quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Papa contra políticos abortistas e anticristãos: a Igreja não é neutra . Nem deve sê-la!


O Santo Padre deixa claro que um católico não pode aceitar uma legislação que favoreça o aborto e a eutanásia. Assim, fica patente que o PNDH-3 é inaceitável. Temos obrigação de conhecer o pronunciamento do Papa, sobretudo no momento pelo qual passa o Brasil. Clique na foto para mais detalhes.

Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia(…)

Hoje às 7 horas da manhã (horário de Brasília) o Papa Bento XVI recebeu em Roma os bispos da Regional Nordeste 5 (Bispos do Maranhão) e tratou da defesa da vida e do dever dos bispos de, sempre que necessário, se pronunciarem sobre eleições.

O que nos enche de alento é que o Sumo Pontífice – sem mencionar nomes – atacou projetos de direitos humanos (leia-se PNDH-3) que ferem o direito fundamental à vida:

Portanto, seria totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até à morte natural (cf. Christifideles laici, 38).

Outro trecho importante:

Em determinadas ocasiões, os pastores devem mesmo lembrar a todos os cidadãos o direito, que é também um dever, de usar livremente o próprio voto para a promoção do bem comum (cf. Gaudium et Spes, 75).

E também:

Ao defender a vida não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo. (cf. Evangelium vitæ, 82).

Por fim, o Papa considera a questão dos símbolos religiosos:

Queria ainda recordar que a presença de símbolos religiosos na vida pública é ao mesmo tempo lembrança da transcendência do homem e garantia do seu respeito. Eles têm um valor particular, no caso do Brasil, em que a religião católica é parte integral da sua história. Como não pensar neste momento na imagem de Jesus Cristo com os braços estendidos sobre a baía da Guanabara (…)?

Leia abaixo a íntegra do discurso:

Amados Irmãos no Episcopado,
Para vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo» (2 Cor 1, 2). Desejo antes de mais nada agradecer a Deus pelo vosso zelo e dedicação a Cristo e à sua Igreja que cresce no Regional Nordeste 5. Lendo os vossos relatórios, pude dar-me conta dos problemas de caráter religioso e pastoral, além de humano e social, com que deveis medir-vos diariamente. O quadro geral tem as suas sombras, mas tem também sinais de esperança, como Dom Xavier Gilles acaba de referir na saudação que me dirigiu, dando livre curso aos sentimentos de todos vós e do vosso povo.

Como sabeis, nos sucessivos encontros com os diversos Regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tenho sublinhado diferentes âmbitos e respectivos agentes do multiforme serviço evangelizador e pastoral da Igreja na vossa grande Nação; hoje, gostaria de falar-vos de como a Igreja, na sua missão de fecundar e fermentar a sociedade humana com o Evangelho, ensina ao homem a sua dignidade de filho de Deus e a sua vocação à união com todos os homens, das quais decorrem as exigências da justiça e da paz social, conforme à sabedoria divina.

Entretanto, o dever imediato de trabalhar por uma ordem social justa é próprio dos fiéis leigos, que, como cidadãos livres e responsáveis, se empenham em contribuir para a reta configuração da vida social, no respeito da sua legítima autonomia e da ordem moral natural (cf.Deus caritas est, 29). O vosso dever como Bispos junto com o vosso clero é mediato, enquanto vos compete contribuir para a purificação da razão e o despertar das forças morais necessárias para a construção de uma sociedade justa e fraterna. Quando, porém, os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas (cf. GS, 76).

Ao formular esses juízos, os pastores devem levar em conta o valor absoluto daqueles preceitos morais negativos que declaram moralmente inaceitável a escolha de uma determinada ação intrinsecamente má e incompatível com a dignidade da pessoa; tal escolha não pode ser resgatada pela bondade de qualquer fim, intenção, conseqüência ou circunstância. Portanto, seria totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até à morte natural (cf. Christifideles laici, 38).

Além disso no quadro do empenho pelos mais fracos e os mais indefesos, quem é mais inerme que um nascituro ou um doente em estado vegetativo ou terminal? Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático – que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana – é atraiçoado nas suas bases (cf. Evangelium vitæ, 74). Portanto, caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida «não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo» (ibidem, 82).

Além disso, para melhor ajudar os leigos a viverem o seu empenho cristão e sócio-político de um modo unitário e coerente, é «necessária — como vos disse em Aparecida — uma catequese social e uma adequada formação na doutrina social da Igreja, sendo muito útil para isso o “Compêndio da Doutrina Social da Igreja”» (Discurso inaugural da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 3). Isto significa também que em determinadas ocasiões, os pastores devem mesmo lembrar a todos os cidadãos o direito, que é também um dever, de usar livremente o próprio voto para a promoção do bem comum (cf. GS, 75).

Neste ponto, política e fé se tocam. A fé tem, sem dúvida, a sua natureza específica de encontro com o Deus vivo que abre novos horizontes muito para além do âmbito próprio da razão. «Com efeito, sem a correção oferecida pela religião até a razão pode tornar-se vítima de ambigüidades, como acontece quando ela é manipulada pela ideologia, ou então aplicada de uma maneira parcial, sem ter em consideração plenamente a dignidade da pessoa humana» (Viagem Apostólica ao Reino Unido, Encontro com as autoridades civis, 17-IX-2010).

Só respeitando, promovendo e ensinando incansavelmente a natureza transcendente da pessoa humana é que uma sociedade pode ser construída. Assim, Deus deve «encontrar lugar também na esfera pública, nomeadamente nas dimensões cultural, social, econômica e particularmente política» (Caritas in veritate, 56). Por isso, amados Irmãos, uno a minha voz à vossa num vivo apelo a favor da educação religiosa, e mais concretamente do ensino confessional e plural da religião, na escola pública do Estado.

Queria ainda recordar que a presença de símbolos religiosos na vida pública é ao mesmo tempo lembrança da transcendência do homem e garantia do seu respeito. Eles têm um valor particular, no caso do Brasil, em que a religião católica é parte integral da sua história. Como não pensar neste momento na imagem de Jesus Cristo com os braços estendidos sobre a baía da Guanabara que representa a hospitalidade e o amor com que o Brasil sempre soube abrir seus braços a homens e mulheres perseguidos e necessitados provenientes de todo o mundo? Foi nessa presença de Jesus na vida brasileira, que eles se integraram harmonicamente na sociedade, contribuindo ao enriquecimento da cultura, ao crescimento econômico e ao espírito de solidariedade e liberdade.

Amados Irmãos, confio à Mãe de Deus e nossa, invocada no Brasil sob o título de Nossa Senhora Aparecida, estes anseios da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz e de todos os homens de boa vontade em defesa dos valores da vida humana e da sua transcendência, junto com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens e mulheres da província eclesiástica do Maranhão. A todos coloco sob a Sua materna proteção, e a vós e ao vosso povo concedo a minha Benção Apostólica.

Fonte: http://press.catholica.va/news_services/bulletin/news/26281.php?index=26281&lang=po (Os grifos são nossos). Instituto Plínio Correia.

sábado, 23 de outubro de 2010

Carta Pastoral de S. Antônio M. Claret sobre a Imaculada Conceição.


Santo Antônio Maria Claret escreveu esta Carta Pastoral sobre o mistério da Imaculada Conceição da Virgem, tendo como fundamento a definição dogmática desta verdade de fé, proclamada por Pio IX a 08 de dezembro de 1854. Nesta data memorável, o Santo se encontrava fazendo a visita pastoral em Porto Príncipe, sem saber que em Roma se definia este mistério. Inteirou-se mais tarde. A Bula, retida pelo governo de Madri, demorou vários meses para chegar a suas mãos. Sua alegria, ao saber da notícia e ao receber o documento, foi imensa.

Uma vez que se acalmaram os ímpetos de seu amor filial, decidiu dirigir uma Carta Pastoral a seus diocesanos, comunicando-lhes as emoções e os sentimentos que o dogma mariano havia suscitado em sua alma de apóstolo. Nela, Padre Claret colocou todo o esforço de seu engenho e todo o fogo do seu coração. A pena do Santo se move com extraordinária fluidez. Os argumentos e as analogias se sucedem e se entrelaçam com maestria singular. Em todo o documento, escrito com toda a sua alma, percebe-se um esmero especial, reflexo de um coração enamorado. Ao concluir a redação do documento, o Santo recebeu a aprovação do céu. Ele mesmo nos disse, em seus apontamentos, com as seguintes palavras: “No dia 12 de julho de 1855, às 05 da tarde, quando concluí a carta pastoral, coloquei-me diante da imagem de Maria Santíssima, um quadro de tela da mesma sala e genuflexório, e estava rezando três Ave-Marias, quando ouvi uma voz clara e distinta que partiu da referida imagem, que me disse: ‘Bene scripsisti.’ (Escrevestes bem). Tais palavras me impressionaram muito, provocando desejos de aspirar à perfeição.”

A Carta Pastoral se apresenta em duas partes bem diferenciadas: uma histórico-teológica, inspirada em diversos autores, e outra ascética, quase completamente original, da qual o Padre Claret tira as conseqüências práticas do acontecimento, para fomentar a piedade dos fiéis e a devoção a Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. Nesta segunda parte, o Santo segue de perto, às vezes literalmente, os sermões que pregou na novena da Imaculada, durante a sua visita a Porto Príncipe, em dezembro de 1854.
Apesar das influências que possui, sobretudo na primeira parte, a Pastoral constitui um todo unitário e é um ótimo testemunho do zelo apostólico de Santo Antônio Maria Claret e de sua entranhável devoção à Virgem.
DOM ANTÔNIO MARIA CLARET E CLARÁ, PELA GRAÇA DE DEUS E DA SANTA SÉ APOSTÓLICA, ARCEBISPO DE CUBA, PRIMAZ DAS ÍNDIAS, PRELADO GRÃ CRUZ DA REAL ORDEM AMERICANA DE ISABEL, A CATÓLICA, DO CONSELHO DE SUA MAJESTADE ETC..

Ao venerável decano e cabido de nossa santa Igreja primaz, aos vigários forâneos, párocos, clero e fiéis de nossa diocese, saúde, paz e bênção em nosso Senhor Jesus Cristo.

Então o Senhor Deus disse à serpente: “Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais e feras dos campos; andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida. Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça.” (Gn 3,14-15)



I. Introdução

1. Já chegou o dia feliz, amadíssimos irmãos e filhos muito queridos em Jesus Cristo. Já soou a hora ditosa em que nosso Santíssimo Padre Pio IX, órgão da voz do mesmo Deus, pronunciou e declarou dogma de fé o mistério da Imaculada Conceição de Maria Santíssima. Não duvideis, pois acaba de chegar a nossas mãos a Bula da Declaração. Alegremo-nos todos no Senhor e bendigamos ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Louvemos e exaltemos a Ele pelos séculos dos séculos. (Dn 3, 57-88)

2. Com o mais profundo respeito e terno amor felicitemos a nossa carinhosa Mãe Maria e demos todos a ela os parabéns, e digamos a ela com a mais fervorosa devoção: Deus te salve, Imaculada Maria, Filha de Deus Pai! Deus te salve, Imaculada Maria, Mãe de Deus Filho! Deus te salve, Imaculada Maria, Esposa de Deus Espírito Santo! Deus te salve, Imaculada Maria, Mãe e Advogada dos pobrezinhos pecadores! Bendita és tu entre todas as mulheres! (Lc 1,42) Tu és a glória de Jerusalém, a alegria de Israel e a honra de nosso povo. (Jd 15,9) Tu és o amparo dos desvalidos, o consolo dos aflitos e o norte dos navegantes. Tu és a saúde dos enfermos, o alento dos moribundos e a porta do céu. Tu és, depois de Jesus, fruto bendito de teu ventre, toda nossa esperança, o’ clemente, o’ pia, o’ doce Virgem e Imaculada Maria!

3. Deus, amados irmãos, exaltou Maria e lhe deu um nome que, depois do nome de Jesus, está sobre todo nome, para que ao nome de Maria Imaculada todos os joelhos se dobrem no céu, na terra e no inferno, e toda a língua confesse que Maria foi concebida sem mancha de pecado original (Cf Fl 2,9-11, Pe. Claret aplica à Virgem um texto que São Paulo aplica a Cristo, reconhecendo Seu senhorio), que Maria é Virgem e Mãe de Deus e que Maria, em corpo e alma, está na glória do céu, coroada pela Santíssima Trindade como Rainha dos céus e da terra, advogada dos pecadores.

4. Conhecestes muito bem, amados irmãos, a confiança que abrigamos em nosso coração de que, finalmente, veríamos realizado nosso grande desejo de que se declarasse dogma de fé, o mistério da Imaculada Conceição de Maria Santíssima, de tanta honra para ela e de tanto consolo para seus devotos. Ao ver a concorrência nas igrejas para ganhar a indulgência, no estilo de jubileu, que nosso Santíssimo Padre Pio IX concedeu para este fim no dia primeiro de agosto do ano passado, e que nós, com tanto gosto, comunicamos por nossa Carta Pastoral de 25 de janeiro do presente; ao ver a freqüência e a devoção com que vos aproximais para receber os santos sacramentos da penitência e comunhão, não apenas para ganhar a indulgência plenária, mas também para suplicar do céu esta honra tão desejada dos verdadeiros devotos de Maria; ao ver vosso fervor e perseverança na oração para alcançar mais rapidamente esta graça, cheios de firme confiança, dizíamos: “Sim, havemos de ver a Declaração”. Deus não se fará surdo a estas fervorosas orações. Não morreremos sem ver realizados os nossos desejos. E assim se cumpriu, amados irmãos, porque em nossas mãos já temos a Bula da Declaração do Dogma de Fé. O mistério da Imaculada Conceição de Maria Santíssima, nossa querida mãe, é uma verdade católica.

5. Já não nos será doloroso morrer. Sim, amados irmãos, com gosto morreremos a qualquer hora em que o Senhor se digne dispor de nós, porque já viram nossos olhos o que tanto apetecíamos. (Lc 2,30) Ainda mais, desejamos soltar a cadeia deste corpo, que nos sujeita aqui à terra, para poder subir ao céu e estar com a Mãe de Jesus Cristo, e Mãe nossa também, e poder felicitá-la pessoalmente. (Fl 1,23) Mas, uma vez que não nos é dado sair deste desterro, converteremos este vale de lágrimas em campo de alegria para celebrar as festas de Maria, e já que não podemos festejar pessoalmente, diante dela, faremos com a sua imagem. A fim de que vossos obséquios sejam mais sólidos e verdadeiros, dar-vos-emos uma breve explicação dos principais motivos desta solenidade.




II. Exposição Doutrinal

1. A Imaculada é Festa Gloriosíssima de Nossa Senhora

6. Entre todas as festividades que celebra a Igreja em honra da Santíssima Virgem Maria, nenhuma é tão gloriosa como a da Imaculada Conceição. Nela recordamos aquele primeiro instante em que a Virgem Santíssima começou a ser e se encontrou, por uma graça especial, perfeitamente formosa aos olhos de Deus, seu criador, o qual, formando-a como a obra mais perfeita e mais cabal de sua onipotência e cumulando-a, ao mesmo tempo, de todos os dons, com mais prodigalidade do que todas as criaturas, reconheceu nela um objeto digno do seu amor e de suas mais doces complacências.

7. O primeiro momento da ignomínia, tão fatal para todos os homens, pois todos começam a ser filhos da ira desde que começam a viver. São escravos do demônio, assim que homens e objetos do ódio de Deus, assim que saem do nada. Este momento é em Maria o princípio e a origem de todas as bênçãos que Deus pode derramar ao aparecer sobre uma pura criatura. Este momento, tão pouco vantajoso para todos os homens, é um momento de grande glória para Maria, que se apresenta Filha do Altíssimo, herdeira do céu, digna esposa do Espírito Santo, precioso objeto do amor de Deus, enquanto todos os filhos de Adão são, em igual situação, escravos do demônio, herdeiros do inferno e vítimas da justiça divina.

8. Mas, assim como os náufragos, que a nado lutam contra as ondas, sem poderem, apesar de seus esforços e fadigas, escapar das faces da morte, ao descobrirem lá longe uma barca salvadora que marcha com vento em popa, singrando majestosa os mares em direção a eles, como se animam quando se dirigem a ela, como gritam! Assim também fazem os infelizes filhos de Adão, náufragos no mar tempestuoso do pecado, que não querem perder-se, lutando em vão os pobrezinhos; se vêem a Maria como barca navegando impulsionada pelo vento do Espírito Santo para socorro de seus irmãos, naturalmente, pelo instinto da própria salvação, acodem e clamam a ela e lhe dizem: Ave, Maria purísima, sem pecado e em graça concebida. Assim a saúdam, assim a invocam, assim a louvam e honram com freqüência.

2. Conteúdo da saudação “Ave, Maria Puríssima”

9. Duas coisas compreende este louvor que lhe tributam os fiéis, que formam o mais honorífico brasão de Maria: o que lhe atribuem é a expressão puríssima. Para que entendais bem esta doutrina, amados irmãos, convém advertir que há duas espécies de pureza: uma positiva e outra negativa. A positiva consiste na caridade e demais virtudes, e não é nossa intenção discorrer sobre ela aqui, ainda que muitíssimo pudéssemos dizer. A pureza negativa consiste em estar isenta de toda culpa e pecado. Esta pureza é plena em Maria, porque desde o primeiro instante de seu ser físico ela foi separada, plenamente, de todo pecado, fugindo com o maior cuidado de todo pecado pessoal, durante toda a sua vida. Por isso foi chamada formosa como a lua e escolhida como o sol, (Ct 6,10) para ensinar-nos que a Virgem, na santidade positiva, distingue-se do Filho como a lua se distingue do sol, (1Cor 15,41) isto é, que sua formosura, mesmo inefável, era incomparavelmente menor que a formosura de Jesus Cristo, Sol de justiça. (Ml 3,20) Além disso, a sua beleza não era inata, mas participada de seu divino Sol e, por isso, São João a viu vestida de Sol. (Ap 12,1) Todos sabem que o vestido serve para cobrir o desnudo, para abrigar e adornar. Pelo contrário, a pureza negativa da Virgem é formosa como o é o sol, porque, preservada de toda a culpa, imitou exatamente a seu Filho na inocência, possuindo, como possuía Ele, uma total isenção de toda mancha, se bem que por diferente modo e distinta razão. Desta sorte se verifica o oráculo de Isaías, que diz que, no céu da Igreja, a luz da lua será semelhante à luz do sol (Is 30,26), porque em ambos não teve parte o pecado, nem em Jesus Cristo e nem em sua Santíssima Mãe.

10. Explicada, amados irmãos, a primeira parte do brasão de Maria, com o qual os seus devotos a louvam, que é Ave, Maria Puríssima, vem agora a segunda, que é: em graça concebida ou sem pecado concebida. É verdade que as Sagradas Escrituras não afirmam explicitamente que se concedesse a Maria tão singular privilégio, porém, também é certo que tanto no Antigo como no Novo Testamento se diz o suficiente para deduzi-lo claramente. Com efeito, que outra coisa nos quer dar a entender Deus quando, maldizendo Satanás, figurado na serpente que havia induzido Eva e Adão ao pecado, pronunciou aquelas notáveis palavras: Ela esmagará tua cabeça (Ipsa conteret caput tuum)? (Gen 3,15) Que outra coisa quis indicar Deus com tais palavras senão, precisamente que Maria não estaria jamais submetida a seu império? E, como disse Santo Agostinho (Enchiridium: Serm. De Conc.), o pecado original é como a cabeça da serpente infernal, porque este pecado é o princípio fatal pelo qual o demônio se apropria do homem.

3. Razões da Escritura que provam o privilégio

11. Maria, tendo sido preservada da mordida desta serpente em sua imaculada concepção por uma graça preveniente, exatamente quando lhe esmagou a cabeça, disse por este insigne privilégio: Não se alegrará o inimigo sobre mim. “Non gaudebit inimicus meus super me”.

12. No Novo Testamento temos outra prova muito grande a favor desta verdade, pois afirma São Lucas no capítulo primeiro, versículo 28, que o Anjo disse a Maria: Ave, gratia plena. Chama a Maria de Cheia de Graça, tanto na intensidade quanto na extensão da sentença. Assim, Maria nunca esteve vazia de graça, mas sempre cheia de graça.

13. No texto grego se lê kejaritoméne, que não quer dizer somente cheia de graça, mas concebida em graça. Assim explica Origines, que com tanta perfeição estuda e fala o Grego, dizendo: “Não recordo haver encontrado esta palavra em outra parte da Sagrada Escritura; esta saudação não foi dirigida a homem algum, pois foi reservada somente para Maria”. Jeremias e o Batista foram santificados antes de nascer (Jr 1,5 e Lc 1,41) , porém, não foram preservados como o foi Maria e somente Maria, por ser criada e destinada para ser Mãe do mesmo Deus Humanado.

14. Anunciada com tantas figuras pelos santos patriarcas e profetas, Maria foi chamada de Aurora (Ct 6,9), porque assim como esta sai das trevas e vai irradiando sua luz até que, com a mão, traz o sol ao horizonte, assim e muito mais, Maria, do meio das trevas do pecado original, apresenta-se reluzente com a luz da graça e nos traz o Sol da Justiça, Cristo Senhor nosso (Ml 3,20). Maria é formosa como a estrela da madrugada (Eclo 50,6). Ela foi representada na escada de Jacó, pois, assim como esta chegava da terra ao céu, onde além do cume descansava Deus e por ela baixavam e subiam os anjos (Gn 28, 12-22), assim Maria, pela graça e privilégios, chega da terra ao céu, em Maria descansa Deus, por Maria nos baixam do céu as graças e por Maria sobem ao céu as nossas súplicas. Maria é aquela casa que construiu para si a eterna sabedoria, na qual pos sete colunas (Pv 9,1; 24,3), que são as três virtudes teologais e as quatro cardeais morais. É a Arca da Santificação (Sl 131,8), o Trono de Deus (Sl 88,38; Pr 20,28; Mt 5,34); ela é a Jerusalém Santa (Ap 21, 2.10), a Pomba Pura (Ct 6,8) e as delícias do mesmo Deus (Pr 8,31). Maria é a mística Fonte do Paraíso (Gn 2,6), a Arca de Noé (Gn 6), a Arca do Testamento da lei da graça (Js 3,11; Ap 11,19), a Vara de Aarão para os sacerdotes (Ex 7,12), a Vara de Moisés para os governantes (Ex 4,2-4; 7,15), a Vara de Jessé para as almas boas (Is 10,15). Maria é a Torre de Davi, na qual existe abundância de escudos para defender-se (Ct 4,4); é o Templo de Salomão (2Cr 6.8) e o Trono de Marfim (Ct 7,5), onde se ora e se fazem pedidos a Deus.

15. Maria, no primeiro instante de sua imaculada concepção, distinguiu-se dos filhos de Adão mais do que se distinguem, entre as demais árvores, o cedro do Líbano (Sl 91,13; Ct 5,15; Eclo 24,17.50,13) , o cipreste de Sião (Eclo 24,17; 50,11), a palma de Cades ( Eclo 24,18), a oliveira frondosa dos campos, o plátano bem regado pelas águas e a mirra mais aromática (Eclo 24, 19-20).

16. Maria, desde o primeiro instante de sua concepção é toda formosa; nela não há mancha alguma; é formosa de corpo, formosa de alma, formosa de pensamentos e amiga de Deus pela graça. Maria é a Cidade Santa de Deus, de cristal transparente por sua pureza e de ouro finíssimo por sua caridade; ela está edificada sobre os doze fundamentos de pedras preciosas que são as virtudes; adornada por Deus para ser sua querida filha, sua amada esposa, e terna mãe do Cordeiro, e por isso tem a claridade de Deus (Ap 21 2.10-11). Esta cidade santa mariana tem doze portas, três ao oriente, três ao boreal, três ao austral e três portas ao ocidente (Ap 21,12-13), de maneira que Maria recebe gente de todas as partes. Tanto ela deseja a salvação de todos, que nos faz saber que quem a encontrar encontrará a vida e alcançará saúde do Senhor (Pr 8,35). São João afirma que os povos caminharão com a sua luz e os reis da terra levarão a ela sua honra e sua glória (Ap 21,24; Is 60,3). Desde o nascimento da Igreja não houve século algum no qual a Imaculada Conceição da Mãe de Deus não tenha sido objeto de seu culto e veneração. Os eclesiásticos e seculares, os reis e vassalos, os sábios e ignorantes, as pessoas de honra se hão guiado por esta luz de Maria; sua favorita devoção tem sido a Imaculada Conceição de Maria.

4. A tradição, em favor da Imaculada

17. No primeiro século, vêem-se referências à Imaculada nas liturgias de São Tiago, São Marcos e Santo André, especialmente na de São Tiago, o Menor, onde se chama a Maria Santíssima de Imaculada, e Santo André diz: Assim como o primeiro Adão foi formado da terra antes que fosse maldita, assim o segundo Adão foi formado da terra virgem, a que jamais foi maldita (Hoje se sabe que as referidas liturgias não têm a ver com as liturgias propriamente dos apóstolos, embora sejam documentos litúrgicos dos primeiros séculos). Nos primeiros séculos da Igreja, muito pouco se encontra escrito sobre a Imaculada Conceição de Maria Santíssima, e a razão pela qual aqueles Santos Padres não se ocuparam muito de falar deste privilégio, era porque já se supunha sabido e crido em favor daquela que, singularmente, fora escolhida por Mãe de Jesus, que tiraria os pecados do mundo (Jo 1,29). Eles estavam persuadidos de que aquele que, depois de morto, quis ter um sepulcro novo para ali ressuscitar, também havia escolhido um novo ventre, sem estar contaminado pelo velho Adão, para nascer. Mas não faltam escritores. Temos no segundo século Santo Irineu, São Justino Mártir, São Hipólito e São Cipriano. No terceiro século temos São Gregório Taumaturgo, São Dionísio Alexandrino e Orígenes. A Virgem Maria, disse Orígenes, é digna do Digno, imaculada do Imaculado, una do Uno, única do Único (Segundo as notas de rodapé, os testemunhos dos séculos I e II sobre a Imaculada não são muito claros, embora existam referências onde se apóia Claret para citar os Padres na Carta Pastoral).

18. No quarto século, Santo Atanásio, Santo Ambrósio e Santo Anfilóquio falam da Santíssima Virgem como isenta de toda a mancha de pecado por uma graça especial. No quinto século temos Santo Agostinho, São Jerônimo, São Máximo de Turim e Teodoreto. No sexto século, São Fulgêncio e São Sabas, autor de um ofício em honra da Imaculada Conceição de Maria.

19. No século VII, falam dela, São Isidoro, Sofrônio, Patriarca de Jerusalém, e o VI Concílio Geral de Constantinopla, que recebeu com aplauso a carta deste Patriarca, que chama a Maria, Imaculada e Isenta de todo o contágio do pecado.

20. No oitavo século, referem-se à Imaculada, Radberto Abad, Raimundo Jordan, São João Damasceno, e o II Concílio Geral Niceno, que chama a Santíssima Virgem mais pura que toda a natureza sensível e intelectual, isto é, mais pura que mesmo os anjos, que jamais foram manchados com o menor pecado, nem original, nem atual.

21. No século IX, encontramos Teófanes e as Meneas Gregas, muito antigas, que são uns livros eclesiásticos para o uso dos gregos, onde está muito bem marcada a devoção que tinham para com a Imaculada Conceição de Maria Santíssima. Neles se lêem estas palavras: Por singular providência, quis Deus que a Sagrada Virgem, desde o princípio de sua vida, fosse tão pura como convinha para a que haveria de ser digna de tanto bem, isto é, de Cristo.

22. No século X, São Fulberto, Santo Anselmo, São Pedro Damião e São Bruno, fundador dos Cartuxos. No XI, o beato Ivo de Chartre. No XII, São Bernardo. No XIII, Santo Antônio de Pádua, Santo Alberto, Alexandre de Ales, Santo Tomás e São Boaventura. No XIV, Escoto e São Lourenço Justiniano. Nos séculos XV, XVI e XVII, contam-se mais de quatrocentos autores, e todos grandes homens por seu saber e virtude, dos quais mais de 70 são bispos. Porém, ao chegar a este último século e meio, já não se podem considerar os autores, porque todos os católicos sentiam a mesma coisa, proferiam as mesmas palavras e com uma voz universal diziam que Maria foi concebida sem pecado original.

23. Os Sumos Pontífices falam a linguagem dos Santos Padres. Todos os Papas que governaram a Igreja desde Sisto IV até Pio IX, à exceção de três, que por viverem por poucos dias não tiveram tempo para declarar seus sentimentos, todos procuraram e estimularam a piedade dos fiéis com relação à Imaculada Conceição de Maria Santíssima, concedendo privilégios, graças e indulgências.

24. O Papa Sisto IV expede duas Bulas com este fim e publica um Ofício para a festa da Imaculada Conceição de Maria, cujo principal objetivo é declarar que Maria foi inteiramente preservada do pecado original. O Papa São Pio V, no ano de 1569, deu permissão a toda a ordem de São Francisco para rezar o Ofício da Imaculada Conceição de Maria, cujo principal objetivo é declarar que Maria foi inteiramente preservada do pecado original. O Papa Clemente XIII, no ano de 1761, deu permissão a todo o clero secular e regular para rezar este mesmo ofício da Imaculada Conceição de Maria.

25. Com a autoridade do Papa Inocêncio VIII, foi fundada uma ordem de religiosas em honra da Imaculada Conceição da Rainha do Céu, que depois foi confirmada por Júlio II no ano de 1507. Na regra que o Papa dá às religiosas desta fundação, logo após dizer no capítulo I que as que entrarem nesta ordem pretendam honrar a concepção imaculada da Mãe de Deus, acrescenta que entrar nela significa prestar um serviço singular a esta augusta Rainha. Manda, igualmente, que as religiosas andem vestidas de um hábito e escapulário brancos e de um manto azul celeste. A razão desta ordem é que estas vestes dão a entender que a alma da Santíssima Virgem, desde sua criação, foi feita, de um modo particular, templo do Filho de Deus. Desde então, até hoje, são inúmeros os institutos, confrarias, congregações, que foram erigidas pela piedade dos fiéis em honra da Imaculada Conceição, e os Sumos Pontífices, não só as têm aprovado com grande prazer em seu coração, mas ainda lhes têm enriquecido com muitíssimas graças e indulgências.

26. O Papa Alexandre VII, num decreto que emitiu em 8 de dezembro de 1661, disse que é uma antiga piedade dos fiéis crer que a mãe de Deus foi preservada da mancha do pecado original, e comemorou a sua festa em Roma com magnificência. Não referiremos, um por um, os Sumos Pontífices que se esmeraram e dedicaram seu zelo a favor da Imaculada Conceição de Maria, porque seria uma tarefa interminável.

27. Não somente nos Papas se vê este zelo a favor da Imaculada Conceição de Maria, pois brilha também esta estrela nos Concílios. O Geral de Éfeso, celebrado em 431, chamava a Santíssima Virgem de Imaculada, porque em nada sofreu corrupção. O IV Concílio de Toledo, do ano 634, aprova com elogio o breviário reformado por Santo Isidoro, arcebispo de Sevilha, no qual, o ofício da Imaculada Conceição se encontra previsto para toda a oitava, e em todo o ofício se diz que ela foi preservada, por um privilégio singular, do pecado original. O XI Concílio, celebrado no ano de 675, faz um elogio da doutrina de Santo Ildefonso e dá muito a entender, louvando a este ilustre devoto de Maria, que esta Senhora não foi compreendida no pecado original. O mesmo sentem os padres do Concílio de Basiléia, celebrado no ano de 1439, e os do Concílio de Avinhão em 1457. Finalmente, no Concílio de Trento, na sessão quinta, depois de haver, com autoridade, definido em seu Decreto o dogma da transmissão do pecado original a toda a descendência de Adão, acrescentou a seguinte importantíssima cláusula: “Declara, inobstante, o mesmo santo Concílio que não é sua intenção compreender neste Decreto, em que se trata do pecado original, a Bem-Aventurada e Imaculada Maria, Mãe de Deus”.

28. Além do que já foi referido sobre os Sumos Pontífices e Sagrados Concílios, podemos acrescentar a devoção particular de todas as ordens religiosas, o zelo das universidades, o entusiasmo dos reis católicos e o unânime consentimento de todos os povos em honrar este privilégio da Rainha dos Céus, princípio e fundamento de todos os outros. As célebres ordens de São Bento, da Camáldula, dos Cartuxos, do Císter, do Cluny, dos Presmostratenses e quantas vieram depois delas, todas professam honrar a santidade privilegiada da Santíssima Virgem neste primeiro momento e dar a ela testemunho de seu zelo e terna devoção com a magnificência de seu culto.

29. As mais brilhantes universidades da Europa, e particularmente as de Cervera, Sevilha, Valência, Salamanca, Alcalá, Paris, Colônia, Praga e outras, sem excetuar uma só na Espanha, têm entre seus estatutos a norma de não admitir aos graus acadêmicos a quem não se obrigue a defender a Imaculada Conceição de Maria Santíssima.

30. Os reis católicos e cristianíssimos da Espanha, França e de outros reinos se esmeraram de um modo particular em obsequiar a Imaculada Conceição de Maria Santíssima. Luís XIV, rei da França, admiração de seu século, não contente em haver renovado, por uma declaração de 1650, a consagração solene que o falecido rei, seu pai, Luís XIII, havia feito de sua pessoa, de sua família real e de seu reino à Santíssima Virgem, em 1667, quis marcar, ainda mais, sua piedade para com a mesma Virgem, impetrando do Papa Clemente IX uma oitava da festa da Imaculada Conceição.

31. Já, antes, o rei Dom João I de Aragão e de Valência, no ano 1394, fez uma total consagração de sua pessoa e de seu reino à Santíssima Virgem, com uma declaração autêntica em favor de sua imaculada concepção.

32. São bem notórios, em ambos os mundos, o culto e a devoção que nós espanhóis tributamos à Santíssima Virgem e singularmente sob o título de sua Imaculada Conceição. Esta festa, há muitos anos, é das mais solenes na Espanha, e nas cortes do ano de 1760, Maria Santíssima, sob o título de sua Imaculada Conceição, foi declarada patrona de todos os domínios sujeitos ao Rei Católico, pela proposta de seu devotíssimo rei Dom Carlos III, autorizado pelo Papa Clemente XIII, fundando a mais distinta ordem espanhola, que se chama de Carlos III, em honra de Maria Santíssima.

33. Nenhum pregador omite jamais, ao começar seu sermão, nos domínios da Espanha, a oração: “Seja bendito e louvado o Santíssimo Sacramento do Altar e a puríssima e imaculada concepção de Maria Santíssima, Mãe de Deus, Senhora nossa, concebida sem mancha de pecado original no primeiro instante de seu ser, Amém. E de todos os católicos e fiéis espanhóis, a expressão que mais têm no coração e de cuja abundância fala a boca é esta: Ave, Maria puríssima, sem pecado concebida. Com ela começam e terminam suas orações e ela é o sinal da paz que se dão quando se visitam e saúdam.

5. A Teologia e a Imaculada

34. Esta devoção não sai somente de um coração fervoroso, mas também a razão a anima e aumenta. Portanto, para tributar-lhe este racional obséquio, discorre-se desta maneira: “Não é crível que Deus tenha querido permitir a mancha do pecado naquela mulher que estava destinada para ser sua Mãe e para albergar em seu seio o precioso lírio dos vales, o vaticinado dos profetas, o esperado das gentes, o desejado dos colares eternos, o salvador do mundo”. Por ventura, faltaria a Deus poder para subtrair da comum lei do pecado àquela singularíssima criatura, sua distinguida e predileta, que haveria de ser o instrumento de nossa redenção? E se isso pudesse ter sido feito e se pela Sua mesma dignidade fosse conveniente que o fizesse, que dificuldade haveria em admitir que o fez, e que, aplicando antecipadamente à Virgem Santa os méritos da paixão e morte de Seu benditíssimo Filho, a eximisse da necessidade de ser, nem por um breve instante, escrava do pecado e do demônio, seu capital inimigo? Poder-se-ia supor que a Maria não concedesse o que concedeu aos anjos e a Adão e Eva, quando Maria é Rainha dos anjos e dos santos? O entendimento está convencido, e por convicção e devoção dizem todos que Maria foi concebida sem mancha de pecado original.

6. Pio IX e uma razão de estilo apologético

35. Esta é, amados irmãos, uma breve resenha do essencial relativo à imaculada concepção de Maria Santíssima. Já é chegada a hora que, deixando de ser uma pia crença, passe a ser um Dogma de Fé. É comum doutrina dos doutores e santos Padres que Deus escolhe aos sujeitos e lhes dá suas graças, segundo o objeto e o fim que lhes destina. Deus, ao longo do tempo, marcou com seu cetro divino o meio do século XIX. Este foi o tempo predestinado para publicar esta verdade. O objeto é grandioso, a matéria é delicada, e tem ocupado a todos os sábios eclesiásticos até o presente e é a alma da devoção dos fiéis. Deus dará a sua igreja um Papa de grande espírito, será sábio, será pio. Já temos este Papa: é Pio IX. É Papa de espírito grande, é Papa sábio, é Papa pio. Quando Deus dispôs que se fabricasse a Arca da Aliança, escolheu a Beseleel, encheu-o do seu Espírito, de saber, de inteligência, de ciência e de toda a maestria para trabalhar toda espécie de labores de ouro, prata...(Ex 36, 1-38). Sabemos que a Arca da Aliança era figura de Maria Santíssima, arca viva da nova aliança com Deus. Pois sim, para fundir o ouro e a prata e cortar a incorrupta madeira de Acácia e formar aquela Arca deu tanto saber a Beseleel, que saber houvera dado e com que virtudes houvera adornado ao Beseleel da lei da graça para que o ouro e a prata da pureza da graça de Maria lhes dê uma nova forma, sem variar a essência. Que presente recebeu o povo cristão, como Dogma de Fé, o que antes era uma piedosa devoção que contemplava o mérito intrínseco de Maria, Mãe de Deus?

36. Nosso Pio IX, valendo-se das palavras do Apóstolo, pode muito bem dizer: Gratia Dei sum id quod sum, et gratia Dei in me vacua non fuit (Pela graça de Deus sou o que sou, e sua graça não tem sido estéril em mim. 1Cor 15,10), pois que, apenas se senta na cátedra de São Pedro, já começa esta grande missão para a qual Deus e sua Mãe lhe enviam. Vale-se de todos os meios que lhe dita a prudência, o zelo e a piedade. Humilha-se, jejua e se mortifica para alcançar os auxílios do céu. Reúne as orações de todos os filhos que são os fiéis. Pede o parecer e o conselho de todos os seus irmãos bispos, a quem o Senhor deu sabedoria e inteligência para lhe ajudarem, assim como deu a Ooliab e a todos os mestres para ajudar a Beseleel. Finalmente, passa a definir. Vede aqui as próprias palavras da Bula: “Assim, pois, confiantes no Senhor e crendo ter chegado o momento oportuno para a definição da Imaculada Conceição da Virgem Maria, Mãe de Deus; Definição que maravilhosamente ilustra e declara a Palavra Divina, a tradição veneranda, o juízo constante da Igreja, o unânime assentimento dos bispos e fiéis do mundo e as atas insignes de nossos predecessores; e depois de haver pensado tudo com agradável diligência e elevado fervorosas súplicas a Deus, cremos que não devíamos vacilar em sancionar e definir, por nosso supremo ofício, a Imaculada Conceição da Virgem, para satisfazer, assim, os veementíssimos desejos do orbe católico e nossa piedade à Santíssima Virgem; e para mais e mais honrar ao mesmo tempo nela a seu único Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, posto que no Filho repercute toda a honra e louvor que se dê à sua Mãe. Para tanto, depois de não interromper na humildade e no jejum nossas preces particulares e as orações públicas dirigidas pela Igreja a Deus Pai, por meio de seu Filho, para que se digne dirigir e confirmar nossa mente na virtude do Espírito Santo; depois, também, de implorar a proteção de toda a corte celestial, invocando com soluços a assistência do Espírito Consolador, e sentindo que nos inspirava neste sentido, para a honra da santa e indivisível Trindade, para glória e dignidade da Virgem, Mãe de Deus, para exaltação da fé católica e triunfo da religião cristã; pela autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos santos apóstolos Pedro e Paulo e a nossa, declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que ensina que a bem-aventurada Virgem Maria, no momento da concepção, por uma graça e privilégio singular de Deus Todo Poderoso e pelos méritos de Jesus Cristo, salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha de pecado original, é doutrina revelada por Deus, e que, por conseguinte, deve ser firme e constantemente crida por todos os fiéis. Em virtude desta doutrina, se alguns, que Deus não permita, tivessem a presunção de abrigar interiormente um sentimento contrário ao que nós definimos, saibam e entendam que estão condenados por seu próprio juízo, que naufragam na fé, que se separam da unidade da Igreja e que, além disso, por este mesmo fato, submetem-se às penas pelo direito estabelecidas se ousarem manifestar seu sentimento interior por palavra, por escrito ou de qualquer outro modo externo”. (Bula Ineffabilis Deus, p.516)

37. Vede aqui, amados irmãos, as palavras do oráculo divino, de nosso Sumo Pontífice, Papa Pio IX, na Bula que deu no dia 08 de dezembro de 1854, declarando Dogma de Fé o mistério da Imaculada Conceição de Maria Santíssima, Mãe de Deus e Mãe e Senhora nossa. Demos todos graças a Deus, Maria Santíssima e também a nosso Sumo Pontífice, o Papa Pio IX. Oh! Que glória tão grande o espera lá no céu! Deus em todos os seus atributos é infinito, contudo, vemos que mais se inclina à misericórdia do que à justiça e que é mais generoso em premiar do que rigoroso em castigar. Agora, pois, se a serpente, se o pobre réptil, não serviu mais do que instrumento sem espontaneidade, somente por eleição do diabo, para fazer pecar a mulher e causar o pecado original, foi condenado a ser o mais desgraçado entre todos os animais e bestas da terra, a andar se arrastando sobre seu peito, e terra comerá todos os dias de sua vida, então, que prêmio, que retribuição, que recompensa dará Deus a nosso Sumo Pontífice Pio IX, que serviu de instrumento não meramente passivo ou indiferente, senão ativo e com todo o afeto do seu coração e com toda a piedade de sua alma, de quem se serviu Deus para declarar isenta de pecado a esta mulher forte, à mulher Virgem e Mãe do mesmo Deus? Somente Deus sabe o merecimento de Pio IX. Saudemo-lo e lhe digamos da parte de Deus: Tu és, o’ Beatíssimo Padre, o mais feliz entre todos os Sumos Pontífices que existiram desde São Pedro; teu peito é o depósito de todos os nossos corações; tu és nosso pastor, e nós te seguimos na pastagem da celestial doutrina, e tu nos conduzirás aos convites da glória.

38. A serpente foi amaldiçoada, ela e toda a sua raça; porém a mulher privilegiada foi abençoada, ela e sua descendência (Gn 3,15). A Pio IX, o céu cobriu-o de bênçãos; a ele e a todos os seus sucessores, de um modo particular por ter declarado verdade de fé a Imaculada Conceição de Maria. Felicitamos-lhe todos, juntemo-nos sempre a ele e a seus sucessores com o entendimento e a vontade, e nunca jamais nos afastemos de seu lado e de seu partido, porque a serpente e sua raça, que são o diabo e os homens maus, terão sempre inimizade com o Sumo Pontífice, e assim, quando ouvis a alguém falar mal do Papa, pensai que é o mesmo demônio ou a serpente, ou algum de sua raça maldita.






III. Efeitos da Definição

39. Observamos, amados irmãos, com muita propriedade e examinamos com suma escrupulosidade os efeitos que produz no povo esta declaração da Imaculada Conceição de Maria, e vimos que alguns se queixam, outros se alegram e outros se irritam. Os devotos ignorantes se queixam, os sábios se alegram e os maus, que são da raça da serpente e têm por pai o diabo, como disse Jesus Cristo: Vos ex patre diabolo estis (Vós sois filhos do diabo. Jo 8,44), estes são os que se irritam.

1. Nos devotos ignorantes

40. Os devotos ignorantes se queixam e dizem: Para que isto? Nós sempre acreditamos que Maria Santíssima era concebida sem mancha de pecado original. A estes respondemos: Está muito bem, porém vossa crença era uma crença pia, tinha seu mérito no bom afeto e reverenciáveis a Maria Santíssima com o coração. Agora, porém, sendo declarada verdade de fé, reverenciais a Maria com o coração e com o entendimento. Neste caso, exercitais a devoção e a Fé juntamente, como o que jejua por mortificação tem já o seu mérito, se jejuar em dia mandado pela Igreja, além da virtude da mortificação, exercita a obediência.

2. Nos devotos instruídos

41. Os devotos sábios têm uma singular alegria tanto no que diz respeito à Maria como a si mesmos. Como amam de verdade a Maria, desejam-lhe todo bem, desejam que ela tenha este título tão glorioso, que eles sabem muito bem que a ela pertence. Reconheciam, antes, de certo modo, a Maria, com relação ao Dogma, como um ius ad rem (um direito merecido), e agora com um ius in re (um direito que já é um fato), e a contemplam cheios de complacência na posse deste direito. Uma das maiores alegrias que sente o homem é ver a força do discurso e do cálculo concordar com a verdade, então o entendimento fica tão realizado e satisfeito, que goza em seu objeto. Agora, pois, que alegria tão grande devem sentir os sábios devotos de Maria Santíssima, que tanto discorrem, que tanto escrevem e com tanto esforço defendem sua imaculada concepção, dando a ela provas de seu amor e de sua fidelidade? Mas, agora, sobre esta matéria, se pode dizer a eles que estejam atentos e escutem a voz que ouviu São João: Ut requiescant a laboribus suis; opera enim illorum sequuntur illos. (Que descansem de seus trabalhos, porque suas obras os acompanham. Ap 14,13). Descansem dos trabalhos que tiveram que realizar para defender este honroso título de Maria, porque as obras boas que fizeram a favor desta Senhora os seguirão até ao céu e lhes serão muito bem recompensadas.

Porque Deus permitiu que alguns impugnassem o privilégio de Maria?

42. Talvez alguém pergunte: “Como é possível que uma coisa tão honorífica para Maria, tão preconizada pelos santos e doutores, pelos pontífices e concílios, pelos reis e vassalos, e ainda tão racional, possa ser impugnada, cabalmente, por homens de piedade e religião como os discípulos de Santo Tomás?” A ele poderíamos responder o que disse Jesus Cristo quando lhe perguntaram seus discípulos sobre um cego, qual era a causa dessa deficiência, se era o pecado dele ou de seus pais. E Jesus Cristo respondeu: “Nem este pecou nem seus pais, mas isto foi uma permissão para que as obras do poder de Deus resplandecessem nele”. Que seja assim, lê-se claramente nas Revelações de Santa Brígida, a quem disse a Virgem Santíssima: “Deus permitiu que alguns amigos seus duvidassem piamente de minha concepção, e cada um manifestou seu zelo até que, no tempo previsto, a verdade fosse manifesta”. Quia sic placuit Deo, quod amici sui pie dubitarent de conceptione mea, et quilibet ostenderet zelum suum, donec veritas claresceret in tempore praeordinato.

43. Quando há algum eclipse do sol, o mesmo chama a atenção de todos os habitantes daquele hemisfério. Quando não há eclipse algum, poucos levantam a cabeça para fixar seus olhos no rei dos planetas. Oh! Quantos e quantos levantam os olhos da consideração e contemplam a formosura de Maria, escolhida como o Sol (Ct 6,9), e observam que a opinião contrária era não mais que uma lua passageira, satélite da Terra, mais próxima de nós do que ela, e que nada afetava sua formosura própria, mesmo que fosse menos vista por nós. Oh! Quantos cânticos e louvores temos ouvido dos que foram privados de ter tal contradição! Do jeito de um caminhante de verão, que no meio do dia, cansado e fatigado, chega a um frondoso e fresco vale, coberto de rosas, lírios e violetas, vê que de um penhasco brota uma fonte de abundantes e cristalinas águas, se detém, se refresca, bebe da água e se senta ao seu lado, e observa que no meio da corrente existem algumas pedras que parecem entorpecer seu curso. Contudo, não é assim, porque a água não se detém e aquelas pedras são ocasião de um certo murmúrio, que produz um som mais suave e agradável ao ouvido que as composições musicais mais melodiosas. Se não houvesse estas pedras, a água correria silenciosa em seu curso.

2.2 Posição de Santo Tomás de Aquino e de seus discípulos

44. Todos sabemos que a dúvida do apóstolo São Tomé (Tomás) foi a causa que levou o Senhor a dar as provas mais claras de sua ressurreição. O mesmo podemos dizer no caso presente. A opinião contrária que se lê na Suma de Santo Tomás e em outros lugares de suas obras dá motivo ao surgimento das provas mais claras e convincentes da verdade sobre a Imaculada Conceição de Maria Santíssima. Mas nós entendemos que o santo doutor seguiu a opinião da verdade sobre a Imaculada Conceição de Maria, como diz claramente: Talis fuit puritas Beatae Virginis, quae a peccato originali, et actuali immunis fuit, isto é, “Tal foi a pureza da Bem-Aventurada Virgem, que esteve imune do pecado original e atual”. Esta e outras passagens semelhantes, que se lêem em suas obras, revelam claramente qual era o seu sentir. Se em outros lugares se lê o contrário, não é porque o Anjo das Escolas padecesse de equívoco ou incorresse em contradição, mas porque, neste ponto, suas obras sofreram alguma alteração. Acreditando que esta era a doutrina do santo doutor, seus discípulos a sustentavam com muito entusiasmo. Além do que, não sabiam eles compreender como poderia participar Maria Santíssima do tratamento receitado pelo médico divino se ela nunca esteve sujeita à enfermidade da culpa. Nem entendiam como podia Maria participar do fruto da redenção de Jesus, sem ter estado, instante algum, em pecado, causa da redenção.

2.3 A redenção preservativa

45. A cada um destes discípulos de Tomás podemos dizer o que Jesus disse para aquele apóstolo: “Vem cá, discípulo de Tomás, olha estas mãos perfuradas com duros cravos. Põe aqui teu dedo. Olha minhas costas transpassadas com cruel lançada. Põe aqui tua mão”. Sabes que este é Jesus? Sim. Acreditas? Sim. É Deus e Homem verdadeiro. Salvador e Redentor único do gênero humano. Ele cura os enfermos e liberta os cativos. Este é o modo comum e ordinário. Porém, tem outro modo extraordinário e nobilíssimo, que é aplicar a medicina antes que sobrevenha a enfermidade, para que não se fique doente, e pagar o resgate antes de ir ao cativeiro. Melhor é preservar do que levantar depois de caído. Se, em razão da missão que lhes confiara, Deus purificou e santificou a Jeremias (Jr 1,5) e a João (Lc 1,41-44), muito mais convinha, em razão da altíssima missão de Maria, que fosse purificada e santificada em sua mesma concepção. Ela é a Sua Mãe e Ele a deve redimir do modo mais nobre e perfeito, que é preservando-a de incorrer no pecado.

46. Alguns doutores da Igreja, tratando da Imaculada Conceição de Maria, dizem que a natureza se havia detido e ficado trêmula ante a graça, da mesma maneira que as águas do Jordão se detiveram para a passagem da Arca, figura de Maria (Js 3,7-17). Maria, desta maneira, passou em seco, sem molhar-se um mínimo que fosse, na corrente das águas da iniqüidade.

47. Não há dúvida: A carne de Maria foi tomada de Adão, mas sem as manchas de Adão. Maria somente teve em comum com Adão a natureza, porém, não a falta. E convinha que assim fosse, ainda mais por ser destinada para Mãe do Verbo. Assim como o Verbo tem um Pai Santíssimo no céu, devia ter na terra uma Mãe Santíssima, quanto isto é possível numa criatura. Assim afirma Santa Brígida: Maria de radice Adae processi, et de peccatoribus nata est, licet sine peccato concepta, ut filius Dei de ea sine peccato nasceretur (Maria surgiu da raiz de Adão e nasceu de pecadores, ainda que fosse concebida sem pecado para que o Filho de Deus nascesse dela sem pecado).

48. Desta verdade encontramos uma prova, a mais clara e uma figura, a mais adequada, no terceiro livro dos Reis (IRe 18 42-45). Nele se lê que Elias subiu no cume do Carmelo, onde, ajoelhado na terra, disse a seu criado: “Anda, olha e observa as bandas do mar”. Assim fez o criado e voltou dizendo: “Não há nada”. Replicou-lhe Elias: “Volta e olha por sete vezes”. Na sétima vez ele viu subir do mar uma nuvenzinha pequena como a pegada de um homem. Disse Elias: “Anda e diz a Acab: Prepara o carro e parte logo para que não te detenha a chuva”. Enquanto fazia isto e ia de uma parte a outra, escureceu o céu num momento e começou a cair uma chuva copiosíssima. Esta é a História: A nuvenzinha é a humilde Maria. Esta nuvenzinha se levanta do mar pela força do sol. As partículas de água que a formam são da mesma massa das águas do mar que são amargas e salgadas, porém, as da nuvenzinha são doces. Maria, pelos méritos de Jesus Cristo, Sol de Justiça (Mal 3,20), levanta-se do mar da natureza humana, porém, sem a amargura do pecado original e sem o sal da concupiscência, de modo que, nela, não há o sal Martis (Sulfato Ferroso) que a excite ao pecado mortal, nem o sal volátil que a induza ao pecado venial. Oh! Quão doce é a Virgem Maria! As sete vezes que o Profeta mandou o criado fixar a vista no mar, figuram os sete dons do Espírito Santo, com os quais Deus a adornou e as sete virtudes com as quais a enriqueceu. Aquela nuvenzinha cresceu e cobriu todo o horizonte, como Maria se coloca entre Deus e nós e nos cobre com a sua proteção. Três anos completos, ou cerca de quatro haviam passado sem chover. A seca era extraordinária, não menos a esterilidade e, nessariamente, a miséria. Porém, muito pouco tempo depois de ter chovido, a terra deu copiosos e saborosos frutos. Antes da vinda de Maria se passaram quatro mil anos de seca espiritual. Que esterilidade! Que miséria! Mas se apresenta Maria. Que chuvas tão abundantes de graça! Que fertilidade de virtudes! Que abundância de almas para os celeiros da glória!

49. Outra razão e figura se pode dar da Imaculada Conceição de Maria, e é a seguinte: Quando um homem tem um propriedade e a vende, somente transfere o que é seu e está a sua disposição, porém, não pode dispor do ônus ou dos encargos que pesam sobre este bem, ainda que o vendedor não faça menção alguma do ônus. Pois, do mesmo modo, ainda que seja verdade que Adão escravizou a natureza humana a Satanás, a Virgem Santíssima não está incluída, porque Deus já a havia excetuado e escolhido, como se lê no sagrado livro do Eclesiástico, capítulo 24, cujas palavras a Igreja aplica a Maria Santíssima, e são estas: Desde o princípio, ou “ab aeterno”, e antes dos séculos, já recebi o ser, e não deixarei de existir em todos os séculos. E em Provérbios se lê: Nondum erant abyssi et ego iam concepta eram (Ainda não haviam abismos e eu já era concebida. Pr 8,24). O mesmo Deus lhe disse o que o rei Assuero disse para Ester: Pro omnibus; sed non pro te haec lex constituta est (Esta lei não foi estabelecida para ti, senão para todos - Est 15,13.). Esta lei do pecado original a todos se estende e a todos compreende, menos a ti.

50. Estas e muitas outras autoridades e reflexões que se poderiam referir e se omitem pela brevidade, foram suscitadas por causa da contradição que teve esta verdade. Mas apenas falou o oráculo de Deus, o sucessor de São Pedro, e definiu o Dogma de Fé, já se acabaram as disputas entre os católicos. A Fé é única, e todos na mesma Fé dizemos: Ave, Maria puríssima, sem pecado concebida. Oh! que bem tão grande possui a Igreja Católica em ter um juiz supremo para terminar de um golpe as dissensões! É um dom de Deus. Bendito seja Deus por tão singular favor. Deste grande bem estão privados os que se separam da unidade da Igreja Católica. Oh! Ditosa unidade!

3. Nos maus

51. Temos dito, amados irmãos, que com esta declaração de fé alguns se irritaram e que estes eram os maus, os que formam a raça da serpente e é muito natural que assim tenha sido. Quando não se molesta a serpente, ela caminha à sua maneira. Quando se pisa a sua cabeça, ela se ressente e se volta sobre seu corpo, e à proporção que se lhe aperta e amassa a cabeça, tanto mais se irrita, inflama e se vinga, do seu modo, ao que a faz sofrer. Está aqui clara a razão pela qual os maus se irritam: porque sua cabeça, que é Satanás, sofre. A Virgem a aperta e a quebranta, e eles, que formam seu corpo, revolvem-se cheios de raiva e de furor, e já que não podem ferir a Virgem Santíssima, vingam-se de seus filhos e lhes fazem todo o mal que podem e de todos os modos (Ap 12,17).





IV. Parte prática: Ensinamentos morais

52. Isto é indispensável que seja assim, porque se hão de cumprir as palavras que Deus disse no princípio à serpente: Eu porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua raça e a descendência dela (Gn 3,15). Por isto convém muito, amados irmãos, que saibais fazer diferença de uns e outros, para seguir a mulher predileta e resistir varonilmente à serpente e a todos os que formam o seu corpo.

A mulher do Protoenvangelho é Maria

53. A mulher, da qual se fala aqui, bem sabeis que é Maria e sua descendência é Jesus Cristo, seu Filho primogênito (Lc 2,7). Todos os verdadeiros católicos são os outros filhos, ou adotivos por graça (Rm 8,23; Gl 4,5). O mesmo Jesus Cristo, depois da ressurreição, nos chama de irmãos (Jo 20,17). Assim, se somos irmãos de Jesus, Maria, que é sua Mãe, será também a nossa e Deus que é seu Pai, será também nosso Pai. É esta uma conseqüência tão legítima quanto verdadeira, de maneira que a mesma verdade nos manda rezar dizendo a Deus: Pai nosso, que estais no céu (Mt 6,9). E São João nos diz: Vede com que terno amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato (1Jo 3,1). Pelo Espírito nos regenerou (Tt 3,5). Pela graça nos adotou e nos fez participantes de sua divina natureza (2Pe 1,4). Por isso o mundo não faz caso de nós, porque não conhece a Deus, nosso Pai. Caríssimos, nós somos já agora filhos de Deus, mas o que seremos um dia não aparece ainda. Sabemos que quando se manifestar Jesus Cristo seremos semelhantes a ele na glória, porquanto o veremos como Ele é (1Jo 3,1-2). Esta visão nos transformará em sua imagem (Cf Rm 8,29; 1Cor 15,49; 2Cor 3,18).

1. Critérios para conhecer os filhos da mulher

54. Entretanto, quem tem tal esperança Nele, santifique-se a si mesmo (1Jo 3,3), isto é, que faça todo o possível para viver santamente, pois qualquer um que pecar comete uma injustiça (1Jo 3,4), pois o pecado é injustiça ou transgressão da lei. Na verdade, ninguém será no céu semelhante a Deus e a Jesus Cristo na glória, se aqui na terra for dessemelhante nos costumes.

55. Bem sabeis que Ele veio tirar nossos pecados e que Nele não há pecado (1Jo 3,5). E é tanto horror e a aversão que Ele tem aos pecados que, para tirá-los de nós, pagou com sua morte e nos lavou com seu sangue (Rm 6,3-5; Cl 1,22; 1Jo 1,7; Ap 7,14). Todo aquele que permanece Nele, com a devida observância da lei e com um amor constante, não peca, e o que peca não o viu nem conheceu (1Jo 3,6). Portai-vos como um criado com seu senhor, ou como um filho com seu pai, uma esposa com seu esposo, reverenciando-O, temendo-O, venerando-O e obsequiando-Lhe. Filhinhos meus, ninguém os engane (1Jo 3,7) dizendo que somente com a fé o homem se justifica e se salva, pois não se salva o que crê somente, mas o que faz justiça plena e integramente, isto é, o que faz tudo o que manda a lei de Deus, este é justo, filho e herdeiro de Deus. (Cf At 10,35; 1Jo 2,28). Quem exercita a justiça é justo, assim com o é Jesus Cristo. Quem comete pecado é filho do diabo, pois segue suas máximas e seu espírito, porque o diabo, desde o momento de sua queda, continua pecando. Por isso veio o Filho de Deus, para desfazer as obras do diabo (1Jo 3,7-8). Todo o afã do diabo é procriar filhos semelhantes a si. Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque a semente de Deus, que é a graça santificante, mora nele; e não pode pecar, porque é filho de Deus. É nisto que se distinguem os filhos de Deus dos filhos do diabo. Todo aquele que não pratica a justiça não é filho de Deus, como também o que não ama seu irmão. Na verdade, esta é a doutrina que aprendestes desde o princípio: que vos ameis uns aos outros. Não como Caim, o qual era filho do espírito maligno e matou a seu irmão. E por que o matou?Porque suas obras eram malignas e as de seu irmão justas. Não vos admireis, irmãos, se o mundo vos aborrece (1Jo 3,9-13).


2. Como o demônio busca adictos

56. Com esta doutrina de São João, podereis conhecer claramente, amados irmãos, a diferença que existe entre os descendentes da mulher chamada Maria e os que formam a raça da serpente. Também convém que estejais informados sobre a maneira como caiu Lúcifer e como faz cair aos demais, formando a sua raça. Com efeito, ensina-nos a Igreja que Deus começou a criação do mundo, criando, antes de todas as coisas, as celestiais inteligências, para formar para si mesmo uma numerosa corte e ter ministros prontos para executar suas ordens. Cremos firmemente, disse o IV Concílio Lateranense, que não há mais que um só Deus verdadeiro, o qual, no princípio dos tempos, tirou juntas, do nada, uma e outra criatura, a espiritual e a corpórea, a angélica e a mundana, e depois formou uma natureza média entre as duas, que foi a natureza humana, composta de corpo e alma. Quer dizer que os anjos são substâncias criadas, inteligentes e puramente espirituais, não destinadas a unir-se aos corpos, dos quais têm uma total independência. Estão dotados de dons mais ou menos perfeitos, segundo seus diferentes graus de perfeição e excelência. Deus determinou, desde a eternidade, não dar a glória dos céus nem aos anjos nem aos homens, a não ser a título de coroa e de recompensa; criou os espíritos celestiais com pleno conhecimento do bem e do mal e com uma perfeita liberdade. Lúcifer e todos os seus sequazes, vendo-se tão formosos e perfeitos, desvanecidos com sua própria excelência, em lugar de atribuirem a Deus, seu criador, tudo de bom e excelente que tinham, envaideceram-se a si mesmos, e cheios de orgulho, negaram a obediência a Deus e, por isso, foram precipitados nos abismos para serem infelizes por toda a eternidade. Porém, os outros anjos que perseveraram no bem, sempre fiéis ao seu criador, humildes, submissos e obedientes às suas ordens, foram confirmados na graça.

57. Quando o Angélico doutor Santo Tomás trata do pecado dos anjos, diz que pecar não é outra coisa senão declinar da retidão que o ato deve ter. E somente Deus é impecável, porque Ele é a regra e a retidão e, por isso mesmo, indeclinável. Por esta regra devem regular-se todas as criaturas e devem dirigir-se a seu criador, que existe por si mesmo, de quem e por quem todas as coisas existem, conservam-se e se aperfeiçoam (Cf 1Cor 8,6; Jo 1,3). Porém, Lúcifer, vendo-se tão formoso, disse: “Subirei ao céu e serei semelhante ao altíssimo” (Is 14,13). Na verdade, disse Santo Agostinho, “Lúcifer, cheio de soberba, quis ser chamado Deus”. E Santo Tomás acrescenta: Sem dúvida que aquele anjo pecou desejando ser como Deus, não segundo a natureza de Deus, pois bem conhecia que isto era impossível, mas segundo a semelhança, procurando-a de um modo indevido, desejando o último fim da bem-aventurança, como se pudesse chegar a ele em virtude de sua própria natureza, não considerando o apetite da bem-aventurança sobrenatural que é gratuidade de Deus, ou seja, se desejou, como último fim, aquela semelhança de Deus que se dá de graça, quis obtê-la em virtude de sua natureza e não do divino auxílio, segundo a disposição de Deus. Muito oportunamente disse Santo Anselmo: Lúcifer pretendia uma coisa que obteria se houvesse sido constante e fiel à graça e humilde às disposições de Deus, porém, ele pretendeu sua felicidade e glória independentemente de Deus, o que é um modo perverso, uma grande soberba, pois nisto consiste o pecado da soberba: não sujeitar-se ao superior naquilo que deve. Non subdi superiori in eo quo debet. O infeliz, em vez de encontrar a felicidade do céu, mereceu o fogo eterno do inferno, preparado para castigar a ele e a seus sequazes, como disse o evangelho de São Mateus (Mt 25,41).

58. Ao pecado da soberba se seguiu logo o da inveja como conseqüência imediata, não lhe agradando o bem do homem, como não lhe agradava e não lhe agrada a excelência divina, porque Deus se serve do homem para sua maior honra e glória contra a vontade do diabo. A inveja o levou a persuadir nossos pais, Adão e Eva, sugerindo a eles que não estejam sujeitos a Deus, que não guardem a lei, que comam do fruto proibido, e assim conhecerão todas as coisas, o bem e o mal, e serão como deuses (Gn 3,1-5). E, fascinados nossos pais por tão bajuladoras promessas, caem miseravelmente no pecado, faltando para com a ordem de Deus e, em lugar de serem felizes, vêem-se reduzidos a todas as misérias e até à própria morte temporal e eterna (Gn 3, 16-19). A soberba de Satanás nunca desiste de seu empenho e a sua inveja nunca cessa. Lá no princípio do mundo se valeu da serpente, porque não havia outro homem ou mulher além dos dois. Agora já existem outros homens e mulheres, e deles se valerá para estender as redes dos erros e vícios, sempre com o propósito de fazer-lhes faltar com os mandamentos de Deus, privar-lhes de conseguir a felicidade e de fazer-lhes desgraçados, neste e no outro mundo por toda a eternidade. Assim como o pescador procura encobrir o anzol com a isca, com uma comida agradável, e assim colhe o pescado, também Satanás encobre o anzol das desgraças com a isca do prazer, da liberdade, da felicidade, porque este malicioso tentador sabe e lhe consta que o homem não pode aceitar uma coisa má senão sob a aparência de bem. Sugere aos homens a liberdade de exame e assim os afasta dos mandamentos e da obediência que devem à Igreja, a Jesus Cristo, a Deus, e os faz escravos da razão e das paixões. Sugere-lhes a liberdade da consciência, e assim os afasta dos mandamentos de Deus e lhes tira os sacramentos, singularmente o da comunhão, e os reduz a escravos do pecado e a perecer de fome espiritual. Sugere-lhes a liberdade do indivíduo, e assim os afasta dos mandamentos de Deus e lhes diz: Fora a lei de Deus! Tira-lhes este jugo suave e carga leve, e os infelizes se vêem carregados com o jugo pesadíssimo de Satanás. Sugere-lhes, finalmente, protestar contra toda ordem, toda lei, todo direito e toda moralidade; unicamente quer que vivam do espírito de autonomia, palavra grega que quer dizer direito de governar-se, cada um por si mesmo, que é o espírito do diabo, de soberba e de condenação.

Lúcifer pôs sua felicidade em si mesmo, com excesso de amor próprio ou demasiada complacência de sua própria excelência, chamada por Escoto luxuria espiritual. Esta complacência não é dirigida segundo os desígnios de Deus, antes pelo contrário, alienada de Deus, por isso vem a ser a soberba, disse Billuart. Isto é, pontualmente, o que sugere aos seus sequazes a egolatria: que se façam deuses de si mesmos, independentes de tudo. Como são homens, por constarem de corpo e alma, proporcionam ao corpo a luxúria e todos os prazeres e à alma, que é espírito como o anjo, toda a insubordinação e independência. Assim vêm a ser, por sua causa, diabos de alma e corpo, dignos daquela maldição fulminante de Jesus Cristo para o dia do juízo: Apartai-vos de mim, malditos, ide ao fogo eterno, que foi destinado para o diabo e seus anjos ou ministros (Mt 25,41).

3. Características e obras dos filhos de Maria

59. Já falamos, amados irmãos, da serpente e da sua raça, agora é bom tratar da mulher e da sua descendência, e vereis um espírito diametralmente oposto. Esta ditosíssima mulher, chamada Maria, é Rainha dos anjos e dos homens e foi destinada para Mãe do próprio Deus, o que é uma dignidade quase infinita, com as demais graças análogas a esta dignidade. Porém, Maria não se envaidece com tanta grandeza, pelo contrário, humilha-se mais e mais. O anjo, da parte de Deus, a saúda cheia de graça, e ela responde: Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua Palavra (Lc 1,38). Que humildade! Que subordinação e obediência à vontade de Deus! Vai visitar a sua prima para santificar a João Batista, precursor do Senhor. Que obediência à vontade de Deus! Que humildade nas palavras! Sabe muito bem que o Senhor fez nela grandes coisas, contudo, nada atribui a si mesma, a não ser o que se refere à bondade e à misericórdia de Deus e em Deus unicamente se compraz (Lc 41,44). Maria, por humildade e submissão à vontade de Deus, sujeitou-se à purificação, coisa tão repugnante a uma mãe virgem. Chegou até o Calvário, coisa tão sensível a uma mãe amante. A humildade, a obediência, a caridade e as demais virtudes mereceram, para Maria Santíssima tanta glória, que a Igreja, repleta de santo entusiasmo, canta: Exaltata est sancta Dei Genetrix super coros angelorum ad caelestia regna: “És exaltada, Santa Mãe de Deus, sobre os coros angelicais e o reino dos céus”. Quanta inveja e que raiva tem Lúcifer ao ver como esta humilde pomba sobe ao céu e é colocada lá na glória num trono tão sublime, e ele se perceber, por sua soberba, no mais profundo dos abismos e em lugar de tormento! Que inveja e raiva para Lúcifer quando vê Deus reparar, e com vantagem, o que ele havia desbaratado e que com as mesmas armas o vencia e confundia! Ele se valeu da mulher e Deus fez com que a mulher lhe esmagasse a cabeça. A Mãe do próprio Deus. Ele venceu na árvore do Paraíso, e na árvore da cruz é vencido. Ele sugeriu ao homem que, se faltasse a obediência, seria como Deus, e assim o fez seu escravo; porém, Deus se fez homem para dar aos homens poder de chegarem a ser filhos de Deus, e por isto o Verbo se fez carne (Jo 1, 12.14).

4. Exortação para conseguir as características indicadas

60. Ele, sendo uma mera criatura, quis fazer-se semelhante ao altíssimo, e sugeriu esta mesma idéia a nossos pais e a seus sequazes. Jesus Cristo, porém, tendo a natureza de Deus, não por usurpação, mas por essência, igual a Deus, aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma ou natureza de servo, feito semelhante aos demais homens e reduzido à condição de homem. Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou sobre todas as coisas e lhe deu um nome superior a todo nome, para que, ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e no inferno, e toda língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai (Fl 2,6-11). Destes mesmos sentimentos de obediência e humildade estavam animados os apóstolos que, por sua vez, procuravam inculcar nos fiéis. Deste modo, São Paulo dizia: “Haveis de ter os mesmos sentimentos, em vossos corações, que Jesus Cristo teve no seu” (Fl 2,5). Com efeito, a experiência ensina que a obediência os faz livres e felizes e desobediência, escravos e desgraçados (Aut 192-198). Os anjos desobedecem e se convertem em demônios, nossos pais desobedecem e se fazem infelizes escravos de Satanás. Jesus Cristo obedece, nos redime e salva. Os pecadores que obedecem, recebendo os santos sacramentos, alcançam o perdão. E ainda, os sábios legisladores e filósofos da antiguidade conheciam a necessidade da obediência. Dizia Solon: “Aquele reino é feliz porque o povo obedece à autoridade e a autoridade guarda a lei que deu a seu povo”. O sábio e eloqüente Cícero ensinava que não havia outro meio para livrar-se de cair escravo dos vícios desordenados e de todos os males, do que a obediência às leis. E concluía com estas palavras: “Sejamos servos das leis para podermos nos conservar livres”.

61. A experiência ensina que os discípulos que obedecem a seus mestres livram-se da ignorância e alcançam a ciência; que os filhos que obedecem a seus bons pais livram-se de mil desgraças e alcançam a felicidade. Por ser a obediência a virtude conservadora da felicidade, reguladora e guia do bem viver, Deus a impôs a nossos pais (Gn 3,2-3). Oxalá eles a houvessem guardado! O mesmo ensinou e praticou Jesus Cristo, sujeitando-se e obedecendo em tudo a sua Mãe e a São José: Et erat subditus illis (Lc 2,51). Oxalá nós O imitássemos! Nisto conheceremos se somos discípulos seus, se fazemos o que Ele nos manda (Jo 8,31; 15,14). Assim seremos verdadeiramente livres, já que a liberdade consiste em fazer o que se quer, fazendo o que se deve. A água, por exemplo, é livre de passar por entre as paredes que formam o canal ou açude e é de grande utilidade.

5. Convite para unir-nos a Cristo

62. Jesus Cristo, amados irmãos, não é somente nosso Redentor e nosso caminho, que Ele mesmo traçou , colocando-se na frente e dizendo para que nos neguemos a nós mesmos, obedeçamos e que tomemos a cruz e o sigamos, mas também nos assegura que é a verdade e a vida (Jo, 14,6).Para entender a força destas duas palavras haveis de saber que o homem, moralmente considerado, consiste em inteligência e amor, ou em faculdade de entender e em faculdade de amar, faculdades cujos objetos são a verdade e a bondade. Estas duas potências têm necessidade de socorrer seus desejos, e como só Deus as pode saciar, Ele se comunica ao homem e lhe diz: Ego sum veritas (Jo 14,6). Deus est charitas (1Jo 4,8.16). O homem é um composto de alma e corpo. O corpo para viver tem necessidade da sua refacção corporal e a alma de sua refacção espiritual e ambas refacções, nos ensinou Jesus Cristo a pedir a seu Pai, quando nos ditou a oração do Pai-Nosso. Na expressão em que dizemos: O pão nosso de cada dia dai-nos hoje (Mt 6,11; Lc 11,3), não somente lhe pedimos o pão para o corpo, mas também o pão para a alma, que é o principal. Quanto ao corpo, O que tem cuidado dos passarinhos dos ares e das flores dos prados, também cuidará de nós, de maneira que, quanto a isto, não precisamos nos apurar nem andar solícitos, porque, se buscamos primeiro o reino de Deus e a sua justiça, todo o resto se nos dará por acréscimo (Mt 6,3; Lc 12,31).

63. O que temos que pedir e solicitar continuamente é o pão da alma, o que se chama panis vitae et intellectus, isto é, a Eucaristia e a Bíblia, ou a divina Palavra. A Eucaristia é o pão da vida, disse Jesus Cristo por São João: “Meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo”. Disseram-lhe: “Senhor, dá-nos sempre deste pão!” Jesus replicou: “Eu sou o pão da vida. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o Pão que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.” A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: “Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?” Então Jesus lhes disse: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim” (Jo 6,32-35.51-58). Mas sobre estas palavras tão claras e determinantes de Jesus Cristo, devemos adverti-los de que, assim como Deus se valeu de Maria Santíssima para dar-nos sua divindade, agora se vale da Igreja para dar-nos sua divindade e humanidade sob os véus acidentais da Eucaristia.

64. Além do pão da vida, que é a eucaristia, objeto e vida do amor, necessita o homem o pão do entendimento, que é a verdade, a qual, de um modo particular, encontraremos na santa Bíblia. Mas temos de buscá-la como se deve, se a queremos encontrar. Como disse o próprio Deus: Si quaeritis quaerite (Se buscais, buscai. Is 21,12). Assim como Deus se vale da Igreja para dar-nos o Verbo divino encarnado e consagrado, também quer valer-se da mesma Igreja para dar-nos o Verbum divinum scriptum et traditum (A Palavra divina escrita e comunicada), a divina Palavra, que é o pão do entendimento. Por isso, São Paulo chama a Igreja coluna e apoio da verdade (ITm 3,15). Com efeito, a comparação não pode ser mais exata, porque da mesma maneira que uma coisa cai ao tirar-se o apoio e os arcos desandam ao tirar-se a coluna de estribo, também, do mesmo modo, vem por terra e desanda a verdade da santa Bíblia se não estiver apoiada na coluna da Igreja, e por isso, dizia Santo Agostinho que nem no Evangelho acreditaria se não o ensinasse a autoridade da Igreja.

65. Daqui se pode inferir quão errados andam os que não se apóiam nessa coluna que é a Igreja, mas apenas em seu exame privado. Então já deixa de ser Palavra divina porque se converte em palavra humana. Do mesmo modo que o pão corporal, antes de ser comido é pão, mas depois deixa de ser pão e se converte em carne e sangue do homem, assim o pão divino, escrito, e comido, e digerido pelo exame privado, já não tem autoridade divina alguma, e tudo se converte em opiniões e erros dos homens. Como prova desta verdade não há mais que a História. Recorrendo a ela encontraremos o exame privado de Müntzer, que descobriu na Bíblia que os títulos de nobreza e as grandes propriedades eram uma usurpação ímpia, contrária à natural igualdade dos (homens) fiéis. Logo convidou seus sequazes a examinar se não era isto a verdade de fato. Examinaram os sectários e procederam, em seguida, por meio do ferro e do fogo, a extirpação dos que chamavam ímpios e apoderaram-se de suas propriedades. O juízo privado creu também ter descoberto, na santa Bíblia, que as leis estabelecidas eram uma permanente restrição da liberdade cristã. Vede aqui João de Leyden estirar os instrumentos de seu trabalho, influenciar a cabeça de um populacho fanático, surpreender a cidade de Münster, proclamar-se a si mesmo rei de Sião e cometer disparates aos milhares. Quem é capaz de contar tudo o que ocorreu por causa do exame privado da Bíblia, depois do feroz delírio de Fox até a metódica de Barclay, desde o formidável fanatismo de Cromwell até a néscia impiedade de Praise-God-Barebones?

66. Aos que pensam que basta seu próprio juízo, pode-se dizer o que Jesus Cristo dizia aos judeus: Vós perscrutais as Escrituras, julgando encontrar nelas a vida. São elas mesmas que dão testemunho de mim (Jo 5,39). Elas mesmas dizem como se portar para entendê-las. Ouvi a São Pedro, que disse: Fique bem entendido, antes de tudo, que nenhuma profecia da Escritura se declara por interpretação privada (2Pe 1,20). Os que se afastam desta ordem de Deus saibam que não é o Espírito do Pai quem fala por eles (Mt 10,20), mas o espírito do erro ou de Satanás. E para que se veja mais clara esta verdade, citamos as palavras com as quais Jesus Cristo enviou aos apóstolos, eles e a todos os seus sucessores neste ministério: Ide pois, e instruí a todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar todas as coisas que tenho mandado. E estais certos de que eu mesmo permanecerei continuamente convosco até a consumação dos séculos (Mt 28, 19-20).

67. Outros há, amados irmãos, que buscam o pão do entedimento não de Deus nem da Bíblia, mas de sua própria razão e habilidade, e andam ainda mais equivocados. Dizem eles, com palavras muito fascinantes, e com expressões, as mais especiosas, que a religião e a filosofia são duas irmãs. Isto negamos redondamente, afirmando, pelo contrário, que são duas filhas de diferentes pais (Claret não está falando contra a Filosofia em geral, mas contra a independência absoluta da razão humana. É bem conhecido seu apreço pela razão humana e como a utiliza em seu escritos e pregações como meio de convencimento das verdades que quer transmitir). A religião verdadeira é filha do Pai que está nos céus, e aos que a seguem os faz seus filhos: Deu-lhes poder de chegar a ser filhos de Deus (Jo 1,21). Porém a Filosofia é filha natural da razão e do discurso do homem, de modo que ela e todas as ciências naturais são chamadas pelo sábio Salomão, no livro dos Provérbios (Pr 9,3), escravas ou criadas: Misit ancillas suas vocare ad arcem (Enviou suas servas para que chamassem ao castelo). Elas foram criadas e destinadas para servir à ciência sagrada ou a religião e, por isto, não se deve dar à Filosofia maior valor do que tem e merece. Todo o valor do escravo pertence ao seu senhor, sem que deva igualar-se, antepor-se ou pospor-se. Só assim ele será útil. O zero antes do algarismo não tem valor algum, mas se for colocado depois, terá valor e muito acrescido. Assim é a Filosofia: Depois da ciência divina, ajuda muito para persuadir e explicar os motivos da credibilidade, porém, se colocada antes, de modo preferencial ou ela somente, compara-se ao zero, isto quando não se torne perniciosa, como diz São Paulo aos colossenses: Estai de sobreaviso para que ninguém vos engane e seduza por meio de uma filosofia inútil, falaz e com vãs sutilezas baseadas em tradições humanas, conforme as máximas do mundo e não conforme a doutrina de Jesus Cristo (Cl 2,8).

68. Por último, devemos advertir, amados irmãos, que o mundo das inteligências jamais estará sem doutrinas que o sustentem. Estas doutrinas não permanecem muito tempo sem manifestar-se. Subliminarmente, vão dando sua forma à sociedade e a fazem mover-se ao compasso de suas inspirações, de modo que as questões, mesmo as mais especulativas da Filosofia e da Teologia, estão sempre preenchidas de ordem ou desordem, de vida ou de morte. Esta é a causa pela qual alguns vivem como protestantes, sem ser luteranos ou calvinistas, e outros, sem deixarem de se chamar católicos, são realmente indiferentes e nihilistas. Estes formam com os demais o longo corpo da serpente, andam arrastando seu peito, cometendo as mais vergonhosas torpezas, e não gostam de outra comida que não sejam os prazeres da terra. Esta é a maldição que Deus, no princípio, lançou à serpente (Gn 3,14). Eles perseguirão também os filhos e devotos de Maria (ap 12,17), pois já sabemos que todos os que querem viver devotamente, em Jesus e sua Mãe, padecerão perseguição (2Tim 3,12).

6. Unidos sempre a Maria como filhos

69. Porém, nós devemos animar-nos sabendo que Maria está do nosso lado, que tudo poderemos com a graça dada e que ela é a Torre de Davi, na qual há toda espécie de armamento (Ct 4,4). E nos encherá um santo entusiasmo pensar que não será coroado senão o que pelear, legitimamente, contra os inimigos da alma (1Tm 3,15). Formemos, pois, um corpo unido e compacto pela caridade, animando-nos uns aos outros, socorrendo-nos, mutuamente, nas necessidades da alma e do corpo, rogando a Deus e à Santíssima Virgem por todos, para que os justos perseverem na graça e os pecadores se convertam. Sim, amados irmãos, roguemos pela conversão dos pecadores e estaremos prestando um obséquio muito agradável a Maria Santíssima. Estareis atentos a estas palavras da Santa Escritura: Ipsa conteret caput tuum? , “Ela esmagará tua cabeça” (Gn 3,15). Percebei que não está escrito corpo, mas cabeça, porque a cabeça é o diabo, que obstinado, já está em seu limite e, por isso mesmo, é incapaz de converter-se e Maria esmaga sua cabeça soberba e obstinada. Porém o corpo é formado pelos pecadores, que, pelos seus pecados, voluntariamente juntaram-se à cabeça e constituem seu longo corpo. Contudo, Maria somente pisa a cabeça e contempla com lástima e compaixão o corpo da serpente, desejando sua conversão. Pois juntemos nossos desejos e orações aos da Virgem, e não duvidemos que alcançaremos esta graça.

Concluímos, amados irmãos, nossa exortação pastoral. Somente nos falta anunciar as festas que dispusemos celebrar em toda a nossa diocese para dar graças e obsequiar à Beatíssima Trindade e felicitar a Santíssima Virgem Maria.


Conclusão: Solenidades Comemorativas

70. Será celebrado um tríduo em honra das Três Divinas pessoas e em obséquio de Maria, dando graças ao Pai Eterno por ter criado Maria, sua filha imaculada, dando graças ao filho por ter tomado Maria por sua Mãe imaculada e dando graças ao Espírito Santo por ter tomado Maria por sua esposa imaculada. Este tríduo ocorrerá em todas as igrejas da diocese nos dias 13, 14 e 15 do mês de agosto do presente ano. Em cada dia haverá missa pela manhã e à tarde será rezado o Santo Rosário. Neste tríduo se recordarão os pontos principais sobre Maria Santíssima, que são: sua Imaculada Conceição, sua maternidade divina e sua assunção ao céu e coroação gloriosa. Por isto, no primeiro dia se celebrará a missa da Imaculada Conceição e à tarde se rezará uma parte do Rosário, contemplando os Mistérios Gozosos. No segundo dia, a missa será da Anunciação, e à tarde, o terço do Rosário, contemplando os Mistérios Dolorosos. No terceiro dia, a missa será a da própria festa da Assunção e á tarde se rezará a terceira parte do Rosário, contemplando os Mistérios Gloriosos.

Isto será comum a todas as paróquias, com mais ou menos solenidade segundo as possibilidades dos fiéis, e não duvidamos de que todos se esmerarão em obsequiar a sua Mãe e Senhora e que darão provas da grande devoção que professam. E, para estimular mais e mais vosso fervor, concedemos oitenta dias de indulgência por cada vez em que assistireis a alguma das mencionadas funções. Aos que, nestes três dias receberem os santos sacramentos da Penitência e Comunhão, concederemos duplicadas graças, e esperamos de vossa piedade que todos vos prepareis e disporeis a recebê-los , porque bem sabeis que isto é o que mais agrada a Maria Santíssima.

E como atualmente nos encontramos nesta cidade em companhia de nosso venerável e apreciado cabido, combinamos juntos como serão as funções e festas que se celebrarão em nossa santa Igreja da seguinte maneira: no domingo, dia 12, à tarde, em procissão à Igreja de São Francisco, levaremos a imagem da Imaculada Conceição de Maria, que será colocada na Catedral, onde se cantarão solenes Completas e Salve com toda a orquestra. No dia seguinte, primeiro do tríduo, pregaremos na missa solene. Mediante Deus, nos dias seguintes haverá, também, sermão e no terceiro dia celebraremos de Pontifical. Nos três dias faremos a explicação dos mistérios do Santíssimo Rosário à tarde, concluindo o exercício com a Ladainha e a Salve, com a assistência da capela de música. Recebei, amados irmãos, nossa bênção pastoral em nome do Pai, e do filho, e do Espírito Santo. Amém.

Dada em Santiago de Cuba a 16 de Julho de 1855.

ANTÔNIO MARIA,
Arcebispo de Cuba

Carta a um devoto do Coração de Maria, por S. Antônio Maria Claret.


CARTA A UM DEVOTO DO CORAÇÃO DE MARIA

Santo Antônio Maria Claret escreveu esta carta em 1864, ano em que se publicou o opúsculo ‘As tardes de Verão’, com o qual mantém alguns paralelismos ao expor a doutrina sobre a Virgem Maria. Foi movido por um pedido de um devoto que desejava crescer cada dia mais nesta devoção. O Santo lhe diz: “Não podia pedir coisa melhor”. Assim manifestava, mais uma vez, seu profundo amor filial para com a Virgem Maria, que tinha crescido em seu coração desde sua infância.
Neste opúsculo, que não foi publicado durante a vida do Santo, é oferecida uma base doutrinal da devoção cordimariana, que tão profundamente calou em sua alma de apóstolo. Para mostrar toda riqueza interior do Coração de Maria, o Padre Claret divide o escrito em três partes, indicando os três motivos que costumava dar para estimular uma devoção fervorosa para com a Virgem Maria. Expõe com brevidade o primeiro motivo: Deus o quer. Detém-se bastante no segundo: as excelências da Virgem Maria, apoiando sua doutrina em Santo Tomás e nos Santos Padres. O terceiro motivo: utilidade desta devoção, o desenvolve bastante, servindo-se de um dos seus autores preferidos, Santo Afonso Maria de Ligório.
Tanto o estilo, simples e persuasivo, como o conteúdo, que respira profundo fervor mariano, são tipicamente claretianos. O autor nos oferece nestas páginas uma síntese estupenda dos motivos da nossa devoção cordimariana, dos pilares em que se funda e do amor em que se inspira.
Advertimos que os títulos das três partes da carta não são do Padre Claret, mas nossos.

Texto de Claret (com notas)

Estimado senhor: acabo de receber sua estimadíssima carta, com que me pede que diga alguma coisa para crescer cada dia mais e mais na devoção do Imaculado Coração de Maria. Querido amigo, não podia pedir-me coisa melhor, do que mais gosto. Eu gostaria que todos os cristãos tivessem fome e sede desta devoção. Ame, amigo meu, ame e ame muitíssimo a Maria (1).
E para que possa aumentar em pontos a sua devoção e satisfazer seus desejos, lhe direi que devemos amar Maria Santíssima: primeiro, porque Deus o quer. Em segundo lugar, porque ela o merece. E em terceiro, porque nós precisamos, por ser ela um poderosíssimo meio para obter todas as graças corporais e espirituais e finalmente, a salvação eterna (2).


1. Deus o quer

Devemos amar Maria Santíssima porque Deus o quer. Amar é querer bem ao amado, é fazer-lhe bem, é fazer-lhe participante de seus bens (3), pois o mesmo Deus nos dá exemplo e nos excita a amar Maria. O eterno Pai a escolheu por Filha sua muito amada; o Filho eterno a tomou por Mãe e o Espírito Santo, por Esposa; toda a Santíssima Trindade a coroou como Rainha e Imperatriz dos céus e terra e a constituiu dispensadora de todas as graças (4).
Você deve saber, amigo meu, que Maria Santíssima é obra de Deus e é a mais perfeita que saiu de suas mãos depois da humanidade de Jesus Cristo; nela brilham de um modo particular (5) a onipotência, a sabedoria e a bondade do mesmo Deus.
É próprio de Deus dar as graças necessárias a cada criatura, segundo a finalidade a que a destina (6) e como Deus destinou Maria para ser a mãe, filha e esposa do mesmo Deus e mãe do homem, daqui se imagina que tipo de coração lhe daria e com que graças a adornaria (7).


2. Ela o merece

Devemos amar Maria Santíssima porque ela o merece. Maria Santíssima o merece pelo acúmulo de graças que recebeu sobre a terra, pela eminência da glória que possui no céu, pela dignidade quase infinita da Mãe de Deus a que tem sido sublimada e pelas prerrogativas próprias desta sublime dignidade.
Maria foi como o centro de todas as graças e belezas que Deus tinha distribuído aos anjos, aos santos e a todas as criaturas (8). Maria tinha que ser Rainha e Senhora dos anjos e dos santos e, por isto mesmo, devia ter mais graças que todos eles, já no primeiro instante do seu ser. Maria tinha de ser a Mãe do mesmo Deus. É um princípio de filosofia que entre a forma e as disposições da matéria deve existir certa proporção (9); a dignidade de Mãe de Deus é aqui como a forma e o coração de Maria é a matéria que deve receber esta forma. Oh! Que acúmulo de graças, virtudes e outras disposições se agrupam naquele santíssimo e puríssimo coração!
Desde que Deus determinou fazer-se homem, fixou a vista em Maria Santíssima e desde então dispôs todos os preparativos necessários, a fez nascer dos patriarcas, profetas, sacerdotes e reis (10), e todas as graças destes reuniu em Maria e quis que Maria fosse a nata e a flor de todos eles. Ainda, a preparou com bênçãos de doçura e colocou sobre sua cabeça uma coroa de pedras preciosas (11), isto é, graças e belezas; mas muito mais enriqueceu seu coração.
No Coração de Maria devem ser consideradas duas coisas: o coração material e o coração formal, que é o amor e vontade (12).
O coração material de Maria é o órgão, sentido ou instrumento do amor e vontade (13); assim como pelos olhos vemos, pelos ouvidos ouvimos, pelo nariz cheiramos e pela boca falamos, assim pelo coração amamos e queremos (14).
Dizem os teólogos que as relíquias dos santos merecem veneração e culto: 1º porque foram membros vivos de Jesus Cristo. 2º porque foram templos do Espírito Santo. 3º porque foram órgãos da virtude. 4º porque serão instrumentos da graça e de milagres. 5º porque eles serão glorificados depois da ressurreição (15).
O coração de Maria reúne estas propriedades e muitas outras: 1º O coração de Maria não só foi membro vivo de Jesus Cristo pela fé e pela caridade, mas também origem, manancial de onde se tomou a humanidade (16). 2º O coração de Maria foi templo do Espírito Santo e mais que templo, pois do preciosíssimo sangue saído deste imaculado (17) coração o Espírito Santo formou a humanidade santíssima nas puríssimas e virginais entranhas de Maria no grande mistério da encarnação (18). 3º O coração de Maria foi o órgão de todas as virtudes em grau heróico e singularmente na caridade para com Deus e para com os homens (19). 4º O coração de Maria é um coração vivo, animado e sublimado no mais alto da glória. 5º O coração de Maria é o trono de onde se dispensam todas as graças e misericórdias.
Maria é verdadeiramente Mãe de Deus. Do mesmo modo como uma mulher, que deu à luz um homem, é chamada e é mãe daquele homem, assim também Maria Santíssima é e se chama, com toda propriedade, Mãe de Deus, porque o concebeu e o deu à luz; a mulher que deu à luz o homem se chama e é mãe daquele homem, que é um composto de alma e corpo e embora a alma venha somente de Deus, assim também Maria Santíssima é Mãe de Deus, porque este divino composto de pessoa divina, alma racional e corpo natural é o termo da geração nas puríssimas e virginais entranhas de Maria (20). Esta dignidade de Mãe de Deus é a que mais a enaltece, porque é uma dignidade quase infinita, porque é mãe de um ser infinito (21); é mais de quanto possui em graça e em glória. Os Doutores e Santos Padres dizem que pelos frutos se conhece a árvore, segundo consta no Evangelho; pois, que diremos de Maria, que deu à luz aquele bendito Fruto que tanto elogiou Isabel (22) quando disse: “Bendito o fruto do teu ventre! De onde me vem tanta honra, que a mãe do meu Senhor venha a mim?” (23).
Diz Santo Tomás que o fogo não pega na lenha até que esta tenha os mesmos graus de calor que aquele (24); pois bem, se para que do sangue do coração de Maria se formasse a humanidade à qual se devia juntar a divindade era preciso que tivesse uma disposição quase divina, que diremos agora de Maria se, além de ser considerada Mãe de Deus, juntamos as demais graças que depois recebeu de Jesus? (25). Jesus por onde passava fazei o bem a todos (26), mais ou menos segundo a disposição com que os encontrava; que pensaremos das graças e benefícios que dispensaria a Maria, em quem passou não rapidamente, mas que esteve em suas entranhas por nove meses e a seu lado por trinta e três anos, e achando-se sempre com as melhores disposições e preparação para receber os benefícios de Jesus? A estas graças devem juntar-se também as que recebeu do Espírito Santo no dia de Pentecostes e, além disso, devem ser acrescentadas as que ela conseguiu com o exercício de tantas e tão heróicas virtudes em todo o decurso da sua santíssima e longa vida, acompanhada daquela contínua e fervorosa meditação (27) em que, segundo o profeta, se acende a chama do divino amor (28). Ao considerar São Boaventura a graça de Maria, exclama dizendo: “A graça de Maria é uma graça imensa, múltipla”: Gratia Mariae, gratia est immensissima, gratia multiplicissima *29.
Não só devem ser consideradas as graças que Maria obteve para ser e por ter sido Mãe de Deus e as graças que recebeu de Jesus Cristo, do Espírito Santo e ela conseguiu com sua cooperação, mas também é indispensável fixar a atenção na multidão de incomparáveis prerrogativas que tão grande dignidade lhe tem dirigido. Faremos referência a algumas:
1ª De ter sido preservada do pecado original, ao qual estaria sujeita se não tivesse sido destinada para ser Mãe do mesmo Deus; para isto, Deus a dotou de um coração imaculado, puríssimo, castíssimo, humilíssimo, mansíssimo, santíssimo, pois do sangue saído deste coração formou o corpo do Deus feito homem.
2ª De ter concebido e dado à luz no tempo aquele mesmo Filho de Deus que o eterno Pai havia gerado na eternidade (30). Não duvide, diz São Boaventura, o eterno Pai e a Virgem sagrada tiveram um mesmo e único filho (31).
3ª Assim como o eterno Pai teve este divino Filho sem perder nada da sua divindade, assim também a santíssima Virgem Maria concebeu e deu à luz este mesmíssimo Filho sem o menor detrimento da sua santíssima virgindade.
4ª De ter tido um legítimo poder para mandar no Senhor absoluto de todas as criaturas, pois este é um direito que a natureza dá a todas as mães; direito ao qual quis sujeitar-se com gosto, pois disse que tinha vindo não para derrogar a lei, mas para cumpri-la com mais perfeição que os demais homens (32); e o evangelista São Lucas nos dá testemunho de como obedecia a sua Mãe e a São José: Et erat subditus eis (33). Mas este direito é uma honra a Maria Santíssima, que São Bernardo diz que não sabe o que é mais digno de admiração, se Jesus obedecer a Maria ou Maria mandar em Jesus; porque, diz o Santo, que Deus obedeça a uma mulher é uma humildade única e que uma mulher mande em um Deus é uma elevação sem igual (34).
5ª Ter sido a esposa do Espírito Santo de uma maneira infinitamente mais nobre que outras virgens, pois, as outras somente merecem ser aliadas a este divino esposo quanto à alma, enquanto que Maria tem sido não só quanto à alma, mas também quanto ao corpo, embora da maneira mais casta. A aliança que existiu entre o Espírito Santo e as virgens castas só tem servido para a produção dos atos de virtudes, mas a aliança entre este divino Espírito e Maria Santíssima tem produzido de uma maneira inefável o Senhor das virtudes, Cristo Senhor Nosso.
6ª Tem sido como o termo, por assim dizer, e a coroação da Santíssima Trindade: Maria universum sanctae Trinitatis complementum (35), porque produziu o mais excelente fruto da sua fecundidade ad extra, como dizem os teólogos; quer dizer, produziu um Deus homem. Maria produziu um sujeito capaz de dar à Santíssima Trindade uma honra tal como a Santíssima Trindade merece; honra que todas as criaturas juntas, e mesmo estas se multiplicando muitíssimas vezes, não eram capazes de pagar como o faz o Filho de Maria, Deus e homem verdadeiro.
7ª Em ter sido feita Rainha e Senhora de todas as criaturas por ter concebido e dado à luz o Verbo divino, por quem foram feitas todas as coisas, como diz São João (36).


3. Eficácia desta devoção

Devemos amar Maria e ser seus verdadeiros devotos porque a devoção a Maria Santíssima é um meio poderosíssimo para alcançar a salvação. É a razão pela qual Maria pode salvar seus verdadeiros devotos, porque quer e porque o faz (37). Maria pode, porque é a porta do céu; Maria quer, porque é a mãe de misericórdia (38); Maria o faz, porque ela é a que obtém a graça justificante aos pecadores, o fervor aos justos e a perseverança aos fervorosos (39); por isto, os Santos Padres a chamam de resgatadora dos cativos, o canal da graça e a dispensadora das misericórdias (40). Por isto se disse que o ser devoto de Maria é um sinal de predestinação, assim como é uma marca de reprovação o não ser devoto ou adversário de Maria (41).
A razão é muito clara. Ninguém pode salvar-se sem o auxílio da graça que vem de Jesus, como cabeça que é da Igreja ou corpo, e Maria é (42) como o pescoço que junta, por assim dizer, o corpo com a cabeça; e assim como o influxo da cabeça no corpo deve passar pelo pescoço, assim, pois, as graças de Jesus passam por Maria e se comunicam com o corpo ou com os devotos, que são seus membros vivos: In Christo fuit plenitudo gratiae sicut in capite fluente; in Maria sicut in collo transfundente (43).
Maria pelos Santos Padres é chamada escada do céu, porque por meio de Maria Deus desceu do céu e por meio de Maria os homens sobem ao céu (44). E quando a Igreja diz que esta Rainha incomparável á a porta do céu e a janela do paraíso (45), nos ensina com estas palavras que todos os eleitos, justos ou pecadores, entram na mansão da glória por seu intermédio; com esta única diferença, que os justos entram por ela como pela porta diretamente, mas os pecadores pela janela (46), que é Maria; pela escada, que é Maria (47). Portanto, amigo meu, em Maria, depois de Jesus, devemos colocar toda nossa confiança e esperança da nossa eterna salvação. Haec peccatorum scala, haec mea maxima fiducia est, haec tota ratio spei meae (48). Unica peccatorum advocata, portus tutissimus, naufragantium omnium salus (49). Peccatorem quantumlibet foetidum non horret... donec horrendo Judici miserum reconciliet (50).
Oh! Feliz é aquele que invoca Maria com confiança, pois alcançará o perdão dos seus pecados, por muitos e por graves que sejam; alcançará a graça e, finalmente, a glória do céu, que tanto desejo a você e a todos.


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NOTAS

(*) O título completo é: Carta a um devoto do puríssimo e imaculado Coração de Maria. O original autografado se encontra em Mss. Claret, VIII, 521 535. Deste original se fizeram as seguintes edições: Carta inédita do Beato Claret sobre o Coração de Maria: Boletim Secretariado Claretiano, janeiro-março 1940, n. 67 69 pp. 2 4; Carta inédita do Beato Pe. Claret sobre o Coração de Maria: Iris de Paz 56 (1942) 1157 1158 49 50 (assim a numeração do tomo); Carta a um devoto do imaculado Coração de Maria: Boletim interno da Prov. da Catalunha CMF, número extra, 67 69, julho setembro 1949, pp. 47 52; Carta a um devoto do puríssimo e imaculado Coração de Maria em Santo Antônio Maria Claret, Escritos autobiográficos e espirituais (BAC, Madrid 1959) pp. 766 772; Lozano, J. M., O Coração de Maria em Santo Antônio Maria Claret (Ed. Coculsa, Madrid 1963) pp. 223 239; Gil, J. M., Epistolário de Santo Antônio Maria Claret (Ed. Coculsa, Madrid 1970) vol. 2 pp. 1497 1506 (edição crítica); No centenário de Santo Antônio Maria Claret, apóstolo da devoção ao imaculado Coração de Maria; texto íntegro de uma carta de Santo Antônio Maria Claret sobre o amor que devemos a Maria Santíssima: Cruzado Espanhol 13 (1970) 167 168.

* 1 Não sabemos quem fez esta petição ao Santo. Talvez uma das muitas pessoas dirigidas por Claret ou talvez um dos seus missionários. O certo é que o Santo aproveita a petição para escrever um breve tratado sobre a devoção ao Coração de Maria. “Você não podia pedir coisa melhor”, diz a seu destinatário. Aqui se vê uma vez mais, a in tensa devoção mariana do Padre Claret, que o acompanhou por toda a vida, desde a infância (cf Aut. n. 43 55) até sua morte (cf Obsequio 1870 Claret, Escritos autobiográficos [BAC Madrid 1981] pp. 587 588). Sobre sua devoção cordimariana cf Viñas, J. M., A devoção ao Coração de Maria segundo os ensinamentos do Beato Padre Claret: Bol. Prov. Catalunha CMF 11 (1949) 201 225; Tisnés, R. M., Santo Antônio Maria Claret e Coração de Maria: Bol. Prov. Colômbia CMF 9 (1952) 44 61.191 203.255 268; Ramos, C., Um apóstolo de Maria (Barcelona 1954) 368 págs.; Lozano, J. M., O Coração de Maria em Santo Antônio Maria Claret (Madrid 1963) 286 págs.; Leghisa, A., O Coração de Maria e a Congregação no momento atual (Roma 1978) 62 págs.

*2 Cf. Ducos, J. Ch., Le pasteur apostolique (Paris 1861) t. 1 p. 438. Claret toma a estrutura da carta deste autor e o segue de perto na redação de alguns parágrafos.

*3 Cf. Santo Tomás, Summa theol. 2 2 q. 23 a. 1c.

*4 No original autografado, o Pe. Claret cancelou a frase seguinte: «A fim de que nós a amemos e a ela acudamos sempre» (Mss. Claret, VIII, 522). Este parágrafo, que fala das relações da Virgem com a Santíssima Trindade, tomou também de Ducos (o. c., p. 438). Já em outras ocasiões o Santo tinha indicado esta mesma doutrina (cf. Carta pastoral sobre a Imaculada [Santiago de Cuba 1855] pp. 3, 5 y 37; O colegial instruído [LR, Barcelona 1861] t. 2 p. 501).

*5 No original autografado “partar”.

*6 Cf Santo Tomás, Summa theol. 3 q. 27 a. 4c. Na segunda edição do opúsculo claretiano Tardes de verão na real Chácara de Santo Ildefonso chamado A Granja (LR, Barcelona 1865, p. 121) se lêem estas palavras: «É regra geral que, quando Deus escolhe uma criatura racional para uma dignidade singular ou para um estado sublime, lhe dá todos os carismas de graça que à dignidade ou estado de dita pessoa são necessários e convenientes a seu esplendor» (São Bernardino de Sena, Sermo 10 a. 2 c. 1: Opera [Venetiis 1591] t. 3 p. 118 col. 2). Citado por Santo Alfonso Maria de Ligorio, As glórias de Maria (Barcelona 1870) pp. 197 198.

*7 Claret vê a filiação mariana, sobretudo, através do Coração de Maria, que encerra dois aspectos principais: um amoroso e outro militante. Maria é a Mãe do Amor Formoso (cf. Aut. n. 447; Religiosas em suas casas [Barcelona 1850] p. 147): “Mãe do Amor Formoso..., concedei a todos os justos este divino amor; vo-lo rogo pelo amor que Deus vos tem” (ib., p. 155). O Coração de Maria é “frágua e instrumento do amor” (Aut. n. 447) e representa toda a vida interior da Virgem Maria, sendo habitação e paraíso de Deus (cf. Religiosas em suas casas, ed. cit. p. 105), centro de suas recordações e meditações (cf. A colegial instruída [Madrid 1864] pp. 423 424) e cópia exata do Coração de Jesus (Mss. Claret, VIII, 501: “O Coração de Maria é a cópia mais exata do Coração de Jesus”. Mas o Coração de Maria é, ainda, manancial de força apostólica. Assim o viu na Arquiconfraria do Coração de Maria por ter lido e por experiência própria. “Ontem, escreve a D. Caixal, no dia 2 de agosto de 1847, fundamos a Arquiconfraria do Coração de Maria. Agora vamos continuar a novena. Já fiz e dá fruto. Muita gente assistiu a função. São muitas as paróquias que a pedem” (EC, I, pp. 234). E poucos dias depois, no dia 12 de agosto, lhe diz: “Quisera que se fizesse correr pela terra e por toda a Espanha a novena ao Coração de Maria” (EC, I, p. 236). O mesmo adjetivo imaculado, com que designa sempre o Coração de Maria, indica o aspecto apostólico e militante desta devoção, como sucede ao falar da Imaculada. Tanto o aspecto amoroso como o militante os tem presentes, sobretudo, quando comenta o nome de Filhos do Imaculado Coração de Maria dado a seus missionários (cf. Aut. n. 492 494; Viñas, J. M., art. cit., pp. 201 225).

*8 Cf. Ducos, J. Ch., o. c., pp. 438 439.

*9 Cf. Santo Tomás, Summa theol. 3 q. 27 a. 5.

*10 Cf. Claret, Tardes de verão, ed. cit., p. 173.

*11 Cf. Sal 20, 4.

*12 Cf. Gallifet, J. De l’excellence de la dévotion au Coeur adorable de Jésus Christ (Paris 1861) t. 1 p. 46ss; Mss. Claret, VIII, 502.

*13 Cf. Gallifet, J., o. c. pp. 264ss.

*14 Cf. Castiglione, L., Il Cuore di Maria aperto a tutti (Napoli 1850) p. 4, Mss. Claret, VIII, 502.

*15 «Se veneramos as relíquias dos santos, quanto mais o Coração de Maria! Que relíquia tão insigne!» (Mss. Claret, VIII, 503). Este mesmo argumento utilizavam São João Eudes e o P. Gallifet (o. c., p. 75).

*16 Devido ao influxo de Gallifet, o coração como órgão material ocupa aqui o primeiro plano, no entanto, Claret insiste quase sempre no coração espiritual e no que ele significa e representa.

*17 No original autografado, o Santo cancelou a palavra “puríssimo” e escreveu encima “imaculado”.

*18 Os escritores espirituais indicaram com freqüência as relações existentes entre o Coração de Maria e a encarnação do Verbo. M. Agreda fala das três gotas de sangue do Coração de Maria com as que as três pessoas da Trindade formaram o corpo do Senhor (cf. Mística cidade de Deus, LR [Barcelona 1860] t. 3 p. 239). A isto alude São João de Ávila em um sermão sobre a Assunção (cf. Obras completas, BAC [Madrid 1970] t. 3 p. 168). Caetano havia combatido esta teoria, chamando-a «erro novo nascido em nossos dias». O Padre Claret tinha feito alusão a esta opinião no Catecismo explicado (Barcelona 1849, p. 69). Em 1864, ao ser submetido o Catecismo único à censura de Roma, o censor pediu que se tirasse a menção das três gotas de sangue, fundando-se no comentário de Caetano a Santo Tomás (q. 31 a. 6). O Santo suprimiu o lugar citado pelo censor e achou dois argumentos que o convenceram: o ser contrário à Sagrada Escritura e à maternidade divina de Maria, marcando à margem ditas passagens (cf. Summa theologica cum Commentariis Thomae de Vio Cardinalis Caietani [Roma 1773] t. 7 p. 401. Ex libris). Desde então nas edições do Catecismo se suprimiu esta menção e o Santo corrigiu o texto desta carta, acrescentando as palavras “saída” e “nas entranhas de Maria”. Isto nos permite datara a Carta a um devoto do puríssimo e imaculado Coração de Maria, que foi redigida não muito antes de abril de 1864, data em que recebeu a censura romana do Catecismo (cf. Fernández, C., O Beato Antônio Maria Claret [Madrid 1946] t. 2 p. 547).

*19 Cf. Gallifet, J., o. c., p. 264ss.

*20 Cf. Claret, Tardes de verão, ed. cit., p. 123; Santo Tomás, Summa theol. 3 q. 35 a. 4c.

*21 Cf. Santo Tomás de Vilanova, Sermão 3 para a Natividade dede Nossa Senhora: Obras, BAC (Madrid 1952) p. 203. Afirmações parecidas se encontram em São Bernardino, São Boaventura e Suarez (cf. Santo Alfonso Maria de Ligorio, As glórias de Maria [Barcelona 1870] pp. 332 334).

*22 No original autografado, cancela, “que exclamou Santa Isabel”.

*23 Lc 1, 42. Claret toma este parágrafo quase literalmente de Ducos, J. Ch., o. c., p. 440.

*24 Cf. Summa Theol. 3 q. 27 a. 5 ad 2. O exemplo de Santo Tomás se refere à preparação da Virgem Maria para a maternidade divina.

*25 Cf. Santo Tomás, ib.

*26 Cf. Atos 10, 38.

*27 Cf. Lc 2, 19: Maria... conservava todas estas coisas dentro de si, meditando-as em seu coração. Texto marcado com um traço marginal no exemplar do Novo Testamento de Torres Amat.

*28 Cf. Sal 39, 4. Frase freqüentemente citada por Claret ao falar da oração.

*29 O manuscrito autografado cita o Speculum c. 1. Se refere ao Speculum Beatae Mariae Virginis, atribuído hoje a Conrado de Saxônia (cf. Bibliotheca Franciscana Medii Aevi [Quaracchi 1904] t. 2 introd. p. 9.127).

*30 A doutrina sobre estas prerrogativas de Maria, de 2 a 7, as toma de Ducos, J. CH., o. c., pp. 441 442.

*31 Cf. Speculum Beatae Mariae Virginis c. 6 p. 83. realmente, a frase citada por Conrado de Saxônia é de São Bernardo (Sermo 2 de Annuntiatione n. 2: PL 183, 391: Obras completas, BAC [Madrid 1953] t. l, p. 666).

*32 Cf. Mt 5, 17.

*33 Lc 2, 51: E lhes estava sujeito. Texto marcado no Novo Testamento de Torres Amat.

*34 Cf. Homil. 1 super “Missus est” n. 7ss: PL 183, 59ss: Obras completas, BAC, ed. cit., t. 1 p. 190.

*35 Hesíquio de Jerusalém, Homil. 2 de Beata Virgine: PG 93, 1461. Claret cita esta frase em seu livro Tardes de verão (ed. cit., p. 133). Leu em Ducos, J. Ch., o. c., p. 442, n. 2. O sentido da frase não é o que tradicionalmente lhe deram os autores espirituais. A palavra complementum, que responde à palavra grega pléroma, não significa no contexto de Hesíquio complemento, mas morada, habitação.

*36 Cf. Jo 1, 3.

*37 Cf. Ducos, J Ch., o. c., p. 444.

*38 Cf. São Bernardo, Sermo 1 de Assumptione n. 1: Obras completas, BAC, ed. cit., t. 1 p. 703.

*39 Cf. Speculum Beatae Mariae Virginis, c. 6.

*40 Claret cancelou “graças” e escreveu encima “misericórdias”. Estas frases as toma também de Ducos, J. Ch., o. c., p. 42.

*41 Cf. ib., p. 443.

*42 “pescoço” apagado. Depois escreveu “como o pescoço”.

*43 O manuscrito autografado, copiando Ducos, cita São Jerônimo. Refere ao texto tradicional da Carta a Paula e Eustóquio sobre a Assunção (PL 30, 16ss), que hoje se atribui a Pascásio Radberto. Realmente, este autor não chama a Virgem Maria pescoço do Corpo místico. O primeiro que o disse foi Ubertino de Casale comentando as palavras do Pseudo Jerônimo (cf. Arbor vitae crucifixae); cf. São Pedro Damião, Sermo 46: PL 144,753; Santo Agustinho, Sermo 123 n. 2: PL 39,1991; De praedestinatione sanctorum 15 31: PL 44,982 983; São Fulgêncio, Sermo 36: PL 65, 899. Também se acha esta idéia em Germano de Tournai, que afirma: «Collum inter caput et corpus medium est, caputque iungit corpori. Collum ergo sanctae Ecclesiae competenter Domina nostra intelligitur quae, inter Deum et homines Mediatrix existens, dum Dei Verbum incarnatum genuit, quasi caput corpori, Christum Ecclesiae, divinitatemque humanitati nostrae coniunxit» (Tractatus de Incarnatione Christi 8: PL 180, 30). Aparece também com nitidez em São Bernardino de Sena, que diz: «Sicut per collum spiritus vitales a capite diffunduntur per corpus: sic per virginem a capite Christo vitales gratiae in eius mysticum corpus, et specialius in amicos atque devotos, continue transfunduntur» (Sermo 5 de Nativ. B. M. V. c. 8).

*44 Cf. o hino Ave, maris stella... felix caeli porta; São Bernardo, In vigilia Nativit. Domini. sermo 3 n. 10 (PL 183, 100): «Nada quis Deus que não passasse pelas mãos de Maria» (Obras completas, BAC, ed. cit., t. 1 p. 247).

*45 São Pedro Damião, Sermo 46: PL 144, 753: «fenestra caeli, ianua paradisi..., scala caelestis», São Bernardo, In Nat. B. M. V. sermo de aquaeductu n. 7 (PL 183, 441): «scala peccatorum» (Obras completas, BAC, ed. cit., t. 1 p. 741).

*46 No original autografado escreveu: “escalando pela penitência”, frase que depois apagou.

*47 Cf. Ducos, J. Ch., o. c., p. 443. Recordemos que o Pe. Claret tinha escrito um opúsculo intitulado A escada de Jacó e porta do céu, ou, súplicas a Maria Santíssima (Barcelona 1846) 32 págs.

*48 São Bernardo, Sermo de nativitate de aquaeductu n. 7: Obras completas, BAC, ed. cit., t. 1 p. 741: «Esta é a escada dos pecadores, esta é minha maior confiança, esta é toda a ração da minha esperança».

*49 Santo Efrém, Sermo de laudibus Beatae Virginis: «Ela é a única advogada dos pecadores, porto muito seguro e salvação de todos os náufragos».

*50 «Não se horroriza com o pecador, embora esteja fedendo..., contanto que possa reconciliá-lo com o tremendo juiz» (São Bernardo, In deprecat. ad B. Virg.). Citado por Ducos, J. Ch., o. c., t. 1 p. 443 nt. 3).

NOTA: Este opúsculo claretiano foi publicado no volume: Santo Antônio Maria Claret, Escritos Espirituais (BAC, Madrid 1985) pp. 496 506; e em: Santo Antônio Maria Claret, Escritos Marianos (Publicaciones Claretianas, Madrid 1989) pp. 382 292.
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