sexta-feira, 29 de abril de 2011

Por que não rezar os mistérios luminosos do Rosário?


Em relação a sua primeira dúvida sobre os “Mistérios Luminosos”, confirmo a existência deles. São fruto de uma sugestão do Papa João Paulo II exposta em sua carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, de 16 de outubro de 2002, por meio da qual ele lançou o Ano do Rosário (outubro de 2002 a outubro de 2003), como fez semelhantemente o Papa Bento XVI há pouco com o Ano Sacerdotal.

Ora, por que, então, eles não constam no site Montfort?

Em primeiro lugar, devemos ter bem claro que se trata de uma mera proposta, feita em primeira pessoa, por parte do Papa João Paulo II a seus fiéis e, de modo algum, de uma imposição, que deva ser necessariamente aceita.

Como diz a Rosarium Virginis Mariae em sua tradução portuguesa oficial:

“Considero, no entanto, que, para reforçar o espessor cristológico do Rosário, seja oportuna uma inserção que, embora deixada à livre valorização de cada pessoa e das comunidades, lhes permita abraçar também os mistérios da vida pública de Cristo entre o Baptismo e a Paixão” (§19).

(O texto latino é ainda mais claro, pois, sem a conjunção concessiva, diz “(...) libero singulorum atque communitatum iudicio relictam (...)”; “(...) deixada ao livre juízo dos particulares e das comunidades (...)”. Ou seja, fala-se de liber iudicius (libero iudicio, no dativo singular) e não simplesmente de livre “valorização”).

Portanto, o não acatamento da proposição dos “Mistérios Luminosos” não implica nenhuma desobediência, sendo essa, inclusive, uma posição protegida pelo próprio propositor.

Estabelecido esse parâmetro de discussão, a partir de nosso liber iudicius, aventamos os seguintes motivos para não incorporarmos os novos mistérios em nossa prática do rosário.

Do ponto de vista extrínseco, evocamos a antiguidade multissecular de sua organização em cento e cinquenta (150) Ave Marias. O Rosário, Alfredo, tal como o conhecíamos em sua forma exclusiva até 2002, já existia na Igreja há quase oitocentos (800) anos!

Além disso, como inferimos do relato de São Luís de Montfort no Segredo Admirável do Santíssimo Rosário, ele não foi surgindo de maneira gradual na história, sendo incomuns, portanto, aperfeiçoamentos em sua forma, mas foi dado e ensinado diretamente por Nossa Senhora a São Domingos de Gusmão quando de suas pregações entre os albingenses no início do século XIII.

Por isso, a julgar pela antiguidade e constância dessa forma do rosário, soa estranha sua alteração. Ainda mais quando, Nossa Senhora, no início do século XX, em Fátima, instou-nos simplesmente a rezar o terço (e não o quarto) todos os dias. Ou seja, não houve uma nova instrução por parte dela sobre como deveríamos praticar a devoção do rosário. Para São Domingos, ela disse que se rezasse o “saltério da Virgem”, clara alusão ao conjunto dos salmos, que são cento e cinquenta (150) e não duzentos (200).

Por fim, não podemos deixar de mencionar que o Papa João Paulo II poderia muito bem ter criado uma nova prática devocional, em que se meditassem os tais mistérios luminosos, em vez de sugerir a reforma de algo, vindo das mãos de Nossa Senhora, que já existia há tantos séculos de uma mesma forma.

Outrossim, podemos fazer algumas críticas intrínsecas aos “Mistérios Luminosos”, que nos levam, dentro de nossa liberdade particular, a não incorporá-los.

Como você deve ter visto, os novos cinco mistérios propostos pelo Papa João Paulo II são (Rosarium Virginis Mariae, §21):

1. O batismo (de Cristo) no Jordão;

2. Sua auto-revelação nas bodas de Caná;

3. Seu anúncio do Reino de Deus com o convite à conversão;

4. Sua transfiguração;

5. A instituição da Eucaristia, expressão sacramental do mistério pascal.

Ora, uma primeira observação a se fazer sobre eles diz respeito ao surgimento de uma grande novidade quanto ao modo de se enunciar um mistério. Se você atentar para o terceiro mistério luminoso, vai perceber que ele não evoca um evento histórico preciso, ao contrário do que sempre foi feito. Veja:

Mistérios Gozosos:

1. A anunciação do anjo São Gabriel a Nossa Senhora;

2. A visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel;

3. O nascimento do Menino Jesus em Belém;

4. A apresentação do Menino Jesus no Templo;

5. A perda e o reencontro de Jesus no Templo entre os doutores da lei;

Mistérios Dolorosos:

1. A agonia mortal de Nosso Senhor no Horto das Oliveiras;

2. A flagelação de Nosso Senhor Jesus Cristo;

3. A coroação de espinhos de Nosso Senhor;

4. O carregamento da cruz rumo ao calvário;

5. A crucificação e morte de Cristo na cruz;

Mistérios Gloriosos:

1. A ressureição de Nosso Senhor Jesus Cristo;

2. A gloriosa ascensão de Cristo aos céus;

3. A descida do divino Espírito Santo sobre os Apóstolos e Nossa Senhora no Cenáculo;

4. A gloriosa assunção de Nossa Senhora aos céus;

5. A coroação de Nossa Senhora como rainha dos céus e da terra;

A fórmula “seu anúncio do Reino de Deus com convite à conversão” foge, definitivamente, ao padrão anterior. E entra em choque, em certo sentido, com o que ensinou o Papa Leão XIII sobre o rosário, quando afirmou que, nele, não nos são apresentados dogmas de fé ou princípios doutrinários, pelo menos de maneira pura, mas fatos concretos das vidas de Nosso Senhor e Nossa Senhora, que contêm, explicitamo-lo nós, dogmas de fé e princípios doutrinários (não descartados nesses os morais) para nossa meditação.

Além disso, o argumento apresentado no §18 da Rosarium Virginis Mariae de que o rosário seria um “compêndio do Evangelho” (o que, por sua vez, justificaria a inserção desses novos mistérios tratando ineditamente da vida pública de Cristo) não nos parece de todo convincente. Afinal de contas, seria mesmo o rosário um mero resumo do Evangelho? E, sendo assim, teria Nossa Senhora inspirado um mau resumo a São Domingos, preterindo a Cristo, já que ele, evidentemente, em sua forma de sempre, não cobre a vida pública de Jesus?

Essa hipótese não nos parece razoável.

Pelo contrário, parece-nos mais plausível crer, por se tratar de uma devoção centrada em Nossa Senhora, por meio da qual se vai a Cristo por Maria, que o rosário seja um resumo sim, mas um resumo focado nos fatos que tocam mais diretamente a vida dela, tanto mais que os três últimos mistérios gloriosos não dizem respeito a passagens evangélicas, mas aos Atos dos Apóstolos (terceiro mistério) e à Tradição (quarto e quinto mistérios).

Além disso, é de se perguntar o porquê de não terem sido selecionadas outras passagens como “mistérios” da vida pública de Jesus como, por exemplo, a provação de Cristo no deserto, a expulsão dos vendilhões do Templo, o sermão da montanha, a instituição de Pedro como chefe da Igreja, ou uma das diversas disputas que Cristo tivera com os fariseus, etc. Pois, afinal de contas, qual é o critério de seleção dos fatos mais importantes da vida pública de Cristo que serão inseridos nas meditações do rosário? A própria paixão, em que se consuma a missão de Cristo, e já meditada nos mistérios de sempre, não conteria os principais fatos, o ápice, dessa vida pública?

Outrossim, o critério segundo o qual se fez o recorte das passagens que embasam os mistérios luminosos denota uma clara preferência por uma perspectiva epifânica e triunfalista de Cristo e que culmina na enunciação do suspeito “mistério pascal”, o qual, de acordo com a nova teologia, implica uma nova apreciação do dogma da redenção, para quem o ato salvífico, por excelência, seria a ressureição de Cristo e não sua ignominiosa morte na cruz. E nisso, nessa terminologia cara ao modernismo, vemos mais um motivo para nos valermos de nossa liberdade nessa matéria e não adotarmos os novos mistérios propostos por nosso Papa João Paulo II.

Por fim, para concluir a exposição dos motivos pelos quais os mistérios luminosos não figuram no site Montfort, gostaríamos de avançar mais alguns argumentos relacionados à tese do rosário como compêndio do Evangelho com caráter eminentemente cristológico, tal como colocado por João Paulo II na Rosarium Virginis Mariae (§19).

Embora repetindo um pouco o que já dissemos, gostaríamos de salientar que a proposta dos mistérios luminosos, tendo-se em vista reforçar o caráter cristológico do rosário, não nos parece se inserir numa perspectiva de explicitação da identidade dessa devoção nem de sua finalidade, mas antes cremos que ela se coloca na contramão de sua identidade e finalidade. Afinal de contas, como já dissemos:

1. Não nos parece razoável a tese de que Nossa Senhora tenha inspirado a São Domingos um resumo imperfeito do Evangelho, preterindo-se os fatos da vida pública de seu amado Filho;

2. O rosário contém três mistérios, dedicados exclusivamente a Nossa Senhora, que não estão embasados em passagens evangélicas;

Além disso, assim como se percebe um recorte muito claro dos mistérios luminosos em relação à narrativa do Evangelho, podemos notar uma “opção” dos mistérios de sempre por tudo o que diz respeito mais diretamente a Nossa Senhora. Nos mistérios gozosos, ela aparece todas as vezes; com efeito, eles dizem respeito à vida oculta de Cristo, que Ele passou ao lado de Nossa Senhora e que contam 30 dos 33 anos de sua existência na terra. Nos gloriosos, depois de auxiliar a Igreja nascente (Pentecostes: estavam em oração com Maria no Cenáculo), Nossa Senhora acompanha com privilégio exclusivo o Filho em seu triunfo (ressureição e ascensão), sendo levada de corpo e alma à pátria celeste e coroada como rainha dos céus e da terra. E, nos dolorosos, quando normalmente se negligencia sua presença, vemo-la de pé, ao lado da cruz, no momento em que todos os apóstolos, exceção feita, depois da agonia, a São João, haviam abandonado a Cristo, dormindo no Horto e fugindo quando de sua flagelação e coroação de espinhos. Nos dolorosos, enfim, Cristo, da cruz, nos dá Maria, na pessoa de São João, por mãe espiritual, que vai nos nutrir com as graças de Cristo. E, por isso, não nos parece razoável ferir essa identidade do rosário, devoção eminentemente mariana.

Ademais, é preciso saber distinguir, em todas as devoções, suas finalidades próxima e remota. Evidentemente, toda devoção deve ter como finalidade remota (última) a Cristo, sob pena de se cair em idolatria, mas isso não significa que se deva, portanto, se salientar gradualmente o caráter cristológico, que, repetimos, toda devoção sadia, no fundo, deve ter, em detrimento de suas marcas próprias. Rezamos, por exemplo, aos santos como intercessores para alcançarmos a Cristo, mas isso não significa que devamos ressaltar, buscando maior perfeição, os aspectos propriamente cristológicos de seu culto, em detrimento da pessoa do santo. Esse cuidado em colocar Nossa Senhora ou os santos algum tanto à sombra lembra uma tendência oriunda do protestantismo ou do jansenismo.

No caso da devoção a Nossa Senhora, cujo culto, dada sua eminência como mãe de Deus, é obrigatório, ocorre a mesma coisa. Exatamente como explica São Luís de Montfort no Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem, achegamo-nos a ela para nos aproximarmos de Cristo. E, assim, nos parece que a finalidade do rosário, em que se deve meditar fatos da vida de Cristo intimamente conectados à de Nossa Senhora, sobretudo porque é pelos frutos (Cristo) que se conhece a árvore (Maria), seja o de nos dar a conhecer tão boa mãe, meio seguro de salvação, e que nos obtém de Cristo as graças necessárias a nosso crescimento espiritual. Por isso, a introdução dos mistérios luminosos, em que Nossa Senhora fica em segundo plano – como admite o próprio João Paulo II, embora tentando justificá-lo (§21) –, seja nos próprios mistérios, com exceção de Caná, seja pela nova lógica que eles conferem ao conjunto, parece-nos contrariar a finalidade do rosário, a saber, repetimo-lo, dar-nos a conhecer Maria e nos fazer depender dela em nosso caminho rumo à pátria celeste.

*****

Prezado Alfredo, esperamos ter explicado razoavelmente o porquê de não termos adotado os “Mistérios Luminosos” propostos por nosso Papa João Paulo II. Como você, no entanto, menciona que está aprendendo a rezar o terço, gostaríamos de acrescentar algumas palavras finais sobre isso a esta carta que já vai longa, deixando-lhe, se você nos permite, uma espécie de “lição de casa”.

Antes de rezar o terço, não se esqueça jamais de duas verdades básicas de que depreendemos seu contexto e importância.

Primeira: o rezar, entendido pura e simplesmente, fundamenta-se no reconhecimento (portanto, num ato da inteligência) de nossa infinita desproporcionalidade e dependência em relação a Deus, a Quem, na oração: i) agradecemos todos os bens recebidos, temporais e espirituais, aos quais de maneira alguma teríamos direito; ii) pedimos perdão por nossos pecados, pelos quais não mereceríamos outra coisa senão o inferno; iii) pedimos todos os bens que nos são necessários a nossa vida, temporal e espiritual; iv) glorificamos como o Ser: Verdade, Bem e Beleza absolutos, fonte única de nossa felicidade. Jamais se esqueça de que o rezar, portanto, parte de uma constatação: nós, seres contingentes, precisamos do Ser necessário. (Para conhecer melhor esse Deus e Seus atributos, assista a nossa aula sobre as provas de sua existência aqui).

Segunda: esse Ser absoluto, Senhor de todas as coisas, de que inexoravelmente precisamos se comunica a nós, segundo uma ordem de conveniência, por meio de suas criaturas, que nos transmitem Deus de acordo com o modo e grau de sua participação em Deus (sobre isso, preste atenção no momento do vídeo indicado em que o Prof. Orlando fala da rosácea medieval). E, portanto, como Nossa Senhora foi a criatura “cheia de graça”, não faltando nada a Ela, tudo aquilo de que precisamos de Deus podemos receber de suas mãos, devendo nós nos voltarmos a Ela como fonte, como grande meio, para obtermos a Deus mesmo. Esse se voltar à criatura Maria, mãe de Deus, que é o significado profundo da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, é o pleno inverso do pecado que consiste numa busca desordenada da criatura (pecado venial) com desprezo de Deus (pecado mortal).

Por isso, Alfredo, ao rezar o terço, louvando Nossa Senhora, tenha sempre em mente i) que você busca obter através dela as graças de Deus de que você necessita e ii) que o terço representa “apenas” uma das práticas de um quadro maior de nossa devoção a Nossa Senhora, tornando-se cada vez mais eficaz quanto mais nós nos unimos a ela de acordo com a verdadeira devoção explicada por São Luís de Montfort.

Por esse motivo, para você rezar bem o terço, recomendamos-lhe fortemente o estudo do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.

Além disso, já que durante boa parte desta carta viemos discutindo sobre os “Mistérios Luminosos”, é preciso também não se perder de vista a necessidade da meditação ao longo da recitação do terço. Pois o terço não é apenas uma oração vocal, mas inclui a oração mental na qual apreendemos verdades sobrenaturais e as aplicamos, com a graça de Deus, de maneira concreta em nossas próprias vidas. (Por favor, para saber mais sobre meditação, assista a uma de nossas aulas sobre esse assunto aqui).

Passada a “lição de casa”, Alfredo, só temos de nos alegrar com seu desejo de se exercitar nessa prática tão salutar, que é o terço, e que foi instada de maneira veemente por Nossa Senhora em Fátima como remédio para os males de nosso tempo.

Em Fátima... Que, como atestado pelo Papa Bento XVI, em sua última viagem a Portugal, para a fúria dos Cardeais Sodano e Bertone, ainda não se realizou (ver aqui).

Esperamos de toda a alma que a recitação do terço o leve a um conhecimento mais profundo de tão boa mãe e que, conquistando-lhe o amor, você obtenha para si e para os seus todas as graças necessárias à salvação, que é a única coisa que nos importa neste mundo.

Por favor, não deixe de incluir a Montfort em suas intenções.

(...) Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.

Forte abraço,

Guilherme Chenta
Coordenador do projeto Legado Montfort

PS 1: você pode obter todas as obras de São Luís de Montfort, inclusive o Tratado, no site dos montfortinos: www.montfort.org (igual ao nosso, só que sem ".br").

PS 2: a compreensão mais profunda das orações básicas que compõem o terço (Pai Nosso e Ave Maria) é muito útil para seu maior aproveitamento. Recomendo-lhe o estudo dos comentários de São Tomás a essas orações.

PS 3: Segue abaixo trecho do Segredo Admirável do Santíssimo Rosário, em que São Luís de Montfort narra como se iniciou a pregação do rosário tal como o conhecemos hoje (ou conhecíamos até 2002):

“10. O santo Rosário, composto fundamental e substancialmente pela oração de Jesus Cristo (o Pai Nosso), a saudação angélica (a Ave Maria) e a meditação dos mistérios de Jesus e Maria, constitui, sem dúvida, a primeira oração e a primeira devoção dos crentes. Desde os tempos dos Apóstolos e dos discípulos ela esteve em uso, século após século, até nossos dias.

11. No entanto, o Santo Rosário – na forma e método de que hoje nos servimos em sua recitação – só foi inspirado à Igreja, em 1214, pela Santíssima Virgem que o deu a São Domingos para converter os hereges albigenses e aos pecadores. Ocorreu isso da seguinte maneira, conforme o narra o Beato Alano de la Roche em seu famoso livro intitulado De Dignitate Psalteriis. Vendo São Domingos que os crimes dos homens obstaculizavam a conversão dos albingenses, entrou em um bosque próximo a Toulouse e permaneceu ali por três dias e três noites dedicado à penitência e à oração contínua, sem cessar de gemer, chorar e mortificar seu corpo com disciplina para aplacar a cólera divina, até que caiu meio morto. A Santíssima Virgem apareceu a ele em companhia de três princesas celestiais e lhe disse: “Sabes, querido Domingos, de que arma a Santíssima Trindade tem se servido para reformar o mundo?”. “Oh, Senhora, vós o sabeis melhor que eu” – respondeu ele –, “porque depois de Jesus Cristo, vós fostes o principal instrumento de nossa salvação”. “Pois – sabes – acrescentou ela – que a principal peça de combate tem sido o saltério angélico, que é o fundamento do Novo Testamento. Por isso, se queres ganhar para Deus esses corações endurecidos, pregue meu saltério”.

Levantou-se o Santo muito consolado. Inflamado de zelo pela salvação daquelas gentes, entrou na catedral. Naquele momento, tocaram os sinos para se reunir os habitantes, graças à intervenção dos anjos. Ao começar sua pregação, se desencadeou uma terrível tormenta, a terra tremeu, o sol obscureceu-se, trovões e relâmpagos seguidos fizeram com que os ouvintes tremessem e se empalidecessem. O terror deles aumentou quando viram um imagem da Santíssima Virgem, exposta em lugar proeminente, levantar os braços ao céu por três vezes para pedir a Deus vingança contra eles, se não se convertessem e recorressem à proteção da Santa Mãe de Deus.

Queria o céu com esses prodígios promover a nova devoção do Santo Rosário e fazer que se a conhecesse mais. Graças à oração de São Domingos, acalmou-se finalmente a tormenta, e ele prosseguiu sua pregação explicando com tanto fervor e entusiasmo a excelência do Santo Rosário que quase todos os habitantes de Toulouse o aceitaram, renunciando a seus erros. Em pouco tempo, experimentou-se uma grande mudança de vida e costumes na cidade.

12. Este estabelecimento do Santo Rosário de maneira tão miraculosa guarda certa semelhança com a maneira de que se serviu Deus para promulgar sua lei ao mundo no Monte Sinai. E manifesta claramente a excelência desta maravilhosa prática. São Domingos, iluminado pelo Espírito Santo e instruído pela Santíssima Virgem e por sua própria experiência, dedicou o resto de sua vida a pregar o Santo Rosário com seu exemplo e sua palavra, nas cidades e nos campos, antes grandes e pequenos, sábios e ignorantes, católicos e hereges. O Santo Rosário – que rezava todos os dias – constituía sua preparação antes de pregar e sua ação de graças depois da pregação”.

Fonte: Montfort.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Importância da Oração e da Meditação.


A Importância da Oração e Meditação

Quem não reza se condena!

Em primeiro lugar, Deus nos faz conhecer, por este meio, o grande amor que nos tem.Quer maior prova de amizade uma pessoa pode dar a seu amigo do que lhe dizer: pede-me o que quiseres e de mim receberás?Ora, é justamente isso que o Senhor nos diz: “Pedi e vos será dado, buscai e achareis”.Por isso mesmo, a oração se torna poderosa junto de Deus para nos alcançar todos os bens.A oração tudo pode, quem reza alcança a Deus o que quer. "Bendito seja Deus que não rejeitou minha oração, nem retirou de mim a sua misericórdia”.Diz Santo Agostinho: “Quando percebes que não te falta a oração, fica sossegado, pois a misericórdia de Deus não te faltará”.E São João Crisóstomo disse: “Sempre se alcança, até mesmo enquanto estamos rezando”.Quando pedimos ao Senhor, já antes de terminados de pedir, ele nos dá a graça que suplicamos.

Se portanto, somos pobres, queixemo-nos só de nós mesmos.Somos pobres porque assim o queremos e por isso não merecemos compaixão.Que compaixão pode merecer um mendigo, que tendo um patrão muito rico prefere ficar na sua miséria só para não pedir o que lhe é necessário?Deus está pronto a enriquecer todos os que lhe pedem: “É Rico para todos que o invocam”.
A prece humilde consegue tudo de Deus.Saibamos também que ela nos é útil e mesmo necessária para nossa salvação.Para vencermos as tentações temos necessidade absoluta da ajuda de Deus.Algumas vezes, em tentações mais fortes, a graça suficiente que Deus não nega a ninguém, poderia bastar para resistirmos ao pecado.Mas, devido às nossas más tendências, ela não nos bastará; necessitamos então de uma graça especial.Quem reza, alcança esta graça; quem não reza, não a consegue e se perde.

Tratando-se particularmente da graça da perseverança final, isto é, de morrer na amizade de Deus, o que é absolutamente necessário para a nossa salvação, do contrário estaremos para sempre perdidos, esta graça Deus não a dá senão a quem pede.Este é um dos motivos porque muitos não se salvam, pois são poucos os que cuidam de pedir a Deus a graça da perseverança final.(Santo Afonso Maria de Ligório - A Prática do Amor a Jesus Cristo).

Santa Maria Faustina Helena Kowalska, diz em seu Diário: "É pela oração que a alma se arma para toda espécie de combate.Em qualquer estado em que se encontre, a alma deve rezar. - Tem que rezar a alma pura e bela, porque de outra forma perderia a sua beleza; deve rezar a alma que está buscando essa pureza, porque de outra forma não a atingiria; deve rezar a alma recém-convertida, porque de outra forma cairia novamente; deve rezar a alma pecadora, atolada em pecados, para que possa levantar-se.E não existe uma só alma que não tenha a obrigação de rezar, porque toda a graça provém da oração".(Santa Faustina kowalska - Diário)

Meditação

Diz São João Gerson que quem não medita as verdades eternas não pode, a não ser por milagre, viver como cristão.A razão é que, sem meditação, não há luz e se caminha na escuridão.As verdades da fé não se enxergam com os olhos do corpo, mas com os olhos da alma, quando nosso espírito as medita.Quem não faz meditação sobre as verdades eternas, não pode vê-las e por isso anda no escuro, facilmente se apega às coisas sensíveis e por causa delas despreza os bens eternos.Santa Teresa escreveu: “Embora pareça que não há imperfeições em nós, descobrimos grande número delas, quando Deus faz ver o nosso íntimo, o que ele costuma fazer na meditação”.São Bernardo também escreveu: “Quem não medita, não julga com severidade a si mesmo, porque não se conhece”.A oração controla nossos afetos e dirige nossos atos para Deus; mas sem oração, os afetos de nossa alma se apegam à terra, nossas ações acompanham os afetos e assim tudo acaba em desordem.

É impressionante o que se lê na vida da venerável irmã Maria Crucifixa.quando rezava, como que ouviu um demônio gloriar-se de ter feito uma religiosa deixar a meditação.Em espírito viu que, após essa falta, o demônio tentava a religiosa a cometer uma falta grave e ela já estava para consentir.Correndo depressa, chamou-lhe atenção e livrou-a da queda.Dizia Santa Teresa que quem deixa a meditação “em pouco tempo se torna um animal ou um demônio”.

Dizia São Luís Gonzaga: “Não existirá muita perfeição, se não existir muita meditação”.Reparem bem nesta frase as pessoas que amam a perfeição!
Santa Catarina de Bolonha dizia: “Quem não medita muito, fica sem o laço de união com Deus.Nesta situação não será difícil para o demônio, encontrando a pessoa fria no amor de Deus, levá-la a se alimentar com uma fruta envenenada”.

Santa Teresa também dizia: “Quem persevera na meditação, mesmo que o demônio a tente de muitas maneiras, tenho certeza que Senhor a levará ao porto da salvação...Quem não pára no caminho da meditação, chegará ainda que tarde”.Também dizia que: “O demônio se esforça muito em afastar a pessoa da meditação porque ele sabe que as pessoas perseverantes na oração estão perdidas para ele”.
... “Quantos bens se conseguem na meditação!Dela nascem os bons pensamentos, manifestam-se nossos piedosos afetos, desenvolvem-se os grandes desejos, tomam-se às resoluções firmes de se dar inteiramente a Deus.Dessa maneira, a pessoa lhe sacrifica os prazeres terrenos e todos os desejos desordenados.

Na Oração nasce ainda o desejo de se retirar à solidão ficar a sós com Deus, e o desejo de conservar o recolhimento interior nas ocupações externas e necessárias.Disse “ocupações necessárias”, isto é, seja por causa da direção da família, seja por causa dos próprios deveres, ou dos trabalhos exigidos pela obediência.Mesmo assim pessoas de oração devem amar a solidão e não se dissipar em ocupações extravagantes e inúteis; do contrário, perderão o espírito de recolhimento, este grande meio de manter a união com Deus: “És um jardim fechado, minha irmã, minha esposa”.Nossa alma, esposa de Jesus Cristo, deve ser um jardim fechado a todas as criaturas, não admitindo outros pensamentos e ocupações que não sejam de Deus ou para Deus.Os corações dissipados não se tornam santos.

Os santos que se dedicam a conquistar pessoas para Deus, não perdem o recolhimento mesmo entre as canseiras da pregação, do ouvir confissões, do reconciliar inimigos, do assistir os doentes.O mesmo acontece com aqueles que se dedicam ao estudo.Quantos estudam muito e se esforçam para se tornar sábios e acabam não se tornando nem sábios nem santos.A verdadeira sabedoria é a sabedoria dos santos: “Saber amar a Jesus Cristo”.O amor de Deus traz consigo a ciência e todos os bens: “Com ela me vieram todos os bens”, isto é, com a caridade.Quem deixa a oração por causa do estudo não busca a Deus, mas a si mesmo.

O maior mal além disso é que sem meditação não se reza.Dizia o bispo de Osma, João Palafox: “Como podemos conservar a caridade, se Deus não nos dá a perseverança?Como o Senhor nos dará a perseverança, se não a pedimos?Como a pediremos sem oração?Sem oração não existe comunicação com Deus, para se manter a vida cristã”.De fato quem, não faz meditação enxerga pouco as necessidades de sua alma, não conhece bem os perigos a que se expõe para se salvar, nem os meios que se deve usar para vencer as tentações.Assim conhecendo pouco a necessidade da oração, deixará de rezar e certamente se perderá.(A prática do amor a Jesus Cristo, Sto. Afonso Maria de Ligório)

Então amados irmãos e irmãs, vejam o que as Sagradas Escrituras nos diz:
“Ora, sem fé é impossível agradar a Deus, pois para se achegar a ele é necessário que se creia primeiro que ele existe e que recompensa os que o procuram” (Hb 11,6)
Então é preciso procurar a Deus!Mas aonde?Como chegar até Ele?
São Padre Pio de Pietrelcina nos ensina que: "Nos livros procuramos o conhecimento de Deus; na oração encontramos Deus vivo.A oração é a melhor arma que temos, é a chave do coração de Deus”.
É na oração que encontramos o Nosso Deus!
Deus quer que o busquemos sempre, por isso Ele nos Diz:
“É necessário orar sem jamais deixar de fazê-lo” (Lc 18,1)
Porque meus irmãos e irmãs, orando nós nos afastamos do mal e nos aproximamos do nosso Bem Absoluto que é Deus.Pois sem ele não há vida “Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito” (Jo 1,3).Sem Ele nós não somos nada, pois ele mesmo nos diz: “Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5).E como podemos observar não há possibilidade de permanecer em Cristo sem oração!

Então o que rezar?
Vejamos o que os Papas disseram:

Papa São Pio X: “O rosário é a mais bela e a mais preciosa de todas as orações à Medianeira de todas as graças: é a prece que mais toca o coração da Mãe de Deus.Rezai-o todos os dias”.

Papa Beato João XXIII: “Como exercício de devoção cristã, entre os fiéis de rito latino,... o Rosário ocupa o primeiro lugar depois da Santa Missa e do Breviário, para os eclesiásticos, e da participação nos Sacramentos, para os leigos” (Carta apostólica Il religioso convengno de 29 de setembro de 1961).

Papa Paulo VI: “Não deixeis de inculcar com toda a diligência e insistência o Rosário Marial, forma de oração tão grata à Virgem Mãe de Deus e tão freqüentemente recomendada pelos Romanos Pontífices, pela qual se proporcional aos fiéis o mais excelentes meio de cumprir de modo suave e eficaz o preceito do Divino Mestre: “Pedi e receberei, buscai e achareis, batei e abrir-se-á (Mt 7,7)” (Encíclica Mense maio de 29 de abril de 1965).

Papa João Paulo II: “O Rosário, lentamente recitado e meditado, em família, em comunidade pessoalmente, vos fará penetrar pouco a pouco, nos sentimentos de Jesus Cristo e de sua Mãe, evocando todos os acontecimentos que são a chave de nossa salvação” (Alocução de 6 de maio de 1980)

Papa Pio XII: “Será em vão o esforço de remediar a situação decadente da sociedade civil, se a família, princípio e base de toda a sociedade humana, não se ajustar diligentemente à lei do Evangelho.E Nós afirmamos que, para desempenho cabal deste árduo dever, é sobretudo conveniente o costume do Rosário em família.
....De novo, pois, e categoricamente, não hesitamos em afirmar de público que depositamos grande esperança no Rosário de Nossa Senhora como remédio dos males do nosso tempo” (Encíclica Ingruentium malorum de 15 de setembro de 1951).

Papa Pio XI: “O Rosário é “uma arma poderosíssima para pôr em fuga os demônios...Ademais, o Rosário de Maria é de grande valor não só para derrotar os que odeiam a Deus e os inimigos da Religião, como também estimula, alimenta e atrai para as nossas almas as virtudes evangélicas” (Encíclica Ingravescentibus malis de 29 de setembro de 1937)

Papa Bento XV: “A Igreja, sobretudo por meio do Rosário, sempre encontrou nela (em Maria), a Mãe da graça e a Mãe da misericórdia, precisamente conforme tem o costume de saudá-la.Por isso, os romanos Pontífices jamais deixaram passar ocasião alguma, até o presente, de exaltar com os maiores louvores o Rosário mariano, e de enriquecê-lo com indulgência apostólicas”.(Encíclica Fausto appetente de 29 de junho de 1921).

Papa Beato Pio IX: “Assim como São Domingos se valeu do Rosário como de uma espada para destruir a nefanda heresia dos albigenses, assim também hoje os fiéis exercitados no uso desta arma, que é a reza cotidiana do Rosário, facilmente conseguirão destruir os monstruosos erros e impiedades que por todas as partes se levantam” (Encíclica Egregiis de 3 de dezembro de 1856).

Papa Leão XIII: “Queira Deus, é este um ardente desejo Nosso, que esta prática de piedade retome em toda parte o seu antigo lugar de honra!Nas cidades e nas aldeias, nas famílias e nos locais de trabalho, entre as elites e os humildes, seja o Rosário amado e venerado como insigne distintivo da profissão cristã e o auxílio mais eficaz para nos propiciar a divina clemência” (Encíclica Jucunda semper de 8 de setembro de 1894).

E não podíamos de deixar de acrescentar uma fala de São Luís Maria Grignion de Montfort sobre o Santo Rosário:
Dizia ele:"Não é possível expressar quanto a Santíssima Virgem estima o Rosário sobre todas as demais devoções, e quão magnânimo é ao recompensar os que trabalham para pregá-lo, estabelecê-lo e cultivá-lo. Recitado enquanto são meditados os mistérios sagrados, o Rosário é manancial de maravilhosos frutos e depósito de toda espécie de bens. Através dele, os pecadores obtêm o perdão; as almas sedentas se saciam; os que choram acham alegria; os que são tentados, a tranqüilidade; os pobres são socorridos; os religiosos, reformados; os ignorantes, instruídos; os vivos triunfam da vaidade, e as almas do purgatório (por meio de sufrágios) encontram alívio. Perseverai, portanto, nessa santa devoção, e tereis a coroa admirável preparada no Céu para a vossa fidelidade".(Tratado Da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem)

Como podemos observar a prática de oração que os Romanos Pontífices e os santos nos orientam é o Santo Rosário.Rezai com fé e sem pressa de terminar.Pois como dizia o Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja, em seu livro a Prática do amor a Jesus Cristo.A Paciência é o princípio da Perfeição!

Agora já sabemos o que rezar!Mas o que vamos meditar?Nesse assunto nos socorre Santo Afonso Maria de Ligório.

"Quanto ao que meditar, não há assunto mais útil do que as verdades da vida: a morte, o julgamento, o inferno e o céu.Devemos meditar especialmente na morte, imaginado estarmos enfermos para morrer numa cama, com o crucifixo nas mãos e próximos a entrar na eternidade.Mas, principalmente para quem ama a Jesus Cristo e deseja crescer no seu santo amor, não existe meditação mais útil do que a Paixão do Redentor.‘O Calvário é a montanha das pessoas que amam’.Quem ama a Jesus Cristo sempre faz sua meditação sobre esta montanha, onde não se respira outro ar senão o amor de Deus.Vendo um Deus que morre por nosso amor e porque nos ama – ‘amou-nos e se entregou por nós’ – é impossível não o amar intensamente.Das chagas de Jesus Crucificado saem continuamente flechas de amor que ferem os corações mais duros.Feliz aquele que faz continuamente nesta vida a sua meditação sobre o monte Calvário!Montanha feliz, amável, querida, quem se afastará de ti?Desprendendo fogo, abrasas as pessoas que moram permanentemente sobre ti!". (Prática do amor a Jesus Cristo).

Como sabemos a Santa Missa é o Sacrifício de Cristo no Calvário, então é na Santa Missa que encontramos com o cheiro do amor exalado no calvário.É o momento mais oportuno para nós meditarmos a Paixão de Nosso Senhor!Termino com as palavras de São Padre Pio de Pietrelcina, que responde a uma pergunta de um entrevistador.Pergunta o entrevistador: Padre, como devemos assistir à Missa?Responde o santo:"Como assistiam no Calvário Nossa Senhora e São João, renovando a fé, meditando na Vítima que se oferece para nós.Nunca deixa o altar sem derramar lágrimas de arrependimento e amor a Jesus.Escutem a Virgem que vos fala e vos acompanhará".

Não é a toa que o Grande Doutor da Igreja, Santo Afonso Maria de Ligório nos ensina em um de seus livros.

“Diz São Boaventura: "Se quereis progredir no amor de Deus , meditai todos os dias a Paixão do Senhor.Nada contribui tanto para a santidade das pessoas como a Paixão de Cristo".E dizia já Santo Agostinho: "Vale mais uma lágrima derramada ao lembrar da Paixão, do que o jejum a pão e água em cada semana".É por isso que os santos se ocuparam tanto em meditar as dores de Cristo.”
São Francisco de Assis tornou-se um grande santo com esse meio.Um dia, foi encontrado chorando e gritando em alta voz.Perguntaram-lhe o porquê.
-"Choro as dores e as humilhações do meu Senhor.O que mais me faz chorar é que os homens, por quem ele sofreu tanto, vivem esquecidos dele".Dizendo isso, soluçava mais ainda ao ponto de também cair em prantos a pessoa que o interrogava.Quando ouvia o balido de um cordeiro, ou de outra coisa que lhe lembrava Jesus Sofredor, vinham-lhe as lágrimas.Estando doente, alguém o aconselhou a ler um livro piedoso.Ele respondeu: "Meu livro é Jesus Crucificado".Por isso é que exortava seus confrades a pensar sempre na paixão de Jesus Cristo."Quem não se enamora de Deus, vendo Cristo morto na cruz, não se abrasará jamais". (Santo Afonso Maria de Ligório - Prática do amor a Jesus Cristo)

Rezem, Meditem e vão à Santa Missa e que Deus os abençoe!!!

Fonte:

http://voltaparacasa.com.br/conselhos/index.htm

sexta-feira, 22 de abril de 2011

As Sete Visitas: Via Captivitatis - da prisão de Jesus até sua condenação.


Meditação dos lugares da Via Captivitatis (as 7 visitas).

1 - Jesus no Horto do Getsêmani (Mc 14, 32-50).
2 - Jesus em casa de Anás (Jo 18, 12-24).
3 - Jesus diante do Sinédrio presidido por Caifás (Mc 14, 53-65).
4 - Jesus diante de Pilatos, o governador romano (Lc 23, 1-7).
5 - Jesus diante de Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia (Lc 23, 8-12).
6 - Jesus condenado por Pilatos (Lc 23, 13-25).
7 - Jesus flagelado pelos soldados romanos no pretório (Mt 27, 27-31).

Fonte: "A Caminho do Calvário: Via Sacra", Pe. Mateo Bautista, Ed. Paulinas,2008, São Paulo, P. 7

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Liturgia das Horas (leituras) - Semana Santa.


Dos Sermões de Santo André de Creta, bispo

(Oratio 9 in ramos palmarum: PG 97,990-994) (Séc.VI)

Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel

Vinde, subamos juntos ao monte das Oliveiras e coramos ao encontro de Cristo, que hoje volta de Betânia e se encaminha voluntariamente para aquela venerável e santa Paixão, a fim de realizar o mistério de nossa salvação.

Caminha o Senhor livremente para Jerusalém, ele que desceu do céu por nossa causa – prostrados que estávamos por terra – para elevar-nos consigo bem acima de toda autoridade, poder, potência e soberania ou qualquer título que se possa mencionar (Ef 1,21), como diz a Escritura.

O Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória. Ele não discutirá, diz a Escritura, nem gritará, e ninguém ouvirá sua voz (Mt 12,19; cf. Is 42,2). Pelo contrário, será manso e humilde, e se apresentará com vestes pobres e aparência modesta.

Acompanhemos o Senhor, que core apressadamente para a sua Paixão e imitemos os que foram ao seu encontro. Não para estendermos à sua frente, no caminho, ramos de oliveira ou de palma, tapetes ou mantos, mas para nos prostrarmos a seus pés, com humildade e retidão de espírito, a fim de recebermos o Verbo de Deus que se aproxima, e acolhermos aquele Deus que lugar algum pode conter.

Alegra-se Jesus Cristo, porque deste modo nos mostra a sua mansidão e humildade, e se eleva, por assim dizer, sobre o ocaso (cf. Sl 67,5) de nossa infinita pequenez; ele veio ao nosso encontro e conviveu conosco, tornando-se um de nós, para nos elevar e nos reconduzir a si.

Diz um salmo que ele subiu pelo mais alto dos céus ao Oriente (cf. Sl 67,34), isto é, para a excelsa glória da sua divindade, como primícias e antecipação da nossa condição futura; mas nem por isso abandonou o gênero humano, porque o ama e quer elevar consigo a nossa natureza, erguendo-a do mais baixo da terra, de glória em glória, até torná-la participante da sua sublime divindade.

Portanto, em vez de mantos ou ramos sem vida, em vez de folhagens que alegram o olhar por pouco tempo, mas depressa perdem o seu verdor, prostremo-nos aos pés de Cristo. Revestidos de sua graça, ou melhor, revestidos dele próprio, – vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo (Gl 3,27) – prostremo-nos a seus pés como mantos estendidos.

Éramos antes como escarlate por causa dos nossos pecados,mas purificados pelo batismo da salvação, nos tornamos brancos como a lã. Por conseguinte, não ofereçamos mais ramos e palmas ao vencedor da morte, porém o prêmio da sua vitória.

Agitando nossos ramos espirituais, o aclamemos todos os dias, juntamente com as crianças, dizendo estas santas palavras: “Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel”.

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo
(Sermo Guelferbytanus 3:PLS 2,545-546)
(Séc.V)

Gloriemo-nos também nós na Cruz do Senhor!

A Paixão de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é para nós penhor de glória e exemplo de paciência.

Haverá alguma coisa que não possam esperar da graça divina os corações dos fiéis, pelos quais o Filho unigênito de Deus, eterno como o Pai, não apenas quis nascer como homem entre os homens, mas quis também morrer pelas mãos dos homens que tinha criado?

Grandes coisas o Senhor nos promete no futuro! Mas o que ele já fez por nós e agora celebramos é ainda muito maior. Onde estávamos ou quem éramos, quando Cristo morreu por nós pecadores? Quem pode duvidar que ele dará a vida aos seus fiéis, quando já lhes deu até a sua morte? Por que a fraqueza humana ainda hesita em acreditar que um dia os homens viverão em Deus? Muito mais incrível é o que já aconteceu: Deus morreu pelos homens.

Quem é Cristo senão aquele que no princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus: e a Palavra era Deus? (Jo 1,1). Essa Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). Se não tivesse tomado da nossa natureza a carne mortal, Cristo não teria possibilidade de morrer por nós. Mas deste modo o imortal pôde morrer e dar sua vida aos mortais. Fez-se participante de nossa morte para nos tornar participantes da sua vida. De fato, assim como os homens, pela sua natureza, não tinham possibilidade alguma de alcançar a vida, também ele, pela sua natureza, não tinha possibilidade alguma de sofrer a morte.

Por isso entrou, de modo admirável, em comunhão conosco: de nós assumiu a mortalidade, o que lhe possibilitou morrer; e dele recebemos a vida.
Portanto, de modo algum devemos envergonhar-nos da morte de nosso Deus e Senhor; pelo contrário, nela devemos confiar e gloriar-nos acima de tudo. Pois tomando sobre si a morte que em nós encontrou, garantiu com total fidelidade dar-nos a vida que não podíamos obter por nós mesmos.

Se ele tanto nos amou, a ponto de, sem pecado, sofrer por nós pecadores, como não dará o que merecemos por justiça, fruto da sua justificação? Como não dará a recompensa aos justos, ele que é fiel em suas promessas e, sem pecado, suportou o castigo dos pecadores?

Reconheçamos corajosamente, irmãos, e proclamemos bem alto que Cristo foi crucificado por amor de nós; digamos não com temor, mas com alegria, não com vergonha, mas com santo orgulho.

O apóstolo Paulo compreendeu bem esse mistério e o proclamou como um título de glória. Ele, que teria muitas coisas grandiosas e divinas para recordar a respeito de Cristo, não disse que se gloriava dessas grandezas admiráveis – por exemplo, que sendo Cristo Deus como o Pai, criou o mundo; e, sendo homem como nós, manifestou o seu domínio sobre o mundo – mas afirmou: Quanto a mim, que eu me glorie somente na cruz do Senhor nosso, Jesus Cristo (Gl 6,14).

Do Livro sobre o Espírito Santo, de São Basílio Magno, bispo
(Cap.15,35: PG32,127-130)
(Séc.IV)

Há uma só morte que resgata o mundo e uma só ressurreição dos mortos
O desígnio de nosso Deus e Salvador em relação ao homem consiste em levantá-lo de sua queda e fazê-lo voltar, do estado de inimizade ocasionado por sua desobediência, à intimidade divina. A vinda de Cristo na carne, os exemplos de sua vida apresentados pelo Evangelho, a paixão, a cruz, o sepultamento e a ressurreição não tiveram outro fim senão salvar o homem, para que, imitando a Cristo, ele recuperasse a primitiva adoção filial.

Portanto, para atingir a perfeição, é necessário imitar a Cristo, não só nos exemplos de mansidão, humildade e paciência que ele nos deu durante a sua vida, mas também imitá-lo em sua morte, como diz São Paulo, o imitador de Cristo: Tornando-me semelhante a ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição dentre os mortos (Fl 3,10).

Mas como poderemos assemelhar-nos a Cristo em sua morte? Sepultando-nos com ele por meio do batismo.Em que consiste este sepultamento e qual é o fruto dessa imitação? Em primeiro lugar, é preciso romper coma vida passada. Mas ninguém pode conseguir isto se não nascer de novo, conforme a palavra do Senhor, porque o renascimento, como a própria palavra indica, é o começo de uma vida nova. Por isso, antes de começar esta vida nova, é preciso pôr fim à antiga.

Assim como, no estádio, os que chegam ao fim da primeira parte da corrida, costumam fazer uma pequena pausa e descansar um pouco, antes de iniciar o retorno, do mesmo modo, era necessário que nesta mudança de vida interviesse a morte, pondo fim ao passado para começar um novo caminho.

E como imitar a Cristo na sua descida à mansão dos mortos? Imitando no batismo o seu sepultamento. Porque os corpos dos batizados ficam, de certo modo, sepultados nas águas. O batismo simboliza, pois, a deposição das obras da carne, segundo as palavras do Apóstolo: Vós também recebestes uma circuncisão, não feita por mão humana, mas uma circuncisão que é de Cristo, pela qual renunciais ao corpo perecível. Com Cristo fostes sepultados no batismo (Cl 2,11-12). Ora, o batismo, por assim dizer, lava a alma das manchas contraídas por causa das tendências carnais, conforme está escrito: Lavai-me e mais branco do que a neve ficarei (Sl 50,9). Por isso, reconhecemos um só batismo de salvação, já que é uma só a morte que resgata o Mundo e uma só a ressurreição dos mortos, das quais o batismo é figura.

Do Tratado sobre o Evangelho de São João, de Santo Agostinho, bispo
(Tract. 84,1-2:CCL36,536-538)
(Séc.V)

A plenitude do amor

Irmãos caríssimos, o Senhor definiu a plenitude do amor com que devemos amar-nos uns aos outros, quando disse: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos (Jo 15,13). Daqui se conclui o que o mesmo evangelista João diz em sua epístola: Jesus deu a sua vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos (1Jo 3,16), amando-nos verdadeiramente uns aos outros, como ele nos amou até dar a sua vida por nós.

É certamente a mesma coisa que se lê nos Provérbios de Salomão: Quando te sentares à mesa de um poderoso, olha com atenção o que te é oferecido; e estende a tua mão, sabendo que também deves preparar coisas semelhantes (cf. Pr 23,1-2 Vulg.).
Ora, a mesa do poderoso é a mesa em que se recebe o corpo e o sangue daquele que deu a sua vida por nós. Sentar-se à mesa significa aproximar-se com humildade. Olhar com atenção o que é oferecido, é tomar consciência da grandeza desta graça. E estender a mão sabendo que também se devem preparar coisas semelhantes, significa o que já disse antes: assim como Cristo deu a sua vida por nós, também devemos dar a nossa vida pelos irmãos. É o que diz o apóstolo Pedro: Cristo sofreu por nós, deixando-nos um exemplo, a fim de que sigamos os seus passos (cf. 1Pd 2,21). Isto significa preparar coisas semelhantes. Foi o que fizeram, com ardente amor, os santos mártires. Se não quisermos celebrar inutilmente as suas memórias e nos sentarmos sem proveito à mesa do Senhor, no banquete onde eles se saciaram, é preciso que, como eles, preparemos coisas semelhantes.

Por isso, quando nos aproximamos da mesa do Senhor, não recordamos os mártires do mesmo modo como aos outros que dormem o sono da paz, ou seja, não rezamos por eles, mas antes pedimos para que rezem por nós, a fim de seguirmos os seus passos. Pois já alcançaram a plenitude daquele amor acima do qual não pode haver outro maior, conforme disse o Senhor. Eles apresentaram a seus irmãos o mesmo que por sua vez receberam da mesa do Senhor.

Não queremos dizer com isso que possamos nos igualar a Cristo Senhor, mesmo que, por sua causa, soframos o martírio até o derramamento de sangue. Ele teve o poder de dar a sua vida e depois retomá-la; nós, pelo contrário, não vivemos quanto queremos, e morremos mesmo contra a nossa vontade. Ele, morrendo, matou em si a morte; nós, por sua morte, somos libertados da morte. A sua carne não sofreu a corrupção; a nossa, só depois de passar pelacorrupção, será por ele revestida de incorruptibilidade, no fim do mundo. Ele não precisou de nós para nos salvar; entretanto, sem ele nós não podemos fazer nada. Ele se apresentou a nós como a videira para os ramos; nós não podemos ter a vida se nos separarmos dele.

Finalmente, ainda que os irmãos morram pelos irmãos, nenhum mártir derramou o seu sangue pela remissão dos pecados de seus irmãos, como ele fez por nós. Isto, porém, não para que o imitássemos, mas como um motivo para agradecermos. Portanto, na medida em que os mártires derramaram seu sangue pelos irmãos, prepararam o mesmo que tinham recebido da mesa do Senhor. Amemo-nos também a nós uns aos outros, como Cristo nos amou e se entregou por nós.

Da Homilia sobre a Páscoa, de Melitão de Sardes, bispo
(N.65-71: SCh123,94-100)
(Séc.II)

O Cordeiro imolado libertou-nos da morte para a vida

Muitas coisas foram preditas pelos profetas sobre o mistério da Páscoa, que é Cristo, a quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos. Amém (Gl 1,5). Ele desceu dos céus à terra para curar a enfermidade do homem; revestiu-se da nossa natureza no seio da Virgem e se fez homem; tomou sobre si os sofrimentos do homem enfermo num corpo sujeito ao sofrimento, e destruiu as paixões da carne; seu espírito, que não pode morrer, matou a morte homicida.

Foi levado como cordeiro e morto como ovelha; libertou-nos das seduções do mundo, como outrora tirou os israelitas do Egito; salvou-nos da escravidão do demônio, como outrora fez sair Israel das mãos do faraó; marcou nossas almas como sinal do seu Espírito e os nossos corpos com seu sangue.

Foi ele que venceu a morte e confundiu o demônio, como outrora Moisés ao faraó. Foi ele que destruiu a iniqüidade e condenou a injustiça à esterilidade, como Moisés ao Egito.

Foi ele que nos fez passar da escravidão para a liberdade, das trevas para a luz, da morte para a vida, da tirania para o reino sem fim, e fez de nós um sacerdócio novo, um povo eleito para sempre. Ele é a Páscoa da nossa salvação.

Foi ele que tomou sobre si os sofrimentos de muitos: foi morto em Abel; amarrado de pés e mãos em Isaac; exilado de sua terra em Jacó; vendido em José; exposto em Moisés; sacrificado no cordeiro pascal; perseguido em Davi e ultrajado nos profetas.
Foi ele que se encarnou no seio da Virgem, foi suspenso na cruz, sepultado na terra e, ressuscitando dos mortos, subiu ao mais alto dos céus.

Foi ele o cordeiro que não abriu a boca, o cordeiro imolado, nascido de Maria, a bela ovelhinha; retirado do rebanho, foi levado ao matadouro, imolado à tarde e sepultado à noite; ao ser crucificado, não lhe quebraram osso algum, e ao ser sepultado, não experimentou a corrupção; mas ressuscitando dos mortos, ressuscitou também a humanidade das profundezas do sepulcro.

Das Catequeses de São João Crisóstomo, bispo
(Cat. 3,13-19: SCh 50,174-177) (Séc.IV)

O poder do sangue de Cristo

Queres conhecer o poder do sangue de Cristo? Voltemos às figuras que o profetizaram e recordemos a narrativa do Antigo Testamento: Imolai, disse Moisés, um cordeiro de um ano e marcai as portas com o seu sangue (cf. Ex 12,6-7). Que dizes, Moisés? O sangue de um cordeiro tem poder para libertar o homem dotado de razão? É claro que não, responde ele, não porque é sangue, mas por ser figura do sangue do Senhor. Se agora o inimigo, ao invés do sangue simbólico aspergido nas portas, vir brilhar nos lábios dos fiéis, portas do templo dedicado a Cristo, o sangue verdadeiro, fugirá ainda mais para longe.

Queres compreender mais profundamente o poder deste sangue? Repara de onde começou a correr e de que fonte brotou. Começou a brotar da própria cruz, e a sua origem foi o lado do Senhor. Estando Jesus já morto e ainda pregado na cruz, diz o evangelista, um soldado aproximou-se, feriu-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu água e sangue: a água, como símbolo do batismo; o sangue, como símbolo da eucaristia. O soldado, traspassando-lhe o lado, abriu uma brecha na parede do templo santo, e eu, encontrando um enorme tesouro, alegro-me por ter achado riquezas extraordinárias. Assim aconteceu com este cordeiro. Os judeus mataram um cordeiro e eu recebi o fruto do sacrifício.

De seu lado saiu sangue e água (Jo 19,34). Não quero, querido ouvinte, que trates com superficialidade o segredo de tão grande mistério. Falta-me ainda explicar-te outro significado místico e profundo. Disse que esta água e este sangue são símbolos do batismo e da eucaristia.

Foi destes sacramentos que nasceu a santa Igreja, pelo banho da regeneração e pela renovação no Espírito Santo, isto é, pelo batismo e pela eucaristia que brotaram do lado de Cristo. Pois Cristo formou a Igreja de seu lado traspassado, assim como do lado de Adão foi formada Eva, sua esposa.
Por esta razão, a Sagrada Escritura, falando do primeiro homem, usa a expressão osso dos meus ossos e carne da minha carne (Gn 2,23), que São Paulo refere, aludindo ao lado de Cristo. Pois assim como Deus formou a mulher do lado do homem, também Cristo, de seu lado, nos deu a água e o sangue para que surgisse a Igreja. E assim como Deus abriu o lado de Adão enquanto ele dormia, também Cristo nos deu a água e o sangue durante o sono de sua morte.

Vede como Cristo se uniu à sua esposa, vede com que alimento nos sacia. Do mesmo alimento nos faz nascer e nos nutre. Assim como a mulher, impulsionada pelo amor natural, alimenta com o próprio leite e o próprio sangue o filho que deu à luz, também Cristo alimenta sempre com o seu sangue aqueles a quem deu o novo nascimento.
De uma antiga Homilia no grande Sábado Santo

(PG43,439.451.462-463) (Séc.IV)

A descida do Senhor à mansão dos mortos

Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.

Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos.

O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: “O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão: “E com teu espírito”. E tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.

Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo, e com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão: ‘Saí!’; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!’

Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa.

Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado.

Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida.

Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso.

Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti.

Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus.

Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”.

A Cruz.


“Lembra-te, ó homem, que tu és pó e em pó hás de tornar”
Pe. David Francisquini (*)
http://agenciaboaimprensa.blogspot.com/

A Quaresma encerra em sua liturgia dois elementos primordiais. Primeiramente, os fiéis culpados devem reparar as suas faltas por meio da oração e da penitência. Em segundo lugar, este tempo litúrgico visa arrancar os fiéis das trevas do paganismo para a vida da graça, vivificando-os como filhos de Deus.

Enquanto o batismo nos transforma na vida divina, a penitência nos restaura essa mesma vida, perdida pelo pecado. Ao começar a Quaresma, a Igreja nos cobre de cinzas lembrando-nos que somos criaturas sujeitas ao sofrimento e à morte: “Lembra-te, ó homem, que tu és pó e em pó hás de tornar”.

Ao ensinar sobre a Quaresma, no século V, São Leão Magno concita os cristãos a elevar seus pensamentos para os grandes mistérios de nossa Redenção, e ao mesmo tempo desapegar-se dos laivos que os prende a satanás e ao mundo. E Bento XIV, no século XVIII, acrescenta: a observância da Quaresma é o vínculo da nossa milícia.

Ao estabelecer um tempo tão santo e rico de significado como a Quaresma, a Igreja ensina a seus fiéis que eles devem se purificar de seus pecados por meio das boas obras como a oração, o jejum e a esmola. Mas de nada adiantarão jejuns, abstinências e esmolas se os corações permanecerem apegados ao pecado.

Como um retiro espiritual, a Quaresma traz enorme bem para as almas. E a Igreja tem o método de como conduzir os fiéis a essa fonte inesgotável, em que todos beberão do coração chagado de Cristo, pela meditação, reflexão, oração, confissão e comunhão, como ainda pela vida de recolhimento que este tempo pede.

Tal retiro termina com a confissão e comunhão no tempo da Páscoa, verdadeira transformação espiritual em que o cristão ressurge com Cristo para uma vida nova. Tais práticas exteriores, além de desenvolver o espírito de Cristo, nos unem a Ele nos sofrimentos, na oração e no jejum.

Nesse tempo a Igreja estabelece jejum e abstinência de carne na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira da Paixão. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo deu o exemplo de jejum e abstinência para começar sua vida pública, permanecendo durante quarenta dias no deserto em rigoroso jejum.

Pela oração entendemos todos os atos de piedade, como freqüência à missa, comunhão, leitura de bons livros, meditação sobre a Paixão de Cristo e a Via Sacra –– meditações acompanhadas de orações diante das catorze estações que representam os sofrimentos da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A Via Sacra deve sua origem à Virgem Maria. Segundo a Tradição, Ela –– após o sepultamento e a Ascensão de Jesus Cristo –– percorreu muitas vezes o caminho feito por seu divino Filho até o Calvário. A Via Sacra é um dos meios mais eficazes para converter os pecadores e tornar os justos mais perfeitos.
__________
(*) Sacerdote da igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ)
Que utilidade há no Meu sangue?

• Pe. David Francisquini *

Ao meditarmos o mistério da Paixão de Nosso Senhor Cristo cravado no madeiro da Cruz, salta-nos uma pergunta: por que Nosso Senhor — a própria inocência, que passou a vida fazendo o bem — tem morte tão cruel e é abandonado por todos, exceto por Nossa Senhora?

Ele não só disse, mas acompanhou com o exemplo de sua dolorosa Paixão que não se pode amar mais alguém do que dar a vida por ele. Assim, Nosso Senhor nos amou com infinito amor, e depois de nos ter amado, ofereceu-se a Si mesmo como vítima imaculada e resplandecente.

A divina oblação pelos nossos pecados nos remiu, abriu as portas do Céu e, ao mesmo tempo, nos concedeu os meios eficazes para aplicar sobre nós os frutos de sua Paixão: os sacramentos. Deus se compadece de nós mais do que nós mesmos. E infinitamente mais do que as nossas próprias mães, que nunca se esquecem do fruto de suas entranhas.

E, ainda que o fizessem, “Eu nunca me esquecerei de ti”, diz o próprio Deus. (Is. 49, 15). Outras figuras nos livros sagrados que nos mostram o desvelo de Deus pelos homens são os campos férteis, os prados ensolarados, os regatos, as fontes, os vinhedos e o pastor de ovelhas que com cuidado apascenta seu rebanho.

Jesus Cristo é o verdadeiro Pastor. Ele instituiu — qual rochedo inabalável junto às águas tempestuosas — a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, com a promessa de que as portas do inferno nunca prevalecerão contra Ela. Cumulou-a da cura das almas, a economia da graça divina, das armas espirituais para combater o mal e promover o bem.

Tal como o pastor zeloso por seu rebanho, a Santa Igreja afugenta os lobos e os perigos que nos rondam. Infunde-nos pelo Batismo a vida sobrenatural e purifica nossas consciências das obras mortas; concede-nos o privilégio inaudito da Confissão, que restaura a graça perdida pelo pecado mortal; fortalece-nos com uma graça que sequer os anjos têm: a sagrada Eucaristia.

Ezequiel profeta diz: “Dar-vos-ei um coração puro, e um novo espírito porei no meio de vós; tirarei o coração de pedra de vosso corpo e vos darei um coração de carne. Colocarei o meu espírito em vosso interior, e farei que caminheis em meus preceitos, guardando e praticando meus mandamentos”. (Ez. 36; 26).

Devido ao pecado original e às nossas faltas atuais — sobre cuja malícia nunca é demais insistir —, seríamos incapazes de apetecer essa vida divina. Quem no-la proporciona é o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, pelos merecimentos de sua dolorosa Paixão e Morte de cruz.

Como um sol que se põe a brilhar no firmamento das almas, Ele abriu para o homem uma perspectiva cheia de esperança e de certeza. Nossa salvação — bem ao contrário do que sucedia no mundo antigo — tornou-se muito mais fácil com a Paixão. Com a Nova Lei, só se perde quem quiser.

Distante de Nosso Divino Salvador, o mundo neopagão de nossos dias vive inutilmente à procura do gozo da vida, da felicidade já, agora e para sempre... Com isso, de que adiantou Nosso Senhor ter sofrido e padecido a morte de cruz com padecimentos inenarráveis, a ponto de exclamar: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonastes?”

Na morte de Nosso Senhor, os elementos da natureza se desencadearam: o sol se velou, a terra estremeceu, os sepulcros dos mortos se abriram e houve desolação em toda a parte. Por quê? — “Povo meu, que te fiz eu, em que te contristei? Como paga de todos esses bens, tu preparaste uma Cruz para teu Salvador? Que mais deveria fazer que não tivesse feito?”

A exemplo dos Apóstolos, também nós devemos procurar a Virgem das Dores, em quem encontraremos a bondade, a misericórdia, o perdão e a clemência. Arrependamo-nos sinceramente, confessemos com toda a confiança os nossos pecados diante de um sacerdote e aproximemo-nos da sagrada mesa da Eucaristia. Assim teremos aproveitado a Semana Santa, e, quiçá, a vida como peregrino nesta Terra.
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* Sacerdote da igreja do Imaculado Coração de Maria, Cardoso Moreira – RJ

Stat Crux (II)

• Pe. David Francisquini*
Em artigo anterior, escrevemos sobre a cruz ao longo da História; a cruz como sinal do cristão; a cruz que aponta os mistérios da fé católica, apostólica, romana; a cruz perseguida, diante da qual — genuflexos — adoramos o instrumento da Redenção do gênero humano pelo Homem-Deus.

É pela compreensão do papel do sofrimento e do mistério da cruz e sua aceitação que os homens poderão ser salvos da crise tremenda que se abate sobre a sociedade hodierna. E sua rejeição, por aqueles que permanecerem fechados até o último momento ao seu convite amoroso, poderá lhes acarretar as penas eternas.

Para os servos de Deus, a cruz é arma invencível e barreira que resiste a todos os esforços do inferno. É muito conhecido na História o acontecimento no qual Constantino — em luta contra Maxêncio pelo título de imperador — às portas de Roma viu nos céus uma cruz [pintura abaixo] junto à inscrição In hoc signo vinces (Com esse sinal vencerás).

Tendo colocado a cruz e essa inscrição em seu estandarte, ele triunfou. O local ficou conhecido como Saxa Rubra, pela abundância de sangue derramado. Tornando-se imperador, Constantino aboliu o suplício da cruz, o mais infamante e o mais terrível, no qual padeciam os piores criminosos. E, a partir daquela data — 28 de outubro de 312 —, ninguém mais seria crucificado.

Depois de Nosso Senhor Jesus Cristo ter sido morto no madeiro da cruz, esse símbolo tornou-se o mais nobre, o mais elevado e o mais precioso da História. Como de uma árvore veio o pecado de nossos primeiros pais Adão e Eva, de outra árvore veio a salvação. Ela representa o verdadeiro escudo contra as potestades infernais.
Ao abolir tais símbolos — como propõe o novo Programa Nacional de Direitos Humanos —, o Estado leigo afirma não professar religião e postula a vida social desvinculada do fator religioso. Trata-se na realidade de confessionalismo ideológico e agnóstico, pois equivale a dizer: “Como você tem uma convicção, uma religião, não pode impô-la a mim. Mas eu Estado, todo-poderoso, agnóstico e ateu, posso impor a minha a você. Nós divergimos, mas quem tem razão sou eu, pois tenho a mente livre e não atada por dogmas religiosos!”

Na verdade, parece tratar-se mais de um bizarro Estado dito democrático e pluralista, no qual só os ateus e agnósticos têm o direito de falar e modelar leis e costumes segundo seus princípios. Seria essa a nova ditadura na qual os “dogmas” do laicismo seriam impostos a todos?

Se hoje nas escolas, nas repartições, nos prédios e nos lugares públicos a cruz de Cristo não pode aparecer, amanhã, em nome do mesmo princípio, os pais não poderão ensinar a Religião, pois violariam a opção livre de seus filhos. Até aonde chegará a ousadia do Estado moderno?
*sacerdote da igreja do Imaculado Coração de Maria, Cardoso Moreira - RJ
Stat Crux

Pe. David Francisquini*
Para falar da cruz não vou remontar à árvore da graça no Paraíso, nem sua passagem através da ponte do rei Salomão para Jerusalém até a escolha desse lenho para a crucifixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Além de a tarefa ser árdua, seria muito longa.

Na linguagem moderna e quase irreverente do publicitário Alex Periscinotto, em palestra proferida aos bispos do Brasil (1977), a cruz se tornou o primeiro e o mais feliz dos ‘logotipos’. Sempre presente no alto das torres, a cruz permite identificar que ali existe uma igreja católica.

Como fora escondida depois do mistério da morte de Cristo, a História registra sua descoberta em Jerusalém no ano de 326, por Santa Helena (na pintura, à direita), mãe de Constantino (à esquerda). A partir de então, a devoção à cruz difundiu-se tão rapidamente, e antes de se encerrar o século, surgiu o hino Flecte genu lignumque Crucis venerabile adora (genuflexo, adora o venerável lenho da Cruz).

De alguns lustros para cá, vem surgindo aqui, lá e acolá um debate sobre a presença de símbolos religiosos, sobretudo da cruz, em lugares ou repartições públicas tais como escolas, hospitais, câmaras legislativas, prefeituras e mesmo no Judiciário.

Por exemplo, recente acórdão judicial obrigou a construção de uma sala-mesquita para alunos muçulmanos num bairro de Berlim, pois a Constituição alemã proíbe toda manifestação religiosa nas escolas. Em 1995, uma Corte anulara a legislação bávara que permitia fixar crucifixos nas escolas públicas.

Na Itália, a questão vem se repetindo. Como os Estados não se envolviam diretamente na proscrição e na retirada desses símbolos em tais lugares, a Corte Européia de Direitos Humanos de Estrasburgo decidiu contra o uso de crucifixos em salas de aula na Itália.

Quando a autoridade judicial determina a retirada dessas insígnias, costuma causar descontentamento geral, pois apesar de o Estado ser laico e defender a liberdade religiosa, a maioria dos cidadãos que compõem tais Estados, como na Itália, são católicos.

É muito estranho que um costume milenar arraigado na alma dessas nações, seja bombardeado por minoria perturbadora e intolerante ao querer impor suas idéias. Por toda a parte, como por exemplo em Roma, sede do cristianismo. Afinal, por que tanto ódio à cruz?

Nosso Senhor Jesus Cristo morreu pregado numa cruz, no alto do Monte Calvário, em Jerusalém. Nessa ocasião ocorreu a Redenção do gênero humano, ou seja, Ele imolou-se pela humanidade e abriu as portas do Céu, até então fechadas pelo pecado de nossos primeiros pais.

A partir de Jerusalém, os Apóstolos pregaram o Evangelho. E São Paulo afirmava alto e bom som: “Eu só sei pregar a Cristo e Cristo Jesus crucificado”. Os povos converteram-se ao cristianismo, da Europa e posteriormente das Américas, e o catolicismo hoje conta com mais de um bilhão de fíéis.

A Religião católica tornou-se oficial em muitas nações. Reis e imperadores carregaram a Cruz no alto de suas coroas, estamparam-na sobre seus estandartes e viveram séculos sob a influência benfazeja de nossa santa Religião. A cruz tornou-se o sinal do cristão, e indica os principais mistérios da nossa fé.
Pretendo dar continuidade ao já exposto num próximo artigo.
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*sacerdote da igreja do Imaculado Coração de Maria, Cardoso Moreira - RJ

“Lembra-te, ó homem, que tu és pó e em pó hás de tornar”
Pe. David Francisquini (*)

A Quaresma encerra em sua liturgia dois elementos primordiais. Primeiramente, os fiéis culpados devem reparar as suas faltas por meio da oração e da penitência. Em segundo lugar, este tempo litúrgico visa arrancar os fiéis das trevas do paganismo para a vida da graça, vivificando-os como filhos de Deus.

Enquanto o batismo nos transforma na vida divina, a penitência nos restaura essa mesma vida, perdida pelo pecado. Ao começar a Quaresma, a Igreja nos cobre de cinzas lembrando-nos que somos criaturas sujeitas ao sofrimento e à morte: “Lembra-te, ó homem, que tu és pó e em pó hás de tornar”.

Ao ensinar sobre a Quaresma, no século V, São Leão Magno concita os cristãos a elevar seus pensamentos para os grandes mistérios de nossa Redenção, e ao mesmo tempo desapegar-se dos laivos que os prende a satanás e ao mundo. E Bento XIV, no século XVIII, acrescenta: a observância da Quaresma é o vínculo da nossa milícia.

Ao estabelecer um tempo tão santo e rico de significado como a Quaresma, a Igreja ensina a seus fiéis que eles devem se purificar de seus pecados por meio das boas obras como a oração, o jejum e a esmola. Mas de nada adiantarão jejuns, abstinências e esmolas se os corações permanecerem apegados ao pecado.

Como um retiro espiritual, a Quaresma traz enorme bem para as almas. E a Igreja tem o método de como conduzir os fiéis a essa fonte inesgotável, em que todos beberão do coração chagado de Cristo, pela meditação, reflexão, oração, confissão e comunhão, como ainda pela vida de recolhimento que este tempo pede.

Tal retiro termina com a confissão e comunhão no tempo da Páscoa, verdadeira transformação espiritual em que o cristão ressurge com Cristo para uma vida nova. Tais práticas exteriores, além de desenvolver o espírito de Cristo, nos unem a Ele nos sofrimentos, na oração e no jejum.

Nesse tempo a Igreja estabelece jejum e abstinência de carne na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira da Paixão. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo deu o exemplo de jejum e abstinência para começar sua vida pública, permanecendo durante quarenta dias no deserto em rigoroso jejum.

Pela oração entendemos todos os atos de piedade, como freqüência à missa, comunhão, leitura de bons livros, meditação sobre a Paixão de Cristo e a Via Sacra –– meditações acompanhadas de orações diante das catorze estações que representam os sofrimentos da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A Via Sacra deve sua origem à Virgem Maria. Segundo a Tradição, Ela –– após o sepultamento e a Ascensão de Jesus Cristo –– percorreu muitas vezes o caminho feito por seu divino Filho até o Calvário. A Via Sacra é um dos meios mais eficazes para converter os pecadores e tornar os justos mais perfeitos.
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(*) Sacerdote da igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ)
Quantos hoje imitam Pilatos!

Pe. David Francisquini (*)

Por que Jesus Cristo padeceu e morreu pregado numa Cruz? Se Ele é a inocência por excelência, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, por que os homens O cobriram de ultrajes, de ignomínias e de dores? Para entender o que se passou com o Filho de Deus, devemos remontar ao momento no qual Deus foi ultrajado pela desobediência e soberba de nossos primeiros pais.

Para reparar tamanha infâmia e suas conseqüências para a humanidade, Deus prometeu ao mundo um Redentor. O pecado original privara o homem da graça de Deus, as portas do Céu se fecharam para ele, a cegueira grassava em seu espírito, a inclinação para o mal o conduzia ao vício e à desordem dos sentidos, à doença, à morte, enfim, a todas as misérias deste mundo.

Se quem pecou foi o homem, não deveria ele pagar por esse medonho pecado? Mas como poderia ele, dotado de natureza limitada e finita, reparar uma ofensa infinita feita a um Deus infinito? A ofensa se mede pelo ofendido, e não só pela própria ofensa e pelo ofensor. Tão-só um Deus-homem seria capaz de remediar as conseqüências de tal pecado. Donde a Redenção prometida por Deus Pai e consumada por Deus Filho no alto do Calvário ao morrer crucificado entre dois ladrões. Se Jesus Cristo não tivesse se encarnado e morrido para pagar a dívida infinita dos pecados dos homens, todos seríamos escravos do demônio e excluídos da visão beatífica, do Céu para onde vão os justos após a morte.

A despeito da pregação da doutrina cheia de unção e de força do amor a Deus e ao próximo confirmada pelos mais portentosos milagres, o ódio e a perseguição ao Divino Redentor foram num crescendo até atingir o paroxismo. “É preciso que um homem morra para salvar o povo”, disse Caifás em sua casa, onde se encontravam sacerdotes, escribas e anciãos.

Vindo de encontro aos funestos desejos dessa assembléia, Judas Iscariotes foi a peça-chave para que Jesus Cristo fosse entregue nas mãos de seus algozes. Sua pergunta infame –– “Quanto me dareis se eu vo-lo entregar?” –– causou alegria e foi prontamente aceita. Depois da última ceia, quando celebrou a primeira Missa, Cristo dirigiu-se com seus Apóstolos para rezar no Horto das Oliveiras.

Não tardou Judas a chegar com uma turba portando archotes, lanças, espadas e varapaus. Jesus foi amarrado e arrastado até os tribunais de Anás e Caifás. O príncipe dos sacerdotes lhe disse: “Conjuro-te pelo Deus vivo, que nos diga se és o Cristo, o Filho de Deus”. Respondeu-lhe Jesus: “Sim, eu sou. Digo-vos, porém, que de ora em diante vereis o filho do homem sentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do Céu”.
Então o príncipe dos sacerdotes rasgou suas vestes, dizendo: “Blasfemou, que vos parece?”. E os presentes bradaram: “É réu de morte!” Conduzido ao pretório de Pilatos, Jesus Cristo foi cruelmente açoitado, coroado de espinhos, vestido com um manto de irrisão e condenado à morte de cruz. Diante daquele populacho açulado, que preferiu a liberdade do criminoso à do Justo, foi cometido o crime mais hediondo de toda a História. E quantos hoje a seu modo imitam Pilatos, o proconsul romano, autor da iníqua sentença que condenou nosso Redentor!

Percorreu Jesus Cristo a Via dolorosa até o Calvário, onde Se deixou crucificar e morrer pela salvação dos homens, por este homem que sou eu. “Tudo está consumado” –– foram suas últimas palavras, e, inclinando suavemente a cabeça, entregou o seu espírito.

Aos pés da Cruz estava sua Mãe Santíssima acompanhada das santas mulheres. Por Eva, o pecado entrara no mundo. Por Maria, nos adveio o Salvador e Redentor da humanidade.
(*) Sacerdote da igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Via Sacra (Via Crucis): história e indulgências.


Via Sacra: peregrinação espiritual pela Via da Paixão de Jesus Cristo em Jerusalém


A Via Sacra ‒ também conhecida como Via Crucis, Estações da Cruz ou Via Dolorosa ‒ é uma devoção que consiste numa peregrinação espiritual ajudada por uma série de quadros ou imagens que representam cenas da Paixão de Cristo.

A Via Sacra mais conhecida hoje é a rezada no Coliseu de Roma, na Sexta-Feira santa, com a participação do próprio Papa.

As imagens representando as cenas da Paixão podem ser de pedra, madeira ou metal, pinturas ou gravuras. Elas estão dispostas a intervalos nas paredes ou nas colunas da igreja.

Mas, às vezes podem se encontrar ao ar livre, especialmente nas estradas que conduzem a uma igreja ou santuário. Uma Via Sacra muito conhecida é a do santuário de Lourdes, França.

Nos mosteiros as imagens são muitas vezes colocadas nos claustros.

O exercício da Via Sacra consiste em que os fiéis percorram espiritualmente o percurso de Jesus carregando a Cruz desde o Pretório de Pilatos até o monte Calvário, meditando à Paixão de Cristo.

Dados históricos da devoção

A tradição afirma que a Virgem Santíssima costumava visitar diariamente os locais da Paixão de Cristo.

A Via Dolorosa de Jerusalém foi reverentemente sinalizada desde os primeiros tempos e foi uma meta dos piedosos peregrinos desde os dias do imperador Constantino.

São Jerônimo fala das multidões de peregrinos de todos os países que costumavam visitar os lugares santos e percorriam piedosamente a Via da Paixão de Cristo.

O desejo de reproduzir os lugares sagrados em outras terras, a fim de satisfazer a devoção daqueles que estavam impedidos de fazer a verdadeira peregrinação, apareceu muito cedo.

No século V, São Petrônio, bispo de Bolonha erigiu no mosteiro de São Estévão (Santo Stefano em italiano) um conjunto de capelas com as estações. O mosteiro ficou familiarmente conhecido como “Hierusalem”.

Tal exercício, muito usual no tempo da Quaresma, teve forte expansão na época das Cruzadas (do século XI ao século XIII).

O romeiro inglês William Wey que visitou a Terra Santa em 1458, em 1462 descreveu a maneira usual para seguir as pegadas de Cristo em Sua jornada de dores redentores.

As 14 Estações

A Via Sacra se tornou uma das mais populares devoções católicas.

O exercício da Via Sacra tem sido muito recomendado pelos Sumos Pontífices, pois ocasiona frutuosa meditação da Paixão do Senhor Jesus.

O número de estações, passos ou etapas, da dolorosa procissão do Bom Jesus, nosso Redentor, foi definido paulatinamente chegando à forma atual, de quatorze estações, ou passos, no século XVI.

As 14 estações são as seguintes:

1ª Estação: Jesus é condenado à morte

2ª Estação: Jesus carrega a cruz às costas

3ª Estação: Jesus cai pela primeira vez

4ª Estação: Jesus encontra a sua Mãe

5ª Estação: Simão Cirineu ajuda a Jesus

6ª Estação: A Verônica limpa o rosto de Jesus

7ª Estação: Jesus cai pela segunda vez

8ª Estação: Jesus encontra as mulheres de Jerusalém

9ª Estação: Terceira queda de Jesus

10ª Estação: Jesus é despojado de suas vestes

11ª Estação: Jesus é pregado na cruz

12ª Estação: Jesus morre na cruz

13ª Estação: Jesus morto nos braços de sua Mãe

14ª Estação: Jesus é enterrado

Em cada estação é feita uma meditação sobre o passo e o costume é rezar também um Pai Nosso, uma Ave Maria e um Glória ao Padre.

O percurso da Via Sacra não deve ter interrupções. Mas é permitido assistir a uma Missa, confessar e comungar em meio ao piedoso exercício.

A indulgência plenária

Não existe uma devoção mais ricamente dotada de indulgências do que a Via Sacra.

As indulgências estão ligadas à cruz posta sobre as imagens que devem ser canonicamente erigidas.

Condições para ganhar a indulgência

Concede-se indulgência plenária a quem pratique o exercício da Via Sacra. Para que este se possa realizar, requerem-se quatorze cruzes postas em série (com alguma imagem ou inscrição, se possível) e devidamente bentas. O cristão deve percorrer essas cruzes, meditando a Paixão e a Morte do Senhor (não é necessário que siga as cenas das quatorze clássicas estações; pode utilizar algum livro de meditação). Caso o exercício da Via Sacra se faça na igreja, com grande afluência de fiéis, de modo a impossibilitar a locomoção de todos, basta que o dirigente do sagrado exercício se locomova de estação a estação.

Quem não possa realizar a Via Sacra nas condições acima, lucra indulgência plenária lendo e meditando a Paixão do Senhor pelo espaço de meia-hora ao menos.

(cfr. d. Estevão Bettencourt, Catálogo das Indulgências)

Ver também: O que é uma Indulgência, e as condições para ganhar a Indulgência Plenária.

O que é uma Indulgência?

1 - Indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa, que o fiel, devidamente disposto e em certas e determinadas condições, alcança por meio da Igreja, a qual, como dispensadora da redenção, distribui e aplica, com autoridade, o tesouro das satisfações de Cristo e dos santos.

2 - A indulgência é parcial ou plenária, conforme liberta em parte ou no todo, da pena temporal devida pelos pecados.

3 - Ninguém pode lucrar indulgências a favor de outras pessoas vivas.

4 - Qualquer fiel pode lucrar indulgências parciais ou plenárias para si mesmo ou aplicá-las aos defuntos, como sufrágio.

5 - O fiel que, ao menos com o coração contrito, faz uma obra enriquecida de indulgência parcial, com o auxílio da Igreja alcança o perdão da pena temporal, em valor correspondente ao que ele próprio já ganha com sua ação.

6 - O fiel cristão que usa objetos de piedade (crucifixo ou cruz, rosário, escapulário, medalha) devidamente abençoados por qualquer sacerdote ou diácono, ganha indulgência parcial. Se os mesmos objetos forem bentos pelo Sumo Pontífice ou por qualquer bispo, o fiel, ao usá-los com piedade, pode alcançar até a indulgência plenária na solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, se acrescentar alguma fórmula legítima de profissão de fé.

7 - Para que alguém seja capaz de lucrar indulgências, deve ser batizado, não estar excomungado e encontrar-se em estado de graça, pelo menos no fim das obras prescritas.

O fiel deve também ter intenção, ao menos geral, de ganhar a indulgência, e cumprir as ações prescritas, no tempo determinado e no modo devido, segundo o teor da concessão.

8 - A indulgência plenária só se pode ganhar uma vez ao dia. Contudo, o fiel em artigo de morte pode ganhá-la, mesmo que já a tenha conseguido nesse dia.

A indulgência parcial pode ganhar-se mais vezes ao dia, se expressamente não se determinar o contrário.

9 - A obra prescrita para alcançar a indulgência plenária anexa a uma igreja ou oratório é a visita aos mesmos. Neles se recitam a oração dominical e o símbolo dos apóstolos (Pai Nosso e Credo), a não ser caso especial em que se marque outra coisa.

10 - Para lucrar a indulgência plenária, além da repulsa de todo o afeto a qualquer pecado até venial, requerem-se a execução da obra enriquecida da indulgência e o cumprimento das três condições seguintes: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração nas intenções do Sumo Pontífice.

Com uma só confissão podem ganhar-se várias indulgências, mas com uma só comunhão e uma só oração alcança-se uma só indulgência plenária.

As três condições podem cumprir-se em vários dias, antes ou depois da execução da obra prescrita. Convém, contudo, que tal comunhão e tal oração se pratiquem no próprio dia da obra prescrita.

Se falta a devida disposição, ou se a obra prescrita e as três condições não se cumprem, a indulgência será só parcial, salvo o que se prescreve nos nn. 27 e 28 em favor dos ‘impedidos’.

A condição de se rezar nas intenções do Sumo Pontífice se cumpre ao se recitar nessas intenções um Pai Nosso e uma Ave Maria, mas podem os fiéis acrescentar outras orações, conforme sua piedade e devoção.

11 - Concede-se indulgência parcial ao fiel que, no cumprimento de seus deveres e na tolerância das aflições da vida, ergue o espírito a Deus com humildade e confiança, acrescentando alguma piedosa invocação, mesmo só em pensamento.

(“Manual das Indulgências”, editado pela Penitenciária Apostólica em 29 de junho de 1968 - Edições Paulinas, São Paulo, 1990)

Catálogo das Indulgências

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Autor: d. Estêvão Bettencourt
Ainda as Indulgências:

Em síntese: O artigo apresenta as principais concessões de indulgência registradas no Catálogo de Indulgências promulgado pelo Papa Paulo VI. Destacam-se as indulgências parciais outorgadas a quem trabalhe em espírito de oração, a quem se dedique ao serviço do próximo e a quem pratique obras de ascese e mortificação das paixões desregradas. Além do quê, há indulgência para quem efetue determinadas práticas de piedade.

Além da Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina, o Papa Paulo VI promulgou o novo Enquirídio ou Manual de Indulgências em 1967; cf. Enchiridion Indulgentiarum, Vaticano 1967. Deste documento vão abaixo extraídos os traços de índole pastoral mais importante.

1. TRÊS CONCESSÕES GERAIS
O catálogo começa enunciando três concessões gerais, que podem ter por objeto qualquer ato da vida cristã. Desde que realizada com fervor ou em espírito de oração e união com Deus, toda ação do cristão pode não apenas redundar em aumento da graça santificante em sua alma (efeito este que se segue sempre a qualquer ato fervoroso), mas também pode obter remissão da expiação devida a pecados anteriormente cometidos pelo cristão e alívio para as almas do purgatório. Toda a trama da vida cristã, desde que vivida de maneira consciente (afastada a rotina, que depaupera os atos humanos), pode assim adquirir valor e significado novos. Todavia é necessário, para tanto, que o cristão procure elevar freqüentemente o seu espírito a Deus, sacudindo a tendência à indiferença ou à mediocridade que constantemente ameaçam a vida do homem sobre a terra.
Eis as três grandes concessões:

1) É concedida indulgência parcial a todo cristão que, no cumprimento de seus deveres e no suportar as tribulações da vida presente, levante a mente a Deus com humilde confiança, proferindo, ao mesmo tempo, alguma invocação piedosa. Esta invocação pode ser dita mentalmente apenas, não sendo necessária uma oração vocal ou labial. Mediante esta primeira norma, a S. Igreja tem em mira estimular os seus filhos a fazer de toda a sua vida uma oração contínua, de acordo com o preceito do Senhor: "É preciso orar sempre" (Lc 18,1). Visa também a exortar os fiéis a cumprir os deveres de seu próprio estado de modo a conservar e aumentar a união com Cristo. Sugerem-se, entre outras, as invocações abaixo transcritas. Cada cristão poderá escolher a que mais convier à situação em que se ache. Nada impede, porém, que a pessoa mesma formule espontaneamente a prece ou jaculatória que mais corresponda à sua devoção.

É também de notar que as jaculatórias ou invocações como tais não são indulgenciadas (à diferença do que se dava outrora). Atualmente as jaculatórias indulgenciadas devem ser o complemento de uma obra (ou seja, do dever cumprido ou da tribulação suportada).

Poderá, portanto, alguém dizer:

"Senhor; salva-nos; estamos a perecer!" (Mt 8,25)
"Permanece conosco, Senhor!"(Lc 24,29)
"Salve, ó cruz, esperança única!" (do Breviário)
"Meu Deus e meu tudo!"
"Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20,28)
"Ensina-me a fazer a tua vontade, pois és o meu Deus" (Sl 143,10)

Recorrendo a tais invocações para santificar as suas obrigações e dores, o cristão estará realizando o ideal freqüentemente incutido pela Escritura Sagrada, quando diz: - "Velai sobre vós, para que vossos corações não se embruteçam pelos cuidados desta vida... Vigiai, portanto, orando sem cessar" (Lc 21,34-36). - "Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (1Cor 10,31). - "Tudo que fizerdes, seja por palavra, seja por obra, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por intermédio dele graças a Deus"(Cl 3,17). - "Entregai-vos continuamente, pelo Espírito, a toda espécie de oração e súplica. Dedicai-vos a estas práticas com perseverança incansável" (Ef 6,18). - "Vigiai e orai para não entrar em tentação" (Mt 26,41). - "Orai sem cessar. Dai graças por tudo" (1Ts 5,17s).

2) É concedida indulgência parcial ao cristão que, movido por espírito de fé e misericórdia, coloca a sua pessoa ou os seus bens ao serviço dos irmãos que padecem necessidade. Desta forma deseja a S. Igreja incentivar o ardor da caridade nos fiéis, levando-os a servir ao próximo. Todavia não qualquer obra de caridade é indulgenciada; requer-se seja prestada em favor de quem precise de algum benefício, quer corporal (alimento, roupa, dinheiro...), quer espiritual (consolo, instrução...). Praticando essas obras com fervor, o cristão viverá as grandes normas ditadas pelo Senhor Jesus e os Apóstolos:

- "Tive fome, e vós me destes de comer. Tive sede, e vós me destes de beber. Estive desabrigado, e me acolhestes; nu, e me vestistes; doente, e me visitastes. Estive no cárcere, e vieste ver-me. Em verdade vos digo que, todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes" (Mt 25,35-36.40).

- "Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Assim como eu vos amei, vós vos deveis amar uns aos outros. Por este sinal todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros" (Jo 13,34s).

- "A religião pura e sem mancha diante de nosso Deus e Pai é esta: confortar os órfãos e as viúvas em suas aflições e conservar-se puro da corrupção deste mundo" (Tg 1,27). Cf. Tg 2,15s.

- "Se alguém possui bens deste mundo e, vendo seu irmão passar necessidade, lhe fechar o coração, como pode habitar nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos nem de palavra, nem de língua, mas por atos e de verdade" (1Jo 3, 17s).

3) É concedida indulgência parcial ao cristão que, movido por espírito de penitência, se abstenha espontaneamente de algo que lhe seja lícito e agradável.

Esta terceira grande determinação representa algo de novo na praxe da Igreja. Visa a atender aos tempos atuais; as leis do jejum e da abstinência foram mitigadas; não obstante, os fiéis são exortados a praticar a penitência por outras vias. Na verdade, a penitência nunca poderá ser supressa na vida cristã, pois dá aos fiéis participação da Paixão de Cristo a fim de que possam ter parte igualmente na ressurreição gloriosa do Senhor. É por isto que a S. Igreja procura estimulá-la mediante a determinação citada.

A abstinência e as privações voluntárias do cristão se tornam frutuosas por excelência, quando são associadas à caridade, ou seja, quando redundam em benefício do próximo; que o cristão dê aos mais pobres aquilo de que não usa em seu proveito!

A penitência é recomendada por numerosos textos bíblicos: - "Se alguém quer seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me" (Lc 9,23).

- "Se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo" (Lc 13,5).

- "Todos aqueles que participam das lutas (do estádio), abstêm-se de tudo. Eles, para obter uma coroa corruptível; nós, pelo contrário, uma incorruptível. De minha parte, portanto, também corro, mas não na incerteza; pratico o pugilato, mas não como quem fere o ar. Trato rudemente o meu corpo e o conduzo como escravo" (1Cor 9,25-27).

- "Trazemos sempre conosco, em nosso corpo, a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo" (2Cor 4,10).

- "(Cristo) veio ensinar-nos a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos e a viver neste mundo com ponderação, justiça e piedade" (Tt 2,12).

- "Na medida em que participais dos sofrimentos de Cristo, alegrai-vos, para que, na manifestação de sua glória, vos alegreis também e exulteis" (1Pd 4,13).

Vêm agora:

2. Outras concessões A Igreja, segundo a praxe tradicional, quer também indulgenciar os fiéis que pratiquem certas obras ou orações, precisamente em número de setenta, das quais as principais podem ser assim apontadas:

1) Leitura da S. Escritura. Concede-se indulgência parcial ao cristão que leia devotamente a Bíblia Sagrada. A indulgência é plenária, desde que a leitura dure ao menos meia-hora.

2) Visita ao SS. Sacramento. Concede-se indulgência parcial a quem visite o SS. Sacramento para O adorar. A indulgência é plenária, caso a visita se protraia por meia-hora ao menos.

3) Rosário. Concede-se indulgência plenária a quem recite o Rosário (quinze mistérios) ou numa igreja ou em família ou numa comunidade ou numa associação religiosa. A indulgência é parcial nas demais circunstâncias possíveis.

4) Via Sacra. Concede-se indulgência plenária a quem pratique o exercício da Via Sacra. Para que este se possa realizar, requerem-se quatorze cruzes postas em série (com alguma imagem ou inscrição, se possível) e devidamente bentas. O cristão deve percorrer essas cruzes, meditando a Paixão e a Morte do Senhor (não é necessário que siga as cenas das quatorze clássicas estações; pode utilizar algum livro de meditação). Caso o exercício da Via Sacra se faça na igreja, com grande afluência de fiéis, de modo a impossibilitar a locomoção de todos, basta que o dirigente do sagrado exercício se locomova de estação a estação.

Quem não possa realizar a Via Sacra nas condições acima, lucra indulgência plenária lendo e meditando a Paixão do Senhor pelo espaço de meia-hora ao menos.

5) Oração mental. O cristão que realize piedosamente a sua oração mental, lucra de cada vez uma indulgência parcial.

6) Pregação. O cristão que, atenta e devotamente, assista à pregação da palavra de Deus, adquire indulgência parcial.

Concede-se indulgência plenária a quem, por ocasião das sagradas Missões, ouça alguma das pregações e participe do solene encerramento das mesmas.

7) Primeira Comunhão. Aos fiéis que façam a sua Primeira Comunhão ou assistam às respectivas cerimônias, é concedida indulgência plenária.

8) Comunhão espiritual. É atribuida indulgência parcial a quem realize uma Comunhão espiritual, qualquer que seja a fórmula então utilizada.

9) Exercícios espirituais. Concede-se indulgência plenária ao cristão que se aplique a exercícios espirituais em retiro pelo espaço de três dias ao menos.

10) Recolhimento mensal. Aos fiéis que realizam um dia de recolhimento mensal, concede-se de cada vez indulgência plenária.

11) Catequese. Ao cristão que se aplique a ensinar a doutrina da fé católica, concede-se de cada vez indulgência parcial.

12) Atos de virtudes. Quem devotamente recita um ato de fé, esperança, caridade ou contrição (qualquer que seja a fórmula legítima) adquire de cada vez indulgência parcial.

13) Visita de cemitério. Quem visite, com ânimo religioso, um cemitério e nele ore pelos fiéis defuntos, lucra indulgência em favor das almas do purgatório, indulgência que de 12 a 8 de novembro é plenária, e nos demais dias do ano é parcial.

14) Objetos de piedade. Quem usa devotamente algum objeto de piedade (crucifixo, rosário, escapulário, medalha), bento por qualquer sacerdote, lucra indulgência parcial.

Se o objeto for bento pelo Sumo Pontífice ou por algum Bispo, o cristão, usando-o devotamente, pode obter indulgência plenária na festa dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, contanto que recite então uma profissão de fé.

15) Em artigo de morte. Dado que algum cristão esteja em grave perigo de morte e não haja sacerdote que lhe possa assistir, a Igreja lhe concede indulgência plenária, contanto que esse cristão esteja devidamente disposto (contrito de seus pecados) e durante a sua vida tenha habitualmente feito algumas preces. Para adquirir essa indulgência plenária, recomenda-se o uso de um crucifixo (a ser osculado ou contemplado).

16) Culto dos Santos. Quem no dia da festa de algum Santo, recite em sua honra a oração respectiva contida no Missal ou outra prece aprovada, lucra indulgência parcial.

17) Sinal da Cruz. Obtém indulgência parcial, quem se persigne, dizendo as palavras: "Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo".

18) Promessas do Batismo. Lucra indulgência parcial quem renove as promessas de seu Batismo. A indulgência é plenária quando a renovação ocorre na celebração da vigília de Páscoa ou no aniversário do respectivo Batismo.

19) Igreja paroquial. Concede-se indulgência plenária ao cristão que visite devotamente a sua igreja paroquial

- na festa do respectivo titular; ou

- no dia 2 de agosto (dia da Porciúncula).[1]

Uma e outra destas indulgências podem ser adquiridas em outro dia, estipulado pelo Ordinário do lugar segundo as conveniências dos fiéis.

Além dos casos até aqui indicados, deve-se observar que a S. Igreja concede indulgências também a quem recite piedosamente certas oraçôes como:

O anjo do Senhor" ou "Rainha do céu" (ind. parcial)
"Alma de Cristo, santificai-me" (ind. parcial)
"Creio em Deus..." (ind. parcial) o Ofício dos Defuntos: Laudes ou Vésperas (ind. parcial)
o Sl 130 - "Das profundezas do abismo..." (ind. parcial)
o Sl 51 - "Miserere" (ind. parcial)
"Eis-me aqui, ó bom e dulcissimo Jesus" (depois da Comunhão, diante de uma imagem do Crucifixo, indulgência plenária nas sextas-feiras da Quaresma e da Paixão; indulgência parcial nos outros dias do ano)
Ladainhas do SS. Nome de Jesus, do Sagrado Coração, do Preciosíssimo Sangue, de Nossa Senhora, de S. José, de Todos os Santos (ind. parcial)
"Magnificat" (ind. parcial)
"Lembrai-vos, ó piedosa Virgem Maria" (ind. parcial)
os Ofícios Menores da Paixão do Senhor, do Sagrado Coração de Jesus, de Nossa Senhora, da Imaculada Conceição, de S. José (ind. parcial)
"Salve Rainha" (ind. parcial)
"Te Deum" (ind. parcial; no dia 31 de dezembro, ind. plenária)
"Vinde, Espírito Santo" (ind. parcial)

Eis os principais meios pelos quais se podem lucrar indulgências. Seja lícito repetir: a nova legislação tende a fazer da instituição das indulgências um estímulo para a renovação da vida cristã, aprofundando-a e afervorando-a. Está removida toda aparência de obtenção "mecânica" da salvação. Doutro lado, pode-se crer que, para quem deseja viver uma vida cristã fervorosa, não é difícil lucrar indulgências; estas são sempre proporcionais ao fervor (maior ou menor) de quem realiza a obra indulgenciada.

Para o ano jubilar 2000, a Penitência Apostólica dispôs entre outras coisas: Os fiéis poderão ganhar a indulgência jubilar:

Em qualquer lugar, se forem visitar, durante um razoável período de tempo, os irmãos que se encontram em necessidade ou dificuldade (doentes, presos, anciãos sozinhos, deficientes etc.), como que realizando uma peregrinação ao Cristo presente neles (cf. Mt 25,34-36), cumprindo as habituais condições espirituais, sacramentais e de oração. Os fiéis quererão certamente repetir tais visitas durante o Ano Santo, podendo adquirir em cada uma delas a indulgência plenária, obviamente apenas uma vez por dia.

A indulgência plenária jubilar poderá ser obtida também por meio de iniciativas que exercitem de modo concreto e generoso o espírito penitencial, a alma do Jubileu. Assim, abster-se pelo menos durante um dia de consumos supérfluos (por exemplo, do cigarro, de bebidas alcoólicas, jejuando ou praticando a abstinência segundo as normas gerais da Igreja e as especificações dos episcopados), entregando determinada quantia de dinheiro poupado para os pobres; apoiar com uma significativa contribuição obras de caráter religioso ou social (especialmente a favor da infância abandonada, da juventude em dificuldade, dos anciãos necessitados, dos estrangeiros presentes nos diversos países à procura de melhores condições de vida); dedicar uma parte razoável do próprio tempo livre a atividades úteis para a comunidade, ou outras formas semelhantes de sacrifício pessoal.

Nota: [1] Porciúncula (do latim portiuncula, pequena porção ou propriedade) é o nome da primeira capela que São Francisco de Assis utilizou, cedida ao Santo pelos beneditinos. Tal capela está hoje contida na basílica de Santa Maria dos Anjos na mesma cidade. A partir de 1221, solicitado por Francisco, o Papa Honório III houve por bem conceder indulgência plenária a todos os fiéis que, no dia 2/08, visitassem a capela da Porciúncula. Tal concessão foi estendida posteriormente a todos os santuários franciscanos e também, paulatinamente, a todas as igrejas paroquiais.

Fonte: http://oracoesemilagresmedievais.blogspot.com/2011/04/via-sacra-peregrinacao-espiritual-pela.html

O Santo Tríduo Pascal e a Indulgência Plenária.

Extraído de Escola Católica.

Durante o santo Tríduo Pascal podemos ganhar para nós ou para os defuntos o dom da Indulgência Plenária se realizarmos algumas das seguintes obra estabelecidas pela Santa Sé.

Obras que gozam do dom da indulgência pascal:

Quinta-feira Santa

1. Se durante a solene reserva do Santíssimo, que segue à Missa da Ceia do Senhor, recitamos ou cantamos o hino eucarístico "Tantum Ergo" ("Adoremos Prostrados").

2. Se visitarmos pelo espaço de meia hora o Santíssimo Sacramento reservado no Monumento para adorá-lo.

Sexta-feira Santa

1. Se na Sexta-feira Santa assistirmos piedosamente à Veneração da Cruz na solene celebração da Paixão do Senhor.

Sábado Santo

1. Se rezarmos juntos a reza do Santo Rosário.

Vigília Pascal

1. Se assistirmos à celebração da Vigília Pascal (Sábado Santo de noite) e nela renovamos as promessas de nosso Santo Batismo.

Condições:

Para ganhar a Indulgência Plenária além de ter realizado a obra enriquecida se requer o cumprimento das seguintes condições:

A. Exclusão de todo afeto para qualquer pecado, inclusive venial.

B. Confissão sacramental, Comunhão eucarística e Oração pelas intenções do Sumo Pontífice. Estas três condições podem ser cumpridas uns dias antes ou depois da execução da obra enriquecida com a Indulgência Plenária; mas convém que a comunhão e a oração pelas intenções do Sumo Pontífice se realizem no mesmo dia em que se cumpre a obra.

É oportuno assinalar que com uma só confissão sacramental podemos ganhar várias indulgências. Convém, não obstante, que se receba freqüentemente a graça do sacramento da Penitência, para aprofundar na conversão e na pureza de coração. Por outro lado, com uma só comunhão eucarística e uma só oração pelas intenções do Santo Padre só se ganha uma Indulgência Plenária.

A condição de orar pelas intenções do Sumo Pontífice se cumpre rezando-se em sua intenção um Pai Nosso e Ave-Maria; mas se concede a cada fiel cristão a faculdade de rezar qualquer outra fórmula, segundo sua piedade e devoção.

Fonte: Index Bonorvm.
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