domingo, 28 de fevereiro de 2010

Recomeçar sempre!



A seguir dizeres muito apropriados de São Leão Magno para nossos dias.

Recomeçar sempre!

Não desistas nunca,
Nem quando o cansaço se fizer sentir,
Nem quando os teus pés tropeçarem,
Nem quando os teus olhos arderem,
Nem quando os teus esforços forem ignorados,
Nem quando a desilusão te abater,
Nem quando o erro te desencorajar,
Nem quando a traição te ferir,
Nem quando o sucesso te abandonar,
Nem quando a ingratidão te desconsertar,
Nem quando a incompreensão te rodear,
Nem quando a fadiga te prostrar,
Nem quando tudo tenha o aspecto do nada,
Nem quando o peso do pecado te esmagar…

Invoca a Deus, cerra os punhos, sorri… E recomeça!

Nossa Senhora dos Desamparados: festa no segundo domingo de maio.


Nossa Senhora dos desamparados
Valência, situada a leste da Espanha, às margens do Mar Mediterrâneo, é uma cidade carregada de história.
Estando em poder dos maometanos, no fim do século XI foi ela reconquistada pelo grande herói Cid Campeador, o qual foi depois seu soberano e ali faleceu.

Em Valência nasceu o extraordinário São Vicente Ferrer, o qual lutou contra a decadência da Idade Média com tal vigor e eloqüência que foi chamado o Anjo do Apocalipse.

A padroeira de Valência é Nossa Senhora dos Desamparados (*) cuja belíssima história é, em breves traços, a seguinte:

No início do século XV – quando ainda vivia o grande São Vicente Ferrer – foi fundada em Valência a Confraria dos Desamparados, para socorrer os enfermos e dar sepultura aos cadáveres abandonados nos campos.

Seu principal inspirador foi o Beato Padre Jofré. Essa Confraria, composta sobretudo de artesãos, chegou a ter entre seus membros duques, marqueses, condes e ricos burgueses.

A confraria conseguiu logo uma capela, mas faltava uma imagem de Nossa Senhora que exprimisse o espírito daquela instituição.

Em 1414, apareceram na casa de um confrade – cuja esposa era cega e paralítica – três jovens de rara beleza, em traje de peregrinos, os quais, declarando serem escultores, dispuseram-se a fazer urna imagem da Virgem para a Confraria.

Pediram apenas um local isolado para trabalharem e que, durante três dias, ninguém os visitasse.

Consultado o Beato Jofré, a proposta foi aceita e, ao quarto dia, o mesmo homem de Deus, acompanhado de várias pessoas, foi até o local onde se instalaram os três jovens. Bateram e, como ninguém atendia, arrombaram a porta.

Oh magnífica surpresa! Os jovens haviam desaparecido, mas deixaram uma belíssima imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus. Todos compreenderam que os peregrinos escultores eram anjos.

A esposa do confrade, que recebera os três anjos, foi conduzida até o local onde estava a imagem. Chegando diante da bela escultura, imediatamente recobrou a vista e o movimento de seus membros.

A partir de então, através da sagrada imagem que recebeu o título de Nossa Senhora dos Desamparados, ocorreram muitíssimos milagres, entre os quais destaca-se a cessação da terrível peste que grassou em Valência e outras partes de Espanha, em meados do século XVII, no reino de Filipe IV.

A imagem mede 1,40 m e representa Nossa Senhora carregando, no braço esquerdo, o Menino Jesus; o braço direito, cuja mão segura um ramo de lírios de prata, está estendido em direção ao solo. Apesar dos exames realizados, até hoje não se sabe exatamente de que material foi esculpida a imagem.

Sobre a cabeça de Nossa Senhora há uma grande e riquíssima coroa, cravejada de brilhantes, pérolas, rubis e outras pedras preciosas. Atrás da coroa um belo resplendor com doze estrelas. O Menino Jesus segura em seus braços uma cruz. A Virgem e seu divino Filho portam túnicas e mantos primorosamente lavrados.

Hoje, tantas pessoas estão no desamparo, sobretudo espiritual. Se Nossa Senhora enviou três anjos para o socorro material dos homens no século XV, com quanto mais razão não enviará Ela legiões de espíritos angélicos para nos proporcionar auxílio sobrenatural contra a degenerescência moral catastrófica em que o mundo se encontra!

É preciso pedirmos com fé, perseverança, humildade e confiança: Nossa Senhora dos Desamparados, socorrei-nos a nós abandonados neste mundo neopagão, e que não temos outro auxílio fora de Vós!
A festa de Nossa Senhora dos Desamparados é celebrada no segundo domingo de maio.

(*) Nossa Senhora dos Desamparados é também padroeira da Costa Rica.
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FONTE DE REFERÊNCIA
Conde de Fabraquer, Historia. Tradiciones y Leyendas de Ias imágenes de la Virgen aparecidas en Espana, Tomo I, Imprenta y Litografia de D. Juan José Martinez, Madrid, 1861, pp. 147 a 202
http://ocatolicismo.wordpress.com/2008/06/02/nossa-senhora-dos-desamparados/

Devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres, de Açores,Portugal: festa no 5º domingo após a Páscoa.


A população do arquipélago dos Açores cultua, há mais de três séculos, com ardor, a imagem admirável de Cristo padecente - "Ecce Homo" – por intermédio da qual se têm operado, de modo contínuo, esplêndidos milagres.

Uma das devoções mais ricas em significado, e que se manifesta com pujança extraordinária nos nossos dias, é a do Senhor Santo Cristo dos Milagres. O centro da sua veneração é o Mosteiro da Esperança em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores.

O Senhor Santo Cristo é representado nesta devoção por uma imagem de tamanho superior à de um homem, apresentando Jesus no Pretório de Pilatos, depois de ter sido açoitado, com a face repleta de feridas pelos golpes e pelas bofetadas, a cabeça coroada de espinhos; o seu rosto adorável e o peito aberto pela lança. Como rei de comédia, está sentado, tendo na mão uma cana, em vez de um ceptro; e um manto de púrpura para escárnio.

O tesouro da Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres
Fruto dos mistérios da Fé, sinal da gratidão dos mortais pelos milagres que os ajudam a caminhar pela vida, o Tesouro da imagem é impressionante.

O Resplendor, em platina cromada de ouro, pesa 4, 850 gramas e está repleto de 6.842 pedras preciosas de todas as qualidades: topázios, rubis, ametistas, safiras, etc.

Além do valor artístico, esta jóia está carregada de elementos simbólicos ligados à teologia. O primeiro é o da Santíssima Trindade, representada por um triângulo no centro que contém três caracteres com o seguinte significado: "Sou o que Sou" e também "Pai, Filho e Espírito Santo".

Deste triângulo irradiam os resplendores para as extremidades da peça.

O segundo elemento é a Redenção de Cristo, representada pelo cordeiro sobre a cruz e pelo livro dos Sete Selos do Apocalipse.

Um terceiro é a Eucaristia, simbolizada por uma ave, o pelicano e pelo cálice.

O último elemento simbólico do Resplendor é a Paixão de Cristo, com especial destaque para a coroa representada em pormenor. Desde a túnica ao galo da Paixão, passando pela coroa de espinhos integralmente feita de esmeraldas, tudo lembra a paixão dolorosa e o sofrimento do Redentor.

Se o Resplendor é a jóia mais rica do Tesouro, a coroa é a sua peça mais delicada. Em ouro, pesando apenas 800 gramas, possui 1.082 pedras preciosas, todas elas trabalhadas com minúcia, onde os próprios espinhos são pequeníssimas pedras que diminuem de tamanho nas extremidades.

O relicário é, por outro lado, a peça mais enigmática do Tesouro. É a única que está permanentemente colocada no peito da imagem e serve para guardar o Santo Lenho, que é uma relíquia da verdadeira cruz em que Jesus foi crucificado.

O Ceptro, a quarta peça do Tesouro, é constituído por duas mil pérolas que formam uma maçaroca de cana, 993 pedras preciosas ao longo do tronco e no conjunto de brilhantes com renda de ouro na base, onde está colocada a Cruz de Cristo.

Finalmente, as Cordas, com 5,20 metros de comprimento, constituem a quinta peça do corpo principal do Tesouro. São duas voltas de pérolas e pedras preciosas enroladas em fio de ouro.

As Jóias do Senhor Santo Cristo dos Milagres, como também a selecção de capas usadas pela imagem, podem ser admiradas no Convento de Nossa Senhora da Esperança.

Na origem da devoção, uma religiosa Clarissa
A custodiar a imagem do Senhor Santo Cristo estão as Irmãs Clarissas, que começaram as suas actividades apostólicas naquela ilha em 1541 (o arquipélago fora descoberto em 1427).

Essa Congregação tem-se dedicado ininterruptamente às obras religiosas e mais especialmente ao culto do Senhor Santo Cristo, mesmo durante a era pombalina, em que as Ordens Religiosas foram proibidas e perseguidas por força das leis da época.

Tal devoção começou a tomar o brilho que hoje possui a partir de 1683, quando fez os votos solenes, em 23 de Julho, a Madre Teresa d' Anunciada, conhecida como a freira do Senhor Santo Cristo.

Esta madre, falecida com fama de santidade em 16 de Maio de 1738, dedicou a sua vida a Nosso Senhor Jesus Cristo, honrando de maneira única a Sua imagem de "Ecce Homo", por cujo culto se bateu a vida toda com um amor abrasador e uma dedicação absoluta.

Na sua autobiografia, escrita por ordem do seu confessor, lê-se: "Para Deus, por mais que se faça, não é nada. Para o que Sua Majestade merece, tudo o que Ele quiser, estou pronta".

O amor desta alma a Nosso Senhor levou-a a honrar de maneira única a Sua imagem do "Ecce Homo", que encontrou pobre, quase abandonada e escondida havia mais de cem anos numa dependência do Convento.

Tal imagem havia sido doada a duas religiosas que tinham ido a Roma especialmente com o objectivo de pedir autorização para fundarem um convento em Ponta Delgada, Açores.

Dizia Madre Teresa: "Todo o meu cuidado era solicitar coisas muito ricas para adorno do meu Senhor e tratá-Lo com aquele culto e decência que merece a Sua Pessoa: De tudo o que necessitava o Senhor, fui sempre impertinente em procurar; e quando alcançava os objectivos, dizia: “Tudo seja para a Sua maior glória".

Retribuindo tal dedicação, Jesus operava prodígios para atender às suas orações e, como Ele próprio lhe revelou, “tu és o meu nada, e Eu sou o teu tudo".

Os milagres, que se obtêm por intermédio de orações ao Senhor Santo Cristo, são numerosíssimos. Na vida de Madre Teresa d' Anunciada foram contínuos, estando, ainda hoje, na Ermida de Nossa Senhora da Paz, consignados os relatos de esplêndidos feitos miraculosos.

Tremores de Terra e manifestação de Nosso Senhor estão na origem da procissão
No ano de 1700, a Ilha de S. Miguel foi abalada por fortes e repetidos tremores de terra. Duravam estes já há vários dias quando a Mesa da Misericórdia e grande parte da nobreza da cidade, vendo que os terramotos não cessavam, resolveram ir à portaria do Mosteiro da Esperança para levarem em procissão a Imagem do Senhor Santo Cristo.

Ao princípio da tarde desse dia 13 de Abril de 1700, juntaram-se as confrarias e comunidades religiosas. Concorreu igualmente toda a nobreza e inumerável multidão que, com viva fé, acreditava que se aplacaria a indignação divina graças à santa Imagem.

Caminhava já a procissão em que todos iam descalços; e logo que a veneranda Imagem se deixou ver na portaria, foi tão grande a comoção em todos que a traduziram em lágrimas e suspiros, testemunhos irrefragáveis da contrição dos corações.

Levaram o andor do Senhor Santo Cristo as pessoas mais qualificadas em nobreza. Andando a procissão, ia a veneranda Imagem entrando em todas as igrejas onde, em bem concertados coros, Lhe cantavam os salmos "Miserere mei Deus".

Saindo da Igreja dos Jesuítas, e caminhando para a das Religiosas de Santo André, não obstante toda a boa segurança e a cautela com que levavam a santa Imagem, com assombro e admiração de todos, saiu esta para fora do andor e caiu ao chão. Foi esta queda misteriosa, porque não caiu a Imagem por algum dos lados do andor, como era natural, mas pela parte superior do mesmo.

O povo ficou aflito com acontecimento tão estranho. Uns feriam o peito com as pedras; outros, pondo a boca em terra, que julgavam santificada com o contacto da santa Imagem, pediam a Deus misericórdia; estes, tomando os instrumentos de penitência, davam sobre si rígidos e desapiedados golpes, regando a terra com o sangue das veias; aqueles publicavam em alta voz as suas culpas, como causas da indignação do Senhor; e todos, com clamores e enternecidos suspiros, pediam a Deus que suspendesse as demonstrações da sua justa vingança.

Verificaram, então, que a santa Imagem não experimentara com a queda dano considerável, pois somente se observou no braço direito uma contusão. A Imagem foi lavada e limpa no Convento de Santo André e, colocada outra vez no andor com a maior segurança, continuou a procissão, na qual as lágrimas e soluços do povo aflito embargavam as preces, até que, bem de noite, se recolheu no Mosteiro da Esperança.

E a cólera divina aplacou-se…
Na procissão, resplandece majestade real

O jogo de expressões fisionómicas da Imagem, que toca a todos individualmente, conforme as disposições interiores de cada um, tem todavia uma característica central e predominante: o olhar.

Este olhar convida a todos que retribuam àquele imenso e divino amor com uma total dedicação e entusiasmo na implantação do Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo aqui na Terra.

A face marcada pelos dramas da Paixão não tira o aspecto de majestade que se desprende daquela imagem. Ele próprio revelou à Madre Teresa o desejo de que fosse glorificado como Rei, o soberano Senhor, tanto no convento como fora dele.

É por isso que é realizada a procissão do Senhor Santo Cristo pela cidade, no domingo imediatamente anterior à festa da Ascensão, tendo esta devoção começado por volta do ano de 1700.

Nessa procissão e a quantos dela participam, Ele aparece ao povo da ilha, através da imagem, como o "Senhor”, o "Rei Absoluto". As manifestações da população e das Forças Armadas, os tapetes de flores, todo o brilho dado à celebração constituem-se como sinceras, fervorosas e muito piedosas homenagens a essa realeza, por parte do povo açoriano e de todos os muitos que chegam à ilha nessa altura, vindos de todas as partes do mundo.

Não é pois de admirar o que escreve a Madre Teresa na sua autobiografia, sobre o que o Senhor lhe ordenou: "Teresa, manda-Me buscar as insígnias reais: coroa de espinhos, resplendor e cana. Eu quero que ele (o rei D. João V de Portugal) Me mande fazer as três insígnias reais de ouro e diamantes e pedras preciosas, como de rei para rei"

Compreende-se assim o culto prestado ao Senhor Santo Cristo, ornado de jóias preciosas deslumbrantes e de tal magnitude que ultrapassa a de coroas dos mais poderosos reis deste mundo. Mas o grande e valioso relicário está no peito da imagem, que encerra uma relíquia da verdadeira Cruz de Cristo, o Santo Lenho.

É facto digno de nota que a primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima, a 13 de Maio de 1917, se deu no mesmo dia em que se realizava, em Ponta Delgada, a procissão do Senhor Santo Cristo.

Afluência popular, milagres e graças
Muito se poderia dizer sobre os milagres que continuamente se operam por intermédio da devoção ao Senhor Santo Cristo.

Todos os dias os fiéis, em grande número, ajoelham-se perto das grades que no Santuário separam a igreja do coro de baixo, onde está a capela do Senhor Santo Cristo, construída pela Madre Teresa, segundo desenho arquitectónico inspirado por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ali rezam e louvam o Senhor; ali pedem graças, curas de doenças, a solução de problemas difíceis nas suas vidas; ali fazem os seus votos, as suas promessas; ali agradecem ao Senhor as graças obtidas; ali fazem as suas ofertas, por vezes muito generosas.

É impressionante a afluência de centenas de fiéis às sextas-feiras, durante todo o ano. Não há uma única sexta-feira em que a igreja não esteja repleta, e muitas vezes os fiéis ficam nas dependências, ou mesmo fora delas, por falta de espaço.

A festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres celebra-se no quinto domingo depois da Páscoa.

Oração ao Senhor Santo Cristo

Ó bom e amantíssimo Jesus, que por amor das nossas almas quisestes ser açoitado, coroado de espinhos e considerado como rei de comédia no Pretório de Pilatos, dando-nos o exemplo máximo de humildade, fazei que atraídos pela Vossa face adorável, não tenhamos outro pensamento que não seja para Vos louvar, outro desejo que não seja o Vosso amor.

Fazei, Senhor, que a nossa vida seja sempre iluminada pelos clarões da Vossa Sagrada Paixão, a fim de, nas contrariedades, sentirmos a Vossa força, nas aflições, a Vossa consolação, nas dores o Vosso refrigério, nas tristezas, a Vossa alegria, chegando assim incólumes ao Vosso Reino Eterno. Amém.

Novena ao Senhor Santo Cristo dos Milagres


Meu Jesus, em Vós depositei toda minha confiança.
Vós sabeis de tudo Pai e Senhor do Universo.
Sois o Rei dos Reis.
Vós que fizestes o paralítico andar, o morto voltar a vida, o leproso sarar.
Vós que vedes minhas angústias, as minhas lágrimas, bem sabeis Divino Amigo como preciso alcançar de Vós esta grande graça (pede-se a graça com fé).
A minha conversa convosco,
Mestre, me dá ânimo e alegria pra viver.
Fazei Divino Mestre que antes de terminar esta conversa que terei convosco durante 9 dias, eu alcance esta graça que peço com fé.
Como gratidão, publicarei esta oração para outros que precisam de Vós, e aprendam a ter fé e confiança na Vossa Misericórdia.
Ilumine meus passos, assim como o sol ilumina todos os dias o amanhecer e testemunha a nossa conversa Jesus tenho confiança em Vós, faça aumentar minha fé
cada vez mais.

Rezar nove dias seguidos.

Hino ao Senhor Santo Cristo dos Milagres

O Hino do Santo Cristo foi composto, nos anos setenta do século XIX, pelo músico Candeias, da Banda Militar de Ponta Delgada.

“Glória a Cristo, Jesus, glória eterna,
Nosso Rei, nossa firme esperança,
Soberano que os mundos governa
E as nações recebem por herança.
Com o manto e o ceptro irrisório,
Sois de espinhos cruéis coroado,
Rei da dor, uma vez, no Pretório,
Rei de amor, para sempre adorado.

Combatendo, por vossa Bandeira
Que, no peito, trazemos erguida,
Alcançamos a paz verdadeira
E a vitória nas lutas da vida.

Só a vós, com inteira obediência
Serviremos com firme vontade,
Porque em Vós há justiça e clemência
Porque em Vós resplandece a verdade.

Concedei-nos, por graça divina,
Que sejamos um povo de eleitos,
Firmes crentes na Vossa doutrina,
Cumpridores dos Vossos preceitos”.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Dia internacional da mulher-08/03.


"As mulheres de Deus jamais podem ser como mulheres do mundo.
O mundo já tem muitas mulheres agressivas; precisamos de mulheres ternas.
Já há muitas mulheres ríspidas; precisamos de mulheres refinadas.
Existem muitas mulheres que têm fama e fortuna; precisamos de mais mulheres de Fé. Já existe ambição bastante; precisamos de mais bondade.
Existe orgulho suficiente; precisamos de mais virtude.
Já temos popularidade demais; precisamos de mais pureza".
(Margaret D. Nadauld CG Out. 2000)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Crise de fé: avacalhação litúrgica.


A CRISE DA IGREJA – FATORES E ELEMENTOS: A QUESTÃO LITÚRGICA E O RITO DE PAULO VI (NOVUS ORDO MISSAE) – 1ª PARTE

“Se queremos destruir a Igreja temos que destruir a Santa Missa” (Martinho Lutero)

Imagine o quadro: uma missa regida a guitarra, baixo, bateria, sintetizador e até zabumba! No meio da nave da igreja, um grupo de adolescentes vestidas com roupas justíssimas se esforça em um número bem atual e frenético de dança, enquanto o sacerdote mal-aparamentado e os fiéis entusiasmados aplaudem efusivamente… e isto tudo ocorrendo durante a missa…

A situação descrita acima é comum em muitíssimas paróquias e pode ser tranquilamente encontrada em boa parte das cidades do Brasil e do resto do mundo. Em Salvador, infelizmente, tal realidade não é exceção, muito pelo contrário, ocorre com muito mais freqüência do que se imagina…

Embora não seja fator exclusivo da crise da Igreja, mas situado em uma conjuntura que será abordada gradativamente, iniciaremos esta explanação sobre o tema tratando da questão da reforma da liturgia pelo fato desta externar, de forma que salta aos olhos, sua considerável contribuição para o atual estado desolador em que se encontra o Rebanho de Pedro.

Para um melhor entendimento do que será comentado a seguir, iniciamos a explanação do tema com as considerações feitas pelo Padre Álvaro Calderón em sua obra “A Candeia debaixo do Alqueire” (Edições Mosteiro da Santa Cruz em conjunto com o Instituto Brasileiro de Filosofia e Estudos Tomistas, 1ª ed., 2009, p. 187):

“A liturgia ou culto público da Igreja foi, ao mesmo tempo, um dos principais instrumentos de transmissão do Depósito da Fé e de sua impressão na alma do povo fiel. Muitas verdades de fé foram primeiro vividas na liturgia e só depois ensinadas pelo magistério; e à maioria dos fiéis diz mais uma genuflexão diante do Santíssimo que a definição da Transubstanciação. Daí que o Papa São Celestino I tenha sentenciado: ‘que a lei da oração estabeleça a lei da fé’, e São Pio X tenha reconhecido que ‘a fonte primeira e indispensável’ do ‘verdadeiro espírito cristão’ é a ‘participação ativa nos sacrossantos mistérios na oração pública e solene da Igreja”.

Ora, em maio de 1964, ainda durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), o Papa Paulo VI constituiu uma comissão de peritos a qual foi encarregada da elaboração de um novo missal. De fato, o missal anterior tinha sofrido sua última reforma em 1962, durante o pontificado de João XXIII, mas sem grandes alterações em suas linhas gerais. A partir de 1965 passou-se a rezar a “Missa do Concílio Vaticano II”, também conhecida como o “Rito de 1965”, que basicamente era o Rito de São Pio V rezado de modo mais enxuto e sem a repetição de algumas orações que estavam em duplicidade neste respeitável missal.

Enfim, até abril de 1969 a Igreja Latina utilizou o Missal promulgado por São Pio V, papa do século XVI reconhecido como santo, o qual, em 1570, através da Bula “Quo Primum Tempore”, regulamentou e canonizou o Rito Dâmaso-Gregoriano, também conhecido como Rito Romano, cujas origens mais bem delineadas remontam aos séculos IV, V e VI d.C., embora alguns estudiosos cheguem a afirmar, não sem razão, que algumas das orações do antigo Missal Romano teriam sua origem no tempo dos apóstolos.
São Pio V, na referida bula, determinou que a ninguém absolutamente estaria, in literis, “permitido infringir ou, por temerária audácia, se opor à presente disposição de nossa permissão, estatuto, ordenação, mandato, preceito, concessão, indulto, declaração, vontade, decreto e proibição” e que se, contudo, alguém, tivesse “a audácia de atentar contra estas disposições” incorreria “na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo”.
De fato, São Pio V não criou o Rito Romano, mas o disciplinou e cercou de tamanhos cuidados que, não sem razão, este passou a ser frequentemente chamada de “Rito de São Pio V”, “Rito Tridentino” ou mesmo “Missa Tridentina”, pois sua disposição foi oriunda das determinações tomadas no Concílio de Trento (1545-1563) e por este papa santo.
Enfim, retornando aos eventos da reforma litúrgica que se desenvolveram a partir de 1964, Paulo VI atribuiu a esta comissão (denominada Consilium para a Implementação da Constituição da Liturgia) os trabalhos da elaboração do novo missal. Este Consilium (o qual não deve ser confundido com o Concílio Vaticano II, embora seja oriundo de suas disposições) era um órgão que teve entre seus principais artífices Monsenhor Annibale Bugnini (1912-1982), C.M., clérigo com reconhecidos conhecimentos em liturgia, mas de tendência altamente progressista e ecumênica (tanto que sua ação durante o início do Concílio Vaticano II foi tolhida por João XXIII e por setores da Cúria Romana, que o viam como excessivamente liberal e inovador).
Após a morte de João XXIII, eis que Paulo VI, em uma atitude um tanto quanto inusitada, o reabilita, e Monsenhor Annibale Bugnini veio a tornar-se a alma e a mente por detrás da elaboração do Missal de 1969 promulgado por Paulo VI e da trágica dessacralização que se seguiu. Mais tarde, Annibale Bugnini foi feito arcebispo, mas esta é uma outra história…
De fato, Annibale Bugnini era inquestionavelmente uma figura polêmica e sua atuação muito questionada dentro da própria Santa Sé. Tanto que o respeitável Frade Paul Crane afirmava possuir fortíssimas evidências, oriundas de fontes seguras, de que Monsenhor Bugnini teria mantido estreitas ligações com sociedades secretas que estavam a agir na surdina (esta polêmica história será tratada em futuras explanações).
Mas retornemos ao assunto do Consilum encarregado da reforma da liturgia, no qual havia, ainda, a participação de peritos no Rito Latino e nos Ritos Orientais, porém, o que mais chamava a atenção foi que a estes foram estranhamente incluídos seis “observadores” protestantes: Rev. Ronald C. D. Jasper, (anglicano), Rev. Dr. Massey H. Shepherd Jr. (metodista), A. Raymond George, (metodista), Pastor Friedrick-Wilhelm Künneth, (calvinista), Rev. Eugene L. Brand, (metodista), Pastor Max Thurian, (Comunidade Thaizé), em uma tentativa de coroar a atuação “ecumênica” do órgão.
Alega-se que estes não teriam participado de quaisquer das seções formais do Consilium, o que não condiz com a verdade, sendo certo que eles exerceram, nos bastidores do órgão, muita influência na feitura no Novus Ordo Missae de 1969.
De fato, o que se viu foi a mutilação ou, pior, a supressão de orações importantes (e que faziam menção explícita do caráter propiciatório da missa), como, por exemplo, o comovente confiteor. Outras orações da missa (que também reforçavam seu caráter sacrificial) foram deslocadas do contexto em que se encontravam ou ficaram grotescamente desfiguradas (como, por exemplo, a coleta, passando esta a ser conhecida simplesmente como “ofertório”). Isto sem contar que se deixou de fazer a recitação do Salmo 42, do último evangelho e a oração a São Miguel Arcanjo, sendo todas estas belas orações impiedosamente varridas do novo missal.
Diminuíram sensivelmente as invocações aos santos, os sinais da cruz e as genuflexões do sacerdote (estas passaram a ser apenas uma). Pior, alteraram o próprio Cânon (fórmula da Consagração das espécies do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Cristo), aproximando-o sensivelmente da ceia protestante, passando o sacerdote, que antes consagrava as espécies em uma postura ativa, para uma atitude visivelmente narrativa e quase teatral (isto, faça-se justiça, contra a vontade de Paulo VI). Ao invés de um único Cânon na Missa, foram elaborados outros quatro (o mais antigo deles, o Cânon Romano, foi deveras mutilado e só sobreviveu porque o Papa interveio pessoalmente para proibir sua total eliminação).
O altar, que antes era rente ao Santíssimo e voltado ad orientem (sempre contando com uma relíquia de algum santo em sua base), após a reforma, foi substituído pela protestantizante mesa eucarística, muitas vezes feita de madeira, ferro ou plástico, em um flagrante abuso litúrgico. Não raro, antigos e veneráveis altares de mármore ou granito foram esquecidos ou, pior, desmontados, arrancados e até cortados com serras apropriadas, sendo jogados fora ou, não raro, utilizados com meio-fio de estacionamentos ou passeios de rua.

O próprio Santíssimo, que antes dominava o altar, com a reforma litúrgica, foi gradualmente removido para um compartimento lateral, passando a ocupar absurdamente uma posição secundária, contrariando determinações expressas emanadas alguns anos antes de Pio XII para que tal dessacralização jamais viesse a ocorrer. No local onde originalmente encontrava-se exposto o Santíssimo, hoje, não raro, instala-se a cadeira do sacerdote ou outro móvel qualquer.
O papa descreve bem como reagiu diante da impiedosa imposição do Novus Ordo Missae na sua autobiografia (escrita quando ainda era cardeal): “eu ficava estupefato pela interdição do antigo missal, no momento que jamais se tinha verificado uma coisa semelhante em toda a história da liturgia. Deram a impressão de que tudo isto era absolutamente normal. O missal precedente tinha sido composto por Pio V em 1570, em seguida ao Concílio de Trento; era portanto normal que, após quatrocentos anos e um novo Concílio, um novo papa publicasse um novo Missal. Mas a verdade histórica é diferente. Pio V se limitara a fazer elaborar de novo o missal romano então em uso, como no decurso da vida da história isto havia sempre sucedido no transcorrer os séculos. E muitos dos seus sucessores, do mesmo modo que ele, tinham elaborado novamente este missal, sem jamais opor um missal a um outro. Tratava-se sempre dum processo contínuo, a continuidade nunca era destruída. (J. Ratzinger, La mia vitta – “Minha vida” – pp. 111-112)
É o mesmo Bento XVI que, no prefácio da magistral obra “A Reforma da Liturgia Romana”, de Monsenhor Klaus Gamber (1919-1987), antigo mestre da Universidade de Ratisbona e amigo pessoal do Papa Ratzinger, nos diz, textualmente e sem titubear, sua abalizada opinião de exímio teólogo a respeito da reforma de Paulo VI:

“A reforma litúrgica, em sua realização concreta, se distanciou demais de sua origem. O resultado não foi uma animação, mas uma devastação. De um lado se tem uma liturgia que se degenerou em ‘show’, onde se quis mostrar uma religião atrativa com a ajuda de tolices da moda e de incitantes princípios morais, com êxitos momentâneos no grupo de criadores litúrgicos e uma atitude de reprovação tanto mais pronunciada nos que buscam na liturgia, não tanto o ‘showmaster’ espiritual, mas o encontro com o Deus Vivo, diante do qual toda ‘ação’ é insignificante, pois somente este encontro é capaz de nos fazer chegar à riqueza de Deus”.

E prosseguindo em sua explanação, mais adiante, conclui que, com a reforma litúrgica de Paulo VI, ocorreu “que no lugar de uma liturgia fruto de um desenvolvimento contínuo, introduziu-se uma liturgia fabricada. Escapou-se de um processo de crescimento e de devir para entrar em outro de fabricação. Não se quis continuar o devir e o amadurecimento orgânico do que existiu durante séculos. Foi substituído, como se fosse uma produção industrial, por uma fabricação que é um produto banal do momento”.
Esta foi uma mudança sem precedentes na história da liturgia, tendo ido muitíssimo além do que a grande maioria dos Padres do Concílio Vaticano II visou quando eles votaram pela constituição do Sacrosanctum Concilium seis anos antes, assim como muitos deles atestaram.
O resultado da devastação litúrgica está patente aos olhos de todas as pessoas com um mínimo de discernimento dos fatos que se sucederam: igrejas que se esvaziaram, esfriamento gradativo da fé de muitos (isto quando atitudes histéricas, encenações teatrais despropositadas, números sensuais de dança, aplausos e línguas “estranhas” durante a missa não são encarados como “manifestações de fé”) e, em um sintoma mais que visível da crise, a queda nas vocações religiosas.
Muitos que analisam o assunto da questão litúrgica afirmam, não sem razão, que o missal de 1969 traz consigo uma teologia nova, inquietante e repleta de ambigüidades, tanto que o próprio Padre Pio (1887-1968), (famoso santo canonizado por João Paulo II e cuja vida foi pautada pelo amor à Eucaristia e repleta de milagres), em 1967, enquanto o novo missal ainda estava em fase de experimentação, pediu a Paulo VI, através do Cardeal Otaviani, Prefeito do Santo Ofício, autorização para continuar a rezar o missal de São Pio V, alegando que o novo rito (que ainda seria implantado nos anos seguintes) trazia consigo questionamentos sérios e dúvidas muito inquietantes as quais não existiam no rito anterior. Não precisamos dizer que o Padre Pio obteve tal autorização e continuou a celebrar sua missa normalmente.
Seguindo esta linha de pensamento, merece ser mencionado que Jean Guitton (1901-1999), escritor, filósofo e admirador da Nova Teologia (era inclusive amigo pessoal de Paulo VI) asseverou, em matéria publicada no L’Osservatore Romano, que o Novus Ordo Missae, em vários pontos, possui estreita semelhança com a ceia calvinista.
Com a intensa atenuação do sentido sacrificial e propiciatório e a equivocada exaltação da natureza protestantizante de “Ceia do Senhor”, o que se viu foi que, com o novo missal, os fiéis ficaram cada vez mais privados do contato com o transcendente, enquanto abriu-se a guarda à criatividade do sacerdote ou mesmo da equipe de liturgia de cada paróquia, sucedendo-se terríveis abusos litúrgicos (impensáveis no venerável rito anterior) e, não raro, verdadeiros sacrilégios. Em algumas paróquias percebe-se que tornaram a missa praticamente um encontro social, uma confraternização de amigos ou mesmo uma baderna despropositada regada a números de dança, histeria, línguas que se embaralham ou encenações em que o homem é o centro das atenções e não o mistério do Sacrifício de Nosso Senhor na Cruz…
A música sacra, que antes dava a melodiosa e respeitosa ambientação ao Sacrifício Incruento de Cristo no altar, cedeu lugar a canções com a profundidade de um pires, tendo sido abandonado o venerável canto gregoriano e o belíssimo coral polifônico. O órgão, com raríssimas e honrosas exceções, foi praticamente erradicado das igrejas em nome de um questionável avanço tecnológico e no gosto musical, cedendo lugar às guitarras, bateria, violão e outros instrumentos nem um pouco litúrgicos, sendo que a música que hoje acompanha as missas se assemelha, não raro, à trilha sonora de um show de Rock, MPB ou de alguma banda “da moda”.
Assim, vimos uma liturgia respeitável, milenar, sacralizante e teocêntrica ser rapidamente varrida dos templos católicos e, em seu lugar, ser imposta outra, antropocêntrica, criativa, ecumênica, quase totalmente dessacralizada e resultante de uma tendência passageira. Em suma, um novo rito da missa foi praticamente “fabricado” e forçosamente introduzido na Igreja em detrimento do anterior, pondo de lado mais de um milênio e meio de um zeloso e gradual progresso que vinha ocorrendo na liturgia, demolindo-se o venerável edifício litúrgico do Rito Tridentino e, de algumas pedras encontradas no entulho, construiu-se, juntamente com não pouco material estranho e questionável, outro rito no lugar, o Novus Ordo Missae.

Após o novo missal, como diz Dom Aloísio Roque Oppermann, Arcebispo de Uberaba/MG, em um artigo escrito no jornal informativo de sua diocese:

“Quase todo celebrante se considerava habilitado para inovar, criar, mudar e acrescentar. Não sem razão, muitos fiéis manifestavam o seu descontentamento, e a sua estranheza. Depois de melhores estudos, aos poucos a disciplina tornou a vigorar. Descobrimos, sim, que a criatividade é muito importante, para haver boas celebrações. Mas para o bem dos fiéis, foi preciso reconhecer que as regras, os ritos estabelecidos, precisavam ser rigorosamente observados. O rito não pode ficar à mercê da vontade do celebrante, sobretudo quando se trata da Missa”.

O drama da questão litúrgica é de tal dimensão que o falecido vaticanista Romano Amerio (1905-1997), em sua magistral obra “Iota Unum – Estudo sobre as Transformações da Igreja Católica no Século XX”, (livro que foi ignorado quando de seu lançamento em 1985, mas que atualmente foi redescoberto com toda a força e é uma referência das mais abalizadas sobre as terríveis mudanças ocorridas na Igreja), nos diz textualmente:

“A reforma da liturgia católica é a obra mais imponente, visível, universal e eficaz saída do Concílio Vaticano II. Contradiz os textos da grande assembléia e se caracteriza pelo caráter anfibológico de suas prescrições, sobre a qual se exercitaram tanto a sutileza bicéfala de seus redatores como a hermenêutica posterior, que a causa da anfibologia dos textos apelava ao espírito do Concílio”.

A respeito da contradição aludida por Romano Amerio entre a reforma litúrgica de Paulo VI em face dos próprios documentos conciliares, este autor aduz, de forma clara e precisa, que a supressão do latim da liturgia já contradiz, de imediato, o próprio artigo 36 da Constituição Conciliar sobre Liturgia, que reafirma a necessidade da conservação do uso da língua e do rito latino.

De qualquer forma, sendo o latim uma língua morta, é considerada como sendo ideal para o uso litúrgico a que se presta, pois encontra-se imune às modificações que acometem as línguas em uso (tais como os vícios de linguagem e gírias) as quais podem comprometer o próprio sentido eucarístico do rito. Frise-se que o latim reflete a universalidade da Igreja, sendo que, por exemplo, se um fiel acostumado a ir à missa celebrada em latim no México, viajando para Alemanha e indo a uma missa celebrada em latim naquele país, ali não se sente como um peixe fora d’água. É ainda digno de menção que o próprio Novus Ordo foi elaborado para ser rezado em latim, sendo a introdução do vernáculo uma inovação totalmente estranha e inusitada.

Frise-se que o latim guarda consigo uma atmosfera de profundo respeito e mistério, atmosfera esta que era reforçada pela alta espiritualidade e grandeza do Rito Tridentino. E nem se diga que antes as pessoas nada entendiam, pois os missais eram bilíngües, tendo ao lado do texto em latim a tradução em português, sendo que as leituras da missa e o sermão eram feitos na língua corrente do lugar. Aliás, não era incomum algumas pessoas decorarem as orações do missal, tendo-as na ponta da língua, podendo até mesmo dispensar o missal bilingüe.

Outro dado concreto é que, antes da reforma do missal de 1969 e do conseqüente banimento do latim, o fiel sabia mais perfeitamente o sentido da missa, tendo conhecimento de que estava diante do Sacrifício Incruento de Nosso Senhor, tornando-se o Calvário presente no altar quando o sacerdote, na pessoa de Cristo, converte o pão e o vinho em Corpo e Sangue de Jesus (ou, como a Igreja sempre anunciou, Corpo, Alma e Divindade de Cristo). Será que hoje em dia as pessoas que vão à missa em vernáculo têm conhecimento disto? O que mais se ouve nas paróquias são os leigos (e, pasmem, até padres) apregoarem que “missa é festa”, “missa é alegria” ou que “a missa é ceia fraternal dos irmãos de fé”, dentre outros terríveis equívocos do gênero.

De fato, a supressão do latim da missa, em vista da torpeza das inovações descritas acima, é apenas um leve nuance diante da dimensão do desmonte (ou, em outras palavras, verdadeira demolição) a que foi acometido o venerável edifício litúrgico da Igreja.

Ciente do terrível estado em que se encontra a liturgia católica, o Papa Bento XVI, através do documento de sua lavra denominado Motu Próprio Summorum Pontificum, de 2007, desimpediu o acesso dos fiéis ao Rito de São Pio V e aos sacerdotes a total liberdade em celebrá-lo, sendo absolutamente desnecessária a autorização diocesana ou domínio do latim para tanto (este último argumento utilizado de forma falaciosa por setores da Igreja que não vêm com bons olhos o retorno do Rito de São Pio V). Em suma, o papa permitiu que o Rito Trindentino e o Novus Ordo Missae convivessem juntos e pediu aos bispos, através de uma carta que acompanha os documentos, a remoção de qualquer obstáculo para tanto.

Infelizmente algumas dioceses do Brasil fizeram (e ainda fazem) vistas grossas ao documento de Bento XVI, não facilitando (e até mesmo vetando) a designação de sacerdotes ou de igrejas para celebrações do venerável rito, em desatenção ao Santo Padre, à caridade cristã e à brandura com que devem ser tratados os que encontram laços de amor e admiração ao rito anterior (denominado Rito Extraordinário).

Nada impede uma convivência entre os dois missais, o Novus Ordo (denominado no Motu Proprio como Rito Ordinário) e o anterior (Rito Extraordinário), a não ser a incompreensão, a má-formação dos sacerdotes nos seminários, a aversão à ressacralização da liturgia ou, na pior das hipóteses, má-vontade das cúrias. Mal sabem que esta é uma tendência que veio para ficar e que, mais dia, menos dia, não poderá ser contida, quer seja no Brasil, quer seja nesta Cidade do Salvador, terra de missão.

Na próxima explanação continuaremos a desenvolver o tema da questão litúrgica e sua contribuição para a crise que assola a Igreja, inclusive reproduzindo considerações do respeitável vaticanista Romano Amerio e outros sobre o assunto, assim como as providências que Santo Padre tenciona tomar no sentido de reformar, ressacralizar e melhorar o Rito de Paulo VI para aproximá-lo do Rito Tridentino.

ACOMPANHOU O ARTIGO A FAMOSA FOTO DOS PASTORES PROTESTANTES COM PAULO VI.

“OBSERVADORES” PROTESTANTES NA REFORMA LITÚRGICA – 1966

(Pe. Annibale Bugnini - La Riforma Liturgica - pg. 204, Edizione Liturgiche – 1983 – Roma)

“No dia 23 de agosto de 1966, a lista dos “Observadores”, aprovada pela Secretaria de Estado e pela Congregação da Doutrina da Fé, ficou assim composta:

Indicados pela Comunidade Anglicana (1º de julho):

1 – Rev. Ronald C. D. Jasper, presidente da Comissão litúrgica da Igreja Anglicana da Inglaterra.

2 – Rev. Dr. Massey H. Shepherd Jr., professor «Church Divinity School of the Pacific», California –USA.

O Conselho Mundial das Igrejas indicou (12 de agosto):

3 – Prof. A. Raymond George, membro da Conferência Metodista, diretor do «Wesley College» de Headingley, Leeds, Inglaterra.

A Federação Mundial Luterana indicou (12 de agosto):

4 – Pastor Friedrick-Wilhelm Künneth, de Genebra, secretário da Comissão «for Worship and spiritual Life», substituído em 1968 por:

5 – Rev. Eugene L. Brand, Metodista de N. York.

Finalmente, a Comunidade de Taizé escolheu:

6 – Pastor Max Thurian, vice-prior da Comunidade".

Soberania popular x soberania divina.


A partir do momento em que a lei é ditada pela vontade de uma autoridade ou em nome de um povo, a soberania divina é usurpada pela soberania popular ou por uma autoridade soberana, as quais negam o absolutismo divino.

Não se pode esperar obediência a usurpadores que não determinam sua justiça em conformidade com a vontade santa de Deus. Eles entregaram o poder ao diabo e se tornaram os fariseus, saduceus e escribas que conspiram contra o Messias e torturam o corpo místico de Cristo.

Eis mais um pecado adâmico de desobediência e de se fazer de Deus quando a vontade divina é posta de lado. O pecado individual se torna social, econômico e político. A arte jurídica se torna uma pseudo-ciência, uma doutrinação ideológica gnóstica ensinada nas faculdades de Direito, um sincretismo totalitário modernista a serviço da dominação do homem pela vontade do homem, e não a libertação do homem pela aceitação da vontade santa da sereníssima e augusta Divina Majestade. Verifique por si mesmo:

O que é o Estado Moderno para o Papa Bento XVI?
Ronaldo Mota

Lendo o livro Jesus de Nazaré, escrito pelo Papa Bento XVI, ficamos impressionados com a firmeza de algumas críticas que ele faz ao Mundo Moderno. Dentre essas críticas, uma das que mais nos impressionou foi a crítica feita ao Estado Moderno. Ela pode parecer surpreendente para alguns, mas é tão inteligente que faremos questão de, na medida de nossa capacidade, repeti-la, explicá-la e explicitá-la para nossos caros leitores.

Primeiramente, é necessário que conheçamos, em linhas gerais, algumas características do Estado Moderno. Desse modo, compreenderemos melhor a crítica do Papa Bento XVI.

Como nos lembra Ernst Cassirer:

“Com Maquiavel ficamos na antecâmara do mundo moderno. O fim desejado foi alcançado; o Estado ganhou autonomia completa.”.[1]

O mundo moderno tornou-se absolutista. As monarquias absolutistas européias tiveram o apoio teórico de pensadores como Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes. Como bem concluiu Ernst Cassirer ao estudar Maquiavel e, como é evidente para quem conhece a teoria política de Hobbes, o Estado tornou-se autônomo, isto é, ele cria suas leis e não há nenhuma barreira religiosa, moral ou intelectual que se possa opor à sua vontade soberana.

Hobbes chegou ao cúmulo de enunciar a seguinte proposição:

“O justo e o injusto não existem antes que a soberania fosse instituída; sua natureza depende do que é ordenado, e por si mesma cada ação é indiferente: justa ou injusta, depende do direito do soberano. Por isso, os reis legítimos, quando ordenam uma coisa, a tornam justa pelo simples fato de que a ordenam; proibindo-a, a tornam injusta, simplesmente porque a proibiram.”.[2]

Nesse caso o Estado – que encarna a figura de um rei – é como Deus! Ele define o que é o bem ou o mal! Evidentemente isso é uma loucura. Dessa loucura nasceu o direito positivo moderno, hoje triunfante em todo o mundo graças a Kelsen.

Os defensores do Mundo Moderno, porém, para esconderem essa nódoa funesta da Modernidade, afirmam que foram eles os responsáveis pelo movimento intelectual que liquidou com o absolutismo, isto é, o Iluminismo. Entretanto, sabemos que o Iluminismo não criou nenhum princípio político novo:

“Contudo, a despeito desse profundo interesse por todos os problemas políticos, o período do Iluminismo não deu origem uma nova filosofia política. Estudando as obras dos mais famosos e influentes autores, somos surpreendidos pelo fato de nelas não se encontrar qualquer teoria completamente nova.”.[3]

Reinhart Koselleck, estudando as conseqüências da teoria política iluminista, chagou a seguinte conclusão:

“A vontade pura enquanto tal, em si mesma a meta de sua realização, é o verdadeiro soberano. (...) O resultado é o Estado total, que repousa na identidade factícia da moral civil e da decisão soberana. (...) A vontade geral, que é absoluta a não tolera exceção, reina sobre a nação.”.[4]

E o liberal Peter Drucker declara:

“Longe de serem as raízes da liberdade, o Iluminismo e a Revolução Francesa representam as sementes do despotismo totalitário que hoje ameaça o mundo.[5] ”.

Realmente, tanto o absolutismo quanto o liberalismo iluminista concedem teórica e praticamente um poder absoluto ao Estado, o qual está acima da moral, da religião e mesmo da razão, visto que, em ambos os casos, o que impera é a Vontade. No absolutismo é a vontade do monarca que impera, e no liberalismo é a vontade geral (ente abstrato que não existe absolutamente!). Assim como para Hobbes não existe bem ou mal, sendo a vontade soberana que transforma uma coisa em boa ou má. Para o iluminismo, é a vontade geral que transforma uma coisa em certa ou errada, em criminosa ou legal. Ela não é limitada pela razão, pois é absoluta. Foi esse poder absurdo sem restrição nenhuma que deu aos nazistas, posteriormente, o direito de fazer as suas criminosas leis racistas e determinar o extermínio dos judeus e dos doentes mentais.

“Assim, a soberania de Rousseau revela-se uma ditadura permanente.”.[6]

Exatamente por isso o Estado Moderno tem que ser laico, pois é absoluto e não poderia ser impedido em suas decisões por nada, nem mesmo por Deus. Esse Estado, porém, não tem apenas essa pretensão, como notou Paul Hazard, os iluministas desejavam e acreditavam que “instituiriam um novo direito, sem qualquer relação com o direito divino; uma nova moral, independente de qualquer teologia; uma nova política que transformaria os súditos em cidadãos. No intuito de impedirem que os seus filhos viessem a repetir os antigos erros, iriam criar novos princípios pedagógicos. E então o céu desceria à terra. Nos belos e claros edifícios por eles construídos, prosperariam as gerações, finalmente libertas da necessidade de procurar, fora de si próprias, a sua razão de ser, a sua grandeza, a sua felicidade.”.[7]

Daniel Roche, em seu livro La France des Lumières, no capítulo intitulado Dessacralização, Laicismo, Iluminismo, analisando o movimento iluminista chega à seguinte conclusão:

“La raison empirique avec Locke inspire ceux qui reconstruisent les principes de la vie en société ; en politique, le droit divin des rois voit son procès instruit par les partisans du droit naturel [na realidade o direito positivo como o de Kelsen]; en moral, l’utilité se substitue à la morale de l’ordre divin et contribue notamment, par la tolérance, au revê du bonheur sur la terre ; la science doit assurer le progrès indéfini de l’homme, partant sa félicité.”.[8]

Essa é a mentalidade que construiu o Estado Moderno. Como podemos notar, esse Estado possui as seguintes características:
1. É absoluto.
2. É laico.
3. Reduz a religião ao foro íntimo, como uma questão subjetiva e particular.
4. Propõe-se, por meio do progresso e pela construção de uma ordem civil sem Deus, dar a paz e a felicidade ao homem.
5. É antropocêntrico, pois julga que o homem deve buscar em si a própria razão de ser e a felicidade.

A concepção de um Estado desse tipo não carece – absolutamente – de uma causa religiosa.

Há uma religião – a do Modernismo – para a qual fé e razão são coisas separadas e mesmo opostas. Para essa religião, a fé seria fruto de uma experiência interior, espiritual, subjetiva e inefável do crente com a divindade. A razão, pelo contrário, seria uma potência comum a todos os homens, e sua função seria tentar conhecer e controlar o mundo material. O mundo da razão teria leis gerais, isto é, leis que seriam fruto de generalizações feitas pela razão humana. O mundo da fé, pelo contrário, seria totalmente individual, subjetivo e único para cada homem. O mundo da fé seria irracional e o mundo da razão, claro, seria racional. Assim, tanto o mundo quanto a razão seriam contrários a fé. O mundo da razão e o mundo da fé estariam absolutamente separados.

Enfim, não sendo possível a união, como se poderia estabelecer uma convivência entre a vida religiosa e a vida mundana, civil? Como conviveriam, ainda que desunidas, política e religião? Para gnósticos e panteístas a solução seria a seguinte: dever-se-ia manter a religião em âmbito intimo e particular, como sua natureza mesma obriga, e fazer da razão[9] a soberana do mundo público.

Nosso intento neste artigo, porém, não é estudar a origem religiosa do Estado Moderno. Em todo caso, convém deixar claro, ainda que de passagem, que esse Estado laico e ateu tem uma causa religiosa forte e sempre atuante.

Passemos então agora à crítica feita pelo Papa ao mundo moderno.

Bento XVI, ao estudar a Paixão de Jesus, detém-se no dilema dos judeus obrigados por Pilatos a escolherem entre Nosso Senhor, Filho do Pai Eterno, e Barrabás. Ora, analisando essa passagem dos evangelhos, o Papa chega a conclusões interessantíssimas:

“Mas quem era Barrabás? Temos conhecimento apenas do que se apresenta no Evangelho de S. João: ‘Barrabás era um salteador’ (Jo18, 40). Só que o termo grego salteador havia recebido um significado específico na situação política de então na Palestina. Ele significava o mesmo que ‘lutador da resistência’. Barrabás havia participado de uma rebelião (cf. Mc 15,7) e além disso era acusado – neste contexto – de homicídio (Lc 23, 19,25). Quando S. Marcos diz que Barrabás tinha sido um ‘preso célebre’, isso significa que tinha sido um dos destacados lutadores da resistência, talvez até o próprio cabeça dessa rebelião (Mt 27, 16).

Em outras palavras: Barrabás era uma figura messiânica. A escolha entre Jesus e Barrabás não é casual: estão em confronto duas figuras messiânicas, duas formas de messianismo. Isto se torna ainda mais claro quando pensamos que Bar-Abbas quer dizer ‘filho do Pai’. (...) Ele se apresenta como uma espécie de sósia de Jesus; concebiam a mesma pretensão, mas de um modo diferente. A escolha consiste, portanto, entre um Messias que encabeça um combate que promete liberdade e o próprio reino e este misterioso Jesus que anuncia o perder-se como caminho para a vida.”.[10]

Barrabás, um “sósia” de Jesus... Um sósia dialeticamente oposto a Jesus. Como o Anticristo. Barrabás foi, desse modo, uma espécie de pequeno anticristo.

Portanto, descobre-se nessa passagem uma luta entre dois messianismos: um de Jesus Cristo, cujo reino não é desse mundo, e outro de Barrabás, que busca o reino desse mundo. Um promete a vida eterna, o outro promete reino da felicidade nesse mundo. Os judeus, no caso, escolheram o representante do messianismo mundano e político.

Comentando ainda essa passagem, o Papa faz-nos as seguintes observações:

“Se hoje tivéssemos de escolher, teria Jesus de Nazaré, o filho de Maria, o filho do Pai, alguma possibilidade? (...) O tentador não é tão rude a ponto de nos propor diretamente a adoração do diabo. Ele apenas nos propõe que nos decidamos por aquilo que é racional, pela primazia de um mundo planejado e organizado, no qual Deus pode ter o seu lugar como uma questão privada, mas não pode imiscuir-se nas nossas intenções essenciais. Solowjew dedica ao Anticristo o livro O caminho aberto para a paz e o bem-estar do mundo, que de certo modo se torna a nova Bíblia e que tem como próprio conteúdo a adoração da prosperidade e do planejamento racional.”.[11]

Para o Papa, pois, o mundo moderno sofre a tentação de planejar e dar ao mundo uma ordem racional independente de Deus (como se isso fosse possível), a qual possa garantir a prosperidade e o bem-estar, reduzindo Deus ao plano privado e individual, sem relação com a ordem social. Ora, essa adoração da prosperidade e do bem-estar, objetivos fundamentais do estado laico, é vista pelo Papa como uma tentação do Anticristo. Sendo assim, o próprio desejo de fundar um estado desse tipo e com esse poder é uma tentação do Anticristo.

Tentação que se apresenta, para ganhar o máximo de pessoas possíveis, como racional.

A crítica é tão violenta que alguns logo procurarão remediar, afirmando que o Papa não fez suas as palavras de Solowjew, mas apenas citou a posição de Solowjew sobre o fato. Em todo caso, o Papa afirmou diretamente e claramente que essa é uma tentação do diabo!

Enfim, devemos concluir, de acordo com as palavras do Papa, que o mundo moderno não só sofreu uma tentação diabólica, mas cedeu e escolheu o reino desse mundo e o falso salvador. Deu ao Estado absoluto o ofício de lhes salvar e criar o reino de Deus na Terra. Rejeitou o reino dos céus e o seu verdadeiro Salvador, Jesus Cristo.

O Estado Moderno, portanto, é péssimo e muito adequado aos planos do tentador.

O mundo moderno trabalha para o triunfo do Anticristo.
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[1] CASSIRER, Ernst. O Mito do Estado. São Paulo: Ed. Códex, 2003. p. 171
[2] Thomas Hobbes, De cive. In: BOBBIO, Norberto. Locke e o direito natural. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1997. p. 43 – o negrito é nosso.
[3] E. Cassirer. op. cit. p. 211
[4] KOSELLECK. Reinhart. Crítica e Crise: contribuição à patogênese do mundo burguês. Rio de Janeiro: EDUERJ – Contratempo, 1999. p. 142 – o negrito é nosso.
[5] O Melhor de Peter Drucker: obra completa / Peter f. Drucker. São Paulo: Nobel, 2002, p. 479 – o negrito é nosso.
[6] Reinhart Koselleck. Idem. O negrito é nosso.
[7] HAZARD, Paul. O pensamento europeu no século XVIII (De Montesquieu a Lessing). Lisboa: Editorial Presença – Livraria Martins Fontes, 1974. p. 9 – os negritos são nossos.
[8] “A razão empírica com Locke inspira aqueles que reconstroem os fundamentos da vida em sociedade; em política, o direito divino dos reis vê-se contestado pelos defensores do direito natural; em moral, substituí-se a moral de ordem divina pela utilidade, contribuindo notavelmente, pela tolerância, com o sonho do bem-estar sobre a terra; a ciência deve assegurar o progresso indefinido do homem, e conseqüentemente sua felicidade.” (ROCHE, Daniel. La France des Lumières. France: Librairie Arthème Fayard, 1993. pp. 523-524).
[9] É necessário notar que o conceito de razão moderna não é, absolutamente, o mesmo que o conceito de razão tomista. Para os modernos, a razão não conhece propriamente o mundo, mas apenas o manipula. Todo conhecimento – no sentido moderno do termo – é provável, mas nunca certo e imutável.
[10] RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: primeira parte: do batismo no Jordão à Transfiguração. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007. pp. 50-51.
[11] Joseph Ratzinger. op. cit. pp. 51-52 – o negrito é nosso.
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Para citar este texto:
Ronaldo Mota - "O que é o Estado Moderno para o Papa Bento XVI?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=politica&artigo=estado-moderno-papa&lang=bra

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Orações com Indulgências.Parte II.


Orações com Indulgências
Site Vaticano - Indulgências

Explicação
Indulgência, na teologia católica, é o perdão ao cristão das penas temporais devidas a Deus pelos pecados cometidos, mas já perdoados pelo sacramento da Confissão, na vida terrena.

Pois o perdão obtido pela confissão não significa a eliminação das penas temporais, ou seja, do mal causado como conseqüência do pecado já perdoado, necessitando por isso de obter indulgências e de praticar as boas obras, a fim de reparar o mal cometido pelo pecado.

Uma indulgência não pode ser comprada ou vendida pois não existe comércio com Deus, que é misericórdioso e concede a cada uma segundo sua Justiça.

Do Manual de Nossa Senhora Aparecida

Publicado pelos Padres Redentoristas, décima quarta edição 1946

orações e indulgências retiradas do livro oficial " Preces et Pia Opera Indulgentiis ditata"

Oração a Cristo Rei Universal
Oh! Cristo Jesus, reconheço-vos Rei Universal. Tudo o que foi feito, para vós foi criado. Exercei em mim vossos direitos.

Renovo minhas promessas de batismo, renunciando a Satanás, às suas pompas e às suas obras, e prometo viver como bom cristão.

Muito particularmente comprometo-me a fazer triunfar, por todos os meios que puder, os direitos de Deus e de vossa Igreja.

Divino Coração de Jesus, ofereço-vos minhas pobres ações, para alcançar que todos os corações reconheçam vossa realeza e assim se estabeleça no universo inteiro o vosso Reino. Assim seja.

Indulgência plenária uma vez ao dia.

Condições: Confissão, comunhão e orar pelas intenções do Santo Papa.

Oração a São Benedito
O meu glorioso protetor, São Benedito, que agora no céu estais tendo o prêmio de vosso sincero amor a Deus e fidelidade constante à Santa Igreja Católica, volvei vossos olhos de proteção sobre vossos fiéis devotos, para que sempre sigamos o caminho do bem e da virtude

Infundi-nos um sincero amor e respeito à Igreja e a todos os seus ministros e livrai-nos da superstição e dos erros ocultos do protestantismo, que procuram afastar nossas almas da Igreja fundada por Cristo e de seus ministros e desviar-nos assim do caminho do céu e da salvação eterna. assim seja.

Todas as noites rezar três Ave-Marias a Nossa Senhora como obséqui a São Benedito.

Com esta prática obterás a proteção da Santíssima Virgem, o que te proporcionará felicidade nesta vida e na outra.

Oração de São Francisco Xavier
O Deus eterno, autor de todas as coisas, lembrai-vos das almas dos infiéis, formadas por Vós a vossa imagem e semelhança: vede Senhor, que, em opróbrio vosso, deles se vai enchendo o inferno.

Lembrai-vos de que vosso Filho Jesus por sua salvação padeceu uma atrocíssima morte.

Não Permitais Senhor, daqui em diante, que o vosso Filho seja desprezado pelos infiéis; mas pelo contrário, deixando-se aplacar pelas preces dos santos e da Igreja, Esposa do vosso santíssimo Filho, e esquecendo a sua idolatria e infidelidade, fazei que eles também venham a conhecer aquele que enviastes, Jesus Cristo Nosso senhor, que é a salvação, vida e ressurreição nossa, por quem fomos salvos e livres, ao qual seja dada glória por infinitos séculos. Amém.

Indulgência de 500 dias cada vez que rezada.

Indulgência Plena se rezada durante um mês.

Pela Conversão dos hereges e cismáticos
Oh! Maria Santíssima, Mãe de Misericórdia e Refúgio dos pecadores, nós vos suplicamos que vos digneis olhar compassiva para os povos heréticos e cismáticos.

Vós que sois o trono da sabedoria, iluminai o seu entendimento miseravelmente envolto nas trevas da ignorância e do pecado, afim de que conheçam claramente que a Santa Igreja Católica, Apostólica Romana é a única verdadeira Igreja de Jesus Cristo, fora da qual não pode haver santidade nem salvação.

Terminai a sua conversão, alcançando-lhes a graça de abraçarem todas as verdades da nossa fé, e de se submeterem ao Romano Pontíficie, Vigário de Cristo na terra, de sorte que estreitamente unidos a nós pelos dulcíssimos laços da divina caridade, não haja senão um só rebanho e um só Pastor, e todos possamos, oh! Virgem Gloriosíssima, cantar eternamente, transportados de júbilo;

Alegrai-vos, Virgem Maria, Vós sois quem exterminastes todas as heresias.

Rezar três Ave-Marias.

Indulgência 500 dias.

Ato de Resignação
Senhor Deus meu, desde já aceito de vossa mão, resignado e contente, conforme vos aprouver, todo e qualquer gênero de morte, com todas as angústias, penas e dores. Amém.

Indulgência de 7 anos e plenária na hora da morte para todos que, uma vez na vida, depois da comunhão e confissão, tenham recitado este ato.

Pelos agonizantes
O Clementíssimo Jesus, que amais tanto as almas, eu vos suplico pela agonia de Vosso santíssimo Coração, e pelas dores de Vossa Mãe Santíssima, que purifiquei no vosso precioso Sangue todos os pecadores da terra que agora estão em agonia e hoje mesmo tende de morrer. Amém.

Coração agonizante de Jesus, tende piedade dos moribundos!

Indulgência 300 dias e plenária nas condições comuns se rezada durante um mês, três vezes ao dia com certo intervalo de tempo.

Pelos pais defuntos
O Deus, que nos mandastes honrar pai e mãe, sede clemente e misericordioso com as almas de meu pai e de minha mãe.

Perdoai-lhes os pecados, e fazei que eu possa um dia vê-los na alegria da eterna luz. Amém.

Indulgência 3 anos e plenária nas condições comuns se rezada durante um mês.

Oremos por Sua Santidade Papa Bento XVI
"O Senhor o conserve e vivifique e o faça feliz na terra, e o não entregue nas mãos de seus inimigos."

Pai-Nosso, Ave-Maria.

Indulgência de três anos cada vez, indulgência plenária durante um mês.

Agenda Setting e a espiral do silêncio: controle das mentes e da sociedade pela imprensa.


Agenda Setting e a Espiral do Silêncio são como a "roupa nova do rei": uma falsidade a enganar os "maria-vai-com-as-outras" mas que é patente a quem "tem olhos para ver e ouvidos para ouvir."
Agenda Setting.
Por Fernando Rebouças

No estudo a respeito da influência que a mídia exerce no pensamento do cidadão, há duas teorias que investigam a respeito : A “agenda setting” e a “espiral do silêncio”. A mídia ao selecionar determinados temas a serem veiculados, por outro lado apaga os demais temas que não entraram na pauta de informação daquele dia. Um assunto que é noticiado com determinada força no ambiente macro-social acaba colocando no esquecimento outros assuntos não veiculados, mesmo sendo de grande importância para a sociedade.

O termo “agenda setting” significa pauta de fixação, uma forma de direcionar a atenção que os leitores e telespectador de uma reportagem seguirão, ou seja, a mídia aponta quais os temas serão considerados de interesse coletivo. Segundo Walter Lippmann, o conhecimento que as pessoas têm do mundo exterior é formado pela seleção midiática de símbolos presentes no mundo real, criando uma relação entre a agenda midiática e agenda pública.

A “agenda setting” segue fatores condicionados à mensagem e recepção, considerando a necessidade de orientação do público sobre determinado assunto. No quesito mensagem, a análise mais forte está nas manchetes políticas, pois a mídia aponta e interfere na formação da opinião pública a respeito da luta do poder. Neste caso a mídia utiliza como artifícios a dramatização dos acontecimentos nela noticiados, personalização do conteúdo na matéria, e a apropriação de dinâmica nos acontecimentos para acelerar o entendimento do receptor da mensagem.

Na televisão, o “agenda setting” é utilizado em notícias de interesse geral como forma de influencia na agenda pública, ocorre através de uma cobertura intensa num curto espaço de tempo. A teoria da “espiral do silêncio” foi criada por Noelle-Neuman em 1972.

A teoria da “espiral do silêncio” inicia quando há o medo do isolamento social por parte do indivíduos, fazendo o indivíduo se sentir isolado caso discorde da opinião pública dominante imposta pelos veículos de comunicação. O silêncio das opiniões minoritárias, ou colocadas como minoritárias, tende a se tornar cada vez mais isolantes à medida que a opinião geral toma mais força através da mídia.

Fontes
http://www.estudosdejornalismo.blogspot.com/

“O termo Espiral do Silêncio foi utilizado pela pesquisadora alemã Noelle-Neumann, para descrever o mecanismo psicológico em que os indivíduos tendem a seguir as opiniões dos outros, até que uma opinião se estabeleça como atitude prevalecente, enquanto as outras opiniões isoladas são rejeitadas por todos.
Essa Teoria defende que os indivíduos buscam a relação social através da observação da opinião geral e procuram expressar-se dentro dos parâmetros da maioria para não caírem no isolamento, MESMO NÃO ESTANDO DE ACORDO… ajuda a manter o status quo, consolidando os valores da classe dominante, formando a nossa percepção da realidade” (1)

Fomentar o preconceito social, conduz-nos à discriminação, à marginalização e em último caso à violência, quando afinal esta patologia é apoiada unicamente na aparência e na empatia.
Os preconceituosos, tal como os predadores, tentam “abater as suas vítimas” a menos que estas últimas se transfigurem como sendo membros da tribo persecutória.

Uma coisa é certa: recorrendo à teoria da “espiral do silêncio“, proposta por Elisabeth Noelle-Neumann, poder-se-ia concluir que quanto menos se trata a religião, menos relevante ela se torna (ou é percepcionada como tal). E quanto menos relevante, menos merece ser tratada.

Opinião Pública e a Espiral do Silêncio

Walter Lippmann (1922) descobriu, no seu livro «Public Opinion», que a observação dos factos e dos eventos é filtrada, inclusive moralmente, por pontos de vista selectivos, pontos de vista orientados por estereótipos ou códigos. As pessoas vêem o mundo tal como este se reflecte na «opinião pública» e as avaliações morais são canalizadas por estereótipos, ficções e símbolos carregados de emoções. As pessoas vivem, portanto, num mundo limitado por estes «preconceitos» difundidos pelos mass media, com os quais fazem face à complexidade, à grandeza e à fugacidade do mundo.
Embora trate da opinião pública, Lippmann não oferece nenhum conceito de opinião pública, limitando-se a mostrar como se transmite e como se impõe a opinião pública. O estereótipo, seja negativo ou positivo, é tão conciso e tão pouco ambíguo que possibilita a todas as pessoas saber quando devem falar e quando devem ficar caladas. Por isso, é indispensável para pôr em andamento os processos de conformidade social.

No seu livro «The Spiral of Silence», Elisabeth Noelle-Neumann (1984) apresenta uma teoria da opinião pública, elaborada a partir de um acto eleitoral (1972). Chama-se «hipótese da espiral do silêncio», que vou reformular nestes termos: Num debate público sobre determinado tema, as pessoas expressam abertamente e defendem com confiança os seus pontos de vista. As que recusam a perspectiva dominante (aquela que parece ter mais apoio explícito) sentem-se marginalizadas e, frequentemente, retiram-se e calam-se. Esta inibição faz com que a opinião que recebe apoio explícito pareça mais forte do que é realmente, e a outra, mais débil. Num processo em espiral, o ponto de vista mais visível e explicito acaba por dominar a cena pública e o outro desaparece da consciência pública, devido ao facto dos seus apoiantes ficarem silenciosos, por terem medo do isolamento. Aliás, na peugada dos estudos de Solomon Asch, Noelle-Neumann defende que o medo do isolamento é a força que põe em marcha a espiral do silêncio, mas é provável que outros programas filogenéticos contribuam para a produção desse efeito.

Santidade via espiritualidade mariana.


O GRANDE SEGREDO PARA SE CHEGAR A SANTIDADE


INTRODUÇÃO

O Segredo e suas condições

1 - Eis aqui, ó alma predestinada, um segredo que o Altíssimo me confiou e que não pude encontrar em nenhum livro, antigo ou novo. Pelo Espírito Santo eu o confio a ti, contanto:

— que o não comuniques senão às pessoas que o mereçam — por suas orações, esmolas, mortificações, pelas perseguições sofridas, pelo seu zelo na salvação das almas e pelo seu desprendimento;

— que te sirvas dele para te tornares santa e celeste, por isso que só será grande este segredo para os que dele se utilizarem. Toma cuidado em não ficares de braços cruzados, sem trabalho; destarte meu segredo te serviria de veneno e seria a tua condenação;

— que todos os dias de tua vida agradeças a Deus o privilégio que te concedeu ensinando-te um segredo que não mereces conhecer. À medida que dele te servires nas ações ordinárias da vida. Avaliarás então o preço e a excelência que, a princípio, por causa da multidão e da gravidade dos teus pecados, dos apegos secretos à própria pessoa, só muito imperfeitamente conhecias.

A preparação para recebê-lo

2- Antes de prosseguir, desejoso desse desejo diligente e natural de conhecer a verdade, reza devotamente, de joelhos, a Ave Maria, a Maris Stella e o Veni, Creator, pedindo a Deus a graça de compreender e saborear este mistério divino.

PAPEL DE MARIA
EM NOSSA SANTIFICAÇÃO

A NECESSIDADE DE NOS
SANTIFICARMOS POR MARIA

É da vontade de Deus a nossa santificação; é necessária, portanto...

3 - Imagem viva de Deus, resgatada pelo Sangue precioso de Jesus Cristo, a vontade divina em relação a ti, ó alma, é que te tornes santa como Deus nesta vida e gloriosa como Ele na outra.

Tua vocação, sem dúvida alguma, é a aquisição da própria santidade de Deus; para este objetivo é que devem tender todos os teus pensamentos todas as tuas palavras, ações e sofrimentos, todos os movimentos de tua vida; do contrário resistirás a Deus, deixando de fazer aquilo para que te criou e conserva atualmente.

Que obra admirável! A imundície em pureza! A criatura no Criador! O homem em Deus! Obra admirável! Eu o repito; mas de si mesma difícil e absolutamente impossível à natureza; só Deus, por uma graça, e graça abundante e extraordinária, o poderá conseguir; mesmo porque nem a criação de todo o Universo se lhe pode comparar.

Nossa santificação exige a prática da virtude.

4 - Como farás, ó alma? Quais os meios que escolherás para subir aonde Deus te chama? Os meios de salvação e de santificação, conhecidos de todos, indicados no Evangelho explicados pelos mestres da vida espiritual, e praticados pelos santos, são necessários aos que se querem salvar e atingir a perfeição: a humildade de coração, a oração contínua, o abandono à Divina Providência, a conformidade com a vontade de Deus.

Para a prática da virtude necessitamos da graça de Deus.

5 - Para que bem nos utilizemos todos esses meios de salvação e de santificação, mister se nos faz o socorro e a graça de Deus, graça que, em maior ou menos grau, é a todos concedida; ninguém o duvide. Em maior ou menor grau, digo eu, porque Deus, ainda que infinitamente bom, não concede sua graça de modo igual a todos, muito embora de a todos a graça suficiente. A alma fiel a uma grande graça, pratica uma grande ação; com uma graça menor, pratica uma ação menor. O preço e a excelência da graça, dada por Deus e correspondida pela alma, fazem o preço e a excelência de nossas ações. São incontestáveis esses princípios.

Para achar a graça de Deus é necessário encontrar Maria.

6 - Tudo enfim se reduz a encontrar-se um meio fácil de obter de Deus a graça necessária para a santificação; é o que te quero ensinar. Asseguro-te, porém que para achar a graça de Deus é necessário encontrar Maria.


PORQUE MARIA NOS É NECESSÁRIA


Porque somente Maria encontrou graça diante de Deus.

7 - 1º) Somente Maria achou graça diante de Deus, tanto para si como para cada homem em particular. Os Patriarcas e os Profetas, todos os Santos da antiga lei não puderam encontrar essa graça.

Porque somente Maria é Mãe da graça.

8 - 2º) Por isso que Maria foi quem deu o ser a vida ao Autor de toda graça, é que a chamamos Mãe da graça, Mater gratiae.

Porque somente Maria possui, depois de Jesus, a plenitude da graça.

9 - 3º) Deus pai, de quem procedem, como de sua fonte essencial, todo dom perfeito e toda graça, deu-lhe todas as suas graças; de modo que a vontade de Deus, como diz S.Bernardo, lhe é dada nele e com ele.

Porque somente Maria é a tesoureira de todas as graças de Jesus.

10 - 4º) Deus a escolheu para tesoureira, ecônoma e dispensadora de todas as suas graças; de sorte que todas as suas graças e todos os seus dons passam por suas mãos; e segundo o poder que Ela recebeu, como diz São Bernardino, Ela distribui a quem quer, como quer, quando quer e quanto quer, as graças do Pai Eterno, as virtudes de Jesus Cristo e os dons do Espírito Santo.

Porque para ter Deus por Pai, é necessário ter Maria por Mãe.

11 - 5º) Assim como, na ordem natural, uma criança tem que ter um pai e uma mãe, da mesma maneira na ordem da graça é preciso que um verdadeiro filho da Igreja tenha a Deus por pai e Maria por mãe; e si se gloria de ter a Deus por pai, não tendo por Maria a ternura de um verdadeiro filho, é um enganador que só tem por pai ao demônio.

Porque os membros de Jesus devem ser formados pela Mãe de Jesus.

12 - 6º) Desde que Maria formou o Chefe dos predestinados, que é Jesus Cristo, a Ela também compete formar os membros desse Chefe, que são os verdadeiros Cristãos; pois uma mãe não forma a cabeça sem os membros, nem os membros sem a cabeça. Quem quiser, pois, ser membro de Jesus Cristo, cheio de graça e de verdade, deve ser formado em Maria por meio da graça de Jesus Cristo, que nela reside em toda a plenitude, para ser plenamente comunicada aos verdadeiros membros de Jesus Cristo e aos seus verdadeiros filhos.

Porque é por Maria que o Espírito Santo produz os predestinados.

13 - 7º) Havendo o Espírito Santo desposado Maria, e tendo produzido nela, por ela e dela a Jesus Cristo, essa obra prima que é o Verbo encarnado; e como nunca a repudiou, continua a produzir todos os dias nela e por Ela de uma maneira misteriosa, porém verdadeira, os predestinados.

Porque é Maria que está encarregada de alimentar as almas, e de fazê-las crescer em Deus.

14 - 8º) Maria recebeu de Deus um domínio particular sobre as almas para nutri-las e as fazer crescer em Deus. Santo Agostinho diz mesmo que neste mundo os predestinados são todos encerrados no seio de Maria, e que não nascem senão quando essa boa Mãe os gera para a vida eterna. Por conseguinte, como a criança tira todo o alimento de sua mãe, que o dá proporcionado à sua fraqueza, da mesma maneira os predestinados tiram todo o alimento espiritual e toda a sua força de Maria.

Porque Maria deve habitar nos predestinados.

15 - 9º) Foi a Maria que Deus Pai disse: In Jacob inhabita: Minha filha, habita em Jacó. Foi a Maria que Deus Filho disse: In Israel Haereditare: Minha querida Mãe, tende vossa herança em Israel, quer dizer, nos predestinados. Enfim, foi a Maria que o Espírito Santo disse: In electis meis mitte radices: Lançai, minha Esposa fiel, raízes em meus eleitos. Todo aquele, pois, que é eleito e predestinado tem a Ssma. Virgem habitando em si, quer dizer, em sua alma, e aí a deixa lançar raízes de profunda humildade, de ardente caridade e de todas as virtudes.

Porque Maria é o “molde vivo” de Deus e dos Santos.

16 - Maria é chamada por Sto. Agostinho, e é, com efeito, o molde vivo de Deus, forma Dei, o que quer dizer que foi nela somente que Deus feito homem foi formado ao natural, sem que lhe falte nenhum traço da Divindade; e é também somente nela que o homem pode ser formado em Deus ao natural, tanto quanto a natureza humana é disso capaz, pela graça de Jesus Cristo.

Um escultor pode fazer uma figura ou um retrato ao natural de duas maneiras:

1º) servindo-se de seu engenho, de sua fora, de sua ciência e dos instrumentos adequados para fazer essa figura de uma matéria dura e informe;

2º) pode lançá-lo numa forma. A primeira é demorada e difícil, e sujeita a muitos acidentes: muitas vezes basta um golpe de cinzel ou de martelo mal dado para estragar toda a obra. A segunda é rápida, fácil e suave, quase sem trabalho e sem esforço, contanto que o molde seja perfeito e reproduza o original, e que a matéria de que se serve, fácil de se manipular, não resista de maneira alguma à sua mão.

Molde perfeito em si mesmo, e que nos torna perfeitos em Jesus Cristo.

17 - Maria é o grande molde de Deus, feito pelo Espírito Santo, para formar ao natural um Homem-Deus pela união hipotética, e para formar um homem Deus pela graça. Não falta a este molde nenhum traço da divindade; quem quer que nele se deixe manejar, nele recebe todos os traços de Jesus Cristo (1), verdadeiro Deus, duma maneira suave, proporcionada à fraqueza humana, sem muito trabalho e agonia; duma maneira segura, sem temor de ilusão, pois o demônio nunca teve e jamais terá acesso até Maria, santa e imaculada, sem sombra da menor mancha de pecado.

De uma maneira pura e divina.

18 - Ó! Alma querida, que diferença entre uma alma formada em Jesus Cristo pelos caminhos comuns dos que, como os escultores, se fiam na própria habilidade e se apóiam em seu engenho, e uma alma bem manejável, bem desligada, bem fundida, e a qual, sem nenhum apoio em si mesma, se lança em Maria, e aí se deixa manejar pela operação do Espírito Santo! Quantas manchas, quantos defeitos, quantas trevas, quantas ilusões, quanto da natureza, quanto de humano na primeira alma; e como a outra é pura, divina e semelhante a Jesus Cristo!

Porque Maria é o Paraíso e o mundo de Deus.

19 - Absolutamente não há nem haverá jamais criatura na qual Deus seja maior, fora de si mesmo, do que na divina Maria, sem excetuar nem mesmo os Bem-aventurados, os Querubins, os mais altos Serafins, no próprio Paraíso. Maria é o Paraíso de Deus e o seu mundo inefável, no qual o Filho de Deus entrou para nele operar maravilhas, para guardá-lo e nele se comprazer. Ele fez este mundo para o homem peregrino; fez um mundo para o homem bem-aventurado, o Paraíso; fez, porém, um outro para si, a que deu o nome de Maria; mundo desconhecido de quase todos os mortais cá na terra, e incompreensível a todos os Anjos e Bem-aventurados, lá no céu, e que admirados de ver a Deus tão elevado e tão elevado e tão recuado de todos eles, tão separado e tão oculto em seu mundo, que é a divina Maria, exclamam dia e noite: Santo, Santo, Santo!

Para no qual o Espírito Santo faz entrar nossa alma para aí encontrar a Deus.

20 - Feliz, mil vezes feliz a alma, aqui em baixo, à qual o Espírito Santo revela o segredo de Maria, para conhecê-lo; e à qual ele abre esse jardim fechado, para aí penetrar; esta fonte selada, para dela tirar e beber a grandes sorvos a água viva da graça! Esta alma achará somente Deus, sem criatura, nesta admirável criatura; porém Deus ao mesmo tempo infinitamente santo e elevado, infinitamente condescendente e proporcionado à fraqueza dela. Desde que Deus está em toda parte, pode-se achar em toda parte, mesmo no inferno; porém não há lugar algum onde a criatura o possa achar mais próximo de si e mais proporcionado à sua fraqueza do que em Maria, pois que foi para isso que ELE aí desceu. Em todas as outras partes ele é o Pão dos fortes e dos Anjos; mas em Maria, ele é o Pão das crianças.

Porque Maria, longe de ser um obstáculo, lança as almas em Deus e uni-as a Ele.

21 - Que ninguém pense, com alguns falsos iluminados, que Maria, como criatura, seja um empecilho à união com o Criador; não é mais Maria que vive, é somente Jesus Cristo, é somente Deus que vive nela. Sua transformação em Deus ultrapassa mais ainda a de São Paulo e dos outros Santos, mais do que o Céu ultrapassa a terra em elevação. Maria não é feita senão para Deus, e basta que Ela prenda uma alma a si própria, que, ao contrário logo a lança em Deus e a une a Ele com tanto maior perfeição quanto mais a alma se una a Ela: Maria é o eco de Deus, que não responde senão Deus, quando se lhe grita: Maria; que não glorifica senão a Deus, quando com Santa Isabel, a chamamos bem-aventurada.

CONCLUSÃO.

Para tornar-se santo, é preciso, pois, encontrar Maria, a Medianeira das graças, e isto por uma “verdadeira devoção à Santa Virgem”.

23 - A dificuldade está, portanto, em saber encontrar verdadeiramente a divina Maria para encontrar toda graça abundante: Deus, sendo senhor absoluto, pode comunicar por si mesmo o que ordinariamente não comunica senão por Maria, não se pode negar, sem temeridade, que não o faça algumas vezes: (1) no entanto, segundo a ordem que a divina sabedoria estabeleceu, ele não se comunica aos homens na ordem da graça senão por Maria, como diz São Tomás. É necessário, para subir e unir-se a ele usar o mesmo meio de que ele se serviu para descer a nós, para se fazer homem e nos comunicar suas graças: e esse meio é uma verdadeira devoção à Santíssima Virgem.




SEGUNDA PARTE

“A VERDADEIRA DEVOÇÃO”
A SANTÍSSIMA VIRGEM

ou

A SANTA ESCRAVIDÃO DE AMOR

A - ESCOLHA DA VERDADEIRA OU PERFEITA DEVOÇÃO

Há diversas verdadeiras devoções a Maria.

24 - Há, com efeito, diversas devoções verdadeiras à Ssma. Virgem: e não falo aqui das falsas.

1. A devoção sem prática especial

25 - A primeira consiste em cumprir os deveres de cristão, evitando o pecado mortal, agindo mais por amor que por temor, invocando de quando em vez a Santa Virgem e honrando-a como Mãe de Deus, sem, no entanto, nenhuma devoção especial para com Ela.

2. A devoção incluindo práticas particulares.

26 - A segunda consiste, em ter para com a Santa Virgem sentimentos mais perfeitos de estima, de amor, de confiança e de veneração. Leva a entrar em confrarias do santo Rosário, do Escapulário, a recitar o Terço e o santo Rosário, a honrar suas imagens e seus altares , em publicar seus louvores e alistar-se em suas congregações. E essa devoção, excluindo o pecado, é boa, santa e louvável; mas não é tão perfeita e tão capaz de desapegar as almas das criaturas e de as desprender de si própria para uni-las a Jesus Cristo.

3. A devoção perfeita: a da Santa Escravidão de amor.

27 - A terceira devoção à santa Virgem, conhecida e praticada por muito poucas pessoas, é esta que te vou revelar, alma predestinada.



B - NATUREZA E EXTENSÃO DA VERDADEIRA
DEVOÇÃO A MARIA, CHAMADA SANTA ESCRAVIDÃO DE AMOR.



Natureza desta devoção: Consagração a título de escravo de amor, e vida de união com Maria.

28 - Consiste esta em dar-se inteiramente, na qualidade de escravo, a Maria e a Jesus por Ela; depois, em fazer todas as coisas com Maria, em Maria por Maria e para Maria.

Extensão desse sacrifício: é um abandono total nas mãos de Maria.

29 - É preciso escolher um dia assinalado para se dar, consagrar e sacrificar voluntariamente e por amor, sem constrangimento, inteiramente, sem nenhuma reserva, corpo e alma; os bens exteriores de fortuna, como a casa, a família, as rendas; e os bens interiores da alma: méritos, graças, virtudes e satisfações.

É preciso notar que se sacrifica, por esta devoção, a Jesus por Maria tudo o que uma alma tem de mais caro e o de que nenhuma ordem religiosa exige o sacrifício, que é o direito que se tem de dispor de si mesmo e do valor de suas orações, esmolas, mortificações e satisfações; de sorte que tudo se deixa à inteira disposição da Ssma. Virgem, para que o aplique segundo sua vontade para a maior gloria de Deus, que só Ela conhece perfeitamente.

Maria torna-se Senhora do valor de nossas obras.

30 - Deixa-se à sua inteira disposição todo o valor satisfatório e impetratório de todas as obras: assim, após a oblação que delas se fez, embora sem nenhum voto, não se é mais senhor do bem que se faz; mas a Ssma. Virgem pode aplicá-lo a uma alma do Purgatório, para aliviá-la ou livrá-la, ou a um pobre pecador para convertê-lo.

31 - Põem-se, por esta devoção, os méritos próprios nas mãos da Santa Virgem; mas é para guardá-los, aumentá-los, embelezá-los, pois nós não nos podemos comunicar uns aos outros nem os méritos da graça santificante nem da glória. Damos-lhe, porém, todas as nossas orações e boas obras próprias, tanto satisfatórias como impetratórias, para que Ela as distribua e as aplique a quem e como lhe aprouver; e se depois de nos termos assim consagrado à santa Virgem desejarmos aliviar alguma alma do Purgatório, salvar algum pecador, sustentar algum de nossos amigos com nossas orações, nossas esmolas, nossas mortificações, nossos sacrifícios, será necessário pedir-lhe humildemente e conforma-se com o que Ela determinar, sem o sabermos; ficando bem persuadidos de que o valor das nossas ações, distribuído pela mesma mão de que Deus se serve para nos distribuir suas graças e seus dons, não pode deixar de ser aplicado para a sua maior glória.

Três espécies de escravidão a escravidão de amor é a mais perfeita consagração a Deus

32 - Disse que esta devoção consiste em dar-se a Maria na qualidade de escravo. É preciso notar que há três espécies de escravidão.

A primeira é a escravidão por natureza; os homens bons e os maus são escravos de Deus dessa maneira.

A segunda é a escravidão por sujeição; os demônios e os réprobos são escravos de Deus dessa maneira.

A terceira é a escravidão de amor, voluntária; é aquela pela qual nos devemos consagrar a Deus por Maria, a maneira MAIS PERFEITA pela qual uma criatura se pode dar ao seu Criador.

Diferença entre um simples servidor e um escravo.

33 - Notai ainda que há bastante diferença entre um servidor e um escravo: — Um servidor quer salário pelos seus serviços; o escravo o tem absolutamente. O empregado tem liberdade para deixar quando quiser o seu patrão e só o serve por um certo tempo; o escravo não tem direito de deixar o seu senhor; é dele para sempre. O servidor não dá o seu amo direito de vida e morte sobre sua pessoa; o escravo dá-se inteiramente, de sorte que seu amo poderia até matá-lo sem que fosse inquietado pela justiça.

È fácil ver, porém, que o escravo por sujeição está na mais estreita das dependências, a qual propriamente não convém senão em se tratando de um homem em relação ao seu Criador. É por isso que os Cristãos não tem tais escravos; só os tem assim os Turcos e os idólatras.

Felicidade das almas escravas de amor.

34 - Feliz e mil vezes feliz é a alma generosa que se consagra a Jesus por Maria, na qualidade de escrava de amor, depois de sacudida pelo batismo a escravidão do demônio!



C - A EXCELÊNCIA DA SANTA ESCRAVIDÃO:
PROVÉM DE FAZERMOS PASSAR TODA A NOSSA VIDA ESPIRITUAL
POR MARIA, A MEDIANEIRA



Passar por Maria É imitar as três Pessoas divinas.

35 - Muitas luzes me seriam necessárias para descrever perfeitamente a excelência desta prática. Direi somente, de passagem:

1º) Que dar-se assim a Jesus, pelas mãos de Maria, é imitar Deus Pai, o qual não nos deu seu Filho senão POR Maria, e que não nos comunica suas graças senão POR Maria; é imitar Deus Filho que não veio a nós senão POR Maria e que nos havendo dado exemplo para que fizéssemos como Ele fez, pediu-nos fossemos a Ele pelo mesmo meio PELO qual Ele veio a nós, que é Maria, é imitar o Espírito Santo, o qual não nos comunica suas graças e seus dons senão por Maria. Não é justo que a graça volte a seu autor, diz São Bernardo, pelo mesmo canal por que veio a nós?

É honrar a Jesus

36 - 2º) Ir a Jesus POR Maria, é verdadeiramente honrar a Jesus Cristo, pois é frisar que não somos dignos de nos aproximar de sua santidade infinita diretamente, por nós mesmos, devido aos nossos pecados, e que temos necessidade de Maria, sua santa Mãe, para ser nossa advogada e nossa MEDIANEIRA junto dele, que é o nosso MEDIADOR. É, ao mesmo tempo, nos aproximarmos dele como de nosso mediador e nosso irmão, e nos humilharmos diante dele como diante de nosso Deus e nosso juiz: em uma palavra, é praticar a humildade, na qual sempre se deleita o coração de Deus.

É o meio de purificar e embelezar nossas boas ações.

37 - 3º) Consagrar-se desse modo a Jesus POR Maria, é colocar nas mãos de Maria as nossas boas ações, as quais, embora pareçam boas, são freqüentemente manchadas e indignas do olhar e da aceitação de Deus, diante do qual nem as estrelas são puras Ah! Supliquemos a essa boa Mãe e Senhora, que, havendo recebido nosso pobre presente, o purifique, santifique, eleve e embeleze de tal maneira, que o torne digno de Deus. Todos os rendimentos de nossa alma são menores diante de Deus, o Pai de família, para ganhar sua amizade e sua graça, do que seria diante do rei a maçã bichada dum pobre camponês, para pagar seu campo. Que faria esse pobre homem se fosse esperto e tivesse prestígio junto da rainha? Amiga do pobre campônio e respeitosa para com o rei, não tiraria dessa maçã o que estivesse bichado e estragado, e não a colocaria uma bandeja de ouro, rodeada de flores? e o rei poderia deixar de a receber até com alegria, das mãos da Rainha, que ama o camponês? Modicum quid offere desideras? manibus Mariae tradere cura, si non vis sustinere repulsam. Se quereis oferecer alguma coisa a Deus, diz São Bernardo, colocai-[a] nas mãos de Maria, a menos que queirais ser repelido.

Pois sem Maria nossas ações valem muito pouco.

38 - Bom Deus! Como é pouco tudo o que fazemos! Coloquemo-lo, porém, nas mãos de Maria, por meio desta devoção. Como nos teremos dado inteiramente a Ela, tanto quanto se pode, despojando-nos de tudo em sua honra, Ela nos será infinitamente mais liberal, Ela nos dará “por um ovo um boi”; Ela se comunicará toda a nós com seus méritos e suas virtudes; Ela colocará nossos presentes no prato de ouro de sua caridade; Ela nos revestirá, como Rebeca fez com Jacó, das belas vestimentas de seu Filho primogênito e único Jesus Cristo, quer dizer, com os méritos que ela tem à sua disposição: e assim, como criador e escravos seus, depois de nos termos despojado de tudo para honrá-la, teremos duplas vestes: Omnes domestici ejus vestiti sunt duplicibus: vestuários, ornamentos, perfumes, méritos e virtudes de Jesus e de Maria na alma de um escravo de Jesus e de Maria despojado de si mesmo e fiel no seu despojamento.

É exercer maravilhosamente a caridade para com o próximo.

39 - 4º) Dar-se, assim, à Ssma. Virgem, é exercer ao mais alto grau que se pode a caridade para com o próximo, pois fazer-se voluntariamente seu cativo é dar-lhe o que se tem de mais caro, a fim de que ela possa dispor de tudo à sua vontade em favor dos vivos e dos mortos.

É a maneira de conservar e de aumentar a graça de Deus em nossas almas.

40 - 5º) É por esta devoção que se colocam as graças, os méritos e virtudes em segurança, fazendo Maria a depositária e dizendo-lhe: “Tomai, minha querida senhora, eis o que, pela graça de vosso caro filho, eu fiz de bem: não sou capaz de guardá-lo devido à minha fraqueza e inconstância, por causa do grande número e da malícia de meus inimigos que me atacam dia e noite. Ai de mim! Se se vêem todos os dias os cedros do Líbano caírem na lama, e águias, que se elevam até o sol, se tornarem aves noturnas; também mil justos caem à minha esquerda e dez mil à minha direita; porém minha poderosa, e muito poderosa Princesa, sustentai-me que temo cair; guardai todos os meus bens, que tenho medo de que me roubem; eu confio a Vós em deposito tudo o que possuo: Depositum custodi. — Scio cui credidi: Sei bem quem sois, eis porque me confio todo a vós; sois fiel a Deus e aos homens, e não permitireis que pereça nada do que vos foi confiado; sois poderosa, e nada pode prejudicar, nem arrebatar o que tendes nas mãos”. Ipsam sequens non devias; ipsam rogans non desperas; ipsam cogitans non erras; ipsa tenente, non corruis; ipsa protegente, non metuis; ipsa duce, non fatigaris; ipsa propitia, pervenis. (São Bernardo, Inter flores, cap. 135, De Maria Virgine, pa. 2150). E noutro: Detinet Filium ne percutiat; detinet diabolum ne noceat; detinet virtutes ne fugiant; detinet merita ne pereant; detinet gratias ne effluant. São as palavras de São Bernardo, as quais exprimem em substância tudo o que acabo de dizer. Quando não houvesse senão esse motivo para excitar-me a esta devoção, como sendo o meio seguro de me conservar e progredir mesmo, na graça de Deus, eu deveria arder de entusiasmo por ela.

É a verdadeira libertação da nossa alma.

41 - 6º) Esta devoção torna a alma verdadeiramente livre, daquela liberdade dos filhos de Deus. Como, por amor de Maria, voluntariamente nos reduzimos à escravidão, esta querida Senhora, em reconhecimento, alarga e dilata-nos o coração, e faz-nos caminhar a passo de gigante no caminho dos mandamentos de Deus. Ela remove o tédio, a tristeza e o escrúpulo. Foi esta devoção que Nosso Senhor ensinou à Madre Inês de Langeac, falecida em odor de santidade, como meio seguro para sair das grandes penas e perplexidades em que se achava. “Faz-te, disse-lhe Ele, escrava de minha Mãe e acorrenta-te”, o que ela fez; e, no mesmo instante, todas as suas penas cessaram!

É seguir o conselho da Igreja e o exemplo dos santos.

42 - Para dar autoridade a esta devoção, seria necessário citar aqui todas as bulas e as indulgências dos Papas e os mandamentos dos Bispos a seu favor, as confrarias estabelecidas em sua honra, o exemplo de diversos santos e grandes personagens que a praticam; todavia passo tudo em silêncio.



D - PRÁTICAS INTERIORES DA SANTA ESCRAVIDÃO
SEU ESPÍRITO E SEUS FRUTOS



1. Sua formula “única” de atividade espiritual e seu espírito.

Sua fórmula.

43 - Disse eu, a seguir, que esta devoção consiste em praticar todas as ações com Maria, em Maria, por Maria e para Maria.

Seu espírito de dependência interior de Jesus e Maria. Adquirir esse espírito e perseverar nele.

44 - Não basta nos havermos dado uma vez a Maria, na qualidade de escravo; não basta mesmo fazê-lo todos os meses, todas as semanas: seria uma devoção demasiado passageira e não elevaria a alma à perfeição a que é capaz de se elevar. Não há muita dificuldade em inscrever-se numa confraria, adotar esta devoção e dizer algumas orações vocais todos os dias, como se prescreve; grande dificuldade é entrar no espírito desta devoção, que é de tornar uma alma inteiramente dependente escrava da Ssma. Virgem e de Jesus por Ela. Encontrei muitas pessoas que com ardor admirável se puseram sob sua santa escravidão, porém exteriormente; raros encontrei que tivessem o espírito e ainda menos, que houvessem perseverado.

2. As quatro diretivas de sua família.

- Agir “COM” Maria.

45 - A pratica essencial desta devoção em fazer todas suas ações com Maria, quer dizer tomar a Santa Virgem como modelo perfeito de tudo o que se deva fazer.

- Condições prévias: enuncia e união de intenção que entregam a alma à ação de Maria.

46 - Por isso que antes de empreender qualquer coisa é necessário renunciar a si próprio e à sua maneira de ver, é necessário aniquilar-se diante de Deus, como incapaz por si de qualquer bem sobrenatural e de qualquer ação útil para a salvação; é necessário recorrer à Ssma. Virgem, e unir-se a Ela e às suas intenções, embora desconhecidas; é necessário unir-se por Maria às intenções de Jesus Cristo, ou seja, colocar-se como um instrumento nas mãos da Ssma. Virgem, a fim de que seja ela quem aja em nós, de nós, e para nós, como bem lhe parecer, para maior glória de seu filho, e, por seu Filho Jesus, para maior glória do Pai: de modo que não se pratique vida interior e operação espiritual senão na dependência dela.

- Agir em Maria

47 - 2º) É necessário fazer todas as coisas em Maria, isto é, acostumar-se pouco a pouco a recolher-se no interior de si mesmo, para formar uma pequena idéia ou imagem espiritual da SSma. Virgem. Ela será para a alma o Oratório, onde se farão todas as suas orações a Deus, sem temor de ser repelida; a Torre de Davi, para ai se por, em segurança, contra todos os seus inimigos; a Lâmpada acesa para alumiar todo o interior e arder de amor divino; o Ostensório sagrado para ver a Deus com Ela; e, enfim, seu ÚNICO TUDO junto de Deus e seu refúgio universal. Se a alma reza, será em Maria; se recebe a Jesus, pela Santa Comunhão, ela o colocará em Maria para ai se comprazer; se age, será em Maria; e por toda parte e em tudo fará atos de renuncia de si mesma.

- Agir por Maria.

48 - 3º) É preciso não ir nunca a Nosso Senhor senão (por Maria), por sua intercessão e seu crédito junto dele, jamais o encontrando sozinho para dirigir-lhe nossas súplicas.

- Agir PARA Maria.

49 - É necessário praticar todas as suas ações para Maria, quer dizer que, sendo escravo desta augusta Princesa, e preciso que se não trabalhe mais senão para Ela, para seu proveito e sua glória, como fim próximo, e para a glória de Deus, como fim último. Deve-se, em tudo o que se faz, renunciar ao amor próprio que, quase sempre, imperceptivelmente se toma por fim, e repetir freqüentemente do fundo do coração: Ó minha querida Senhora, é para vós que vou aqui ou ali, que faço isto ou aquilo, que sofro esta dor ou esta injúria!

3. Três advertências importantes relativas ao espírito da Santa Escravidão.

Não crer que é mais perfeito ir a Jesus diretamente sem passar por Maria

50 - Toma cuidado, alma predestinada, de crer que seja mais perfeito ir diretamente a Jesus, diretamente a Deus em tua operação e intenção; se aí queres ir sem Maria, tua operação, tua intenção será de pouco valor; porém, indo por Maria, é a operação de Maria em ti, e em conseqüência será muito valorizada e digna de Deus.

Não se fazer violência para “sentir e provar” O “Amem” da alma.

51 - E mais, evita fazeres violência para sentir e saborear o que dizes e fazes: diz e faz tudo naquela pura fé que Maria teve na terra, e que Ela te comunicará com o andar do tempo; deixa à tua Soberana, pobre e pequena escrava a vista clara de Deus, os transportes, as alegrias, os prazeres, as riquezas e não tome para ti senão a fé pura, cheia de tédios, de distrações, de aborrecimentos, de aridez; diz: “Amem, assim seja, ao que Maria, minha Senhora, faz no Céu. É o que de melhor faço eu por enquanto.”

Não se inquietar se não se goza ainda da presença de Maria.

52 - Toma bastante cuidado também de não te atormentar por não fruíres da doce presença da Santa Virgem em teu interior. Esta graça não é concedida a todos, e quando Deus, por grande misericórdia, favorece com ela a alguma alma, é-lhe fácil perdê-la, se não for fiel em recolher-se freqüentemente; e se esta desgraça te acontecer, volta docemente e pede perdão à tua Soberana.

4. Frutos maravilhosos desta prática interior da Santa Escravidão.

É ainda, sobretudo, a experiência que os ensinará.

53 - A experiência ensinar-te-á infinitamente mais do que te digo, e acharás, se fores fiel ao pouco que te disse, tanta riqueza e tantas graças neste exercício, que ficarás surpreendido e tua alma toda cheia de alegria.

É necessário, pois, trabalhar por uma prática fiel, a fim de ter em si a alma e o espírito de Maria.

54 - Trabalharemos, pois, alma querida, e façamos de tal maneira que, por esta devoção fielmente praticada, a alma de Maria esteja em nós para se rejubilar em Deus seu Salvador. Aí estão as palavras de Santo Ambrósio: “Sit in singulis anima Mariae ut Magnificet Dominum, sit in singulis spiritus Mariae ut exultet in Deo” E não acreditemos que houve mais glória em habitar no seio de Abraão, que é chamado o Paraíso, do que no seio de Maria, pois em Deus ai pôs o seu trono. São palavras do sábio abade Guerric: “Ne credideris majoris esse felicitais habitare in sinu Abrahae, qui vocatur Paradisus, quam in sinu Mariae in quo Dominus possuit thronum suum”.

A Santa Escravidão estabelece sobre tudo a vida de Maria em nossa Alma.

55 - Esta devoção, fielmente praticada, produz uma infinidade de efeitos na alma. Porém o principal — (verdadeiro) dom que as almas possuem, é o de estabelecer aqui na terra a vida de Maria em uma alma, de maneira que não é mais a alma que vive, porém Maria nela: ou a alma de Maria torna-se a sua alma, por assim dizer. Ora, quando por uma graça inefável, porém verdadeira, a divina Maria é Rainha de uma alma, que maravilha não fará Ela aí? Como obreira das grandes maravilhas, particularmente no interior, Ela aí trabalha em segredo, sem conhecimento da própria alma que, se disso tivesse ciência, destruiria a beleza de suas obras.

Maria faz viver incessantemente nossa alma em Jesus, e Jesus em nossa alma.

56 - Como em toda parte é Ela a Virgem fecunda, Ela leva a todo interior, onde está a pureza de coração e de corpo, a pureza em suas intenções e seus desígnios, a fecundidade em boas obras. Não creias, querida alma, que Maria, a mais fecunda de todas as criaturas, e que foi até ao ponde de produzir um Deus, permaneça ociosa em uma alma fiel. Ela a fará viver sem cessar para Jesus Cristo, e Jesus Cristo nela. Filioli mei, quos iterum parturio done formetur Christus in vobis (Gl 4, 19); e se Jesus Cristo é igualmente o fruto de Maria em cada alma em particular como para todos em geral, é particularmente na alma em que Ela está que Jesus Cristo é seu fruto e sua obra prima.

Maria torna-se tudo para nossa alma junto de Jesus.

57 - Enfim, Maria torna-se tudo para essa alma junto de Jesus Cristo: Ela ilumina seu espírito pela fé pura, Ela aprofunda seu coração pela humildade, Ela o dilata e abrasa pela caridade, Ela o purifica por sua pureza, e o enobrece e o engrandece por sua maternidade. Porém em que me detenho? Só a experiência ensina essas maravilhas de Maria, que são incríveis para as pessoas sábias e orgulhosas, e mesmo para o comum dos devotos e devotas.

5. Papel da Santa Escravidão no fim dos tempos.

É por Maria que o Reino de Jesus chegará ao fim dos tempos.

58 - Como foi POR Maria que Deus veio ao mundo pela primeira vez, na humilhação e no aniquilamento, não se poderia também dizer que é POR Maria que Deus virá uma segunda vez, como toda a Igreja espera, para reinar em toda parte e para julgar os vivos e os mortos? Saber como isso se fará, e quando se fará, quem o sabe? Mas sei bem que Deus, cujos pensamentos estão mais afastados dos nossos do que o céu está da terra, virá em um tempo e da maneira mais inesperada pelos homens, mesmo dos mais sábios e dos mais entendidos na Sagrada Escritura, que é, aliás, bastante obscura a este respeito.

É pela Santa Escravidão, praticada pelos seus grandes santos, que Maria trará o Reino definitivo de Jesus.

59 - Deve-se ainda crer que para o fim dos tempos, e talvez mais cedo do que se pensa, Deus suscitará grandes cheios do Espírito Santo, e do espírito de Maria, pelos quais esta divina Soberana fará grandes maravilhas no mundo, para destruir o pecado e estabelecer o reino de Jesus Cristo, seu Filho, sobre o mundo corrompido; e é por meio desta devoção à Ssma. Virgem, que não faço senão esboçar e diminuir por minha fraqueza, que essas santas personagens conseguirão tudo.


E - PRÁTICAS EXTERIORES DA SANTA ESCRAVIDÃO

Sua importância

60 - Além da prática interior desta devoção, de que acabamos de falar, existem as exteriores que não se devem omitir nem descuidar.

A consagração e sua renovação

61 - A primeira é a de se dar a Jesus Cristo em qualquer dia memorável pelas mãos de Maria, da qual no tornamos escravos, e de nessa intenção comungar, nesse dia, passando-o em oração: consagração que se renovará pelo menos todos os anos, no mesmo dia.

Oferecimento de um tributo à Santa Virgem

62 - A segunda prática é a de oferecer todos os anos, no mesmo dia, um pequeno tributo à Santa Virgem, em sinal de sujeição e dependência; sempre foi essa a homenagem dos escravos aos seus senhores. Ora, esse tributo é, ou alguma mortificação, alguma esmola, alguma peregrinação, ou algumas orações. O bem-aventurado Marin, segundo o testemunho de seu irmão, São Pedro Damião, se disciplinava publicamente todos os anos, no mesmo dia, diante de um altar da Santa Virgem. Não se pede nem se aconselha tal fervor; mas se não se dá muito a Maria, deve-se ao menos oferecer o que se apresenta com coração humilde e reconhecido.

A celebração especial da festa da Anunciação

63 - A terceira é de celebrar todos os anos, com uma devoção particular, a festa da Anunciação, que é a festa principal desta devoção, a qual foi estabelecida para honrar e imitar a dependência em que o Verbo eterno se colocou nesse dia, por nosso amor.

A recitação da “Pequena Coroa” e do “Magnificat”

64 - A quarta prática exterior é de rezar todos os dias, sem obrigação de pecado se se deixar, a Pequena Coroa da Santa Virgem, composta de três Padre-Nossos e de doze Ave-Marias; e recitar freqüentemente o Magnificat, que é o único cântico que temos de Maria, para agradecer a Deus os seus favores e atrair novos; sobretudo não se deve deixar de rezar depois da Santa Comunhão, como o sábio Gerson: crê que a mesma Santa Virgem fazia após a comunhão.

O uso da correntinha

65 - A quinta consiste em usar uma pequena corrente benta no pescoço, ou no braço, ou no pé ou atravessada no corpo. Esta prática pode omitir completamente, sem interessar fundamentalmente a esta devoção; seria, contudo, pernicioso desprezá-la e condená-la, e perigoso negligenciá-la.

Eis as razões para usar este sinal exterior:

1º) para garantir-se das funestas cadeias do pecado original e atual, pelas quais fomos amargurados;

2º) para honrar as cordas e laços amorosos com os quais Nosso Senhor quis ser amarrado, para nos tornar verdadeiramente livres;

3º) como esses são laços de caridade, traham eos in vinculis caritais, lembram-nos que não devemos agir senão movidos dessa virtude;

4º) enfim, recordam nossa dependência de Jesus e de Maria, na qualidade de escravos; daí o costume de usar tais correntes.

Vários personagens eminentes, que se fizeram escravos de Jesus e de Maria, estimavam tanto essas correntes que se queixavam de lhes não ser permitido arrastá-las nos pés publicamente, como os escravos dos Turcos.

Ó cadeias, mais preciosos e mais gloriosas do que os colares de ouro e de pedras preciosas de todos os imperadores, pois nos ligam a Jesus Cristo e à sua Santa Mãe, e representam para nós suas gloriosas marcas e librés!

É preciso notar que é conveniente que as correntes, se não forem de prata, sejam ao menos de ferro, por causa da comodidade.

Não se deve deixá-las nunca durante a vida, a fim de que elas nos possam acompanhar até o dia do julgamento. Que alegria, que glória, que triunfo para um fiel escravo, no dia do julgamento, que seus ossos, ao som da trombeta, se levantem da terra ligados ainda pela corrente da escravidão que, aparentemente, não estará apodrecida! Fortemente animado de tal pensamento, não deve deixá-la um devoto escravo, em tempo algum, por mais incômoda que seja para a natureza.



ORAÇÃO A JESUS

66 - Meu amável Jesus, permiti que me dirija a vós para testemunhar o meu reconhecimento pela graça que me concedestes, dando-me a vossa santa Mãe pela devoção da escravidão, para ser minha advogada junto de vossa Majestade, e meu suplemento universal em minha grandíssima miséria. Ai de mim! Senhor, sou tão miserável, que sem esta boa Mãe estaria irremediavelmente perdido. Sim. Maria me é necessário junto de vós, em toda parte: necessária para vos aplacar em vossa justa cólera, pois vos tenho ofendido todos os dias; necessária, para sustar os castigos eternos de vossa justiça, que mereço; necessária para contemplar-vos, falar-vos, rogar-vos, aproximar-me de vós e vos agradar; necessária para salvar minha alma e a dos outros; necessária, em uma palavra, para fazer sempre a vossa vontade e procurar em tudo a vossa maior glória.

Ah! quem me dera publicar por todo o universo esta misericórdia que tivestes para comigo! E que todo o mundo soubesse que sem Maria já estaria condenado! Pudesse eu render-vos dignas ações de graças por tão grande benefício! Maria está em mim, haec facta est mihi, Oh! Que tesouro! Que consolo! E eu não seria, depois disso, todo dela? Que ingratidão, meu Salvador amado! Enviai-me a morte antes que me aconteça tal desgraça: pois prefiro morrer que viver sem ser todo de Maria.

Mil e mil vezes tomei-a, com S.João Evangelista ao pé da cruz, por todo o meu bem! e outras tantas vezes dei-me a Ela; mas se até agora não o fiz bem, conforme desejos, ó Jesus amado, faço-o agora como quereis que o faça, e se vedes em minha alma e em meu corpo algo que não pertença a essa augusta Princesa eu vos rogo que o arranqueis e o jogueis para longe de mim, pois que o que não é de Maria não é digno de vós.



INVOCAÇÃO FINAL AO ESPÍRITO SANTO

67 - Ó Espírito Santo! concedei-me todas essas graças e plantai, regai e cultivai em minha alma a amável Maria, que a Árvore da vida verdadeira, a fim de que cresça, floresça e suscite frutos de vida com abundância. Ó Espírito Santo! dai-me uma grande devoção e uma grande inclinação para com vossa divina Esposa, um grande apoio sobre seu seio maternal e recurso contínuo à sua misericórdia, a fim de que nela formeis em mim a Jesus Cristo, grande e poderoso, até à plenitude de sua idade perfeita. Assim seja.



ORAÇÃO A MARIA SANTÍSSIMA

Eu vos saúdo, ó Maria, Filha bem amada do Pai Eterno; eu vos saúdo, ó Maria, Mãe admirável do Filho; eu vos saúdo, o Maria, Esposa fidelíssima do Espírito Santo; eu vos saúdo, ó Maria, minha Mãe querida, minha amável Senhora e minha poderosa Soberana; eu vos saúdo, minha alegria, minha glória, meu coração e minha alma! Vos sois inteiramente minha por misericórdia e eu sou todo vosso por justiça; e ainda não o sou suficientemente; eu me dou inteiramente a vós; novamente, na qualidade de escravo eterno, sem nada reservar para mim nem para outrem.

Se vedes ainda em mim alguma coisa que vos não pertença, eu vos suplico que o tomeis neste momento, e vos torneis a Senhora absoluta de minhas forças; destruí, desenraizai e aniquilai tudo o que desagrade a Deus; e implantai, incrementai e operai tudo o que vos agrade.

Que a luz de vossa fé dissipe as trevas de meu espírito; que vossa humildade profunda tome o lugar do meu orgulho; que vossa contemplação sublime detenha as distrações de minha imaginação errante; que vossa vista continua de Deus encha de sua presença minha memória; que o incêndio da caridade de vosso Coração dilate e abrase a tibieza e a frieza do meu, que vossas virtudes tomem o lugar de meus pecados; que vossos méritos sejam meu ornamento e meu suplemento diante de Deus. Enfim, ó minha Mãe bem amada, fazei, se for possível, que eu não tenha outro espírito senão o vosso para conhecer a Jesus Cristo e sua divina vontade; que eu não tenha outra alma senão a vossa para louvar e glorificar o Senhor; que eu não tenha outro coração senão o vosso para amar a Deus com um amor puro e ardente como o vosso.

Não vos peço visão, nem revelações, nem gostos, nem prazeres mesmo espirituais. Vós é que vedes claramente sem trevas; provais claramente, sem amargor; triunfais gloriosamente à direita de vosso Filho no céu, sem nenhuma humilhação; ordenais de uma maneira absoluta aos Anjos, aos homens e aos demônios, sem que se vos possa resistir, dispondo, enfim, segundo a vossa vontade, de todos os bens de Deus, sem reserva alguma.

Eis o divinal Maria, a melhor parte que o Senhor vos deu e que nunca vos será tirada; com o que sobremaneira me alegro. De minha parte, cá em baixo, não quero absolutamente outra alegria que a que tivestes; a de crer simplesmente, sem nada sentir nem ver; a de sofrer alegria, sem consolo das criaturas; a de morrer continuamente a mim mesmo, sem alívio algum, trabalhar denotadamente até a minha morte, para vós, sem nenhum interesse, como ao mais vil de vossos escravos. O único favor que vos peço, por pura misericórdia, é que todos os dias e momentos da minha vida, eu diga três vezes Amém: Assim seja, a tudo o que fizestes na terra, quando aqui viveis; Assim seja, a tudo o que fazeis presentemente no céu; Assim seja, a tudo o que fazeis em minha alma, a fim de que não haja senão vós a glorificar plenamente a Jesus em mim no tempo e na eternidade. Assim seja.



A CULTURA E O CRESCIMENTO
DA ÁRVORE DA VIDA

ou

A MANEIRA DE FAZER VIVER
E REINAR MARIA EM NOSSAS ALMAS.

Depois de nos haver revelado o segredo da Santidade, que consiste em dar-se todo inteiro na qualidade de escravo a Maria e a Jesus por ela; e em fazer todas as coisas com Maria, em Maria e para Maria, São Luiz Maria quer munir de um Código de vida prática a alma de boa vontade que Deus atrai pelo caminho da santa escravidão. Este caminho é sublime: é a vida dos mais perfeitos acessível aos humildes. Como viver, porém, praticamente uma vida assim? Que fazer? Que conduta seguir? É a estas perguntas formuladas por muitas almas que aqui responde São Luiz Maria de Montfort, comparando a santa escravidão à árvore da vida plantada pelo Espírito Santo em nossa alma:

1 - A Santa Escravidão de amor é a verdadeira Árvore da vida.

70 - Compreendeste, alma predestinada, pela operação do Espírito Santo, o que acabo de dizer? Agradece-o a Deus! É um segredo desconhecido de quase todos. Se achaste o tesouro escondido no campo de Maria, a pérola preciosa do Evangelho, é preciso vender tudo para adquiri-la; é necessário o sacrifício de ti mesmo nas mãos de Maria, e que alegremente te percas nela para aí encontrar somente Deus.

Se o Espírito Santo plantou em tua alma a verdadeira Árvore da vida, que é a devoção que acabo de explicar, é preciso que a cultives com o máximo cuidado, a fim de que frutifique no devido tempo. Esta devoção é o grão de mostarda de que fala o Evangelho, o qual, sendo, ao que parece, o menor de todos os grãos, torna-se todavia bem grande e se eleva tão alto que as aves do céu, quer dizer os predestinados, aí fazem o seu ninho e repousam à sombra durante o calor do sol e aí se escondem, em segurança, dos animais ferozes.

2 - A maneira de cultivá-la.

Eis, alma predestinada, a maneira de cultivá-la:

Nenhum apoio humano

71 - 1º) Sendo esta árvore plantada em um coração bem fiel, quer estar em pleno vento, sem nenhum apoio humano; sendo divina, quer estar sempre sem nenhuma criatura, a qual poderia impedi-la de elevar-se para seu princípio que é Deus. Assim, não se deixe absolutamente apoiar-se em sua indústria ou em seus talentos puramente naturais, ou no crédito ou na autoridade dos homens: é necessário recorrer a Maria e apoiar-se em seu socorro.

Olhar contínuo da alma.

72 - 2º) É preciso que a alma, na qual esta árvore está plantada, esteja incessantemente ocupada como um bom jardineiro, a cuidá-la e a repará-la. Pois esta árvore, sendo viva e devendo produzir um fruto de vida, quer ser cultivada e aumentada por um contínuo olhar e contemplação da alma, e conseqüentemente uma alma perfeita há de nela pensar continuamente, dela fazer sua principal ocupação.

Violência a si próprio.

73 - 3º) É preciso arrancar e cortar os cardos e os espinhos que com o tempo poderiam sufocar esta árvore, ou impedi-la de produzir fruto; quer dizer, ser fiel em cortar e podar, pela mortificação e violência a si próprio, todos os PRAZERES INÚTEIS e as vãs ocupações com as criaturas; ou por outra, crucificar a carne, guardar o silêncio, mortificar os sentidos.

Nada de amor próprio.

74 - 4º) É necessário velar para que as lagartas não a prejudiquem em nada. Essas lagartas são o amor de si mesmo e das comodidades, as quais comem as folhas verdes e as belas esperanças que a Árvore tinha do fruto: pois o amor de si mesmo e o amor de Maria não se toleram absolutamente.

Horror ao pecado.

75 - 5º) Não se deve deixar que as feras se aproximem dela. Essas feras são os pecados, que poderiam matar a Árvore da vida pelo simples contato; nem mesmo seu hálito deve atingi-la, quer dizer os pecados veniais, que são sempre muito perigosos se não se faz caso deles.

Fidelidade aos exercícios

76 - É necessário regar continuamente essa árvore divina com a comunhão, a missa e outras orações públicas e particulares; sem o que essa árvore deixaria de frutificar.

Paz nas provações.

77 - 6º) Não nos devemos preocupar se for sacudida pelo vento, pois é necessário que a combata o vento das tentações para fazê-la tombar, que as neves e as geadas a rodeiem para perdê-la; quer dizer que esta devoção à Santa Virgem será necessariamente atacada e contradita; porém desde que se persevere em cultivá-la, não há nada a temer.

3 - O fruto da Árvore da vida é o amável e adorável Jesus.

78 - Alma predestinada, se tu cultivas assim a tua Árvore da vida, plantada de novo pelo Espírito Santo em tua alma, eu te asseguro que em pouco tempo crescerá tão alto que as aves do céu ai habitarão, e tornar-se-á tão perfeita que afinal dará seu fruto de honra e de graça a seu tempo, quer dizer o amável e adorável Jesus que sempre foi e que será sempre o único fruto de Maria.

Feliz uma alma na qual Maria, a Árvore da vida, é plantada; mais feliz aquela na qual ela cresceu e floresceu; felicíssima aquela em que Ela dá seu fruto; porém a mais feliz de todas é aquela que aprecia e conserva seu fruto até a morte e nos séculos dos séculos. Assim seja.



CONSAGRAÇÃO DE SI MESMO
À JESUS CRISTO, A SABEDORIA INCARNADA,
PELAS MÃOS DE MARIA



São Luiz de Montfort pede, aos que querem fazer esta consagração, que se preparem por trinta dias de exercícios espirituais (compatíveis de resto com as ocupações da vida quotidiana).

“Após haver, diz ele, empregado doze dias pelo menos a esvaziar-se do espírito do mundo, contrário ao de Jesus Cristo, empregarão três semanas em encher-se de Jesus Cristo pela Ssma. Virgem; a primeira, em pedir o conhecimento de si mesmos; a segunda, em conhecer Jesus Cristo.”

“No dia convencionado, e após a comunhão, recitarão a fórmula de consagração, assinando-a no mesmo dia.”

“Será bom que paguem algum tributo a Jesus Cristo e a sua Santa Mãe. Recomenda-se insistentemente que se inscrevam no registro da Arqui-confraria de Maria, Rainha dos corações, instituída especialmente para reunir os escravos de Jesus e de Maria.”

“Uma vez feita esta consagração, é preciso vivê-la e renová-la freqüentemente.”

“Nunca, aliás, se fará da mesma maneira. As palavras, sem dúvida, permanecerão as mesmas, porém o sentido será tanto mais profundo, e seu alcance tanto maior quanto mais a alma se tenha exercitado nesta sublime espiritualidade por uma dependência mais efetiva a todas as vontades de Jesus e de Maria.”

“Esta oblação é, com efeito, algo que deve estar vivo e a se desenvolver constantemente.”



CONSAGRAÇÃO

Oração à divina Sabedoria.

Ó Sabedoria eterna e encarnada! Ó amabilíssimo e adorável Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Filho único do PAI ETERNO e de MARIA, sempre VIRGEM!

Adoro-Vos profundamente no seio e nos esplendores de Vosso Pai, durante a eternidade, e no seio virginal de Maria, Vossa digníssima MÃE, no tempo de Vossa encarnação.

Dou-Vos graças, porque Vos aniquilastes, tomando a forma de escravo para me tirar da cruel escravidão do demônio; eu Vos louvo e glorifico porque Vos quisestes submeter a MARIA, Vossa santa Mãe, em todas as coisas, a fim de me tornar, por Ela, Vosso fiel escravo.

Mas, ao de mim! Ingrato e infiel que sou, não guardei os votos e as promessas que Vos fiz solenemente em meu Batismo: absolutamente não cumpri as minhas obrigações; não mereço se chamado Vosso filho nem Vosso escravo, e, como não há nada em mim que não mereça Vossa repulsa e Vossa cólera, não ouso mais por mim mesmo aproximar-me de Vossa santa e augusta MAJESTADE.

Por isso é que recorro à intercessão e à misericórdia de Vossa Ssma. Mãe, que me destes por MEDIANEIRA junto de vós, e é por seu intermédio que espero obter de Vós a contrição e o perdão de meus pecados, a aquisição e a conservação da Sabedoria.

Oração a Maria Santíssima

Eu vos saúdo, pois ó MARIA Imaculada, tabernáculo vivo da divindade, onde a SABEDORIA eterna escondida quer ser adorada pelos anjos e pelos homens; Eu vos saúdo, ó Rainha do Céu e da terra, a cujo império TUDO está sujeito: tudo o que está abaixo de Deus; Eu vos saúdo, ó Refugio seguro dos pecadores, cuja misericórdia não faltou a ninguém; Satisfazei os desejos que tenho da DIVINA SABEDORIA e recebei para tal os desejos e os oferecimentos que minha baixeza vos apresenta.

Consagração propriamente dita, dirigida a Maria Santíssima:

Eu, N........, fiel pecador, renovo e ratifico hoje, em vossas mãos, os votos do meu batismo: renuncio para sempre a Satanás, suas pompas e suas obras, e dou-me inteiramente a JESUS CRISTO, Sabedoria encarnada, para carregar a minha cruz, seguindo-o todos os dias de minha vida, a fim de que lhe seja mais fiel do que tenho sido até aqui.

Eu vos escolho hoje, em presença de toda a corte celeste, para minha MÃE e SENHORA. Eu vos entrego e consagro, na qualidade de ESCRAVO, meu corpo e minha alma, meus bens interiores e exteriores, e o próprio valor de minhas boas ações passadas, presentes e futuras, deixando-vos INTEIRO E PLENO DIREITO de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem exceção, conforme a vossa vontade, para maior glória de Deus, no tempo e na eternidade.



Oração final a Maria Santíssima:

Recebei, ó Virgem benigna, esta pequena oferta de minha ESCRAVIDÃO, em honra e em união com a submissão que a Sabedoria eterna quis ter a vossa maternidade: em homenagem ao poder que tendes ambos sobre este vermezinho e miserável pecador, e em ações de graças pelos privilégios com que a Ssma. Trindade vos favoreceu.

PROTESTO que quero de hoje em diante, como vosso verdadeiro escravo, procurar vossa honra e obedecer-vos em todas as coisas.

Ó MÃE ADMIRÁVEL! Apresentai-me a vosso querido FILHO, na qualidade de ESCRAVO eterno, a fim de que, havendo-me resgatado por vós, Ele me receba por vós.

Ó MÃE DE MISERICÓRDIA! Fazei-me a graça de obter a Verdadeira Sabedoria de Deus, e de me colocar, por isso, no número dos que vós amais. Ensinais e conduzis, dos que alimentais e protegeis como vossos FILHOS e vossos ESCRAVOS.

Ó VIRGEM FIEL! Tornai-me em todas as coisas um tão perfeito discípulo, imitador e escravo da Sabedoria encarnada, JESUS CRISTO vosso Filho, que eu chegue , por vossa intercessão, a vosso exemplo, à plenitude de sua idade sobre a terra, e de sua glória nos céus. Assim seja.
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