terça-feira, 12 de outubro de 2010

Moral protestante: o abandono da moral católica.


Do blog : A IGREJA, A REFORMA E A CIVILIZAÇÃO
Capítulo III
A IGREJA, A REFORMA E MORAL
§ 1. - A moral nas doutrinas da Reforma.
SUMÁRIO - Introdução: a santidade na Igreja católica. Doutrinas morais da Reforma: ausência de princípios intelectuais; determinismo fatalista: dogmas negados; dogmas afirmados.
Com a moral entramos diretamente no campo da influência religiosa. Se outras houvessem sido na história as condições econômicas e intelectuais da humanidade, o cristianismo pudera ter atingido a plenitude do seu desenvolvimento religioso sem todas essas criações admiráveis que lhe constituem outros tantos títulos de glória nos fastos da civilização terrena. Mas a sua eficácia moralizadora, essa é-lhe essencial aos princípios de santidade, intrínseca à natureza de sua missão divina. Santificar os homens, arrancá-los às estreitezas do egoísmo estéril, elevá-los, pela prática da virtude, à altura do ideal cristão é o fim primeiro do Evangelho, é o campo natural onde se exerce a ação poderosamente benfazeja da verdade católica. Santa na sua origem, santa na Pessoa divina do seu fundador, santa na essência de sua constituição, santa na pureza ilibada da sua fé e dos seus ensinamento morais, a Igreja católica conserva sempre o segredo de santificar a humanidade decaída; santa, é mãe fecunda de santos.Estorvada pelos abusos da liberdade humana, pelo influxo deletério do ambiente social, pela revolta das paixões desencadeadas, pelas ingerências do poder civil, ela triunfou sempre, em muitos dos seus filhos, de todas essas influências do mal.
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Seus membros não foram nem são todos santos; são homens. Desdobrai as páginas da sua história. Podereis apontar épocas funestas em que os vícios do mundo contaminaram largamente as suas fileiras; podereis indicar mosteiros ou instituições religiosas que, esquecidas da perfeição evangélica, decaíram ao nível das paixões vulgares; podereis numerar sacerdotes ou bispos que mancharam o santuário com o exemplo de uma vida desregrada; podereis até contar (são raros!) Pontífices supremos que escandalizaram com os seus desmandos a cátedra apostólica, onde luziram as virtudes de Leão Magno, Gregório VII e Pio V. Cristo o havia profetizado. Na seara por ele plantada, ao lado do trigo havia de crescer o joio; na pesca divina das almas, entre as malhas da rede, se haviam de encontrar peixes bons e maus. A figueira estéril cresceria ao lado da árvore frutífera, as virgens loucas se irmanariam com as prudentes, Judas maquinaria o deicídio no colégio apostólico. São essas as taras inevitáveis de uma sociedade, divina na sua instituição, mas humana nos seus membros.
Ao lado, porém, destas obscuridades que formam a sombra do quadro, que luzes, que resplendores sobre-humanos! Enumerai em vinte séculos de civilização os grandes heróis da virtude, os grandes benfeitores da humanidade, as grandes instituições que deram ao mundo o mais belo espetáculo da abnegação, do sacrifício, do zelo e do amor: são frutos sazonados da seiva vivificadora da grande árvore católica. A tradição do heroísmo nunca se extinguiu na raça dos seus filhos. A chama da caridade nunca se apagou no seu seio. As árduas veredas da perfeição evangélica nunca deixaram de ser trilhadas pela legiões dos seus soldados.
De Estêvão aos negros da Uganda contemporânea, os fastos do seu martirológio; de Jerusalém a Lourdes, a crônica dos seus milagres; dos Apóstolos às legiões dos nossos missionários, a história do zelo; dos diáconos da Palestina e dos anacoretas da Tebaida a Vicente de Paulo, a D. Bosco, às multidões das nossas virgens e dos nossos virgens, os fatos da caridade, da abnegação, da pureza, foram continuamente iluminados pelo brilho de novas páginas.
A maternidade fecunda da Igreja nas gerações dos seus santos não conheceu nunca as intermitências do exaurimento ou a impotência da esterilidade.
Mas desta árvore divina, nas tempestades de 20 séculos, destacaram-se dezenas de ramos outrora florescentes e carregados de frutos. O orgulho, revolta do espírito, e a sensualidade, revolta da carne, separaram-nos do tronco comum. Caíram, muitos com grande
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estrondo e por algum tempo - (que montam poucos séculos na grandeza dos planos divinos?) vegetam no solo com os restos de uma vitalidade decadente. Mas, sem húmus e sem seiva, secou-os primeiro a esterilidade, desagregou-0s depois a corrupção da morte. É a história de todas as heresias.
O protestantismo foi o último galho lascado da árvore católica. Seus restos cobrem ainda larga parte da Europa setentrional. Aos olhos de observadores superficiais apresenta ainda o viço de uma verdura luxuriante. Mas são apenas folhas. Flores e frutos já os não produz. A mesma infecundidade moral que esterilizou as outras revoltas religiosas feriu também a do monge saxônio. Procurai os santos do protestantimo em quatro séculos de existência, inquiri do heroísmo dos seus filhos, investigai-lhe os milagres que são sigilo da divindade; não encontrareis, sob estes títulos, senão páginas em branco. Homens honestos, virtudes cristãs que não transcendem os limites da mediocridade, é o mais que nos podem oferecer os seus anais. A graça, nos segredo insondáveis da sua ação sobrenatural, pode ainda fecundar a boa fé e a intenção reta dos extraviados. Mas o segredo do heroísmo cristão, esse perdeu-se para as almas de escol, enquanto as grandes massas, destruídas as barreiras preservadoras, se precipitaram, sob a impetuosidade torrencial das paixões, nos grandes excessos, que cedo ou tarde acarretam a completa dissolução da vida moral e religiosa.
É esta decadência do protestantismo que ora nos cumpre esboçar. Dintinguiremos no nosso estudo duas questões: a questão de direito e a questão de fato. Analisando abstratamento os princípios, provaremos primeiro a incapacidade profunda e insanável em que se acha o protestantimo de promover a grandeza moral dos que o abraçaram e confirmaremos, em seguida, com o exame dos fato, a verdade das nossas conclusõe teóricas.
Na ordem natural e na ordem sobrenatural a Reforma protestante golpeou de morte os órgãos vitais da moralidade humana e do moralidade cristã.
Na ordem natural, são dois os elementos fundamentais da grandeza de caráter: princípios sólidos e imutáveis a iluminar as alturas da inteligência, força e constância de querer a fortificar as energias da liberdade. Sem a firmeza das verdades eternas que lhe fixam o
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ideal na corrente movediça das coisas que passam, o homem vive, ou, melhor, flutua à mercê dos acontecimentos. Cada capricho que lhe cruza pelo espírito, inspira-lhe uma resolução passageira, cada paixão, que lhe estua na alma, imprime uma orientação efêmera à sua atividade. No conflito dos apetites contraditórios nenhuma ordem, nenhuma harmonia de tendências, nenhuma subordinação hierárquica de faculdades. É nesta hesitação vacilante acerca dos grandes princípios moderadores da atividade humana que devemos procurar a causa primeira da crise de caracteres de que adoece a nossa civilização. JOUFFROY: "Personne n'a du caractère dans ce temps et par une bonne raison, c'est que des deux éléments dont le caractère se compose, une volonté ferme et des principes arrêtes, le second manque et rend inutile le premier".
Foi o protestantismo o primeiro a abalar nas almas a estabilidade das convicções. Perguntai ao protestante qual o princípio regulador da sua atividade moral. - A Bíblia, responderá, a Bíblia, única regra dos costumes como norma única de fé. - Mas Biblia quem a interpreta? A razão individual. Se vos apraz, podereis ver no livro divino, com LUTERO, a condenação da virgindade, a justificação da poligamia, a inutilidade das boas obras. A razão, pois, a razão subjetiva e mutável ao sabor das paixões, eis, em última análise, a regra de nosso operar.
As massas, desvinculadas assim da submissão a uma autoridade superior e incapazes de deduzir pessoalmente do livro inspirado um código de moral, deixar-se-ão levar pela torrente avassadora dos apetites desregrados.
O cultos, os intelectuais, vagando à mercê das variações da crítica racionalista, erigirão os próprio preconceitos em mandamentos éticos, construirão uma moral "independente" e oscilante sobre a areia movediça dos sistemas filosóficos. Para o jovem inebriado com os primeiros fumos da ciência, as regras aprendidas e praticadas na infância já não apresentam a solidez racional capaz de resistir aos embates críticos dos moderníssimos mestres do pensamento. O homem maduro achará levianas e superficiais as conclusões assentadas nos fervores entusiastas da juventude. Ao velho experimentado e desiludido afigurar-se-ão inconsistentes e eivadas de orgulho as construções morais de sua virilidade.
Destarte, de povo para povo, de época para época, de indivíduo para indivíduo, de idade para idade, o princípios morais variarão com a índole, com os caprichos da moda intelectual, com as paixões que agitam e diversificam as massas humanas no espaço e no tempo.
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O protestantismo em quatro séculos de existência, como não logrou assentar uma confissão de fé que reunisse o sufrágio universal das inteligências, assim não conseguiu estabelecer um código de moral que se impusesse à submissão de todas as vontades. A sua moralidade furta-cor, seu preceituário de mil fórmulas cambiantes, os seus mandamentos entregues à versatilidade interesseira do egoísmo, arvorado em norma suprema de ação, comprometeram irremediavelmente no domínio intelectual a eficácia regeneradora dos grandes e imutáveis princípio do cristianismo.1
Mais profundo ainda foi o golpe vibrado contra a vontade. O espírito, desenfreara-o LUTERO com o livre exame; a liberdade, encadeou-a nos elos de um determinismo fatal. Esse homem, que uma crítica míope pertinazmente hostil à Igreja proclamou o arauto das liberdades humanas, o emancipador dos povos livres, professa as teorias mais degradantes acerca do livre arbítrio, rebaixa a dignidade da nossa natureza ao nível do bruto, ao mecanismo inconsciente dos autômatas.
Para a Igreja católica o homem é livre. O pecado original vulnerou-lhe a prerrogativa divina, mas não a destruiu. Na revolta das paixões desencadeadas pela primeira prevaricação, na insurreição da concupiscência e dos apetites inferiores contra os ditames superiores do espírito, a vontade debilitada sim, mas não aniquilada, conservou na sua decadência o cetro da realeza primitiva. Ela é ainda raínha; o homem é ainda senhor de seus atos e, pela liberdade, o artífice dos seus destinos. A graça eleva, fortifica, sobrenaturaliza a vontade, mas no segredo insondável de sua ação nas almas, respeita-lhe sempre a independência nativa. A felicidade suprema da glória será conquista dos nossos esforços, prêmio das nossas virtudes, triunfo de nossa liberdade sobre o mal. As palavras de S. Paulo: gratia Dei mecum, resumem admiravelmente toda a economia da predestinação divina. Deus e eu: Deus com a sua graça, e, com a minha livre cooperação: eis os elementos essenciais e inseparáveis da nossa glorificação sobrenatural. Não se poderia melhor conciliar a gratuidade das generosidades divinas com a grandeza da dignidade humana.
À verdade destas doutrinas que elevam, opôs LUTERO as degradações do erro que avilta. Aos estudos católicos sobre a liberdade
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1. "L'homme est toujors disposé à échapper à la morale, et il Y échappe quand cette morale n'1est pas liée à une doctrine invariable". DE GROGLIE, Problèmes et conclusions de l'histoire des religions (2), Paris, 1886, pp. 115-16.
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contrapôs um livro demoralizador e intitulou-o De servo arbitrio, do arbítrio escravo. Para envilecer o homem era mister começar por desengastar-lhe do diadema a mais preciosa das suas jóias. Mas ouvi as suas próprias palavras: "A vontade do homem é semelhante a um jumento. Cavalga-o Deus? Ela vai aonde Deus a guia. Monta-lhe em cima o diabo? Ela vai aonde ele a conduz... Tudo se realiza segundo os decretos imutáveis de Deus. Deus opera em nós o mal e o bem. Tudo quanto fazemos, fazemo-lo não livremente, mas por pura necessidade".2
Os discípulos fazem eco à palavra do mestre. CALVINO: "Deus criou alguns para a condenação e morte eterna a fim de serem instrumentos de sua ira e exemplos da sua severidade, a a fim de que chegem a esse destino... cega-os e endurece-os". "Se ele determinou salvar-nos, a seu tempo nos levará à salvação; se determinou condenar-nos em vão nos atormentaríamos para nos salvarmos".3
Deus é o primeiro princípio do pecado. É por necessidade que o homem comete todos os crimes".4
MELANCHTHON: "A predestinação divina tira ao homem a liberdade porque tudo acontece segundo os seus decretos... e isto entende-se não só das obras externas mas ainda dos internos pensamentos". E,. levando a doutrina às mais execrandas, porém, lógicas conclusões, não hesita em afirmar que "o adultério de David e a traição de Judas, são obra de Deus como a conversão de S. Paulo".5 - Deus, autor do mal, o homem joguete inconsciente dos seus arbítrios, tal o resumo da doutrina protestante. Nunca a blasfêmia e a indignidade,
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2. De servo arbitrio ad Erasmum (1525), Weimar, XVIII, 635, 709 ss. "Foi o diabo quem introduziu na Igreja o nome de livre arbítrio". Weimar, VII, 145.
3.CALVINUS, Inst. de la relig. Crét., 1. III, c. 24, n. 12; c. 23, n. 12, Opera, IV, 521, 500. Todo o cap. 2 do livro II é consagrado a demonstrar "que l'homme est maintenant dépouillé de franc-abrbitre et misérablement assujetti à tout mal". Opera, III,m 296.
4. ZWINGLIO, Werke, II, 73, 184.
5. MELANCHTHON, comment. in Epist. Ad. Rom.Vertodo o trecho em ALZOG, Universalgeschchte der Chistlichen Kirche(7) Mainz, 1860, p. 755. - Este trecho escandaloso, conservado por CHEMMITZ, foi expungido das edições posteriores do comentário de MELANCHTHON. - Nos Loci theologici, obra que LUTERO chamou "invencível, digna não só da imortalidade senão ainda de ser inserida no cânon das sagradas Escritura" (Weimar, XVIII, 601), MELANCHTHON diz-nos que a liberdade "é um dogma ímpio infiltrado no cristianismo pela filosofia". Corp. Ref. XXI, 86. Mais tarde, desvinculado da influência do artigo mestre e ensinado pela experiência, o reformador humanista acolheu-se a idéias mais sensatas. - As fórmulas simbólicas do protestantismo ressentem-se das opiniões individuais dos teólogos que as elaboram. Para umas, a liberdade é um fato, para outras, um nome oco, sem realidade. Negação do livre arbítrio pode ver-se, por exemplo, na solida declaratio, II, De lib. arb. §§ 5, 7, 30, 44; nos Artigos de Smalcalda, Part. III, Art. I § 5. J; T. MÜLLER, Die wymbolischen bucher der evangelisch-luterischn Kirche(9), Gütersloh, 1900, respectivamente, pp. 588, 589, 596, 598, 311.
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o ultraje à santidade divina e à grandeza humana concluíram mais revoltante conspiração.
E aí temos como Lutero e os seus aniquilam o valor da personalidade. Sem livre arbítrio não há imputabilidade, não há mérito, não há moralidade. Em tudo o que se refere a sua atividade moral, o homem não passa de uma "estátua", de um "tronco inerte", de uma "pedra". São ainda comparações do chefe reformador, que considerava este artigo da vontade escrava como a quinta essência, a fina flor da sua doutrina, "omnium optimus, et rerum nostrarum summa".6 Após 15 séculos de liberdade cristã eis-nos novamente precipitados na escravidão do fatilismo antigo.7
Depois de haver assim na ordem humana desorganizado as duas grandes molas da vida moral, substituindo na inteligênica a estabilidade dos princípios pela arbitrariedade do capricho e enervando a vontade com declará-la radicalmente incapaz de praticar a virtude, na sua freima demolidora artiraram-se os corifeus da Reforma sobre o edifício sobrenatural dos nossos dogmas e, um por um, destruíram os mais divinamente consoladores.
Com todo o peso de sua divina autoridade, Cristo impôs ao gênero humano o jugo austero da sua moral imaculada. Ao homem decaído que se revolvia no lodo dos vícios mais abjetos, dirigiu a voz taumaturga da regeneração: sursum, para o alto! Eleva-te a revalizar com os anjos na pureza da vida! Mas ele bem conhecia a fragilidade
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6. Weimar, VII, 148. Cfr. J. T. MÜLLER, Die Symbolischen Bücher, p. 593.
7. Quereis ver ainda até a que baixeza o homem é degradado na pena de LUTERO? Lede esta página que peço desculpas ao leitor de transcrever em toda a nudez cínica do seu realismo cru: "sei que se alguém experimentou o temor e o peso da morte prefirira ser um porco a ver-se continuamente acabrunhdo pelo vexame de semelhante opressão. Na sua lama, o suíno julga-se num leito de plumas; descansa pacificamente, ronca suavemente, dorme tranquilamente; não teme reis nem senhores, morte nem inferno, demônio nem cólera divina; não o agita a menor preocupação, não se inquieta mesmo com a bolota que há de comer. E se o sultão de todas as Turquias acertasse de passar-lhe ao lado no fasto do seu poder e de sua realeza, ele conservaria toda a sua altivez e não sacudiria em sua honra uma só das suas cerdas. Se o enxotam, solta um grunhido, e se pudera falar diria: Pobre insensato, por que te irritas? Não tens a décima parte da minha felicidade, não passarás nunca uma só hora tão tranquila, tão suave, tão calma, como todas as minhas, ainda que foras dez vezes mais rico e poderoso. Numa palavra, o porco vive numa segurança completa, sua vida é toda doçuras. Se o levam para o matadouro, pensa simplemente que é um tronco de madeira ou uma pedra que o incomoda. Até morrer, não espera a morte. Antes, no momento e depois da morte, não experimenta o que é morrer; a vida lhe pareceu sempre boa e eterna. Neste ponto, nenhum rei, nem mesmo o messias dos judeus (o que eles ainda esperam), homem algum por mais hábil, rico, santo e poderoso, o poderá imitar". Ap. PAQUIER, Luther et le luthéranisme, t. II, pp. 10-11. Nos inquilinos das pocilgas achou o reformador o ideal da felicidade! Hino agora ao emancipador da dignidade humana, palmas ao libertador das consciências!
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da nossa argila, as profundezas do abismo em que nos precipitara o pecado e por isso adoçou as severidades do dever com as suavidades do amor. Ao lado de cada espinho fez desabrochar uma rosa. vigorizou as pusilanimidades do nosso abatimento com os raios vivificantes da esperança. Sobre a nossa esterilidade ariu, aos borbotões as fontes perenes da sua graça. O protestantismo revoltado não teve f´nos excessos da caridade divina e, com a negação, introduziu a desordem nos planos admiráveis da economia salvadora.
Que de mais confortante para o miserável pecador que o dogma das indulgências? Que de mais consolador que o dogma do purgatório onde se purificam as almas dos justos das nódoas contraídas na sua peregrinação terrena? Que de mais justo e misericordioso que a diferença entre o pecado mortal e o venial, a estabelecer uma distinção entre os crimes que nos matam na alma a vida divina da graça e as faltas a que não pode subtrair a nossa fragilidade? Que de mais sauve que a comunhão dos santos, a instituir na ordem sobrenatural esta solidariedade, em virtude da qual somos fortificados pela intercssão e pelo mérito de nossos irmãos? O protestantismo levantou o alvião sacrílego contra todas estas admiráveis construções do amor divino. De todas elas não restam senão ruínas acumuladas pela negação destruidora.
Mas de todas as invenções da misericórdia encarnada não há outras que tão de perto toquem a nossa vida moral e tão intimamente se predam ao coração do cristianismo como a confissão e a eucaristia.
A confissão é o arrependimento, é o perdão, é o propósito. O arrependimento que apaga um passado de culpas, o perdão que verte sobre o presente, o bálsamo das suas consolações inefáveis, o propósito que ilumina o futuro com as perspectivas da regeneração. Que alavanca mais poderosa para a atividade moral? Lançar frequentemente nas consciências a sonda de um exame imparcial, resgatar com lágrimals sinceras os desvarios da nossa liberdade, firmar as energias do nosso querer com o vigor das resoluções incondicionadas, abrir toda a alma às infkuências reabilitadoras da graça, aos raios da esperança, à tranquilidade fecunda da paz de consciência - haverá humanamente falando, divinamente falando, meio mais eficaz para elevar, conservar o coração nas regiões serenas da virtude?
O protestantismo negou tudo isto, e negado-o "desconheceu um dos meios mais suaves para dar à vida do homem uma orientação conforme aos princípio da sã moral".8 Pecaste? Persuade-te que
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8. BALMES, El protestantismo, etc., c. 30.
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Deus te perdoou, que a sua justiça cobre os teus pecados, que a tua fé é inamissível e, com a fé, a graça. Se esta persuasão entrou na alma é o descanso no pecado, o hábito do mal, o endurecimento; se não, é o terror, o desespero. Compreendo agora em lábios protestantes estes gritos d'alma: "Oh! Que não daria eu para ajoelhar-me num confessionário católico!" (M. DE STAEL). "Quem não lançou olhos invejosos ao tribunal da penitência nas amarguras do remorso, nas incertezas do perdão divino, ouvir uns lábios, que, com o poder de Cristo, lhe dissessem: "Vai em paz, teus pecados te são perdoados"?9
A confissão é o amor, que perdoa e regenera. A eucaristia é o amor que se imola, o amor que se comunica às almas nos amplexos inefáveis de uma união divina. Quem não teve fé no amor misericordioso, não pôde compreender o amor unitivo. Negada a confissão, como afirmar a eucaristia? LUTERO também aqui deu o primeiro passo na via das negações. A hóstia consagrada não é o corpo de Cristo, contém-no apenas transitoriamente. CALVINO foi além e no mistério dos nossos altares viu, não uma realidade consoladora, mas apenas um símbolo, uma figura vazia de verdade. Daí à negação completa a distância era pequena e transpuseram-na logo os seus sucessores. A missa foi proscrita como rito idolátrico e os tabernáculos ficaram vazios na solidão dos templos protestantes.
Mas que vale um cristianismo em eucaristia: sem a eucaristia-sacrifícxio, centro em torno do qual gravita toda a vida liturgica, sem a eucaristia-sacramento, fonte donde mana, em toerretes, a graça, vida sobrenatural dos crentes? Estinguiram o fogo; o amor entibiou-se nos corações. Estancaram os mananciais; as almas esterizaram-se. As flores mais belas, que no cristinismo haviam desabrochado ao sol de Jesus-Hóstia, feneceram à míngua de calor e de luz. Murcharam os l´rios, esmaceram as rosas, scaram as rioletas. O sacerdócio casou-se, os mosteiros despovoaram-se, o apostolado mecantilizou-se, a caridade exilada das almas buscou um refúgio e passou do coração para a algibeira. O protestantismo não tem Irmãzinhas dos pobres, Irmãos de S. Vicente, não tem ordens religiosas, não tem ministros continentes, não tem legiões de mártires nem de virgens. Onde quer que a virtude se eleva
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9. E. NAVILLE, Thèse defendue davant l'Academie de Benève, 1839. Cit. por E. DUPLESSY, Les apologistes ou dix-newvième siècle(7), Paris, Beauchesne, 1910, p. 238.
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à altura do heroísmo,não achou discípulos entre os descendentes de LUTERO. O heroísmo cristão alimenta-se no sangue generoso de Cristo.
Não parou nesta primeira negativa a obra nefasta de desmoralização iniciada pela Reforma. Depois de negar, o protestantismo afirmou. Negou todos os dogmas que inspiram, que elevam, que sustentam as almas nas esferas sublimes do sacrifício e do heroísmo. Afirmou em seguida um dogma novo que, em si, encerra o germe não só da corrpção mas da completa dissolução da vida moral. Refiro-me à doutrina protestante da inutilidade das boas obras.
Falando da liberdade, já tivemos ensejo de observar como o dogma católico concilia admiravelmente a gratuidade da graça divina com o exercício da nossa atividade livre. O auxílio de Deus, absolutamente necessário para elevar as nossas ações à ordem sobrenatural, não dispensa de modo nenhum o esforço das nossa cooperação. Nas finezas do seu amor, dispôs Deus que o /homem fosse o artista da sua felicidade.
Destarte, nascidas do conúbio misterioso da graça divina com o livre arbítrio humano, são as nossas ações germe fecundo de vida eterna. Verdade altamente digna da misericórdia de Deus e da grandeza do homem, verdade altamente estimuladora da nossa atividade moral. E a sagrada Escitura no-la ensina frequentemente, inculcando a necessidade das boas obras. Que é o magnífico sermão da montanha senão uma promessa da glória aos que praticam o bem? Que razão da suprema sentença aduzirá Cristo juíz, senão as boas obras praticadas pelos eleitos e descuradas pelos réprobos? Ouvi ao Príncipe dos Apóstolos: "Procurai por meio das boas obras, assegurar a vossa vocação e eleição". I Petr., I, 10. Ouvi a Tiago: "a fé sem obras é morta". Jac., II, 20. Abri os Evangelhos, lede todas as epístolas apostólicas. Desta leitura resultará evidente como a luz meridiana que o cristiaanismo ´um grande código de moral imposto à humanidade para a sua salvação. Cristo é Redentor não só, mas legislador também. Não basta crer, é mister ajustar as obras à fé; não basta o símbolo, é necessário também o decálogo; se vis ad vitam ingredi serva mandata. Math., XIX, 17.
A primeira preocupação de LUTERO e de seus amigos foi alijar a carga pesada das boas obras. Era mister forjar um novo cristianismo
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carrancudo, mais ameno e prazenteiro. "A palavra Evangelho significa boa nova, doutrina grata e consoladora para as almas... ouvir que a Lei já foi observada por Cristo, que nós não a devemos observar, mas só unir-nos pela fé àquele que por nós a observou".10
É a doutrina da justificação pela fé, que, na opinião do heresiarca resume a quinta essência do cristianismo, e, na realidade, é a chave de abóbada e todo o seu sistema teológico. Ei-la em das palavras.11
O pecado original causou a depravação total do homem. A sua inteligência, nas coisas morais e divinas, não pode senão errar, a sua vontade, por mais que se esforce, não faz senão acumular pecados. E este estado de decadência identifica-se de tal modo com a essência da natureza humana que é impossível uma regeneração interior, uma verdadeira renovação espiritual. Qual será então o efeito da morte redentora de Cristo? Uma justificação simplesmente externa, equivalente a uma não-imputação do pecado. Cristo satisfez por nós, Cristo mereceu-nos o céu com o seus sofrimentos. A generosidade e a abundância de sua Redenção dispensam-nos de qualquer cooperação individual, de qualquer atividade própria, dispensam-nos até o arrependimento e do amor. Para ser justificado basta crer na eficácia do sangue divino. A fé cobre todos os nossos pecado.12
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10. Weimar, I, 105. No comentário ao c. 40 de Isaías: "Esta é nossa doutrina que sabemos eficaz para consolar as consciências. Viveremos livres, lsem lei, e nos persuadiremos que os nossos ecados nos foram perdoados", Weimar, XXV, 249.
11. Sobre a teoria da justigficação em LUTERO e a sua dissolução gradual pelas diferentes facções protestantes, cf. J. A. MOEHLER, Symbolik, oder darsllung der dogmatischen Gegensaetze der Katholiken und Protestanten nach ihren oeffentlichen Bekenntnisschriften(9). Mainz, 1884, 1. I, c. 3. pp. 99-253. Desta obra clássica escreu GOYAU: "La Symbolique est le levre le plus profond que, depuis Luther, une plume catholque Allemande ait écrit sur la Réforme" G. GOYAU, Moechler, Paris, Blod, 905, p. 38. Cfr. ainda: J. SCHWANE, Histoire des dogmes, trad. franc. de A. Degert, Paris, Beauchesne, 1904. T. VI,205-239; H. GRISAR, Luther, Freib. i, B., Herder, 1911, t. II, 737-781. Este último autor estuda a teoria de LUTERO à luz das experiências religiosas e lutas internas de consciência desta alma devorada de escrúpulos e ralada de remorsos. Não é a teologia, é a psicologia que explica a origem da justificação luterana.
12. Livro da Concórdia: "Et quidem neque contritio neque dilectio, neque ulla alia virtus, sola fides tamquam medium et instrumentum quo tratiam Dei, meritum Christi et remissionem peccatorum apprendere et accipere possumus". Solida Declaratio, III, De justitia fidei, J. T. MÜHLER, Die symbolischen Bücher Der evangelisch-lutheranishcen Kirche(9),Gütersloh, 1900, p. 616. Na Apologia da Confissão Augustana: "Sola fide in Christum, non per dilectionem, nom propter diletionem at opera consequimur remissionem peccatorum, etsi dilectio sequitur fidem. Igitur sola fide justificamur".
Corp. Reformat., XXVII, 440. Em J. T. MÜHLER, p. 100. LUTERO: "Haec est ardua et insignis dignitas veraque et ominipotens potestas, spirituale imperium in quo nella res tam bona, nulla tam mala quase non in bonum mihi cooperatur. Nulla tamen mihi opus ets cum sola fide sufficiat ad salutem". Weimar, VII, 57.
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Desacompanhada de obras, de contrição e de caridade, ela é o processo mecânico e externo, o instrumento com que nos apropriamos os merecimentos de Cristo, alcançamos a graça e a remissão, ou , mais exatamente, a não-imputação das nossas culpas.
Coberto assim ao olhos de Deus com o manto dos méritos do Redentor (por uma ficção jurídica indigna da santidade divina), o homem continua na realidade e instrinsecamente pecador e fonte contínua de pecados. Todas as suas ações, ainda depois de justificado, são pecaminosas e imundas.13 Mas nenhum pecado, afora o da infidelidade, pode despojá-lo da graça. Se crê, é justo, ainda que cometa os maiores delitos.14

Eis na teoria luterana a que se reduz a obra da Redenção: Cristo, para isentaro homem de observar a lei, observou-a em lugar dele; o homem, pela fé, atribui a si esta observância, assegura destarte a graça divina e pode descansar seguro naumpinidade do seu pecado inauferível.15
Da teoria luterana sobre a queda original e a justificação decorre com inevitável corolário, a inutilidade e mesmo a nocividade das boas obras. Rigorosamente falando, até a expressão "boas obras" é um contra-senso. Essencialmente corrupto, o homem é necessariamente pecador em todos os seus atos. A justificação exterior e forense não lhe pode sanar este vício essencial. Esforçar-se nessas condições, por praticar as que chamamos boas obras não é senão multiplicar pecados.
Os reformadores não recuaram ante a enormidade dessas consequências. Antes de tudo, a inutilidade das obras na justificação do pecador. "Rejeitamos e condenamos as proposições em que se
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3. "Consequitur itaque omnia hominum quantuvis laudabilia in speciem opera plane vitiosa et morte digna peccatga". MELANCHTHON, Corp. Refomat., XXI, 106. Cfr. Ibid., p. 103.
14. "Ita vides quam dives sit homo christianus sive baptizatus qui etiam volens non potest perdere salutem suam quatiscumque peccatis nisi nolit credere. ulla enim peccatga eum possunt damnare, nisi sola incredulitas:Caetera omnia si... stet fides in promissionem divinam baptizato factam in momento absbentur per eandem fidem". LUTERO, Weimar, VI, 529. "Qui credit et aeque magnum peccatum habet ut incredulus, credendi tamen condenatur et nom imputatur... Itaque, [credens] peccatum habens et peccans tamen manet pius... atque ea est vera piorum consolatio, quod etiamsi peccatga habeant et committnt, tamen sicant ea propter fidem in Christum nom imputri sibi". Weimar, XL, 2, aBT., 96.
15. "Christus spectandus est, in quo cum peccata tua haererevidebis, securus eris a peccatis, morte et inferno. Dices enim peccata mea non sunt mea qui non sunt in me, sede sunt aliena, Christi videlicet; non ergo me laedere poterunt". Weimar, XXV, 330. "Si conscientia peccati te accusat, si ponat ob oculos iram Dei... non debes ei consentire sed contra conscientiam et sensus tuos judicere Deum non esse iratum, te non esse damnatum"!. Weimar, XXV, 330.1
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afirma a necessidade das boas obras para a salvação". Pouco antes a mesma Fórmula da Concórdia, símbolo oficial do luteranismo, assim exprimira o artigo da nova fé: "Cremos, ensinamos e confessamos que as boas obras se devem totalmente excluir (penitus excludenda), não só quando se trata da justificação pela fé, senão ainda quando se discute acerca de nossa eterna salvação".16
Inúteis as boas obras; não só, senão ainda nocivas. Fale LUTERO, no seu comentário da epístola aos Gálatas: "a lei, as obras, a caridade, os votos não só não resgatam mas agravam a maldição. Quanto mais obras fizermos tanto menos poderemos conhecer e apreender a Cristo".17
A vista das consequências imorais desta doutrina, um professor de Guttemberga, JORGE MAIOR, tentou modificá-la proclamando as boas obras, necessárias, como condição sine qua non, à salvação eterna. Por toda a parte, surgiram os contraditores, NICOLAU D'AMSDORF, amigo de LUTERO e por ele consagrado "bispo" de Naumburgo, saiu à estacada com uma obra apostólica a que deu por título: Que a proposição "as boas obras são nocivas à salvação" é justa, verdadeira, cristã, pregada por S. Paulo e Lutero (1559).
Tal a teoria de justificação no primeiro reformadores.18
À luz desta doutrina como se transmuda o aspecto do Evangelho! Julgávamo-lo todos um código elevadíssimo de moral, um conjunto de preceitos sancionados com prêmios e castigos e destinado a sublimar o homem muito acima da simples lei natural. Que engano! O Evangelho é emancipação de toda a espécie de vínculos morais, é o fundamento de uma confiança absoluta de chegar ao céu sem esforço, é o código do prazer. Nele encontra o crente um título de isenção da virtude e um rescrito de indenidade para todos os vícios. Eis a boa nova, "a doutrina grata e consoladora para as almas".
Não se admire o leitor. Todas essas conclusões, por mais abomináveis que pareçam a quem conserva uns restos de senso moral, encontram-se não só virtualmente na doutrina protestante da justificação, mas expressa e formalmente nos escritos dos primeiros
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16. Formula Concordiae, I,art. IV, n. 16 e 7; J. T. MÜHLER, pp. 533, 531.
17. Weimar, XI, I Abt., p. 447.
18. Digo nos primeiros reformadores porque alguns símbolos e teólogos protestantes de época posterior, sob a pressão das objeções católicas, limaram as arestas de tão angulosa doutrina, e procuraram, ainda com sacrifício da coerência sistemática, inculcar de algum modo a necessidade de outras virtudes, que não só a fé.
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reformadores. Alego uma ou outra citação ao acaso entre as inúmeras que se poderiam colher nas obras de LUTERO. "O Evangelho não prega o que devemos fazer; não exige nada de nós. Antes, em vez de dizer-nos: faze isto ou aquilo, manda-nos simplesmente estender as estes e receber: toma, meu caro, eis o que Deus fez por ti; por teu amor ele vestiu o próprio Filho de carne humana... aceita este dom: crê e serás salvo".19 "Não desesperes por causa dos teus pecados mas cobra ânimo e dize: posso ter feito algum bem ou algum mal, mas isto pouco importa; Cristo sofreu por mim.. A isto se reduz todo o cristianismo, a sentir que não tens pecado ainda quando pecas, a sentir que não teus pecados aderem a Cristo, que é salvador do pecado".20
Este antagonismo entre a lei moral e o Evangelho recorre a cada passo na pena do infeliz apóstata em busca de um anestésico poderoso para ao consciência dilacerada de remorsos. A fim de salvar o Evangelho é mister aniquilar a lei moral: são inimigos irreconciliáveis e incompatíveis. "É necessário que procuremos com todas as forças afastar a lei da nossa cnsciência quanto o céu da terra... Quando a lei te aterroriza, te acusa, te mostra o pecado, te ameaça com a cólera divina e com a morte, faze como se nunca houvera existido lei ou pecado, como se só existira Cristo que é todo graça e redenção. Ou se sentes no fundo da alma os terrores da lei, repete: lei, não quero ouvir-te: ... chegou a plenitude dos tempos, sou livre, já não suportarei o teu império".21 Que esforços de uma vontade obstinada para sufocar "os terrores da lei na consciênca!" Vede-o ainda a debater-se contra a idéia de Cristo legislador e de Cristo juíz.. Vede a exorcizá-la como um obsessão diabólica. "Se Cristo nos aparecesse como juíz irritado ou legislador que nos chama a contas, consideremo-lo como um demônio furioso e não como a Cristo".22 Não só com as palavras mas também com as nossas ações e com o nosso procedimento exercitemo-nos com diligência [para cauterizar a cosnciência é mister muito exercício!] em separar Cristo de qualquer idéia de legislador a fim de que, apresentando-se-nos o demônio sob a figura de Cristo para molestar-nos em seu nome, saibamos que não é Cristo, mas que é verdadeiramente o diabo".23
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19. Weimar, XXIV, 4; cfr. Weimar, XL, 1 Abt., 168.
20. Wemar, XXV, 329, 331.
21. Weimar, XL, 1 Abt., p. 557; cfr. t. XXV, 249-250.
22. Weimar, XL, 2 aBT., P. 13.
23. Weimar, XL, 1 Abt., p. 299. Identifiquemo-nos ainda nestas passagens do Reformador: "O cristão, principalmente nas tentações, não deve absolutamente pensar em lei e em pecado... Com propriedade pode definir-se o cristão: o homem livre de todas as leis, no foro interno e externo". Weimar XL, 1 Abt., p 235. "Erasmo e os papistas cuidam que Cristo é um novo legislador; na sua demência nada entendeu do Evangelho, representam-no fantasticamente como um código de novas leis, à semelhança dos que sonham os turcos do seu Corão." Weimar XL., Abt. p. 259. "Tal é a cegueira e a loucura dos papistas que chegaram a transformar Cristo em legislador pior que Moisés e o Evangelho em lei de amor". Weimar, XL, ' Abt., p. 141. Não destoam dos antigos os modernos protestantes, ainda que baseados em outros princípios: "Jamais Jésus ne donne de commandements que seraient les siens et qui doivent replacer les ordonnances de la Loi... C'est qu'il ne nous donne pas plus de devoirs à apprendre que de doctrines à croire... Jésus ne nous a pas apporté de liste de croyances às admettre et de dogmes à signer". ED. STAPFER, Jésus, pendant son ministre(2), Paris, 1897, p. 334-35. "Il [Jésus] ne promulgue aucune loi ne aucun dogme; il ne fond aucune instituion officielle". A. SABATIER, Esquisse d'une philosophie de la religion(9), Paris, Fischhacher (s. data) 1. II, c. 11, § 3, p. 193.
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Ouvimos LUTERO, ouçamos os seus discícpulos mais célebres.
MELANCHTHON: "Em qualquer das tuas ações, comendo, bebendo, ensinando ou trabalhando manualmente ainda que seja evidente que pecas em tudo isto, não te preocupes com as tuas obras; considera as promessas de Deus e crê confiadamente que no céu não tens um juíz, mas um bom pai todo amor e ternura".24 Como quem dissera: és ladrão, homicida, adúltero, caluniador? Não te incomodes, tuas ações de nada valem. Lá no céu, Deus é um bom e velho papai que fecha os olhos complacentemente e perdoa tudo.
CALVINO atira a barra mais longe. À doutrina da justificação de LUTERO acrescenta a da inamissibilidade da fé. A fé que justifica, segundo o refomador de Genebra, é um dom divino concedido ao homem uma vez para sempre e para sempre inamissível [que não se perde; não sujeito a perder-se]. Os delitos mais graves, cometidos por quem uma vez se achou em estado de graça, não o poderão nunca privar da amizade de Deus. É a presdestinação infalível, carta branca para todos os excessos.
Mas, dirá o leitor, e a Escritura? Não a haviam proclamado os protestantes regra infalível de fé? Como fechar tão obstinadamente os olhos a ponto de não ver nas páginas divinas a condenação mil vezes repetida de doutrina tão imoral? Assim parece. Mas a Escritura deve ser interpretada pelo livre exame. Só assim é regra de fé e norma de costumes. A Escritura vale, pois, o que vale a sua interpretação. Deixada aos caprichos e paixões individuais, não há livro mais inofensivo e acomodatício. À "crítica" do leitor não faltarão nunca expedientes para trazer o texto ao sentido que se deseja. Em caso de rebeldia absoluta, aí estão os recursos extremos da crítica cirúrgica: a amputação. Quereis ver LUTERO em exercício de suas funções de livre comentador? Ouvi-o.
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24. MELANCHTHON, de locis theologicis, cCorpus Reormat, XXI, 163-4.
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Diz S. Tiago na sua epístola que "a fé sem obras é morta", que "o homem é justificado pelas obras e não só pela fé"? A epístola de S. Tiago é apócrifa, deve ser expungida do rol das escrituras canônicas como uma "verdadeira epístola de palha", eine rechte strocherne Epistel.25 Precisa nosso exegeta de uma autoridade que confirme sua doutrina? Lança mão de um texto de S. Paulo na sua Epístola aos Romanos: "arbitramur justificari hominem per fidem sine operibus legis"26 e insere fraudulentamente na sua tradução alemã a palavra só antes de fé (allein church das Glauben). Reclamam naturalmente os adversários contra semelhante processo crítico. LUTERO não recua e escreve a LINK: "Se o novo papista quiser importunar-nos por causa da palavra só responde-lhe logo: assim o quer o Dr. Martinho Lutero que diz: papista e asno são a mesmo coisa. Sic volo, sic jubeo, sit pro ratione voluntas... Só me pesa de não haver acrescentado também a palavra nenhuma, sem obra nenhuma de lei alguma, o que exprime o meu pensamento [e o da Bíblia?] com toda a nitidez e clareza. Por isto quero que a partícula fique no meu Novo Testamento e ainda que enlouquecessem todos estes asnos de papistas não vingarão eliminá-la".27
Mas não basta haver criado um novo Evangelho, um Evangelho seu. Todos os Livros santos da primeira à última palavra protestam energicamente contra o seu erro. Que fará o grande paladino da
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25. Erl., LXIII, 115; Walch, XIX, 142; xiv, 105.
26.Para entender-se o verdadeiro significado deste passo cumpre observar que nele, como em tantos outros lugares de suas epístolas, combate o Apóstolo aos Judeus que se obstinavam em afirmar a necessidade da Lei antiga (Lei, Thorah, era o título com que indicavam os hebreus o Pentateuco em oposição aos Profetas, nome com que se designavam outros livros inspirados). Contra esse erro assevera S. Paulo que não são os ritos mosaicos que santificam o homem, mas a fé em Cristo, na sua Redenção, na sua justiça. De um lado, a incredulidade em Cristo e a confiança nas obras da Lei praticadas pelas simples forças naturais do homem, do outro a fé no Redentor e na sua justificação, como dom gratuito de Deus são aqui os membros da antítese, e não a fé no Salvador e as boas obras sobrenaturais inspiradas por esta fé. O Apóstolo distingue sempre as obras da Lei erga rou nomon e as boas obras erga agata, kala. A necessidade destas úlçtimas, isto é, das boas obras informadas pela graça e pelo espírito do Cristo, professa-a claramente S. Paulo em mil lugares das suas epístolas. Neste mesma, aos Romanos, II, 7, 13 escreve: "Aos que constantes no bem operar proclamam a glória, a honra, a imortalidade (dará o Senhor) a vida eterna... Porque não são justos diante de Deus os que ouvem a Lei, mas serão justificados os que a põem em prática". Aos fiéis da Galácia, V, 6: "Em Jesus Cristo nada vale o circunciso ou o incircunciso, mas a fé que opera pela caridade". Como se vê, acontece com os protestantes o que já dizia S. Pedro: "In quibus [i. é, nas epistolas de S. Paulo] sunt quaedam difficila intellectu quae indocti et instabiles depravant, sicut et ceteras Scripturas ad suam ipsoram perditionem". II Petr., III, 16.
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27. Carta a Link, 12 set. 1550. Wimar XXX, 2 Abt., 635 e 643.
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Escritura? Desprezará e rejeitará todos os livros inspirados. Ouçam protestantes e não protestantes: "Se os nossos adversários fazem valer a Sagrada Escritura contra Jesus Cristo, nós fazemos valer Jesus Cristo contra a Escritura. Do meu lado, tenho o Senhor, eles têm os servos, nós, a cabeça, eles, os pés e os membros que se devem sujeitar e obedecer à cabeça. Se é mister sacrificar-se a lei em Jesus Cristo, sacrifique-se a lei, não Jesus Cristo".28 "Tu fazes grande caso da Escritura que é serva de Jesus Cristo; eu, pelo contrário, dela me não importo. À serva liga a importância que quiseres, eu quero valer-me de Jesus Cristo que é o verdadeiro senhor e soberano da Escritura e que mereceu e conquistou com sua morte e ressurreição a minha justiça e a minha salvação eterna".29
Assim, depois de haver o heresiarca levantado a Escritura como pendão de revolta contra a Igreja, sacrifica ora a Escritura a Jesus Cristo. Mas sem Igreja e sem Escrituras, que sabe LUTERO de Jesus? Cristo será apenas nos seus lábios um passaporte para todos os devaneios doutrinais, para todas as licenças de sua ímpia reforma.Tão verdade é queCristo, a Escritura e a Igreja constituem a trilogia inseparável; impossível impugnar uma destas verdade sem destruir as outras.
Destarte, atropelando a razão, conculcando a Igreja, menosprezando a falsificando a Bíblia, injuriando sacrilegamente a Jesus Cristo conseguiu o frade apóstata estabelcer a mais imoral das doutrinas que ainda viram os homens: a apoteose do pecado arvorado em instrumento eficaz de salvação. Toda essa indignidade se acha condensada nas célebres palavras: "Sê pecador, e peca a valer, mas com mais firmeza ainda, crê e alegra-te em Cristo vencedor do pecado, da morte e do mundo. Durante a vida presente devemos pecar. Basta que pela misericórdia de Deus conheçamos o Cordeiro que tira os pecados do mundo. Dele não nos há de separar o pecado, ainda que cometêssemos por dia mil homicídios e mil adultérios".30
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28. Opera latina, Wittemberga I,m 387-a.
29. Walch, VIII, 2140 ss.

30. Eis no original o texto abominável: "Esto peccator et pecca fortiter; sod fortius fide et gaude in Christo, qui victort est peccati, mortins et mundo. Peccatum est quamdiu hic sumus... Sufficit quod agnovimus per divitias gloriae Deis Agnum qui tollit peccatum mundi; ab hoc non avellet nos peccatum atisi millis millies, no die, dornicamur aut occidamus". DE WEETE, II, 37 (Carta a Melanchthon, 1 agosto de 1521).
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CONCLUSÃO
Está resolvido o problema religioso da América latina. Não procuramos uma incógnita. Aplicamos-lhe uma solução comprovada pelos resultados definitivamente adquiridos da indução histórica, da crítica religiosa e das teses firmes de uma filosofia sadia e robusta. Procedemos rigorosamente de acordo com os preceitos da metodologia científica. Nosso ponto de partida foram os fundamentos admitidos pelo adversário. Para quem crê na divindade de Cristo o problema, religioso do cristianismo põe-se nos termos seguintes: fundou Cristo uma sociedade orgânica hierárquica, visível, depositária dos seus ensinamentos, guarda infalível de suas doutrinas, representante de sua autoridade? Quais os caracteres que a inteligência investigadora do filósofo e do crente a contra distinguem com evidência dos grupos que se dizem cristãos e reivindicam para si a exclusividade dessa glória? Interrogamos a Escritura e a história, a razão e a tradição, o bom senso e a filosofia. A resposta, esclarecida pela convergência de todas essas luzes, já nos não pode ser duvidosa.
Negativamente, atestaram-nos todos estes critérios que o protestantismo não é o cristianismo puro é genuíno. Falsificação humana do Evangelho, adulteração criminosa da obra de Cristo, nascida no fermentar das paixões baixas em revolta, a Reforma luterana nas mil figuras cambiantes do seu incansável variar, não apresenta à crítica serena e imparcial nenhuma das gemas autênticas que Cristo engastou no diadema de sua Esposa.
Positivamente, afirmaram-nos as mesmas fontes de conhecimento que só a Igreja
Página Anteriorcatólica, presidida hoje como há vinte, séculos por Pedro, sempre vivo nos seus sucessores, é a cidade de Deus na terra, a Jerusalém divina, cujos muros abrigam os filhos da luz, os herdeiros da vida sobrenatural e co-herdeiros de Cristo.
Ela aí está firme sobre a rocha, que lhe deu por fundamento o divino Arquiteto. Contra os seus muros vinte vezes seculares quebraram-se todos os vagalhões levantados pelas tempestades do inferno.
Violência e sedução, sofisma e ironia, traição e desprezo, todas as forças do mal, separadas ou conjuradas, deram-lhe incessante combate no curso de dois mil anos, e os seus triunfos contam-se pelo número de batalhas. Aos filhos do século XX, inquietos e investigadores, torturados pela dúvida, ou embalados pelos sonhos de utopias falazes, ela repete, como às multidões romanas, abatidas pelo cepticismo e gastas pela corrupção, as palavras do Divino mestre: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Vinde a mim todos os que vergais sob o peso dos sofrimentos e eu vos aliviarei.
Ante este resultado do nosso exame não há lugar para hesitações criminosas. O problema religioso é antes de tudo um problema de consciência individual. Fora de qualquer consideração de ordem política ou econômica, só a verdade decide de sua solução. Só a verdade sinceramente buscada na transparência de sua lucidez, desinteressadamente amada na pureza de sua formosura, ardente e generosamente abraçada com todas as suas exigências de abnegação e sacrifício, pode intimar no santuário das almas a promulgação do dever religioso.
Mas a religião é também um dever social. Para as sociedades como para os indivíduos, o cristianismo é a chave da felicidade, é a solução do problema da existência, é uma questão da vida ou de morte.
Os povos modernos atravessam uma dessas crises em que se jogam os destinos do futuro. Só o catolicismo, guarda seguro dos princípios em que se funda a estabilidade das nações, fonte inexaurível das forças que impelem o carro do progresso humano, pode salvar a nossa civilização periclitante.
Não é para aqui traçar, ainda em rápido escorço, a gênese da presente questão social. Ninguém desconhece a influência poderosa dos fatores de ordem político-econômica: a expansão industrial, a introdução dos grandes maquinismos, o aumento da população, a concorrência dos mercados, etc. Ao jogo natural das leis econômicas se uniram as causas de ordem intelectual. A observação de LE PLAY tem a evidência de um axioma: "Ainsi qu'il est arrívé de tous les temps, pour toutes les races, notre décadence est due surtout la la propagation, de grandes erreurs",1 Por mais de dois séculos, os principais envenenados do materialismo sem coração e do racionalismo sem fé fermentaram nas massas populares, empalidecendo-lhes no espírito a luz do sobrenatural e afrouxando-lhe na consciência os vínculos do dever. Sob a ação dissolvente destes terríveis corrosivos, lenta mas progressivamente operou-se nas nossas sociedades o tríplice divórcio fatal: divórcio da Igreja, divórcio de Cristo, divórcio de Deus.
Pela natural repercussão dos erros filosóficos no domínio das relações internas da consciência com Deus, às causas econômicas e intelectuais da moderna questão social cumpre acrescentar os fatores de ordem moral e religiosa. A estes sobretudo - à obliteração dos grandes princípios religiosos e sociais do catolicismo nas consciências de governantes e governados, de capitalistas e proletários - é que se deve principalmente a agravação da crise que de decênio para decênio se foi acentuando até tomar as proporções de um cataclismo iminente. Construídos sem o cimento da caridade cristã os muros do edifício social ameaçam ruína. Na exaltação do individualismo imoderado, no egoísmo crescente e insaciável está a raiz do mal.
Primeiro responsável deste estado de coisas é o protestantismo. A Reforma foi o desencadeamento do individualismo na Europa. Contra a organização social da Igreja, corpo místico de Cristo, LUTERO levanta o individualismo de sua personalidade isolada. Ao magistério eclesiástico, autêntico e tradicional, opõe o livre exame do eu. À autoridade hierárquica preposta por Cristo à guarda da moral e dos costumes, substitui a autonomia do indivíduo no governo da vida. O egocentrismo é a chave que explica a gênese e a evolução espiritual do monge saxônio. Contra a Igreja católica, orgânica, hierárquica, social, o protestantismo arrolou sob os seus estandartes todos os egoísmos morais, todos os individualismos teológicos, todos os subjetivismos filosóficos.
O desenvolvimento posterior do pensamento acatólico, no campo filosófico, político, social, moral e religioso inspirou-se nos princípios individualistas. Os frutos na ordem prática corresponderam aos germes semeados no campo especulativo. A sociedade desagregou-se. O que era organismo decompôs-se em átomos submetidos às leis mecânicas da gravidade. O eu soberbo e ambicioso tornou-se o centro de atração da vida, o princípio motor de toda a atividade.2
O socialismo tentou recentemente uma reação formidável contra o individualismo reinante. Mas, faltando-lhe um princípio de vida, e, portanto, de unidade, o seu esforço não podia vingar. A dignidade humana e a independência da personalidade foram sacrificadas num coletivismo inconsistente. No estado socialista os átomos dispersos não se reúnem num organismo vivo e harmônico; são forçados a entrar numa unidade social fictícia, semelhante à de um grande maquinismo humano. Formidável como arma de destruição, o socialismo tem se mostrado de uma impotência radical como força construtora.
Aos excessos do individualismo e às exagerações socialistas a Igreja opõe o conceito cristão da sociedade: organismo vivo, animado por um princípio unificador. Cada membro tem sua função, mas todos pertencem ao mesmo corpo. A multiplicidade de órgãos e a diversidade de funções não devem ser obstáculo à consecução do fim comum que é a felicidade geral. Os homens reunidos em grupos sociais não se devem opor como êmulos ou concorrentes, devem entre ajudar-se como irmãos. À exploração de uns pelos outros, à exploração dos fracos pelos fortes deve suceder a abnegação de um por todos, o sacrifício de concessões mútuas, para o bem-estar comum. A "struggle for life", que DARWIN erigiu em fórmula de coexistência dos seres inferiores e que outros estenderam às relações entre os indivíduos e os povos, é princípio de individualismo que separa, de violência que oprime, de guerra que desola. Voltamos a HOBBES: homo homini lupus. O amor, não a luta, é a base cristã do viver social, é o segredo da paz, da concórdia e do progresso: Homo, homini frater .
Eis o ideal proposto pelo catolicismo; ideal nobre e elevado, só capaz de resolver os grandes problemas sociais e assegurar a estabilidade das nações. A sua realização, porém, não é obra de economistas nem de políticos, de professores nem de jornalistas. A segurança do edifício social descansa sobre os alicerces da moralidade individual. Reformar os indivíduos é o primeiro passo para a reforma das sociedades. É aqui que a questão social entende mais intimamente com a questão moral e religiosa.
Depois de tantas experiências dolorosas, de tantas tentativas fracassadas, depois de análises psicológicas mais serenas e profundas, concordam hoje os grandes sociólogos em reconhecer este aspecto moral e religioso dos problemas econômicos e sociais. "Le probléme social, - íl vaut la peine de nous le persuader, - -est avant tout um probléme religieux, um problême moral. Ce n'est pas seulement comme l'imagine trop souvent le matéríalisme contemporain une questíon de gros sous ou... une question d'estomac, c'est tout autant et plus peut-être une question spirituelle, une question d'âme. La réforme sociale ne peut s'accomplir que par la reforme morale”.3 Assim em França LEROY-BEAULIEU. Na Inglaterra, faz-lhe eco o grande economista DEVAS: "Intra animum medendum est. A reforma deve ser interior. Sem ela nem os seguros operários nem as leis sobre fábricas, nem as escolas para adultos, nem os banhos ou bibliotecas, nem os longos descansos, nem o aumento de salários, nem a diminuição das horas de trabalho, nem as habitações econômicas e higiênicas, nem a divisão das grandes propriedades poderão promover a paz social".4 Na Itália, não fala diversamente TONIOLO: "Invano Ia azione esteriore torna ordinata e feconda giusta, i. dísegní della Provvidenza, senza che la preceda e accompagni constantemente la vita ínteriore, l'esercizio cioè delle vírtu intime nella quotidiana riforma di sè".5
Ora, qual é a grande instituição, a grande força moral capaz de empreender com êxito a reforma dos indivíduos e restituir-nos assim a paz social? Analisemos com serenidade.
Para a regeneração e verdadeiro progresso moral do homem havemos mister um ponto de apoio e uma força motriz. Um ponto de apoio: princípios firmes na inteligência a orientar com segurança o rumo da vida. Uma força motriz: o amor eficaz e operoso que é fonte de abnegação e sacrifício.6
A primeira origem do mal está na inteligência que não conhece ou conhece mal.
As grandes certezas vitais obscurecidas pelos sofismas e pela propaganda sectária vacilam nas consciências desaparelhadas para as lutas do pensamento. Os desfalecimentos da vontade e os desvios da ação seguem espontaneamente as idéias falsas acerca de Deus, das criaturas, da orientação da existência e da significação do prazer criado. Desaparece a santidade quando a verdade se eclipsa. É mister re-entronizar a razão esclarecida pela fé no governo da vida. Aos espíritos torturados pela dúvida cumpre dar o alimento sólido da verdade. "Não me cansarei de repetir: o homem vale pelo que crê",7 escreveu DE MAISTRE. "Os dogmas formam os povos", encarece DE BONALD. Uma geração de cépticos nunca será uma geração de fortes.
Ora, que nos traz o protestantismo para restaurar a piedade teológica e robusta dos grandes séculos de fé? Um livro explicado pelo exame individual, isto é, o mais completo subjetivismo. A variabilidade doutrinal esteve sempre na ordem do dia entre os discípulos de LUTERO. Sem magistério infalível que o interprete, o Evangelho não passa de um nome glorioso a cobrir todos os desvarios da razão apaixonada.
Não é, pois, sobre a areia movediça das infinitas variações doutrinais de mil seitas efêmeras que o mundo moderno pode achar a paz das inteligências, princípio de coesão social. Sendo por sua origem, por sua natureza, por seus princípios uma força de divisão, o protestantismo não pode produzir bem algum na ordem intelectual, moral e religiosa.8
Hoje só a Igreja católica guarda, intangíveis, os grandes princípios vitais do cristianismo; só a Igreja católica possui a força sobrenatural de produzir nas almas esta solidez de convicções em que se temperam os grandes caracteres. "Ela é a única religião dogmática, que sabe o que é ter dogmas e quais as exigências que daí decorrem e só ela é capaz de satisfazer a essas exigências".9 Ora, se a paz, se a felicidade individual e social são incompatíveis com a dúvida que dilacera o espírito e com a desarmonia que separa as inteligências nas questões mais altas que se impõem ao pensamento, de seu se está que só o catolicismo possui o segredo da paz e da felicidade para os indivíduos e para os povos.
No seu aspecto social, de modo muito particular vale esta conclusão para o nosso Brasil. Não há talvez nação no mundo que mais precise estreitar os vínculos da unidade espiritual que a nossa. Imensa extensão de território, grande variedade de climas, população escassa e desigualmente distribuída, heterogeneidade étnica de imigração estrangeira que se repercutirá necessariamente numa heterogeneidade fisiológica e psicológica do nosso povo, larga autonomia dos estudos - todos estes fatores são ou podem ser princípios de divisão, elementos de discórdia, germes de desagregamento. Para conservar a unidade nacional cumpre apertar os laços espirituais dá família brasileira. A Providência que tão generosamente prodigalizou ao Brasil os dons de sua bondade assegurou-nos nas vicissitudes da nossa evolução histórica, a formação dos dois grandes fatores da unidade pátria:
a língua e a religião. Os poderes públicos podem introduzir os liames exteriores que facilitam a livre comunhão da nacionalidade soberana: unidade constitucional e administrativa, unidade de moedas, de pesos e de medidas. Mas as duas grandes forças coesivas do idioma e da religião - uma, firmando a solidariedade da alma nacional na visão dos grandes ideais da vida, outra, veiculando na harmonia dos mesmos sons todas as suas manifestações intelectuais e afetivas - essas, os legisladores, que as devem conservar e promover, não podem criar à força de decretos e de armas. São mimos da Providência. Nós os recebemos por mercê dadivosa. Cumpre conservá-los com amor e gratidão.
Encarada a esta luz, a propaganda protestante no Brasil afigura-se-nos como obra eminentemente antinacional. Em todo este trabalho arguimos o livro do Sr. C. PEREIRA de anticientífico. Agora denunciamo-lo como antipatriótico. E não é crime de leso-patriotismo semear no seio da família brasileira os germes da discórdia religiosa? Não é obra nefasta separar os membros duma mesma comunidade civil nas questões que mais interessam à vida espiritual dos povos? Por que criar aos poderes públicos as dificuldades quase insuperáveis, oriundas da diversidade de cultos? Por que multiplicar empecilhos quase irremovíveis à unidade e livre expansão da alma nacional em todos os seus ideais superiores? Quem ignora as grandes catástrofes sociais - opressões, tiranias, guerras civis - quem ignora os inúmeros obstáculos que, na legislação e na administração, na escola e no templo, criou e fomentou na Inglaterra, na Alemanha, na Suíça e na Holanda a introdução do protestantismo? Nos momentos mais solenes de sua vida política, nas dificuldades das grandes crises, estas nações já não podem congregar os seus filhos com o brado tão expressivo da unidade: um soberano, uma língua, uma religião.
Zelemos nós pela paz e pela independência, pela unidade e pelo progresso da nossa pátria. E para isto desvelemo-nos com solicitude por conservar, sobre todos os vínculos externos e artificiais da existência civil, os elos superiores da língua e da religião que irmanam as almas, fundindo as inteligências e os corações no ardor da mesma fé, no entusiasmo das mesmas esperanças, no amor do mesmo ideal.
Mas a reforma dos indivíduos que deve preparar a reforma da sociedade, não menos que o ponto de apoio de convicções profundamente arraigadas nos espíritos, precisa da energia motriz de corações retos e generosos e de caracteres fortes e bem temperados. A vontade livre é, em última análise, o princípio regulador e responsável da atividade humana. Para refrear as paixões das massas e canalizá-las nos limites da justiça e da caridade não basta a repressão material da força bruta; são necessários meios morais. Com o ferrão e o relho se treinam rebanhos, não se educam povos. Não é da metralha dos exércitos nem do rifle, das polícias que podemos esperar a suspirada regeneração. A lei moral implantada e respeitada no santuário das consciências é o guarda mais seguro das constituições e das leis, é a única solução do pavoroso problema social.
O que antes de tudo importa é combater no coração o egoísmo, que se manifesta na vida individual pela opressão dos fracos e dos pobres (strugle for life) e pela subordinação dos interesses coletivos aos interesses pessoais; que se mostra na família pela substituição da lei do prazer à lei do dever e pela limitação artificial da prole que estanca, nas suas fontes, a vida dos povos; que se revela na vida social, em cima, pela opressão do capitalismo que explora o trabalho, em baixo, pela vingança do proletariado organizado, que nas paredes injustas, imola muitas vezes os interesses do bem comum e nacional às vantagens aleatórias ou aos despiques caprichosos de uma classe. Para combater esse egoísmo multiforme toda a moral individualista é radicalmente impotente. Urge restaurar a lei moral genuína, objetiva, com os seus fundamentos divinos, superiores às flutuações das paixões individuais.
Ainda uma vez perguntamos qual é no mundo moderno a única autoridade moral capaz de restabelecer assim nos corações o império abalado da lei interior das consciências? Porventura o protestantismo com o seu individualismo egoísta e as suas máximas vacilantes? Uma religião sem dogmas fixos, sem coesão social, sem autoridade moral, que eficácia pode exercer nas almas modernas convulsamente revolvidas pela tempestade de fortes paixões desencadeadas? "Sem dogmas, já o disse JOUBERT, a moral não passa de máximas e sentenças; com o dogma, ela é preceito, obrigação, necessidade".10 “Se é mister disciplinar os indivíduos e reprimir o egoísmo, é evidente que o cristianismo deve ser uma força superior ao indivíduo e capaz de se lhe impor. O protestantismo baseado no racionalismo e no subjetivismo não tem meios para fortificar a noção fundamental do dever. A razão é de si impotente para exigir o sacrifício do .indivíduo aos fins sociais. É fato de experiência que o protestantismo se apressou a reduzir o dever à um mínimo possível".11 Eliminou o sacerdócio como guarda espiritual das leis morais; eliminou a necessidade das boas obras com a imoral teoria da justificação fideísta; eliminou o caráter sacramental e a indissolubilidade do matrimônio; eliminou o celibato e a virgindade, deturpou finalmente a noção de pecado mortal. Relaxaram-se destarte os freios que educam o coração e disciplinam a vontade.
Nem parou nisto a dissolução moral introduzida pela Reforma. No terreno fértil do livre exame - regra de ação como regra de fé - germinaram as mais extravagantes teorias atentadoras dos costumes particulares e públicos. "Não há aberração moral, não há licença mesma que, aqui e ali, não se tenha manifestado em alguma seita entroncada no protestantismo. E notai que, assim falando, não aludo somente a alguns fanáticos excêntricos, mas aos mais graves e autorizados entre os pensadores protestantes, Não foi na Alemanha que uma escola teológica teve a desfaçatez de sustentar que a união extraconjugal não é crime e que nunca fora proibida pelo Evangelho?"12
Só o catolicismo forte na constituição social que lhe deu o divino Fundador, opôs sempre o intransigente non possumus a todas as recalcitrações imorais das paixões coroadas e das paixões populares. Só na Igreja católica se encontram hoje os meios naturais e sobrenaturais capazes de defender a moralidade evangélica. As estatísticas que já estudamos mostram-no à evidência. O catolicismo, concedemo-lo de boa mente, não imuniza os seus membros contra as seduções poderosas do crime. A liberdade do homem é o último arbítrio de que dependem os seus destinos morais. Nas suas mãos está o observar ou não a lei cristã, o servir-se ou não dos maios de defesa que lhe subministra a religião. Mas, em geral, a eficácia superior da moral católica é um fato que não admite contestações. É nas populações fiéis à Igreja que o suicídio, o duelo, o divórcio e o
neomaltusianísmo, que ameaçam dissolver a família e as nações, encontram as mais fortes barreiras de resistência. O ilustre professor genebrino que mais de uma vez já tivemos ensejo de citar, indica-nos as causas desta superioridade da moral católica. "Para que a religião seja eficaz, diz ele, os seus mandamentos devem estar fora da esfera da discussão. Donde se segue que para ser uma força social, no verdadeiro sentido da palavra, a religião deve ser dogmática, o seu critério deve ser objetivo, externo e superior ao indivíduo.
Só o dogma indiscutível pode impor-se com força suficiente como um imperativo categórico... O protestantismo mostrou-se radicalmente incapaz de apanhar o verdadeiro sentido do conteúdo da religião e do seu papel na vida social. Por este motivo tem sido sempre impotente para assegurar a integração da sociedade; longe de atuar como força integrante, tende constantemente a produzir, a desintegração, a engendrar a anarquia social. Era consequência inevitável: ao protestantismo falecem princípios capazes de atuar como freio suficiente sobre o indivíduo e subordiná-lo a fins mais elevados".13
A evidência desta conclusão obscurada no século passado pelas paixões e pelo sofisma, acabou por dissipar as névoas e irradiar sua luz nos espíritos sinceramente observadores da realidade social. Na imensa seara de citações que poderíamos alegar enfeixemos uma pequena paveia de autoridades incontestáveis.
Na França ouçamos E. DE VOGÜE e A. LEROY-BEAULIEU. "Tous ceux qui regardent devant eux sont persuadés que rien ne peut préserver le monde de la crue démocratique et du socialisme que l'accompagne; on chercherait vainement en dehors de l'Eglise une force capable de diriger cette crue et de Ia domíner".14 “La paix sociale! le christianisme seul peut nous l'apporter; en dehors de lui il n'y a que la guerre de classes; et la guerre de classes nous y marchons, la guerre de classes nous l' avons déjà. La papauté est là entre les armées, près d'en venir aux mains, qui nous montre dans l'Evangile les conditions de la paix, d'une paix qui dure".15 Pela Inglaterra fale DEVAS: "A Igreja acusada de ser de outro mundo ou weltflüchtig, de contrariar a civilização material, é considerada pelos que aprofundam o olhar a1ém da superfície das coisas como a mais segura garantia dessa mesma civilização".16 Na Alemanha, nas vésperas da grande conflagração, assim se exprimia o célebre jurista, J. KOHLER, membro do conselho da universidade de Berlim: "Quem compreendeu o catolicismo deve confessar que ele possui um elemento de progresso de primeira ordem".17 Da cátedra de Genebra o professor CHATIERTON não cessa de inculcar a necessidade: de voltar aos princípios católicos para salvar a sociedade: "Não pode haver dúvida que o catolicismo é de muito, é imensamente superior ao protestantismo quando consideramos essas religiões no ponto de vista social. O enfraquecimento da influência do catolicismo nos países longamente submetidos à sua salutar disciplina é invariavelmente acompanhado de um enfraquecimento da autoridade e da coesão social".18 E pouco depois, enfeixando o resultado de suas investigações sociais: "Como chave deste estudo chegamos à conclusão de que o cristianismo constitui uma necessidade vital para a civilização européia e que a forma de cristianismo adaptada às exigências da sociedade ocidental não é o protestantismo senão o catolicismo. Porque só o catolicismo possui uma organização social, só o catolicismo é capaz de impor uma disciplina e assegurar a integração completa do indivíduo na sociedade, só o catolicismo constitui uma religião no verdadeiro sentido da palavra, visto como só ele faz apelo a princípios supra-racionais. E se dum lado só o catolicismo é capaz de subordinar o indivíduo à sociedade, e de garantir o sacrifício dos interesses individuais aos coletivos, - de outro só ele se acha em condições de satisfazer às necessidades emotivas e místicas da alma individual".19
Mais perto de nós, no Portugal irmão, respondendo a um inquérito aberto pelo Diário de Notícias, assim se externava recentemente ANTERO DE FIGUEIREDO: "Penso que do restrito materialismo que há meio século vem encurtando o círculo do pensamento humano, de sua essência voante e expansivo, se soltará a flecha do espiritualismo direito aos céus. Penso que todas as negações religiosas reagirão em afirmações de fé e que ante a dispersão das consciências cristãs, a unidade da consciência católica, cada vez mais cerrada, será montanha de luz de tão eloquente fulgor que atrairá a si dos confins do mundo tantas almas, tantas, que vai aí surgir uma época de conversões em massa".20
Está julgada a questão. O Brasil é católico. Nasceu católico e católico há de viver. A nossa civilização, as tradições do nosso passado, as glórias de nossa história são inseparáveis da religião dos nossos pais. E não é quando o protestantismo alemão privado do seu papa fardado se debate numa confusão caótica; quando o protestantismo anglicano, na sua parte mais culta, se aproxima a grandes passos de Roma; quando o protestantismo norte-americano, pulverizado em mil seitas antagônicas, forma para o ateísmo e a incredulidade milhões de adoradores de Mamona; quando todo o mundo culto, não obcecado pelos preconceitos de partido ou pelo ódio sectário, proclama o catolicismo o mais forte baluarte da civilização ocidental ameaçada, que o Brasil renegando a glória dos seus maiores, o credo de sua infância e de sua juventude há de macular a pureza de sua historia religiosa com a nódoa de uma apostasia. Não; não queremos mil seitas a digladiarem-se no seio da nossa unidade espiritual; não queremos ver a família brasileira dilacerada na harmonia dos seus ideais mais elevados; não queremos assistir ao espetáculo doloroso dum povo, sempre unido nos vínculos de uma só Igreja, de uma só língua, de uma só pátria, a debater-se em lutas religiosas fratricidas.
Há no Brasil um problema religioso. Mas não é o que pensa o Sr. C. Pereira. Não se trata de alternativa de escolha entre o catolicismo e o protestantismo. Nosso problema religioso cifra-se na intensificação da vida católica no país. Cumpre reparemos os erros dos nossos. maiores. O império, inspirado numa política liberal de vistas acanhadas, encadeou a atividade expansiva da Igreja. A república, iludida pelos falsos reflexos de uma liberdade de consciência mal entendida, eliminou a influência religiosa da vida oficial do governo. Contraminemos os efeitos destes desacertos. Trabalhemos por inocular nas massas populares a consciência austera dos seus deveres cristãos. Restituamos à escola a instrução religiosa, base insubstituível da educação moral e cívica. Saneemos a nossa política e a nossa administração, fortalecendo nas almas princípios eficazes da justiça e da abnegação social. Infundamos nas nossas leis o espírito vivificador do cristianismo. O direito de um povo deve espelhar a sua religião; a consciência jurídica de um país deve ser o reflexo de sua consciência religiosa.

Na realização deste ideal de restauração católica na consciência dos indivíduos e no governo da sociedade, devem empenhar-se os esforços de quantos sentem palpitar no coração o amor da verdade e da grandeza da pátria.
A Igreja católica é a única fundada por Jesus Cristo, a depositária autêntica dos seus ensinamentos, a única via de salvação. Permanecer-lhe fiel é questão de consciência individual. Saibamos colocar a verdade acima de todos os interesses do tempo.
A Igreja católica é a grande educadora dos povos, a mãe venerável da nossa civilização, a sábia impulsora do progresso intelectual, moral e religioso das nações, a amiga sempre sincera da humanidade. Permanecer-lhe fiel é questão de consciência nacional. Saibamos amar o Brasil, com patriotismo sincero e esclarecido.
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1. LE PLAY, L'organisation de la famille(3), Tours 1884, p. XVII. Aí mesmo cita LE PLAY a observação análoga de DE BONALD: "À commencer par l'Evangile, à finir par le Contrat social, toutes les institutions que ont changé en bien ou en mal l'état de la societé général n'ont eu d'autres causes que la manifestation de grandes vérítés ou la propagation de grandes erreurs". Théorie du Pouvoir, Paris, 1796, t. I, p . VII.
2. Ingenuamente o Sr. G. PEREIRA faz suas as palavras de Pelletan : "A reforma desenvolveu o eu motor sagrado da máquina humana". - Quando o homem é reduzido a uma "máquina", cujo motor "sagrado" é o eu, que outro produto de sua atividade se poderá esperar senão o egoísmo? Para isso veio à terra Aquele que disse: Quem quiser ser meu discípulo renegue a si mesmo?
3. A. LEROyY-BEAULlEU, La papauté, le socialisme et la démocratie, na Revue des Deux Mondes, 15 dez. 1891, p. 674. Cfr. F. BRUNETIÈRE, Après une visite au Vatican,na revista, 1 janv. 1895, p. 117.
4. CH. ST. DEVAS, The key to the World's Progress (2), London, 1908, p. 45.
5. G. TONIOLO, Memorie religiose(2), Milano, 1920, p. 94.
6. "La condition essentielle de notre ordination sociale est la mise en accord de nos intelligence et de nos volontés, et que, à defaut d'unité spiritúelle en nous et entre nous, il n'y a pour nous aucune échappatoire à l'anarchie, au desordre, à la guerre ... Le probème foncier de notre ordre social humain se resout donc en définitive, en un probléme d'unité spirituelle". J. VIALATOUX, Le témoignage de la vie sociale, na Revue des jeunes, 25 janv. 1922. pp. 129.130.
7. J. DE 'MAISTRE, Lettre à M. de Stourdza.
8. Daí a esterilidade social do protestantismo. Seu "princípio essencial é um princípio dissolvente; daí o incessante variar, daí a dissolução e o aniquilamento. Como religião particular já não existe; não possui nenhum dogma próprio, nenhum distintivo real, nenhum governo, numa palavra, coisa nenhuma das que são necessárias para constituir um ser; é uma verdadeira negação. Quanto nele há que se possa dizer real não passa de vestígios e de ruínas, e tudo sem força, sem ação, sem espírito de vida. Não pode mostrar um edifício que tenha elevado com suas mãos; não se pode deter nas obras imensas entre, as quais se assenta o catolicismo e dizer: isto é meu. Ao protestantismo só é dado esconder-se entre horríveis ruínas; destas sim pode dizer com verdade: eu as amontoei!" BALMES, El protestantismo comparado com el catolicismo, c. XI.
9. W. H. MALLOCK, Is life worth of living? Trad. franc. de J. Forbes: La vie vaut elle la pene de la vivre(2)? Paris, 1882, p. 287. As exigências de uma religião dogmática já a expusera o autor algumas páginas atrás: Toda a "revelação deve necessariamente atribuir-se uma infalibilidade absoluta, e se uma igreja, que é inútil nomear, atravessa atualmente uma crise dolorosa é porque desconheceu esta lei. Uma religião sobrenatural que renuncia a esta infalibilidade confessa implicitamente que é uma revelação mutilada. É uma coisa híbrida, meio natural, meio sobrenatural e praticamente reduz-se a uma religião puramente natural", pp. 242-3. Todo este c. XI é uma crítica admirável do protestantismo, tanto mais para estimar quanto saída de uma pena racionalista.
10. JOUBERT, Pensées, I. 41 bis.
11. G. CHATTERTON-HILL, The sociological value of christianity, Londres, 1912, p. 219.
12. W. H. MALLOCK, La vie Vaut-elle la peine de la vivre?(2), Paris, 1882, pg. 245.
13. CHATERTON-HILL, The sociological value of Christianity," pp. 214•5. Não maravilha, pois, que o ilustre catedrático, que não é católico, examinando a questão de um ponto de vista exclusivamente social, tenha proclamado a falência do protestantismo e a utilidade do seu desaparecimento. "O fato que o protestantismo não responde nem às necessidades sociais nem às necessidades individuais deve excluir esta forma de cristianismo de qualquer função no futuro desenvolvimento da sociedade ocidental. A eliminação do protestantismo que em toda a sua existência só tem sido um agente de desintegração social, não poderá de modo algum modificar a situação até hoje dominante a não ser para torná-la mais clara ..", pp. 228~29. Com a profundidade de sua intuição social, DE MAISTRE há quase um século havia chegado à mesma conclusão: "Pour rétablir une religion et une morale en Europe; pour donner à la vérité les forces qui exigent les conquêtes qu'elle médite, pour raffermir surtout le thrône des souverains (hoje, mais geralmente diríamos, o prestígio da autoridade), et calmer doucement cette fermentation générale de. espríts qui nous ménace des plus grands malheurs, un prélirninaire indispensable est d'effacer du dictionnaire européen ce mot fatal, protestantisme". Du Pape, Conclusion. Ed. de Lyon, 1819, 617.
14. E. DE VOGUE, Affaires de Rome, na Revue des Deux Mondes, 15 juin, 1887, p. 847.
15. A. LEROY-BEAULIEU, La Papauté, le Sociulisme et la Démocratie, na Revue deux Mondes, 15 dez. 1891, pp. 766•767.
16. CH. STANTON DEVAS, The Key to the World's Progress(2) , London, 1908. p. 31
17. J. KOHLER, no Der Tag, 1914, n. 144.
18. CHATTERTON-HILL, The sociological value of Christianity, London, 1912, p. 231.
19. Ib., op. cit., p. 251.
20. ANTERO DE FIGUElREDO, na resposta dada em 16 de dez. 1919 ao questionário do Diário de Notícias, de Lisboa. Ao concerto dos estrangeiros praz-me associar duas vozes de casa. "O catolicismo é uma força insubstituível na direção espiritual dos homens e das. coletividades, sem cujo concurso nenhuma obra social ou política pode ser duradoura". ANDRADE BEZERRA, no Jornal do Comércio, do Río, 30 de agosto de 1922, p. 4. Enquanto esse espírito [que sobrepõe o desejo do bem comum à intratabilidade cega e surda do egoísmo] que é o da Igreja católica, e nomeadamente quanto à questão social, o dos ensinamentos, de Leão XIII não triunfar na terra será vão esperar a paz entre as classes, a paz entre as nações". C. MAGALHÃES DE AZEREDO, O Vaticano e o Brasil, Rio, 1922, pp. 91-2. E aplicando pouco depois ao Brasil: "Tenho, a convicção mais firme de que ele [o ideal da nossa grande civilização futura] se realizará proporcionalmente à preponderância do espírito cristão nas instituições e nos costumes das novas sociedades americanas,... Cristianismo para nós... quer dizer catolicismo", p. 98.

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