quarta-feira, 8 de junho de 2011

Mundo pagão convertido: se a Igreja é antiga, o paganismo é ainda mais antigo.


A atual campanha publicitária contra a Igreja faz-nos esquecer uma verdade da qual a histó­ria nos dá um inequívoco testemunho: foi a Igreja Católica que livrou o mundo da imoralidade, e é porque está rejeitando a Igreja que o mundo tem afundado novamente no lodo do qual foi resga­tado.

O mundo do paganismo era um inferno

A maioria da população do Ocidente dá por certo que o mundo, em grau maior ou menor, sempre cultivou os valores aos quais estamos acostumados. Esses valores, sacrossantos até cerca de 50 anos atrás, em certa medida ainda resistem à decadência acelerada deste início de milênio:

família tradicional, proteção da inocência infantil, senso do pudor, modos educados, trajes decen­tes, honorabilidade, respeito mútuo, espírito de caridade, dignidade humana, solidariedade, etc.

Mas não foi sempre assim. Antes de Nosso Senhor Jesus Cristo pregar entre os homens a Boa Nova do Evangelho, o mundo estava mergulhado numa prolongada e terrível noite, em que reinavam a devassidão moral, o egoísmo, a crueldade, a desumanidade e a opressão, conforme a história nos ensina1.

Dessa situação não se pode concluir que todos os romanos, gregos e “bárbaros” fossem de­vassos. Havia minorias inconformes com aquela situação e preparadas para receber a pregação evangélica com a avidez de náufragos que encontram a tábua de salvação. Daí a rápida expansão da Igreja Católica pelo mundo romano e, finalmente, a conversão do Império no ano 313 da era cristã.

Religiões degradantes

Tudo quanto a parte sã da opinião pública do Ocidente ainda olha com horror hoje em dia, era, no mundo dominado pelo paganismo, moeda corrente e normal. Basta-nos recordar o que a mitologia greco-romana diz a respeito dos vários deuses de seu panteão.

Formavam eles um temível bando de depravados: adúlteros, violentos, impudentes, mentiro­sos, ladrões, opressores, assassinos, parricidas, matricidas, fratricidas, cruéis, egoístas, traidores, preguiçosos, falsos, desonrados, incestuosos, fornicadores, perversos e pedófilos. Zeus (o Júpiter dos romanos), a divindade máxima desse covil, era não só um brutamontes, que praticara cani­balismo devorando uma de suas filhas e assassinara outros parentes próximos, mas também um adúltero incontrolável, que fizera muitas vítimas entre “deusas” casadas e solteiras, violentara suas irmãs e noras, estuprara sua própria filha e até sua mãe e que, além disso, mantinha como amante um menino que raptara2.

Os relatos dessas infâmias estavam nos textos apresentados às crianças nas escolas daquele tempo, para instruí-las na gramática, na retórica, na poesia, como assinalaram em sua época os apologistas cristãos.

A religião pagã exercia, pois, um maléfico domínio sobre a sociedade, propondo, como exem­plos a serem imitados, as iniquidades dos deuses. De outro lado, a sociedade influenciava a reli­gião, de modo que os mitos refletiam os costumes então em voga.

Imoralidade, crueldade, opressão

Naquele ambiente pagão, a situação da mulher era terrível. Em geral quase sem direitos, ela era praticamente considerada como uma escrava do marido, isso quando tinha o privilégio de ser casada.

As próprias religiões, mesmo as mais elevadas, conduziam as mulheres — como, natural­mente, também os homens — a grandes depravações. A dos caldeus, por exemplo, era sinistra e corruptora, com práticas lúbricas nos templos. A religião fenícia também estimulava a degradação da mulher.

Heródoto é um dos que nos fornece informações sobre a “prostituição sagrada” praticada nos templos da Babilônia, Assíria, Grécia, Síria, Chipre e em outros lugares3. Com frequência, as “sacerdotisas” ingressavam nos templos quando muito jovens, entregues pelos próprios pais. O famoso “Código de Hamurábi”, promulgado por este rei de Babilônia (cerca de 1793 a 1750 a.C.), reserva alguns tópicos para regulamentar essa prática4.

O culto de Cibele e Átis, surgido na Frígia, de onde passou para a Grécia e Roma, levava a práticas escabrosas em público. Como Átis se mutilara, perdendo sua masculinidade, seus festejos incluíam a automutilação de muitos homens, realizada em meio de uma multidão que, alucinada, dançava e uivava, enquanto se executava uma música, com o ensurdecedor ruído das flautas, cím­balos e tambores5.

A Grécia contava com numerosos templos dedicados a Vênus, mas nenhum consagrado ao amor legítimo entre esposos. Em Atenas e outras cidades realizava-se, uma vez por ano, uma pro­cissão na qual era levada uma enorme escultura fálica. Homens e mulheres percorriam as ruas cantando, pulando e dançando em torno desse ídolo.

Opressão da mulher

A honorabilidade feminina era ainda ferida pelo costume da poligamia, generalizado em mui­tas regiões, embora houvesse locais onde vigorava a poliandria6. Igualmente degradante era o in­cesto, especialmente comum na Pérsia7, mas também na Grécia8.
Na Índia, dentre as cruéis práticas milenares do paganismo, o costume exigia que a viúva fosse queimada junto com o cadáver do marido9.

O Código de Hamurábi está repleto de normas que espelham o estado de opressão da mulher nas civilizações antigas, a qual muitas vezes era punida com a morte, a escravidão ou o repúdio10.

Mesmo em Roma e na Grécia, as leis antigas eram iníquas com relação à mulher11, e até pes­soas como o austero Catão favoreciam graves injustiças a esse propósito12. No caso de Atenas, para obviar de algum modo a parcialidade no tratamento dado às filhas, a lei incorria em uma aberra­ção ainda maior, ao incentivar o incesto para resolver problemas de herança13, chegando a impor a destruição de dois lares já constituídos, se preciso fosse14.

Em Roma, na época em que a Boa Nova de Jesus Cristo já estava sendo pregada, a institui­ção da família encontrava-se em profunda crise. O aborto e o abandono das crianças assumiam proporções espantosas. A natalidade decrescia. Os homens ricos preferiam manter-se solteiros e cercar-se de inúmeras escravas, a se sujeitar aos incômodos do casamento15.

A situação das crianças ante o Estado todo-poderoso

Na Grécia e em Roma não havia a liberdade individual que seus admiradores fazem acreditar: o cidadão vivia em função do Estado. Em sua República, o próprio Platão preconizava um Estado todo-poderoso, e mesmo Aristóteles o considerava como ideal supremo16.

A família greco-romana também era totalitária sob certos aspectos. Assim, o Direito Romano dava um poder ditatorial ao pater familias17. Na Grécia vigoravam leis semelhantes. O pai tinha o direito de rejeitar seu filho recém-nascido, ou vendê-lo como escravo18. Também podia condenar à pena de morte a esposa, um filho, uma filha, ou qualquer outro morador de sua casa, executando-se sem demora a sentença; as autoridades do Estado não interferiam19.

Em Esparta, comenta Coulanges, “o Estado tinha o direito de não tolerar que seus cidadãos fossem disformes ou mal constituídos. Por isso ele ordenava ao pai ao qual nascesse um filho nessa situação, que o fizesse morrer” 20. Segundo o mesmo autor, essa lei se encontrava igualmente nos antigos códigos de Roma. Até Aristóteles e Platão incluíram, em suas propostas de legislação, essa prática.

Em Cartago e na Fenícia, crianças eram oferecidas em sacrifício aos ídolos; em Roma e na Grécia eram elas utilizadas em ritos de adivinhação21. Em vários lugares, crianças e adolescentes podiam ser punidos com a morte por um delito cometido pelo pai22.

O Estado, ao mesmo tempo em que dava ao pai um poder ilimitado dentro de casa, cerceava-o tiranicamente na educação dos filhos. Entre os gregos, o Estado era o mestre absoluto da educação, e Platão o justifica, pois, diz ele, “os pais não devem ter a liberdade de enviar ou de não enviar seus filhos aos mestres que a cidade escolher, porque as crianças são menos de seus pais do que da ci­dade” 23. O Estado considerava como pertencente a si o corpo e a alma de cada cidadão, e assumia a criança quando esta completasse 7 anos de idade 24.

Impiedosa e difundida escravidão

A escravidão era uma instituição tão corrente no mundo antigo que os escravos costumavam constituir a maioria da população. Em Roma, no tempo de Augusto, mais de um terço da popula­ção era constituído por eles25.

O dono de um escravo tinha sobre ele direito completo. Um escravo não era um homem propriamente dito; era uma coisa, res mancipi26. O dono tinha não só o direito de coabitar com a mulher do escravo sem cometer adultério, mas também de dispor dos filhos dele, e se o ferisse ou matasse, não cometia delito27.

Na lei romana havia incisos relativos aos escravos que davam ocasião a grandes crueldades. No tempo de Nero, por exemplo, um alto magistrado foi assassinado por um dos seus escravos. “O Senado, após longa discussão, decidiu aplicar a todos os servos da casa a velha lei que condenava ao suplício da cruz todos os escravos que não tivessem sabido proteger seu senhor. Diante dessa sentença terrível, houve tais protestos populares que os 400 condenados tiveram de ser executados sob a guarda do exército” 28.

Sempre houve um ou outro proprietário de escravos que os tratava com humanidade ou — mais raramente — com respeito, mas seria grande ingenuidade pensar ser essa a atitude habitual.

Selvageria sangrenta

Na Antiguidade os morticínios eram vistos com indiferença, como um acontecimento natural na vida dos povos. O massacre da população de uma cidade não causava a menor surpresa, nem indignação.

A tendência para sacrifícios sangrentos estava ligada a vários ritos do paganismo. Na Grécia a velha religião considerava conveniente oferecer holocaustos humanos para o apaziguamento dos deuses. Esses sacrifícios, comuns entre os gregos das épocas remotas, abrandaram-se mais tarde, mas não desapareceram completamente. No século II da Era Cristã ainda se sacrificavam vidas humanas na Arcádia, em honra a Zeus Liceu29.

Em Roma, o espetáculo mais apreciado pelo povo era o de homens morrendo, e as lutas de gladiadores constituíam ocasiões para impiedosos morticínios. “Pela manhã, diz Sêneca, jogam-se homens aos leões e ursos; depois do meio-dia, são jogados [ao arbítrio] dos espectadores. O fim para todos os lutadores há de ser a morte, e põem-se mãos à obra com ferro e fogo, até que a arena fique vazia”30. Nessas “sessões” iniciadas ao meio-dia, os condenados à morte deviam se executar mutuamente até o último. Tanto esse costume como a refeição das feras com carne humana nos ajudam a “compreender essa volúpia de ferocidade a que os romanos darão vazão nas perseguições anticristãs”, observa Daniel-Rops, e conclui: “Por muito revoltantes que nos pareçam, essas cenas, de que também os cristãos serão vítimas, eram normais em Roma. E raros, muito raros, eram os assistentes que exteriorizavam a sua desaprovação”31.

Panem et circenses ficou conhecida como a fórmula ideal para manter a multidão aquietada, atendendo-se também ao seu crescente gosto pelo sangue. Foi, igualmente, uma das causas da de­terioração de Roma.

A chaga da pedofilia

Aquilo que a imprensa de hoje denomina de pedofilia era largamente praticado no mundo antigo, ao amparo da lei, por influência das religiões pagãs.

Na Grécia, ocorria como prática legal a corrupção sexual de meninos, mais propriamente chamada de pederastia32. Todo homem adulto que não fosse escravo tinha o direito de praticá-la. Tal era o costume também na Pérsia e em outros lugares, onde se mantém através dos séculos. Roma acabou sendo contaminada pelo mal grego, a ponto de vários imperadores procurarem por amantes adolescentes33.

Meninos considerados belos, se fossem feitos prisioneiros de guerra, ou raptados, ou vendi­dos pelos pais, eram mutilados a fim de alimentar todo um tráfico de eunucos34. Não escapavam nem mesmo os filhos da nobreza35.

Na Grécia — Atenas, especialmente —, as vítimas da pederastia não eram apenas os prisio­neiros de guerra, os raptados e os escravos. Qualquer menino podia se tornar alvo dos desejos infames de homens adultos. E o costume era que cedesse. Se um pai, dotado de um resto de sen­sibilidade moral, desejasse poupar essa tragédia aos filhos, tinha de agir antes de ela acontecer, empregando escravos que, como falcões, vigiassem os meninos36. Mas, diz Ésquines, muitos pais desejavam ter belos filhos, sabendo que estes se tornariam alvo de predadores37.

As escolas — as tão elogiadas Academias — eram locais onde os estudantes, de até 12 anos de idade ou mesmo mais jovens38, ficavam à mercê dos mestres39. As leis atenienses chegavam ao ab­surdo de proteger e incentivar essa prática, inclusive regulando o flerte e o “namoro” entre homens e meninos40.

Gregos famosos no mundo da literatura, das artes, da filosofia e da política, praticaram e lou­varam a pederastia, como Sólon, Ésquilo, Sófocles, Xenofonte, Tucídides, Ésquines e Aristófanes41.

A filosofia grega chegou a debater essa prática, sem nunca condená-la por completo. Mesmo Sócrates, Platão e Aristóteles não ficaram isentos desse mal42. Em Charmides, Platão se refere ao adolescente que portava esse nome, como se fosse um enamorado louvando sua amada, falando de suas atrações e das emoções que produzia. No Simposium, o personagem Fedro se enche de lirismo ao descrever um exército feliz e exitoso inteiramente composto de homens-amantes e meninos-amados43. Contudo, finalmente atraído por idéias mais elevadas, Platão evoluiu de sua aprovação condicional da pederastia nos seus primeiros diálogos para a condenação formal desse vício no seu trabalho final, Leis. Entretanto, suas tentativas, como as de alguns estóicos, de propor uma pederastia “casta” foram recebidas com sarcasmo pelo povo e ficaram sem resultado. Com efeito, o “amor platônico” é muito difícil de ser praticado, pois em matéria de castidade o homem não con­segue ficar permanentemente no meio termo44.

Os gregos chegaram a considerar o relacionamento natural entre homem e mulher como inferior ao relacionamento entre homem e menino. Numa sociedade na qual esse tipo de compor­tamento influenciava até o ideal do Estado, a mulher tinha de ser desprezada45, relegada ao papel de mera reprodutora.

Uma obra histórico-filosófica como Erastos, do século II ou III d.C., por muitos atribuída a Luciano de Samósata, traz um diálogo entre dois gregos que discutem seriamente qual amor seria superior... Igualmente, no décimo Diálogo dos Cortesãos, Luciano aborda esse tema. Plutarco, em Erotikos, analisa, com toda a seriedade, qual a atração — por mulheres ou por meninos — é a mais interessante para um homem adulto. Felizmente, ao contrário de Erastos, conclui que o ideal é realmente o casamento monogâmico.

Em Roma, também as meninas podiam ser vítimas de abuso sexual. É o que se deduz das pa­lavras de São Justino, em sua Apologia, nas quais vitupera o costume de crianças rejeitadas — me­ninos e meninas — serem criadas para a prostituição: “E assim como os antigos criavam rebanhos de bois, bodes, carneiros ou cavalos, assim vós agora criais crianças destinadas a esse vergonhoso uso; e para esse uso impuro, uma multidão de mulheres e hermafroditas, e aqueles que cometem iniquidades que nem podem ser mencionadas, se espalham por toda a nação. [...] E há aqueles que prostituem até mesmo seus próprios filhos e mulheres; alguns são abertamente mutilados para serem usados na sodomia”.

Esse é o mundo quando nele não está presente a santa Igreja de Deus. O quadro aqui apresen­tado, embora não esteja completo, é suficientemente trágico para expor as mazelas da Antiguidade pagã e nos dar uma ideia do choque ocorrido no tempo em que a mensagem do Evangelho começou a exaltar valores opostos, ordenados e santos.

O choque dos valores do Evangelho com os contravalores mun­danos

A mensagem de Jesus Cristo veio desequilibrar o carcomido mundo antigo. Ela censurava a libertinagem e a crueldade, e exaltava a liberdade para praticar o bem, a castidade, a virgindade, a inocência, a fidelidade conjugal, o amor aos inimigos, a caridade, a abnegação, a bondade para com os mais fracos, a dignidade de todos os seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus.

Um horror especial ao pecado da pedofilia foi instilado nas almas por nosso Divino Mestre, com palavras de uma extrema severidade: “Se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que creem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem no fundo do mar” (Mt 18,6).

Ante a sublimidade do Evangelho, o paganismo não conseguiria ficar indiferente. Só lhe res­tavam duas reações: ou encantar-se e submeter-se ao suave jugo de Deus, ou odiar e perseguir. Não poucos se converteram. Muitos, porém, aferraram-se ao lodo, e seu ódio levou ao martírio milhões de cristãos.

Todavia, o sangue dos mártires começou a ser semente de novos cristãos, segundo a célebre afirmação de Tertuliano47. O espetáculo de homens e mulheres, idosos e idosas, adultos no auge da saúde, jovens vigorosos, virgens, crianças — todos confessando a fé em Jesus Cristo e caminhando resolutos em direção à morte —, arrancava admiração de muitos espectadores, acarretando con­versões cada vez mais numerosas.

O paganismo necessitou, pois, lançar mão de outra arma, para tentar reverter o jogo: a difa­mação e a calúnia. Como observam os Apologistas cristãos daqueles primeiros séculos, os pagãos passaram a acusar os cristãos exatamente dos delitos que o paganismo cometia.

É digno de nota que uma das acusações era a da pedofilia, agravada com incesto48. São Jus­tino comenta: “As coisas que vós fazeis abertamente e com aplauso, [...] dessas mesmas coisas vós nos acusais”49. E Arnóbio lança ao rosto dos pagãos: “Quão vergonhoso, quão petulante é censurar, em outro, aquilo que o acusador vê que ele mesmo pratica — aproveitar a ocasião para ultrajar e acusar outros de coisas que podem ser retorquidas contra ele mesmo!”50.

Ou seja, aqueles pagãos faziam como o ladrão que, ao roubar, grita: “Pega ladrão!”

Uma civilização governada pelo Evangelho

A Igreja Católica acabou por vencer, em virtude da força intrínseca do bem. E aos poucos, auxiliada pela graça divina que nunca falha, ela tomou os greco-latinos decadentes e os bárbaros germanos, converteu-os, educou-os e inspirou a edificação de uma brilhante civilização cujo ápice, nunca antes alcançado, ocorreu nos séculos XII e XIII.

Nessa época, segundo diz o Papa Leão XIII, “a filosofia do Evangelho governava os Estados”. Então, “a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil”. Da relação har­moniosa entre o poder religioso e o temporal, “a sociedade civil deu frutos superiores a toda a ex­pectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer”51.
Foi nesse tempo que a Igreja desenvolveu a escolástica, edificou as catedrais góticas (com seus vitrais e monumentos), criou as universidades e os hospitais, impulsionou as ciências e o progresso técnico, aperfeiçoou as relações internacionais entre os estados, aboliu a escravidão, fez avançar o progresso social, elevou a condição da mulher, de tal modo que, no século XIV, a Europa havia ultrapassado de muito todos os outros continentes.

Conforme ressalta um estudioso do progresso técnico medieval, naquela época, “pela pri­meira vez na história se construiu uma civilização complexa que não mais se sustentava nas costas suarentas de escravos ou de servos, mas principalmente na energia não humana”52.

Quanto mais avançam os estudos históricos e científicos sobre esta matéria, tanto mais vai ficando demonstrada esta verdade, jogando por terra o mito de que a Idade Média foi uma era de atraso e de opressão. A literatura especializada a tal respeito vai se multiplicando53.

Por que acusar só a Igreja?

Entretanto, sempre houve minorias inconformes com o domínio da virtude, da verdade e do bem, de modo que, periodicamente, a Igreja se vê vítima de novas investidas.
Um dos procedimentos preferidos continua a ser o de acusar a Igreja precisamente dos de­litos que o próprio mundo não se envergonha de cometer. Quais são os maiores destruidores da inocência infantil hoje em dia? Quem promove uma pornografia irrefreável, que não respeita nem idade, nem dignidade, e que incita a todo tipo de crime sexual? Quais os que, de todos os modos, pressionam as escolas para iniciarem as crianças em práticas imorais? Quem impulsiona as mu­danças das leis de maneira a abolir a influência cristã e a substituí-la pela do velho paganismo? Eis questões que pedem respostas; eis um tema muito apropriado para um futuro estudo.

Consideremos a acusação de pedofilia. Como afirmam os especialistas, baseados nas pes­quisas até agora realizadas, a maior parte desses crimes são cometidos especialmente na própria casa da família, e os abusadores são principalmente os padrastos, seguidos — ó tristeza! — pelos pais, por outros parentes e pelos namorados das parentas das vítimas54. Curiosamente, nunca se viu algum adversário da Igreja pedir um estudo sério sobre a relação entre a desagregação da fa­mília, causa principal da existência de milhões de padrastos, e os crimes de pedofilia, nem exigir uma investigação sobre os perigos de se levar, para dentro de casa, namorados, quando ali residem menores.

Apenas de passagem, note-se que a massa dos pedófilos é constituída por homens casados. Também é de notar que todas as religiões têm membros seus envolvidos em casos de pedofilia, e algumas em proporções gigantescas.

Por que, então, levantar uma campanha internacional somente contra a Igreja Católica?

Prova inequívoca da santidade da Igreja

Ressaltemos mais uma vez: foi a Igreja Católica que, sempre fiel aos ensinamentos de seu Fundador, fez cessar no Ocidente a prática da pedofilia e inspirou horror a ela.
Portanto, quem ataca a Igreja a esse propósito está utilizando, contra ela, um valor a ela pertencente, e está implicitamente reconhecendo que ela é inatacável a partir dos contravalores do mundo.

Ou seja, os próprios adversários estão fornecendo a prova de que a Igreja Católica Apostó­lica Romana é substancialmente santa.

A Igreja Católica censura o mundo, porque este é corrompido. Ela requer um alto padrão de comportamento, casto e puro. E a feroz e cerrada investida dos inimigos injustamente consiste em procurar acusá-la de não praticar a moral que ela mesma implantou na sociedade. A isto se reduz a atual campanha publicitária, no tocante à pedofilia.

Mas como fazer para atingir a Igreja pelas faltas de uma minoria de seus membros? Um dos estudos mais autorizados sobre o problema da pedofilia, de Philip Jenkins, analisa as técnicas jornalísticas usadas para enfatizar, não os delitos de indivíduos que por acaso são padres, mas o contexto institucional como dando origem ao comportamento deles55. Utilizam-se títulos suges­tivos, jogos de palavras, termos bem estudados, como, por exemplo, dar a um livro o chamativo nome de: “E não nos deixeis cair em tentação”. Por sua vez, programas de televisão sobre os casos de pedofilia colocam, como fundo de quadro, cerimônias litúrgicas, música gregoriana, sacerdotes de batina, de modo a ficar estigmatizada a Igreja como um todo e a se fazer uma associação visual entre aquilo que é distintamente católico com o estereótipo de padres lascivos e cínicos56.

Ora, médicos, professores, enfermeiros e outros profissionais aparecem em alto número en­tre os perpetradores de crimes de pedofilia57, mas quem vai chegar ao absurdo de acusar todos os membros dessas categorias e a denegrir uma classe inteira pelos crimes de uma minoria?

No entanto, assim se procede no caso dos sacerdotes católicos. O choque que o delito sexual de um padre causa na opinião pública — choque justificado, porque a Igreja Católica é a única insti­tuição da qual se espera que seus membros sejam de uma pureza sem mancha, bem como que seus sacerdotes sejam santos — os adversários sabem explorar.

A santidade substancial da Igreja

Resta perguntar como pode a Igreja manter-se santa ante as evidências de que alguns padres cometem esses graves delitos.

Na realidade, o argumento mais forte contra a Igreja Católica sempre foi a vida dos maus católicos. Contudo, não nos pode surpreender que na Igreja de Cristo haja membros indignos. O próprio Jesus comparou sua Igreja à rede que apanha maus e bons peixes (cf Mt 13, 47-50); ao campo onde o joio cresce entre o trigo (cf Mt 13, 24-30); à festa de casamento, para a qual um dos convivas se apresenta sem a veste nupcial (cf Mt 22, 11-14)58.

Não obstante, a Igreja será sempre sem mancha, como ressalta São Paulo: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5, 25-27).
Não acontece o mesmo com as outras instituições terrenas. Sendo meramente humanas, as falhas de seus integrantes podem desdourá-las. A Igreja é a única que tem uma dimensão divina. Por isso, apesar das faltas de sua dimensão humana, sua substância permanece sempre pura. Ela é santa, porque santo é seu Fundador: é a imaculada Esposa de Cristo. Só os homens da Igreja são pecadores, mas a Santa Madre Igreja não pode pecar.
Ela “é santa”, ressalta Paulo VI, “não obstante compreender no seu seio pecadores, porque ela não possui em si outra vida senão a da graça: é vivendo da sua vida que os seus membros se santificam; e é subtraindo-se à sua vida que eles caem em pecado e nas desordens que impedem a irradiação da sua santidade”59. Portanto, para qualquer membro da Igreja, incluindo os pertencen­tes ao clero, aplica-se esta regra: eles somente caem quando diminuem seu amor à Igreja e relaxam em seu compromisso para com ela.

A relação da Mãe de Deus com a Santa Igreja é outro fator de santidade. O conhecimento da verdadeira doutrina sobre Maria será sempre uma chave para compreender o mistério de Cristo e o da Igreja. A santidade de Nossa Senhora se reflete na Igreja, sua virgindade, sua pureza, sua disponibilidade em relação à vontade de Deus. Também os anjos do céu e os bem-aventurados conservam a Igreja na santidade, enobrecendo o culto que ela presta a Deus64.

Todas as obras da Igreja têm por finalidade a santificação dos homens em Cristo e a glorifica­ção de Deus65. Entretanto, ela não poderia realizar essa finalidade se não fosse santa. Assim, mes­mo que nesta terra seja governada e composta por pecadores, ela é indefectivelmente santa, con­forme provam os frutos abundantes de santificação que tem produzido66. Um possante sinal dessa santidade é a observância voluntária dos conselhos evangélicos, pelo qual centenas de milhares de homens e mulheres renunciam a tudo o que poderiam ter de legítimo nesta vida — família, posses, liberdade de decidir o que fazer — para imitar totalmente a Cristo Jesus67.
A Igreja tem a coragem de exigir de todos os seus filhos o combate contra o pecado. Muitas almas dizem “sim” a esse apelo, porém, em geral, o bem que praticam fica escondido. O mal, neste mundo, conta com uma publicidade bastante maior, pois sua petulância solicita a atenção de to­dos. Seja como for, homens e mulheres de extraordinária santidade nunca faltaram à Igreja68, e é como instrumento de santificação que ela passa por uma contínua renovação69.

Constitui, pois, um grande equívoco propor modificações na estrutura eclesial. “Quando o valor do compromisso sacerdotal é questionado como entrega total a Deus através do celibato apostólico e como disponibilidade total para servir às almas”, assinalava Bento XVI em sua vinda ao Brasil, “dando-se preferência às questões ideológicas e políticas, inclusive partidárias, a estrutu­ra da consagração total a Deus começa a perder o seu significado mais profundo. Como não sentir tristeza em nossa alma?”70

Um pastor solícito para com seu rebanho

Alguns jornais têm tentado implicar o Papa Bento XVI na ocultação de crimes, no tempo em que ele era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e certas vozes estridentes chegam ao ponto de propor sua prisão.

A nosso ver, esse é o maior erro do adversário na atual campanha contra a Igreja. Sua insolên­cia é o que mais tem causado geral indignação, contribuindo até mesmo para despertar e afervorar os católicos adormecidos.

A injustiça dos acusadores ainda se mostra mais flagrante quando, indo-se aos fatos, cons­tata-se que foi Bento XVI, já quando era Cardeal, quem mais agiu para erradicar o problema, zelo esse que se acentuou ao ocupar a Cátedra de Pedro.

É emblemática a Carta Pastoral que, pouco antes da Páscoa, ele enviou aos católicos irlande­ses, para ser lida em todos os púlpitos do país. Num gesto sem precedentes, o Santo Padre pedia perdão diretamente às vítimas e às suas famílias, expressando sua profunda desolação pelos “atos pecaminosos e criminosos” dos abusadores.

Dirigindo-se aos bispos, ressaltava os “graves erros de juízo” e a “falta de governo” por parte da Hierarquia. Por fim, sublinhava que a Igreja se pôs a trabalhar com afinco para corrigir e remediar o mal que foi feito.
Ressalte-se igualmente que, em maio de 2001, o então Cardeal Ratzinger enviou uma carta aos bispos, ordenando que lhe encaminhassem todas as acusações, contra clérigos, fossem velhas ou novas. Com essa iniciativa, a Santa Sé chamava a si a investigação dos abusos e a punição dos culpados. A partir daí, vários acusados tiveram de enfrentar um processo canônico completo, mui­tos foram demitidos do estado clerical, ou então demitiram-se voluntariamente, enquanto outros sofreram punições administrativas e disciplinares, incluindo a proibição de celebrar missa.

Contrariamente ao que certas fontes têm propalado, a referida carta não proibia a ninguém de comunicar-se com a polícia para denunciar eventuais abusos. Na verdade, os Bispos pelo mun­do afora — como nos Estados Unidos, Inglaterra e Canadá — já vinham adotando o procedimento de comunicar-se com as autoridades policiais, tão logo houvesse a confirmação de algum caso.

Esperamos que essas brisas de renovação tragam um pouco de consolo para as vítimas dos horríveis delitos cometidos por homens que, como representantes de Deus, deveriam ser os pri­meiros protetores das crianças e dos jovens. Delas nos condoemos e compartilhamos seus sofri­mentos e suas desilusões, oferecendo por eles nossas orações. Aliás, a tragédia que os envolveu nos leva, uma vez mais, a recordar com dor aquelas incontáveis crianças que, na Antiguidade, foram vítimas do cruel paganismo.

De cada perseguição, a Igreja sai fortalecida

Haja o que houver, contemplando a sua própria história, a Igreja Católica pode dizer com Cícero: “Alios vidi ventos, alias prospexi animo procellas”72.
Como das investidas anteriores, ela sairá ainda mais forte da atual refrega. Incontáveis rea­ções pelo mundo afora já antecipam tal desfecho. Na Irlanda e na Espanha, as igrejas se encheram, durante a Semana Santa, como há muitos anos não ocorria. Nos Estados Unidos, na Inglaterra e em outros países do Ocidente, o número de conversões aumentou. Vários jornalistas, muitos dos quais não católicos, tomaram a defesa da Igreja. Será preciso lembrar que as perseguições são in­dispensáveis para o alcandoramento da Esposa de Cristo? E também para a sua renovação? Com efeito diz São Paulo: “Nam oportet et hereses esse ut et qui probati sunt manifesti fiant in vobis” (“É necessário que entre vós haja heresias para que possam manifestar-se os que são realmente virtuosos”. 1 Cor 11,19).

Para destacar a perenidade da Igreja Católica Apostólica Romana, Santo Agostinho nos dei­xou esta sábia reflexão: “A Igreja vacilará, se vacilar seu fundamento. Mas pode Cristo vacilar? Visto que Cristo não vacila, a Igreja permanecerá intacta até o fim dos tempos”73.

Lembremo-nos de que “Deus é o Senhor do mundo e da história”74. Foi Ele mesmo quem de­cretou que “as portas do Inferno” não prevaleceriam contra a sua Igreja (Mt 16,18).
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