sexta-feira, 9 de outubro de 2009

SÃO PAULO DA CRUZ: VIDA E ESPIRITUALIDADE (cortesia dos padres passionistas).


Martin Bialas, CP


SÃO PAULO DA CRUZ

Vida e Espiritualidade

(Bosquejo)




1991
Titulo original
IM ZEICHEN DES KREUZES

(C) 1974, Johannes-Verlag Leutesdorf am Rhein.


Tradução:
P. Pedro Becker, ÇP.

Revisão:
Prof. R. F. Mansur Guérios.


COM APROVAÇÃO ECLESIÁSTICA



ÍNDICE

Prefácio a 1ª edição alemã
Albores
A voz do Senhor
Eremita e Fundador
Sacerdote
Os primeiros passionistas
O primeiro convento
Aprovação da Regra Novas fundações
Superior Geral e missionário
O sofrimento, segredo da glória
O Santo - Difusão da Congregação
São Paulo da Cruz, apóstolo de Jesus Crucificado
O homem em face ao sofrimento
Nota preliminar
A Paixão de Cristo, manifestação do amor de Deus
A Paixão de Cristo e o pecado
A Paixão de Cristo e o sofrimento
A Meditação da Paixão de Cristo, meio de santificação
Perenidade da obra de São Paulo da Cruz
Trechos seletos dos escritos de São Paulo da Cruz



Notas
Bibliografia

PREFACIO À 1ª EDIÇÃO, ALEMÃ


Esta publicação tem por fim lembrar um Santo que fez da Paixão de Cristo o centro de sua vida, fundando o Instituto cujos mem­bros fazem voto de pregar a Jesus Crucificado.
É São Paulo da Cruz, grande místico.
Ha mais de 50 anos que esta presente na Alemanha através dos ministérios apostólicos dos Padres Passionistas.
Entretanto, pouco é conhecido entre nós; talvez muitos o conheçam só de nome, con­fundindo-o mesmo com São João da Cruz. A causa, por certo, é a falta de sua divulgação.
A matéria esta dividida em três partes.
Na primeira vai o perfil do Santo. Na segunda tenta-se desenvolver o seu pensamento mestre. Por último vão alguns extratos do seu diário e das suas cartas.
Agradeço ao meu Provincial que deu oportunidade de me dedicar a este trabalho. os agradecimentos também a meus correligio­sos e ao Pe. Klemens Hoyuck, CP, pelos ma­nuscritos fornecidos e pela revisão.
Esperamos que ele preencha esta lacuna e faça cintilar essa preciosa pedra no mosaico policromado da renovação religiosa e cristã.

Pe. Martin Bialas, CP


ALBORES

Ao norte da Itália, entre Milão, Turim e Gênova, situa-se Ovada.
Foi nessa pequena cidade que, aos 3 de janeiro de 1694, nasceu Paulo cia Cruz, batiza­do com o nome de Paulo Francisco.
Seu pai, Lucas Danei, descendente de no­bre família de Alexandria, agora decaída de Seu antigo lustre, dedicava-se às lides do comércio. Foi obrigado, por diversas vezes, a mudar de residência, dificultando por isso a instrução dos filhos.
De Paulo sabemos que estudou algum tempo sob a direção dos Padres Carmelitas, em Cremolino, e, mais tarde, noutra escola em Gênova. Não podia dedicar às letras o tempo integral, porquanto, sendo o filho de mais idade, cumpria-lhe ajudar o pai no bal­cão de vendas.
A mãe, Ana Maria Massari, era de uma piedade consciente e sincera. Teve 16 filhos. O primeiro, uma menina que faleceu após três dias de nascida. Paulo foi o segundo.
A figura dessa mãe era bem talhada para a formação moral e religiosa da prole. As multas referências que dela fez o nosso Santo são vazadas em sentimentos de respeito e gratidão. Dos 16 filhos, 11 morreram na infância.
Bem se pode avaliar o místico perfil dessa progenitora tantas vezes martirizada pela dor, mas confortada pela resignação, dissipando o luto da morte aos clarões da esperança. A fé inabalável em Deus e o total abandono aos misteriosos desígnios da Providência foi o segredo que a levou a cumprir, animosa, as tarefas de esposa e de mãe.
Essa religiosa atmosfera do lar foi, para Paulo, o fundamento em que assentaria toda a espiritualidade de sua vida.
Revelava, já na infância, os frutos benéficos dessa formação. Freqüentes vezes a mãe lia aos filhinhos a história dos Santos. Paulo e seu irmão mais novo, João Batista, ficavam tão impressionados que, na sua simplicidade e a seu modo, procuravam imitar aqueles monges, aqueles eremitas. A não ser isso, nenhum sinal extraordinário marcou a infância do Paulo. O que refletia era tão-somente o clima do lar, de profunda piedade, germe fecundo que, a seu tempo, devia irromper em frutos da mais elevada santidade.


A VOZ DO SENHOR

Corria o ano de 1713. Paulo completara 19 anos.
Por esse tempo, dele se assenhoreia mis­terioso impulso: é uma inspiração vaga, in­definida; sente ao vivo que Deus lhe sugere algo de singular. E ele procura, por todos os meios, descobrir os desígnios do Céu. Eis que, de súbito, se opera nele completa transformação. Não sabemos se foi motivada pelo sermão do vigário ou pelo dialogo havido com pessoa versada em assuntos religiosos. Re­solve lazer sua total entrega ao serviço de Deus. Prepara-se para o grande acontecimen­to fazendo, contrito, sua confissão geral. A grande importância dessa transformação in­terior, depreende-se das freqüentes referên­cias que dela fará o Santo, chamando-a de sua conversa-o.
Contudo, não tem ainda completa certeza sobre o caminho a seguir. Continua em família.
Pelo ano de 1715 sobreveio-lhe um sim­ples acontecimento que, não obstante, influiu profundamente em seu espírito. Ele mesmo nos contara, mais tarde, o sucedido:
"Em Gênova, andando pela praia, ao pôr-do-sol, ergui os olhos e divisei, no alto da colina de Sestri, a solitária igreja de Nossa Senhora da Divina Misericórdia. Senti veemente desejo de me retirar, para sempre, àquela solidão. Julgando, porém, que minha presença no lar seria ainda necessária, não pude, então, realizar o desejo que, no entan­to, continuou a pulsar em meu coração."
Alguns anos se passaram. Em 1716 o Papa Clemente XI conclama a Cristandade para a cruzada contra os mouros. Paulo, jul­gando ser aquela a voz de Deus que ia ao encontro de sua aspiração de dar a vida por Cristo, vai pressuroso a Crema, perto de Mi­lão, para se apresentar como voluntário. Ao chegar, entra na Igreja onde estava exposto o Santíssimo Sacramento. Enquanto, pros­trado em humilde adoração, ora profundamente, voz misteriosa lhe ressoa na alma, dizendo-lhe não ser aquela a missão a que Deus o chamava. Dócil à vontade do Senhor, volta ao lar.
Nos dois anos seguintes esteve em No­vello, assistindo a um casal idoso, talvez parentes da família Danei. Não ha cabal certeza sobre o motivo de sua permanência nesse lar. O hospedeiro, agradecido, reconhe­cendo os dotes peregrines do jovem Paulo, resolve convida-lo a permanecer sempre com ele em troca de fazê-lo seu único herdeiro. Com grande admiração e espanto, ouve for­mal recusa. Pouco mais tarde volta Paulo aos seus, que acabavam de se transferir para Castelazzo.
Mais dois anos decorreram ocupado em auxiliar o pai, assegurando assim os meios para o sustento da família.
Tinha Paulo um tio sacerdote por nome João Danei, o qual nutria pelo sobrinho grande admiração. Por isso, resolveu escolher para ele uma jovem de abastada família, sor­rindo-lhe a idéia de breve e feliz matrimônio. Paulo, contudo tinha falando à moça dissua­dindo-a do projeto, e alegando não ter inten­ção alguma d~ constituir família. O tio, po­rém, insistia, mas a morte deste, sobrevinda inesperadamente, pôs fim àquele plano.
Por esse tempo, Paulo se inscreveu na Irmandade de S. Antônio, de Castelazzo. Logo foi eleito diretor do sodalício, encarregado da formação religiosa de seus membros. Aos domingos e dias santos proferia edificantes pa­lestras, e com tal entusiasmo e convicção que, apesar de anos decorridos, muitos as lembra­vam com saudade.
Paulo sente arder-lhe no coração a cha­ma do apostolado, desejoso de pregar o Evan­gelho ao povo para torna-lo de todos conhe­cido e professado.
Com grande entusiasmo, reunia as crian­ças nos dias de festa para lhes ministrar lições de catecismo a que também assistiam muitos adultos.
Continuando sua vida em família, já professa a vida religiosa: Aplica-se à oração em diversas horas do dia. Pela manhã parti­cipa da Celebração Eucarística e, consoante o depoimento dos irmãos e de pessoas que privavam com ele, entrega-se a exercícios de austeras penitencias e mortificações.
Em todas as dúvidas e dificuldades segue, confiante, os conselhos do sacerdote que escolheu para seu diretor espiritual. O primeiro foi o vigário de Castelazzo, e, a seguir, um padre capuchinho das vizinhanças, os quais, para experimentar-lhe a virtude, o tratavam com severidade. Não saberíamos o porque lhe impunham tão duras e humilhantes provas, tais como o negar-lhe a Comunhão, correções e advertências públicas no sermão domi­nical, a recusa em atendê-lo, e semelhantes. E ele tudo suporta com serena humildade, sem­pre firme no ideal a que se sente chamado por Deus.
Por fim, o bispo de sua terra, D. Gatinhara, aceita ser seu diretor espiritual e confes­sor. Não foi difícil a este prelado descobrir a ação de Deus na alma de seu dirigido. Dá-lhe pleno apoio em sua resolução de professar uma vida que mais se parecesse com a de Cristo.
Nele assoma com toda a veemência aque­la inspiração de outrora, de se retirar a lugar deserto, longe do bulício mundano, a fim de se dar exclusivamente ao serviço do Reino de Deus. É um reclamo sempre mais forte e sempre contínuo. De outro lado, os pais depositam nele grande esperança.
O desejo interior de perfeição e santida­de cresce e se amplia, enquanto Deus lhe vai despertando a idéia de reunir companheiros animados do mesmo ideal, a fim de trabalha­rem juntos na dilatação do seu Reino. Nou­tras palavras, e' chamado para fundar um Instituto Religioso.
Para definir e caracterizar a obra que Deus lhe cometia, era mister uma revelação mais detalhada, pois ele se sente de todo in­capaz de se abalançar a tão alto empreendi­mento. E aqui vai, neste relato, o que lhe su­cedeu, extraído de carta sua, que ainda se conserva, endereçada ao diretor espiritual, D. Gattinara:
"No verão próximo passado, não me re­cordo o dia, pois não tomei nota, somente sei que foi no tempo da ceifa do trigo. Certo dia da semana dirigi-me à igreja dos capuchinhos para receber a Santa Comunhão. Estava mui concentrado. Após a Santa Missa ia voltando a casa, orando em profundo recolhimento. Ao tomar o desvio da estrada, me senti por Deus enlevado numa atmosfera de profunda calma interior. De súbito me achei revestido de longa túnica negra, tendo uma cruz branca no peito, e também em letras brancas, o San­tíssimo nome de Jesus. Entrementes, ouvi soarem as palavras: Este deve ser o sinal de como há de ser puro e santo o coração que traz impresso o Santíssimo Nome de Jesus [1].
Após esta visão, Deus aumentou em mim o desejo e vontade de reunir companheiros e, com o beneplácito da Santa Igreja, fundar um Instituto tendo por nome Os Pobres de Jesus."
Esta e outras visões dão-lhe a certeza de que o projeto é obra exclusiva de Deus. Este também é o parecer de seu diretor espiritual, D. Gattinara, o qual lhe manda escrever todos os impulsos interiores e luzes que fosse rece­bendo na oração.


EREMITA E FUNDADOR

Nesta altura, Paulo completou 26 anos. Seus pais não necessitam mais de sua ajuda. Os irmãos estão crescidos. Resolve então dei­xar, para sempre, a casa paterna, a fim de atender ao apelo de Deus. O dia 21 de novem­bro de 1720 foi o último dia passado no seio da família.
À noite, de joelhos, pede a todos perdão das faltas que poderia ter cometido, e solicita a bênção aos pais. Dia seguinte dirige-se a D. Gattinara e, à tarde, em cerimônia particular, na capela do Bispo, recebe dele o hábito negro de eremita.
No mesmo dia, sozinho, se retira para o cubículo que está junto à sacristia da igreja de São Carlos, em Castelazzo. Enfim, está realizado seu desejo, de há muito, de viver afastado do mundo, entregue à penitência e à oração. Aqui permaneceu durante quarenta dias, que vão do dia 22 de novembro de 1720 a 1.' de janeiro do ano seguinte.
Por ordem de seu Bispo e diretor espiri­tual, Paulo da Cruz, como quis ser chamado desde o dia da vestidura, escreve as graças e luzes que recebe de Deus e tudo quanto se passa no recesso da alma. Com isto, compôs o seu "Diário Espiritual", chegando ate' nós em cópia autêntica. E documento de inestimá­vel valor, que traduz a sua verdadeira e sin­cera piedade, bem como o alto grau de oração e união com Deus a que o Santo havia chegado. Nele encontramos doutrina espiritual que o Servo de Deus praticou nos cinqüenta e cinco anos restantes de sua vida.
Nesse retiro de jejum e oração, Paulo da Cruz escreve a Regra do Instituto. É fato sin­gular o tê-las elaborado no breve espaço de cinco dias, de 2 a 7 de dezembro de 1720. Eis o que ele mesmo nos diz a respeito:
"Escrevi a Regra tão rapidamente como se alguém mas estivesse ditando. As palavras me vinham espontâneas do coração."
De verdade, é fato extraordinário se consi­derarmos que ela está em perfeita consonância com a Teologia e com o Direito Eclesiástico, não havendo ele cursado nenhuma daquelas disciplinas. Não temos, todavia, o precioso original, pois, quarenta anos mais tarde, o Santo o consumiu, resolvido a destruir tudo o que pudesse ser atribuído à sua pessoa.
Agora Paulo tem um único intento: Pre­parar-se pela oração e penitência a fim de executar os planos de Deus. Perto de Caste­lazzo está o santuário de Santo Estêvão. O tio do Santo, Padre Cristóforo Danei, fora, até pouco antes de sua morte, ocorrida em 1718, coadjutor nessa igreja. Desde então ficou vacante. Paulo se dirige para lá. E por. que não havia mais nela o sacrário com o Santíssimo, vai todos os dias à próxima igreja a fim de participar da Santa Missa, receber a sagrada Comunhão e entreter-se algumas horas em oração.
Em breve começa a correr por aquela região a fama do santo eremita. Muitos acodem a ele para pedir-lhe conselho. João Batista, seu irmão, com outro seu companheiro o visitam mais de freqüente, porque se sentem atraídos por aquele gênero de vida.
O Bispo D. Gattinara ouvia, com agrado, os comentários que se faziam em torno de seu protegido. Resolveu incumbi-lo de exer­cer o ministério apostólico da palavra. Em­bora não fosse sacerdote nem clérigo, con­fiou-lhe os sermões dominicais da igreja de São Carlos, em Castelazzo. Obedecendo com toda humildade, desempenhou o mister com tal edificação dos fiéis que o Bispo lhe pediu pregasse naquela cidade a Missão popular. As prédicas versavam sobre diversas passa­gens do santo Evangelho em que se relatam os martírios do Filho de Deus. A seguir fazia meditação sobre a Paixão do Senhor. O re­sultado dessa Missão foi tão maravilhoso que, muitos anos passados, após a morte do Santo, houve pessoas que testemunharam as conversações extraordinárias e reconciliações, fruto das prédicas e meditações do san­to Missionário.
Por esse tempo recebe visão clara dos desígnios de Deus a seu respeito: "Juntar companheiros movidos do mesmo ideal que, desprendidos de todo criado, vivam em aus­tera pobreza, oração e jejum, a fim de se tor­narem aptos para trabalhar na salvação das almas e promover no coração dos fiéis a de­voção à Paixão de Cristo por meio de Missões populares e exercícios espirituais». Noutras palavras: Formar apóstolos santos de intima comunhão com Deus, dedicados à salvação das almas pregando a Jesus Crucificado. Esta a obra que o Santo há de levar a cabo e que agora se lhe apresenta ao espírito bem ao vivo, com toda a clarividência e em plena consonância com a Regra por ele escrita.
Antes de tudo é necessário que a Regra seja aprovada pela Sé Apostólica, obtendo permissão para reunir companheiros que queiram viver o mesmo ideal. Resolve por isso dirigir-se a Roma. O seu Bispo, D. Gattinara, tenta dissuadi-lo por não ser ainda oportuno. Após alguns meses, porém, anuiu. E, pelo meado de agosto de 1721, Paulo parte, munido da recomendação de seu diretor es­piritual. Era, então, a viagem, por ínvios caminhos, muito penosa e de muitos perigos. O ardor que o animava e a consciência de ser aquela a vontade de Deus, lhe deram forças para enfrentar a dura jornada.
Intenta falar diretamente com o Sumo Pontífice, esperando dele a aprovação da Re­gra. Nisto se manifesta a inexperiência e sim­plicidade de Paulo; julga que falar com o Papa seria tão fácil quanto com o Bispo de sua Diocese. Por isso ficou sobremaneira es­tarrecido quando o guarda do Quirinal, então sede de Inocêncio XIII, o repeliu bruscamen­te com estas duras palavras: "Faça o favor de ir-se embora! Você não sabe quantos la­drões vêm bater por aqui!"
Assim humilhado e desiludido não se descompõe. Reconhece nisto a divina Provi­dência que tudo permite para o feliz sucesso da obra. Imediatamente se dirige à basílica de Santa Maria Maior para buscar conforto. Em fervorosa oração lhe é revelado que o novo Instituto ha de ter por fim especial a pregação de Cristo Crucificado. Ele mesmo faz ali o voto de anunciar por toda parte a Paixão do Senhor, e todos os membros do novo Instituto hão de se ligar ao mesmo compromisso. Nisto consiste a característica dos Passionistas: Reconduzir os homens, por meio da pregação, ao centro da Fé cristã: A Cruz de Cristo, suprema revelação do amor de Deus.
Tanto que Paulo voltou de Roma, seu irmão, João Batista, fascinado pelo mesmo ideal, lhe pede o admita em sua companhia. No dia 28 de novembro de 1721, recebe, como Paulo no ano anterior, das mãos de D. Gatti­nara, o habito negro de eremita que será doravante o hábito dos membros do novo Instituto. João Batista, até o final de sua vida, foi o mais fiel companheiro de Paulo. Nos próximos quarenta anos repartira com ele as alegrias e sofrimentos inerentes à fundação e difusão do Instituto. Viveram eles tão intimamente unidos que diversas teste­munhas nos processos chamaram João Batis­ta de "a sombra de Paulo da Cruz".
Após dois anos de permanência em Santo Estêvão, perto de Castelazzo, passados na solidão e penitência, recebeu do Bispo de Soana­-Pitigliano, Itália central, licença para morar no Monte Argentário, situado na costa oci­dental da Itália, a 130 quilômetros de Roma. ligado ao continente por estreita faixa de ter­ra, da a impressão de um morro que emerge das águas do mar. Durante sua viagem a Roma, a bordo de um veleiro, deteve-se an­corado ao pé do monte por causa da calma ria, e, porque os dias corriam sem sinal de próxima partida, resolveu retirar-se para lá, estabelecendo nele sua nova morada.
Erguia-se no local uma capela com eremi­tério desabitado. Tal retiro, situado no alto, donde se descortinavam belos panoramas, suscitou nos jovens o mais vivo entusiasmo. Nele passavam os dias na oração e no estudo, no trabalho e nas praticas de penitência. Não vivem, porém, só na busca da própria santi­ficação, que também se aplicam a repartir com o próximo a abundância das riquezas espirituais que recebem do Alto. Regularmente freqüentam duas localidades da península para ministrar instrução religiosa às crianças. A tradição nos descreve o Santo sustendo ao alto com uma das mãos o Crucifixo e com a outra agitando a sineta. Percorria assim as ruas e os atalhos, conclamando em alta voz os pais a fim de mandarem seus filhos ao ca­tecismo. Quase todos atendiam ao vibrante apelo, e não só crianças que também muitos adultos acudiam para ouvir as instruções do Santo.
Pelos fins de outubro de 1722 os dois irmãos, a convite do Bispo de Gaeta, a 100 quilômetros de Roma, para lá se encaminham, e são recebidos em uma casa próxima do santuário de Nossa Senhora da Cadeia. lá vivem em comum com diversos irmãos leigos e sacerdotes, entre os quais o Padre Schiaffi­no que fora, na juventude, amigo de Paulo e que mais tarde lhe causará muitos dissabores.
O Bispo de Gaeta, D. Carlos Pignatelli, está ciente da prudência e espiritualidade de Paulo da Cruz, pelo que o incumbe de pregar aos teólogos o retiro prescrito para a ordenação sacerdotal. Fato inédito este, o de um sim­ples eremita pregar a teólogos de uma diocese! O assombro é geral. Há objeções, mas o Bispo se mantém firme na escolha.
Nada sabemos, infelizmente, sobre o modo de viver da nova comunidade. É inve­rossímil que Paulo da Cruz fosse o superior, porquanto havia nela sacerdotes e clérigos. Só sabemos que ambos os irmãos levavam vida singularmente austera. Tudo era orien­tado pela Regra, que Paulo escrevera em Castelazzo­.
No verão de 1724, os dois irmãos eremi­tas ou, melhor, os dois Passionistas foram chamados por D. Cavalieri, tio de Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo de Tróia e Foggia, na Apúlia, sul da Itália, para se esta­belecerem em sua diocese. O Bispo estava interessado em fundar um Instituto. Com multa benevolência, mas também com espiri­to critico, leu a Regra anotando emendas e sugerindo modificações no sentido de lhes mitigar a austeridade. E o prelado, que bem conhecia os trâmites e a praxe da Cu ria Ro­mana, aconselhou a Paulo pedisse à Santa Sé autorização para reunir companheiros, pois, desde que um certo número de religiosos pro­fessassem a Regra, a aprovação desta seria mais fácil. Tal conselho animou a Paulo, em­bora um tanto desiludido pela primeira ten­tativa frustrada.


SACERDOTE

Em março de 1725 vai a Roma com o irmão. Percorrem 100 quilômetros a pe. Por intermédio do Cardeal Corradini, que será, mais tarde, exímio benfeitor do novel Insti­tuto, Paulo consegue falar pessoalmente com o Santo Padre, agora Bento XIII. Deu-se a entrevista na igreja de Santa Maria Dominica, conhecida também por Navicella. Após a cerimônia da consagração de um altar, em breve colóquio com o Sumo Pontífice, Paulo recebe permissão de reunir companheiros e de viver em comunidade, observando a sua Regra. Multo reconfortados pelo feliz suces­so, empreendem viagem de volta para Gaeta. A casa que antes ocupavam junto ao santuá­rio de Nossa Senhora da Cadeia era parti­cular, e o proprietário não a cedia mais a comunidade religiosa sujeita a determinada regra. Foram, então, a outro santuário onde, anteriormente, assistiam quatro sacerdotes ocupados em atender aos peregrinos, mas o espaço não era suficiente para uma comuni­dade.
Paulo da Cruz, que conhecera o Cardeal Corradini, lembrou-se então que o mesmo lhe falara do propósito de construir em Roma um hospital destinado aos indigentes, e até o ha­via convidado a trabalhar nele. O Cardeal teria mantido correspondência, insistindo no convite.
Paulo chegou à conclusão que não seria fácil, no momento, Iniciar em qualquer diocese a fundação do Instituto, por isso resol­ve atender à solicitação do Cardeal Corradini1 e, estando em Roma, haveria maior possibilidade de obter a aprovação da Regra. Para lá se dirige, pois, com seu irmão, João Batista, e ambos então se dedicam ao serviço dos enfermos no novo hospital de São Gallicano. O Cardeal lhes confia também a assistência espiritual dos enfermos e funcionários.
O Padre Emílio Lami, que era também médico, muito aprecia o trabalho dos jovens, e pensa, com razão, que poderiam fazer ainda mais, se fossem sacerdotes, podendo assim ministrar os santos Sacramentos aos enfer­mos. Por isso insiste com eles para que se preparem a fim de receber a ordenação sacer­dotal. Paulo da Cruz, por se julgar indigno, não queria ser padre, a exemplo de São Fran­cisco de Assis. Foi-lhe, então, sugerido que, cometendo-lhe Deus o encargo de fundar um Instituto de clérigos, conviria receber o sa­cramento da Ordem.
Começa portanto a se preparar para o grande acontecimento junto com o irmão João Batista. Paulo contava trinta e três anos, e o irmão trinta e um.
Requeria-se o curso de Teologia. Paulo, que lera sobre a ciência que trata de Deus, muito se aplicara a ela, pois, desde os vinte anos, conhecia as obras de São Francisco de Sales e de Santa Teresa de Ávila, ambos doutores da Igreja. Em todo tempo em que viveram na solidão e no eremitério, consagra­vam a maior parte do tempo à leitura e ao estudo.
Careciam, porém, de um curso teológico regular, em seminário ou universidade.
Começam, pois, a freqüentar as aulas do convento de São Bartolomeu, dos Franciscanos, na ilha de Tibre, sob o magistério do Padre Domingos Maria. Certamente, a ma­téria versava sobre assuntos pastorais e teo­lógicos, mas, por falta de noticias, nada sabe­mos a respeito do tempo, intensidade e temática desse curso.
Em fevereiro de 1727 recebem a tonsura e as ordens menores. Em abril do mesmo ano, o subdiaconado, e, dia 7 de julho de 1727,aabado das quatro- têmporas, o Santo Padre, o Papa Bento XIII, impõe-lhes as mãos e os consagra sacerdotes.
Dia seguinte celebram a primeira Missa na capela do hospital de São Gallicano. Nos festejos esteve presente o irmão mais novo, José Danei. Os pais, por impedidos, não pu­deram comparecer.
Em agosto do mesmo ano receberam no­ticia da morte do pai. Apressaram-se Paulo e João Batista em visitar os familiares a fim de levar-lhes o conforto da Fé, retornando sem demora ao hospital.
Alguns meses depois, ambos contraíram doença mais ou menos grave. Nisto influiu o clima de Roma e o incessante contacto com os enfermos. Além do mais surgiram dificul­dades com o dirigente do hospital.
Por tudo isso, Paulo da Cruz com a irmão resolveram retirar-se.
Durante a permanência em Roma, que prolongou por um ano e meio, fez amizade com pessoas influentes que ofereceram seus préstimos para alcançar do Santo Padre a aprovação da Regra. Entre aqueles, citamos o Cardeal Corradini, o qual obteve para ambos os irmãos a dispensa do voto que haviam feito de estabilidade no hospital.


OS PRIMEIROS PASSIONISTAS

Havia oito anos que Paulo da Cruz escre­vera a Regra do Instituto, mas até o momen­to não havia nenhuma comunidade que a ob­servasse. Muita coisa, porém, se fizera para o seu estabelecimento definitivo.
Em Roma, contava Paulo com benfeito­res e amigos que poderiam interceder junto da Santa Sé para a aprovação da Regra. Im­portava agora arrolar homens animados pelo mesmo ideal que, "livres de todo apego ter­reno", quisessem consagrar-se ao serviço de Deus e trabalhar "pela salvação do próximo". O primeiro passo seria a aquisição de um lu­gar apropriado para se construir casa que possibilitasse a vida comunitária. Paulo da Cruz preferia o Monte Argentário que, além da solidão, oferecia maravilhosos panoramas, facilitando a elevação da alma a Deus.
O eremitério em que, no passado, se ha­viam estabelecido por algum tempo, estava sendo ocupado por um eremita. A ele solici­taram abrigo, ao menos temporariamente, até depararem outro local. Tratava-se de Antônio Schiaffino, o qual, não simpatizando com os dois irmãos, apesar de amigos no passado, não quis anuir ao pedido, visto como também tencionava ele fundar um Instituto. Via, pois, em Paulo um perigoso rival.
Paulo e João, em conseqüência, se puseram à procura de outra residência.
Perto desse eremitério havia uma capela dedicada a Santo Antônio, e uma casa com dois cômodos, tudo em mau estado de conservação, pelo que exigia muito trabalho de restauração. Não obstante, resolveram tomar posse do abrigo. Passados alguns meses começa a se formar aí a primeira comunidade Passionista. Três pedem admissão: os irmãos leigos João e Orlandíni e outro irmão de Paulo da Cruz, Padre Antônio Maria Danei. Esta comunidade, em numero de cinco, pode-se chamar a "comunidade de experiência". Nela se observa a Regra em sua plena austeridade: oração comunitária, meditação, exercícios de penitência, estudo e recreação; tudo em tempo determinado. A Regra assim vivida ficou sem alteração substancial, a mesma que seria aprovada pela Santa Sé Apostólica.
Para termos uma idéia particularizada da vida que levavam esses primeiros Passionistas, trasladamos aqui o relato do irmão leigo Orlandíni, que passara cerca de um ano na comunidade, e, que, após a morte do Fundador, o apresentou no processo de canonização. Reza assim o depoimento:
"O eremitério compreendia uma capela e casa com dois cômodos. Um no andar térreo e outro no superior. Este servia de dormitório. Dormíamos no chão sobre enxergas, separadas por cortinas. A meia noite era dado o sinal de despertar, e, na capela, o Padre Paulo e seus irmãos rezavam matinas; eu e outro irmão leigo recitávamos o terço e outras orações. A seguir fazíamos uma hora de oração meditada. Quatro vezes na semana acrescentávamos a disciplina. Podíamos en­tão retomar o descanso noturno. Os que qui­sessem, ocupavam-se no estudo ou noutras tarefas. Antes da aurora nos dirigíamos no­vamente à capela para rezar prima e terça do breviário, e, logo depois, outra hora de medi­tação em que se celebrava a Santa Missa. Fei­ta a ação de graças entretinham-se algum tem­po na sala, ocupados em ler e escrever. Em seguida o Padre Paulo e o Padre João Batista e por vezes também o Padre Antônio toma­vam dos livros e manuscritos e se metiam no bosque. Nós, os demais, retomávamos nossos trabalhos: cuidávamos do jardim, ao lado da casa, cortávamos lenha e preparáva­mos os alimentos num barraco que servia de cozinha. As 11 horas voltavam todos à capela para rezar sexta e noa, e a seguir almoço. A comida consistia geralmente de sopa de le­gumes ou verduras com um pouco de carne salgada ou peixe recebido de favor. Servia-se vinho misturado com muita água e pão, tam­bém recebido de esmola. Após a refeição ha­via um breve recreio que terminava com a reza de vésperas. E cada um com seus escritos e livros retomava o caminho para prosseguir os estudos em lugar solitário. Vol­tavam ao anoitecer para a reza de completas e mais uma hora de meditação. Terminava-se com o terço rezado em comum. No tempo do inverno havia mais uma hora de estudo. Então servia-se a consoada. Todos os dias eram considerados de jejum com exceção dos dias festivos."


O PRIMEIRO CONVENTO

Com o ingresso de novos aspirantes, não comportava mais o eremitério o crescente número de religiosos. Resolveu-se construir o primeiro convento na ilha de Alba, entre o continente e a Córsega. Dificuldades surgi­das construir lá mesmo, no Monte Argentário, nas proximidades. A resolução foi bem acolhida pelos habitantes de Orbetello, povoa­do vizinho de Portércole. Prestariam eles sua colaboração na ereção da igreja e do conven­to, e para este fim ofereceram o terreno.
Requeria-se a licença eclesiástica. A área pertencia à paróquia de Orbetello, e juridica­mente à Abadia "Tre Fontane" de Roma, onde o Cardeal Altieri era o responsável. O conse­lho municipal de Orbetello, porém, se dirigiu diretamente à Cúria Romana. Julgou-se por isso lesado em seus direitos o Cardeal, que dilatou por algum tempo sua aprovação. Essa demora causou esmorecimento do entusias­mo inicial, tanto que Paulo da Cruz, pregando a Missão de Orbetello, em fevereiro de 1732, la­mentava que a construção do convento se ia protelando. O apelo do Santo foi prontamen­te atendido, porquanto, aos 4 de março do mesmo ano, foi lançada a primeira pedra.
Após alguns meses, os distúrbios da guer­ra interromperam os trabalhos. Ao pé do Monte Argentário acamparam as tropas espanholas sitiando Portércole e Orbetello, em mãos dos alemães. Ambos se defrontaram em lutas sangrentas.
Paulo, sem acepção de nacionalidade, acorre tanto aos espanhóis quanto aos alemães. Mete-se na frente mais avançada, assiste aos moribundos, pensa as feridas expondo mais de uma vez a própria vida.
Nisto muito lhe valeu a pratica hospitalar adquirida em São Gallicano. Dispensa com extremado desvelo o conforto religioso aos soldados.
Sua abnegada dedicação e intrépida coragem lhe granjeiam a estima geral dos beligerantes. Ora o encontramos entre os ale mães, ora entre os espanhóis, passando tranqüilamente de um campo a outro, a todos acudindo.
Levado por falsas informações, o comandante das tropas espanholas, Gen. Las Minaz resolve destruir Orbetello. Paulo da Cruz intercede para que seja retirada a ordem. Só depois de muita insistência o General lhe diz "Padre Paulo, por seu respeito não destrui a cidade!"
Quando esta se rendeu, e o General entrou vitorioso nela, apresentou ao Santo c mais comovidos agradecimentos, convidando-o para pregar a Missão aos soldados em Portércole.
Voltando a paz e a serenidade prosseguiu-se a construção. Logo, porém, se esgotaram os recursos financeiros. Então Paulo empreendeu viagem para Nápoles a fim de pedir ajuda ao rei Carlos III. Ficou este bem impressionado pela extraordinária figura do servo de Deus, e dá-lhe avultada soma com que os trabalhos puderam ser ultimados.
Novas dificuldades. O Cardeal Latirei, ao qual pertence a jurisdição do terreno da nova fundação, dá crédito a um acervo de calúnias forjadas pelos inimigos de Paulo, e nega-lhe, em conseqüência, autorização de tomar posse do convento que tanto sacrifício lhe custara. Duas vezes Paulo vai a Roma para falar com o Cardeal, solicitando ao mesmo tempo a mediação de amigos e benfeitores. Afinal, após tantas angústias, obteve a suspirada licença.
Dia 14 de setembro de 1737, festa da exaltação da Santa Cruz, a nova igreja é consa­grada, e, com indescritível alegria, os nove membros, entoando louvores a Deus, inaugu­ram o novo convento do Monte Argentário.


APROVAÇÃO DA REGRA - NOVAS FUNDAÇÕES

Faltava ainda algo de suma importância: a aprovação da Regra do Instituto. Paulo re­cebera, oralmente, do Santo Padre Bento XIII autorização de reunir companheiros e viver em comunidade. Não era suficiente; seria preciso obter, quanto antes, a aprova­ção oficial da Regra.
Escrita de 2 a 7 de dezembro de 1720 por Paulo da Cruz, ela fora revista diversas vezes, extra-oficialmente, por pessoas mais ou menos Idôneas, como o diretor espiritual de Paulo, Padre Colombano, de Gênova, Capu­chinho; o Bispo D. Gattinara; o Bispo D. Ca­valieri que fez sobre ela um estudo crítico durante a permanência de Paulo em Gaeta; o Cardeal Altieri que, em 1736, solicitou uma cópia da mesma por ocasião da fundação do convento no Monte Argentário, e lhe apôs várias emendas. Esta cópia glosada pelo Cardeal ainda se conserva. Tanto o Bispo Cavalieri como o Cardeal Altieri queriam o Instituto sob a direta jurisdição dos bispos enquanto Paulo da Cruz fazia questão fosse diretamen­te sujeito à Santa Sé. Contudo, a Regra não havia sido ainda apresentada ao Papa.
Quando, em agosto de 1740, o Cardeal Lambertini subiu ao sólio pontifício com o nome de Bento XIV, para reger a Igreja Uni­versal, Paulo se dirige a seus protetores de Roma, especialmente aos Cardeais Rezzônico e Corradini, com o intuito de apresentarem ao novo Papa o pedido para aprovação da Regra. Em novembro do mesmo ano ele vai a Roma com seu irmão João Batista, sendo hóspedes do Cardeal Rezzônico, mais tarde, Papa Clemente XIII. O Cardeal entrega o manuscrito da Regra ao Sumo Pontífice, o qual, tanto que terminou de correr nela os olhos, segundo nos relata a tradição, excla­mou: "Este Instituto, que devia ser o primei­ro, veio por último!"
Bem transpareceu a simpatia do Sumo Pontífice pelo novo Instituto, pois nomeia logo para membros da Comissão supervisora os cardeais Rezzônico e Corradini. A Regra recebe, então, algumas emendas no sentido de lhe abrandar as austeridade; substancialmente, porém, continua intacta.
No dia 15 de maio de 1741 tem ela, por uni Rescrito, a aprovação oficial da Igreja. Havia 21 anos que Paulo da Cruz aguardava, ansioso, este momento. Mal podendo conter os sentimentos de alegria e de gratidão, con­voca a comunidade, e, todos reunidos na Igreja, aos pés de Jesus Sacramentado, cantam em coro hino de ação de graças: "A vós, ó Deus, louvamos...
Semanas depois, aos 11 de junho do mes­mo ano, os primeiros passionistas emitiam seus votos simples, enquanto Paulo desejava fossem os votos solenes. Não se trata de maior força obrigatória, mas de certas conseqüências jurídicas.
Importa darmos aqui um relance para o andamento posterior da Regra.
Em 1746 outra comissão é encarregada de examina-la. Após longos debates, de que resul­taram algumas ligeiras mudanças, o Papa, por meio de um Breve, as aprova solenemente. Por força dele, o Instituto fica diretamente sujeito a Santa Sé. Enquanto aos votos solenes, Paulo da Cruz teve que renunciar a eles, visto que desde o século XVII, a Santa Sé só vinha aprovando Institutos de votos simples. Durante a vida de nosso Fundador a Regra foi ainda objeto de mais três decretos papais: de Clement9 XIII que, em novembro de 1760, aprova, por um Rescrito, o teor de vida dos passionistas; de Clemente XIV, o qual, pela Bula "Supremi Apostolatus", que é solene de­creto papal, lhe da aprovação; finalmente, semanas antes da morte do Fundador, dia 15 de setembro de 1 77j~, Pio VI despacha outra Bula na qual ratifica a aprovação da Regra ligeira­mente modificada e reconhece as comunida­des passionistas como instituição canônica.
Nas cartas de São Paulo da Cruz consta que, pelo ano de 1743, havia 17 religiosos no convento da Apresentação no Monte Argentário, e que numerosos jovens solicitavam admissão no Instituto, sem poderem, contudo, ser atendidos por falta de vagas. Foi por isso que Paulo atendeu prontamente o Bispo de Viterbo, aceitando um convento situado a poucos quilômetros de Vetralla, o qual con­sistia numa casa e capela dedicada a São Miguel Arcanjo. O lugar solitário, mui propício à oração, agradou ao Santo. A 6 de março de 1744 para lá foi enviada pequena comuni­dade. Este convento, conhecido mais tarde por Santo Anjo, recebia freqüentes visitas do Fundador, que o preferia para se trecolher1 quando regressava cansado dos ministérios apostólicos.
Por esse tempo tratava-se da aceitação do santuário de Santo Eutízio, perto de Soriano, a leste de Viterbo. Por se conservarem nem igreja os restos mortais deste santo, era lugar de romarias. Alguns padres seculares assistiam na casa paroquial e atendiam os romei­ros. Com a transferência daqueles sacerdotes, D. Bernardino de Bari, Bispo da diocese de Orte, insistiu junto de Paulo para que aceitas-se aquele santuário e a casa paroquial. Como tudo respondia às normas da Regra, constru­ção modesta e lugar ermo, aceitou, agradecido.
A 8 de março de 1744 ele mesmo, acompanhado de três religiosos e muitos fieis, em procissão festiva, tomou posse deste terceiro convento.


SUPERIOR GERAL E MISSIONÁRIO

A Regra de Paulo da Cruz determina, alem do teor de vida dos Passionistas, também como ha de ser governado o Instituto. A responsabilidade sobre toda a Congregação recai na pessoa do Superior Geral e seus Con­selheiros. O Superior Geral, segundo a dispo­sição primitiva da Regra, e eleito pelo Capí­tulo Geral, composto dos Conselheiros Gerais e Superiores, o qual é convocado de seis em seis anos. Quando, em maio de 1741, Bento XIV aprovou a Regra, nomeou Paulo da Cruz primeiro Superior Geral. Pouco depois con­vocou este o primeiro Capítulo Geral, e nele foi reconfirmado no cargo. Embora procuras­se por todos os meios eximir-se dessa respon­sabilidade, especialmente quando atacado pela enfermidade e achaques da idade, nos cinco Capítulos Gerais que se seguiram, foi reelei­to, cumprindo-lhe desempenhar todos os en­cargos inerentes ao ofício de Superior Geral, ate. o fim de sua vida.
Não foram poucas as dificuldades que sur­giram na fundação dos diversos conventos, e quase em todos eles houve hostilidades pro­cedentes de Ordens mendicantes que se sen­tiam lesadas em seus direitos. Essas contradições chegaram a tal gravidade que em 1748 o Instituto é acusado à Santa Sé. Os Passio­nistas devem apresentar sua defesa na pessoa de seu Fundador, junto à Congregação Romana. Felizmente não esta só. Numerosos Bis­pos e Sacerdotes, que constataram a benéfica atividade apostólica dos Passionistas, interce­dem por eles. Por tudo isto cresceu a benevo­lência de Bento XIV pelo Instituto. Em abril de 1750 uma Comissão de Cardeais da o seu veredicto, autorizando a fundação de novos conventos. E o próprio Sumo Pontífice apro­va a decisão dos Cardeais.
Apesar de todas essas provas de apoio e confiança da suprema autoridade eclesiástica, as agressões continuam, e Paulo da Cruz sente com amargura tais investidas, e, freqüente mente, a elas se refere nas cartas: "O Insti­tuto esta sendo muito perseguido. Sim, agora o perigo é tão iminente que corre o risco de ser supresso." Anos após, o Instituto conti­nuava ameaçado, pois, em 1760, quando já havia oito conventos instalados, escreve a um amigo: "Cada dia aumenta meu receio. Em minha velhice esta tomando conta de mim o temor de ver a obra do Instituto destruída, desfeita em pó." E os temores o angustiam em extremo. Por vezes sente-se desamparado, e assim desabafa sua profunda magoa: "Peço reze por mim, pois me acho em mar tempes­tuoso e quase me sinto soçobrar. Flutuo sobre as ondas, agarrado ao lenho da Cruz, e por isso espero não ser tragado pelas águas".
Quão persuasivo e atraente fosse o gênero de vida e a eficácia apostólica dos primeiros Passionistas, deduz-se do rápido crescimento do instituto. De 1748 a 1759 foram fundadas mais cinco casas religiosas. O convento do Monte Argentário, que servia de noviciado, se tornou insuficiente para atender ao crescente numero de aspirantes. Foi construído, outro rias proximidades, reservado exclusivamente para os noviços. De 1761 até a morte do Santo, todos os que ingressaram no Insti­tuto, fizeram, neste convento o seu noviciado.
Agora queremos focalizar em São Paulo da Cruz o Missionário popular. Já' na idade de 26 anos sentia ele veemente desejo de se dedicar à conversão dos pecadores. Levar o homem à conversão, era, naquele tempo, a meta das Missões populares Os séculos XVII e XVIII foram para a Itália o tempo culmi­nante das missões populares. O Jesuíta Padre Segarei e o Francisco São Leonardo de Por­to Maurício entraram na História como gran­des missionários do Povo. A pregação de Mis­sões Populares é o fim especial do novo Ins­tituto consoante o Rescrito apostólico de 1741, que pela primeira vez aprovou a Regra. Nele se declara: "Seu Instituto tem por fina­]idade pregar as santas Missões populares." o mesmo Paulo da Cruz, durante toda a sua vida, considerou sempre a pregação das Mis­sões populares o gênero de apostolado próprio do Instituto Passionista. Em quase cinqüenta anos de trabalhos apostólicos pregou o Santo cerca de 200 Missões populares e muitos reti­ros em mais de trinta dioceses da Itália. Três vezes no ano empreendia viagens missionárias que por vezes se prolongavam até sete semanas, pregando diversas missões seguidas. Enquanto ao método de pregação, em geral atinha-se à forma comumente usada naquele tempo: Pregações sobre o pecado, a morte, o Juízo, o Céu e o Inferno. Instruções cate­quéticas e meditações eram também temas quotidianos da Missão.
De acordo com a necessidade, tais Mis­sões tinham a duração de uma, duas e ate' três semanas. Os Missionários visitavam os enfermos, reconciliavam inimigos e a todos proporcionavam ensejo para receberem o sacramento da Confissão.
Paulo da Cruz pregou muitas Missões com seu irmão, Padre João Batista. Enquan­to tomava para si os grandes sermões, alocuções e meditações sobre a Paixão e Morte do Salvador, o Padre João Batista pregava retiro ao clero e aos religiosos do lugar.
Paulo possuía todos os requisitos próprios de um grande missionário popular: voz forte, alto de estatura e os demais dotes de um excelente retórico. Porem a força misteriosa de sua palavra, que produzia conversões em massa, provinha de sua íntima comunhão com Cristo, de seu espírito de Fé; noutras palavras, de sua santidade.
Figura austera, aureolada de intensa vida interior, bondade e indulgência para com dos, esses predicados nimbavam de sobrenatural o grande missionário que atraía as multidões.
Nos intervalos das Missões o encontramos no convento ocupado na oração, na penitência e no estudo, preparando-se para novas lides na seara do Senhor. A essa vida de recolhimento, oração e silêncio o Santo dava muita importância. A um sacerdote amigo que pretendia entrar para o Instituto, escreve. "... assim a santa Regra nos obriga a que, após as Missões e Retiros, nos recolhamos à solidão pai nos entregarmos à oração e ao jejum. Po um operário da vinha do Senhor há de ser homem de oração, amigo da solidão e des­prendido das coisas terrenas; sendo assim, lo­grará mais frutos do que mil outros sem essa comunhão com Deus".
Paulo da Cruz, mais que o apostolado, tem em apreço a vida da solidão, do silêncio e da oração para a santificação da comunida­de, como vai declarado na mesma carta: "Nes­se alicerce foi construído o Instituto. Se essa base for destruída, há de ruir o edifício todo, e ficaremos à margem da missão que Deus confiou ao Instituto".
Além das muitas Missões populares e Re­tiros, ocupou-se das tarefas e encargos de Su­perior Geral. novas fundações, assistência e atendimento aos conventos e aos diversos membros das comunidades. Se considerar­mos que, no segundo meado de sua vida se defrontou com freqüentes enfermidades, algu­mas mui dolorosas, bem podemos avaliar os heroísmos de seu espírito de sacrifício. E, de maneira alguma, não podia esmorecer nessa dolorosa caminhada do Calvário, porque era nele um manancial de inesgotável energia sua intima união com Cristo Crucificado.


O SOFRIMENTO, SEGREDO DA GLÓRIA

Paulo da Cruz tinha em sua vida um companheiro inseparável. Sempre juntos nos tra­balhos e privações, na oração e penitência, nu­trindo na solidão o mesmo ideal, êmulos na santidade, compartilhavam os sofrimentos e alegrias na fundação do Instituto. Era este o seu irmão Padre João Batista.
Não só os laços de sangue, mas especialmente uma profunda amizade espiritual unia os dois irmãos. Por isso não é fácil de ima­ginar a imensa dor de Paulo quando a morte cortou esses laços, aos 30 de agosto de 1765. Somente a Fé e a certeza de que o estremeci­do irmão passara do exílio à' Pátria do Céu lhe confortou a alma angustiada. A vida santa e exemplar do querido irmão e sua morte serena lhe infundiram essa viva esperança. Per­deu com ele não só o irmão amado, o amigo intimo, mas o seu confessor e diretor espiri­tual a quem confiara durante quase quarenta anos tudo o que lhe ia na alma.
Para seu novo diretor espiritual escolheu o Padre João Maria de Santo macio. Teve este a oportunidade de conhecer de perto a personalidade do Santo, porque durante os dez anos seguintes Paulo da Cruz lhe confiava seus problemas e os segredos de sua vida an­terior. Por isso os seus depoimentos nos processos de canonização têm suma importância. O Padre João Maria é o primeiro historiador do Instituto dos Passionistas, autor do tratado que corre sob o título: «Analises do Insti­tuto" em que se relatam os principais fatos acerca de sua origem e desenvolvimento de 1720 a 1795.
O motivo por que Paulo quis o sobrenome da Cruz se depreende de sua vida atribulada, de sua devoção a Cristo Crucificado e da mis­são de Fundador de um Instituto que tem por carisma o culto à Paixão de Cristo. Além dos trabalhos, preocupações e angústias inerentes a fundação, foi acometido de graves enfermi­dades que por diversas vezes quase o levaram à morte.
Foi atacado de reumatismo, ou gota, que o reteve no leito durante meses. Em 1745, o primeiro biógrafo contemporâneo de Paulo, o Bispo São Vicente Maria Strambi, Passionista, que conheceu de perto o Fundador, relata que o mesmo teve que se submeter a prolongadas curas de água. Seu estado de saúde era tão precário que, por muito tempo, só se podia locomover apoiado em bengala. Freqüentes vezes estava impossibilitado de escrever suas cartas, pelo que se limitava a dita-las. No verão de 1767, achando-se no convento do Santo Anjo, em Vetralla, enfermou tão grave mente que todos receavam viesse a falecer Recebeu o Viático e a Unção-dos-enfermos, preparando-se para a morte. Porém, ainda não soara o término de sua peregrinação. Entrou em convalescença e recuperou em parte as forças.
Por este tempo nutria o vivo desejo de visitar mais uma vez todos os conventos do Instituto. Em novembro do mesmo ano empreendeu a última visita canônica para rever todos os seus religiosos. Esta viagem lhe foi duplamente penosa; de um lado, a idade e o estado de fraqueza junto com a dificuldade de transporte, e, do outro, o concurso dos fiéis que, de todas as partes acudiam com grandes demonstrações de devoção e apreço. O povo lhe queria como a um Santo, razão da espon­taneidade e do entusiasmo com que todos o festejavam. A profunda humildade de Paulo e seu amor à solidão bem nos podem trazer imaginação os vexames por que passava.
Havia mais de 20 anos que Paulo da Cruz alimentava a aspiração de um convento em Roma. No outono de 1766 um benfeitor amigo lhe doou uma residência próxima da basílica de São João de Latrão, mas ela necessitava do reforma para corresponder às necessidades de uma comunidade religiosa. Aos 7 de janeiro de 1768 pequena comunidade passionista to­mou posse dessa nova fundação que recebeu o nome de residência do Santíssimo Crucifixo.
A extraordinária personalidade de Paulo da Cruz bem como a vida exemplar dos pri­meiros Passionistas atraíram sempre, maior número de Jovens aspirantes ao Instituto. Urgia outra fundação. Por isso edificou-se novo convento e igreja em Corneto, hoje Tar­quinia, oitenta quilômetros ao norte de Roma. Aos 17 de março de 1769 alguns Padres e Irmãos tomavam posse da nova casa em religiosa procissão. Com este, o número dos conventos do Instituto Passionista ascendia a 3nze-
Aos 19 de maio de 1769 o Cardeal Antô­nio Gangrenai foi eleito Papa, sob o nome de Clemente XIV. Paulo, que o conhecera em 1766, viu nele um conspícuo protetor do Ins­tituto. De uma feita, em conversa, Paulo lhe assegurou que ele seria Papa. Três testemunhas depuseram a veracidade da profecia que logo se cumpriu. Assim que Paulo teve noticia da eleição do Cardeal amigo, dirigiu-se a Roma para cumprimenta-lo. O recém- eleito era de tal modo dedicado ao Santo que ordenou fossem buscar com a carruagem da corte papal, e o recebeu com alguns acompanhantes em audiência particular. Como vimos, foi esse Soberano Pontífice que expediu a bula em que aprovava solenemente a Regra do novo Instituto.
Desejando o Papa ter o Santo perto de 81 pediu que ficasse em Roma e não voltasse para Vetralla, onde o Fundador sola estai nos últimos anos. Quando, em setembro de 1769, a cidade de Roma se preparava para um jubileu extraordinário, Paulo da Cruz foi encarregado das pregações na igreja de Santa Maria Trastevere. Tentou ele eximir-se da honrosa incumbência, alegando motivos de saúde e surdez. O Cardeal responsável, porém, que sabia quão abundantes frutos de conversão produziam as Missões pregadas pelo Santo, permaneceu no propósito dizendo: "Sei que o senhor tem boa voz, e basta que os ouvintes não sejam surdos". Nos seis primeiros dias, contudo, teve que ser substituído por outro, visto como Paulo, acometido de alta febre, foi obrigado a manter-se acamado No sétimo dia se levantou e, apoiado em sua bengala, subiu ao púlpito, e os ouvintes, entre eles, Cardeais e representantes da alta nobreza romana, ficaram profundamente emocionados diante daquela figura de Santo, e mais ao lhe ouvirem as palavras cheias de calor e unção.
Todos notavam, de fato, que o Santo ia aos poucos enfraquecendo. Nos meses, seguintes Em setembro de 1770 e em julho de 1 recebe a Unção- dos- enfermos e o Viático, prepara para a morte. Houve pequena E ora, mas ficou tão abatido que passava leito quase todo o tempo.
Deus queria de Paulo da Cruz outra grande obra: a fundação do Instituto das Monjas Passionistas. No transcorrer de sua vida, por diversas vezes, tentara fundar um convento de monjas em severa clausura, as quais, levando vida contemplativa, em comunidade, com suas orações e sacrifícios, fecundassem a ação apostólica dos Missionários.
O desejo se tornou feliz realidade quando certa família, admiradora de Paulo, deu im­portante subvenção para o novo mosteiro. Trata-se da família Constantini de Cometo (Tarquinia), a qual doou parte de sua propriedade, perto da cidade, para que fosse cons­truído mosteiro e igreja. No dia 3 de maio de 1771, onze candidatas entraram definitiva­mente nessa clausura, tendo sido de antemão aprovada a Regra pela Santa Sé.
O Papa Clemente XIV, quando ainda Car­deal, visitara diversas vezes Paulo da Cruz na residência do Santíssimo Crucifixo, lamentan­do ser a casa tão pequena e desconfortável. Desde então alimentava o desejo de doar aos Passionistas, em Roma, uma habitação mais condigna, e esta foi o convento dos Santos João e Paulo, no monte Célio, uma das sete colinas de Roma, nas imediações do Coliseu. O Sumo Pontífice, que queria assegurar o futuro da Congregação, lhe doou, além do convento, a basílica e os jardins anexos. A basílica fora construída, em meados do século IV, sobre a casa dos dois irmãos mártires João e Paulo, e é uma das igrejas mais antigas de Roma. Não é fáci1 imaginar e muito menos descrever a alegria e gratidão do Santo Fundador, quando no dia 9 de dezembro de 1775, acompanhado de grande número de religiosos, tomou posse do convento. Desde então esta casa se tornou a sede do Instituto, assistindo nela o Conselho Geral [2].
Cerca de seis meses mais tarde, o convento recebeu visita importante. Aos 26 de junho de 1774, dia da festa titular da basílica do convento, veio o Papa Clemente XIV pari visitar Paulo da Cruz, velho e enfermo. A esse demonstração de apreço, o Santo se alegrou sobremaneira, mas sentiu-se ao mesmo tempo humilhado e confuso por tamanha distinção não achando palavras nem gestos para exprimir gratidão ao Vigário de Cristo.
Não foi a última visita papal. Tendo falecido Clemente XIV no dia 21 de setembro do mesmo ano, os Cardeais se reuniram em conclave e elegeram, no dia 15 de fevereiro de 1775, o Cardeal Ângelo Braschi, que tomou nome de Pio VI. Dezenove dias após a eleição aos 5 de março, primeiro domingo da quaresma, o Papa foi à basílica dos Santos João e Paulo, na hora em que estava exposto o Santíssimo Sacramento para a adoração das quarenta- horas. Em seguida foi ao quarto do Fundador, entretendo-se com ele em conversa prolongada. Os sentimentos de Paulo, ante o Vigário de Cristo, foram um misto de alegria E admiração, humildade e profunda veneração.
Do dia 15 a 20 de maio do mesmo ano celebrou-se o sexto capitulo geral do convento dos Santos João e Paulo. Nele Paulo da Cruz apesar de idoso e alquebrado, é reeleito Geral do Instituto. Semanas depois, seu estado de saúde piora sensivelmente. Desde fins de agosto dir-se-ia que a vida bruxuleava para se apagar definitivamente. Diversas vezes esteve à morte, recebendo o Viático. O dia 18 de outubro de 1775 marcou o fim de sua atribulada existência. A tarde, às 17 horas, depois de receber o Santo Viático e a Unção­-dos-enfermos, estando todos os religiosos da comunidade orando em volta do leito, dormiu serenamente o sono da morte. Contava 81 anos e nove meses de idade.
Uma vida longa toda consagrada a um único ideal - Cristo Crucificado - chegara a seu termo.


O SANTO - DIFUSAO DA GONGREGAÇÃO

Cerca de dois anos após a morte de Paulo da Cruz, procedeu-se às primeiras diligências para o processo de sua beatificação. De 1777 a 1780 foram recolhidas informações nas diver­sas dioceses onde o Santo exercera os sagra­dos ministérios. Mais de cem pessoas apresentaram depoimentos sob juramento. Em 1803 foram ultimados os três Processos Apos­tólicos. Logo em seguida mais de 40 teste­munhas expuseram novos depoimentos. Os contínuos distúrbios políticos que então se sucederam, interromperam os trabalhos. Só passados cinqüenta anos, Pio IX, a 1º de maio de 1853, lavrou o decreto de beatificação, e, no dia 29 de junho de 1867, o mesmo Pontífice o declarava Santo pela autoridade infalível da Igreja, propondo-o como modelo e intercessor de toda a Cristandade.
O espírito de São Paulo da Cruz, que é carisma do Espírito Santo conferido a determinados membros da Igreja, continua a viver na sua obra que é seu prolongamento. Na morte do Santo o Instituto contava doze con­ventos situados na Itália Central. Neles viviam 170 religiosos em plena observância da Regra, e ocupados nos ministérios apostólicos a maioria dos quais morreu em conceito de santidade. Havia também um convento de Monjas Passionistas com onze religiosas en­tregues à penitência e à oração.
No princípio o Instituto se propagou mais na Itália.
O primeiro convento fora da Itália foi fundado na Bélgica. O Bem-aventurado Do­mingos Barberi abriu esta fundação em 1840, e, em 1842, na Inglaterra, tornando-se, por an­tonomásia, por seus trabalhos apostólicos, o Apóstolo da Inglaterra. Daí passou o Instituto para Irlanda e para a Escócia. Em 1853, três Passionistas italianos abriram o primeiro convento nos Estados Unidos. Em 1885 foi a vez da Austrália. Pelos fins do século passado e princípios deste os Passionistas se estabeleceram na França, na Polônia, na Alemanha, na Áustria, na Espanha e em Portugal. Dos Estados Unidos passaram para o México, o Ja­pão e as Filipinas. Na Argentina surgiu uma província passionista e os missionários estão trabalhando em quase todos os países da América do Sul. Também desenvolvem Missões apostólicas na Indonésia, na Nova Guiné e na África.

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Em 1911 os Passionista abriram uma fundação no Brasil, que se espalhou rapidamente, desenvolvendo-se notavelmente em Missões, Retiros e paróquias, constituindo-se logo em província. Presentemente ela exerce suas ati­vidades no estado de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e no Rio de Ja­neiro. Dois de seus membros foram investidos da autoridade episcopal, D. Geraldo Pellanda, em Ponta Grossa, e D. Estanislau Van Mellis, em Goiás, o qual governa uma prelazia confiada aos Passionistas. Também há missionários passionista em Minas Gerais, Espirito Santo e Bahia, com projeto de futuras pro­víncias.
Há também três mosteiros de Monjas que observam a mesma Regra redigida por São Paulo da Cruz. A primeira fundação data de 1936.
Em 1919, três Irmãs Passionistas, que professam a mesma espiritualidade de São Paulo da Cruz, com voto de propagar a Paixão de Cristo, vieram da Itália e, em breve, o Instituto se difundiu, e hoje trabalham em diversos Estados, formando duas províncias e uma Vice-Província, ocupadas nos mais variados trabalhos apostólicos, com numerosos membros.
Começa a difundir-se também o Insti­tuto Secular das Missionárias Passionista recentemente aprovada pela Igreja.
Quanto à obra das vocações, Os seminários estão em prosperidade, com esperanças promissoras de, em breve, contarmos com numerosos missionários formados no espirito de São Paulo da Cruz, pregando a Cristo Crucificado, e aos quais se poderão aplicar as palavras que se dirigem ao Santo Funda­dor: “Ó caçador de almas! Pregoeiro do Evangelho! Hauriste a sabedoria nas Chagas de Jesus Crucificado, nos trabalhos foste reconfortado no Sangue Divino, reconduziste os povos à penitência, pregando a Paixão do Senhor! Recebe a merecida coroa das mãos de Cristo!" (Nota do tradutor).


SAO PAULO DA CRUZ, APÓSTOLO DE JESUS CRUCIFICADO

Suscitou Deus, em todos os tempos, ho­mens que empenharam toda sua capacidade criadora em torno de uma causa sublime, con­duzidos por um pensamento superior. São Paulo da Cruz foi um desses privilegiados, o Fundador do Instituto Passionista.
A grande inspiração, a única força moto­ra que lhe teceu e configurou a fisionomia, foi o lema: Pregar ao mundo Jesus Crucificado.
Há vinte séculos, outro homem predesti­nado e eleito por Deus, fez gravitar sua tra­balhosa e conturbada existência em torno do mesmo ideal; foi São Paulo Apóstolo, o qual declarou: "Tomei a resolução de não saber, entre vós, outra coisa a não ser Jesus Cristo e Jesus Cristo Crucificado!" (1Cor 2,2).
Esta idéia inspiradora foi a única razão de ser de São Paulo da Cruz. E ela não deri­vou de reflexões premeditadas, mas foi, pura e simplesmente, um carisma recebido de Deus e a que o Santo se sentiu obrigado a corres­ponder, como de fato correspondeu, consa­grando a ele a sua vida toda inteira.


O HOMEM EM FACE AO SOFRIMENTO

Em sua existência o homem se defronta continuamente com o sofrimento. Por este entendemos toda espécie de dor, física o moral.
Pelo natural instinto de sobrevivência, homem procura evitar e superar a dor. Graças aos progressos da Medicina, muito se tem feito no sentido de minorar a dor e elimina lhe as causas. A tecnologia substituiu, ei grande parte, o homem pela maquina reduzindo ao mínimo o trabalho mental e especialmente o trabalho braçal. Isto corresponde ordem do Criador: "... enchei a terra e submetei-a" (Gen 1,28).
Contudo, se bem repararmos no mundo de hoje, vemos que cada homem é uma taça trasbordante de sofrimentos que ele há suportar e superar. Em verdade, muito sofrimento ha que tem sua causa na maldade, injustiça, na cobiça e no egoísmo. Este, porém, causado pelas paixões desenfreadas, é uma contínua acusação contra o homem que tudo há de fazer para evitar o pecado. "F aquilo que alguém peca, será punido" (Sab 11,16).
Há, contudo, um sofrimento que não provém da culpa, e esse, especialmente, quando inevitável, é de difícil tolerância. Não queremos embrenhar-nos em problemas teológicos, mas simplesmente assinalar sob qual aspecto Paulo da Cruz contemplava a Paixão de Cristo e por que critério via o sofrimento inevitável. Talvez consigamos compreender outra razão teológico- existencial para melhor suportar a dor pessoal.


NOTA PRELIMINAR

Decorreram duzentos anos desde a morte de São Paulo da Cruz. Como poderíamos conseguir uma imagem autêntica de seu in­terior?
Paulo da Cruz não foi professor de Teolo­gia nem legou a posteridade tratados teológicos ou científicos. Foi diretor de almas, missionário e fundador de Instituto; um homem de ação.
Antes de tudo, porém, foi homem de ora­ção, mística, de um profundo conhecimento dos mistérios da nossa Fé. "Um especialista do mundo interior", assim lhe chamavam mui­tos contemporâneos. Era incontável o núme­ro dos que o consultavam e o queriam por seu diretor espiritual.
Sua vida transcorreu em intensa atividade apostólica. Pregou cerca de 200 missões, 70 retiros espirituais além dos trabalhos ine­rentes à fundação do Instituto e ereção de 12 conventos, exercendo sempre o cargo de Su­perior Geral. Tudo isto o obrigava a deslo­car-se de contínuo. Por isso exerceu a direção espiritual mais por correspondência; escrevia de vinte a trinta cartas por semana, como ele mesmo declarou. Delas nos restam uma parte apenas, e, mesmo assim, perfazem o numero de 2.500, que se conservam no arquivo da sede geral, em Roma. Temos ainda meditações e sermões escritos por ele próprio, mas não se manifesta neles claramente o seu pensamento central.
Se quisermos conhecer-lhe o pensamento, devemos, antes de tudo, estudar suas cartas, tendo em vista que a maior parte são de direção espiritual, e, por isso, tratam de assuntos particular que respeitam aos interessados, e outras respondem a determinadas perguntas.


A PAIXÃO DE CRISTO, MANIFESTAÇÃO DO AMOR DE DEUS

Pelo especial carisma que São Paulo da Cruz recebeu de Deus, é natural que suas cartas venham impregnadas de expressões reflexões que tem por objeto a Paixão d Cristo. Como já referimos, nosso Santo era um místico, o que quer dizer, um homem intima comunhão com Deus, que vivia da experiência de Deus, e esta elevação era acompanhada de graças especiais de efeitos extraordinários.
A fisionomia que de Deus fazia o Santo em suas contemplações, era de um Deus de amor que entregou seu Filho à morte para salvação dos homens. Na Sagrada Escritura especialmente no Novo Testamento, lemos que Deus-Filho se fez homem por amor e por amor o Pai celeste nô-lo entregou, consoante as palavras do próprio Cristo: "De tal modo amou Deus o mundo que entregou seu Filho Unigênito" (Jo 3,16).
Cristo imolado é para São Paulo da Cri a expressão mais eloqüente do amor de Dei pelos homens. A uma religiosa escreveu: “A Paixão de Cristo é pura obra de amor."
Vejamos a comparação de que se serve o Santo para explicar esta verdade fundamental: “Deus é um mar de amor. Dele se deriva outro: O mar da Paixão de Jesus Cristo. E os dois estão de tal modo unidos que formam um só."
Sendo o sacrifício de si mesmo a maior expressão de amor, bem aparece o amor infi­nito com que Deus nos amou, dando por nós a vida, consoante as palavras do Salvador: "Não há maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos" (Jo 15,13).
Se São Paulo da Cruz tinha a visão de um Deus justo que castiga, ele o considerava so­bretudo amante e misericordioso, um Deus-Amor.
Quando tenta descrever o amor de Deus concretizado na Paixão de Cristo, faltam-lhe as palavras; recorre, então, a expressões como estas: "A Paixão de Cristo é o milagre dos milagres do Amor de Deus". Ou: "A Paixão de Cristo é a obra mais assombrosa do Amor de Deus".
Se quiser alguém ser todo abrasado desse fogo do Amor divino, sê-lo-á facilmente, imer­gindo no mar dos sofrimentos de Jesus Cruci­ficado, pois o mar da Paixão de Cristo leva ao mar do Amor, ou, melhor, são dois mares num só.
Este é o pensamento e a doutrina de São Paulo da Cruz, claramente expressa em carta dirigida à Irmã Querubina Bresciani: "Deixe­-se penetrar inteiramente das dores e amargu­ras de Jesus Crucificado e logo sentirá irrom­per dentro de si a chama do Amor de Deus, e, estando nele inteiramente abrasada, imergirá no abismo da Divindade".


A PAIXÃO DE CRISTO E O PECADO

No decorrer da história do Cristianismo muito se falou e muito se escreveu em busca de uma resposta racional e teológica ao por­quê da Paixão de Cristo. A que mais satisfez à Teologia e à piedade popular do Ocidente, foi a chamada "doutrina satisfatória" de San­to Anselmo de Cantuária (1033-1109).
Segundo ele, o Filho de Deus devia fazer-se homem e morrer na Cruz para, ele mesmo, dar a Deus satisfação pela injustiça cometida pelo homem que se rebelou contra o Criador.
A visão justificante de Santo Anselmo é uma visão unilateral e só responde de modo imperfeito às diversas passagens do Novo Testamento. Poderíamos endossar as pala­vras do Prof. Ratzinger: "O sistema do direito divino- humano (justiça), perfeitamente lógico em Santo Anselmo, destrói as outras perspec­tivas e, com sua lógica, poderia colocar a ima­gem de Deus numa luz terrível".
São Paulo da Cruz em suas cartas, medi­tações e prédicas fala reiteradamente do pe­cado relacionando-o com a Paixão de Cristo.
Em suma, na prática, em sua atitude pas­toral, Paulo da Cruz indicava a todos o verda­deiro caminho que leva a Deus: a fuga do pe­cado. E o melhor meio de fugir ao pecado é a consideração do Amor infinito de Deus concretizado na Paixão e Morte de Cristo.
A Mons. Garagni, membro da Cúria Ro­mana, teve oportunidade de escrever: "E fora de dúvida, é fato comprovado que o meio mais eficaz para converter as almas mais em­pedernidas, é a pregação da Paixão de Cristo."
São Paulo da Cruz o confirma com sua experiência pastoral. Em todas as numerosas missões por ele pregadas, constatou conver­sões tão extraordinárias que foram matéria de muitos depoimentos nos processos de canonização.
Freqüentemente, falando do pecado cole­tivo como individual, o insere na Paixão de Cristo e com ela o relaciona. E o que pareceria cena descoberta do Santo, não é senão a pura verdade da Fé posta em pratica, consoante com os numerosos passos do Novo Testamen­to em que se declara que Jesus morreu "pelos nossos pecados" (Mc 10,45; 1Cor 15,3). E estas passagens respondem às profecias do servo de Javé, principalmente do profeta Isaías (Is 52,13 a 53,12).
Relacionando, pois, o nosso Santo, a Pai­xão de Cristo com o pecado pessoal do ho­mem, está em plena concordância com a ver­dade expressa na Teologia bíblica.
E, no contexto geral de seus escritos, apa­rece que a causa primordial da Paixão de Jesus, não é tanto o pecado do homem quanto o Amor divino que a inspirou. O comportamento de São Paulo da Cruz é, portanto, pre­gar a Paixão e Morte de Jesus como sendo a maior demonstração do Amor de Deus, des­pertando assim nos homens horror ao pecado para levá-los à conversão e à prática do bem.
Afastar os fiéis do pecado pela confissão sacramental era o alvo das missões populares Do século XVIII. Com o maior empenho e por muitos e diversos meios, como sejam, pro­cissões de penitencia, representações e gestos dramáticos do pregador, procurava-se em numerosas prédicas e conferências conduzir os ouvintes à conversão. Aplicou-se, por vezes, exageradamente, o argumento do temor. Ser­mões sobre o Inferno eram o ponto alto das missões.
Com São Paulo da Cruz e os missionários passionistas surgiu novo tema de pregação popular: A meditação sobre a Paixão de Jesus. Na Regra do Instituto se ordena aos missionários que façam, após o grande sermão, uma meditação acerca da Paixão de Cristo. Estas abriam os corações para a confiança, enquan­to as pregações sobre o Inferno incutiam simples temor.
Nas meditações de São Paulo da Cruz que ainda se conservam em manuscritos, originais ou cópias, encontramos diálogos íntimos e conjuratórios com o Senhor padecente. Há nelas muitas referências a respeito do pecado como causa da Paixão de Cristo. Na medita­ção sobre a coroação de espinhos de Jesus, o Santo exclama: "ó meu Bom Deus! Tantas vezes acrescentei novos espinhos em vossa ca­beça, quantas me despojei da veste nupcial da graça, perdendo-a com o maldito pecado! Meu Salvador, perdoai-me por amor do vosso sangue e revesti-me com a veste do vosso santo amor!"
Já vimos que na Sagrada Escritura, em diversos passos, se declara que Jesus morreu "pelos nossos pecados". Por isso a morte de Jesus, na piedade cristã popular, é direta­mente relacionada com o pecado do homem. O Apóstolo São Paulo, escrevendo aos he­breus, declara que a apostasia eqüivale a uma nova crucificação de Jesus (Heb 6,5-6).
Teologicamente, poder-se-iam levantar dúvidas em torno dessas considerações que di­zem respeito aos pecados pessoais e à Paixão de Cristo. Contudo, para muitos é motivo de sincera conversão o confrontarem-se com o Cristo pregado no lenho da Cruz. Aludimos aqui tão-somente ao fato acontecido com San­ta Teresa de Ávila. Para ela, como nos dei­xou escrito, a vista de uma imagem do "Ecce Homo!" foi a causa que decidiu sua conversão.


A PAIXÃO DE CRISTO E O SOFRIMENTO

Os que recorriam a São Paulo da Cruz em busca de orientação, de ordinário lhe relata­vam seus sofrimentos físicos ou morais.
É por isso que, em suas cartas trata, com freqüência, do sofrimento, e não admira se esse guia de almas, nesses casos, dirige seu olhar para o Homem - Deus que sofre em silêncio.
Devemos ter presente que o Santo fala rei­teradas vezes de sua convivência pessoal com Cristo; a devoção à Paixão do Senhor, embora fundamental e central, não é o todo de sua mística.
No Diário Espiritual que o Santo escre­vera por ordem do Bispo D. Gattinara, duran­te seu retiro de quarenta dias, lemos esta fra­se que foi para ele um programa: "Desejo só uma coisa: Ser crucificado com Jesus!" Semelhante expressão a encontramos no Apóstolo São Paulo, o qual, pela sua íntima união Com Cristo, exclama: "Estou crucificado com Cristo, de tal modo que não sou eu que vivo, mas Cristo é que vive em mim." (Gal 2,19-20).
A verdadeira base da mística de São Pau­lo da Cruz com respeito à Paixão de Cristo, é uma Fé inabalável na bondade, na misericór­dia e na providência de Deus. Essa Fé não vacila em meio dos maiores sofrimentos cor­porais e espirituais tão freqüentes em sua lon­ga e atribulada existência. Ele considera o sofrimento, especialmente o inevitável e que não provém de culpa, uma disposição amorosa da providência divina. Em suas cartas depara­mos muitas passagens em que aconselha a aceitação e a conformidade. A religiosa Irmã Maria de Jesus apresenta entre as suas três regras fundamentais da vida espiritual, a se­guinte: "Aceite todo o seu sofrimento físico e espiritual como vindo diretamente da mão amorosa de Deus, com inalterável paciência ~ conformidade. Mantenha-se em pé, à sombra da cruz, no seu sofrimento e abandone-se in­teiramente à providência de Deus."
Alguém pergunta: Como pode ser su­perado o sofrimento humano à luz da Fé? Respondemos que ha' dois comportamentos fundamentais:
No primeiro, o sofrimento inevitável permitido por Deus, embora o homem com seu natural entendimento não lhe atine a causa, é simplesmente aceito.
No segundo, o sofrimento e suportado em união com Cristo padecente. E de suma im­portância a união pessoal do homem com Cris­to para dar ao sofrimento valor sobrenatural. Com um teólogo de nossos dias podemos afir­mar: "Tudo quanto ha' de sofrimentos, humilhações, desprezos, doenças e morte próprios do homem que no cristão se traduzem em "carregar a cruz", não são mais obra sua, dei­xam de ser seu próprio sofrimento."
O mais alto grau da superação da dor foi atingido por Paulo da Cruz que, purificado por inúmeras tribulações internas e externas, experimentava paz e alegria no sofrimento.
Durante 14 anos o Santo manteve corres­pondência com Inês Grazzi, de Orbetello. Den­tre as muitas cartas a ela dirigidas se conser­vam 160. Em uma delas o Santo exclama:" Oh! como é preciosa aquela dor, aquela an­gústia! São alegrias com que o divino Esposo presenteia amorosamente a alma fiel, tornan­do-a participante de sua Paixão. Conserve-se tranqüila e em paz!"
A religiosa Irmã Colomba Gandolfi o Santo escreve acerca do sofrimento como sen­do um tesouro, e, em outra carta a ela dirigida, recomenda: “... eu lhe peço, faça todo o possível para ocultar o seu tesouro. Com­preende de que tesouro falo, o precioso tesou­ro do sofrimento. Sofra em silêncio!"
Na Sagrada Escritura encontramos o porquê se há de considerar o sofrimento como sendo fonte de alegria. São os apóstolos São Paulo estas palavras aos colossenses: “Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne por seu corpo que é a Igreja" (Col 1,24).
E nos Atos dos Apóstolos: "Eles saíram da sala do Grande Conselho alegrando-se por terem sido dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus" (At 5,41).
Poderia alguém notar que se trata aqui de sofrimento apostólico, que se deriva da prega­ção da palavra de Deus. Porém, em São Mar­cos, "carregar a cruz após de Cristo" é consi­derado fundamental na vida cristã, e este "car­regar a cruz" se entende no sentido ético- moral, que supõe a livre escolha e que implica a renúncia de outras opções (cf. Mc 8,34).
Nesta visão do sofrimento São Paulo da Cruz esta ao corrente de longa tradição. Os místicos medievais, Eckehart, Taulero e Suso haviam endossado o mesmo critério. Sabemos que nosso Santo lia muito as obras de João Taulero.
Um tal amor ao sofrimento não seria pa­radoxo? Não impediria o progresso? Não teria ressaibo de fatalismo conformista?
Devemos frisar que São Paulo da Cruz não glorifica o sofrimento como tal, antes, empenha-se em evita-lo e afasta-lo. É de admirar a atenção e ternura que dispensa aos sofredores, a fim de aligeirar-lhes as penas e o zelo com que ordena o tratamento médico aos religiosos enfermos. Se, não obstante, o sofrimento persiste, seja físico ou moral, en­tão o considera enviado por Deus e meio ex­celente de santificação.
Não havemos de confundir este sofrimen­to com aquele que é tolerado como sendo uma acusação e tomado como castigo dos pecados cometidos. No passado houve muito exagero nisto.
A religião cristã não é religião de sofredores. O sofrimento não foi jamais meta e sim caminho para a ressurreição, para as eternas alegrias. Esta visão do sofrimento, que nos é dada pela Escritura e Tradição, nos aluda a eliminar os falsos conceitos. Em suma, e impossível eximir-se do sofrimento e por isso há de ser suportado, pois, o homem. por quanto robusto física e espiritualmente, cedo ou tarde há de cair em seus braços.
À luz da Fé, portanto, desaparece o absur­do e nos é dada a razão do padecer.
Com freqüência, São Paulo da Cruz, atra­vessado de dores, solta gemidos angustiosos, como transparece em suas cartas. Apesar desse aspecto humano, ele vence, porque vive o sentido positivo e sobrenatural do sofrimen­to. Em conclusão, ele só se torna compreensível e aceitável quando há uma Fé inabalável na bondosa providência de Deus e uma vivência pessoal com Cristo.


A MEDITAÇÃO DA PAIXÃO DE CRISTO MEIO DE SANTIFICAÇÃO

Nota-se, em nossos dias, crescente movi­mento para a meditação. O homem de hoje vive em agitação febril. A sociedade bulhen­ta não lhe dá repouso. É constantemente soli­citado na fabrica, no escritório e em casa, vivendo em continua tensão. Nota-se por isso incontida ânsia de repouso interior e cons­ciente. Esta a causa por que o exercício da me­ditação do Extremo Oriente esta muito em voga. Freqüentemente é praticada para con­servar a saúde e para adquirir maior e mais duradoura capacidade de ação.
A meditação tem profunda influência na pratica da virtude e para tomar sempre mais íntima a relação do homem com Deus. Ensi­naram e encareceram isto os grandes mestres da vida espiritual, como Santa Teresa de Ávila, São João da Cruz e São Francisco de Sales.
Também na doutrina de São Paulo da Cruz a meditação ocupa o primeiro lugar. O que há, porém, de peculiar em sua doutrina é que propõe como objeto central da medita­ção o Homem- Deus humilhado, blasfemado e abandonado. Com insistência concita seus dirigidos a voltarem o olhar para a salvífica Paixão de Jesus Cristo. A Tomás Fossi, pai de família, com quem manteve correspondên­cia durante 40 anos, e que após o falecimento da esposa, ingressou no Instituto Passionista, escreve: "Não se deve negligenciar, de maneira alguma, a lembrança da Paixão de Jesus Cris­to, bem como a imitação de suas virtudes. Por este meio chega-se não somente a um profun­do conhecimento e a um alto grau de oração, mas a lembrança da Paixão de Cristo é a porta pela qual entra a alma em intima união com Deus por intensa vida interior e elevada con­templação."
A meta do homem é amar abnegadamente a Deus e ao próximo. O grande impedimento e o amor desordenado de si mesmo. Só com a persistente pratica da ascese pode-se supe­rar o egoísmo e adquirir virtudes sólidas e verdadeiras. São Paulo da Cruz vê encarna­das em Cristo padecente as virtudes cristãs em grau supremo. Em sua linguagem rica de figuras procura traduzir os mistérios de Deus, e escreve a uma religiosa: "Empenhe-se toda em pescar nesse grande mar da Paixão Sa­grada do Senhor as pérolas de todas as virtu­des de Jesus Cristo. Essa pesca divina no grande mar da Paixão do Filho de Deus puri­fica a alma sem afastá-la da solidão e do si­lêncio interior. Tudo o Senhor lhe ensinará, se for humilde e morta para todas as coisas."
Nessa doutrina espiritual ressaltam dois princípios fundamentais: No primeiro insiste na oração interior e na meditação para imer­gir nas profundezas dos mistérios de Deus e escutar mais ao vivo as inspirações do divino citar o amor quotidiano, que se traduz no es­forço pessoal em praticar a virtude, sem pres­cindir da graça de Deus. Contemplação e ação, oração e trabalho - adquirir as virtudes e realizar-se misticamente - eis os princípios basilares do pensar e agir do Santo.
Não há motivo para surpresa, se ele, nas mais variadas ocupações da vida, exigisse, de todos a meditação quotidiana de Cristo pade­cente. Ela conduz a alma a' vida interior resultando maior união com Deus, capacitan­do-a de agir com maior perfeição, ou seja, com amor abnegado.
A benfeitora Jerônima Ercolani que, di­versas vezes, receberá o Santo e os missioná­rios em sua casa, escreve: "Cuide a senhora que, em seu lar reine sempre o temor de Deus, continue a meditação da Paixão de Cristo. Gostaria que a fizesse em comum. Se isto executar, pode-me acreditar, atrairá uma gran­de bênção de Deus sobre suas necessidades espirituais e temporais".
São Paulo da Cruz recomenda com especial ardor a meditação do Senhor padecente àqueles que, por seu ofício, andam, em extremo, ocupados. Para estes é mais necessária, pois, além de lhes servir de repouso físico e moral, impede-lhes esquecer o fim principal da vida. Ao vigário geral de Alexandria recomenda: "Em meio a seus muitos trabalhos, é necessário vá haurir forças aos pés do Amor Crucificado, na meditação de seus sofrimentos; ali pode a alma, qual diligente abelha, sorver inefável doçura".
Reconhece ele na meditação do divino Crucificado o meio mais eficaz para crescer no amor a Deus e ao próximo, e, grifando as textuais palavras do Santo, que costumava re­petir com freqüência: A meditação da Paixão de Jesus é o meio mais eficaz para se chegar à santidade.


PERENIDADE DA OBRA DE SÃO PAULO DA CRUZ

São Paulo da Cruz recebeu de Deus o carisma e a vocação de conduzir os homens a Cristo Crucificado. Esse ideal foi nele a força motora que o impeliu para a fundação do Instituto dos Passionistas. Por esta obra, devia, mesmo após sua morte, espalhar por todo o mundo as chamas do amor de Deus manifestado na Paixão do Salvador. Não considerava a fundação do Instituto como trabalho seu, mas como "a grande obra que a Onipotência do Senhor plantara na vinha da Igreja”.
Com que ardor desejasse o Santo pregar em todo mundo a Jesus Crucificado deduz-se de que todo religioso passionista, além dos três votos evangélicos, havia de emitir um quarto, pelo qual se obrigava a "difundir en­tre os fiéis a lembrança da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo". Na Regra onde isto se ordena, dão-se diretivas aos missioná­rios de como devem cumprir o voto nas mis­sões, nos retiros e no confessionário, e outras normas são dadas aos que não se ocupam da pregação, aconselhando, enfim, aproveitem to­das as ocasiões em qualquer tempo e lugar para lembrar a todos os muitos sofrimentos que nosso Deus e Salvador padeceu na sua Paixão dolorosa.
Nesta convergência para o mistério da Cruz consiste a fisionomia própria do Insti­tuto Passionista.
Poderia alguém levantar questão, em torno das vantagens de cada Instituto conser­var sua especialidade própria com determinado campo de ação na Igreja de Deus. A isto responde o Segundo Concilio Vaticano: "É vantajoso para a Igreja que tenham todos os Institutos sua peculiar fisionomia e função. Por conseguinte, interpretem-se e observem-se fielmente o espírito e as finalidades próprias dos Fundadores, como também as sãs tradi­ções, pois que tudo isso constitui o patrimô­nio de cada Instituto» (PC, 2b).
Como o Fundador dos Passionistas visse a posição e a tarefa que dentro da Igreja to­cava a seu Instituto, vai declarado em carta que escreveu aos religiosos do convento de Vetralla, em 1751: "O espírito de Deus fun­dou nosso Instituto para que, em todas as partes do mundo, haja santos operários na vinha do Senhor que, como trombetas sonoras, acordem as almas adormecidas no sono do pecado por meio da pregação da Paixão do Homem-Deus, Jesus Cristo, a fim de que se arrependam e se convertam, e, pela meditação constante dos sofrimentos do divino Cru­cificado, se inflamem sempre mais no amor de Deus".
Agora respondemos à pergunta: Por que é que tanto se há falado da Paixão de Cristo sem mencionar sequer a Ressurreição?
Sem dúvida, São Paulo da Cruz devia ater-se à Teologia do tempo. Ele não era teó­logo e só ultimamente a Teologia cientifica rios trouxe este enriquecimento. A visão teológica da relação entre a Cruz e Ressurreição constituindo o mistério pascal é um recente aspecto da espiritualidade pós- conciliar?
Contudo, havendo de notar que São Paulo da Cruz não considerava os sofrimentos, as contrariedades e a cruz como meta, mas como um meio ou caminho que leva a Deus. Temos EL respeito a bela expressão do Santo, o qual, referindo a de Santa Teresa, lhe acrescenta outra que vem ao nosso caso. A Irmã Colomba Gertrudes Gandolfi, religiosa, escreve: “Creio que a Cruz de nosso amado Jesus criou raízes profundas em seu coração e que agora poderá cantar: Sofrer e não morrer! ou melhor: Nem sofrer, nem morrer! mas somente minha transformação em Deus!".

Concluamos.

Que significado tem a vida e a obra de São Paulo da Cruz no presente e no futuro?
Eis a resposta: A extraordinária dedicação deste Santo à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo legou à Igreja e à Teologia novo estimulo para maiores estudos do mistério a Cruz e da Ressurreição. Além disso, a vida a doutrina de São Paulo da Cruz oferecem a todos os que padecemos, valiosos ensinamentos de como havemos de suportar e valorizar sofrimento.


TRECHOS SELETOS DOS ESCRITOS DE SAO PAULO DA CRUZ

DO DIÁRIO ESPIRITUAL

Preâmbulo.

Como vimos no decurso desta breve bio­grafia, São Paulo da Cruz passou 40 dias, de 23 de novembro de 1720 a 1º de janeiro do ano seguinte, num pequeno quarto anexo à sacristia da igreja de Castelazzo.
Por ordem de seu diretor espiritual, o Bispo D. Gattinara, o Santo escreveu diariamente suas experiências místicas havidas naqueles dias de penitencia e oração. Compôs destarte o seu “Diário Espiritual".
Esse “Diário Espiritual" e as cartas do Santo constituem notáveis documentos de alta espiritualidade. Renomeados escritores sacros atestam que seu autor, São Paulo da Cruz, se revela neles "um dos mais eminentes mestres da vida espiritual do século XVIII", e também “o maior místico da Itália do século XVIII".
Vai aqui transladado o texto dos últimos oito dias do "Diário Espiritual", em que res­salta o elevado grau de contemplação que o Santo atingira.

25 de dezembro de 1720 [3].
No dia do Santíssimo Natal, bem de ma­drugada, multo emocionado e contrito fiz a Santa Confissão com particular ternura e con­trição e com grande conhecimento de mim mesmo. Em seguida, na Santa Comunhão, es­tive seco como um tronco e assim fiquei quase o dia todo.

26. Sexta-feira, dia de Santo Estêvão Már­tir.
Encontrei-me em grande elevação de es­pírito, máxime na Santa Comunhão. Desejei ir, para morrer mártir, aonde se nega o adorabilissimo Mistério do Santíssimo Sacra­mento; este desejo me é dado pela infinita Bondade, de algum tempo para cá, mas hoje o tive de modo particular: desejei a conversão dos hereges, especialmente da Inglaterra com seus reinos vizinhos, e rezei particularmente para isto na Santa Comunhão. Tive também particular compreensão da infinita Misericór­dia, fazendo-me conhecer o nosso Sumo Bem com que infinito Amor castiga aqui para nos poupar aos tormentos eternos, e porque sua Infinita Majestade sabe o lugar que a sua In­finita Justiça preparou para justíssimo e bem merecido castigo do pecado, por isto sua In­finita Misericórdia se inclina à compaixão com castigos amorosos, avisando por meio deles às suas criaturas pecadoras para que se emendem, a fim de fugirem à eterna punição e o sirvam em primeiro lugar; tudo isto com­preendo em um átimo, com muitas lágrimas e com altíssima suavidade.

27. Dia de São João Apóstolo e Evange­lista.
Fui levado pela Infinita Bondade a um grande repouso e suavidade, principalmente na Santa Comunhão, sentindo, com inteligên­cia infusa e com altíssimas consolações do espirito um certo repouso da alma, misturado com os sofrimentos do Redentor nos quais a alma se compraz em um misto de amor e dor. Sobre isto não sei fazer-me compreensível porque não se pode explicar; eu Lhe dizia, en­quanto servia à Santa Missa e via com os olhos corporais o meu Sacramentado Jesus, mandasse os serafins para que me ferissem com setas de amor, e disto vêm aqueles ar­roubos que saem da alma como jatos de fogo, que a Infinita Bondade concede ao coração. Dizia-lhe ainda que me deixasse matar a sede do Santíssimo Amor, permitindo-me beber na fonte infinita do seu Sacratíssimo Coração, e tal me foi dado na Santa Comunhão.

28. Dia dos Santos Inocentes.
Pela manhã eu estava árido, com dor de cabeça, e assim passei algum tempo até que chegou a hora desejada da Santa Comunhão, depois da qual fui levado pela Infinita Bondade a um grandissimo recolhimento, acompanhado de amo­rosos e afetuosos colóquios com o amado Esposo. Em seguida veio-me à lembrança sua fuga para o Egito com tanto incômodo e sofrimento e também a dor de Maria Santíssima e de São José, mais, em particular, a dor e o amor de Maria Santíssima se misturavam em minha pobre alma com grandes lagrimas e suavidade. De tudo isto a alma tem visão in­fusa e altíssima inteligência, tudo ao mesmo tempo em volta de um só mistério, e tudo en­tende num momento sem formas corpóreas ou imaginarias, mas Deus lhe infunde como obra de sua Infinita Caridade e Misericórdia, ao mesmo tempo que a alma tudo entende de modo altíssimo e ela se compraz ou se com­padece segundo os mistérios, e de ordinário vem junto, misturada, uma santa complacên­cia. A tarde tive particular contrição de meus grandes pecados, defeitos e inumeráveis trans­gressões, conhecendo ser eu um abismo de ingratidão. Durante o dia tive também parti­cular conhecimento de mim mesmo; ao meu Divino Salvador só sei dizer de mim que não me posso chamar outra coisa senão um mila­gre das suas infinitas misericórdias. Seja de todos louvado e glorificado o Seu Santíssimo Nome! Amém.

29. Domingo.
Durante a oração da noite passei em paz e um pouco distraído; tive par­ticular recolhimento nas ofertas da Santíssima Vida, Morte e Paixão como também nas súplicas, especialmente pelos hereges, e tive particular moção de orar pela conversão da Inglaterra, máxime porque queria fosse arvorado o estandarte de Santa Fé, para que se dilatassem a devoção, a reverência, os obséquios, o amor e as freqüentes adorações ao Santíssimo Sacramento, inefável mistério da Santíssima Caridade de Deus, e assim de mo­do particular seja glorificado o seu Santíssi­mo Nome. Não cessa em mim o desejo de morrer mártir, especialmente pelo Santíssi­mo Sacramento, e isto onde não se crê. Na Santa Comunhão estive quase insensível e, além disso, sobrevieram algumas distrações. A tarde, porém, passei recolhido e me senti movido a reparar as irreverências sobretudo as cometidas na igreja, sentindo-me impelido a repara-las com correções, como com a graça de Deus venho fazendo. Dá-me vontade de dizer ao meu querido Jesus que já, já podemos fugir da igreja, e que os Anjos podem transportar o Santíssimo Sacramento em lu­gar onde não seja assim profanado com irreverências e graves ofensas; digo-lhe me dê a graça de chorar lágrimas de sangue, como tanto desejo.

30. segunda-feira.
Antes da Santa Comu­nhão estive recolhido e mais particularmente depois que me levou às lágrimas. O resto do dia estive com as sobreditas distrações, prin­cipalmente com pensamentos de coisas futu­ras. O inimigo me apresentava que deviam sobrevir graves tribulações em casa. Passei também por particular desolação. Seja em tudo feita a vontade do nosso caro Deus! Amém.

31. Dia de São Silvestre.
Estive árido, distraído, mas com paz interior, e molestado por pensamentos acima referidos. Na Santa Comunhão, em paz, porém, quase insensível e duro nos afetos. À tarde estive particularmente recolhido.

Quarta-feira, 1º de janeiro de 1721.
Fui altissimamente elevado pela infinita caridade do nosso dulcíssimo Deus a um grande reco­lhimento com abundantes lagrimas, máxime após a Santa Comunhão, na qual senti sensíveis afetos de santo amor, parecendo-me es­tar liqüefeito em Deus. Contava-lhe com gran­de confiança, sem esforço e com grande doçura, ao meu Jesus, as minhas misérias, e lhe dizia dos escrúpulos que posso ter em torno do voto que fiz, de privar o meu corpo de todos os prazeres supérfluos. Então Lhe di­zia, e Ele o sabe, que, quando estou com fome, sinto prazer até em comer pão seco, e com isto me sentia suavemente tranqüilo, pois isto é necessário, e então sentia o coração desfei­to, e prorrompia em terníssimas lágrimas misturadas com grandes afetos de amor. Ti­nha também conhecimento da alma unida em vínculo de amor à Santíssima Humanidade e ao mesmo tempo liqüefeita e elevada ao co­nhecimento altíssimo e sensível da Divinda­de, porque sendo Jesus Deus e Homem, não pode a alma estar unida com amor Santíssi­mo a Santíssima Humanidade sem ser ao mes­mo tempo liqüefeita e elevada ao conheci­mento altíssimo e sensível da Divindade. Esta altíssima e estupenda maravilha não se pode narrar, nem explicar, nem mesmo por quem a experimenta, e é impossível porque a alma compreende o motivo pelo qual Deus o quer, e a alma prova essas dulcíssimas e sobrealtís­simas maravilhas, porque (Deus) imenso lhas faz entender, quanto a descrevê-las é de todo impossível, pois são coisas que se provam e se entendem em um átimo, ao menos assim parece à alma, pois, se durassem mil anos, a meu ver, haviam de parecer um momento, porque a alma está no Bem Infinito e não deseja outra coisa senão a sua glória, o seu amor, e que seja temido e amado de todos. Recebi outras graças muito particulares, precipuamente ao meditar no mistério Santíssi­mo da Santíssima Circuncisão, e também ao servir à Santa Missa tão alto lume da grande caridade de Deus para comigo, da minha mi­séria, ingratidão e de toda a minha vida, que nem mesmo me ocorria erguer os olhos para ver a imagem de Maria Santíssima, e sempre com grandes lagrimas mistas de suavidade, máxime ao ver o meu Sacramentado Esposo Jesus!"


DAS CARTAS

Missionário popular e fundador do Insti­tuto dos Passionistas, foi também São Paulo da Cruz mestre da vida espiritual, diretor de almas. Muitos acudiam a ele para pedir con­selhos e orientação em assuntos de espírito, e a todos atendia com desvelo, especialmente por correspondência. Embora, de ordinário, recomendasse a seus dirigidos atirassem ao fogo suas cartas, após lidas, temos mais de 2.500 religiosamente conservadas.
Elas revelam a doutrina do nosso Santo, além de conterem inesgotável manancial de espiritualidade.
Damos aqui algumas delas para deliciar­mos o leitor com o saborear a doçura inefável que promana dessa alma que vivia em intima e constante comunhão com Deus.


A D. Inês Grazzi [4]. - Orbetello.

Jesus, caminho, verdade e vida, esteja sempre em nossos corações!

Minha filha em Jesus Crucificado:

Recebi, ontem à tarde, sua carta que, em verdade, foi para mim motivo de agradecer a Deus mais do que nunca. Deus seja louvado por seus dons! Amém.
Fez muito bem em fazer o exame con­forme lhe escrevi. Gostaria o fizesse mais vezes, pois é necessário estarmos em santo temor para que não se apegue às coisas terre­nas o nosso coração do qual Deus é cioso.
A preocupação dos verdadeiros servos do Altíssimo foi, antes de tudo, de permanecerem de Deus, submissos a to­das as criaturas e despojados de todo afeto terreno. E viviam sempre temerosos de fal­tarem nisto.
Agora, minha filha, preste atenção: aque­la paz, aquele achar-se abismada em Deus ao fazer o exame de consciência, é bom sinal, mas, porque não nos podemos fiar de nossos sentimentos, é bom olharmos com freqüência o nosso coração a fim de investigar se deseja algo além de Deus. Se o seu coração tiver outros desejos, hão de ser meios para mais se unir a Ele. Entretanto, para andar com mais segurança, convém os faça morrer a todos em Deus. Siga este conselho e perma­neça tranqüila. Deixe o demônio provocar, à vontade, seus estrídulos ruídos. A senhora sabe aonde se abrigar. A inexpugnável fortaleza esta preparada. Creio que me entende. Falo da chaga dulcíssima do lado de Jesus, na qual se encontra toda força, toda doçura, todo conforto, numa palavra, todo bem. Não se maravilhe se, depois das tentações houver furiosas tempestades; a alma sói fruir maior paz e maior união com Deus sentindo-se por Ele mais atraída. Assim costuma proceder nosso único e sumo Bem com respeito a seus humildes soldados após a batalha. O que há de fazer a alma, além de render-lhe graças, é aniquilar-se sempre mais, reconhecendo que a vitória é devida somente a Deus.
Tenha por certo, por verdade absoluta, que a senhora é um puro nada e, além de ser nada, por si, não seria capaz de fazer algo, senão engendrar um grande mal que é o pe­cado. Por isso, todo bem é devido a Deus. Só a Ele demos honra e glória, ofertando-lhe o incenso de seus próprios dons. Oh! se al­guém compreendesse a fundo esta verdade! Oh! quanto temeria! Oh! como se aniquilaria! Oh! como se abismaria em Deus, lançando-se a Ele com confiança filial, porquanto só Ele é o verdadeiro Tudo! Despojado assim o nada de todas as coisas criadas será trans­formado no incriado, no imenso - Deus.
Sinto saber que continua enferma, porém me alegro que Jesus, médico divino e esposo amantíssimo, a conforta na alma e no corpo.
Faça todo possível para não deixar de abraçá-lo no grande Sacramento do Amor e dê plena liberdade ao coração para que se desafogue em afetos para com o amor infi­nito; deixe-o também suspirar por aquela glória que, pelos infinitos méritos de Jesus, lhe está preparada. Oh! aqui sim, que é preciso franquear-lhe a estrada para que deseje e torne a desejar aquele esplêndido Paraíso, onde viveremos em eterna festa, louvando sem cessar o nosso Sumo Bem, sem temor de jamais perdê-lo. Se deve permanecer acamada, repouse em Deus e perca-se inteiramente naquele mar imenso de Caridade; permaneça, porém, em seu leito como sobre a cruz do Divino Esposo. Já vejo que os muros estão se desmoronando, e, em breve, a pobre pri­sioneira, liberta, desprenderá o vôo em demanda da Pátria celeste que o dulcíssimo Jesus lhe conquistou com seu Sangue preciso­. Mas é preciso notar que, ao sair da pri­são, há de estar revestida com a veste da cor de cinza, tendo nela escrito: Eu sou um puro nada; sou abismo de maldade. Só vós, meu Deus, sois o que sois e só de vós espero todo bem pelos méritos do Sangue do meu Jesus.
Saindo, pois, do cárcere com essa veste cinzenta com a inscrição: Nada, Deus que é Tudo, ordena que, despojada a alma da cinza, seja revestida com o traje de rainha, tinto no Sangue do Cordeiro Imaculado, e recamado com as virtudes d2vinas. E assim, a alma, ri­camente trajada, será introduzida no palácio real para se assentar eternamente à mesa do divino Banquete e cantar para sempre: Santo, Santo, só vós sois Santo, só vós, o Senhor, só vós, o Altíssimo, ó Jesus Cristo!
Ao considerar tudo isto que lhe escrevo. deixe rejubilar seu coração e dê-lhe toda li­berdade de aspirar àquela glória para logo em seguida retornar ao seu nada: um olhar para as alturas e outro para as profundezas, para a cinza.
Continue a orar por mim e pelo convento como tem feito. Deixe que a alma siga as moções divinas. Já o disse e torno a repeti­-lo: é preciso orar em conformidade com o Espírito Santo.
Ri-se o demônio de nós; quando oramos, se enfurece. Ele faz muito maiores diabruras do que sugerir-lhe simplesmente que nós dois andamos enganados. Oh! como está irada contra nós essa besta vil! Confiemos em Deus e venceremos.
Estou sofrivelmente bem. Passei alguns dias com ameaça de cair enfermo. Isto quanto ao corpo.
Minha pobre alma está como de costume com maior aparato de cruzes, e a todas elas abraço com a graça de nosso Senhor Jesus Cristo.
O maior desejo é de me consumir todo em fazer a divina vontade. A isto só aspiro, mas, por ser tão imperfeito, ainda não obtive esta graça. Por certo, a obterei quando Deus quiser e quando menos a espero. Para isto rezo e peço orações.
Deus quer que sejamos submissos a toda criatura como nos recomendou pelo apóstolo São Paulo.
Se porventura alguém dos nossos for até ai, não manifeste desejo que eu vá, nem fale nisso, permitindo-se simplesmente alguma pergunta como é de praxe. Quando puder, escreva-me se a doença continua ou piora e sobretudo me diga, em resumo, como se vai na oração, na Comunhão, no costumado exa­me, etc., que eu entendo. Sentindo-se abatida, não o faça, e também se encontrar dificuldade.
Entregue os bilhetes à Madalena, a quem mando este. Se o mal se agravar de súbito, com perigo, etc., mande-me chamar, etc., es­pero que isto não aconteça, pois é preciso carregar por mais um pouco de tempo a cruz, permanecendo ainda encarcerada.
Jesus a abençoe! Amém.
Convento da Apresentação, 17.8.1739
Seu Servo em Cristo, Paulo da Cruz.


D. Lúcia Burlini [5]. Pianzano.

JESUS.

Minha filha em Jesus Crucificado:

Tem celebrado uma boa festa em honra de Nossa Senhora da Assunção? Pode dizer que fez uma boa festa se progrediu no conhecimento do seu nada, se se convenceu de que, se Deus a deixasse por um instante, precipitar-se-ia no abismo de todo mal, tornando-se pior que um ímpio.
A senhora é um milagre da divina Miseri­córdia e deve dar freqüentes graças à terra que a sustém e não se abre para tragá-la em suas entranhas. Ó Lúcia! abençoada filha! Se Deus houvera dado a um malfeitor uma das menores graças entre as muitas que lhe concedeu, não se teria ele tornado um grande santo? E assim é. Portanto, abisme-se mais em seu nada, ingrata criatura, e seja doravan­te mais fiel ao Divino Esposo! Ouço que me pergunta: Padre, que hei de fazer? Agora lho digo.
Em primeiro lugar, humilhe-se e concen­tre-se em seu nada, em nada poder, nada pos­suir, nada saber, mas, com alta e filial con­fiança no Senhor. Perca-se toda no abismo da infinita caridade de Deus que é todo fogo de Amor: Deus noster ignis consumens est. O que quer isto dizer lho dirá o Padre João Antônio. E aí, nessa imensa fornalha, deixe consumir todas suas imperfeições a fim de renascer para nova vida divina, vida de amor, vida santa. E este divino renascimento se opera no Verbo Divino, Cristo Senhor Nosso.
Tenha em mente que esta divina transformação se produz no mais intimo do espí­rito, no mais recôndito compartimento. Des­tarte, morta misticamente para tudo o que não é Deus, com altíssima abstração de toda criatura, entre, a sós, na sagrada solidão in­terior, no sagrado deserto. Nele se ingressa pela fé e pelo santo amor, aniquilando-se, com total desprendimento de todo prazer sensível, por santo que seja, para o qual não deve olhar e, muito menos, nele deter-se. Todas as vezes que se fazem estas introversões ou retiros interiores, em sacro silêncio de Fé e de Amor, a alma renasce a cada momento para uma vida nova de caridade no Verbo divino que sempre escuta, ama... Oh! quanto teria que dizer!
Por demais me tenho prolongado e não sei se me entendeu. Mas que digo? Sua Divi­na Majestade permitiu que assim lhe escrevesse, porque haveria de me entender; e eu conheço a sua conduta.
Ó Lúcia! quanto é devedora a Deus! Oh! como deve ser humilde, caridosa para com todos, mansa, paciente, de todos ter bom con­ceito com exceção de si! Oh! como deve amar o silêncio, estar retirada, fugir ao ócio; mas trabalhar e calar-se e estar interiormente com Deus como acima foi dito. Todo trabalho de que lhe falei, se faz na solidão interior, no rei­no de Deus, que é a própria alma. E aí mais se aprende calando no silêncio da Fé que falando ... E se em tal solidão renasceu para a vida deifica, que quer dizer vida santa, o Divino Esposo a conduzira para pescar no mar de sua Sacratíssima Paixão. Pesque, pois, filha, e deixe-se compenetrar inteiramente do amor e do sofrimento, e faca suas as dores de Jesus.
Neste mar imenso da Sacratíssima Paixão do Senhor há de pescar as pérolas de to­das as virtudes de Jesus Cristo. Esta pesca divina no grande mar das penas do Filho de Deus se faz continuando no silêncio interior e na solidão. Jesus lhe ensinara tudo, se for muito humilde e morta para as criaturas...
Nesse mar da Sacratíssima Paixão, con­jure a Deus por mim e pelo Instituto... Diga abertamente ao Pai celeste, mas com pro­fundo respeito, que o mundo vive esquecido da Paixão de Jesus que é o milagre dos mila­gres do amor de Deus, a fim de que mande os seus servos deste Instituto para fazerem soar a trombeta da palavra divina com o in­tuito de despertar o mundo que esta ador­mecido. Sobretudo, peça-lhe que se aplaque a meu respeito, porquanto sou eu a causa por que retarda esta maravilhosa graça. O Espí­rito Santo lhe ensinara tudo.
O que lhe disse, guarde-o para si. Jesus a abençoe e a faça santa conforme eu o dese­jo! Amém.

Santo Ângelo, 17 de agosto de 1751

Tudo quanto lhe confio ao coração há de guardar segredo e tratar disso só com Deus. O Padre João Antônio faça sua parte no santo Altar, que é o que mais vale. Contrariamente havemos de nos entender.
Seu indigníssimo Servo, Paulo da Cruz


A Irma Maria Madalena Anselmi.

Mosteiro de Santa Ágata - Spoleto.

Rev. da Madre:

A devoção e a paz que a leitura de minha carta produziu em sua alma são devidas à eficácia da divina palavra que ia nela. Em­bora escrita por um pecador como eu, não obstante produziu seus admiráveis efeitos. Portanto, "só a Deus honra e glória! Amém”.
Espero que a senhora com a ajuda da divina graça corresponda às misericórdias que o nosso bom Deus lhe dispensa, preparando-se para receber outras maiores. Permaneça no seio de Deus em completa solidão interior, isto é, no templo vivo do Altíssimo que é sua própria alma, adorando o Soberano Senhor em espírito e verdade. Este é aquele deserto e aquela solidão à qual o divino Esposo convida suas almas diletas para lhes falar ao coração palavras de vida eterna. Neste sagrado de­serto interior se progride mais com o silêncio da Fé e do Amor que com o muito falar. O amor acendrado é de pouco falar porque a alma amante anda inteiramente perdida na­quele mar imenso de caridade. Advirta, po­rém, que, sendo a Paixão Santíssima de Jesus Cristo pura obra do amor infinito de Deus, perdendo-se a alma no mar do santo Amor, não pode deixar de imergir também no mar da Sacratíssima Paixão, e na qual ela faz a grande pescaria das pérolas e pedras precio­sas que são as virtudes do Esposo divino pa­decente. Com elas a alma se atavia a fim de se tornar vitima para ser sacrificada no fogo do santo Amor.
Passei escrevendo a manhã toda, não obs­tante fiz questão de lhe responder, porque no meu humilde parecer, o nosso bom Deus quer que a senhora siga pelo caminho que vai acima declarado. Por isso, seja fiel, perma­neça no seu nada, segregada das cria­turas, desprendida de tudo o que é terreno, em pobreza de espírito.
Procure tão-somente Deus, sua honra e glória, morta para as criaturas, caridosa, hu­milde, afável para com todos e sempre des­pojada de tudo. Não olhe nem para o sofri­mento, nem para o prazer; repouse em Deus com amor puro, sem se apegar às consola­ções espirituais, fazendo delas oferta a quem lhas dá.
Conserve-se sempre no seu nada e assim se disporá a receber maiores graças ... Sua oração deve ser ininterrupta, isto é, deve es­tar continuamente em solidão interior, reves­tida de Jesus Cristo, com doce e amorosa atenção voltada para Sua Divina Majestade [6], sem representações imaginárias, mas em pura fé e santo amor. E quando nos afazeres for molestada por distrações, faça atos de interiorizarão em Deus, quero dizer, doces reavi­vamentos de fé, mesmo sem palavras e abis­me-se mais em Deus. Toda vez que isto fizer com sincero aniquilamento de si mesma em Deus, renascerá para nova vida de amor no Verbo divino, Jesus Cristo.
Estou com pressa, pois é tarde. Aos 30 do corrente começa a Quaresma em prepara­ção à festa da Assunção de Maria Santíssima. Faça naquele dia o que o Senhor lhe inspirar.
Reze muito por mim e pelo nosso pobre Instituto e por tudo o mais que já sabe. Jesus a faça muito santa como eu o desejo! Amém.
Poderá escrever-me por ocasião da festa da Assunção.
Convento de Santo Ângelo, 21-6-1755
Seu indigníssimo Servo, Paulo da Cruz


Ao Sr. Antônio Coccia Torri.

Caríssimo Antônio, filho e irmão diletís­simo em Cristo!

Recebi sua carta pelo último correio, data­da de 22 de dezembro passado, na qual notei que agora começa a ser verdadeiramente dis­cípulo de Jesus Cristo. Disto fiquei ciente pe­los sofrimentos por que esta passando com o beneplácito da divina Misericórdia, os quais deve aceitar com muitas ações de graças, co­mo vindos daquela mão divina e amorosa que por este modo, quer purificar-lhe a alma para prepara-lo e dispô-lo a se unir intimamente com o Sumo Bem, em perfeita caridade. So­fra, pois, em silêncio e permaneça recolhido no interior de sua alma. Descanse no sagrado silêncio da fé e do santo amor no Seio divino queimando todo sofrimento, aridez e desola­ções no fogo de seu santo amor, com elevada resignação ao divino Beneplácito. Saiba que sua vida espiritual vai agora melhor do que antes.
Ore muito por mim e pelo nosso Institu­to, máxime por um assunto muito importan­te de que se esta tratando. Se for resolvido, como se espera, será para maior glória de Deus, proveito espiritual das almas e criara melhores condições para que o Instituto se dilate por toda parte.
As boas-festas lhas tenho pedido a Deus no sagrado Altar, a fim de que o Menino Jesus o faça renascer para uma vida santa e divina. Aqui termino encerrando sua pessoa, sua es­posa e seus amados filhos na chaga adorável do lado de Jesus.
No verão passado, estive gravemente en­fermo, com perigo de morte, e há mais de sete meses que passo na cela e, com dificuldade, celebro a santa Missa. Rogue à sua Di­vina Majestade que, se é do seu agrado, me conceda saúde a fim de empreender longa viagem para sua glória.

Vetralla, Convento de Santo Ângelo, 10-1-1768
Seu dedicado e indigno Servo, Paulo da Cruz.


À Madre Maria Madalena da Cruz. - Nepi.

I.M.I.[7]

Muito Rev. da Madre a Cristo consagrada:

Em resposta à sua carta digo-lhe: esteja tranqüila sob a obediência; não deixe de receber a santa Comunhão. Quaisquer tentações por que passe a alma, em nada a prejudica, desde que não consinta com plena advertência e livre vontade. Se anda de todo insensível com respeito a Deus, assim na oração como na Comunhão e durante o dia, não importa, contanto que não deixe por isso a oração, a Comunhão e outras praticas de piedade sem justa causa. Obedeça em tudo ao confessor e à madre superiora.
Quando vai à oração, imagine que se por­ta com Deus como os soldados que montam guarda junto ao palácio do rei. E enquanto ele, lá dentro, esta bem alegre, os guardas estão ia fora, postados, ao frio e ao calor, ao vento e à chuva. Diga ao Senhor: Por vosso amor aqui permaneço. Seja feita a vossa von­tade. Viva em paz com plena confiança em seu Esposo. Jesus quer agora que a senhora lhe faca companhia no Horto, no Presépio e no Calvário. Seja perseverante. Mais tarde a libertará e, depois da tempestade, vira' a bo­nança em seu espírito, e então Jesus ha' de enriquece-la com muitas graças.
Não deixo de rezar pela senhora, a fim de que Deus lhe conceda multiplicadas ale­grias.
Deixando-a no seio Imaculado de Maria Santíssima e no Presépio, aos pés de Jesus Menino, me subscrevo
Servo dedicado, Paulo da Cruz.

Roma, Convento dos Santos João e Paulo, 24 de dezembro de 1774


BIBIOGRAFIA

1) "Lettere di San Paolo della Croce", Padre Ama­deo, CP. Roma, 1924, 4 vol.

2) “Processos de Beatificação e Canonização de São Paulo da Cruz", Padre Caetano, CP. Roma, 1969 e 1975, 2 vol.

3) "Regras e Constituições da Congregação da Santissima Cruz e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo", edição critica, Padre P. Giorgini, CP. Roma, 1958.

4) "São Paulo da Cruz", Padre E. Zoffoli, CP. "História Critica". Roma, 1982, 1965, 1968, 3 vol.

5) "Anais da Congregação" (De 1720 a 1795), Pa­dre Caetano, CP. Roma, 1967.

6) "Diário Espiritual de São Paulo da Cruz", Padre E. Zoffoli, CP. Roma, 1964.

7) "Acta Congregationis".

8) "Grande Missionário Popular, São Paulo da Cruz", Padre Valentin Lehnerd, Innsbruck, 1926.

9) "Construção da Pessoa", Philipp Serch. Munique, 1951.

10) "Introdução ao Cristianismo", Joseph Ratzinger. Munique, 1958.

11) "Mártir e Servo de Deus", Eduard Lonse. Götingen, 1963.

12) Prédicas e Meditações Manuscritas de São Pau­lo da Cruz", Arquivo Geral da Congregação, Roma.

13) “Reflexões Sobre a Pregação de São Paulo da Cruz", Ernest Henau, CP. in "Revista de Ascética e Mística", 1968.

14) "Teologia da Paixão na Jdade Média", Albert Hauser. Salesburgo, 1947.

15) "Perfectae Caritatis".

16) "Diário Espiritual de São Paulo da Cruz", J. de Guibert, in "Revista de Ascética e Mística", 1925.

17) "A Vontade de Deus nas cartas de São Paulo da Cruz", M. Vilier, SJ, in "Revista de Ascética e Mística", 1951.

18) "Obras de Santa Teresa de Avila".

19) "'Tratado sobre o Amor de Deus", São Francisco de Sales.

20) "Vita dei Servo di Dio Paolo della Croce", São Vicente Maria Strambi CP, Roma, 1786.



[1] O sinal distintivo que usou São Paulo da Cruz e legou aos Passionistas que o trazem ao peito do lado esquerdo, é um coração encimado de uma cruz em branco com a seguinte Inscrição: JESU XPI PASSIO. "A Paixão de Jesus Cristo".

[2] A Basílica dos santos João e Paulo, doada especialmente a São Paulo da Cruz por Clemente XlV, e onde o Santo morou um ano e nove meses antes da sua morte, esta edificada sobre a antiga casa dos dois mártires.
De 1887 a 1910 os Passionistas Padre Germano e Irmão Lamberto, mediante escavações, puse­ram a descoberto a antiga casa com a sepultura dos dois Santos mártires. Essas escavações estão franqueadas ao publico.

[3] Os fenômenos místicos somente são entendidos por quem passou por eles; não se descrevem. E é por isso que transcrevemos estas passagens do “Diário Espiritual”, procurando manter o mesmo colorido do original, ao-pé-da-letra.

[4] Inês Grazzi pertencia a rica e nobre família de Orbetello. Aos 12 anos ficou órfã de mãe. Na juventude, entregou-se as vaidade do mundo. A família Grazzi participou de uma missão que São Paulo da Cruz pregou perto de Orbetello. Num dos sermões de Paulo, Inês se converteu e começou a viver um teor de vida monástica. O Santo tomou sua direção espiritual até a morte de Inês, que foi sepultada no convento passio­nista da Apresentação, no Monte Argentário. São Paulo da Cruz nutria grata amizade para com a família Grazzi, que tinha por uma das maiores benfeitoras do Instituto. Hoje se conservam 150 cartas do Santo dirigidas a Inês. Entre elas h~ uma poesia da lavra do Santo e a ela dedicada, que tem por titulo "O Guia da Alma".
Releia o leitor a carta a ela dirigida, que vai neste opúsculo, para melhor focalizar a profunda amizade espiritual que unia estas duas almas e o alto grau de santidade a que Paulo elevara essa fiel dirigida.

[5] Lúcia Burlini gozou da direção espiritual do Santo por mais de 40 anos. Lamentavelmente, só quatro cartas se conservam entre as várias centenas que o Santo lhe teria endereçado. Mesmo assim, elas revelam as elevações místicas dessa piedosa discípula. São Paulo da Cruz se correspondeu também com o irmão de Lúcia, Padre João Antônio, por dezenas de anos. Nos processos de beatificação, Lúcia depôs: "Co­nheci bem de perto o Servo de Deus, Paulo da Cruz, e tive a felicidade de ser por ele dirigida durante muitos anos. Até o fim de sua vida. dirigiu meus passos pelo caminho da santida­de.

[6] Em suas cartas, São Paulo da Cruz emprega, freqüentemente, falando de Deus, S. D. M. (Sua Divina Majestade). Essa respeitosa maneira de se referir a Deus, foi usada também por Santa Teresa de Ávila.

[7] I. M. I. é abreviação latina de Jesus, Maria, José.
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