segunda-feira, 16 de maio de 2011

Fora da Igreja não há salvação!


SOBRE A NECESSIDADE DE UMA FÉ MAIS PROFUNDA
Fr. Reginald Garrigou-Lagrange, O.P.
Deve-se, desde o início, falar da necessidade de uma fé mais profunda, por causa dos perigos provindos de erros gravíssimos, atualmente espalhados pelo mundo, e por causa da insuficiência dos remédios a que freqüentemente recorremos contra eles.
Os perniciosos erros que se espalham pelo mundo, tendem à descristianização completa dos povos. Ora, isto começa com a renovação do paganismo no século XVI, ou seja, com a renovação da soberba e da sensualidade pagã entre cristãos. Este declínio avançou com o protestantismo, por sua negação do Sacrifício da Missa, do valor da absolvição sacramental e, por conseqüência, da confissão; por sua negação da infalibilidade da Igreja, da Tradição ou Magistério, e da necessidade de se observar os preceitos para a salvação. Em seguida, a Revolução francesa lutou manifestamente para a descristianização da sociedade, conforme os princípios do Deísmo e do naturalismo — isto é: se Deus existe, não cuida das pessoas individuais, mas somente das leis universais. O pecado, por estes princípios, não é uma ofensa à Deus, mas apenas um ato contra a razão, que sempre evolui; assim, considerava-se o furto como pecado enquanto se admitia o direito à propriedade individual; porém, se a propriedade individual é, como dizem os comunistas, contrário ao que se deve à comunidade, nesse caso, é a própria propriedade individual que é furto.

Em seguida, o espírito da revolução conduziu ao liberalismo que, por sua vez, queria permanecer numa meia altitude entre a doutrina da Igreja e os erros modernos. Ora, o liberalismo nada concluía; não afirmava, nem negava, sempre distinguia, e sempre prolongava as discussões, pois não podia resolver as questões que surgiam do abandono dos princípios do cristianismo. Assim, o liberalismo não era suficiente para agir, e após ele veio o radicalismo mais oposto aos princípios da Igreja, sob a capa de “anticlericalismo”, para não dizer anticristianismo. Assim, os maçons. O radicalismo, então, conduziu ao socialismo e o socialismo, ao comunismo materialista e ateu, como agora na Rússia, e quis invadir a Espanha e outras nações negando a religião, a propriedade privada, a família, a pátria, e reduzindo toda a vida humana à vida econômica como se só o corpo existisse, como se a religião, as ciências, as artes, o direito fossem invenções daqueles que querem oprimir os outros e possuir toda propriedade privada.

Contra todas essas negações do comunismo materialista, só a Igreja, somente o verdadeiro Cristianismo ou Catolicismo pode resistir eficazmente, pois só ele contém a Verdade sem erro.

Portanto, o nacionalismo não pode resistir eficazmente ao comunismo. Nem, no campo religioso, o protestantismo, como na Alemanha e na Inglaterra, pois contém graves erros, e o erro mata as sociedades que nele se fundam, assim como a doença grave destrói o organismo; o protestantismo é como a tuberculose ou como o câncer, é uma necrose por sua negação da Missa, da confissão, da infalibilidade da Igreja, da necessidade de observar os preceitos.

O que, pois, se segue dos erros citados no que diz respeito à legislação dos povos? Esta legislação torna-se paulatinamente atéia. Não somente desconsidera a existência de Deus e a lei divina revelada, tanto positiva como natural, mas formula várias leis contrárias à lei divina revelada, por exemplo, a lei do divórcio e a lei da escola laica, que termina por tornar-se atéia, nos três graus: escolas primárias, liceus ou ginásios e universidades, nas quais freqüentemente reduz-se a religião à história mais ou menos racionalista das religiões, na qual o cristianismo somente aparece como no modernismo, como uma forma agora mais alta da evolução de um senso religioso que sempre muda, de modo que nenhum dogma seria imutável nem imutáveis os preceitos; por fim, vem a liberdade total de cultos ou religiões, e da própria impiedade ou irreligião. Ora, as repercussões destas leis em toda sociedade são enormes; tome, por exemplo, a repercussão da lei do divórcio: qualquer que seja o ano, qualquer que seja a nação, milhares de famílias são destruídas pelo divórcio e deixam sem educação, sem direção, crianças que terminam por se tornar ou incapazes, ou exaltadas, ou más, por vezes, péssimas. Do mesmo modo, saem da escola atéia, todos os anos, muitos homens ou cidadãos sem nenhum princípio religioso. E portanto, em lugar da fé, da esperança e da caridade cristã, têm eles a razão desordenada, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos, o desejo de riqueza e a soberba de vida. Todas essas coisas são erigidas em um sistema especial materialista, sob o nome de ética laica ou independente, sem obrigação e sanção, na qual às vezes remanesce algum vestígio do decálogo, mas um vestígio sempre mutável. Se, porém, os efeitos dolorosíssimos destes erros perniciosos ainda não aparecem claramente na primeira geração, na terceira, quarta e quinta se manifestam segundo a lei da aceleração na queda. — É como na aceleração da queda dos corpos: se numa 1a. etapa da descida, a velocidade é como que 20, numa 5ª será como que 100. E isto se contrapõe ao progresso da caridade, que, segundo a parábola do semeador, é por vezes 30, 50, 100 para um.

É a verdadeira descristianização ou apostasia das nações. E isto foi exposto justamente na longa epístola do grande católico espanhol Donoso Cortes escrita ao Cardeal Fornari para que a apresentasse à Pio IX; o título dela é: Sobre o princípio generativo dos graves erros hodiernos (trinta páginas) e Discurso sobre o estado atual da Europa(1830). Cf. Opera do mesmo autor 5 vol. Madrid 1856: trad. Fr, 1862, t. II, p 221, ss; t. I, p 399; trad. It. 1861. Em seguida, a mesma série de erros foi exposta no Silabo de Pio IX, 1861 (Dz. 1701).
O princípio destes erros é: Se Deus existe, não cuida das pessoas individuais, mas somente, das leis universais. Daí o pecado não ser uma ofensa contra Deus, mas somente contra a razão, que sempre evolui. Disto segue que não existiu o pecado original, nem a Encarnação Redentora, nem a graça regenerativa, nem os sacramentos que causam a graça, nem o sacrifício e, por isso, não é útil o sacerdócio, nem é útil a oração.

No fundo, o Deísmo não parece verdadeiro, pois se os homens individualmente não precisam de Deus, porque se admitiria que Deus existe no céu? É preferível admitir que Deus se faz na humanidade, que é a tendência mesma ao progresso, à felicidade de todos, sobre a qual falam o socialismo e o comunismo.
Portanto, qual é, segundo este princípio, o modo de discernir o falso do verdadeiro? O único modo é a livre discussão, no parlamento ou em algum outro lugar, e esta liberdade é, portanto, absoluta, nada pode ser subtraído à sua jurisdição, nem a questão do divórcio, nem a necessidade da propriedade individual, nem a da família ou da religião para os povos.

Assim, a discussão fica libérrima, como se não existisse a Revelação divina; se se objeta, por exemplo, que o divórcio é proibido no Evangelho, isto pouco importa.
Destas coisas nascem, como é patente, grandes perturbações, inúmeros abortos, crimes, e não se encontra remédio, senão o de aumentar cada vez mais a polícia ou o exército.

Mas, a polícia obedece àqueles que estão no poder e não raro, depois destes, vêm seus adversários e ordenam o contrário. De outra parte, tendo-se suprimido a propriedade privada, suprime-se, de modo geral, o patriotismo, que é como a alma do exército.
Donde estes remédios não serem suficientes para conservar a ordem e evitar as graves e intermináveis perturbações, pois não mais se admite a lei divina, e nem a lei natural escrita por Deus em nossos corações (E tudo isso é uma demonstração per absurdum da existência de Deus.)

Neste caso, é para se concluir com Donoso Cortes que estas sociedades, fundadas sobre princípios falsos ou sobre uma legislação atéia, tendem para a morte. Nelas, com o auxílio da graça, as pessoas individuais podem ainda se salvar, mas estas sociedades, como tais, tendem para a morte, pois o erro, sobre o qual se fundam,mata, como a tuberculose ou o câncer que, progressiva e infalivelmente, destrói nosso organismo. — Só a fé cristã e católica pode resistir a estes erros, e tornar a cristianizar a sociedade, mas, para isso, requer-se uma condição, uma fé mais profunda, conforme a Escritura: « Esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé. » (1 Jo 5, 4).

(De Sanctificatione Sacerdotum, intro.)

FORA DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO MESMO!



por Claudiomar Ferreira de Medeiros Filho



Hoje, se tem desenvolvida teologicamente uma teoria que milita ampliar o conceito de Igreja para que se sustente a letra do dogma Fora da Igreja Não Há Salvação. Diante da solidez da afirmação dogmática, arquitetou-se incrementar o número dos que integram a Igreja e assim poder continuar afirmando que fora da Igreja (bem mais ampla do que é realmente) não há salvação. Com isso, a problemática passou a ter seu foco principal voltado para uma questão de eclesiologia mais ampla, o que, conseqüentemente, tornou ainda mais complexa a discussão do tema nos dias atuais, levando analistas a abdicarem da árdua tarefa do aprofundamento exigido e a aceitar passivamente tal teoria.

Porém, colocada à devida prova, rapidamente se constata que essa teoria amplia indevidamente o número dos que se qualificam como membros integrantes da Igreja. Mas, como a doutrina da Igreja não se restringe às atuais propostas teológicas, recorre-se ao Catecismo Romano, o qual apresenta de forma bastante precisa quem não deve ser contado entre os integrantes da Igreja:

Só três classes de homens são excluídos da comunhão com a Igreja. Em primeiro lugar, os infiéis; em segundo, os hereges e cismáticos; por último, os excomungados. Os pagãos, realmente, porque nunca estiveram no seio da Igreja; não a conheceram, nem se tornaram participantes de nenhum Sacramento, na comunidade do povo cristão. Os hereges e cismáticos, porque apostataram da Igreja. Pertencem tampouco à Igreja, como os desertores fazem parte do exército, que abandonaram. É certo todavia, que continuam sob o poder [coercitivo] da Igreja, que os pode julgar punir e excomungar. Afinal, os excomungados, que são excluídos judicialmente da Igreja, que os pode julgar punir, e excomungar. (CATECISMO ROMANO. Redigido por decreto do Concílio Tridentino. Anápolis: Serviço de Animação Eucarística Mariana, 2006, p. 162).

Há não poucas iniciativas de se tentar assinalar uma divisão e uma não-coincidência entre a Igreja visível e a Igreja invisível. Porém, catalogamos mesmo a Lumen Gentium, que chega a dizer explicitamente o contrário:

A sociedade provida de órgãos hierárquicos e o Corpo Místico de Cristo, a assembléia visível e a comunidade espiritual, a Igreja terrestre e a Igreja enriquecida dos bens celestes, não devem ser considerados duas coisas, mas formam uma só realidade complexa. (Constituição dogmática Lumen Gentium, n. 8. In: Compêndio do Vaticano II. Constituições, decretos, declarações. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 46).

Leão XIII, na encíclica Satis Cognitum, enfatiza tal questão, esclarecendo como se dá essa união:

Cristo é uno pela união das duas naturezas e nas duas naturezas, a visível e a invisível. Analogamente Seu Corpo Místico não seria a verdadeira Igreja se seus elementos visíveis não recebessem a força e a vida dos dons sobrenaturais e dos outros elementos invisíveis, dos quais nasce sua própria essência e natureza. (LEÃO XIII. Encíclica Satis Cognitum, n. 4).

Pio XII, em sua encíclica Mystici Corporis, também contribui para maior elucidação e reto entendimento:

Se a Igreja é um corpo, deve necessariamente ser um todo sem divisão, segundo aquela sentença de Paulo: "Nós, muitos, somos um só corpo em Cristo" (Rm 12, 5). E não só deve ser um todo sem divisão, mas também algo concreto e visível, como afirma nosso predecessor de feliz memória Leão XIII, na encíclica "Satis cognitum": "Pelo fato mesmo que é um corpo, a Igreja torna-se visível aos olhos". Estão pois longe da verdade revelada os que imaginam a Igreja por forma, que não se pode tocar nem ver, mas é apenas, como dizem, uma coisa "pneumática" que une entre si com vínculo invisível muitas comunidades cristãs, embora separadas na fé.(PIO XII. Encíclica Mysticy Corporis, n. 14. In: Documentos de Pio XII: Trad. Poliglota Vaticana. São Paulo: Paulus, 1998, p. 147).

Não se quer dizer que todos dentro da Igreja estejam salvos. O Catecismo Romano deixa bem claro este ponto:

Há, porém, na Igreja militante duas categorias de homens: bons e maus. Certo é que os maus participam com os bons, dos mesmos Sacramentos, professam a mesma fé, mas não lhes são semelhantes nem na vida, nem nos costumes. Os bons, na Igreja, são aqueles que estão unidos e ligados entre si, não só pela profissão de fé e participação dos sacramentos, mas também pelo espírito da graça e pelo elo da caridade. Deles é que se declarou: "O Senhor sabe quem são os seus". (2 Tm 2, 19). Nós homens podemos conjeturar, mas nunca saber com certeza, quais são os que pertencem ao número dos justos. (CATECISMO ROMANO. Redigido por decreto do Concílio Tridentino. Anápolis: Serviço de Animação Eucarística Mariana, 2006, p. 161).

Essa mesma proposta também é endossada pelo Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã:

Não basta para nos salvarmos sermos de qualquer maneira membros da Igreja Católica, mas é preciso que sejamos seus membros vivos. Os membros vivos da Igreja são todos os justos e só eles, isto é, aqueles que estão atualmente em graça de Deus. Membros mortos da Igreja são os fiéis que estão em pecado mortal. Quem, sendo muito embora membro da Igreja Católica, não pusesse em prática os seus ensinamentos, seria membro morto, e portanto não se salvaria, porque para a salvação de um adulto requer-se não só o Batismo e a fé, mas também as obras conformes à fé. (PIO X. Catecismo maior de São Pio X. Anápolis: Edições Santo Tomás, 2005, n. 165-171, p. 69-70).

Portanto, erram aqueles que diminuem as condições exigidas para o homem se fazer apto a ver Deus face a face no além-físico, e relativizam os preceitos da fé católica.

http://arenadateologia.blogspot.com/2010/06/pode-haver-membros-da-igreja-invisivel.html?showComment=1277126699998_AIe9_BGUF9vwK_sYJjF8qrK2x_lZkPbXqA7JnjLYUNyUJmi0rtyci1i1TxIoFaYCubnFBFr9r4o3Tx5uOtnR28WfCi8Q7rqiEDXTESg5Vm0UTdwbGvUndb8lhaIAJtpivEyFL75vq0mNhnTZwViiG2sqFBwWZ3bkkxOSDeG6i8OuSJEZvs8lKaNb3h3NuTw7Y_o7rcsu67kWDuFdyU-MOLpCQbdKdHcizotcDVmx0nOqPZf8X3Mvp-EQXtUmh2c_KBLb-5HOG60L#c59887451750267460

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