidade. São necessárias as qualidades morais, que podem ser inatas, mas também se adquirem e que, num e noutro caso, só pela vontade se conservam. A par do vigor muscular, é mister possuir a força do espírito, o conhecimento do valor do sacrifício, a generosidade, o amor do desporto, o respeito pelo público. E sobretudo a Fé... Os princípios cristãos valeram-me na vida desportiva como na vida privada. A moral cristã indicou-me uma conduta que, além do seu valor espiritual, possui também um valor prático. E é o melhor, acreditai. Finalmente, devo dizer que a vida da Graça ajuda verdadeiramente o homem a ser desportista integral. Sempre comecei as minhas competições com o sinal da Cruz e, quando podia com a Comunhão. Ao passar junto de qualquer santuário de Nossa Senhora ou perto de algum Cruzeiro, sempre me benzia ou lhes dirigia uma saudação e ficava mais fortalecido e amparado no meio dos muitos perigos que corri".
Que a nossa mocidade, vibrante e sadia, saiba copiar os bons exemplos. Avante! Alma sã num corpo sadio!

(Quer Agrade, quer desagrade - Pe. Fernando Rifan)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Por que Deus permite que o diabo lute contra os homens?


Por que Deus permite que o diabo lute contra os homens?

São Máximo, o Confessor, cita cinco razões:

1. Para que nós cheguemos a distinguir a virtude do mal, através desta luta;

2. Para que, mediante esta luta, mantenhamo-nos firmes na prática da virtude.

3. Para que saibamos que a virtude é um dom de Deus;

4. Para que odiemos firmemente o mal;

5. Para que, cientes de nossa fragilidade, nos agarremos à força de Deus nos momentos de perigo.

Lamentavelmente, nossa educação e cultura ignoram esta realidade. Não só a combate como não permite que seja falado sobre o pecado e o demônio na sociedade. Por isso, com certeza, podemos dizer que o homem está cada vez mais vulnerável aos ataques demoníacos.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

SALMOS PARA REZAR.


CARTA DE SANTO ATANÁSIO A MARCELINO
SOBRE A INTERPRETAÇÃO DOS SALMOS
Tradução: José Carlos Romano.
Esta carta foi escrita por volta do ano 350 e trata da exegese e importância dos Salmos.

INTRODUÇÃO. Querido Marcelino, admiro teu fervor cristão: sobrelevas perfeitamente tua atual situação, e, ainda que muito te faça sofrer, não descuidas em absoluto as asceses. Perguntei ao portador de tua carta pelo gênero de vida que levas agora que estás doente e ele me informou que bem dedicas teu tempo à Escritura Santa, tendo, todavia, com maior freqüência o livro dos Salmos entre as mãos, tratando de compreender o sentido que cada um esconde. Te felicito, pois tenho idêntica paixão pelos Salmos, como a tenho pela Escritura inteira.

Encontrando-me numa ocasião (invadido) por semelhantes sentimentos, tive um encontro com um ancião estudioso e quero transcrever-te a conversação que sobre os Salmos, - Saltério em mão! - sustento comigo. O que aquele velho mestre me transmitiu é agradável e, ao mesmo tempo, instrutivo. Eis aqui o que me disse:
Toda a nossa Escritura, filho meu, tanto do Antigo como do Novo (Testamento), é, tal como está escrito, inspirada por Deus e útil para ensinar (2Tim 3,16). Porém, o livro dos Salmos, se feita uma reflexão atenta, possui algo que merece uma especial atenção.

Cada um dos livros, com efeito, nos oferece e nos entrega seu próprio ensinamento: O Pentateuco, por exemplo, relata o começo do mundo e a vida dos Patriarcas, a saída de Israel do Egito, como também a entrega da Lei. O Triteuco relata a distribuição da terra, as façanhas dos Juízes, como também a genealogia de Davi. Os livros dos Reis e das Crônicas relatam os feitos dos reis. Esdras descreve a libertação do cativeiro, o retorno do povo, a reconstrução do templo e da cidade. Os (livros dos) Profetas predizem a vinda do Salvador, recordam os Mandamentos, advertem e exortam aos pecadores, como também profetizam acerca das nações. O livro dos Salmos é como um jardim em cujo solo crescem todas estas plantas e, ademais, melodiosamente cantadas, senão que nos mostra o que lhe é privativo, já que ao cantar (salmos) agrega o seu próprio.

Canta os acontecimentos do Gênesis no salmo 18: "Os céus apregoam a glória de Deus e o firmamento proclama a obra de suas mãos" (Sal 18,1) e, no salmo 23: "A terra e tudo que ela contem é do Senhor; o mundo e tudo que o habita, Ele o fundou sobre os mares" (Sal 23,1-2). Os temas do Êxodo, Números e Deuteronômio os canta formosamente nos salmos 77 e 113: "Quando Israel saiu do Egito, a casa de Jacó, de um povo bárbaro, Judá foi seu santuário e Israel seu domínio" (Sal 113,1-2). Similares temas canta no salmo 104: "Enviou a Moisés seu servo, e a Aarão, seu eleito. Confiou-lhes suas palavras e suas maravilhas na terra de Cam. Enviou a obscuridade e escureceu; mas se rebelaram contra suas palavras. Transformou suas águas em sangue, e deu morte a seus peixes. Sua terra produziu rãs, até nas habitações do rei. Falou e se encheu de moscas e de mosquitos todo seu território" (Sal 104,26-31). É fácil descobrir que todo este salmo, como também o 105, foram escritos em referência a todos estes acontecimentos. As coisas que se referem ao sacerdócio e ao tabernáculo as proclama naquele do salmo 28: "Ao sair do tabernáculo, dizendo: 'Ofereçam ao Senhor, filhos de Deus, ofereçam-lhe glória e honra'" (Sal 28,1).

Os fatos concernentes a Josué e aos Juízes os refere brevemente o salmo 106 com as palavras: "Fundaram cidades para habitar nelas, semearam campos e plantaram vinhas" (Sal 106, 36-37). Pois foi sob Josué que se lhes entregou a terra prometida. Ao repetir reiteradamente no mesmo salmo: "Então gritaram ao Senhor em sua atribulação, e Ele os livrou de todas suas angústias" (Sal 106,6), está indicando o livro dos Juizes. Já que quando eles gritavam os suscitavam juízes a seu devido tempo para livrar a seu povo daqueles que o afligiam. O referente aos reis se canta no salmo 19 ao dizer: "Alguns se vangloriam em carros, outros em cavalos, porém, nós, no nome do Senhor nosso Deus. Eles foram detidos e caíram; porem nós nos levantamos e mantivemo-nos em pé. Senhor, salva ao Rei e escuta-nos quando te invocamos!" (Sal 19,8-10). E o que se refere a Esdras, o canta no salmo 125 (um dos salmos graduais): "Quando o Senhor trocou o cativeiro de Sião, ficamos consolados" (Sal 125,1); e novamente no 121: "Me alegrei quando me disseram: 'Vamos à casa do Senhor'. Nossos pés percorreram teus palácios, Jerusalém; Jerusalém está edificada qual cidade completamente povoada. Pois ali sobem as tribos, as tribos do Senhor, como testemunho para Israel" (Sal 121,1-4).

Praticamente cada salmo remete aos profetas. Sobre a vinda do Salvador e Daquele que devia vir ser Deus, assim se expressa o salmo 49: "O Senhor nosso Deus virá manifestamente, e não se calará" (Sal 49,2-3); e o salmo 117: "Bendito o que vem em nome do Senhor! Nós os temos abençoados desde a casa do Senhor; o Senhor (é) Deus e ele se nos manifestou" (Sal 117,26-27). Ele é o Verbo do Pai, como o canta o 106: "Ele enviou seu Verbo e os curou, os salvou de suas corrupções" (Sal 106,20). O Deus que vem é ele mesmo o Verbo enviado. Sabendo que este Verbo é o Filho de Deus, faz dizer ao Pai no salmo 44: "Meu coração proferiu um Verbo bom" (Sal 44,1), e também no salmo 109: "De meu seio antes da aurora eu te engendrei" (Sal 109,3). Quem pode dizer-se engendrado pelo Pai senão seu Verbo e sua Sabedoria? Sabendo que é a ele ao que o Pai dizia: "Que seja a luz e o firmamento e todas as coisas", o livro dos Salmos também contém palavras similares: "O Verbo do Senhor afiançou os céus e pelo Espírito de sua boca toda sua potência" (Sal 32,6).

(O salmista) não ignorava que Aquele que devia vir fosse também o Ungido, já que propriamente dele fala (como sujeito principal) o salmo 44: "Teu trono, ó Deus, permanece pelos séculos dos séculos; é cetro de retitude o cetro de teu Reino. Hás amado a justiça e odiado a iniquidade; por isso Deus, tu Deus, te ungiu com o óleo da alegria em preferência a teus companheiros" (Sal 44,7-8). Para que nada se imagine que ele vem só em aparência, aclara que é este mesmo o que se fará homem e que é por ele por quem tudo foi criado, por ele afirma no salmo 86: "A mãe Sião dirá: um homem, um homem foi engendrado nela, o Altíssimo em pessoa a fundou" (Sal 86,5). O que eqüivale a afirmar: o Verbo era Deus, tudo foi feito por ele, e, o Verbo se fez carne. Conhecendo, igualmente, o nascimento virginal, o Salmista não se calou, senão que o expressou claramente no salmo 44, ao dizer: "Escuta, filha minha, e veja; inclina teu ouvido, esqueça teu povo e a casa de teu pai, porque o rei está cativado de tua beleza" (Sal 44, 11-12). Novamente, isto eqüivale ao dito por Gabriel: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!" (Lc 1,28). Depois de haver afirmado que ele é o Ungido, mostra à parte seu nascimento humano da Virgem, ao dizer: "Escuta, filha minha". Gabriel a chama por seu nome, Maria, porque é um estranho - enquanto ao parentesco se refere - porém, Davi, o salmista, já que ela é de sua família, a chama, com toda razão, 'sua filha'.

Havendo afirmado que se faria homem, os Salmos mostram logicamente que ele é passível segundo a carne. O salmo 2 prevê a conspiração dos judeus: "Por que se rebelaram os pagãos? Por que conceberam projetos vãos? Os reis da terra se prepararam, os chefes conspiraram contra o Senhor e contra seu Ungido" (Sal 2, 1-2). No salmo 21, o Salvador mesmo dá a conhecer seu gênero de morte: "...me aprisionas no pó da morte, me rodeia um bando de mastins; a assembléia dos perversos me circunda. Furaram minhas mãos e meus pés. Contaram todos os meus ossos. Eles me vigiaram, dividiram minha roupa e jogaram a sorte sobre a minha túnica" (Sal 21,17-19). Furar suas mãos e seus pés, que outra coisa é senão indicar sua crucifixão? Depois de ensinar tudo isto, acrescente que o Senhor padeceu por nossa causa, e não pela sua. E, com seus próprios lábios, afirma novamente no salmo 87: "Pesadamente repousa sobre mim a tua ira" (Sal 87,17), e no salmo 68: "Eis de volta o que não havia arrebatado" (Sal 68,5). Pois se bem não devia pagar as contas de crime algum, ele morreu - porém sofrendo por nossa causa, tomando sobre si a cólera que nos estava destinada, por nossos pecados, como o disse em Isaías, Ele carregou nossas fraquezas; o que se faz evidente quando afirmamos no salmo 137: "O Senhor os recompensa por minha causa", e o Espírito disse no salmo 71 que: "ele salva aos filhos do pobre e quebra aos que acusam em falso... pois ele resgata o pobre do opressor e redime o indigente que não tem protetor" (Sal 71, 4.12).

Por isso predisse também sua ascensão aos céus, dizendo no salmo 23: "Príncipes, levantem seus portões e abram suas portas eternas para entrar o rei da glória" (Sal 23,7.9). E no 46: "Deus ascende entre aclamações, o Senhor ao som de trombeta(s)" (Sal 46,6). Também seu sentar-se (à direita de Deus) o anuncia no salmo 109: "Disse o Senhor a meu Senhor, senta-te a minha direita até que ponha teus inimigos como estrado para teus pés" (Sal 109,1). Até a destruição do diabo se anuncia a vocês no salmo 9: "Te sentas em teu trono qual juiz que julga justamente. Repreendeste aos povos e pereceu o ímpio" (Sal 9,5-6). Tampouco calou que receberia pleno poder para julgar, de parte do Pai, e que viria com autoridade sobre tudo, ao afirmar no 71: "Ó Deus, concede teu juízo ao rei, e tua justiça ao filho do rei, para que julgue a teu povo com justiça, e a teus pobres com retidão" (Sal 71,1-2). E no salmo 49 disse: "Convoca ao céu, no alto, e a terra, para julgar a seu povo...E os céus proclamaram sua justiça, pois Deus é juiz" (Sal 49,4.6). E no 81 lemos: "Deus está em pé na assembléia dos deuses, e rodeado de deuses, (os) julga" (Sal 81,1). Sobre a vocação dos pagãos muito se fala em nosso livro, porém, sobretudo no salmo 46: "Povos todos, aplaudam, aclamem a Deus com vozes jubilosas" (Sal 46,2). De maneira similar no 71: "Diante de si se prostram os etíopes e seus inimigos lamberam ó pó; os reis de Tarsis, e as ilhas, oferecem seus dons. Os reis da Arábia e de Sabá lhe ofereceram regalos. E o adoraram todos os reis da terra; todos os povos lhe serviram" (Sal 71,9-11). Tudo isto o cantam os Salmos e se anuncia em cada um dos outros Livros.
Não sendo um ignorante, (o ancião) agregava: em cada livro da Escritura se significam realidades idênticas, sobretudo em relação com o Salvador, pois todos estão intimamente relacionados, sinfonicamente concordes no Espírito. Por isso, do mesmo modo que é possível descobrir no Saltério o conteúdo dos outros Livros, também se encontra com freqüência o conteúdo do primeiro nos restantes. Assim, por exemplo, Moisés compôs um hino, e Isaías canta e Habacuc suplica com um cântico. Mais ainda, em todos os livros é possível encontrar profecias, leis e relatos. O mesmo Espírito o abarca todo, e de acordo ao dom destinado a cada qual, proclama a graça peculiar, repartindo-a em plenitude, seja como capacidade de profetizar, ou de legislar, ou de relatar o sucedido, ou o dom dos Salmos. Se bem que o Espírito é uno e indivisível, dele provêm todos os dons particulares e em cada dom está totalmente presente, ainda que cada um o percebe segundo as revelações e dons recebidos e na medida e forma das necessidades, de modo que na medida em que cada um se deixa guiar pelo Espírito se faz servidor do Verbo. É por isso, como o disse anteriormente, que quando Moisés está legislando, algumas vezes também profetiza e outras vezes canta; e os Profetas ao profetizar, algumas vezes proclamam mandatos, como aquele: "Purifiquem-se. Limpa teu coração de toda imundície, ó Jerusalém" (Is 1,16; Jr 4,14); e outras vezes relatam historias como o faz Daniel com os acontecimentos concernentes a Susana, ou Isaías quando relata o de Rabsaces e Senaquerib. O risco característico do livro dos Salmos, como já dissemos, é o do canto, e por ele modula melodiosamente o que em outros livros se narra com detalhe. Porém, algumas vezes até legisla: "Abandona a ira e deixa a cólera" (Sal 36,8); e "Afasta-te do mal, opera o bem; deseja a paz e corre atrás dela" (Sal 33,15). E outras vezes relata o caminho de Israel e profetiza acerca do Salvador, como o dissemos anteriormente.

A graça do Espírito é comum (a todos os livros), estando a mesma de acordo à tarefa encomendada e segundo o Espírito a concede. Os mais e os menos não provocam distinção alguma sempre que cada qual efetue e leve a cabo sua própria missão. Porém, em sendo assim, o livro dos Salmos tem, neste mesmo terreno, um dom e graça peculiares, uma propriedade de particular relevo. Pois junto às qualidades, que lhe são comuns e similares com os Livros restantes, tem ademais uma maravilhosa peculiaridade: contém exatamente descritos e representados todos os movimentos da alma, suas trocas e mudanças, de modo que uma pessoa sem experiência, ao estudá-los e ponderando-os, pode ir-se modelando à sua imagem. Pois os outros livros somente expõem a lei e estipula o que se deva, ou não, cumprir. Escutando as profecias, somente se sabe da vinda do Salvador. Prestando atenção às descrições históricas, somente se chega a averiguar os fatos dos reis e dos santos. O livro dos Salmos, ademais de ditos ensinamentos, permite reconhecer ao leitor as emoções de sua própria alma e se as ensina, pelo modo como algo o afeta ou o perturba; de acordo com este livro pode ter uma idéia aproximada do que deve dizer. Por isso, não se contenta com escutar simplesmente, senão que sabe como falar e como atuar para curar seu mal. É certo que também os outros livros tem palavras que proíbem o mal, porém, este também descreve como afastar-se dele. Por exemplo: fazer penitência é um preceito; fazer penitência significa deixar de pecar; aqui se indica não só como fazer penitência e o que é necessário dizer para arrepender-se. Assim mesmo Paulo disse: "A atribulação produz na alma a constância; a constância, a virtude provada; a virtude provada, a esperança; e a esperança não fica despojada" (Rom. 5,3-5). Os Salmos descrevem e mostram, ademais, como suportar as atribulações, o que deve fazer o afligido, o que deve dizer uma vez passada a atribulação, como cada um é posto à prova, quais são os pensamentos do que espera no Senhor... O de dar graças em toda circunstância é também um preceito. Os Salmos indicam o que deve dizer aquele que dá graças. Sabendo, por outro lado, que os que pretendem viver piedosamente serão perseguidos, aprendemos dos Salmos como clamar quando fugimos em meio a perseguição, e que palavras dirigir a Deus uma vez escapando dela. Somos convidados a bendizer ao Senhor, encontramos as expressões adequadas para manifestar-lhe nossa confissão. Os Salmos expressam como devemos elogiar ao Senhor, que palavras lhe rendem homenagem de modo adequado. Para toda ocasião e sobre todo argumento, encontraremos então poemas divinos adequados às nossas emoções e sensibilidade.

CAPÍTULO I. Todavia, isto de assombroso e maravilhoso tem os Salmos: ao ler os demais livros, aqueles que dizem os santos e o objeto de seus discursos, os leitores o relacionam com o argumento do livro, os ouvintes se sentem estranhos ao relato, de modo que as ações recordadas suscitam mera admiração ou o simples desejo de rivalizá-las. Aqueles que, por outro lado, abrem o livro dos Salmos recorrem, com a admiração e o assombro costumeiros, às profecias sobre o Salvador contidas já nos restantes livros, porém lêem os salmos como se fossem pessoais. O ouvinte, igual ao autor, entra em clima de compulsão, apropriando-se as palavras dos cânticos como se fossem suas. Para ser mais claro, não vacilaria, igual que o benaventurado Apóstolo, em retomar o dito: "Os discursos pronunciados em nome dos patriarcas, são numerosos; Moisés falava e Deus respondia; Elias e Eliseu, estabelecidos sobre a montanha do Carmelo, invocavam sem cessar ao Senhor, dizendo: 'Vive o Senhor, em cuja presença estou hoje!'" (1Rs 17,1; 2Rs 3,4). As palavras dos demais santos profetas têm por objeto o Salvador, e um certo número se referem aos pagãos e a Israel. Contudo, nenhuma pessoa pronunciaria as palavras dos patriarcas como se fossem suas, nem ousaria imitar e pronunciar as mesmas palavras que Moisés, nem as de Abraão acerca de sua escrava e Ismael ou as referentes ao grande Isaac; por necessário ou útil que fosse, nada se animaria a dizê-las como próprias. Ainda que um se compadecesse dos que sofrem e desejasse o melhor, jamais diria como Moisés: "Mostra-te a mim!" (Ex 33,13), ou tampouco: "Se perdoas seu pecado, perdoado serás; se não o perdoas, apaga-me do livro que tu escreveste" (Ex 33,12). Ainda no caso dos profetas, nada empregaria pessoalmente seus oráculos para elogiar ou repreender aqueles que se assemelham por suas ações aos que eles repreendiam ou elogiavam; ninguém diria: "Vive o Senhor, em cuja presença estou hoje!" Quem toma em suas mãos esses livros, vê claramente que as ditas palavras devem ler-se não como pessoais, mas sim como pertencentes aos santos e aos objetos dos quais falam. Os Salmos - coisa estranha! - salvo o que concerne ao Salvador e às profecias sobre os pagãos, são para o leitor palavras pessoais: cada um as canta como escritas para ele e não as toma nem as recorre como escritas por outro, nem tampouco referentes a outro. Suas disposições (de ânimo) são as de alguém que fala de si mesmo. O que diz, o orador o eleva até Deus como se fora ele quem falara e atuara. Não experimenta temor algum diante destas palavras, como diante às dos patriarcas, de Moisés ou dos outros profetas, senão por bem, considerando-as como pessoais e escritas referidas a ele, encontra a coragem para proferi-las e cantá-las. Seja que um cumpra ou quebre os mandamentos, os Salmos se aplicam a ambos. É necessário, em qualquer caso, seja como transgressor, seja como cumpridor, ver-se como obrigado a pronunciar as palavras escritas sobre cada qual.

CAPÍTULO II. [As palavras dos Salmos] me parecem que são para quem as canta, como um espelho no qual se refletem as emoções da sua alma para que assim, sob seu efeito, possa recitá-las. Até quem somente os escuta, percebe o canto como referido a ele: ou convencido por sua consciência e, afligido, se arrepende; ou ouvindo falar da esperança em Deus e do auxilio concedido aos crentes, se alegra de que lhe haja sido outorgado e prorrompe em ações de graças a Deus. Assim, por exemplo, canta alguém o salmo terceiro? Refletindo sobre suas próprias atribulações, se apropriaria das palavras do salmo. Assim mesmo, lerá ao 11 e ss. e ao 16 e ss. de acordo com a sua confiança e oração; o recitado do 50 e ss. será expressão de sua própria penitência; o 53 e ss., 55 e ss., 100 e ss. e o 41ss. expressam seus sentimentos sobre a perseguição de que ele é objeto; são suas palavras as que canta ao Senhor. Assim pois, cada salmo, sem entrar em maiores detalhes, pode-se dizer que está composto e é proferido pelo Espírito, de modo que nessas mesmas palavras, como já o disse antes, podemos captar os movimentos da nossa alma e nos faz dizer como provenientes de nós mesmos, como palavras nossas, para que, trazendo à memória nossas emoções passadas, reformemos a nossa vida espiritual. O que os salmos dizem pode servir-nos de exemplo e de padrão de medida.

CAPÍTULO III. Isto também é dom do Salvador: feito homem por nós, ofereceu por nós seu corpo à morte, para livrar-nos a todos da morte. Querendo mostrar-nos sua maneira celestial e perfeita de viver, a criou em si mesmo para que não sejamos já facilmente enganados pelo inimigo, já que temos uma prenda segura na vitoria que em favor nosso obteve sobre o diabo. É por esta razão que não só ensinou, mas também praticou seu ensinamento, de modo que cada um o escute quando fala e, olhando-o, como se observa a um modelo, aceite dele o exemplo, como quando diz: "Aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração" (Mt 11,29). Não poderá existir ensinamento mais perfeito da virtude que a realizada pelo Salvador em sua própria pessoa: paciência, amor à humanidade, bondade, fortaleza, misericórdia, justiça, tudo o encontramos nele e nada temos que esperar, quanto a virtudes, ao observar detidamente sua vida. Paulo o dizia claramente: "Sejam imitadores meus, como eu o sou de Cristo" (1Cor 11,1). Os legisladores, entre os gregos, tem graça unicamente para legislar; o Senhor, qual verdadeiro Senhor do universo, preocupado por sua obra, não somente legisla, mas também se dá como modelo para que aqueles que o desejam, saibam como atuar. Ainda antes de sua vinda entre nós, o colocou manifesto nos Salmos, de maneira que igual que nos proveu da imagem acabada do homem terreno e celestial em sua própria pessoa; também nos Salmos, aquele que o deseja, pode aprender e conhecer as disposições da alma, encontrando como curá-las e retificá-las.

CAPÍTULO IV. Falando com maior precisão, pontualizemos então que se toda a Escritura divina é mestra de virtude e de fé autêntica, o livro dos Salmos oferece, ademais, um perfeito modelo de vida espiritual. Igual a quem se apresenta diante de um rei e assume as corretas atitudes corporais e verbais, não seja que apenas abra a boca, seja arrojado fora por sua falta de compostura, também a aquele que corre até a meta das virtudes e deseja conhecer a conduta do Salvador durante sua vida mortal; o sagrado Livro o conduz primeiro, através da leitura, à consideração dos movimentos da alma e, a partir daí, vai representando sucessivamente o resto, ensinando aos leitores graças a ditas expressões. Neste livro, chama a atenção que alguns salmos contenham narrações históricas, outros admoestações morais, outros profecias, outros súplicas e outros, todavia, confissão.
• Na forma de narração, temos os seguintes salmos: 18; 43; 48; 49; 72; 76; 88; 89; 106; 113; 126; e 136.
• Em forma de oração, temos os salmos: 16; 67; 89; 101; 131; e 141.
• Os proferidos como súplica, petição instante, são os salmos: 5; 6; 7; 11; 12; 15; 24; 27; 30; 34; 37; 42; 53; 54; 55; 56; 58; 59; 60; 63; 82; 85; 87; 137; 139; e 142.
• Em forma de súplica junto com ação de graças, temos o salmo 138.
• Entre os que só suplicam, temos os salmos: 3; 25; 68; 69; 70; 73; 78; 79; 108; 122; 129; e 130.
• Em forma de confissão, temos os salmos: 9; 74; 91; 104; 105; 106; 107; 110; 117; 135; e 137.
• Aqueles que entrelaçam narração com confissão, são os salmos: 9; 74; 105; 106; 117; 135; e 137.
• Um salmo que combina confissão com narração e ação de graças é o 110.
• Tem forma de admoestação o salmo 36.
• Os salmos que contém profecia são: 20; 21; 44; 46; e 75.
• No 109 temos anunciação junto com profecia.
• Os salmos que exortam e prescrevem, e como que ordenam, são: 28; 32; 80; 94; 95; 96; 97; 102; 103; e 113.
• O salmo 149 combina exortação com louvor.
• Descrevem a vida ornada pela virtude os salmos: 104; 111; 118; 124; e 132.
• Aqueles que expressam louvor são: 90; 112; 116; 134; 144; 145; 146; 148; e 150.
• São salmos de ação de graças: 8; 9; 17; 33; 45; 62; 76; 84; 114; 115; 120; 121; 123; 125; 128; e 143.
• Aqueles que anunciam uma promessa de bem-aventurança são: 1; 31; 40; 118; e 127.
• Demonstrativo de alegre prontidão com (acréscimo) de cântico: o 107.
• Outro há que exorta à fortaleza: o 80.
• Temos os que reprovam aos ímpios e iníquos, como os: 12; 13; 35; 51; e 52.
• O salmo 4 é uma invocação.
• Aqueles salmos que falam [do cumprimento] de votos, são: o 19 e o 63.
• Tem palavras de glorificação ao Senhor: 22; 26; 38; 39; 41; 61; 75; 83; 96; 98 e 151.
• Acusações escritas para provocar vergonha são: o 57 e o 81.
• Se encontram acentos hímnicos nos: 47 e 64.
• O salmo 65 é um canto de júbilo e se refere à ressurreição.
• Outro, o 99, é unicamente canto de júbilo.

CAPÍTULO V. Estando, então, os salmos dispostos acima ordenados desta maneira, é possível aos leitores - como já o disse antes - descobrir em cada um deles os movimentos e a constituição de sua alma, do mesmo modo que descobrem o gênero e o ensinamento que cada um lhes transmitem.
Igualmente se pode aprender deles as palavras a dizer para agradar o Senhor, ou com quais palavras expressar o desejo de corrigir-se e arrepender-se ou de dar-lhe graças. Tudo isto impede, ao que recita literalmente estas expressões, cair na impiedade. Já que não somente tenhamos de dar a razão das nossas obras ao Juiz (Supremo), como também de toda palavra inútil (Mt 12,36):
• Se queres bendizer a alguém, aprendes como fazê-lo e em nome de quem, nos salmos 1; 31; 40; 11; 118 e 127.
• Se desejas censurar as conjurações dos judeus contra o Salvador, aí tens o segundo (salmo 2) de nossos poemas.
• Se os teus te perseguem e muitos se levantam contra ti, recita o terceiro (salmo 3).
• Se estando aflito, invocaste ao Senhor e porque te escutou queres dar-lhe graças, entoa o 4, ou o 74, ou o 114.
• Se a ti basta que os malfeitores te preparam armadilhas e queres que bem de manhã tua oração chegue a seus ouvidos, recita o 5.
• Se a ameaça de castigo do Senhor te intranquiliza, podes recitar o 6 ou o 37.
• Se alguns se reúnem para tramar algo contra ti, como o fez Ajitófel contra Davi, e chega a teus ouvidos, canta o salmo 7 e confia no Senhor em te defender.

CAPÍTULO VI
• Se, observando a extensão universal da graça do Salvador e a salvação do gênero humano, queres conversar com Deus, canta o salmo 8.
• Queres entoar o cântico da vindima, para dar graças ao Senhor? Tens novamente a tua disposição o 8 e também o 83.
• Em honra à vitoria sobre os inimigos e a liberação da criatura, sem vangloriar-se, e sim reconhecendo que estes feitos magníficos são obra do Filho de Deus, recita o já mencionado salmo 9.
• Se alguém quer confundir-te ou assustar-te, tem confiança no Senhor e repete o salmo 10.
• Ao observar a soberba de tantos e como o mal cresce, ao ponto que já não há ações santas entre os homens, busca refúgio no Senhor e diga o salmo 11.
• Prolongam os inimigos seus ataques? Não desesperes como se Deus te esquecera, e sim invoca-o cantando o salmo 12.
• Não te associes de modo algum com os que blasfemam impiamente contra a Providência, mas bem suplica ao Senhor recitando os salmos 13 e 52.
• Aquele que queira aprender quem é o cidadão do reino dos céus deve dizer o salmo 14.

CAPÍTULO VII
• Necessitas orar porque teus adversários assediam tua alma? Canta os salmos 16; 85; 87 e 140.
• Se quiseres saber como rezava Moisés, aí tens o salmo 89.
• Foste libertado de teus inimigos e perseguidores? Canta o salmo 17.
• Te maravilham a ordem da criação e a providente graça que nela resplandece, como também os preceitos santos da Lei? Canta então o 18 e o 23.
• Vendo sofrer os atribulados, consola-os orando e recitando-lhes as palavras do salmo 19.
• Vês que o Senhor te conduz e pastoreia, guiando-te pelo caminho reto, alegra-te dele e salmodia o 22!
• Te submergem os inimigos? Eleva tua alma até Deus salmodiando o 24 e vejas que os iníquos caem malogrados.
• Te cercam os inimigos, tendo suas mãos totalmente manchadas de sangue, e não buscam mais que perder-te e confundir-te? Então, não confies tua justiça a um homem - toda justiça humana é suspeita! - mas peça ao Senhor que te faça justiça, já que ele é o único Juiz, recitando o 25; 34 ou 42.
• Quando te assaltam violentamente os inimigos e se congregam como um exército e te depreciam como se ainda não estivesses ungido, e por isso te façam a guerra, não temas, canta muito o salmo 26.
• A natureza humana é débil, e se [apesar dela] os perseguidores se fazem tão desavergonhados e insistem, não lhes faças caso, suplica em troca ao Senhor com o salmo 27.
• Se queres aprender como oferecer sacrifícios ao Senhor com ação de graças, recita então com inteligência espiritual o salmo 28.
• Se dedicas e consagras tua casa, isto é, tua alma que hospeda ao Senhor, como também a casa corpórea na que moras fisicamente, recita com ação de graças o 29 e, entre os salmos graduais, o 126.

CAPÍTULO VIII
• Se vês que és depreciado e perseguido por amigos e conhecidos à causa da verdade, não perdas o ânimo por isso, nem temas aos que se te opõem, e sim, aparta-te deles e, contemplando o futuro, salmodia o 30.
• Se ao ver aos batizados e resgatados de sua vida corruptível, ponderas e admiras a misericórdia de Deus, canta em te favor tuas louvações com o salmo 31.
• Se desejas salmodiar em companhia de muitos, reúne os homens justos e probos, e recita o 32.
• Se caíste vítima de teus inimigos e sagazmente pudeste evitar seus assédios, reúne os homens mansos e recita em sua presença o salmo 33.
• Se vês o céu para cometer o mal que impera entre os transgressores da Lei, não penses que a maldade é algo natural neles, como o afirmam os hereges, e sim recita o 35 e te convenças de que a eles lhes correspondem a responsabilidade pelo pecado.
• Se vês os malvados cometerem muitas iniquidades e avalentarem-se contra os humildes, e queres exortar a alguém que nem se junte com os iníquos, nem lhes tenha inveja, pois seu porvir será a queda, então dê para ti mesmo e para os outros o 36.

CAPÍTULO IX
• Se, por outro lado, querendo prestar atenção à tua própria pessoa, e vendo que o inimigo se dispõe a atacar-te - pois lhe agrada provocar a este tipo de pessoas - querendo fortalecer-te contra ele, canta o salmo 38.
• Se tendo que suportar ataques dos perseguidores, queres aprender as vantagens da paciência, recita então o 39.
• Quando vendo multidão de pobres e mendigos, queres mostrar-te misericordioso com eles, serás capaz de sê-lo graças à recitação do salmo 40, já que com ele elogias aos que já atuaram compassivamente, e exortas aos demais a que ajam de igual maneira.
• Se ansiando buscar a Deus, escutas as burlas dos adversários, não te perturbes, mas considerando a recompensa eterna de tal nostalgia, consola tua alma com a esperança em Deus, e, superados os pesares que te afligem nesta vida, entoa o salmo 41.
• Se não queres deixar de recordar os inumeráveis benefícios que o Senhor outorgou a teus pais, como o êxodo do Egito e a estadia no deserto, e que bom é Deus e quão ingratos os homens, tens os salmos 43; 77; 88; 104; 105; 106 e 113.
• Se havendo-te refugiado em Deus, poderoso defensor no perigo, queres dar-lhe graças e narrar suas misericórdias para contigo, tens o 45.

CAPÍTULO X
• Pecaste, sentes vergonha, buscas fazer penitência e alcançar misericórdia? Encontrarás palavras de arrependimento e confissão no salmo 50.
• Ainda assim deves suportar calunias por parte de um rei iníquo, e vês como se encoraja o caluniador, alija-te dali e usa as expressões que encontras no 51.
• Se te atacam, te acossam e querem trair-te, entregando-te à justiça, como o fizeram zifeos e filisteus com Davi, não perdas o valor: tem ânimo, confia no Senhor e louvai-o com as palavras dos salmos 53 e 55.
• A perseguição te sobrevem, cai sobre ti e, sem sabê-lo, penetra inesperadamente na cova que te escondias, nem assim temas, pois ainda nesse aperto encontraras palavras de consolo e de memorial indelével nos salmos 56 e 141.
• Se quem te persegue dá a ordem de vigiar tua casa, e tu, apesar de tudo, logras escapar, dá graças a Deus, e inscreve o agradecimento em teu coração, como sobre uma estrela indelével, em memória de que não pereceste e entoa o salmo 58.
• Se os inimigos que te afligem proferem insultos, e os que aparentavam ser amigos lançam acusações contra ti, e isto perturba tua oração por um breve tempo, reconforta-te louvando a Deus e recitando as palavras do 54.
• Contra os hipócritas e os que se vangloriam descaradamente, recita - para vergonha sua - o salmo 57.
• Contra os que arremetem selvagemente contra ti e querem arrebatar-te a alma, contraponha tua confiança e adesão ao Senhor; quanto mais se encorajem eles, tanto mais descansa nele, recitando o 61.
• Se perseguido, retira-te para o deserto e nada temas por estar ali só, pois tens a Deus junto de ti, a quem, muito de madrugada, podes cantar-lhe o 62.
• Se te aterrorizam os inimigos e não cessam em conjurarem contra ti, buscando-te sem descanso, ainda que sejam muitos, não te aflijas, já que seus ataques serão como feridas causadas por flechas atiradas por crianças; entoa, então (confiante), os salmos 63; 64; 69 e 70.

CAPÍTULO XI
• Se desejas louvar a Deus recita o 64.
• E quando queiras catequizar alguém acerca da ressurreição, entoa o 65.
• Imploras a misericórdia do Senhor? Louva-o salmodiando o 66.
• Se vês que os malvados prosperam gozando de paz e os justos, em troca, vivem em aflição, para não tropeçar nem escandalizar-te, recita também tu o 72.
• Quando a ira de Deus se inflama contra o povo, tenhas palavras sábias para seu consolo no 73.
• Se andas necessitado de confissão, salmodia o 9; 74; 91; 104; 105; 106; 107; 110; 117; 125 e 137.
• Queres confundir e envergonhar os pagãos e hereges, demostrando que nem um só deles possui o conhecimento de Deus, e sim unicamente a Igreja Católica? Podes, se assim o pensas, cantar e recitar inteligentemente as palavras do 75.
• Se teus inimigos te perseguem e te cortam toda possibilidade de fuga, ainda que estejas muito afligido e grandemente confundido, não desesperes, e sim clama; e se teu grito é escutado, dá graças a Deus recitando o 76.
• Porém, se os inimigos persistem e invadem e profanam o templo de Deus, matando os santos e arremessando seus cadáveres às aves do céu, não te deixes intimidar nem temas sua crueldade, e sim compadece com os que padecem e ora a Deus com o salmo 78.

CAPÍTULO XII
• Se desejas louvar ao Senhor em dia de festa, convoca os servos de Deus e recita os salmos 80 e 94.
• E se novamente os inimigos todos, se reúnem, assaltando-te por todas as partes, proferindo ameaças até à casa de Deus e aliando-se contra a piedade, não te amedrontes por sua multidão ou seu poder, já que tens uma âncora de esperança nas palavras do salmo 82.
• Se vendo a casa do Senhor e seus tabernáculos eternos, sentes nostalgia por eles, como tinha o Apóstolo, recita o salmo 83.
• Quando havendo cessado a ira e terminado o cativeiro, quiseras dar graças a Deus, tens o 84 e o 125.
• Se quiseres saber a diferença que medeia entre a Igreja católica e os cismáticos, e envergonhar estes últimos, podes pronunciar as palavras do 86.
• Se quiseres exortar-te a ti e a outros, a render culto verdadeiro a Deus, demostrando que a esperança em Deus não fica confundida, e sim que, ao contrário, a alma fica fortalecida, louva a Deus recitando o 90.
• Desejas salmodiar o Sábado? Tens o 91.

CAPÍTULO XIII

• Queres dar graças no dia do Senhor? Tens o 23; ou, desejas fazê-lo no segundo dia da semana? Recita o 47.
• Queres glorificar a Deus no dia de preparação? Tens o louvor do 92.
• Porque então, quando ocorreu a crucifixão, foi edificada a casa ainda que os inimigos trataram de rodeá-la, é conveniente cantar como cântico triunfal o que se enuncia no 92.
• Se te sobrevindo o cativeiro, e a casa, sendo derrubada, volta a ser edificada, canta o que se contém no 95.
A terra se livrou dos guerreiros e apareceu a paz: reina o Senhor e tu queres fazê-lo objeto de teus louvores, aí tens o 96.
• Queres salmodiar o quarto dia da semana? Faça-o com o 93; pois num dia como esse foi o Senhor entregue e começou a assumir e executar o juízo contrário à morte, triunfando confiadamente sobre ela. Se lês o Evangelho, verás que no quarto dia da semana os judeus se reuniram em Conselho contra o Senhor, e também verás que com todo valor começou a procurar-nos justiça contra o diabo: salmodia, com respeito a tudo isto, com as palavras do 93.
• Se, ademais, observas a providência e o poder universal do Senhor, e queres instruir a alguns na obediência e na fé, exorta-os diante de tudo a confessar decididamente, salmodiando o 99.
• Se tens reconhecido o poder de seu juízo, quer dizer que Deus julga temperando a justiça com sua misericórdia, e queres acercar-te dele, tens para este propósito as palavras do 100 entre os salmos.
CAPÍTULO XIV
• Nossa natureza é débil... se as angústias da vida te fizeram similar a um mendigo, e sentindo-te exausto buscas consolo, entoa o 101.
• É conveniente que sempre e em todo lugar demos graças a Deus... se desejas bendizê-lo, estimula tua alma recitando o 102 e o 103.
• Queres louvar a Deus e saber, como, por que motivos e com quais palavras fazê-lo? Tens o 104; 106; 134; 145; 146; 147; 148 e 150.
• Prestas fé ao que disse o Senhor e tens fé nas palavras que tu mesmo dizes quando rezas? Profere o 115.
• Sentes que vais progredindo gradualmente em tuas obras, de modo que podes fazer tuas as palavras: "esquecendo o que fica atrás de mim, me lanço até o que está adiante" (Fil 3,13)? Podes então entoar para cada um dos degraus de teu adiantar um dos quinze salmos graduais.

CAPÍTULO XV
• Tens sido conduzido ao cativeiro por pensamentos estranhos e te achas nostalgicamente puxado por eles? Te embarga o arrependimento, desejas não cair no futuro e, ainda assim, segues cativo deles? Senta-te, chora, e como o fez Anato ao povo, pronuncia as palavras do 136!
• És tentado e, assim, sondado e provado? Se quando superada a tentação quiseres dar graças, utiliza o salmo 138.
• Te achas novamente acossado pelos inimigos e queres ser libertado? Pronuncia as palavras do 139.
• Desejas suplicar e orar? Salmodia o 5 e o 142.
• Se alçado o tirânico inimigo contra o povo e contra ti, ao modo de Golias contra Davi, não temas: tenha fé, e como Davi, salmodia o 143.
• Se maravilhado pelos benefícios que Deus outorgou a todos e também a ti, queres bendizê-lo, repete as palavras que Davi disse no 144.
• Queres cantar e louvar ao Senhor? O que deves entoar está nos salmos 92 e 97.
• Ainda sendo pequeno, tens sido preferido a teus irmãos e colocado sobre eles? Não te vanglories nem te encoraje-se contra eles, e sim atribuindo a glória a Deus, que te elegeu, salmodia o 151, que é um poema genuinamente davídico.
• Suponhamos que desejas entoar os salmos que resumem o louvor a Deus, e que vão encabeçados pela Aleluia, podes usar: o 104; 105; 106; 111; 112; 113; 114; 115; 116; 117; 118; 134; 135; 145; 146; 147; 148; 149 e o 150.
CAPÍTULO XVI. Se ao salmodiar queres destacar o que se refere ao Salvador, encontrarás referências praticamente em cada salmo; assim, por exemplo:
• Tens o 44 e o 100, que proclamam tanto sua geração eterna do Pai como sua vinda na carne;
• O 21 e o 68 que preanunciam a cruz divina, como também todos os padecimentos e perseguições que suportou por nós;
• O 2 e o 108 que apregoam a maldade e as perseguições dos judeus e a traição de Judas Iscariotes;
• O 20, 49 e 71 proclamam seu reinado e sua potestade de julgar, como também sua manifestação a nós na carne e a vocação dos pagãos.
• O 15 anuncia sua ressurreição dentre os mortos;
• O 23 e 46 anunciam sua ascensão aos céus.
• Ao ler o 92, 95, 97 ou 98, cais na conta e contemplas os benefícios que o Salvador nos outorgou graças a seus padecimentos.
CAPÍTULO XVII. Esta é a característica que possui o livro dos Salmos, para utilidade dos homens: uma parte dos salmos foram escritos para a purificação dos movimentos da alma; outra parte, para anunciarmos profeticamente a vinda na carne de nosso Senhor Jesus Cristo, como acima dissemos.
Porém, de modo algum devemos passar por alto a razão pela qual os salmos se modulam harmoniosamente e com canto. Alguns simplórios entre nós, se bem crêem na inspiração divina das palavras, sustentam que os salmos se cantam pelo agradável dos sons e para o prazer do ouvido. Isto não é exato. A Escritura para nada buscou o encanto ou a sedução, e sim a utilidade da alma; esta forma foi eleita sobre tudo por duas razoes:

1. Em primeiro lugar, convinha que a Escritura não louvasse a Deus unicamente numa seqüência de palavras rápidas e contínuas, mas sim também com voz lenta e pausada. Em seqüência ininterrupta se lêem a Lei, os Profetas, os livros históricos e o Novo Testamento; a voz pausada é empregada para os Salmos, odes e cânticos. Assim se obtém que os homens expressem seu amor a Deus com todas as suas forças e com todas as suas possibilidades.

2. A segunda razão apóia em que, como uma boa flauta unifica e harmoniza perfeitamente todos os sons, do mesmo modo requer a razão que os diversos movimentos da alma, como pensamento, desejo, cólera, sejam a origem das distintas atividades do corpo, de modo que o trabalho do homem não seja desarmônico, conflitando consigo mesmo, pensando muito bem e trabalhando muito mal; por exemplo, Pilatos que disse: "Nenhum delito encontro nele para condená-lo à morte" (Jo 18,38), porém trabalhou segundo o querer dos judeus... Ou, que desejando trabalhar mal, estejam impossibilitados de realizá-lo, como os anciãos com Susana... Ou que ainda abstendo-se de adulterar, seja ladrão, ou, sem ser ladrão seja homicida, ou, sem ser assassino seja blasfemador.

CAPÍTULO XVIII. Para impedir que surja essa desarmonia interior, a razão requer que a alma, que possui o pensamento de Cristo (cf. 1Cor 2,16), como disse o Apóstolo, faça que este lhe sirva de diretor, que domine nele suas paixões, ordenando os membros do corpo para que obedeçam a razão. Como pleito para a harmonia, nesse saltério que é o homem, o Espírito deve ser fielmente obedecido, os membros e seus movimentos devem ser dóceis obedecendo a vontade de Deus. Esta tranqüilidade perfeita, esta calma interior, tem sua imagem e modelo na leitura modulada dos Salmos. Nos damos a conhecer os movimentos da alma através das nossas palavras; por isso o Senhor, desejando que a melodia das palavras fosse o símbolo da harmonia espiritual na alma, fez cantar os Salmos melodiosa, modulada e musicalmente. Precisamente este é o desejo da alma, vibrar em harmonia, como está escrito: "Algum de vós é feliz, que cante!" (St 5,13). Assim, salmodiando, se aplaca o que nele haja de confuso, áspero ou desordenado e o canto cura até a tristeza: "Por que estás triste, alma minha, por que me perturbas?" (Sal 41,6.12 e 42,5); reconhecer seu erro confessando: "Quase resvalaram minhas pisadas" (Sal 72,2); e no temor fortalecer a esperança: "O Senhor está comigo: não temo; que poderá fazer-me aquele homem?" (Sal 117,6).

CAPÍTULO XIX. Os que não lêem desta maneira os cânticos divinos, não salmodiam sabiamente, mas buscam seu deleite, e merecem reprovação, já que o louvor não é formoso na boca do pecador (cf. Eclo. 15,9). Porém, quando se cantam da maneira que acima mencionamos, de modo que as palavras se vão proferindo ao ritmo da alma e em harmonia com o Espírito, então cantam em uníssono a boca e a mente; ao cantar assim, são úteis a si mesmos e aos ouvintes bem dispostos. O bem-aventurado Davi, por exemplo, cantando para Saul, alegrava a Deus e alijava de Saul a perturbação e a loucura, devolvendo-lhe a tranqüilidade à sua alma. De idêntica maneira os sacerdotes ao salmodiar, aportavam a calma à alma das multidões, induzindo-as a cantar unânimes com os coros celestiais. O fato de que os Salmos se recitem melodiosamente, não é em absoluto indício de buscar sons prazenteiros, e sim reflexo da harmoniosa composição da alma. A leitura mensurada é símbolo da índole ordenada e tranqüila do espírito. Louvar a Deus com pratinhos sonoros, com a cítara e o saltério de dez cordas, é, a sua vez, símbolo e indicação de que os membros do corpo estão harmoniosamente unidos do modo que estão as cordas; de que os pensamentos da alma atuam qual címbalos, recebendo todo o conjunto, movimento e vida a impulsos do espírito, já que viveram, como está escrito, e com o Espírito fazem morrer as obras do corpo (cf. Rom. 8,13). Quem salmodia desta maneira harmoniza sua alma levando-a do desacordo ao acorde, de modo que, falando-se em natural acordo nada a perturbe, ao contrário da imaginação pacificada que deseja ardentemente os bens futuros. Bem disposta pela harmonia das palavras, olvida suas paixões, para centrada, gostosa e harmoniosamente em Cristo conceber os melhores pensamentos.

CAPÍTULO XX. É portanto necessário, filho meu, que todo o que lê este livro o faça com pureza de coração, aceitando que se deve à divina inspiração, e, beneficiando-se dele por isso mesmo, como dos frutos do jardim do paraíso, empregando-os segundo as circunstâncias e a utilidade de cada um deles.

Estimo, com efeito, que nas palavras deste livro se contem e descrevam todas as disposições, todos os afetos e todos os pensamentos da vida humana e que fora destes não há outros.

Há necessidade de arrependimento ou confissão; se lhes surpreenderam a aflição ou a tentação; se és perseguido ou se escapou a emboscadas; se estás triste, em dificuldades ou tens algum dos sentimentos acima mencionados; ou se vives prosperamente, havendo triunfado sobre teus inimigos, desejando louvar, dar graças ou bendizer ao Senhor... Para qualquer destas circunstâncias, deve-se falar o ensinamento adequado nos Salmos divinos. Que eleja aqueles relacionados com cada um desses argumentos, recitando-os como se ele os proferira, e adequando os próprios sentimentos aos neles expressados.

CAPÍTULO XXI. De modo algum se busque adorná-los com palavras sedutoras, modificar suas expressões ou trocá-las totalmente; leia e cante-se o que está escrito, sem artifícios, para que os santos varões que nos legaram esses salmos, reconheçam o tesouro de sua propriedade, conosco há pouco tempo, ou melhor, o faça o Espírito Santo, que falou através deles, e, ao constatar que nossos discursos são eco perfeitos dos seus, venham em nossa ajuda. Pois sendo a vida dos santos melhor que a do resto, portanto melhores e mais poderosas se tenham, com toda verdade, suas palavras que nós agregamos. Pois com essas palavras agradaram a Deus e, ao proferi-las, eles lograram - como o disse o Apóstolo - conquistar reinos, fizeram justiça, alcançaram as promessas, cerraram a boca aos leões; apagaram a violência do fogo, escaparam do fio da espada, curaram suas enfermidades, foram valentes na guerra, rechaçaram exércitos estrangeiros e as mulheres recobraram ressuscitados a seus mortos (cf. Hb 11, 33-35).

CAPÍTULO XXII. Todo o que agora lê essas mesmas palavras [dos Salmos], tenha confiança que por elas Deus virá instantaneamente em nossa ajuda. Se está afligido, sua leitura procurará um grande consolo; se é tentado ou perseguido, ao cantá-las saldará fortalecido e como mais protegido pelo Senhor, que já havia protegido antes ao autor, e fará que ouçam (os inimigos) o diabo e seus demônios. Se há pecado, voltará a si e deixará de fazê-lo; se não há pecado, se estimará ditoso ao saber que corre em procura dos verdadeiros bens; na luta, os Salmos darão as forças para não apartar-se jamais da verdade; ao contrário, convencerá aos impostores que tratavam de induzi-lo ao erro. A garantia de tudo isso não é um mero homem mas sim a mesma Escritura divina. Deus ordenou a Moisés escrever o grande Cântico, ensinando-o ao povo; ao que ele constituíra como chefe, lhe ordenou transcrever o Deuteronômio, guardando-o entre suas mãos e meditando continuamente suas palavras, pois seus discursos são suficientes para trazer à memória a recordação da virtude e aportar ajuda aos que os meditam sinceramente. Quando Josué, filho de Nuná penetrou na terra prometida, vendo os acampamentos inimigos e os reis amorreus reunidos, todos em som de guerra, em lugar de armas ou espadas, empunhou o livro do Deuteronomio; o leu diante de todo o povo, recordando as palavras da Lei, e havendo armado o povo, saiu vencedor sobre os inimigos. O rei Josías, depois do descobrimento do livro e sua leitura pública, não albergava já temor algum de seus inimigos. Quando o povo saía à guerra, a Arca contendo as tábuas da Lei ia adiante do exército, sendo proteção mais que suficiente, sempre que não houvera entre os portadores ou no seio do povo prevalência de pecado ou hipocrisia. Pois se necessita que a fé vá acompanhada pela sinceridade para que a Lei dê resposta à oração.

CAPÍTULO XXIII Ao menos eu, o ancião, escutei da boca de homens sábios, que antigamente, em tempos de Israel, bastava a leitura da Escritura para por em fuga os demônios e destruir as armadilhas estendidas por eles aos homens. Por isso, me dizia [meu interlocutor], são de todo condenáveis aqueles que, abandonando estes livros, compõem outros com expressões elegantes, fazendo-se chamar exorcistas, como ocorreu aos filhos do judeu Esceva, quando tentaram exorcizar dessa maneira! Os demônios se divertem e burlam quando os escutam; pelo contrário tremem diante das palavras dos santos e nem ouvi-las podem. Pois nas palavras da Escritura está o Senhor e ao não poder suportás-las gritam: "Te rogo que não me atormentes antes do tempo!" (Lc 8,28). Com somente a presença do Senhor se consumiam. Do mesmo modo, Paulo dava ordens aos espíritos impuros e os demônios se submetiam aos discípulos. E a mão do Senhor caiu sobre Eliseu, o profeta, de modo que profetizou aos três reis acerca da água quando, por ordem sua, o salmista cantava ao som do saltério. Inclusive agora, se um está preocupado pelos que sofrem, leia os Salmos e lhes ajudará muitíssimo, demostrando igualmente que o que sofre é firme e verdadeiro; ao vê-lo, Deus concede a completa saúde aos necessitados. Sabendo-o, o santo disse no salmo 118: "Meditarei sobre teus decretos, não olvidarei tuas palavras", e também: "Teus decretos eram meus cantos, no lugar de minha peregrinação. Nelas encontrarão salvação ao dizer: 'se tua lei não fosse minha meditação, já haveria perecido em minha humilhação'".
Também Paulo buscava confirmar a seu discípulo, ao dizer: "Medita estas coisas; vive entregue a elas para que teu aproveitamento seja manifestado a todos" (1 Tim 4,15). Pratica-o igualmente tu, lê com sabedoria os Salmos e poderás, sob a direção do Espírito, compreender o significado de cada um. Imitarás a vida que levaram os varões santos, que entusiasmados pelo Espírito de Deus isto tudo disseram.
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