terça-feira, 12 de outubro de 2010

O Catolicismo produz a pobreza?


A IGREJA, A REFORMA E A CIVILIZAÇÃO
(Do blog do mesmo nome.)
Capítulo I

A IGREJA, A REFORMA E A GRANDEZA ECONÔMICA E POLÍTICA DAS NAÇÕES

§ 2. - Decadência das nações católicas?

SUMÁRIO - Espanha. - Portugal. - França. - Áustia. - Itália. - Bélgica. - Irlanda. - Conclusões.

Comecemos por lançar um rápido olhar sobre a evolução social dos povos católicos.

Espanha. - Poucos povos possuem uma história tão gloriosa como o espanhol. Oito séculos de luta titânica, heróica, iluminada sempre pelos grandes ideais da unidade religiosa e da liberdade pátria, asseguraram aos descendentes do Cid o domínio das península ibérica. Não há um torrão do solo hispânico que não tenha sido regado pelo sangue de seus filhos, um palmo de território que não haja sido teatro de grandes heroísmos.

Libertada finalmente a nação do jugo opressor e do alfange muçulmano, substituído em toda a parte o estandarte da cruz aos guiões do crescente, a Espanha elevou-se rapidamente ao zênite de sua grandeza. No século XVI, sob os reinados de CARLOS I e de FILIPE II, era a primeira potência da Europa. Pelo poder de seus exércitos e pela ascendência de seus diplomatas, dominava as relações políticas do Ocidente. O descobrimento da América e a exploração das colônias ultramarinas, enriquecendo-lhe o erário, suscitaram por algum tempo o esplendor da glória nacional.

Bem cedo, porém entrou a declinar o astro de sua fortuna. Não é difícil apontar as causas desta decadência.

Durante o largo período de sua formação nacional, a guerra foi o elemento vital do povo espanhol. O comércio, a agricultura e a indústria atraíam-lhe menos as simpatias. Aos mouros e judeus deixaram a tarefa de cultivar os campos e de exercer o tráfico. Quando em 1492 um decreto de expulsão desterrou os judeus, numerosos estrangeiros, - genoveses, franceses meridionais e alemães - acudiram à península para suprir com o seu espírito de iniciativa mercantil, a insuficiência dos nacionais. As leis de FERNANDO e ISABEL e mais tarde CARLOS V, sem conseguir transformar radicalmente os costumes inveterados de sete séculos, lograram contudo dar certo desenvolvimento à agricultura e à indústria. Infelizmente numerosas disposição legislativas - impostos proibitivos, monopólios, etc. - inspirados em falsos princípios econômicos do tempo
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e emanados do próprio CARLOS V, e, mais ainda, dos seus sucessores, travaram o desenvolvimento material do país, no mesmo tempo desfalcava de elementos vitais de primeira importância. O precioso metal versado então a mãos cheias no mercado espanhol elevou extraordinariamente o preço das mercadorias, colocando o país numa situação de manifesta inferioridade em face dos seus concorrentes europeus. A datar desta época (1570), a política espanhola de FILIPE II e dos soberanos menos aptos que lhe sucederam16 tomou uma orientação exclusivamente financeira, causa de prejuízos ainda maiores que os produzidos pelos desacertos anteriores. As numerosas guerras sustentadas no séculos XVI, XVII e XVIII (com a Holanda em 1579, com a Inglaterra em 1588, etc.), a invasão napoleônica, a perda sucessiva de quase todas as colônias de além-mar vieram arruinar esta organização financeira, levantada sem sólidos alicerces econômicos e prepararam a bancarrota do país.17

Golpes não menos sensíveis à sua influência política foram desastres navais. Nenhuma potência marítima foi tão infeliz nas suas empresas militares como a Espanha. Já sob o reinado de CARLOS V o infortúnio a perseguia. Na primeira expedição organizada contra a Algéria, sob o comando do célebre almirante HUGO DE MONGADA, uma furiosa tempestade destuiu 30 navios e sepultou na ondas 4.000 marinheiros. Segunda expedição enviada em 1541 contra BARBA-ROXA sofreu ainda maiores desgraças: perderam-se 150 navios e 8.000 tripulantes. Menos infeliz foi a terceira empresa (1562) mas ainda assim 20 navios e 3.000 homens foram devorad0s pelas tempestades. No ano seguinte em uma batalha perto de Cádis, novo temporal afundou 15 navios e 2.000 homens. Mas a maior catástrofe naval que ainda presenciou o mundo foi a da
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16. Pouco antes de morrer, referindo-se a seu filho, dia FILIPE II: "Deus que me concedeu grandes estados, não se dignou darm-e um sucessora capaz de os governar".

17. Sobre a história circunstanciada da evolução econômica da Espanha, cfr. KONRAD HABBLER, Die Wessenschafftiliche Blûte Spaniens en 16 Jahrjundert und ihr Verfall, Berlin, 1888; ID, Geschichte Spaniens unter den Habsburgen, Gotha, 1907, c. 11, Finazplaene, p. 272-290. "L'histoire d'aucun peuple, escrevem um especilista, ne démontre d'une manière plus éclatante les maux qui peuvent résulter de l'ignorance ou du mépris des lois économiques. Aucun gouvernemente n'a été imbu de plus de préjugés et n'a commis plus d'erreurs que le gouvernemaent espagmol; et les habitants d'aucune contrée n'ont explé, plus duremente, les fautes de ceux que les gouvernaient. Ruine de l'agriculture, de l'industrie, du commerce, perte des colonies, amoindressement de l'influence deplomatique: telles furent les tristes conséquences des mauvais systèmes administratifs suivis par les ministres espagnols des dix-septième et dix-hultième siècle. (A responsabilidade pesa mais sobre os do Séc. XVI que os do séc. XVIII) GOURY DU ROLAN, Essai sur l'histoire économique de l'Espagne, Paris, Guillaumin (sem data) p. 1-2.

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Armada invencível de 1588. Deste imenso desastre data a decadência do poder mundial da península. Os séculos seguintes viram ainda desastres menores até ao aniquilamento da frota espanhola pelos couraçados norte-americanos na batalha de Santiago de Cuba.

Convém ainda não esquecer todas as desvantagens que a situação geográfica do estendido território da coroa de FELIPE II lhe acarretou na longa e porfiada luta contra adversários poderosos. A necessidade de povoar, colonizar e defender regiões imensas reduziu em pouco tempo o número de habitantes da metrópole; de 14 milhões que eram no tempo dos reis católicos, a população baixara no reinado de FILIPE IV a 6 ou 7 milhões apenas.

Mais. Espanha deveu combater às vezes contemporaneamente no Países-Baixos, na Itália e no Ultramar. A extensão das distâncias, as dificuldades das vias de comunicação, a quase impossibilidade de dirigir e avitualhar, com segurança e presteza, exércitos tão afastados, colocaram-na em posição manifestamente desvantajosa em relação à França e à Inglaterra que combatiam em casa ou perto dela. Com que equidade, pois, atribuir à influência religiosa um êxito desfavorável em semelhantes campanhas?

Além destas causas de ordem econômica, geográfica, política e militar, importa lembrar ainda outra de ordem intelectual e social: a introdução das idéias revolucionário do século XVIII. ARANDA e GRIMALDI sob CARLOS III inauguraram a luta contra a Igreja. Desde então o empenho insensato de estabelecer, com a opressão e a violência, uma nova ordem civil baseada em princípios diametralmente opostos aos princípios católicos, que haviam feito a grandeza e elevado o prestígio da nação espanhola, produziu uma série de revoluções e discórdias intestinas, causa desta instabilidade social que lhe caracteriza a história do século XIX. As sociedades secretas apoderaram-se do governo e assinalaram-se por medidas anti-sociais de caráter tirânico e opressor. Em 1835 o ministro hebreu MENDIZABAL suprimiu dois mil conventos e institutos religiosos, confiscou os bens eclesiásticos e vendeu-lhes a preço vil os mais preciosos tesouro artísticos.

A guerra contra os Estados Unidos veio dar o último golpe à pátria de CERVANTES. Foi uma injustiça flagrante, mas a nação vítima sofreu-lhe com nobre altivez todas as consequências materiais. Com os republicanos do norte ficaram os louros inglórios de um fácil triunfo militar e as vantagens econômicas e territoriais da vitória
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da força; com os vencidos, a superioridade moral do direito e a grandeza do heroísmo na adversidade.18

Nos nossos dias a Espanha levanta-se da sua longa prostração. É de todos conhecido o seu ressurgimento econômico, industrial e político para nele insistirmos longamente. Ao mesmo tempo, nunca a organização e ação social católica estiveram mais florescentes.

Uma última observação antes de concluirmos. Na sua longa decadência material, a Espanha nunca se descorou das glórias intelectuais e artísticas. Os povos pagãos, decaído do prestígio de seu poderio, viram adensar-se sobre as ruínas de sua grandeza as trevas da ignorância e do obscurantismo literário e acelerar-se, do mesmo passo, a decomposição dos costumes. A nobre nação católica, humilhada e vencida, conservou o vigor da inteligência e a pureza da moral. O domínio da filosofia e da teologia, da literatura e das artes continou a produzir gênios de merecida celebridade mundial, verdadeiros mestres di color che sanno. Só no terreno das ciências experimentais, comparada com a da Itália e da França, a sua produção tem sido relativamente insignificante. Talvez a inferioridade industrial do país não tem posto a prova da concorrência os recursos do seu gênio inventivo. Talvez uma tendência natural do povo o inclina espontaneamente às especulações abstratas ou às belezas ideais da arte. A todas as nações não reparte a Providência os mesmos dons. Dos industriosos norte-americanos conhecemos ilustres físicos, químicos, eletricistas, inventores; mas estamos ainda à espera de seus gênios filosóficos e artísticos.

Concluamos agora. As causas de decadência da Espanha são todas de ordem natural. Nelas nenhuma ação exerceu o seu catolicismo. Sinceramente, quem poderá com equidade responsabilizar a Igreja dos desacertos econômicos dos seus governantes, dos infortúnios militares dos seus cabos de guerra ou do egoísmo imoral de seus concorrentes? Quem ousará afirmar que se no Escurial governasse não FILIPE II, mas um príncipe protestante não se teriam desencadeado os ventos que desarvoararam e afundaram a Armada invencível? Em todo o caso, sempre ficará de pé esta grande verdade: a Espanha gloriosa, a Espanha que, a poder de heroísmos, se libertou do jugo muçulmano, a Espanha que em poucos anos se
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18. "A hsitória desta guerra, observa uma revista norte-americana, se alguma vez se escreve com verdade, cobrirá os Estado Unidos de eterno opróbrio". Cfr. The Review de S. Luis, 27 de fev., 6 e 15 de março de 1902.
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elevou a primeira potência mundial, a Espanha que descobriu e colonizou a América foi a Espanha católica.

Portugal - Com ligeiras alterações podemos aplicar a Portugal as considerações feitas acima a respeito da evolução econômica e social da sua irmã ibérica.

Data do século XV a grandeza lusitana. Sem haver sido antes uma nação de grande atividade industrial, os descobrimentos marítimos, as riquezes da Índia e da América elevaram-na em pouco tempo às alturas de uma grande potência. Era possível conservar por largos anos tão extenso império colonial com tão reduzida metrópole? Não sei se era possível; dificílimo, era-o certamente. Coração tão pequeno, sem uma hipertrofia perigosa, não podia impelir com vigor o sangue vivificante nas artérias de tão vasto e desproporcionado organismo.

A esta insuficiência cardíaca vieram juntar-se outras causas de enfraquecimento. A reunião com a coroa de Espanha (1580) estendeu ao pequeno reino vizinho as consequências desastrosas da política financeira de FILIPE II e de seus sucessores. A Holanda aproveitou habilmente esta crise de fraqueza para apoderar-se de uma parte de suas possessões ultramarinas. A restauração de 1640 não lhe restituiu imediatamente as forças e as riquezas para reconquistá-las. Quase só lhe restava o Brasil e este não tardou a separar-se da metrópole novamente abatida pela invasão napoleônica.

A difusão das idéias revolucionárias vieram agravar este estado de anemia social. Quando se queria paz, união, força, elas semeavam os germes da divisãso, do enfraquecimento, das discórdias civis. O infeliz Portugal foi mais uma vítima do frenesi anticatólico que alucinou as raças latinas do século passado. A revolução de 1910, com o seu cortejo vergonhoso de barbaridades e opressões, veio pôr o remate à obra nefasta do jacobinismo. Só na restauração desinteressada dos princípios religiosos e sociais do catolicismo encontrarão os descendentes dos antigos lusos o segredo daquela grandeza que deu ao mundo NUNO ÁVARES, GAMA, ALBUQUERQUE e CABRAL.

A estas rápidas considerações poremos o mesmo fecho que às precedentes sobre a Espanha. Portugal "que descobria a Índia, circunavegava e civilizava a África, povoava a América, escrevia as Décadas de BARROS, compunha os Lusíadas de CAMÕES, e edificava Belém"19 era Portugal católico.
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19. ALMEIDA GARRET, O Arco de Santana, c. 17, Obras completas, Ed. de Teófilo Braga, Rio-Lisboa (sem data), t. II, pp. 36-7.
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França - As páginas mais gloriosas da história francesa foram escritas por heróis católicos: CARLOS MAGNO, S. LUÍS, JOANA D'ARC. Educada pela Igreja, a França amadureceu bem cedo para a civilização. Formada e adulta, cuidou poder dispensar o seu auxílio materno. Entreviu a grande idéia da liberdade e fraternidade universal e atirou-se cegamente à sua realização.

Na maior crise da sua história, a experiência da Igreja, profunda conhecedora do coração humano, tê-la-ia levado, sem abalos nem comoções, ao zênite da glória. A filha primogênita da Igreja voltou-lhe as costas e o mundo assitiu aos horrores pagãos de um espetáculo sem exemplo, a uma orgia sanguinária de paixões encandecidas e desencadeadas.

A apostasia oficial da França tem sido o gênio mau de sua civilização. Nos estados modernos fortemente centralizados, com a potência enorme que se resume nas mãos do governo, um país não pode medrar e desenvolver-se livremente quando os poderes públicos se colocam em oposição com as forças do povo. Em discórdias civis, em facções políticas, em competições mesquinhas de despendem incalculáveis tesouros de energia vital, furtados ao cresimento orgânico do país.

Datam de bem longe os germes desta hostilidade entre o governo e a religião do povo francês. Os ciúmes da coroa contra a influência do poder espiritual começaram por algemar a liberdade da Igreja para depois enfraquecê-la e exterminá-la. Para não remontarmos a FILIPE O BELO, já LUIZ XIV no absolutismo que concentrara o estado na sua real pessoa, a França em Paris e Paris em Versalhes, começou a entravar a ação benéfica do papado. Ao bafo de sua proteção, desenvolveu-se o galicanismo. O jansenismo que lhe nasceu ao pé, na hipocrisia estóica de seus rigores morais, fechou os corações às influências benéficas das graça canalizada pelos sacramentos e preparou na desesperança dos pusilânimes o terreno à incredulidade. LUIZ XV que, sem possuir as esplêndidas qualidades, herdara todos os vícios do rei Sol, entregou a Igreja às chacotas levianas do voltaireanismo e aos assaltos furiosos da filosofia enciclopedista.

Destas fontes contaminadas nasceu a torrente da impiedade que alagou a França moderna. Nesta obra nefasta de descristianização progressiva, boa parte da responsabilidade cabe ao protestantismo. A revolução é filha legítima da Reforma. Foi em Londres, nos círculos da sociedade sociniana dos livres-pensadores, que VOLTAIRE jurou ódio e destruição à Igreja. Foi nas doutrinas cépticas e demolidoras
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de HUME e BAYLE que se inspirou o grande dicionário dos enciclopedistas. De Genebra trouxe o protestante ROUSSEAU o seu Contrato social. Em Holanda imprimiram-se e de Holanda se propagaram quase todos os ruins livros desta época. De Berlim se estendia a sombra protetora do patrocínio real que cobria e dava alento aos seus autores.20

Desde estes dias nefastos não logrou a França oficial reabilitar-se completamente nas suas tradições de catolicismo. O imperador corso reabriu as igrejas, reconstruiu a jerarquia eclesiástica que muito havia sofrido com a passagem do tufão revolucionário. Mas a igreja que ele pretendia reconstruir não era a Igreja de Jesus Cristo, era uma Igreja ao sabor de seus gostos, uma espécie de polícia dócil às suas ordens para a pacificação dos ânimos,21 um sustentáculo moral dependente de seus caprichos, para apoiar-lhe o trono, uma instituição religiosa tradicional que aos olhos do povo lhe aureolasse a glória com o nimbo de resplendores celestes.

Durante a restauração o veneno anti-religioso do enciclopedismo continuou a intoxicar largamente os ânimos. Entre 1818 a 1814 as obras de VOLTAIRE se reproduziram em doze edições e as de ROUSSEAU em treze, enquanto o monopólio da Universidade educava as novas gerações no racionalismo e no panteísmo. Os últimos anos do séculos XIX e os primeiro de século XX assistiram à plena eclosão destes germes incubados por tão longo tempo nas classes dirigentes da França. A Igreja foi espoliada e expulsa, o clero perseguido, as ordens religiosas exiladas, o ensino laicizado, os católicos excluídos sistematicamente dos cargos públicos e das cátedras universitárias, Deus desterrado das constituição, dos tribunais, das escola. O grito de GAMBETTA: "Le cléricalisme, voilà l'ennemi", fazia eco à blasfêmia de VOLTAIRE: "écrasez l'infâme".


Tais foram nos últimos tempos as relações do governo francês com a Igreja. Por que, pois chamar sem muitas reservas, a França
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20. - Em sermão pronuciado em 1795 dizia um professor de teologia anglicana em Cambridge: "muito receio que neste ponto os estados protestantes tenham mais culpa do que talvez pensam; todas as produções ímpias e a maior parte das imorais que tão poderosamente contribuiram para a apostasia dos nossos dias foram compostas e impressas nos países protestantes". Quinzaine, 16 de julho de 1899. Cit. por FLAMÉRION, De la prospérité comparés des nations catholiques e des nations protestantes, pp. 55-56.

21. "Gendarmes en soutane" diria VEULLOT, a propósito de NAPOLEÃO como a propósito DZ THIERS: "M. THIERS voudrait aujourd'hui fortifier le perti des révolutionaires contents et repus, dont il est le chef, d'un corps de gendarmes en soutaine à cause de l'insufisance menifeste des autres". Carta a M. RENDU, bispo de Annécy, de 2 de Março de 1849.
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oficial um estado católico e responsabilizar o catolicismo pela sua decadência? Se algo prova o paralelismo dos fatos históricos é justamente a influência civilizadora da Igreja que prova. Os povos educados sob a sua tutela não encontrarão o segredo perdido de sua grandeza senão na volta confiada ao regaço daquela que os embalou na infância e lhes assistiu nos grandes dias da prosperidade. A apostasia da França foi política? Política será sua decadência. Excluíram das leis e do ensino os princípios morais do catolicismo, subtraíram o matrimônio à legislação cristã, violando-lhe a santidade com a legitimação do divórcio? O nível da moralidade baixou,22 o neomaltusianismo alastrou as suas práticas criminosas, desorganizou-se a família, diminuiu a natalidade e o país inteiro ressentiu as consequências econômicas e políticas do descrescimento da população.

Mas o povo francês é um povo admirável. Nas reservas enexauríveis de energia espiritual acumuladas nos séculos de fé, ele encontra um força de resistência, uma princípio de ressurreição que causa maravilha. Dois séculos de esforços titânicos não vingaram apagar-lhe no coração os sentimentos católicos. Ao lado de França votlaireana que moteja e duvida, da França sectária que odeia e persegue, da França revolucionária que abate e destrói, vive e palpita a França católica que crê e ora, perdoa e edifica. Escarnecida e atribulada, ela encontrou e intensificou a sua vida sobrenatural para expandi-la em milagres de zelo e prodígios de caridade. Seus 50.000 sacerdotes e 200.000 religiosos oferecem ao mundo cristão o espetáculo consolador da virtude da ciência, do sacrifício, do heroísmo elevado a norma de vida cotidiana.

Parece-nos impossível que as suas grandes iniciativas civilizadoras, o sangue generoso de seus mártires, a dedicação acrisolada de suas irmãs de caridade não pesem na balança da Providência para resgatar os crimes de seus governos e os delírios de seus momentos de embriaguez. O bom senso, que lhe é tão natgural, há de prevalecer sobre os artifícios de seus sofistas. As lições da experiência acabarão por iluminar-lhe o caminho do futuro.

Já de há anos que no horizonte de sua intelectualidade se delineia um movimento de reação contra o sectarismo anticlerical. A
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22. Restituindo a M. d"HULST alguns documentos que este lhe empretara. TAINE arerrorizado pela decadância moral de Paris, disse ao prelado: "Se a Igreja pelos milagres do seu zelo não conseguir reconlquistar estas massas pagãs para delas fazer um povo de crentes, adeus civilização francesa". Referido por BAUMARD, Un siècle de l'Eglise da France(4), Paris 1906, p. 501. Sobre a moralidade em frança, voltaremos a falar mais tarde.
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volta ao cristianismo como único meio de salvação é preconizada por pensadores de alto valor e de diferentes escolas.

Falando em geral das raças latinas já dissera o pensador espanhol DONOSO CORTÉS que tinham sido envenenadas, e LE PLAY: "elles ont touché à quelqu'un des principes sociaux qui font les peuples prospères".23 É o que já se vai reconhecendo em França.

TAINE escreveu: "Il n'y a que lui (le christianisme) pour nous retenir sur notre pente fatale, pour enrayer le glissement insensible, para liquel incessamment et de tout son poids original, notre race rétrograde vers les bas-fonds".24 Mais perto de nós PAULO BOURGET: "Une longue enquête sur les maladies morales de la France actuelle m'a contraint de reconnaitre à mon tour la vérité proclamée par des maîtres d'une auctorité bien supérioeure à la miennne: Balzac, Le Play et Taine, à savoir, que pour les individus comme pour la société, le chrsitianisme est à l'heure présente la condition unique et nécessaire de santé et de guérison".25 Nem fora difícil colher citações como estas em DESJARDINS, G. DURUY, A. LEROY-BEAULIEU, BRUNETIÈRE, E. DE GOGÜE, etc.

São sintomas consoladores. Ao sopro deste ares oxigenados sente-se renascer a esperança no coração. Não, não se pode falar de decadência da França. Foi uma doença, uma crise, uma tempestade. As armas da cidade de Paris representam um navio balouçado pelas ondas com o mote: Fluctuat nec mergitur. Aí está em três palavras a história da frança moderna.

Mas se um dia, a pátria de VOLTAIRE vier a submergir e perder-se entre os vagalhões da terrível procela que a agita, responsáveis do imane desastre serão os que a desencadearam. A Igreja respeitada e obedecida, fê-la grande: perseguida e algemada, fêz tudo para salvá-la; definitivamente oprimida, com a sua ausência seria a sua
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23. O próprio RENAN que tanto trabalhaou na obra de descristinização, num dos seus momento de bom senso, parece ter entrevisto a mesma verdade: "Il se peut que dans norte ardeus révolucionaire nous ayons poussé trop loin les amputations; qu'en croyant ne retranche que des superfluites naladives, nous ayons touché à quelque organe essetiel de la vie si bien que l1obstination à ne pas se bien portes tienne à qualquer grosse lésion faite dana les lentrailles!. Cit por BOUGAUD, Le christianisme et les temps présents, t. IV(7). p. 327. Mais claramente LE PLAY: "Imersos em sofismas guindados a axiomas, nosso espírito fecha-se ante a evidência dos fatos que temos debaixo dos olhos e despreza as verdades tradicionais que todos os povos prósperos continuam a respeitar... deslocamo-nos em esforços estéreis para criar uma sociedade nova, detruindo violentamente os usos e costumes que fizeram a grandeza dos nossos avós para inspirar-nos em quimeras condenadas pela própria natureza do homem". L'organisation de la famille (3) Tours, 1884, pp. XVII-XVIII.

24. TAINE, Origines de la France Contemporaine(25), Paris, 1907, 6. XI, çp. 147.

25. F.; BOURGET, Préface de ses oeuvres, 1900.
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perdição. Não se bebe impunemente veneno, não se rejeita, sem arriscar a vida, o único antídoto eficaz.

Áustria - A Áustria foi talvez das nações católicas a mais hábil em estorvar a ação benéfica da Igreja no último século. Sem as violências do sectarismo francês, o febronianismo e o josefinismo estancaram as fontes da vida religiosa no país. Aqui como lá se seguiram os mesmos efeitos na decadência dos costumes.

Outra causa, porém de ordem puramente natural, contribuiu poderosamente para o enfraquecimento do grande império. Refiro-me ao princípio das nacionalidades, proclamado e vulgarizado no século XIX. A Alemanha e a Itália deveram-lhe a sua unidade. Nos Balcãs, a Grécia, a Sérvia, a Bulgária e a Rumânia reconquistaram a sua independência. Foram beneficiários do princípio; outros sofreram-lhe as consequências desagradáveis. Nenhum, porém, com tanto perigo de vida como esta grande unidade política constituída por tantas unidades étnicas heterogêneas. Na esperança da autonomia, magiares, tchecos, croatas, rutenos, polacos, eslovenos, rumenos e italianos fremiam sob a coroa dos Habsburgos, relaxando com os seus particularismos nacionalistas os vínculos da união e da paz social. Os desastres da última guerra precipitaram a divisão e o esfacelo. Destarte, o mesmo movimento geral de idéias sociais a que deveu a Alemanha a sua unidade política, minou os alicerces da monarquia dualista. Em tudo isto não há que apurar responsabilidades religiosas, católicas ou protestantes.26

Itália. - A vida das nações na sua evolução política reproduz em grande as vicissitudes da vida individual. Como os indivíduos, os povos nascem, desenvolvem-se, atingem o apogeu da virilidade e depois entram a declinar até eclipsar-se nas penumbras da decrepitude ociosa ou abismar-se de todo nas sombras de uma noite indefinita. O eixo da civilização desloca-se. O sol, que outrora iluminara estas nações nos dias do seu esplendor, tramonta e vai vivificar com o seus raios outras raças, outros continententes. Será mister esperar então no silêncio e na obscuridade de uma hibernação multissecular a aurora de um novo dia para recomeçar o mesmo ciclo. É a lição da histsória.
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26. Antes, se alguma culpa há, é do lado dos protestantes. O grande arquiduque vítima da tragédfia de Serajevo, declarou um dia em termos enérgicos que os verdadeiros culpados das discórdias, intestinas nas regiões cisletãs, eram os que haviam apostatado da fé e da pátria, levantando a brado pangermanista e anticatólico: Los von Rom.
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À razão investigadora do filósofo, a difícil terefa de assinalar na ação multiforme dos agentes físicos, econômicos, militares, sociais, morais e religiosos, as causas que determinaram assim a ascensão como o declínio destas grandes instituições humanas.

Já tivemos ensejo de admirar a grandiosa expansão civilizadora das cidades italianas nos últimos séculos da idade média. Cumpre-nos agora investigar as causas de sua relativa decadência nos séculos posteriores.

A primeira foi o descobrimento da América e dos novos caminhos para as Índias. "A mudança nas grandes vias comerciais do mundo é uma questão vital para os povos".27 Ora, com as empresas marítimas do século XVI, o eixo do comércio europeu, que tinha seu centro no Mediterrâneo, deslocou-se para o Atlântico. As nações ribeirinhas do grande oceano - Inglaterra, França, Espanha, Portugal e Holanda - beneficiariam da nova ordem de coisas com detrimento das repúblicas italianas. Ao mesmo tempo, as conquistas do turco despojavam-nas das suas melhores colônias e lhes fechavam o caminho do Oriente. Em 1517 SALIM I apoderava-se do Egito. Gênova já em 1475 perdera Kafa. Veneza viu fugir-lhe Creta na guerra de 1545-1669 e, no século seguinte, com exceção de algumas ilhas jônias, quase todas as outras possessões do Oriente e da Ásia Menor.

No continente não foram menos desfavoráveis à Itália as novas relações comerciais. As manufaturas de seda de Tours e de Lião, fechando a porta aos produtos similares da Toscana - uma das consequências da aliança dos Médices com a casa de França - estancaram-lhe a principal fonte de riqueza. Os trabalhadores e operários da península emigraram em massa para a França e a Inglaterra. Em dois séculos, a população da Toscana baixou de 3 milhões a 1.200.000 habitantes. Por esta mesma época, a política maquiavélica, sacrificando o bem nacional à chamada razão de estado e inspirando nos príncipes italianos uma série de medidas econômicas errôneas - impostos proibitivos, tributos opressores, etc. - foi outra peia a travar o desenvolvimento material do país.

Nos fins do século XVIII e princípio do XIX as guerras napoleônicas devastaram e empobreceram os estados da península. Finalmente depois da invenção do vapor e suas aplicações a quase toda
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27. KARL KNIES, Die politisch Oeconomia vom Standpukte der geschichtlich Methode. Braunschweig, 1853, p. 77. Sobre a influência econômica dos fatores geográficos, políticos, históricos e intelectuais, cfr. ibid., pp. 70-123.
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a maquinaria moderna, a falta de carvão, nervo da indústria, colocou a Itália em situação de manifesta inferioridade relativamente à França, Inglaterra e Alemanha.

Enquanto estes agentes geográficos e econômicos atuavam desfavoravelmente no bem material do povo, outras causas sociais, influindo num plano superior, semeavam, em quase toda a península a discórdia e a revolução. A influência nefasta dos carbonários e de outras sociedades secretas no destino da Itália durante o século XIX constitui uma das páginas mais tristemente instrutivas de sua história. Não quero entrar em pormenores odiosos.

É sabido ainda que no novo estado de coisas criado pela revolução piemontesa, os católicos por 50 anos se abstiveram de qualquer intervenção política no governo do país. A oligarquia parlamentar, na falta de partidos organizados, esteve por vezes a pique de arruinar completamente a nação, enquanto a propaganda socialista fazia terríveis estragos e dividia os seus habitantes em facções armadas, disseminando os germes da guerra civil. Uma folha liberal de Berlim o Nationalzeitung já há anos havia observado que à Italia faltou "um centro que moralizasse os negócios parlamentares"

Os horizontes políticos parecem atualmente desanuviar-se, iluminando-se o futuro com réstias de claridade e de esperança. As lições da guerra não serão talvez perdidas.

Bélgica - Até agora estudamos nações outrora oficialmente católicas e florescentes em que um complexo de causas naturais, atuando de concerto com um cega política anticristã, determinou um eclipse mais ou menos longo e profundo nos esplendores da sua antiga grandeza material.

A Bélgica em nossos dias oferece-nos o exemplo de uma nação católica, desde 1884 governada por uma maioria católica, e no auge da prosperidade econômica e intelectual. A sua situação geográfica, a atividade da raça, a riqueza de suas minas, a fertilidade o solo, tudo a talhava para um grande povo num pequeno território. O catolicismo de súditos e governo impediu-lhe, porventura, o surto do progresso? É ver.

Nenhum país tem uma população mais densa: 7 milhões de almas vivem numa área insignificante. E vivem felizes na abundância e na prosperidade. Grande parte de seus habitantes são agricultores e destes cerca de 65,5% proprietários. O Comércio e a indústria ocupam o resto da população. O país possui a mais perfeita rede ferroviária do mundo. Tudo progride, tudo prospera neste povo
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admirável. "Nous frégilons dans la prospérité" escrevia há poucos anos um radical belga. A exportação, que em 1840 era de 139 milhões de francos, elevou-se em 1903 a 1949 milhões. O comércio total de 3.282 milhões em 1870 passou a 7.005 em 1901. Sob o governo católico aumentou de 1/4. A começar de 1889 a Bélgica alcançou o primado na exportação: 292 francos por habitante. Segue-se-lhe a Suiça com 265.

Com este maravilhoso surto econômico não se desenvolveram o pauperismo e a miséria que são o fundo negro da prosperidade de outros países, nomeadamente da Inglaterra. A plutocracia dos milionários, não absorve, como ervilhaca daninha, a seiva que devia alimentar o povo. Os monopólios e "trusts" não escravizam o trabalho e o comércio livre. Sob o governo católico cada habitante paga 29 francos de impostos e taxas, enquanto esta soma é na Alemanha de 32 frs., nos Estados Unidos de 49, na Inglaterra de 65 e na França de 76. Até hoje é o país que melhor resolveu a questão social, espantalho de outros povos do velho mundo. Com o seu admirável sistema de instituições sociais - cooperativas, mutualidades, sindicatos, institutos de benefiência - a Bélgica marcha à frente da civilização européia.

É glória singular esta de uma governo católico, que a Bélgica "as a result of its administration, stands today industrially among the five greatest countries; socially a shining example, copied by many and second to none; morally a worth exponente of true christian principles".28

E a instrução? Em 1884, 345. 687 alunos frequentavam as 4.887 escolas dependentes do estado. Em 1897 o número das escolas era de 6.608 e o dos alunos de 764.272. Em 13 anos, o governo católico havia duplicado a frequência escolar.29

Que prova mais evidente, mais palpável de que o catolicismo não contraria o progresso material e intelectual dos povos que se lhe confiam? Podemos, pois, concluir com EDUARDO DUMONT: "L'éclatante prospérité de la Belgique actuelle est un éloquent et périemptoire démenti à tous ceux qui prétendent que les pays catholique sont irrémédiablement voués à la décadence. Les pays catholiques qui sont en décadence sont ceux qui ne sont pas restés catholiques".30
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28. The Month, May, 1910, p. 105.

29. Cfr. VERMEERSCH, Manuel social, Louvain, 1900, p. 260. Outras estatísticas não menos significativas na 2a. ed. da mesma obra, Louvain, 1904, p. 354.

30. Ct. por YVES DE LA BRIÈRE, Etudes, t. 104, 1905, p. 640.
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Irlanda. - Não quisera ocupar-me aqui da infeliz Irlanda. Mas alguns polemistas protestantes, refinando a crueldade com o sarcasmo, requintando a injustiça com o cinismo, não hesitaram em invocar o exemplo desta desafortunada nação como prova da índole mortífera da influência social do catolicismo. Já ouvimos a NAPOLEÃO ROUSSEL todo ocupado em fazer o inventário de uma pobre aldeia irlandesa. LAVALEYE recanta o mesmo estribilho. C. PEREIRA, navegando na esteira do "sapientíssimo professor de Liége", depois de confessar que até ao século XVI "sobrepujavam os irlandeses" afirma que "de então para cá os escoceses levaram decidida vantagem". Por que? "Duas populações, lado a lado, da mesma raça, sob o mesmo regime político,31 que outro fator pode explicar o contraste senão os respectivos sistemas religiosos?", p. 119.

Estas palavras me persuadem que o Sr. C. PEREIRA não conhece a história da Irlanda. Se a conhecesse, ao menos por estratégia polêmica, calaria este confronto. Vou adiante. Se o adversário não ignorasse o martírio desta nação heróica, nobre vítima da intolerância protestantes, encontraria no seu coração honesto e generoso um grito de indignação humana contra a barbárie cural que imolou um povo aos ódio de uma seita.

De fato, "toda a história não nos oferece doisa alguma que se possa pôr em confronto com os padecimentos da nação irlandesa".32 Do dia em que a Inglaterra, arrastada pela paixão de um rei sensual e ambicioso, se separou da Igreja para abraçar os princípios da Reforma, começou o longo calvário da nação mártir.

O primeiro suplício foi a expropriação e confiscação de bens. ISABEL, JAIME I, CARLOS I, CROMWELL despojaram os proprietário irlandeses de suas terras para reduzí-lo à miséria e à escrvidão. "Nos fins do século XVII os católicos irlandeses e anglo-irlandeses não possuíam mais que a sétima parte de sua ilha".33
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31. Aí já vão dois erros em meia frase: escoceses e irlandeses nem são da mesma raça nem vivem sob o mesmo regime político. Aliás o argumento teria o mesmo valor que este outro: Escolhei dois estados da união brasileira, sensivelmente desiguais na prosperidade e progresso econômico (deixo-os à escolha do leitor) e depois aplicai o raciocínio do nosso gramático: Duas populações, lado a lado, da mesma raça, sob o mesmo regime político, que outro fator pode explicar o contraste senão os respectivos sistemas religiosos? O pastor sociólogo, apesar de formado na escola de "sapientíssimo" professort não conhece outros coeficientes da prosperidade econômica senão a raça e o regime político!

32. BANCROFT, History of United States, London, 1861, 6. IV, p. 46.

33. BANCROFT, Op. cit., t. IV, p. 47; LINGARD, History of England(4), Londron, 1838, t. IX, c. 2, p. 149; c. 5, p. 342.
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Seguiu-se-lhe o do exílio e extermínio jurídico. Sob CROMWELL mais de cem mil cidadãos foram desterrados, vinte mil vendidos como escravos para a América, seis mil crianças de ambos os sexos lançadas fora da ilha e vendidas.34 De uma feita, mil donzelas foram arrancadas aos braços de suas mães, levadas a Jamaica e aí expostas ao mercado como escravas.35

Mas a fidelidade do povo à fé dos seus maiores não cedia à violência dos perseguidores. Novos suplícios: o extermínio feroz, a matança em massa. Quando os exércitos de CROMWELL entraram triunfantes na ilha oprimida, o sangue dos seus filhos correu em torrentes. Conta-se que o tirano-profeta baixara ordem de trucidar todos os católicos de 16 aos 60 anos, de arrancar os olhos aos de 6 a 16 e de traspassar o seio à mulheres. A soldadesca infrene atirou-se à carnificina. Impossível determinar o número das vítimas.36 Em Tredagh e Wexford não sobreviveram mais de 30 pessoas. Com alegria feroz, HUGO PETERS bradava aos seus: "Eia, senhores de Tredagh, 3.552 inimigos aqui foram mortos: nenhum poupado; vede, venho agora do templo aonde fui dar graças ao Senhor". À vista das maiores atrocidades, CROMWELL esclamava: Deus o quer.

Depois desses horrores, as execuções da justiça. Como se não bastara o sangue já derramado, para exterminar de todo os católicos ainda restantes, erigiu o gerente um tribunal, conhecido sob o nome de açougue (Cromwell's slaughter house). As sentenças de morte e de exílio por ele pronunciadas acabaram de semear a desolação e o terror na desventura ilha.37

A morte e a deportação não deram todo o resultado que se esperava. Como nas perseguições da Roma pagã, o sangue dos mártires era semente de cristãos. O catolicismo radicava-se cada vez mais profundamente no coração do povo fiel; 8/9 dos irlandeses eram ainda fiéis à fé avita. Excogitou-se então novo expediente: a
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34. C. CANTUI, Storia Universale(3), Torino, 1846, t. XVII, p. 395. (Cfr. BERNH. LESKER, Irland's Leiden und Kämpfen, Maiz 1881, p. 36 ss.

35. GUSTAVO DE BEAUMONT, L'Irlande sociale, politique et religieuse(7), Paris, 1863, t. I, p. 75.

36."Durante todos os séculos da sua existência não creio que a Inquisição condenasse à morte tantas vítimas quantas em 11 anos (1841-2652) sacrificou a Inglaterra para protestantizar a Irlanda". C. CANTU, Storia Universale(3), EPOCA XII, c. VI, Torino, 1843, t. XII, p. 204.

37. Cfr. BEAMONT, l'Irlande (7), t. I, p. 74; P. F. MORAN, Historial sketch of the persecution suffered by the catholics of Ireland under the rele of Cromwell, Dublin, 1862, LINGARD, History of England(4), t. X, c. 5, 296 sgs.: B. LESKER, Irland's Leiden, p. 25 sgs.
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excomunhão social, o ilotismo. Todos os católicos, como bestas-feras que se aferrolham em jaulas, foram expulsos das outras regiões da ilha, logo dividida entre os invasores, e encurralados na província de Connaught. Quem lhe ultrapassasse os limites poderia ser morto por qualquer cidadão.38 Aí viviam os antigos proprietários e senhores, excomungados do convívio social, como párias num inferno terrestre de fome e de misérias.

Mas a palavra de extermínio da Irlanda havia sido pronunciada pela Inglaterra... A violência e a crueldade tinham exaurido os seus recursos e a Ilanda perserverava católica. Impossível continuar indefinitamente esta política de sangue. Inaugurou-se então, sob Guilherme de ORANGE, o último gênero de suplício, o mais duradouro e o mais degradante: o suplício legal, a perseguição pacífica das leis. Aos membros das duas câmaras foi imposto (oh! livre exame!) um juramento em que se declara idolatria a transubstanciação, o sacrifício da missa e a invocação dos santos. Era excluir de vez do governo do país todos os católicos que lhe constituíam a maioria e entregá-los à mercê da minoria opressora.39 O arsenal das leis ficava nas mãos exclusivas dos protestantes; nele se forjaram as novas armas da perseguição organizada em política.40

Leis para impedir que os católicos viessem a ser proprietários: um católico não podia possuir um cavalo cujo valor passasse de 5 esterlinas e se um protestante pudesse asseverar que excedia esta soma era autorizado a apoderar-se do animal, pagando 5 guinéus (1696); nenhum católico podia comprar bens fundiários nem arrendar terreno por mais de trinta anos (1703); se o lucro obtido das terras assim alugadas ultrapassava um terço das entradas, o protestante, que o descobrisse podia apropriar-se do excesso (1710); morrendo um católico, se não sua descendência havia um protestante, este era declarado único herdeiro dos bens com exclusão de todos os parentes católicos ainda mais próximos.

Leis para conservar os oprimidos na ignorância e no aviltamento: proibição aos protestantes de instruir católicos e a estes de abrir
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38.LINGARD, History of England(4), t. X, c. 6, p.369. Ao católico que porventura viesse implorar a compaixão dos seus perseguidores se lhe respondia com o anátema: vá para o inferno ou para Connaught. Era a alternativa entre a morte e o ostracismo. Cfr. B. LESKER, Irland's Leiden, etc., p. 27.

39. Aliás as leis expressas de 1692 e 1703 excluéram os católicos do parlamento; outra de 1728, privou-os do direito de voto.

40. Todas estas leis, extraídas dos estututos de parlamento irlandês e publicadas em 18 vols. em Dublin, 1779 forma recolhidas por G. de BEAMONT, l'Irlande(7), t. I, pp. 90-147; C. CANTU, Storia Universale(3), TGorino, 1846, 6. 17, pp. 1074-1079.

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escolas ou enviar os filhos ao continente em busca de instrução e ciência; autorização aos magistrados de enviar os filhos das famílias católicas à Inglaterra para se instruírem nos princípios da Reforma (1704).

Leis para sufocar a religião do país e escravizar as consciências: nas famílias católicas, se a mãe se declarava protestante, o pai perdia o direito de educar catolicamente os filhos; sacerdotes fiéis, condenados ao exílio, os apóstatas amparados oficialmente com honorários anuais de 20, 30 e 40 esterlinas (1704, 1705). Enquanto os ministros do culto nacional eram assim condenados ao exílio e à miséria, ao infeliz povo se impunham os mais pesados tributos para sustentar a igreja oficial e assegurar o primado do anglicanismo.

em 1834, o arcebispo de Cashel, o mais pobre dos arcebispos "anglicanos" da Irlanda, tinha uma entrada anual de 161 mil francos. Nesta mesmo província, quase na sua totalidade católica (apenas 5% dos seus habitantes eram protestantes), 20 milhões eram anualmente devorados pelos ministros de um culto que não era do povo e metade deste infeliz povo era todos os anos flagelada pela fome.

Eis o misérrimo estado a que a liberal e protestante Inglaterra reduziu a desventurada Irlanda! E este estado de coisas durou por mais de três séculos.41 Os primeiros temperamentos à severidade das leis datam dos fins do século XVIII e principalmente da campanha gloriosa de O'CONNEL que conseguiu em 1829 o bill de emancipação dos católicos ingleses. Para a nação mártir não foi ainda o esplendor da liberdade, foram os primeiros raios de uma feliz aurora que há de ter o seu meio-dia. A justiça da humanidade na voz da história responsabilizará o protestantismo inglês de não haver poupado violência, extorsões e atrocidades inauditas para eliminar da família das nações uma das raças mais belas, mais fortes, mais inteligentes, mais industriosas, que só na sua longa fidelidade à religião aviltada tem o testemunho mais eloquente de sua grandeza. moral.

Mas o protestantismo foi sempre assim, intolerante e fanático desde o seu nascimento. E se por toda a parte, onde logrou triunfar, não deixou após si tão longo cortejo de sevícias e de misérias é que não encontrou em toda a parte vítimas de igual resistência.
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41. Cai a talho a observação de NEWMAN: "O catolicismo não tem necessidade de fundar-se no poder civil. A Irlanda é uma prova. Aí... foi ele perseguido por mais de três séculos e hoje ainda domina mais forte que nunca. Apontem-me uma nação que nas mesmas condições se conservasse luterana ou calvinista por cem anos". NEWMAN, Lectures on he present position of the catholics en England (6), London, 1889, lect. II, pp. 55-6.
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à vista deste quadro negro de que apenas esboçamos as linhas principais, escrevi agora, como o escárnio do algoz que insulta a sua vítima, a inconsciente pergunta do Sr. C. PEREIRA: "Duasl populações, lado a lado, da mesma raça sob o mesmo regime político (III), que outro fator pode explicar o contraste senão os respectivos sistemas religiosos?".

Não; para honra do protestantismo fora melhor correr o véu do silêncio sobre esta história de sangue e de iniquidade. A Irlanda é "esta nação mártir na qual parece que a Providência tenha querido expor aos olhos do mundo no longo durar de três séculos, quantos suplícios pode sofrer a fé e inventar a intolerância sem que a primeira ceda à segunda, para glória de uma e eterna confusão da outra"42.

Um olhar retrospectivo. Desta rápida excursão pelas principais nações católicas da Europa desprendem-se, necessárias o óbvias, as conclusões seguintes.

A decadência econômica de algumas dentre elas prende-se, como efeito espontâneo, ao jogo das causas físicas e políticas, sobre as quais nenhuma influência direta pode exercer a religião.

A decadência social e política, visível em abalos que lhe minaram a estabilidade dos alicerces, é fruto da revolução e da apostasia dos antigos princípio católicos. Se representarmos com uma parábola a trajetória de sua grandeza política e com outra a de sua fidelidade à religião católica, verificaremos facilmente que as duas curvas desenvolvem paralelamente os seu ramos ascendentes e descendentes.

Onde as forças naturais e a Igreja se uniram em hamoniosa aliança nasceu este primor da civilização moderna que se chama Bélgica.
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42. AUG. NICOLAS, Du protestantisme et de tourtes les hérésies dans leur rapport avec le socialisme(2), I, II, c. 2.
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